Breve História da Militância Anarquista Negra no Movimento Operário Brasileiro (1906-1930)

Por Carlos Ferreira de Araujo Júnior

Embora poucas páginas tenham sido dedicadas aos militantes libertários negros no Brasil, estes estiveram na linha da frente de importantes acontecimentos e conquistas do movimento operário brasileiro.

A cronologia começaria, sem dúvida, pelo professor, filósofo e jornalista Antônio Pedro de Figueiredo (1814-1859). Figueiredo fundou a revista O Progresso (1846-1848), que contava com contributos de outros escritores que, tal como Figueiredo, foram influenciados pelo socialismo “utópico” francês.

No Recife, na década de 1840, existia uma pequena colónia de imigrantes franceses, entre eles o engenheiro socialista Louis Vauthier, que trouxe vários livros de autores socialistas como Saint-Simon, Owen e Fourier, para além do já autoproclamado anarquista Proudhon. Em 1849, Figueiredo condenou a escravatura e a grande propriedade de terras em Pernambuco, baseando-se na máxima de Proudhon: “destruir o despotismo corporizado na grande propriedade de terras”. Devido às suas ideias socialistas, Figueiredo sofreu constantes insultos racistas por parte dos seus opositores.

Os primeiros anarquistas negros começaram a aparecer frequentemente em jornais e periódicos durante as décadas de 1910 e 1920. Nessa época, o comunismo libertário de Kropotkin, o sindicalismo revolucionário de Pouget, a pedagogia de Ferrer e, em certa medida, as ideias de Tolstoi eram as principais influências sobre os libertários, as associações e os movimentos grevistas. Fotografias do Primeiro Congresso Operário Brasileiro (1906), realizado no Rio de Janeiro, mostram que grande parte dos representantes sindicalistas presentes eram negros.

Entre 1917 e 1920, grandes greves gerais com forte influência anarquista eclodiram por todo o Brasil. As capitais regionais e os centros industriais do país — Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belém, Salvador e Recife — tornaram-se epicentros de movimentos que levaram milhares de trabalhadores às ruas exigindo desde o horário de trabalho de oito horas e aumentos salariais até ao fim da propriedade privada e à abolição do Estado.

Recordamos que numerosos anarquistas negros participaram nestas greves e foram presos, torturados ou mortos: João da Costa Pimenta, Armando Gomes, Hermogéneo Silva, Custódio Paes, Eustáquio Marinho, Justiniano Silva, Pedro Lessa, Olímpio Santana, João Lopes, Minervino Oliveira, Sinval Borges, Cândido Costa, José Argolo, José Leandro, Sebastião Silva, Tomaz Derliz Borges, Laudelina Silva, Domingos Passos, José da Silva Gama, Abílio José, José Domiense, Luiz França, Djalma e Cristiano Fettermann.

Cândido Costa foi um dos anarquistas mais ativos do Rio de Janeiro durante a década de 1910. As suas palestras anticlericais e libertárias atraíram centenas de trabalhadores. Participou do Primeiro (1906) e do Segundo Congresso Operário (1913). Durante um discurso para os trabalhadores, Costa foi brutalmente espancado pela polícia e por pessoas que participavam numa procissão religiosa que passava perto do local do protesto.

O marmorista negro Minervino Oliveira, natural da Baía, mas ativo no Rio de Janeiro, foi um dos principais representantes dos marmoristas. Participou em diversos protestos laborais e associações libertárias. Laudelina Silva, costureira, tornou-se um símbolo na luta contra o racismo, a exploração laboral e a violência sexual. Foi presa enquanto protestava em frente à casa do seu patrão contra a sua própria demissão e a das suas colegas. Antes de chamar a polícia, o patrão declarou que não queria “aquela preta preguiçosa” em frente à sua casa. Laudelina e as outras trabalhadoras não se deixaram intimidar e continuaram o protesto até serem conduzidas à esquadra.

Na década de 1910, em Porto Alegre, a capital mais meridional do Brasil, os irmãos Fettermann foram anarquistas anticlericais, educadores, sindicalistas e ilegalistas activos durante vários anos. Cristiano Fettermann publicou artigos no jornal O Exemplo. Os editores do jornal fundaram uma escola noturna para trabalhadores com o mesmo nome. O jornal publicou ainda textos do socialista negro Tácito PiresDjalma Fettermann trabalhou como jornalista e lecionou francês e português na Escola Moderna de Porto Alegre. Participou ativamente na Greve de 1917 em Porto Alegre e, segundo alguns historiadores, fabricou bombas que foram lançadas contra a polícia.

Em Belém do Pará, no norte do Brasil, os irmãos negros Almerinda Farias Gama e José da Silva Gama destacaram-se como figuras importantes do anarcossindicalismo. José Gama foi um influente representante sindical dos tipógrafos. Publicou também artigos em jornais operários de Belém, como O Semeador. Gama opôs-se ao preconceito racial e à expulsão de estrangeiros do Brasil. Ao lado de João Plácido de Albuquerque, representou associações operárias no Terceiro Congresso Operário (1920) no Rio de Janeiro. Almerinda Gama iniciou a sua carreira política como libertária, dando palestras a tipógrafos na sua própria casa.

Na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, Armando Gomes era um ferroviário ativo tanto como anarquista como membro de associações negras, como a Liga Humanitária de Homens de Cor, que lutava contra o preconceito e defendia os direitos dos negros. Em Maceió, Olympio Santana surgiu como líder anarquista. Pertencia a coletivos anarquistas da cidade e publicava textos em jornais operários. Luiz França foi outro militante anarquista negro nascido em Maceió, mas ativo no Rio de Janeiro. No Recife, o estivador libertário Pedro Lessa foi morto pela polícia durante uma greve portuária. Em Salvador, o Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Outros Ofícios (SPCDC) foi fundado em 1919 por trabalhadores negros comprometidos com o sindicalismo revolucionário. O sindicato introduziu várias táticas inéditas na região, como sabotagem, boicotes e greve geral.

Durante a década de 1920, o anarquismo começou a perder terreno nas associações operárias, enquanto o comunismo marxista avançava através de uma campanha agressiva nos sindicatos. Muitos anarquistas tornaram-se comunistas, sobretudo após a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) (1922). Para além da concorrência do PCB, o anarquismo sofreu repressão por parte das autoridades estatais. Durante o governo autoritário do presidente Arthur Bernardes (1922-1926), muitos opositores foram enviados para a notória colónia penal de Clevelândia, em Oiapoque, no extremo norte do Brasil. Das 1.500 pessoas para lá enviadas, metade morreu em menos de dois anos. Muitos anarquistas foram deportados para este “inferno verde”, como ficou conhecido. O ilegalista negro uruguaio Thomas Derliz Borche e Domingos Passos, um comunista libertário negro ativo no Rio de Janeiro, conseguiram escapar.

Domingos Passos, neto de antepassados ​​indígenas e negros, foi sem dúvida o anarquista brasileiro mais perseguido e uma das figuras mais ativas no movimento operário durante a década de 1920. Enquanto muitos anarquistas desertaram para as fileiras do PCB, o pedreiro e carpinteiro Domingos Passos defendeu fervorosamente o comunismo libertário em comícios, greves e associações operárias. Publicou também artigos sobre o comunismo libertário em jornais operários como Spartacus, Voz do Trabalhador e A Plebe. Participou em grupos teatrais tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. Em 1925, Passos foi preso e enviado para Clevelândia, de onde fugiu atravessando a floresta amazónica até chegar à Guiana Francesa, depois ao Pará e, finalmente, ao Rio de Janeiro em 1927.

O julgamento do cozinheiro anarquista negro José Leandro, preso em 1921 após uma altercação que resultou na morte de três pessoas — incluindo um polícia — no Rio de Janeiro, mereceu a atenção dos jornais operários de todo o Brasil e países vizinhos. O julgamento decorreu em 1924 e terminou com a absolvição unânime de José Leandro.

Os anarquistas negros também escreviam e organizavam-se através de periódicos e jornais operários. O jornal anticlerical A Lanterna contava entre os seus editores o poeta anarquista mestiço Raimundo Reis, também conhecido por Beato da Silva. Em Porto Alegre, socialistas, sindicalistas e libertários negros escreviam, editavam e publicavam o jornal negro O Exemplo. Cristiano Fettermann, por exemplo, publicava artigos sobre educação. O jornal O Semeador foi publicado por Bruno de Menezes e Silva Gama, anarquistas negros de Belém do Pará. Pertenciam também a grupos de propaganda anarquista e lecionavam nas escolas modernas da cidade. Em Salvador, o jornal Germinal foi fundado em 1919 pelo advogado socialista mestiço Agripino Nazareth, enquanto a Voz do Trabalhador foi fundada pelo anarco-sindicalista negro Eutachio Marinho.

Na literatura, muitos escritores brasileiros — libertários ou não — foram influenciados por autores anarquistas como Émile Zola, Guerra Junqueiro e Liev Tolstói. Raimundo Reis e Adalberto Viana foram poetas anarquistas negros amplamente publicados em periódicos libertários entre 1910 e 1920. Pereira da Silva foi um poeta influenciado por Tolstoi. Gilka Machado (1893-1980) foi uma escritora famosa no seu tempo, especialmente entre os trabalhadores e os libertários. A sua poesia era de natureza erótica. Bruno de Menezes, para além de jornalista, foi também poeta, dedicado às questões sociais e à cultura afro-brasileira.

Lima Barreto foi um jornalista e escritor negro libertário nascido no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. As suas crónicas permanecem como uma das maiores fontes para o estudo da Primeira República Brasileira. Neles, denunciavam o racismo, o militarismo e a hipocrisia da elite brasileira. Barreto chegou a estar internado em instituições psiquiátricas, onde escreveu O Cemitério dos Vivos, uma obra autobiográfica.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil.

agência de notícias anarquistas-ana

Flores de azaleia
No quintal da vizinha
Um ar de bom dia.

Jéssica Jacinto dos Santos

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