Sinval Borges, um anarquista de Petrópolis!

Por Carlos Ferreira de Araujo Junior

Sinval Borges de Oliveira foi um operário tecelão e sapateiro, anarquista ativo no Rio de Janeiro e em Petrópolis nas décadas de 1910 e 1920. Por muitos anos, Borges foi sapateiro e sofreu as consequências da profissão, mas também os orgulhos de ser operário. O antigo militante revelou que os sapateiros adoeciam por conta da desconfortável ergonomia a que tinham que obedecer. Além disso, estes operários tinham que andar diversos quilômetros por dia até achar clientes e um ponto favorável.

Junto a outros libertários, Sinval Borges colaborou com o periódico A Aurora, da cidade de Petrópolis-RJ. Também fundou e escreveu para o jornal A Verdade, junto a Marques da Costa, Florentino de Carvalho e Joaquim Gomes de Carvalho.

Apesar da dura vida operária, Sinval Borges foi um ativo militante anarquista. Ele participou de inúmeros comícios, periódicos, greves e assembleias libertárias. Em 1919, Sinval Borges aparece como secretário da União dos Operários em Fábricas de Tecidos em reunião operária com trabalhadores da Fábrica Cometa[1]. Em julho do mesmo ano, Sinval Borges foi um dos organizadores do comício dos operários da Fábrica Cometa, ocorrido em Petrópolis. O comício reuniu cerca de 5 mil pessoas na Praça Dom Pedro, no centro da cidade serrana. Os operários protestavam contra as violências e arbitrariedades de juízes, patrões e policiais contra os trabalhadores[2]. Em setembro, Sinval Borges proferiu palestra na sede da mesma União dos Operários contra os chamados “urubus de batina”, padres e clérigos[3].

Em 1920, foi eleito Secretário-Geral da União dos Operários das Fábricas em Tecidos[4]. Neste mesmo ano, Sinval Borges participou do Terceiro Congresso Operário Brasileiro (1920) no Rio de Janeiro. Na ocasião ele representou os tecelões. No seu discurso, Sinval Borges defendeu a criação de escolas operárias de orientação libertária[5]. Em 1921, Sinval Borges esteve a frente da Greve da Manufatura Progresso, em Petrópolis, por causa de salários atrasados[6]. Neste mesmo ano, Sinval e outros anarquistas foram presos por participarem de um comício contra a condenação de dois anarquistas nos Estados Unidos[7]. Em 1923, Sinval Borges e outros anarquistas foram presos por se oporem a deportação de Pedro Maurini.

Em 1928, Sinval Borges foi preso enquanto discursava no Cemitério São Francisco Xavier durante o sepultamento do anarquista Antônio Dominguez, assassinado por militantes comunistas durante uma assembleia operária na Sede da Associação dos Gráficos no Rio de Janeiro, no dia 14 de fevereiro de 1928. No ano de 1970, o velho anarquista foi entrevistado pelo historiador anarquista português Edgar Rodrigues. Não foram encontradas informações sobre a data e o local do falecimento de Sinval Borges.

Autor:

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Bibliografia: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).  BLOG PLUMA NEGRA: https://plumahnegra.blogspot.com/

REFERÊNCIAS

KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente: biografias de negros e pardos libertários no Brasil (1889-1930). Editora Monstro dos Mares, 2026.

RODRIGUES, Edgar. Os Companheiros. Vol. 05. Editora Insular. Rio de Janeiro. 1994.

SAMIS, Alexandre. Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil. senado federal. 2024

PERIÓDICO

A RAZÃO. N. 819, 926, 988, 1218, 1463, 1496.

O PAIZ. N. 13526. Data: 01/11/1921

[1] A RAZÃO. N.819. Data: 12/03/1919

[2] A RAZÃO. N.926. Data: 06/07/1919

[3] A RAZÃO. N.988. Data: 07/09/1919

[4] A RAZÃO. N.1463. Data: 29/12/1920

[5] A RAZÃO. N.1218. Data: 26/04/1920

[6] A RAZÃO. N.1496. Data: 31/01/1921

[7] O PAIZ. N. 13526. Data: 01/11/1921

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Água corrente,
Leva pedras e canções,
O que se perdeu.

Liberto Herrera

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