
Por Coordenação Nacional FOB
A mobilização pelo fim da escala 6×1 e os limites da estratégia institucional das centrais e partidos
No dia 30 de junho, CUT, CTB, UGT, Força Sindical, CSB, NCST, Intersindical, Pública, além de PSOL, VAT, PT, PCdoB, PSTU e a Unidade Popular, convocaram atos em diversas capitais para pressionar o Senado a votar a PEC 221/2019, que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada para 40 horas semanais. Os atos aconteceram em Natal, São Paulo, Rio Curitiba e outras cidades, com concentrações no inicio do dia ou fim da tarde, faixas, discursos e caminhadas até supermercados e pontos simbólicos. Não se pode dizer que nada foi feito. Mas é preciso perguntar: o que foi feito é proporcional ao tamanho da tarefa?
A resposta, do ponto de vista do sindicalismo revolucionário, é não. E a distância entre o que essas organizações fizeram e o que a situação exige revela, mais uma vez, os limites estruturais de uma estratégia sindical e política que trocou a força própria da classe trabalhadora pela mendicância parlamentar: esse é o sindicalismo propositivo socialdemocrata.
Uma pauta subordinada ao calendário do Senado
Do início ao fim, a campanha das centrais e dos partidos que a apoiaram foi desenhada em função de um único personagem: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Toda a arquitetura da mobilização; os atos de rua, a plataforma digital “Na Pressão”, a coleta de assinaturas, a campanha “O Brasil Quer Mais Tempo”; foi construída não para paralisar a produção, a circulação e o consumo e obrigar o patronato a recuar, mas para convencer, sensibilizar ou constranger um único homem a colocar um projeto em pauta. É a lógica da súplica travestida de mobilização: mobiliza-se a base para pressionar as instituições, e não para que a base, pela força de seu próprio trabalho suspenso, imponha a pauta.
Essa é a marca de nascença do sindicalismo pelego e da esquerda parlamentar que ainda hoje comanda a CUT, a CTB e a UGT, e que o PSOL e a UP, apesar de discursos mais à esquerda, seguem sem confrontar na prática. A jornada de trabalho não será reduzida porque senadores tiveram boa vontade. Será reduzida, como foi historicamente em todo o mundo, quando o custo de mantê-la for maior do que o custo de aboli-la para quem lucra com ela. E esse custo só se impõe com paralisação real da produção, não com atos de rua às 18h, quando o expediente já terminou.
Ato não é greve
É sintomático que o próprio vocabulário da convocação evite a palavra “greve”. Fala-se em “Dia Nacional de Mobilização”, “Dia Nacional de Luta”, “ato político-cultural”. O que houve, na prática, foi um conjunto de manifestações pós-expediente, sem qualquer paralisação de categorias estratégicas; comércio, transporte, serviços essenciais; que são justamente os setores mais atingidos pela escala 6×1. Trabalhadores de supermercado, de quem a pauta mais deveria vir, apareceram nos atos como manifestantes solidários fora do horário de trabalho, não como grevistas que interromperam a operação das lojas.
Essa distinção não é semântica. É a diferença entre uma classe que pede e uma classe que impõe. Diferença da estratégia institucional parlamentar e do sindicalismo de ação direta.
O papel de PSOL e Unidade Popular
Chama atenção, mas sem surpresas, que partidos que se reivindicam socialistas, como o PSOL, e explicitamente anticapitalistas, como a UP, tenham somado suas siglas a uma convocação sem qualquer ruptura com a lógica de pressão institucional. Nenhum dos dois usou sua inserção nos movimentos sociais e sindicais para colocar na ordem do dia a construção de uma greve geral com data e método definidos. Preferiram somar-se ao mesmo roteiro das centrais pelegas: assinatura de manifesto, ato de rua, cobrança a parlamentares. Isso confirma, mais uma vez, que a esquerda eleitoral, mesmo em sua vertente mais à esquerda, tende a subordinar a ação direta da classe trabalhadora à sua própria inserção institucional, seja no Congresso, seja nas direções sindicais que disputa.
O que a estratégia institucional não pode entregar
A PEC 221 segue travada porque depende do voto de 49 de 81 senadores, em dois turnos, contra a vontade de um patronato organizado que já demonstrou disposição para flexibilizar ainda mais, e não reduzir, a jornada de trabalho. Não existe correlação de forças parlamentar capaz de vencer essa disputa sem que, paralelamente, exista uma ameaça concreta e crescente de paralisação da economia. As direções sindicais que hoje comandam CUT, CTB e UGT sabem disso. Mas construir greve real significa organizar de base, categoria por categoria, disputar a pauta contra o imobilismo de muitos sindicatos filiados, e assumir o risco de confronto direto com patrões e Estado, algo que essas direções, décadas depois de terem trocado a perspectiva de transformação social pela administração de contratos, lobby e participação em várias instâncias estatais, como os mais diversos conselhos, bem como suas bases em universidades, institutos e órgãos públicos preferem a ocupação de cargos e projetos, já não têm mais disposição nem estrutura para fazer.
A alternativa é a organização de base: é preciso avançar na unidade dos setores autônomos e sindicalistas revolucionários.
Do ponto de vista do sindicalismo revolucionário, o problema de 30 de junho não foi a ausência de vontade individual de quem foi às ruas, foi a ausência de um método. Reduzir a jornada de trabalho é uma pauta histórica da classe trabalhadora, e sua conquista, onde ocorreu, nunca veio de cima. Veio de anos de organização de base, comissões de fábrica e de loja, construção de solidariedade horizontal e, no momento decisivo, greves que de fato paralisaram a produção.
Enquanto a esquerda institucional, sindical e partidária insistir em tratar a mobilização como instrumento de pressão sobre o parlamento, e não como construção de poder próprio da classe trabalhadora, seguiremos vendo atos simbólicos se repetirem a cada convocação, sem que a correlação de forças real se altere. A tarefa que fica para quem constrói o sindicalismo de base é clara: organizar nos locais de trabalho, disputar as categorias mais precarizadas pela 6×1; comércio, serviços, delivery; e preparar sem ilusões parlamentares, a única ferramenta que historicamente já derrubou jornadas abusivas: as greves setoriais acumulando para a greve geral.
A FOB e suas organizações federadas e comitês sindicalista revolucionários procurou organizações ações neste dia 30 de junho para mobilizar e impulsionar a luta contra a escala 6 x 1, esmo sabendo das limitações de seu tamanho. Sabemos e temos plena consciência dos limites das nossa ações e que é preciso construir e massificar o sindicalismo revolucionário e a estratégia da ação direta.
Nesse sentido, fazemos um chamado a todos os trabalhadores e trabalhadoras do campo autônomo popular, revolucionário e sindicalista revolucionária para construção unitária de um encontro nacional com objetivo de organização de ações conjunta para construção de luta e das greves.
Fonte: https://lutafob.org/30-de-junho-e-o-limite-da-conciliacao/
agência de notícias anarquistas-ana
pinga torneira
tic tac do relógio
luz com poeira
Carlos Seabra
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.
Enquanto isso no Brasil...