Rebel Riot: anarco-punks budistas?

Rebel Riot, em primeiro lugar, é uma incrível banda anarco-punk de Myanmar. Mas eles não apenas incorporam temas budistas em sua música e ativismo, mas também não hesitam em criticar as maneiras pelas quais os principais líderes e instituições budistas do país têm apoiado a opressão de minorias étnicas, religiosas, sexuais e de gênero e têm apoiado os militares no golpe do ano passado e na repressão à resistência civil. Seu álbum (e música de mesmo nome) “Fuck Religious Rules/Wars” [1] traz críticas pesadas, riffs e batidas contra as instituições religiosas conservadoras da Birmânia, e inclui outros sucessos como “Fuck Fascist Monks“.

Eles recentemente lançaram um cover épico da famosa canção partigiana antifascista Bella Ciao, com letras adicionais que atacam o regime militar e apoiam o movimento revolucionário contra eles. Rebel Riot e a cena punk em Myanmar parecem ser vetores muito eficazes do anarquismo no país, já que blocos de manifestantes em roupas punk e agitando bandeiras anarquistas podem ser vistos em muitas fotos de marchas e tumultos do ano passado. Definitivamente uma banda que vale a pena ouvir tanto pela mensagem quanto pela música. Faríamos bem em outros países reimaginar nossos próprios Budas como anarcopunks e agitadores rebeldes.

Recomendo vivamente o documentário sobre Rebel Riot e a cena punk em Myanmar, “My Buddha is Punk” [2], bem como a sua canção com o mesmo nome [3].

[1] https://therebelriot.bandcamp.com/album/fuck-religious-rules-wars

[2] https://vimeo.com/ondemand/mybuddhaispunk

[3] https://therebelriot.bandcamp.com/track/my-buddha-is-punk

Fonte: https://noselvesnomasters.com/2022/01/04/rebel-riot-buddhist-anarcho-punks/?fbclid=IwAR36PQUeJbFICj79ZJrP-eUcSaA7cMmiPpJoRh_f5cP7jqr-J_vJmrfwpbA

Tradução > Contrafatual

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agência de notícias anarquistas-ana

Traçando os baralhos
confundo na noite o mundo
de alhos com bugalhos.

Luciano Maia

França: o segundo maior vendedor de armas do mundo

BOMBARDEIE MAIS PARA GANHAR MAIS

Isso é um recorde e uma desgraça global. A França é hoje o segundo maior exportador de armas do mundo.

Nosso país está no pódio dos mercadores da morte depois de anos, em terceiro lugar, entre a Rússia e a Grã-Bretanha. Em 2022, aproveitando o aumento das tensões militares globais, a França se torna a segunda no setor de guerra.

Com 27 bilhões de euros em vendas, este é um recorde absoluto. Esta quantia faraónica deve-se, em particular, à venda de 80 aviões de guerra à monarquia religiosa dos Emirados Árabes Unidos. Este país do Golfo é um dos principais produtores de petróleo do mundo. Seu líder, Mohammed Bin Zayed Al-Nahyane, prende jornalistas independentes e transformou o Estado em um Regime policial, com ampla vigilância cibernética e vigilância das cidades por câmeras. Ele foi convidado no verão passado para o Palácio do Eliseu por Macron, que lhe ofereceu a importação de diesel, bem como uma lei para reviver o carvão. Imaginamos que em troca foi negociada a venda de alguns caças Rafales.

27 bilhões de euros em vendas de armas em um ano é 60% a mais que o recorde anterior, 16,9 bilhões de euros em 2015. Este valor também é mais que o dobro de 2021, que foi de 11,7 bilhões de euros.

As exportações de armas da França já haviam dado um salto em 2018. Os principais países receptores naquele ano: Catar, Bélgica e Arábia Saudita. A França também vende armas para o Iêmen, onde o regime está massacrando a população civil, causando uma das maiores crises humanitárias do planeta.

Desde a década de 1950, a França sempre foi um dos cinco maiores vendedores de armas do mundo. Os Ministros das Forças Armadas tornaram-se os VRPs dos grandes traficantes de armas. Eles viajam o mundo de avião para elogiar os méritos das bombas francesas e se mostram na mídia quando voltam de alguma ditadura com grandes cheques nas mãos.

Sébastien Lecornu também está satisfeito com as vendas de “mísseis, fragatas, submarinos, artilharia, helicópteros, radares, satélites de observação”… Para o maior benefício dos fabricantes de armas: Dassault, Thalès EADS ou anteriormente Lagardère. Onde alguns investem seus lucros comprando mídias.

Esta orgia de vendas de armas ocorre em um cenário de guerra crescente, imperialismo agressivo e militarização. Na terça-feira, 27 de junho, Macron anunciou a construção de um novo hospital militar em Marselha para “preparar a França para uma possível guerra de alta intensidade […] para poder acomodar mais soldados que seriam acometidos por ferimentos muito graves”. Uma maneira perturbadora de preparar mentes. Em janeiro, o governo liberou 413 bilhões de euros para o exército. Ao mesmo tempo, é lançado o Serviço Nacional Universal, um grande programa que custa bilhões de euros, para envolver os alunos do ensino médio na ideologia militarista e nacionalista desde tenra idade. Sempre mais dinheiro para a guerra, sempre menos para as necessidades vitais da população.

Os pobres nada têm a ganhar com os conflitos militares dos poderosos e tudo a esperar da paz mundial entre os povos, da abolição dos Estados e das desigualdades sociais.

Fonte: https://contre-attaque.net/2023/07/26/la-france-deuxieme-plus-gros-vendeur-darmes-mondial/

agência de notícias anarquistas-ana

Nuvem vaidosa
Pra se despedir do sol
Se vestiu de rosa.

Setsuko Geni Oyakawa

[Espanha] Lançamento: “La cárcel no castiga el delito. Castiga la pobreza y la rebeldía”, de Pastora González Vieites

Resenha do livro da mãe de Xosé Tarrío.

Pastora nos leva nestas páginas ao inferno da prisão, aos esgotos do Estado pela mão de seu filho Xosé Tarrío, 14 anos preso, 12 anos nos módulos do FIES, a prisão dentro da prisão, o inferno dentro do inferno. Testemunho comovente de uma mãe ingovernável e sua luta incansável para tirar seu filho das garras da prisão.

Aqui ela narra todas as humilhações que seu filho teve de sofrer na carne por ser pobre e se rebelar contra a injustiça, juntamente com tudo o que ela teve de ver, ouvir e suportar de todas as aberrações cometidas contra Tarrío.

Uma guerra desigual que não diminuiu sua energia para manter sua dignidade intacta.

“A prisão foi feita apenas para os pobres. Tudo o que atrapalha a sociedade e toda pessoa rebelde vai parar lá, mas você nunca verá uma pessoa rica lá, talvez por um mês ou dois, e não nas condições em que nossos familiares estão. Não me diga que existe justiça, porque não existe justiça para as pessoas pobres”.

“Não podemos fechar os olhos para toda essa brutalidade. Onde quer que haja injustiça, devemos estar lá para gritar, não devemos ter medo. Temos que seguir lutando”.

Se você é uma pessoa de bom coração, o que Pastora nos diz aqui não o deixará indiferente.

La cárcel no castiga el delito. Castiga la pobreza y la rebeldía.

Pastora González Vieites

Brochura, 64 páginas. 12 cm x 17 cm. 4€.

ISBN: 978-84-09-43878-5

Para obter mais informações sobre o livro ou para adquirir um exemplar:

https://editorialimperdible.com/2023/06/14/nueva-edicion-hazte-con-una-copia-del-libro-la-carcel-no-castiga-el-delito-castiga-la-pobreza-y-la-rebeldia-pastora-gonzalez-vieites/

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Só o Ipê vê, pasmo,
o tremor suado — orgasmo —,
borboleta treme e passa.

Alckmar Luiz dos Santos

[Chile] Solidariedade internacionalista | Presos revolucionários que resistem

  • Jalil Muntaqim já se encontra na rua depois de 5 décadas na prisão [dos EUA]. Representa talvez uma das resistências mais potentes que um ser pode realizar acompanhado de ideias e convicções de luta.

Nos diferentes cárceres do planeta resistem companheiros de diversas tendências revolucionárias que combatem contra o poder capitalista e as classes dominantes, assumindo posições de luta contra o existente que os levaram a purgar anos de prisão nas mais duras condições de castigo e isolamento.

A maldade do poder se manifesta no cotidiano através de regimes jurídico penitenciários altamente ilegais usados sem consideração alguma para tentar esmagar a resistência e luta que cada companheiro encarcerado leva como parte das expressões que combatem pela emancipação humana e pela liberação total através dos anos e territórios rebeldes.

O chamado constante é para a cumplicidade insurreta, para a solidariedade combativa, ao internacionalismo revolucionário, para juntos avançar na luta contra o Estado, o cárcere e o capital, até destruir o último bastião da sociedade carcerária!

Fonte: Buskando la Kalle

agência de notícias anarquistas-ana

tu conheces pelo coração
a gramática do meu corpo
e seu dicionário

Lisa Carducci

 

[Alemanha] Ataque em Berlim para protestar contra o Trem Maia do presidente mexicano AMLO

Pessoas não identificadas quebraram vidraças e incendiaram dois carros no escritório da companhia ferroviária alemã Deutsche Bahn.

Segundo as autoridades, vários desconhecidos quebraram vidraças de um escritório da Deutsche Bahn localizado em Berlin-Mitte na noite desta quarta (26/07) para quinta-feira (27/07). Além disso, dois carros foram incendiados no estacionamento da empresa, na Caroline-Michaelis-Strasse.

As autoridades suspeitam que tenha sido um ato político, já que desconhecidos picharam as palavras “Pare o Trem Maia” na vidraça de um prédio. No planejamento do Trem Maia, participa uma empresa subsidiária da empresa ferroviária alemã Deutsche Bahn.

Denúncia contra o megaprojeto

Ontem, o Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza determinou que o Trem Maia, obra emblemática do Governo de Andrés Manuel López Obrador (conhecido pelas iniciais AMLO), no México, viola os direitos da natureza e da comunidade maia, apontando crimes de ecocídio e etnocídio.

“O veredicto do Tribunal destaca a violação dos direitos da natureza e dos direitos bioculturais do povo maia, que foram e continuam sendo guardiões de seu território, cenotes, cavernas, selvas, biodiversidade e cultivos tradicionais. É considerado um crime de ecocídio e etnocídio, e o Tribunal responsabiliza o Estado mexicano”, diz o relatório.

O megaprojeto do presidente AMLO, que será inaugurado em dezembro de 2023, foi cercado de polêmicas ao longo de sua construção devido a denúncias de destruição da biodiversidade do sul do México, cheio de pântanos, cenotes, rios subterrâneos e selva, e patrimônio cultural que ainda é preservado na região.

A obra inclui 1.554 quilômetros de trilhos para um trem turístico, bem como para carga local e passageiros nos estados do sudeste do México: Chiapas, Campeche, Tabasco, Yucatán e Quintana Roo.

Fonte: Deutsche Welle

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Sobre a folha seca
as formigas atravessam
uma poça d’água

Eunice Arruda

[Chile] Áudio | Informativo julgamento Mónica e Francisco – Semana 1

por Radios Libres Anarquistas

INFORMATIVO SEMANAL SOBRE O JULGAMENTO CONTRA OS COMPANHEIROS ANARQUISTAS MÓNICA CABALLERO E FRANCISCO SOLAR (PRIMEIRA SEMANA DE JULGAMENTO)

Compartilhamos um resumo da primeira semana do julgamento oral contra nossos companheiros anarquistas Mónica e Francisco, com as declarações reivindicativas de Francisco Solar e as apreciações de seu advogado Nicolas Toro.

Material de transmissão livre para rádios e mídias livres.

Mónica e Francisco para a rua!

Presos anarquistas e subversivos para a rua já!!!

>> Escute aqui:

https://archive.org/details/informativo-juicio-monica-y-fco-semana-1

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/07/17/chile-santiago-transmissao-ao-vivo-desde-o-julgamento-oral-de-monica-caballero-e-francisco-solar-18-de-julho/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/07/13/chile-estas-com-os-poderosos-ou-com-os-que-se-rebelam/

agência de notícias anarquistas-ana

As cebolinhas
Lavadas e tão brancas —
Que frio!

Bashô

[França] Vídeo | Brest: quando a polícia despeja o L’Avenir

27 DE JULHO EM BREST: A POLÍCIA DESPEJA O L’AVENIR (FUTURO). ESTA FRASE POR SI SÓ PODERIA RESUMIR ESSE PERÍODO.

O futuro, o que é? “Um espaço comum e não comercial, que se constrói pelos habitantes, para os habitantes”. Um lugar nascido da luta de associações e indivíduos que investiram e renovaram este espaço localizado no centro da cidade de Brest desde 2010.

Ameaçado por projetos imobiliários, L’Avenir resiste há anos às autoridades para criar um lugar de solidariedade e encontros. Construções realizadas em autogestão, em 2018 e 2019, o local faz a ligação entre movimentos e pessoas de diversas origens.

Com Macron, todos os lugares que escapam das garras do lucro e do poder estão fadados à destruição. É em pleno verão que se desencadeia assim uma operação policial para expulsar e destruir o Futuro. Desde as 6h desta quinta-feira, dezenas de pessoas defendem o local, acendendo uma grande barricada.

As forças da ordem dispararam gás e tomaram posse do local com retroescavadeiras, para demolir imediatamente algumas construções. No final da manhã, as ruas estavam vazias. Brest perde um lugar importante.

Durante o despejo, uma fileira de gendarmes [policiais] tombou como pinos, tropeçando em uma corrente pendurada entre dois postes.

Com suas máscaras de gás, as forças da ordem não enxergam bem. Portanto, recomendamos fortemente que você não coloque correntes ou cordas em seu caminho! Isso pode fazer com que eles caiam durante uma investida ou até mesmo impedi-los de prender ou mutilar alguém. Isso seria irresponsável e antirrepublicano.

>> Veja o vídeo aqui:

https://contre-attaque.net/2023/07/27/brest-quand-la-police-expulse-lavenir/

agência de notícias anarquistas-ana

As folhas secas
caem com a ventania
sobre o riacho

Antonio Malta Mitori

[Argentina] Festejamos nossos 88 anos de luta e solidariedade!

Queridos amigos e amigas:

É com grande alegria que nos juntamos para celebrar o 88º aniversário da Biblioteca Popular José Ingenieros! Este evento tão especial nos brinda a oportunidade de honrar o legado de um local que tem sido um farol de solidariedade, liberdade e resistência durante décadas.

Fizemos um lanche de camaradagem nas instalações da biblioteca. Foi um momento de encontro entre os amantes da literatura, da história e das ideias emancipadoras, assim como uma oportunidade para fortalecer a comunidade que se formou em torno desta querida biblioteca.

Durante o lanche, desfrutamos de um riquíssimo ensopado preparado com carinho e dedicação por um grupo de voluntários comprometidos com os ideais da biblioteca. Também houve espaço para compartilhar histórias, reflexões, debates e experiências relacionadas com a biblioteca e sua relevância em nossas vidas.

A Biblioteca Popular José Ingenieros tem sido um farol de resistência, solidariedade e luta em nossa comunidade. Ao longo de sua rica história, brindou um espaço para o debate, a exploração de ideias e a difusão do conhecimento livre de ataduras. Em um mundo que muitas vezes busca silenciar vozes críticas, a biblioteca se manteve firme em sua missão de promover a liberdade de pensamento e a emancipação individual e coletiva.

Este aniversário é uma ocasião para celebrar as conquistas da biblioteca e, ao mesmo tempo, reafirmar nosso compromisso com a defesa dos valores que representa, o Anarquismo Revolucionário. É uma oportunidade para nos unirmos como comunidade, fortalecer os laços e renovar nosso entusiasmo por construir um mundo mais justo e equitativo.

Agradecemos contar com a grata presença durante o Lanche de Camaradagem com tantos compas. Sua participação é um testemunho de apoio à Biblioteca Popular José Ingenieros e a sua missão de difundir ideias emancipadoras e fomentar o pensamento crítico.

Viva a Biblioteca Popular José Ingenieros!!

Com carinho e camaradagem, Comissão Administradora da BPJI

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

neve profunda –
as pegadas do gato
cada vez maiores

Ion Codrescu

[Chile] Santiago: Contra a prisão política e a repressão, vá às ruas e se organize!

A repressão é uma ferramenta utilizada permanentemente pelo Estado e por todos os governos. O governo de turno [Boric] vem abrindo cada vez mais espaços para a intensificação da repressão na continuidade de uma ação sistêmica de contra-insurgência.

Um exemplo disso é a manutenção do estado de sítio no Wallmapu para punir, prender e subjugar o povo mapuche. Tampouco cessou a ação do Estado nas ruas, contra estudantes e cidadãos.

Hoje, nesse sentido, não é surpreendente, embora nos chame a atenção para a organização, a apresentação de leis aprovadas pelo congresso para deixar as forças da lei e da ordem em total impunidade. A escalada repressiva nas ruas e nos territórios e por meio da aprovação de leis não é aleatória: a punição é necessária para que o amo e o patrão imponham a normalidade, a ordem e a subordinação ao sistema capitalista. Porque a liberdade é o crime que eles perseguem.

Contra a prisão política e a repressão, vá às ruas e se organize!

NOS VEMOS NO DIA 28!

Fonte: Buskando la Calle

agência de notícias anarquistas-ana

tênue tecido alaranjado
passando em fundo preto
da noite à luz

Guimarães Rosa

[França] Como manter a calma quando a polícia nos provoca em pleno luto

Gritos do coração de um habitante de um bairro de classe trabalhadora

Ser insultado ou ofendido, espancado ou humilhado, levar um tiro na cabeça ou ser sufocado… Esse é o destino dos jovens em nossos bairros. Nós, pais, irmãos e irmãs mais velhos, que hoje somos solicitados a fazer apelos à calma, tentamos denunciar tudo isso há dezoito anos, após a morte de Zied e Bouna, que morreram perseguidos pela polícia. O que sentimos em nossos corpos foram todas as humilhações que machucaram nossos estômagos, as constantes verificações que sempre terminam mal… e todas as vidas ceifadas.

Nossa raiva voltou a se manifestar da mesma forma: carros incendiados, saques… Era olho por olho, uma vingança que nem sequer fazia jus à nossa dor. Diante do desprezo de uma sociedade que nos tratava como párias, como imprestáveis, essa era a maneira de nos fazer sentir. Desde cedo, estamos acostumados a sofrer abusos da polícia, do sistema judiciário, da máfia e da cegueira voluntária dos políticos. Mas como podemos manter a calma quando um de nós morre em total indiferença, quando as provas desaparecem de nossos arquivos e a polícia ainda nos lamenta durante nossas marchas brancas¹?

Tudo isso foi denunciado incessantemente por associações e famílias indignadas, mas nada! Não, nada contra os verdadeiros carrascos! Medalhas entregues aos policiais como se fossem doces, promoções, congratulações… em suma, uma licença para matar. Quando você vê isso na televisão, como pode não ficar com raiva, como pode não se sentir preso? Toda a França saiu às ruas para protestar contra a reforma da previdência, mas recebeu uma indiferença desdenhosa do governo. Agora que a situação está explodindo, está claro que é somente quando há escândalo que as pessoas falam sobre os bairros da classe trabalhadora e o que acontece neles; mas o preço a pagar é a presença constante da RAID², da GIGN³ e dos carros blindados.

Por que saquear lojas? A RSA [revenu de solidarité active – renda cidadã francesa] foi criada para nos manter calmos por causa da ameaça de poder tirá-la se oferecermos a menor resistência… mas ela é consumido pela inflação! Então, nós nos ajudamos! Essas crianças veem suas mães ou pais trabalhando como mulas, limpando a sujeira da burguesia que cospe na cara delas! Eles os contratam por 1.300 euros por mês para um trabalho que não gostariam de fazer por nada no mundo, e têm de ser gratos….

Hoje são nossos filhos que sofrem tudo isso e lutam nas ruas: como assim? Por que, anos depois, o mesmo padrão sempre se repete? Essas são as verdadeiras perguntas que precisam ser respondidas! E não com repressão, como sempre!

Você pedirá a eles que parem, que deem a outra face?

Eles culpam os pais, dizem que a culpa é deles; ameaçam e, mais uma vez, usam a chantagem e o medo; mas não se esqueça de que já estávamos lá em 2005.

Tudo isso desperta uma dor enterrada.

Notas:

[1] Marche blanche (marcha branca): manifestação em memória das vítimas de violência policial, geralmente lançada pela família.

[2] RAID: unidade policial treinada para intervir em situações de “crime organizado, banditismo, terrorismo e sequestro”.

[3] GIGN: grupos de intervenção “antiterrorista” sob a autoridade da Gendarmeria nacional.

Fonte: https://ilrovescio.info/2023/07/20/come-restare-calmi-quando-la-polizia-ci-provoca-in-pieno-lutto-grida-dal-cuore-di-una-abitante-di-un-quartiere-popolare/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

folhas escuras
tremem na brisa
à contra-lua

Rogério Martins

[Espanha] Carmen Berrocal apresenta “Perdendo o Trem” na V Escola Libertária Andaluza

O trem é, atualmente, o meio de transporte mais sustentável e ecológico que existe, depois da caminhada e da bicicleta. No entanto, sua situação atual de abandono e precariedade pode comprometer seu futuro, bem como o do ambiente rural e das pessoas que vivem nele.

Um sistema ferroviário que conecte os vilarejos com as capitais provinciais e municipais seria uma solução eficaz para os idosos, pessoas com diversidade funcional e mobilidade reduzida, permitindo sua integração. Da mesma forma, as famílias poderiam se beneficiar em seu tempo livre e de lazer, não tendo que usar o carro para ir a outros municípios.

Os trabalhadores poderiam ir ao trabalho e não usar o carro, evitando complicações no deslocamento. E os jovens precisam se deslocar todos os dias para ir à escola. Em muitos casos, eles deixam seus locais de origem por falta de meios de transporte eficientes.

Ter um sistema ferroviário que conecte os vilarejos, com mais trens, rotas e horários úteis, ajuda a garantir que o ambiente rural não fique vazio. Isso significaria uma melhoria em seus serviços públicos, com escolas, centros de saúde, instalações esportivas, etc. Isso traria consigo o desenvolvimento e o aumento do tecido econômico e de empregos, com novas propostas de hotéis, lazer, restaurantes e serviços. Também não devemos deixar de lado o respeito ao meio ambiente de cada território, essencial para que a qualidade de vida não seja afetada por um setor hoteleiro e de alimentação que, em muitos casos, não leva em conta esses parâmetros.

O documentário “Perdendo o Trem” nos conta sobre o passado, o presente e o futuro do trem. Ele nos mostra que somente o poder político e econômico foi e é responsável pelo fato de o trem convencional estar morrendo. Eles, e somente eles, são os que gastaram seus orçamentos no trem de alta velocidade (TAV), esquecendo-se de seus eleitores nas áreas rurais. O TAV é a maior fraude da história do trem neste país. Foi vendido como progresso, mas não passa de um poço sem fundo, com suas perdas eternas e seu orçamento exorbitante.

Um exemplo poderia ser a cidade de Ronda. Capital de uma região, com vilarejos em muitos casos alcançados pelos trilhos, com estações. Eles viram suas viagens serem reduzidas a uma ou duas por dia, na melhor das hipóteses. Eles veem como dezenas de trens de carga passam e não param. Os trens de passageiros chegam em horários que são de pouca utilidade para os usuários. É possível ver como estão permitindo que os trilhos se deteriorem e as estações fiquem em pedaços.

Os moradores de Ronda, arriatenas e pessoas de toda a região veem como o trem, um bem público, está sendo morto. Em vez disso, eles estão testemunhando o aumento do militarismo na área. Um quartel da Legião em La Indiana, para o qual nunca faltam fundos do Ministério da Defesa para seus jogos de guerra. Uma escola para os oficiais da Legião, aos quais não faltam recursos, comida, cama e salário para treinar em algo tão absurdo e nefasto quanto o uso de armas.

Como é possível que os poderes políticos gastem tanto dinheiro de todos os trabalhadores na manutenção de algo tão inútil como exércitos, em algo que só traz divisão, fome, pilhagem de recursos, violação de direitos, morte e destruição como as guerras? Não seria mais justo distribuir os recursos de forma justa e usar os fundos para beneficiar praticamente toda a sociedade?

Como se isso não bastasse, na Serranía Rondeña há um grande número de fazendas de animais e macro fazendas, onde os direitos dos animais se destacam por sua ausência. Aqui, os animais são enjaulados até a exaustão, vacinados em excesso e as crias são separadas de suas mães assim que nascem. Os animais vivem sob estresse desde o momento em que nascem até serem abatidos para satisfazer as necessidades culinárias dos seres humanos. E dizemos isso porque também existem pessoas não humanas, se levarmos em conta que uma pessoa é qualquer ser que tenha uma personalidade.

Não podemos substituir um bife de carne bovina por um prato de leguminosas, que tem o mesmo teor de proteína? Nós, pessoas que vivemos em países desenvolvidos, temos a oportunidade de escolher, de fazer uma compra seletiva. Cabe a nós promover uma mudança de paradigma para toda a comunidade animal do mundo e acabar com os campos de concentração que são as fazendas e macro fazendas.

Lamentamos que a Coordenadora de Bem-Estar Animal não tenha elaborado um roteiro para a V Escola Libertária Andaluza e que ela não possa comparecer. Temos certeza de que ela abriria nossos olhos para questões como a posição da CGT-A Ceuta e Melilla contra o veganismo, o especismo, as touradas, a vivissecção em laboratórios farmacêuticos, a indústria têxtil e de peles, etc.

Na CGT-A Ceuta e Melilla temos certeza de que todos os seres vivos deste planeta têm direito a uma vida digna e, com essa premissa, foi criada a Coordenação de Bem-Estar Animal, que em breve poderá anunciar ações em defesa dos animais.

Voltando ao trem, outra prova disso é a atitude das empresas responsáveis (Renfe e Adif) e dos sindicatos do sistema em relação à falta de atenção que estão tendo nos últimos dias com os serviços ferroviários em Málaga.

Todas as pessoas, especialmente as que vivem em áreas rurais, devem ser integradas e participar da sociedade, sem prejuízo de seus direitos. Todas elas devem usufruir dos serviços públicos, independentemente de onde morem. Para isso, é fundamental ter um sistema ferroviário que conecte os vilarejos e seus habitantes. Carmen Berrocal, moradora de Bobadilla Estación, em Málaga, e diretora da Associação de Moradores de seu bairro, sabe bem disso.

Ela viu que, se você mora em áreas rurais, tem menos direitos, mesmo pagando os mesmos impostos. Se você mora em uma cidade pequena, eles podem tirar sua agência bancária ou o escritório do SEPE. Ela viu como as escolas estão sendo fechadas porque não há mais crianças ou famílias jovens. Ela viu como, pouco a pouco, as pessoas que vivem em nossos vilarejos estão ficando órfãs.

Mas Carmen é combativa e, depois de fundar e presidir a AVV de seu vilarejo, ela fundou a PTRA, a Plataforma para o Trem Rural da Andaluzia. Sua luta a levou a visitar todos os lugares da Andaluzia onde foi exigida. Sua proclamação “Por uma ferrovia pública e social” foi ouvida em todas as províncias e municípios onde era necessário. E sua veemência não a privou de ser contundente diante da mídia, falando claramente, com a linguagem do povo.

É por isso que Carmen será a encarregada de apresentar “Perdendo o Trem”, que será transmitido no sábado, 29 de julho, às 18h15, na V Escola Libertária Andaluza de CGT-A Ceuta y Melilla.

#VEscuelaLibertariaCGTA, Escola Libertária, Meio Rural, Social

Fonte: https://cgtandalucia.org/carmen-berrocal-v-escuela-libertaria-andaluza/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

brilha o grampo
ou ela tem no cabelo
um pirilampo?

Carlos Seabra

[Espanha] Continuísmo social-democrata?

Ontem (23/07) assistimos a novas eleições políticas na Espanha e, como sempre, não estava no script mudar a situação da classe trabalhadora. Os resultados dessas eleições nos levam a uma continuação das políticas europeístas estabelecidas pela troika europeia em Bruxelas.

Não nos esqueçamos de que, mais uma vez, grande parte da sociedade convocada para as urnas decidiu se abster e, apesar do aumento da participação, mais de dez milhões de pessoas decidiram não exercer seu direito de voto.

Esses números de abstenção reforçam a posição que a CGT e o anarcossindicalismo vêm expressando há décadas: a necessidade de criar uma sociedade baseada na auto-organização, no apoio mútuo e na solidariedade é mais necessária do que nunca. Seria um erro grave pensar que a ultradireita foi detida porque não conseguirá formar um governo, porque o que é realmente preocupante e o que realmente precisa ser detido é a mensagem de ódio que vem permeando parte da sociedade há algum tempo, que ataca diretamente nossas liberdades e os direitos de grupos como o movimento LGTBI+ ou o movimento de migrantes.

Os resultados das eleições de ontem podem estar fadados à reeleição do atual governo de coalizão, algo que, apesar de ser a única opção real possível contra a extrema direita, não nos oferece nenhuma tranquilidade, pois basta olhar para trás para lembrar as inúmeras ocasiões em que esse governo deu as costas à classe trabalhadora ao tomar certas medidas, ficando mais do lado dos patrões e dos interesses do capitalismo do que daqueles que diz representar.

A Lei Mordaça ainda está em vigor, a Reforma Trabalhista do PP-PSOE ainda não foi revogada, embora seja verdade que a última reforma foi diluída a ponto de os próprios patrões a apoiarem, o que é surpreendente. A Reforma da Previdência leva à privatização das aposentadorias com o reforço e a implementação de planos de previdência privada, a privatização gradual de serviços públicos básicos como educação, saúde, transporte e um longo etc… Sem falar na Lei dos Estrangeiros, que deixa grande parte da população migrante sem direitos, enquanto os mantemos em vilarejos trabalhando em situações muitas vezes de semiescravidão, em condições terríveis.

Diante disso, desde a CGT temos ainda mais clareza sobre a necessidade de construir espaços de auto-organização como modelo de pressão para forçar mudanças legislativas, e em que o papel dos sindicatos classistas e combativos, apoiados pelos movimentos sociais, é fundamental para continuar lutando contra a extrema direita e construir o caminho para uma sociedade mais justa e feminista.

Essas mudanças na sociedade que buscamos não virão sozinhas, e a mobilização que realizarmos nos próximos anos será fundamental para alcançá-las. Os cidadãos não podem e não devem se contentar em votar a cada quatro anos e deixar o futuro de todos nas mãos de poucos; a classe trabalhadora precisa entender que, sem uma forte mobilização social, quem quer que esteja no governo fará políticas de acordo com a vontade e o ditado dos poderes econômicos.

A luta é o único caminho!

Fonte: Secretaria Permanente do Comitê Confederal da CGT

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agência de notícias anarquistas-ana

o sapo, num salto,
cresce ao lume do crepúsculo
buscando a manhã

Zemaria Pinto

[São Paulo-SP] No CCS, 29/07: “Não É a Primeira Vez que Lutamos pelo Nosso Amor”

No dia 29 de julho, sábado, às 16h, o CCS vai exibir o documentário “Não É a Primeira Vez que Lutamos pelo Nosso Amor” (2022), dirigido por Luis Carlos de Alencar. Contaremos com a presença do diretor e realizaremos uma conversa com ele após a exibição.

O documentário conta as histórias de perseguição e violência quando a ditadura civil-militar brasileira atuou contra a população LGBT e como esse mesmo grupo constituiu suas resistências, transformando-se em sujeito fundamental do processo de redemocratização. O golpe de 64 não instaura esse preconceito, mas, nesse período, a população LGBT foi considerada inimiga da família tradicional, da moral e dos bons costumes.

O evento é presencial e aberto, basta comparecer. Lembrando que nos orientamos pelos princípios anarquistas, tais como autogestão, apoio mútuo, internacionalismo, anticapacitismo, anticapitalismo e não partidarismo, não toleramos qualquer tipo de discriminação de raça, gênero ou sexualidade.

Temos micro-ondas, se quiserem trazer pipoca para um lanche!

Centro de Cultura Social (CCS)

Rua General Jardim, 253 Sala 22

Vila Buarque – São Paulo – SP

Próximo ao metrô Republica

agência de notícias anarquistas-ana

a girafa, calada,
lá de cima vê tudo
e não diz nada

Millôr Fernandes

Equador recorre ao exército para que empresa canadense possa explorar ouro

Por Ñaní Pinto | 20/07/2023

Comunidades indígenas e camponesas do Equador denunciam o governo pelo uso das forças armadas para executar uma suposta “consulta ambiental”, proposta emitida pelo mandatário deste país, Guillermo Lasso, mediante o decreto 754, para permitir a exploração do projeto de mineração La Plata, nas mãos da empresa canadense Atico Mining.

Os habitantes da freguesia de Palo Quemado na província do Cotopaxi, região central do Equador, junto à Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), denunciaram que o governo de Lasso militarizou a região para levar a cabo esta consulta que permitirá à canadense Atico Mining explorar ouro, cobre, prata e zinco em uma área que compreende 2 mil 222 hectares, entre as comunidades San Pablo de La Plata e Las Minas.

Cabe destacar que nesta região confluem 10 corpos hídricos, estuários e desfiladeiros, e um ecossistema de bosque que faz parte da Cordilheira Ocidental dos Andes, do qual dependem diversas populações.

As ações contra estas comunidades começaram desde 9 de julho na freguesia Palo Quemado e se mantêm até o fechamento desta reportagem. Os inconformados denunciam que o governo “busca impor pela força uma consulta ambiental ilegal, proposta mediante o decreto 754 que permite a imersão de mineradora nos territórios”.

Estas comunidades qualificaram o decreto 754 como “inconstitucional” porque, argumentam, “facilita às empresas mineradoras o despojo dos territórios sem que lhe importem a opinião e decisão das comunidades não consultadas”.

Após esta imposição diversas expressões de resistência se somaram ao rechaço deste projeto, como ativistas, artistas e personalidades reconhecidas no Equador. A organização Acción Ecológica se pronunciou em uníssono “para exigir que se detenha esta consulta ilegal. Assim como a retirada imediata da força Pública que tomou posse da freguesia originando tensão e medo na população e nas comunidades próximas como Las Pampas, Galápagos, La Florida, Las Juntas, Campo Alegre Alto e Bajo”, denunciaram em um comunicado.

La plata

O projeto minerador La Prata é um projeto de sulfetos maciços vulcânicos que tem projetado extrair 12,9 gramas de ouro para cada tonelada extraída de rocha e outros componentes minerais. Com o método da mineração subterrânea, que vai perfurando mediante túneis e vai preenchendo com uma mistura de cimento, a empresa projetou extrair 900 toneladas diariamente.

A empresa canadense por sua parte informou que já investiu mais de 16 milhões de dólares para atividades prévias, realizadas “com altos padrões técnicos e com maquinaria minimamente invasiva”. Não obstante, as comunidades afetadas se mobilizaram para rechaçar este projeto minerador pelos possíveis impactos negativos para toda a região, por isso se declararam em “alerta”.

Só na província do Cotopaxi existem por volta de 250 concessões mineradoras situadas em três cantões.

Portanto, a CONAIE comunica: “exigimos do governo nacional de Guillermo Lasso a revogação do decreto 754 que é inconstitucional, e retirar a força pública do território comunitário e que este contingente saia para enfrentar a insegurança do país e não sirva para amedrontar agricultores, camponeses e famílias que sustentam a soberania alimentar no país”.

Fonte: https://avispa.org/Equador-recurre-al-ejercito-para-que-empresa-canadense-pueda-explorar-ouro/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Você se parece
com este galho de acácias
repleto de sóis.

Eolo Yberê Libera

População negra encarcerada chega a mais de 442 mil. É o maior patamar já registrado

No total, a quantidade de pessoas brancas e negras no sistema carcerário aumentou de 815.165 em 2021 para 826.740 em 2022

A população negra encarcerada no sistema penitenciário brasileiro atingiu o maior patamar da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), iniciado em 2005. De acordo com o anuário da entidade, em 2022 havia 442.033 negros encarcerados no país, ou 68,2% do total das pessoas presas – o maior percentual já registrado.

Em 2021, essa proporção era de 67,5%. Há 18 anos, em 2005, quando a série histórica do FBSP teve início, os negros representavam 58,4% das pessoas presas no país. Já os brancos, no sistema prisional, eram 197.084 em 2022, ou 30,4% do total. Em 2005, eram 39,8% do sistema prisional.

“O sistema prisional brasileiro escancara o racismo estrutural. Se de 2005 a 2022 houve crescimento de 215% da população branca encarcerada, houve crescimento de 381,3% da população negra. Em 2005, 58,4% do total da população prisional era negra, em 2022, esse percentual foi de 68,2%, o maior da série histórica disponível. Em outras palavras, o sistema penitenciário deixa evidente o racismo brasileiro de forma cada vez mais preponderante. A seletividade penal tem cor”, destaca o texto do anuário do FBSP.

No total, a quantidade de pessoas presas no sistema carcerário brasileiro aumentou de 815.165 em 2021 para 826.740, em 2022. A razão de detentos por vaga também aumentou, de 1,3 (2021) para 1,4 (2022), ou seja, o sistema está operando ainda mais acima de sua capacidade. Segundo o anuário, há 230.578 pessoas privadas de liberdade a mais do que o sistema comporta.

“Persistem, portanto, as condições de superlotação e insalubridade. A integridade física e moral das pessoas em privação de liberdade é banalizada. Vai se assentando uma “cultura do encarceramento”, com a sobrerrepresentação negra naturalizada. Na medida em que o Estado se mantém inerte, legaliza a desigualdade e corrobora as irradiações do racismo estrutural”, destaca o texto o anuário.

Presos sem condenação

O documento do FBSP mostra ainda que houve diminuição proporcional dos presos provisórios – pessoas detidas sem condenação – no sistema prisional. Em 2020, eram 30,2% do total; em 2021, 28,5%; e agora, em 2022, 25,3%.

“Podemos estar diante dos impactos da implementação cada vez mais consistente das audiências de custódia, cujo marco inaugural data de 2015. Mesmo com a diminuição a comemorar, ainda estamos falando de 210.687 pessoas privadas de liberdade sem que tenham sido condenadas”, diz o texto do anuário.

Monitoramento eletrônico

O anuário chama a atenção para o aumento do número de detentos como monitoramento eletrônico. Em 2019, eram 16.821 presos com monitoramento eletrônico (2,2% do total); em 2022, esse número foi para 51.897 (11% do total dos presos).

De acordo com o documento, a mudança ocorreu principalmente em razão da Recomendação 62 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de 2020, que recomendou adoção de medidas preventivas à propagação de covid-19 no sistema prisional.

“O monitoramento eletrônico tem sido propalado como uma alternativa ao encarceramento. Tanto que é apresentado pelo CNJ como resposta hábil a lidar com os problemas estruturais do sistema carcerário. Contudo, a se considerar, que ao mesmo tempo em que esse expediente eletrônico preserva da privação de liberdade degradante, essa modalidade de cárcere impõe uma rotina de sobrevivência que impacta diretamente na autonomia, trazendo marcas simbólicas que estigmatizam a condição da pessoa encarcerada”, diz o texto do anuário.

Fonte: https://www.paulopes.com.br/2023/07/populacao-negra-encarcerada-chega-mais.html

agência de notícias anarquistas-ana

entre as folhas
de um livro-de-reza
um amor-perfeito cai

Guimarães Rosa

[Grécia] Anarchy 2023: Relato do encontro internacional em St-Imier, Suíça

Por Ευθύμης Χατζηθεοδώρου | 25/07/2023

A liberdade de pensamento e expressão que encontrei entre os trabalhadores nas montanhas de Jura, na Suíça, teve um efeito profundo em mim. Depois de ficar algumas semanas com os relojoeiros, minhas opiniões sobre o socialismo agora eram claras: eu era um anarquista.  Piotr Kropotkin, 1877

No domingo, 23 de julho, terminou o encontro anarquista internacional em St-Imier, na Suíça.

Cento e cinquenta anos depois da Internacional anarquista de Bakunin, na mesma pequena cidade do vale que separa as montanhas do Jura de Berna, centenas de anarquistas e antiautoritários de todo o mundo foram novamente recebidos para quatro dias de eventos e discussões.

O Anarchy 2023 (nome oficial do encontro) ocupou geograficamente toda a cidade, já que muitos prédios municipais (e mais) foram cedidos ao evento para diversos fins. Disponibilizou-se espaço para acampar, assim como diversos espaços para discussões, conferências, exposições, filmes, concertos.

Havia também centros comunitários abertos para quem queria se proteger do frio do acampamento (à noite a temperatura chegava a dez graus), espaços de convivência livres de homens cis e uma creche.

A acomodação e as oficinas foram gratuitas, enquanto a alimentação foi fornecida por doação livre.

Chegando em St Imier, não sabíamos o que esperar. A organização optou por manter o papel de coordenadoria, deixando que o sucesso do evento fosse determinado pela participação de cada visitante, tanto a nível prático como político.

Isso significa que, na prática, cabia a cada indivíduo manifestar interesse e dedicar uma, duas ou três horas por dia a algum turno das dezenas de horas necessárias para manter tudo funcionando perfeitamente. Os trabalhos podiam ser desde ajudar nos estacionamentos, limpeza, cozinhar para três mil porções todos os dias, vigiar etc.

Quanto ao nível político, é importante mencionar que os eventos e discussões ganharam espaço na programação por meio de uma plataforma na internet onde qualquer pessoa ou grupo poderia propor algo específico.

Isso significa que os temas apresentaram uma diversidade incrível. Desde trocas de experiências de estilo de vida (como “pegar carona como um ato político” ou “como viver sem dinheiro”), atualizações sobre diferentes lutas (“a ascensão da extrema direita na Itália”, “quatro anos desde a revolta no Chile”, “O legado da rebelião de George Floyd no movimento Atlanta Stop Cop City”), até oficinas de ativistas (“como proteger nossos movimentos das lógicas de esquerda”, “circulação conjunta no black bloc”).

Tal diversidade significa que também houve eventos politicamente opostos entre si, com a questão da invasão russa sendo talvez o exemplo mais inflamado. Embora a maioria das intervenções contra a guerra aceitasse o direito de autodefesa dos ucranianos como a base política anarquista mínima, havia indivíduos no movimento antimilitarista que viam o fim da guerra como o objetivo número um que os antiautoritários deveriam ter hoje.

Pessoalmente, acho que o evento dos anarquistas da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia que estão resistindo ativamente à invasão foi um dos mais interessantes do encontro, tanto porque aprendemos sobre as diferentes estruturas e grupos que estão ativos quanto sobre a lacuna de análise que o movimento tem lá em relação ao Ocidente. Através das discussões, três razões diferentes para isso foram destacadas: a falta de informação e rede de contatos, o idealismo romântico usado pelos ocidentais “de uma posição de segurança” e, finalmente, a infiltração de análises autoritárias de esquerda em grupos anarquistas.

Paralelamente ao encontro, muitos antiautoritários também apoiaram uma marcha no sábado, 22 de julho, em Lausanne, convocada por organizações curdas contra o centenário da assinatura do Tratado.

Ao encontro não faltou as presenças gregas. Na feira do livro que aconteceu todos os dias no rinque de hóquei no gelo St. Imier, a Organização Política Anarquista (APO) teve um lugar fixo nas mesas.

Além disso, na noite de sexta-feira, pessoas da “Ocupação de Habitação para Refugiados e Imigrantes Notara 26” fizeram uma intervenção sobre o crime de Pylos pouco antes do início do show do Krav Boca.

Por fim, o diretor anarquista Yiannis Giouloundas apresentou cenas de seu novo filme “Não temos medo das ruínas”, que estuda o movimento anarquista na Grécia após a eleição de Mitsotakis em julho de 2019, e seguiu-se um debate.

O encontro terminou ao meio-dia de domingo com a recitação de canções anarquistas revolucionárias na praça central da pequena cidade.

Com punhos erguidos, antiautoritários de todo o mundo renovaram sua escolha daqui a dez anos, prometendo:

Sem recuar na luta por uma sociedade livre!

>> Mais fotos: https://www.aftoleksi.gr/2023/07/25/anarchy-2023-reportaz-ti-diethni-synantisi-sen-imier-tis-elvetias/

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Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.

Rodrigo de Almeida Siqueira