[País Basco] “Precisamos agora mesmo de uma segunda greve da La Canadiense”. Crônica do 1º de Maio em Bilbao

• Uma grande manifestação passou ontem por Bilbao reivindicando o anarco-sindicalismo.

• “Devemos caminhar para uma grande mobilização que consiga transformar esta sociedade”, disse a organização anarco-sindicalista.

Em um Primeiro de Maio caracterizado por limitações à mobilidade e pela violação do direito fundamental de manifestação, a CNT tomou as ruas de todo o estado. Em Bilbao, a manifestação começou por volta das 11h30 na rua central da Gran Vía, onde o resto das centrais sindicais também se manifestaram. Nela, além da faixa geral, as seções sindicais saíram em blocos, para tornar suas exigências mais visíveis.

A manifestação foi na Plaza del Arriaga, o lugar onde o anarco-sindicalismo termina historicamente o Primeiro de Maio em Bilbao. Desta vez foram quatro pessoas, que falaram em profundidade sobre diferentes tópicos.

A manifestação, que desta vez tinha um tradutor de sinais, foi aberta pela Endika. Além de denunciar abusos policiais, que aumentaram exponencialmente desde o início da pandemia, ela lembrou que 2020 “foi um ano negro para os trabalhadores, com 75 mortes no trabalho apenas na península do País Basco”. “Nossa saúde, física e mental, é o que está em risco toda vez que vamos trabalhar”, enfatizou, observando que “isso é terrorismo patronal”. Por esta razão ela enfatizou a necessidade de se organizar, através das seções sindicais, e conseguir implantação, afiliação nos locais de trabalho. Ela também enviou um abraço a todas as grevistas, incluindo as do Grupo Alonso em Valência; e também para estender a solidariedade com os camaradas de Xixón, “que estão sendo julgados em uma nova montagem contra a CNT”. Finalmente, terminou lembrando que são as pessoas comuns, e não os líderes ou vanguardistas, que “transformam o sistema, que acabarão socializando os meios de produção para colocá-los a serviço da classe trabalhadora”.

Então falou Mikel, da seção sindical do Mediapost. Em um estilo poderoso, ele justificou “a validade do anarco-sindicalismo e seu modelo sindical de seções sindicais”, que está provando sua eficácia, trazendo melhorias em todos os tipos de empresas. Ele também lembrou que os camaradas da Mediapost “ainda estão lutando por nossos empregos e denunciando os abusos desta multinacional”.

Então Itsaso continuou falando, desta vez intercalado com o basco e o espanhol. Entre as múltiplas exigências, e como o trabalho reprodutivo é trabalho, exigiu uma licença maternidade decente, pois desde 1989, estas têm visto uma evolução de 0%. Então, e sem estar em contradição com o acima exposto, denunciou “o familiarismo ao qual as instituições e o Estado nos obrigam, decidindo por nós quem a classe trabalhadora pode e não pode cuidar”. Também deu visibilidade à luta dos aposentados, perguntando ao público quem tem o dinheiro das viúvas que trabalharam toda a vida sem nenhum reconhecimento e agora recebem menos de 600 euros. Por esta razão, deixou claro que no dia 29 de maio devemos tomar as ruas para mostrar que a luta dos aposentados é um assunto para todos os cidadãos. Ela denunciou que a situação precária que os jovens vivem no mercado de trabalho “mostra o lugar que nós, como sociedade, lhes damos”, e refrescou a memória daqueles que insistem que os jovens são o futuro: “os jovens também são o presente, e nós não podemos ignorar isso”. Com relação aos migrantes e estrangeiros, ficou claro que “a lei sobre estrangeiros é terrorismo” e que as condições de trabalho enfrentadas pelos estrangeiros não podem ser permitidas. É por isso que Itsaso instou a continuar lutando pelos direitos de toda a classe trabalhadora, seja qual for sua situação burocrática. “Se todos nós, que nos vemos relegados a um trabalho precário, perdermos nosso medo, seremos capazes de realizar uma segunda greve ao estilo da La Canadiense”, enfatizou, e a ferramenta para realizar esta luta é fornecida pela CNT: “precisamos perder nosso medo da autoridade”. Ele colocou sobre a mesa o efeito fortalecedor e libertador da ação direta e do apoio mútuo, “porque a força da classe trabalhadora é sem dúvida a solidariedade”.

Enrique encerrou a rodada de comícios. “Ficou claro, mais uma vez, que é a classe trabalhadora que cria riqueza e que os partidos estão impedindo o sindicalismo”, denunciou ele no comício. Ele também abordou a ascensão do fascismo, ao qual “não se deve dar tréguas”. “Só porque alguns energúmenos votam em opções fascistas e conseguem assentos em um Parlamento, não lhes devemos nenhum respeito”, apontou Enrique. Finalmente, de forma sarcástica, ele lembrou que temos que investir menos tempo na imaginação de conspirações galácticas e mais envolvimento na luta contra conspirações reais que sofremos permanentemente: reforma trabalhista e reforma previdenciária.

Após o comício, os manifestantes foram ao bar Malatesta Kultur Lubakia, recentemente inaugurado, na Rua Somera, 10, no Centro Histórico, que foi aberto ao público, e para a qual esta organização o convida a participar.

Mais fotos: https://www.flickr.com/photos/163085015@N08/sets/72157719079115481/

Fonte: http://www.cnt-sindikatua.org/es/noticias/necesitamos-ya-mismo-una-segunda-huelga-de-la-canadiense-cronica-del-1-de-mayo-en-bilbao

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Caminho do mar:
A navalha no meu rosto
corta que nem gelo.

Antonio Cabral Filho

[Itália] Trieste: Nosso Primeiro de Maio

Após um 25 de abril muito bem sucedido, também o Primeiro de Maio foi cheio de satisfações para nós. Tivemos uma primeira parada às 9h30 na Piazza Unità para uma manifestação relâmpago/flash mob organizado junto com a Cobas e Usi-Cit. Após algumas canções do coro social, os participantes (cerca de 60 pessoas) se posicionaram em várias fileiras, cada um com um cartaz diferente sobre o qual foram indicadas as muitas motivações da iniciativa: desde a luta contra os gastos militares e por um atendimento público, universal e gratuito à luta na escola, por apoio mútuo e solidariedade de baixo para cima, contra qualquer discriminação étnica ou de gênero, por moradia, renda e serviços sociais para todos. Os mesmos conteúdos foram os principais elementos dos discursos ao microfone. Além das três organizações, também falou um ativista da Assembleia de Trabalhadores em Artes Cênicas. Um breve discurso sobre as origens históricas do Primeiro de Maio por um de nossos camaradas encerrou a iniciativa, que também teve um eco justo na mídia. Ao mesmo tempo, outras partes do movimento haviam iniciado uma iniciativa itinerante em outras partes da cidade com paradas em vários lugares simbólicos (prisão, hospital…).

Enquanto alguns camaradas ficaram na praça (onde se realizou a habitual triste manifestação tríplice) montando um banquete com livros, jornais e bandeiras, a maioria de nós se mudou para o campo de San Giacomo onde às 11h começou a outra iniciativa “Produci, confinati, crepa”, organizada em conjunto com outros sindicatos e movimentos da cidade, que durou até a noite. Montamos nossa banca e colocamos bandeiras e faixas com as palavras “Nossas vidas contra seus lucros” e “Rico: cuidados de saúde privados. Pessoas pobres privadas de assistência médica. Solidariedade e luta de classe contra o poder”. Durante duas horas houve numerosos discursos ao microfone que exploraram vários assuntos em frente a uma praça participativa de cerca de 400 pessoas. De nossa parte, como fizemos na iniciativa pela união, lemos o comunicado do CdC da FAI “Primeiro de Maio na praça contra o governo”. Depois do almoço o dia continuou com música e dança como sempre sob o olhar atento de investidagores e gendarmes de uniforme. O resultado do dia foi certamente positivo, não apenas pela excelente distribuição do novo número do “Germinal”, de livros e outros materiais, mas também pelo interesse demonstrado em nossas atividades e pelos novos contatos feitos.

Fonte:

https://germinalts.noblogs.org/post/2021/05/02/il-nostro-primo-maggio/?fbclid=IwAR1Jj32n2grEOJFxbjWPLuunUHyYHKfmghgMSv9i6Z8ukbERtEASAbUnb6A

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

na blusa velha,
muitas borboletas –
ele adora tocá-las…

Rosa Clement

[Porto Alegre-RS] Saúde e Liberdade para Mumia Abu-Jamal!

Durante a Feira Anarquista de Outono, que aconteceu no passado 2 de maio de 2021, no Gasômetro ex presídio, mediante panfletos, cartazes e uma faixa, saímos nas ruas para mandar um grito pelo guerreiro Mumia Abu-Jamal, difundindo sua situação e nosso ódio contra todas as prisões.

Panfleto repartido:

Mobilização pelo Guerreiro Sequestrado pelo Racismo do Estado Norte-americano

Mumia Abu-Jamal, um ex-integrante dos Panteras Negras que se tornou jornalista na Filadélfia e ficou popular com o seu programa de rádio “A voz dos sem-voz”, é um guerreiro contra a dominação da mão branca.

Em Dezembro de 1981, circulando pela noite num táxi no qual trabalhava como motorista, viu como um policial espancava seu irmão e logicamente decidiu intervir. O resultado foi que o policial agressor terminou morto. E com essa morte começou a vingança estatal contra Mumia. Em 1983 foi condenado à morte por intervir para salvar seu irmão que podia ser assassinado por um policial, pena que em 2008 mudou para prisão perpétua.

A mensagem fica evidente: quem se defenda ou defenda os outros da brutalidade racista policial será punido exemplarmente. A prisão funciona como uma limpeza social do mundo racista que pretende disfarçar a desigualdade social com a apresentação de uma afirmação: As pessoas não brancas como criminosas. A luta contra as prisões confronta séculos de organização dessa sociedade baseada na opressão e dominação. Guerreirxs como Mumia Abu-Jamal, sem baixar a cabeça, se confrontam contra isso desde as mesmas entranhas da máquina estatal, ele nunca parou de questionar o racismo nos Estados Unidos nem de apoiar outros guerreirxs presos, como os presxs do MOVE.

O Estado norte-americano tenta assassinar lentamente Mumia, que está se recuperando de COVID-19, e que, pelas condições da prisão, se encontra com uma insuficiência cardíaca, cirroses no fígado e uma grave condição na pele.  Neste 15 de abril ele tinha programada uma cirurgia no coração. As forças da ordem, comprovadamente racistas nos Estados Unidos, querem que ele morra.

Seus amigos e os agitadores pela Liberdade e contra o racismo, alimentamos sua resistência com gestos solidários. Mandaremos esse salve desde a Feira Anarquista de Outono.

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agência de notícias anarquistas-ana

Noite fria:
O som de uma queda-d’água
Sobre o mar.

Kyokusui

[Grécia] Companheiros anarquistas condenados no caso da organização “Auto-Defesa Revolucionária”

As sentenças foram anunciadas em 23 de abril de 2021 no caso da organização “Auto-Defesa Revolucionária”.

• Vangelis Stathopoulos: 19 anos sem apelação

• Dimitris Chatzivasileiadis: 16 anos sem apelação

• D.M.: 10 anos com recurso

Declaração de Vangelis Stathopoulos

A solidariedade é julgada pela minha pessoa com as acusações mais pesadas, porque ajudei um companheiro ferido. A minha acusação e julgamento baseiam-se apenas em critérios políticos, na atitude de dignidade e solidariedade que tenho seguido de forma consistente ao longo da minha vida. Não tenho nada a dispor, exceto minha própria vida; Não tenho nada a defender apesar da luta constante contra a fúria assassina do Estado e do capital! Se a minha solidariedade prática é o crime pelo qual sou condenado e preso, declaro-me impenitente!

PS: Encerrando aqui, gostaria de saudar do fundo do meu coração os companheiros que estiveram me apoiando, em todos os sentidos, aqueles que estiveram ao meu lado e continuam lutando. Sabendo que as condições são adversas e as coisas difíceis lá fora, não desistiram! E para renovar o compromisso na rua, onde cresci e nunca esqueci.

NENHUM PASSO PARA TRÁS

Usando a força do oponente, invertemos os termos, o caminho mais curto é o direto!

Nenhuma batalha foi vencida sem nunca ter sido dada!

Vangelis Stathopoulos

Prisão Korydallos

FORÇA AO COMPA D. CHATZIVASILEIADIS PROCURADA PELO MESMO CASO.

SOLIDARIEDADE E FORÇA AO ANARQUISTA VANGELIS STATHOPOULOS E AO DM.

Fogo nas prisões!

Aja pela liberdade agora!

Fonte: https://actforfree.noblogs.org/post/2021/04/27/athensgreece-announcement-of-the-sentences-on-23-4-21-at-the-terror-court-in-the-trial-against-anarchist-v-stathopoulos/

Tradução > Da Vinci

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/04/14/grecia-pedido-de-apoio-financeiro-para-o-fundo-de-solidariedade-para-presos-e-companheiros-perseguidos/

agência de notícias anarquistas-ana

A neve está derretendo –
A aldeia
Está cheia de crianças!

Issa

 

[País Vasco] Malatesta Kultur Lubakia abre no Primeiro de Maio e será um “ponto de encontro libertário”

Por Juanjo Basterra

Malatesta Kultur Lubakia, iniciativa da CNT, foi inaugurado neste Primeiro de Maio em Somera, 10, no Casco Viejo de Bilbao. É, como denominam seus promotores, “uma trincheira anarquista”. Galder Antón, membro da iniciativa, afirma que começa uma nova caminhada “de porta para a rua”, em um lugar que combinará hospedaria, atividades culturais e sociais. É, em definitivo, um espaço para “desfrutar, compartilhar, conspirar e sonhar”.

Ocupará o espaço que o Jaunak deixa, e o nome deste local anarquista, Malatesta, o toma em honra ao Batalhão que participou no que foi a Frente Norte na Guerra de 36 contra o fascismo. Segundo os dados da CNT, em 1937, o Governo da República ordenou destruir todas as instalações de Altos Hornos de Bizkaia (AHV) para evitar que caíssem nas mãos do exército de Franco. “O batalhão de Malatesta da CNT, depois de explodir os depósitos de armas da margem direita e todas as pontes, se dirigiu com explosivos à empresa para cumprir a ordem, mas o bando nacionalista defendeu essa instalação com o argumento de que cumprir a ordem da República prejudicaria a recuperação da economia basca”. A economia antes das pessoas, algo que estamos já muito habituados a escutar e ver. Ao final, como todo o mundo sabe, essa empresa começou a ser parte ativa para a indústria militar, como Babcock Wilcox e outras que estavam ativas em Ezkerraldea.

Galder Antón explica que Malatesta Kultur Lubakia “vai ser um espaço cultural e de hospedaria, que vai ordenar as duas atividades. Trata-se de um ponto de encontro libertário. Esse é o objetivo e o desenvolvimento cultural”.

Explica que “a ideia é manter o que era o antigo Jaunak e, também, dispor de material cultural, desde fanzines, livros, etc. e depois ter uma oferta gastronômica, seguindo os passos do Jaunak: petiscos, espetinhos, porções e menus por encomenda”.

A nível cultural, se irá colocando em marcha um variado número de atividades,  “desde debates, colóquios, apresentações de livros, documentais. É um projeto que leva muito tempo com a intenção de se incorporar em Casco Viejo de Bilbao, e temos a oportunidade e aqui estamos neste novo desafio”.

“A necessidade de estar de porta para a rua e não em um local interno, como na atualidade da CNT, que provoca que as pessoas não participem tanto”, é o motivo que serviu para abrir este novo espaço no coração da Bilbao, segundo expressa Galder Antón “para divulgar e fazer propaganda a toda a luta e atividade anarcossindicalista”. Querem que seja um lugar de referência para o que são as ideias, a filosofia e outros. Este ‘elkarte’ [associação em basco] nasce um pouco com a essência de um ateneu e a essência de um espaço cultural”. E como admite, “tivemos a oportunidade, e se decidiu prosseguir com o projeto”. Com a pandemia de Covid-19 não é o melhor momento para dar esse passo, reconhece, mas pesou mais a “oportunidade que temos para dispor desse lugar e estamos levando para frente”.

“Começamos em Primeiro de Maio, data referencial para a classe trabalhadora, e a ideia de mantê-lo aberto no terraço de 11h00 às 20h00 e no interior e cozinha em horário planejado pelo LABI e com as restrições planejadas. Mais adiante melhoraremos, sem dúvida”.

Aí se poderá comprar livros, quadrinhos, revistas… tomar uma cerveja e comer uns espetinhos ou um petisco. “Essa é a ideia. Habilitaremos um espaço para, onde todos os coletivos interessados possam deixar material, revistas, onde se possa estar folheando ou, inclusive, um dos projetos é montar uma pequena biblioteca em que as pessoas da CNT nos doou livros e, aí, disponibilizaremos uma zona infantil para que as crias tenham material e possam curtir”, explica Antón.

A princípio, não se demarcam objetivos ambiciosos. “Primeiro queremos arrancar e em nível de programação cultural, nos planejamentos alcançar uma atividade semanal, que irá se incrementar segundo a demanda”. Para fins de maio, esperam realizar algumas conversas coincidindo com as manifestações que os pensionistas têm unificado para 29 de maio contra os planos do governo espanhol.

Tradução > Caninana

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agência de notícias anarquistas-ana

Roupa no varal —
O brilho da lua se estende
entre os grampos

Alvaro Posselt

Pelas ruas… nas Américas. | E no Brasil?

Apesar da avassaladora Covid-19, o ano de 2020 nas Américas foi marcado por inúmeros protestos também nas ruas.

No Chile, milhares saíram às ruas, alguns revoltados contra as autoridades e outros reivindicando uma nova Constituição (a atual é a mesma da ditadura Pinochet).

No Peru, Manuel Merino foi deposto em decorrência de manifestações que também clamavam por uma constituinte (a atual é a mesma da ditadura Fujimori).

Na Colômbia, o governo de Ivan Duque, depois de reprimir lideranças camponesas, também foi alvo da insatisfação.

Na Guatemala, o estopim para as movimentações foram cortes, em plena pandemia, no orçamento destinado à saúde.

No Haiti, uma greve geral foi organizada contra a política de Jovenel Moise.

Nos Estados Unidos, após a execução de George Floyd por um policial, milhões caminharam por semanas.

Não foram poucos os que enfrentaram diretamente tropas do Estado fortemente armadas e organizações fascistas.

No México, com mais intensidade desde setembro do ano passado, são incansáveis as manifestações frente ao aumento das violências e execuções de mulheres e meninas. Protestam contra a polícia e o governo de Andrés Manuel López Obrador. A presença anarcofeminista é estrondosa.

Mais recentemente, nos primeiros meses de 2021, foi a vez do Paraguai assistir o clamor indignado contra a maneira como o presidente Mario Abdo trata o novo coronavírus.

Há inúmeras diferenças entre os protestos citados acima. Contudo, mesmo diante das recomendações e protocolos adotados por autoridades no combate a Covid-19, eles expõem as ruas como o espaço no qual uma situação política pode ser invertida ou radicalmente interrompida.

E no Brasil?

No final de maio de 2020 protestos promovidos por torcedores de futebol associados às torcidas antifascistas ocorreram em algumas cidades. As ações conseguiram o que propunham, isto é, afastar das avenidas, aos fins-de-semana, grande parte dos uniformes verde-e-amarelo bolsonaristas. Entretanto, em ano eleitoral, uma parte considerável dos manifestantes foi enredada em palanques ditos progressistas e pouco afeitos às corajosas transformações.

Ainda em meio às manifestações, centrais sindicais, partidos de esquerda e frentes unificadas conseguiram mudar as manifestações de endereço e associá-las aos protestos antirracistas no EUA. Com isso, em dois finais de semana as contramarchas que tinham os bolsonaristas como alvo minguaram.

Depois de quase um ano, a situação de miséria e desemprego seampliou exponencialmente. As mortes por infecções do novo coronavírus, facilitadas pela sintaxe macabra propagada desde o governo federal, também cresceram.

Frente a isto, nenhuma convulsão. Pelo contrário, a despeito dos infindáveis cadáveres, as ruas seguem o ritmo ordinário, cheias de pessoas em direção aos seus empregos com transporte público reduzido e propagando contaminações. Novamente, a esperança em um pleito, na “justiça”, isto é, na eleição de 2022 como responsável pela manutenção do clima cordato e ordeiro.

Não há o que esperar. A cada segundo, as violências do Estado aumentam e recrudescem. Como bem situou um filósofo, revoltas acontecem quando mesmo diante da morte é preferível correr riscos a seguir obediente: “as insurreições pertencem à história. Mas, de certa forma, lhe escapam. O movimento com que um só homem, um grupo, uma minoria ou todo um povo diz: ‘Não obedeço mais’, joga na cara de um poder que ele considera injusto o risco de sua vida — esse movimento me parece irredutível. Porque nenhum poder é capaz de torná-lo absolutamente impossível”.

Sem ruas e nas redes

Não é de hoje que se convoca ou organiza manifestações, paralisações, protestos e ativismos pelas redes sociais.

É comum as mobilizações serem articuladas redes sociais para ganharem as ruas. Entretanto, com a chamada pandemia Covid-19, poucos protestos e carreatas ganharam as ruas ao longo de 2020 e no primeiro quadrimestre de 2021, exceto os autodenominados de “direita”, fascistas e certos religiosos. Montaram acampamentos em nome da moral, dos cidadãos de bem, do exército e do presidente.

Carreatas pífias aconteceram convocadas por alguns sindicatos, como as dos professores da rede pública paulista. Entretanto, a maioria dos que se encontram à esquerda ou no chamado “campo progressista” não vai mais às ruas, preferem ser devotos das recomendações de uma ciência que acreditam não contaminada pela política. Ao contrário, expressam “que todos devem ficar em casa”, nada de tomar as ruas, sequer usando máscara e álcool em gel, fortalecendo o isolamento físico em nome da saúde de todos. Tudo online, virtual, síncrono ou assíncrono. Tanto faz se você tem acesso ou não à internet. Incapazes de cuidarem de si, preferem o confinamento móvel dos meios computo-informacionais.

Com casa ou sem casa, engordando ou com fome, com frio ou calor, resignado ou inconformado, bêbado ou sóbrio, nas filas para receber cesta básica, quentinha ou roupa, nos ônibus, nos trens, nos carros, no mercado, nos bailes e bingos proibidos; esperando auxílio emergencial; no ensino remoto, o lema incutido é não ir para as ruas. Não brade, não proteste, não se revolte, não incomode, respeite, tenha empatia, seja resiliente e ordeiro.

Quem está nas ruas?

Famílias inteiras estão jogadas nas ruas; mais favelas pululam pelas cidades; a chamada “população em situação de rua” salta aos olhos e já em nova composição, não são apenas os chamados “nóias”. E querem, desejam e clamam por filantropias e caridade. Estão dispostas a engordar a solidariedade empresarial que deixa intocada suas misérias.

E todo um contingente de pessoas que estão em busca de um sustento, tendo que se virar, e é na rua que se vira. Vira puta, vira michê, vira delinquente, vira qualquer coisa para se virar. Vira alimento para a prisão.

Contra prisões, encarceramentos e a obsessão por seguranças

A prisão chega do exterior. Ela não é inerente ao ser. Quando ela chega ao corpo, aos poucos as suas extremidades começam a enrijecer. Os pés já não se movem sem receio. As mãos não alcançam sem titubear e sem o vigilante controle do olhar que teme o ofuscar das luzes. O movimento não é leve nem rápido e incisivo. Conforme ela se acomoda, os passos começam a reproduzir a dureza dos soldados e os gestos se automatizam.

O corpo se desacostuma com a brisa, com o sol, com a chuva, com os sons, mas recolhe-se imóvel em sua muralha. Blindado, algo esmorece. O involucro se torna a norma. Conforta na ilusão de que nada mudará. De que o caminho é certo, desde que não se mova muito. O exterior é hostil.

Tal como um filme B de ficção científica, a prisão interiorizada penetra como uma gosma que se alimenta do que era vivo, e como um parasita, toma conta vagarosa e oportunamente. A gosma escorre pelos olhos, pelos ouvidos, pelos poros até obstruir o espaço para entrar o ar.

O corpo aprisionado quer sair, mas tem medo. Os olhos enxergam o que está fora como o perigo iminente. Então as muralhas se estendem para o espaço ao redor. Os muros se elevam, as grades proliferam. Concertinas, câmeras, polícias, fronteiras. O exterior deve refletir tal e qual aquilo que já está encarnado.

Essa gosma fagocita os corpos tomados pelo medo compartilhado, que juntos, permanecem imóveis. Não há espaço para o ar circular dentro das casas, nos condomínios, entre grupos e grupelhos, nas ruas. Todos esses corpos são uma só gosma, ou duas ou três… Unidos, uniformes. No interior da gosma é possível se deslocar em conjunto, protegidos do perigo exterior.

A gosma tem muitas formas. Ela é adaptável. Pode ser uma comunidade de bairro, uma organização de direitos específicos, a família, um partido, e até união de pessoas aleatórias que buscam um espaço seguro. Dali não se sai. O contato com o exterior vem protegido por uma película, por uma tela.

É da vida que a gosma se alimenta, pode ser que um desavisado a aviste na praça, no parque, no bar, no restaurante, em uma festa, um festival, uma feira, em lugares em que recobram a memória do prazer em se circular livremente, mas menos frequentemente nas ruas. E a qualquer movimentação inesperada, ela se recolhe. Porque tal como no roteiro de um filme, a gosma teme o fogo.

Mas isso não é um filme B de ficção científica.

No contexto da chamada pandemia do novo coronavírus, a gosma encontra um espaço fértil para se estirar.

Encontra os que querem se preservar e esperar o momento em que o ar estará limpo novamente. Geralmente permanecem isolados. Salvaguardados na proteção do próprio lar, esquecem o que é a vida lá fora a não ser ir e vir para o trabalho, compras e prontos socorros. Resta nostalgia. E olhar ao redor torna-se limitado.

Encontra os que se aproveitam do recuo dos demais, e tomam as ruas, não para se liberar, mas para garantir que a sua muralha ou a sua gosma tenha um alcance maior. Se empanturram dos espaços desocupados. Querem deglutir tudo. Querem uma só e uníssona gosma.

Mas o mundo não é bipolar.

Há sempre os que escapam, cujos olhos não se acostumam com a película. Que preferem o risco da vida livre à certeza da mortificação da segurança.

O que avança sob as intempéries, inventa uma forma própria. Não a recusa, se fortalece e aprende a se mover no que é incerto.

É preciso sair da gosma.

Romper as películas.

Destruir os muros e muralhas.

Acender o fogo.

Fonte: Hypomnemata 244 | Boletim eletrônico mensal
do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP | N° 244, abril de 2021.

agência de notícias anarquistas-ana

Ruídos dos carros,
os escuto pela mesma orelha
que os pássaros.

Robert Melançon

[Porto Alegre-RS] Criando um Outono onde o Estado caia junto com as folhas!!!

Aconteceu em Porto Alegre (RS), no Gasômetro, neste domingo, dia 02 de maio, a Feira Anarquista de Outono.

Criando um Outono onde o Estado caia junto com as folhas!!!

Nesse momento de disputa entre os dois bastiões do poder estatal que usam a pandemia como arma política, atravessamos com nossa história e coerência, com o impulso do faça você mesmo.

Nem negacionistas nem pelegos! Não compactuamos com a direita fascista, não estamos “empreendendo”. Reivindicamos a vitalidade do encontro, das trocas cara a cara porque elas mantêm a chama rebelde acesa. Assim também não compactuamos com a esquerda histérica e autoritária que questiona desde a distância inofensiva das telas. Lutamos pelo fim dos dois lados, cientes de que a guerra social em curso se vale de ISOLAR PARA VENCER.

É na autonomia como caminho, na informalidade como estratégia e no rechaço a sermos a massa dos que cobiçam governar, que convidamos à Feira Anarquista de Outono.

Estivemos com propaganda antiautoritária, publicações subversivas, produções independentes, autônomas e informais, com agitações pelos companheirxs presxs no Chile, e por Mumia Abu-Jamal, além de espalhar num panfleto nossa irredutível posição sobre a Liberdade, nestes tempos em que os totalitários pretendem esvaziá-la do seu sentido antagônico a todo poder.

Com a gana permanente de quem vive sempre na crise: ESTADO, CAPITAL, PATRIARCADO, PROGRESSO.  Enquanto eles existirem estaremos em pandemia, de controle, de obediência, de acomodação.

A rua é o espaço daqueles que não tem patrões, é o lugar de encontro e rebeliões. Não abrimos mão dela.

Panfleto repartido na Feira:

Algumas diferenças urgentes sobre a Liberdade.

Ultimamente ouvimos os novos representantes do autoritarismo falarem de liberdade, como se tivessem algo a ver com isso.

Afirmamos que Não é de liberdade que nossos inimigos falam, eles falam é de poder. O poder, sinônimo de autoridade, consiste em fazer algo apesar dos outros, e com a opressão dos outros. E eis o que eles chamam de liberdade, poder comprar e lucrar, poder continuar uma vida criada e baseada no poder, mediante o dinheiro, e o poder que ele dá. Esse poder se complementa perversamente com a ideia de “poder trabalhar”, que na prática significa poder continuar enriquecendo e servindo os outros em troca de esmolas.

A liberdade abraça outros horizontes, ela se refere a não ter donos, não ter amos, não ser mandados por alguém externo a nós e, sobretudo, provém da negação do poder, da posse. Foi por essa condição de liberdade que lutaram os escravos, desde Spartacus até os negros em terras “brasileiras”. É por liberdade que vários povos lutam por território para não ter que vagar nas cidades servindo os herdeiros da colonização. Não é um movimento de poder individual, mas de luta individual e coletiva contra toda dominação.

A liberdade é antagônica e inimiga de todos os tiranos: Não tem nada a ver com o poder econômico porque esse poder se sustenta na opressão e na exploração. Ela não tem nada a ver com o militarismo porque ele se sustenta na obediência, não tem nada a ver com os racistas, xenófobos, ou patriarcas, porque eles menosprezam toda existência não uniformizada sob o branco, civilizado, cristão. A liberdade não significa o poder e sim sua destruição.

A liberdade não é o mesmo que escolher.

Se defendemos a necessidade de tomar decisões próprias sobre a Pandemia, nos importando pouco o que digam os militares no ministério de saúde ou a OMS, é porque escolher entre o tipo de vacina e os tratamentos da biomedicina, resume tudo em duas “opções” da mesma máquina: a indústria farmacêutica, cerceando qualquer possível resposta local, ou qualquer resposta mais integral.

Se defendemos sair de casa e ir para as ruas, não é porque defendemos as empresas, as indústrias ou os trabalhos; os Anárquicos entendemos que essa trilogia constitui o cerne da devastação, da exploração e das iniquidades sociais. Se defendemos ir para as ruas é porque o isolamento “social?”, já existente, está se impondo como um modo de vida “saudável”, está se convertendo em cárcere voluntário para uns e em segregação para outros, um isolamento que nos leva a ajudar às maiores transnacionais do Capitalismo hipertecnológico.

Se defendemos estar nas ruas é porque é o último espaço de possível encontro entre “diferentes”, o único espaço de ninguém e de todxs, o cenário de todo protesto efetivo, a arena de combate contra as forças repressivas; nelas que é possível a destruição da dominação e a subversão ao espaço domiciliar que é hoje desde onde mais colaboramos com o capitalismo e a dominação que ele sustenta.

Pedir mais controle como estratégia de oposição política contra os reacionários que governam, não é o caminho que precisa ser reforçado. Maior controle, vigilância e Estado, ainda disfarçados de paternalismo, seguem sendo uma opressão e um apelo à submissão usando o medo da morte como isca.

A liberdade Jamais será fardada!!!

agência de notícias anarquistas-ana

O jarro quebra –
Ah, o despertar
Do gelo da noite!

Bashô

[Canadá] MayDay 2021: Não queremos este mundo que eles estão tentando nos vender!

No sábado 1º de maio de 2021, o evento anual anticapitalista “MayDay” aconteceu nas ruas de Villeray e Little Italy, em Montreal. O protesto começou no Jarry Park (entre Gary-Carter e St-Laurent) por volta das 16h15 com aproximadamente mil pessoas. Alguns manifestantes carregavam faixas e cartazes. A manifestação foi declarada ilegal pela polícia, que usou gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. A seguir, panfleto distribuído por manifestantes antes e durante o “MayDay”.

MayDay 2021: Não queremos este mundo que eles estão tentando nos vender!

A pandemia em que estamos atolados precariza a todos e evidencia graves injustiças. O estímulo desejado pelos dirigentes é um estímulo econômico que não é dirigido a nós. Não se dirige aos artistas e outras pessoas que não lucram o suficiente para merecer o direito de existir. Não se trata de profissionais do sexo, cuja própria existência ainda é criminalizada. Este estímulo ignora as pessoas com deficiência, os marginalizados, aqueles com problemas de saúde mental. O estímulo de que falam é para as petroleiras, para as corporações Bombardier, para os amigos do partido como o Guzzo, mas não para nós. Deixar que os governos nos salvem da crise que eles próprios criaram através dos constantes cortes nos cuidados de saúde e através das suas vidas de “pássaros da neve” seria aceitar a morte. O que precisamos estimular não é a economia, mas as lutas por nossos direitos e pelo fim da exploração capitalista.

O projeto de reconstrução econômica aposta em um mundo tecnológico manchado de desigualdades e baseado na exploração capitalista suja. O fortalecimento das fronteiras nacionais e os abusos das instâncias de imigração, ilegítimas neste chamado Canadá, visam preservar essas desigualdades. E enquanto no Norte vacinamos, esquecemos aqueles que nos vestem nas fábricas Gildan do Haiti. Esquecemos que cada conferência de zoom depende do trabalho em minas africanas e sul-americanas. Esses mesmos países que podem não ver a vacina antes da próxima pandemia. Palavras de agradecimento e promessas vazias não ressuscitarão os “petrochallengers” haitianos mortos por forças policiais treinadas pelo Canadá, nem devolverão os olhos perdidos por manifestantes chilenos cegos por armas canadenses. Será preciso muito mais para devolver a vida a Raphaël “Napa” André, a Joyce Echaquan e a todos os indígenas mortos aqui e noutros lugares.

Vimos a explosão de injustiças em todo o mundo neste último ano terrível. Pessoas migrantes que tiveram a “chance” de vir para cá agora morrem em nossos hospitais e depósitos. As ruas do nosso bairro mais pobre estão vazias, a polícia constantemente à caça de sua próxima presa. As Primeiras Nações são humilhadas, atacadas e mortas por instâncias governamentais, guiadas por empresas extrativistas. E em todo esse caos nos é imposta a obediência, o silêncio e a auto-ilusão diante de tudo o que acontece ao nosso redor.

Não podemos deixar isso acontecer! Recusemo-nos a policiar a nós mesmos e nossas ações, porque reconhecemos que viver em um mundo limitado por leis racistas, colonialistas e LGBTQIA2E+fóbicas é um desafio em si. São essas mesmas leis que alimentam as desigualdades de gênero que dão mais razão aos mais afortunados e aos herdeiros ricos: não os legitimemos aceitando essas leis para nós mesmos! Ficamos indignados quando vemos o desaparecimento da ajuda monetária, dos nossos empregos e a precarização dos que ficaram, ou da imposição de um toque de recolher sem base científica. Vemos isso apenas como uma desculpa para legitimar a repressão do Estado. O discurso sanitário não faz sentido quando vemos que não é aplicado de forma equitativa. O governo Legault mostra novamente sua verdadeira face quando tenta salvaguardar a economia enquanto joga nossas vidas fora. Recusamos este futuro sonhado pelos bilionários, que afasta a nossa atenção pelo medo enquanto lucram com a exploração dos mais vulneráveis.

Esses bilionários, são eles os primeiros poluidores, mas os últimos a sentir suas consequências. São essas grandes corporações que continuam a explorar o trabalho dos trabalhadores migrantes e a praticar o extrativismo nos territórios das Primeiras Nações, sob o pretexto do crescimento econômico e da hipocrisia da economia “verde” ou “sustentável”. Enquanto o mundo inteiro sabe que a crise climática é um grande problema e afetará primeiro as pessoas marginalizadas. Para eles, é negócios como sempre enquanto possível, até que a morte nos separe.

Para piorar a situação, as listas de espera na área de saúde são ainda piores do que antes da pandemia. A mídia aproveitou a oportunidade para vender mais notícias que causavam ansiedade sobre o vírus, lançando uma sombra sobre as lutas atuais, especialmente aquelas pela defesa da terra. Essas lutas estão vivas e vamos lembrá-los desse fato.

Somos percebidos como nada mais que uma massa de trabalhadores, vazios e substituíveis, mas nem tudo está perdido. Juntos, estamos prontos para lutar e somos muito mais fortes e numerosos. Vamos recusar este futuro “uberizado” e opor-lhe um mundo de partilha e igualdade. E para chegar lá, lutaremos com todas as nossas forças, o que acontecerá retomando as ruas.

clac-montreal.net

Tradução > Da Vinci

agência de notícias anarquistas-ana

As chuvas de maio
enchem de rãs
a minha porta!

Sanpu

[Portugal] Concentração em memória de Mário Nunes – 8 de Maio (Lisboa)

No dia 8 de abril, reunimo-nos às 15h00 na Praça Luís de Camões, para relembrar e homenagear Mário Nunes, um jovem português que há 5 anos, no dia 3 de Maio de 2016, caiu em Rojava, no nordeste da Síria, onde foi combater o Estado Islâmico.

Nascido em Portalegre, o Mário, em 2015, com 21 anos, abandonou a Força Aérea Portuguesa para se juntar às YPG na luta contra os massacres jihadistas no Curdistão sírio, combatendo lado a lado com o povo da região e com outros voluntários internacionalistas. Aqui, onde adotou o nome curdo Kendal Qereman, participaria em importantes batalhas, como por exemplo na libertação de al Shadadi, onde o Estado Islâmico havia instalado mercados de escravos.

Em declarações divulgadas pela YPG Internacional, Mário Nunes relata o seguinte: “Estou aqui para lutar pelo povo curdo porque acho que esta causa vale a pena. Estamos a começar algo novo aqui. Democracia verdadeira, algo a sério. Acho que toda a gente deve ajudar, toda a gente se deve preocupar com esta causa.” O seu sacrifício mostra as motivações de um verdadeiro amor para com o próximo, de solidariedade internacional inquestionável, e o fato de ele não se conformar com as atrocidades sofridas pelos povos do Curdistão e, portanto, não ficar passivo à situação, é algo admirável. Relembrar o Mário trata-se também de mostrar que as suas ideias e o que ele representava continuarão a ser parte da nossa luta diária. Ao relembrarmos o Mário estamos a afirmar que a luta contra a brutalidade do sistema patriarcal, do fascismo e da violência contra o nosso ecossistema, perpetuados pelo Estado Islâmico, pelo Estado Turco e no fim de contas por todo o sistema capitalista, se mantém viva e que nós continuaremos os passos do Kendal Qereman, Mário Nunes.

Assim, afirmamos juntxs que o Mário Nunes continua presente!

Como dizem as companheiras e os companheiros curdos, os mártires nunca morrem, os seus sonhos seguem vivos nas nossas lutas e nos nossos corações!

>> Dada a situação pandêmica, será necessário o uso de máscara e o distanciamento físico.

FB: https://www.facebook.com/events/1017690178638885

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longa conversa
um grilo termina
o outro começa

Ricardo Silvestrin

Memória | Lucy Parsons e o 1º de Maio

Lucy Eldine Gonzalez Parsons (1853-1942) nascida como escravizada em 1853 no sul dos EUA, filha de uma negra mexicana e pai indígena do povo Creek, foi uma destacada sindicalista revolucionária, tendo participado da revolta de Haymarket de 1886 em Chicago, que deu origem ao 1º de Maio, e da fundação da  IWW (Industrial Workers of the World). Casada com o anarquista Albert Parsons, um dos mártires de Chicago. Militante incansável, oradora habilidosa e escritora apaixonada, Lucy Parsons dedicou mais de sessenta anos da sua vida à organização da classe trabalhadora, dos oprimidos e à luta revolucionária contra a exploração capitalista e a supremacia branca. Texto publicado originalmente em The Kansas City Journal, 21 de dezembro, 1886, com o título “Eu sou uma anarquista”.

Eu sou uma anarquista. Suponho que vocês tenham vindo aqui, a maioria de vocês, para ver como é uma anarquista de verdade ao vivo. Suponho que alguns de vocês esperavam me ver com uma bomba em uma das mãos e uma tocha em chamas na outra, mas estão desapontados por não ver nem uma coisa nem outra. Se tais têm sido suas ideias sobre anarquistas, vocês mereceram estar desapontados. Anarquistas são pessoas pacíficas, cumpridoras da lei. O que anarquistas querem dizer quando falam em anarquia? Webster [1] dá ao termo duas definições: caos e o estado de existir sem norma política. Nós nos atemos à última definição. Nossos inimigos sustentam que acreditamos apenas na primeira.

Você se pergunta por que existem anarquistas neste país, nesta grande terra da liberdade, como vocês amam chamá-la? Vá a Nova York. Ande pelas vielas e becos dessa grande cidade. Conte as miríades [2] famintas; conte os ainda mais numerosos milhares que estão sem teto; numere aqueles que trabalham mais duro do que escravos e vivem com menos e têm menos conforto que o escravo mais humilde. Você ficará perplexo com suas descobertas, você que não prestou nenhuma atenção a esses pobres, salvo como objetos de caridade e comiseração. Eles não são objetos de caridade, eles são vítimas da injustiça de classe que permeia o sistema de governo, e da política econômica que domina do Atlântico ao Pacífico. Sua opressão, a miséria que ela causa, a desgraça a qual dá origem, são encontradas em maior extensão em Nova York do que em qualquer outro lugar. Em Nova York, onde não muitos dias atrás dois governos se uniram para desvelar uma estátua da liberdade, onde uma centena de bandas tocou aquele hino de liberdade, ‘A Marselhesa’ [3]. Mas praticamente a mesma situação é encontrada entre os mineiros do Oeste, que vivem na miséria e vestem trapos, para que os capitalistas, que controlam a terra que deveria ser livre para todos, possam adicionar ainda mais aos seus milhões! Ah, existem muitas razões para a existência de anarquistas.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://lutafob.org/8892/

agência de notícias anarquistas-ana

Noite de silêncio
Uma moça na janela
Contempla a neblina

Tânia Souza

[EUA] Deusa da Anarquia: A escritora Jacqueline Jones reflete sobre Lucy Parsons, o tema de seu último livro

Lucy Parsons (c. 1851-1942) era considerada uma anarquista perigosa e extrema, o tipo de oradora e escritora capaz de impactar seu público: a força de trabalho daquela época. Pois dirigia-se à sofrida classe operária que tinha que trabalhar longas horas em péssimas condições. Enquanto alguns agora veem nela uma feminista e líder sindical, o fato é que incutia medo e pavor na polícia e na classe empresarial da época.

Embora a ousada e veemente anarquista fosse amplamente conhecida em sua época, embora promovesse o uso da violência, nas últimas décadas, Parsons parece ter sido largamente deixada para trás na história. No entanto, quando uma pessoa morre, o objeto de sua luta não desaparece e ela não é totalmente esquecida. O livro da Profa. Dra. Jacqueline Jones da Universidade do Texas em Austin ilustra a longa vida de Parsons, desde sua atuação no movimento trabalhista, sua presença no Motim do Haymarket, até sua defesa dos Scottsboro Boys e da liberdade de expressão. Nesta entrevista por e-mail, Jones fala de seu livro “The Goddess of Anarchy: The Life and Times of Lucy Parsons, American Radical” (A Deusa da Anarquia: a vida e a época de Lucy Parsons, uma americana radical) sobre Parsons.

Ithaca Times: Como chegou a escrever sobre Lucy Parsons e o que a atraiu nela enquanto feminista e líder sindical em seu livro “The Goddess of Anarchy: The Life and Times of Lucy Parsons, American Radical?”.

Jacqueline Jones: Tinha ouvido falar dela e sabia que a primeira e única biografia dela foi escrita em 1976 (por Carolyn Ashbaugh) e que estava na hora de reexaminar a vida de Parsons à luz de novas fontes online agora disponíveis. Ashbaugh não conseguiu descobrir nada sobre sua vida antes de ela chegar a Waco; por minha parte, localizei elementos em jornais que mostravam que ela havia nascido de uma mulher escravizada na Virgínia em 1851 e teve de fugir com sua mãe e seus irmãos para o Texas durante a guerra (de secessão). Embora famigerada, Parsons foi muito famosa quando viva e achei que mais pessoas deveriam conhecê-la.

Entretanto, não a chamaria nem de “feminista” nem de “líder sindical”. Ela nunca usou este último termo e, claro, achava que nem homens nem mulheres deveriam votar. Em seus pronunciamentos públicos, pelo menos, apresentava-se como uma pudica esposa e mãe, mais tarde viúva, vitoriana. Além disso, não tinha muito interesse em trabalhar como dirigente sindical; fez discursos inflamados para instigar seus apoiadores e amedrontar seus inimigos; mas não tinha paciência para ir de loja em loja e exortar mulheres (ou homens) a se afiliarem a um sindicato.

TI: Lucy Parsons conseguiu falar e escrever muito, embora trabalhasse para as mudanças necessárias, como a jornada de oito horas. Mas poderia falar sobre o que a impeliu a lutar e a se manter fiel aos seus princípios para as mudanças necessárias? O que a levou a trabalhar em prol da igualdade e da justiça?

JJ: Acho que ela se preocupava profundamente com a injustiça para com os homens e mulheres brancos de classe operária. Mas perceba que não demonstrou nenhum interesse pelos negros em Chicago—ou no resto do país, por sinal. Não era muito prática, pois em alguns casos pelo menos sua retórica crua e irada causou mais danos do que bem. A famosa dirigente sindical Mary “Mother” Jones se opôs a Parsons e seus camaradas porque usavam uma retórica dura, desprezavam instituições e símbolos americanos e (segundo Jones) manchavam toda a classe trabalhadora com seu radicalismo.

Acho que Parsons gostava de se apresentar, por assim dizer; nunca estava tão feliz como quando fazia um discurso inflamado ou escapava da polícia de uma esquina à outra. Era principalmente uma escritora e uma oradora, não uma dirigente.

IT: Poderia falar de quando, em 1905, Parsons fundou os Industrial Workers of the World (Trabalhadores Industriais do Mundo), conhecidos como “Wobblies” e o fato de ela ter sido a única mulher a falar no evento internacional do sindicato dos trabalhadores?

JJ: Tenho uma seção sobre isso em meu livro onde explico que os organizadores do encontro (Bill Haywood e outros) a convidaram para aparecer por respeito a ela enquanto viúva de um mártir de Haymarket. Não pretendiam deixá-la falar até que ela insistisse em fazê-lo. Mais tarde ela percorreu o Noroeste, vendendo a biografia de seu marido e outros materiais; mas ela nunca realmente trabalhou como dirigente do IWW.

IT: Lucy Parsons era conhecida por ter uma visão de longo prazo nas lutas que empreendia, mas qual é o seu legado e a mensagem que deixou para o futuro?

JJ: É difícil dizer; o que lhe valeu a fama foram seus discursos e é claro que não podemos ouvi-los hoje, então sua influência se desvaneceu. Ao longo de sua vida, no entanto, manteve viva a chama dos mártires de Haymarket e a lembrança do juiz e do júri tendenciosos que os condenaram. Muitos de seus ouvintes [ficavam] empolgados [com] sua retórica radical.

Entretanto, como disse acima, não tinha interesse pela condição dos trabalhadores negros (ou imigrantes chineses, por sinal). Além disso, nunca admitiu em público que havia nascido escrava. Antes, em diferentes momentos de sua vida, afirmou ser filha de um mexicano e de uma nativa americana. Como tinha pele clara (era provavelmente filha de seu proprietário), pôde perpetuar a ficção de que era índia ou mexicana. Acho que ela temia que os trabalhadores brancos não a escutassem se pensassem que era uma ex-escrava. Como não deixou documentos particulares, tudo o que sabemos sobre ela vem do que seus amigos e apoiadores escreveram sobre ela e do que jornais disseram sobre ela; ela permanece um mistério, ainda hoje.

Fonte: https://www.ithaca.com/entertainment/books/goddess-of-anarchy-author-jacqueline-jones-reflects-on-lucy-parsons-the-subject-of-her-latest/article_1009c412-884a-11eb-a1c8-c3bd22232721.html

Tradução > Alainf_13

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agência de notícias anarquistas-ana

Primeira manhã
Até a minha sombra
está cheia de vigor

Issa

[Espanha] Ateneu Libertário Al Margen de Valência, 35 anos perseguindo a utopia

Por Antonio Pérez C.

Depois de celebrar todos os nossos aniversários com algum tipo de evento público, no qual tentamos colocar o olhar libertário sobre as questões das estrelas na época, estávamos esperando a chegada do XXXV aniversário para abrir a casa e organizar alguns dias de debate o mais deslumbrante possível. Entretanto, por razões tão além de nosso controle como a pandemia sanitária, não foi possível comemorar este evento da maneira que desejaríamos. Apesar destas circunstâncias, acreditamos que o aniversário do Ateneu Libertário Al Margen (A Margem) não pode deixar de ser um bom momento para recordar o caminho percorrido e, ao mesmo tempo, para rever as ideias que após a Ditadura deram origem a este e muitos outros projetos.

Os anos 80 do século passado foram muito ricos em eventos – não todos eles felizes – para o anarco-sindicalismo e o movimento libertário valenciano como um todo. A cisão sofrida pela CNT após o falido congresso de 1979 foi o auge de um período de vários anos (desde a reconstrução confederal até o já mencionado congresso da Casa de Campo) de desentendimentos, boicotes e desfederações em que muitas das ilusões e esforços de muitas pessoas valiosas foram queimadas.

Um setor da militância que esperava uma renovação do anarco-sindicalismo continuou com seu trabalho nas seções sindicais, para depois de algum tempo convergir com outros grupos no projeto que acabaria dando forma à CGT, que hoje continua a manter a ideologia e as práticas do sindicalismo revolucionário. Mas outros grupos, principalmente jovens que haviam se aproximado do anarquismo após a morte de Franco, acabaram desencantados com sua experiência sindical e optaram por outras formas de continuar vivendo seus sonhos libertários.

A primeira grande experiência deste processo vital e militante foi a Semana Cultural de 1980, ainda sob as iniciais de CNT, mas sem o apoio das estruturas confederais. Durante esses treze dias (de 11 a 23 de novembro) as personalidades mais renomadas da cultura, arte e ativismo social da época passaram pelo agora desaparecido cinema Alameda em Valência. Entre esses nomes podemos lembrar os de Agustín García Calvo, Antonio Álvarez Solís, Juan Gómez Casas, Luis A. Edo, J. Luis García Rua, Eliseo Bayo, Fernando Savater, Pep Castell, Rodolf Sirera, Juan Goytisolo, Ramón J. Sender, Pablo Guerrero, Joaquín Carbonell, Emma Cohen, Rosa León, Al Tall e alguns outros não tão conhecidos fora da esfera libertária, mas com uma ampla gama de lutas e conhecimentos.

Após a experiência autogerida daqueles famosos dias culturais, o vínculo que uniu um bom punhado de pessoas bastante jovens com trajetórias anteriores variadas tinha sido fortalecido. Pouco depois, alguns dos projetos mais sólidos e duradouros da cena extática valenciana surgiriam: a Rádio Klara, o Ateneu Llibertari Progrés, o Ateneu Libertário Al Margen e alguns outros na forma de cooperativas de trabalho, fundos de resistência, revistas, associações de consumo ecológico, gráficas de impressão, etc.

Al Margen, como proposta para um ateneu libertário, começou a tomar forma no outono de 1984. Os contatos pessoais seguiram um após o outro e rapidamente deram frutos em dois jantares (com mais de quarenta pessoas cada) nos quais foi assumido o compromisso de fazer contribuições financeiras a fim de chegar a uma soma que cobrisse os custos de compra das instalações e as adaptasse às funções que se destinava a proporcionar: biblioteca, salão de conferências e exposições, refeitório, etc.

Dois anos mais tarde, o espaço já estava disponível e os trabalhos relevantes já haviam sido realizados. A inauguração “oficial” foi realizada em março de 1986. Como de costume, foi dada uma palestra e todos os grupos próximos foram convidados para uma pequena festa. As primeiras instalações estavam localizadas na rua Baja, 8, no bairro popular de El Carmen. O Ateneu esteve lá até 1998, quando se mudou para sua localização atual (Palma, 3), também no centro histórico de Valência.

Seria injusto não destacar, a partir desse período de sonhos e trabalho duro, o papel desempenhado por Ángel Olivares e Víctor Serrano, dois companheiros sobreviventes da guerra, do exílio e da repressão de Franco que deixaram um bom pedaço de suas economias e muito suor naquelas primeiras instalações. Outros militantes do Sindicato de Aposentados e Pensionistas da CNT na época também apoiaram o projeto.

Compreensivelmente, o Al Margen teve suas dificuldades, seus conflitos e seus momentos de glória efêmera nestes trinta e cinco anos; quase quarenta se contarmos o tempo de gestação do projeto e as reformas das instalações. Mas acima de tudo, se há algo a destacar nesta trajetória ininterrupta, o mais valioso seria a solidariedade e a amizade criadas entre seus membros e a vontade unânime do grupo de compartilhar experiências, meios e esforços com aqueles que solicitaram o apoio ou a participação do Ateneu.

Cumprindo este propósito de abertura às realidades próximas, as premissas do Al Margen foram utilizadas por ecologistas, antimilitaristas, feministas, posseiros, solidários com o povo saharaui, redatores da revista Si volem… e por grupos que, ocasionalmente, precisaram de um espaço para se encontrar ou montar uma atividade.

Também participamos, na medida do possível, de ações programadas no bairro, tanto em ações puramente de protesto (denúncia de abandono e gentrificação) quanto em outras de caráter cultural ou festivo: “Pintem Juntos” (encontro de pintores de murais), “Música en el escaparate” (dia de apresentações em locais e cantos do El Carmen), “Ciutat Vella batega (Cidade Vielha grita)” ou as Fallas Alternativas. Em outras iniciativas autogeridas de longa trajetória na cidade, como a Feira Alternativa ou a Mostra do Livro Anarquista, nossa presença ativa tem sido mantida desde as primeiras edições. A ideia de exigir um monumento para lembrar Valentín González (um cenetista que morreu na greve dos estivadores do Mercado de Abastos em 1979) foi inicialmente iniciada pelo Al Margen e outros coletivos relacionados.

Quanto ao trabalho específico do Ateneu, seria difícil fazer uma lista completa das atividades que aconteceram dentro de suas paredes durante estes 35 anos. Olhando para os últimos cinco anos de sua existência, mencionaremos apenas as iniciativas mais notáveis e resumiremos brevemente os muitos e variados eventos que aconteceram ao longo do tempo.

Para um ateneu libertário é essencial ter uma boa biblioteca; a biblioteca do Al Margen passou por várias situações, nem todas agradavelmente lembradas, mas agora está novamente disponível, com mais de mil títulos sobre anarquismo, história, sociologia, sindicalismo libertário, ecologia, movimentos sociais, filosofia, etc.

Nosso compromisso com bons livros não só nos levou a ter a biblioteca, mas também nos incentiva a publicar ou distribuir novos títulos. Por um tempo participamos da iniciativa Edições Conjuntas, que publicou obras interessantes de autores anarquistas coletivamente com outros grupos de Madri, Catalunha, Galiza, Euskadi ou La Rioja. Como Edições Al Margen, também publicamos outros vinte textos. Alguns desses livros publicados pelo ateneu correspondem a obras selecionadas em nosso Concurso de Narrativa Social, das quais foram publicadas doze edições. Neste trabalho informativo fizemos até uma incursão no mundo da música e da imagem, com a edição de vários vídeos e CDs. Vindo dos tempos do papel impresso não tem sido um obstáculo para nos adaptarmos às novas formas de comunicação, e por isso temos nos fornecido com um web site (ateneoalmargen.org) e os perfis correspondentes no Twitter e no Facebook.

Um capítulo à parte merece a revista AL MARGEN, da qual já publicamos 117 números. Apareceu trimestralmente sem interrupção desde o início de 1992, contando com um bom número de excelentes e cativantes colaboradores. Como fato curioso, temos que ressaltar que com este nome já havia outra publicação nos anos trinta do século passado em Elda (Alicante), mas descobrimos isso quando já tínhamos publicado vários números.

No que diz respeito às atividades habituais, houve inúmeras exposições, apresentações de livros, palestras e debates, leituras de poesia, apresentações musicais, filmes, excursões, jantares…

E, para concluir, gostaríamos de compartilhar nossa avaliação positiva do caminho que percorremos. Isto não significa que tomamos todos os nossos sonhos como garantidos ou que já estamos planejando uma aposentadoria militante. O que é certo é que tudo tem um começo e um fim, e os camaradas de Al Margen também terão que ceder nosso lugar a pessoas com consideravelmente menos anos para dar continuidade a este e outros projetos libertários. Não queremos resistir à tentação de encorajar os jovens a se organizarem e abrirem espaços de debate e de difusão da cultura crítica e das ideias anarquistas.

Fonte: Rojo y Negro # 355, Madri, abril de 2021. Edição completa disponível em http://rojoynegro.info/sites/default/files/rojoynegro%20355%20abril.pdf

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/08/11/espanha-chamada-para-publicacao-de-textos-na-revista-al-margen/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/12/30/espanha-entrevista-a-revista-libertaria-al-margen-que-chega-a-seu-numero-100/

agência de notícias anarquistas-ana

Dia grisalho
brotos brotam brutos
na ponta do galho

Danita Cotrim

[Chile] Situação de Mónica Caballero há 39 dias do início da greve de fome

No dia 28 de abril foi realizada a audiência de garantias da companheira Mónica Caballero frente a sua negativa em ser transferida para o Hospital Penintenciário após 38 dias de greve de fome, o que até aquele momento a tinha feito perder mais de 8 kg. Em seu enorme desconhecimento da solidariedade anticarcerária tanto dentro quanto fora das prisões, o tribunal tentou, sem êxito, persuadi-la a depor a greve, argumentando que isso não afeta em nada a sua situação penal.

A audiência foi presidida pela Juíza Magizy, conhecida por seu vício à prisão preventiva e seu histórico de rejeição das garantias mínimas que qualquer pessoa privada de liberdade deveria ter. E não menos importante, seu vínculo matrimonial com um capanga dos carabineiros. Na audiência também estiveram presentes além da advogada de defesa da companheira, o fiscal Orellana, um advogado da gendarmeria e o advogado responsável pela causa de HinSSpeter.

A advogada de Mónica apresentou as razões da oposição ao traslado associadas ao desgaste físico e mental que a greve tem significado, além de um controle diário de pressão e peso que recebe por parte de uma enfermeira na cárcere de San Miguel e a visita semanal de um médico externo que tem avaliado sua situação.

Mais do que o frágil estado de saúde de Mónica, pareceu mais importante para a juíza conhecer o caráter de regularidade ou irregularidade da presença de um médico externo na prisão, oficializando, pela segunda vez, ao diretor do hospital penal sobre a possibilidade de ingresso de um médico que possa assistir de maneira semanal para avaliar e outorgar um informe com seu estado de saúde.

Frente ao desconhecimento do estado de saúde de Mónica por parte do advogado que representa a gendarmeria, a juíza enviará um segundo ofício cujo prazo de resposta é o dia 30 de abril, assinalando, não obstante, que se durante estes dias a gendarmeria solicitar novos exames médicos e traslados, a companheira será obrigada a realizar.

Dado o histórico e a atitude errática e visceral da juíza Magizy e o assédio generalizado axs grevistas, existe a possibilidade certa de que Mónica seja transferida ao hospital penal à força e contra a sua vontade. Em tal situação, já foi previsto um recurso de amparo, mas hoje, mais do que nunca, resulta imperativo continuar ampliando nossa solidariedade à Mónica Cavallero e axs companheirxs que continuam em greve de fome.

A greve de fome continua contra as modificações da lei 321, que estabelece prisões perpétuas encobertas para nossxs companheirxs, como mostra do castigo exemplar por um estado que pretende aniquilar suas vidas e sonhos de Liberdade.

A LIBERDADE FLORESCERÁ DOS ESCOMBROS DAS PRISÕES!!

Há 39 dias do início da greve de fome, nossxs companheirxs resistem gritando ainda mais forte:

PELA REVOGAÇÃO DAS MODIFICAÇÕES NO D.L. 321!!!!

LIBERDADE PARA MARCELO VILLAROEL!!!!

ABAIXO O SISTEMA PENAL E SEUS MUROS!!!!

Fonte: https://edicoesinsurrectas.noblogs.org/post/2021/04/29/situacao-de-monica-caballero-ha-39-dias-do-inicio-da-greve-de-fome/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/29/chile-quarto-informe-de-saude-36-dias-de-greve-de-fome/

agência de notícias anarquistas-ana

Entre haicais e chuva
Súbita inspiração:
Um trovão.

Sílvia Rocha

[México] O príncipe Kropotkin e a literatura russa

Mais conhecido como pensador anarquista, o príncipe Kropotkin foi também um original crítico literário, capaz de abordar as letras russas sem preconceitos e com suficiente senso comum. A cem anos de sua morte, sua obra crítica o coloca entre os maiores polímatas da história moderna.

Por Christopher Domínguez Michael | 01/02/2021

Nenhum outro revolucionário legou uma imagem tão irrepreensível como Piotr Alekséyevich Kropotkin (1842-1921), “anarquista entre os príncipes e príncipe entre os anarquistas”, segundo o crítico dinamarquês Georg Brandes. É unânime a lembrança de seu bom berço no bairro dos Velhos Cocheiros de Moscou, de sua educação refinada no estilo do czarismo da Ilustração, de sua altíssima relevância como geógrafo de categoria internacional – ainda hoje em dia celebrado autor dos mapas siberianos – e de seu caráter ao mesmo tempo bondoso e firme. É o único dos ácratas que, com seu “anarquismo científico”, tinha algo que dizer ao século XXI, segundo disse o historiador marxista Eric Hobsbawm.

Enquanto que a Mijaíl Bakunin não se perdoa seu estridente anti semitismo nem a Pierre-Joseph Proudhon sua cruel misoginia, Kropotkin saiu impoluto da arena do absolutismo e da Revolução. Em 1914 enlouqueceu sua gente ao fazer o impensável para um anarquista: tomar partido, na Grande Guerra, pela civilização contra a barbárie, pela França e seus aliados contra os impérios centrais e a Rússia.

Ao fazê-lo, “autorizou” a Buenventura Durruti e aos anarquistas espanhóis, que pouco mais de vinte anos depois assumiram como ministros no governo da República espanhola. Exilado desde 1876, regressou à Rússia em 1917 e, apesar de reprovar sem paliativos a revolução bolchevique, esse “socialismo de Estado” escravista previsto pelos primeiros anarquistas, Lenin o recebeu em duas ocasiões. Com sua morte, no que provavelmente foi o último gesto respeitoso dos bolcheviques para a oposição, lhe ofereceram exéquias oficiais, que sua família recusou.

Suas Memórias de um revolucionário (1899) foram para outro príncipe (Mirsky em A history of Russian literature, 1926), junto às de Aleksandr Herzen (Passado e pensamentos, 1870), um modelo do gênero. O que eu não sabia é que Kropotkin fosse autor, também, de Russian literature. Ideals and realities (1905).  Sem outra pretensão que a de ser um manual e ao que parece redigido originalmente em inglês (como as Memórias de um revolucionário deste poliglota eslavo), é uma obra não só elegante e bem documentada: contêm perspectivas e opiniões incomuns, cuja originalidade termina por colocar o príncipe, ao completar um século de sua morte em 8 de fevereiro, entre os polímatas mais destacados da história moderna.

Não pude averiguar se Vladimir Nabokov disse algo sobre o príncipe Kropotkin, mas o autor de Lolita – filho de um grande liberal constitucionalista assassinado em 1922 – deve ter desprezado o príncipe como um a mais dos loucos que, intoxicados de religião ou de ciência, destruíram a Rússia, fossem populistas, niilistas, terroristas, social revolucionários, mencheviques, bolcheviques ou anarquistas. No entanto, os primeiros capítulos de Memorias de um revolucionário, situada a infância de Kropotkin durante o lúgubre reinado de Nicolás I e sua juventude nos dias das ilusões perdidas sob Alejandro II, são um esboço do memorável conto de fadas escrito por Nabokov (Habla, memoria, 1966). Tal semelhança – e aqui acrescento Herzen – que só a velha Rússia criava para suas nobres infâncias perfeitas, plenas em luz e abundantes em doces, com a mesma intensidade com que, convertida em uma “bruxa uivando na nevasca” (a imagem é de Borís Pilniak), lançava, semelhante mãe, seu povo à destruição. Ao contrário do rabugento Nabokov, o príncipe conservou em toda sua vida a bonomia própria dos meninos felizes e me atrevo a dizer, tendo lido Memórias de um revolucionário, que Kropotkin ficou vacinado precocemente contra todo mal. Não só seu sistema filosófico econômico o descarta como assunto passageiro, obra da insensatez, mas que a vida do príncipe se caracteriza por sua indiferença ante o Mal. Kropotkin, o científico, se bateu, coisa muito diferente, contra a injustiça em todas as suas variedades, mas jamais se sentiu tentado, ao contrário de todos esses russos viajantes chorosos que leram Hegel, buscando um processo metafísico contra nada nem contra ninguém.

O horror centralizador do comunismo soviético, sem dúvida, deveu muito à crueldade do czarismo, mesmo que, por comparação, costumamos esquecer ainda que Kropotkin o detalhe, com indignação de ilustrado mas sem raiva de romântico: desde o quarto de século no serviço militar ao qual eram obrigados os russos até a escravidão dos servos, que ia desaparecendo, segundo nos conta quem estudou para pagem do czar, logo que chegou à Sibéria. Nessa desolada terra de utopistas práticos (abundantes, dado curioso, mais entre os administradores militares czaristas que entre os conspiradores desterrados), Kropotkin não só se associou, em solidão, com a Natureza (sua verdadeira utopia transcorre ao longo do rio Amur), mas prolongou a beleza de sua infância frequentando a literatura russa.

Comecei a ler Russian literature. Ideals and realities por disciplina, esperando encontrar-me com essa visão da arte romana, utilitária e filisteia, “pequeno burguesa”, tão própria dos revolucionários do século XIX, que Tolstói levou ao extremo em ¿Qué es el arte? (1897), livro com o qual Kropotkin discute ao final de seu manual. Grande foi minha surpresa quando cheguei rapidamente – a vida é longa, a literatura russa, curta – a Aleksandr Pushkin e encontrei uma opinião herética. Aqueles que sabem russo asseguram que nós que o ignoramos nunca poderemos escutar, em sua inimitável beleza, a música de Pushkin, o grau de que uma das polêmicas literárias mais ácidas do século foi protagonizada por Nabokov e Edmund Wilson a propósito de como traduzir Evgueni Oneguin. Pois bem: nunca desfrutaremos desse dom de Deus. Mas ocorre que Kropotkin se pergunta, como é habitual, por que no Ocidente não se admira Pushkin tanto como na Rússia? e responde assim: “A beleza da forma, o verso feliz e o ritmo são suas virtudes principais, mas não a beleza de suas ideias.” E as ideias nobres, acrescenta o  anarquista, ajudam até a poesia mais bela.

O que eu nunca me atrevi sequer a suspeitar, para não incorrer em blasfêmia, se revelou desapiedadamente ante meus olhos, lendo Kropotkin umas linhas mais acima, quando diz que ao belo Pushkin, amigo dos dezembristas de 1825, faltou “a profundidade e a elevação das ideias” própria, ao menos, de Goethe, Schiller e Lord Byron. Ou seja, o grande poeta russo foi um romântico menor. Aqui está.

O anarquismo de Kropotkin, inspirado na comuna agrária russa tanto como em Proudhon, acabou por livrá-lo da querela entre eslavófilos e ocidentalizantes. Mas ele não obsta para que considere que o grande escritor russo do século XIX, depois de Tolstói, seja Iván Turguénev, admiração que, após a diabólica (e problemática) aparição de Fiódor Dostoyevski, deixa morna a posteridade. Ninguém se bate em duelo, a mais de um século, pelo gigantesco amigo de Flaubert; jamais sua tradução suscitaria uma aversão como a que destruiu a amizade entre Nabokov e Wilson, e este último dá a entender em Janela à Rússia. Para uso de leitores estrangeiros (1972) que Turguénev, esse admirável liberal sem religião, não teve as grandes quedas próprias de Tolstói ou Dostoyevski porque não foi tão grande como eles. Foi, para dizê-lo ao estilo da Terceira República francesa, “um grande escritor menor”, no qual concorda Nabokov. Kropotkin, temo, nos desaprovaria. O que nós chamamos mediocridade em Turguénev, para esse  anti romântico que foi o príncipe, era o grande em literatura: o meio tom, a sutileza, o humor amargo de Antón Chéjov, o último grande em aparecer em Russian literature. Ideals and realities.

Sua discrepância com Turguénev, a do anarquista, remete, claro, ao niilista Bazárov de Padres e hijos (1862). O novelista amava o personagem – o disse a Kropotkin em Paris – mas era um amor incompreensível para os revolucionários russos, fossem os idealistas de 1848 ou os furiosos de 1861 durante a liberação dos servos. Ao bondoso anarquista incomodava um Bazárov retratado como um homem frio e cruel, quer dizer, “niilista”, quando sua geração, descrita por Kropotkin em Memórias de um revolucionário, se caracterizou, diz, não pelo terrorismo (detestado por ele), mas pelo desprendimento dos jovens naródniki que abandonaram universidades, milícias e lares paternos para fundir-se com os camponeses, encabeçados por aquelas moças estudiosas que cortavam o cabelo e se convertiam em noviças da vontade do povo. Kropotkin cita Hamlet e Dom Quixote (1860), de Turguénev, e diz que, devendo ser um Quixote (o quixotismo russo se adianta a Miguel de Unamuno enquanto o ideal de caridade tomada por loucura), Bazárov é apresentado como um cético hamletiano.

Também é previsível o desprezo de Kropotkin por Dostoiévski, o mesmo que o de Nabokov e o de quase todos aqueles russos de origem aristocrática e ocidentalizante. Para ambos, o gênio do autor de O Idiota (1869) não  é tanto. É um folhetinista melodramático, um estilista descuidado e de todo irreal (Kropotkin) ou um cristão neurótico (Nabokov), a quem de vez em quando visitam as musas da inspiração para abandoná-lo e deixá-lo, não à toa, epiléptico, como um miserável. O ateísmo de Kropotkin (para quem uma expressão como “mística eslava” era uma tolice própria de “histéricos”) e Nabokov os torna insensíveis à religião de Dostoiévski: o célebre anarquista fugindo da Prisão Militar de San Petersburgo como quem brinca de esconde esconde e o grande caçador de mariposas, eternos meninos alheios ao Mal, nada queriam saber da tempestuosa adolescência da humanidade exposta em Os Irmãos Karamázov.

Tendo dado crédito a Iván Goncharov, cujo Oblómov (1859) causou sensação ao aparecer e foi esquecido durante décadas, e, depois de rechaçar que o  “oblomovismo”, essa preguiça obcecada e sublime, faça parte do caráter nacional dos russos, o príncipe chega às terras de Tolstói, o gigante. Admira o homem e o escritor mas, como farão outros leitores inteligentes ou críticos literários naturais ao estilo de Kropotkin, não engole a abjuração da arte encenada pelo velho Tolstói. Claro – o diz um anarquista russo – que A guerra e paz é “uma fonte indecifrável de prazer estético”!

Kropotkin era alheio tanto à doutrina da Arte pela Arte como ao cristianismo utilitário de Tolstói, pessoa com quem nunca se encontrou. Falecidos Herzen (1870), Bakunin (1876) e o próprio Tolstói (1910), o príncipe herdou a liderança espiritual do anti czarismo, mas ainda antes, quando o conde de Yásnaia Poliana era um aliado poderoso, se atreveu a discutir sua condenação da arte. Concedendo o ácrata que a Bíblia era um tesouro insuperável, se negava – como Tolstói – a comparar uma canção popular, própria de um meio dia bucólico, com uma sonata de Beethoven, “uma tormenta nos Alpes”. É que se algo sobrava a Kropotkin era senso comum: entendia a necessidade política dos novelistas camponeses, precursores do realismo socialista, mas deles só resgatava, por seus poderes artísticos, o jovem Máxim Gorki – me deu vontade de relê-lo graças ao príncipe – capaz de dizer que um rebelde vagabundo é um Schopenhauer a sua maneira.

Retratando os grandes críticos russos de seu século – Visarión Belinski, Nikolái Dobroliúbov, Dmitri Písarev, Nikolái Mikhaylovski –, Kropotkin reiterou uma certeza. Em nenhum país do mundo, como na Rússia dos czares, o crítico de arte e literatura foi tão importante. A censura exige às letras expressar de maneira apaixonada e implícita aquilo que importa, o que está proibido e cabe o mesmo para “a questão social” e à beleza das ideias. No príncipe, a crítica literária se dá naturalmente, como extensão própria das humanidades renascentistas e da ciência prática do século XIX. Ele, que havia explorado tudo quanto à sociedade e à Natureza, com essa ingenuidade do anarquista e do liberal – depois de tudo também acusado de candidez –, não poderia deixar de visitar sua própria literatura. E o fez com autoridade e, certamente, nobreza. Sem preconceitos, alheio aos dogmatismos dos fanáticos da liberdade que cultivou e encabeçou, adversário de Marx, na Federação Obreira do Jura. Por isso, em De profundis, Oscar Wilde confessou: “Duas das vidas mais perfeitas que conheço são as de Verlaine e a do príncipe Kropotkin: ambos passaram anos no cárcere. Verlaine, o único poeta cristão posterior a Dante; Kropotkin, um homem com a alma desse belo Cristo níveo que parece a ponto de surgir da Rússia.”

Fonte: https://www.letraslibres.com/mexico/revista/el-principe-kropotkin-y-la-literatura-rusa#.YC1IvkkbvE4.twitter

Tradução > Sol de Abril

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Quietos, no jardim,
mãos serenadas. Na tarde,
o som das cigarras.

Yberê Líbera

[Espanha] Lançamento: “Cartilha escolar antifascista”

A educação popular foi um dos pilares fundamentais da transformação social em tempos da II República, e a Cartilha escolar antifascista foi sem dúvida a ferramenta mais eficaz para definir e implantar seus valores entre as milícias republicanas por parte do Ministério de Instrução Pública em sua luta contra o analfabetismo. A primeira edição foi impressa em Valência em 1937, com uma tiragem de 150.000 exemplares.

A Cartilha escolar antifascista, concebida e distribuída durante a contenda bélica, pretendia iniciar no conhecimento das operações aritméticas básicas e da leitura e escrita os soldados do bando republicano e, ao mesmo tempo, conscientizá-los e comprometê-los com a luta antifascista. Neste folheto todas as classes foram representadas e serviu como panfleto reivindicativo tanto na luta pela democratização da cultura como na luta contra o fascismo. Seu particular modo de unir educação matemática, propaganda política e arte de vanguarda lhe valeu, sem dúvida, a condição de “livro singular”.

O texto desta cartilha foi redigido, a pedido do Ministério de Instrução Pública, por Fernando Sáinz Ruiz e de Eusebio Cimorra. A confecção gráfica veio da mão de Mauricio Amster, um dos artistas gráficos mais destacados da época, além de renomado tipógrafo, e dos fotógrafos José Val del Omar e José Calandín Guzmán.

Cartilla escolar antifascista

Libros del Zorro Rojo, Madrid 2020

96 págs. Rústica 24×17 cm

ISBN 9788412270556

18,90 €

librosdelzorrorojo.com

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em zigue-zague
mosquitos-pólvora pairam
final de tarde

Marcos Amorim

[Itália] 1º de Maio de 2021 em Cavriago

MANIFESTAÇÃO NA PIAZZA ZANTI EM CAVRIAGO ÀS 11 HORAS DA MANHÃ.

Durante o dia, haverá uma exposição sobre os 100 anos do semanário anarquista Umanità Nova. Haverá coros e vários músicos. A manifestação terá a participação da Anpi Cavriago e da Alternativa Libertária.

O 1º de Maio de 2021 marca o 100º aniversário do assassinato do anarquista Primo Francescotti e Stefano Andrea Barilli, ambos assassinados por fascistas na praça de Cavriago, em 1921.

As anarquistas e os anarquistas reggianos não podiam deixar de lembrar essas duas figuras, um século depois desses acontecimentos dramáticos, a alguns passos do local do massacre, através de uma presidência com as intervenções de Federico Ferretti, Gino Caraffi e Ugo Pellini.

Primo Francescotti nasceu em Cavriago em 18 de setembro de 1887. Em 1907 ele emigrou para os Estados Unidos em busca de um futuro melhor, depois de um jovem passado na pobreza, desde muito jovem fazendo biscates na agricultura e na construção civil. Uma vez na América, ele se estabeleceu em Plainsville (Pensilvânia) onde, junto com muitos outros imigrantes italianos, encontrou trabalho nas minas de carvão. Aqui
começa uma verdadeira jornada política e humana que o leva a aproximar-se do anarquismo, unindo-se ao grupo local de língua italiana “La Canaglia”, parte integrante da comunidade anarquista que realiza uma militância política e sindical também através de um pequeno periódico chamado “Nihil”.

Em outubro de 1915 Francescotti optou por voltar à Itália acreditando que a guerra representava a abertura de um verdadeiro processo revolucionário no país. Quando ele voltou a Cavriago, depois de conhecer realmente a realidade italiana, seu entusiasmo se transformou em uma clara rejeição da guerra. Francescotti foi obrigado a se alistar e, para evitar a frente, simulou uma doença mental e foi internado no hospital psiquiátrico militar de Como.

Ele retornou a Cavriago somente em 1919 e no ano seguinte continuou sua militância na Itália: juntou-se ao grupo anarquista “Spartaco”, tornou-se orador do “Umanità Nova” e tentou fortalecer as relações entre grupos fora da província.

Em 1º de Maio de 1921 Francescotti, juntamente com outros camaradas anarquistas como Pellegrino Mazzali e Ugo Fortunati, enfrenta abertamente os fascistas, que queriam impedir o dia de luta dos trabalhadores, e é morto a tiros pelo esquadrão. O mesmo destino recai sobre Stefano Andrea Barilli. Após um falso julgamento, com a cumplicidade total do Estado, todos os fascistas responsáveis pelo massacre serão absolvidos.

Federação Anarquista Reggiana – FAI

Tradução > Liberto

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alma e lua ah lumes
bambo embalo de bambus
flauta e flume fluem

Alice Ruiz