Tradução | Ajuda | Colaboração

[Grécia] Patras: Informações da passeata de solidariedade aos imigrantes insurgentes de Corinto

Na tarde de quarta-feira, 31 de março, foi realizada uma passeata em solidariedade aos refugiados e imigrantes, por ocasião do suicídio de um jovem refugiado e do levante que se seguiu no campo de concentração de Corinto. O encontro foi acompanhado por associações estudantis, organizações de esquerda e coletivos anarquistas, e também participaram vários imigrantes e refugiados que vivem na cidade de Patras.

Mais de 250 pessoas participaram do protesto. Cerca de 80-100 pessoas participaram do bloco anarquista comum que foi formado após a chamada do grupo Cavalo Indomável e da Assembleia Aberta de Anarquistas de Patras.

agência de notícias anarquistas-ana

Eis a forma
Do vento do outono:
O capinzal!

Kigin

[Espanha] Voar como um leão rebelde, raízes políticas da canção de protesto

Eugenio Cortés engloba em uma apresentação a biografia de Joe Hill e o anarcossindicalismo na origem da canção de protesto norte-americana.

Por Inés Villodre | 25/03/2021

No lloréis por mí, organizaos“, foram algumas das últimas palavras do cantor e político Joe Hill dias antes de ser fuzilado. Condenado em circunstâncias estranhas, o músico enviou uma última carta a Bill Haywook, um dos dirigentes e companheiros da Industrial Workers of World que mais tarde apresentou como lema suas palavras. Uma forma de recordar a controvertida execução de um de seus líderes, mas também um representante da agitação musical no seio do anarcossindicalismo do início do século XX, que mais tarde daria lugar ao que entendemos por canção de protesto nos EUA.

Eugenio Cortés, professor de literatura e Cultura Inglesa na Faculdade de Educação da Universidade de Castilla-La Mancha, realizou na segunda-feira passada, 22/03, uma apresentação sobre estas origens culturais e políticas representadas por Hill, que derivarão mais tarde em figuras como Woody Guthrie e sua famosa frase “esta máquina mata fascistas” escrita em sua guitarra, até chegar a figuras como a de Bob Dylan.

Falar da canção de protesto norte-americana é necessariamente fazer referência a seus movimentos políticos. Sobre os pilares nos quais surgiu esta música, se encontram as vozes dos escravos, dos imigrantes, dos cantos das igrejas protestantes, de gerações deserdadas às quais Joe Hill pertencia. E que se vincularam muito estreitamente ao movimento anarcossindicalista. O cantor nasceu nos braços de uma família protestante, que lhe permitiu desde jovem ter uma proximidade muito estreita com a música e os instrumentos, com os quais mais tarde comporia hinos políticos tão relevantes como There’s a power in the union, Should I ever be a soldier ou Pie in the sky (Preacher and slave).

Desde a revolta anarcossindicalista da Baixa Califórnia à Revolução Mexicana, Joe Hill esteve presente em diversas iniciativas, comprometido com os valores políticos derivados das leituras de Kropotkin ou Malatesta que influenciaram o movimento político, presente em especial através da International Workers of World, chamados popularmente wobblies, e presentes também em países como Reino Unido, Canadá ou Japão. Também estas ideias influenciaram sua forma de fazer música, por meio da incorporação do corrido mexicano ou a música de banjo, um instrumento que mais tarde simbolizará a canção de protesto e que foi tomado por ele para representar os mais desfavorecidos.

Uma figura musical relevante, que, no entanto, não esteve isenta de esquecimento consciente por parte das instituições norte-americanas. Só em 1969 se começou a reivindicar o legado musical e político que sua figura havia tido na história do movimento político nos EUA, chegando a realizar-se um filme homônimo, dirigido pelo cineasta sueco Bo Widerberg. Uma pequena forma de recordar aquele homem que olhava mais além da parede e que voou como um leão rebelde, deixando seu legado de música na história.

A conferência de Eugenio Cortés “Rojo, Banjo y Negro: la balada de Joe Hill y el origen anarcosindicalista de la canción protesta norteamericana” aconteceu no contexto do ciclo “Música, política y movilización social en la contemporaneidad” organizado pelo Seminário Permanente de Estudos Contemporâneos (SPEC).

Tradução > Sol de Abril

Fonte: https://nuevatribuna.publico.es/articulo/cultura—ocio/volar-como-leon-rebelde-raices-politicas-cancionprotesta-joehill/20210325180452186057.html

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agência de notícias anarquistas-ana

De espantalho
Para espantalho,
Voam os pardais.

Sazanami

[Espanha] Madrid: Crônica da concentração em Tirso de Molina em solidariedade com os anarquistas presos em Barcelona e todos os reprimidos

No domingo passado, 28 de março, cerca de 100 pessoas se reuniram na Praça Tirso de Molina, num pequeno gesto de solidariedade com os presos nas últimas semanas no estado espanhol, devido aos tumultos e protestos contra a prisão (e não só) de Pablo Hasél. 7 camaradas anarquistas estão na prisão, acusados da tentativa de incêndio de uma van da polícia em Barcelona durante os protestos. Nós nos preocupamos pouco com sua inocência e culpa, além de entender como totalmente legítimo qualquer ato de ataque aos capangas do Estado, que semeiam brutalidade à voz de seus senhores. Um constante fluxo de detenções, em nossa cidade e em outras, que não parou até uma semana atrás (até agora). Entre os participantes houve também um gesto de cumplicidade com os grevistas da fome no Chile, os prisioneiros anarquistas, os subversivos e da revolta; com a FACG e a repressão ao anarquismo e seus projetos nas Ilhas Canárias e com todos aqueles reprimidos como resultado do confronto com o Estado.

Sob o olhar atento de um helicóptero da polícia e de alguns policiais à paisana (grande trabalho de “camuflagem” dos fardados) o comício tornou-se um desfile animado, entre gritos e slogans contra a repressão e o Estado; para terminar na Praça de Lavapiés.

Sabemos que um simples comício não é suficiente como fórmula para apoiar nossos camaradas presos e detidos, mas ao mesmo tempo nos parece importante reforçar a presença nas ruas, sem pedir permissão de nenhuma autoridade, à qual não concedemos nenhuma legitimidade para regular o protesto e a luta. Temos que reforçar a presença nas ruas, não deixar ir, e mostrar que ela está ali, nas ruas, nos bairros e nos centros de estudo e trabalho, onde a luta é, em toda sua amplitude e multiformidade, longe de escritórios, pactos e parlamentos.

Agora é hora de fazer um balanço destas últimas semanas, desta primeira rodada do ano 2021. Mostrar nossa solidariedade com o povo preso e reprimido ao mesmo tempo em que combatemos o medo depois de ter mostrado que o Estado, em sua forma democrática, bate forte, pois não poderia ser de outra forma. Mas como a junco que recebe a pressão do vento e se dobra, nunca iremos quebrar. Vamos continuar e aumentar a luta em todas as frentes.

Não temos medo! Estamos com raiva!

Anarquistas e prisioneiros subversivos em todo o mundo, para as ruas!

Abaixo com os muros!

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

O sino do anoitecer –
E o barulho dos caquis maduros
Caindo no jardim do templo!

Shiki

[Chile] Bakunin to school – Software livre de auto-aprendizagem

Diante do isolamento pandêmico, desenvolvemos um software livre de auto-aprendizado, porque queremos que todos possam aprender por si mesmos fora de qualquer instituição estatal.

Um aprendizado livre para aqueles que estão começando neste maravilhoso mundo do conhecimento, este software conta com diferentes cursos nas áreas de arte, design e arquitetura, saúde, educação, história e geografia críticas, ciências naturais, ecologia social, economia solidária e muito mais…

>> Baixar, Compartilhar e Aprender:

https://www.mediafire.com/file/9xrd7jj6q6qx8ip/Bakunin_to_school.exe/file

editorialautodidacta.org

agência de notícias anarquistas-ana

Ouvindo o nome,
Vejo de novo:
Flor de capim.

Teiji

Música nova do Ktarse | Império midiático – Parte I

Ktarse, rap da quebrada, combativo e anárquico!

L e t r a

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O poder de manipular, controlar e alienar / Introjetar desejos no imaginário popular / Para propagar os interesses Capitalista / A rede Globo é uma autenticada mídia racista

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Sanguessugas que se alimenta da desgraça / Domesticando a mentalidade das massas / Transformando a ignorância em espetáculo / A Globo é um laboratório dos endinheirados

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Não existe neutralidade não se iluda / Nosso olhar é condicionado pela cultura / Por diversos mecanismos do inconsciente / Invadem nosso psicológico diariamente

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Forjando na infância, os desejos / Traumas, afetos, consumismo, preconceito / A rede Globo te faz amar o opressor / Manipulando a mente do telespectador

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A família Marinho constituiu sua corporação / Com a manipulação, genocídio e escravidão / Utilizando técnica hipnótica / Dominando o Brasil de forma tenebrosa

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Na arte de manipular não tem pra ninguém / Constrói presidentes quando lhe convém / Com tecnologia de comunicação, vai vendo / Financiadora pelo o capital estrangeiro

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Pela indústria bélica, armamentista / Ampliando o poderio dos Imperialistas / Apoiaram a ditadura militar com a CIA / Com investimento da indústria petrolífera

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A Globo é subserviente do imperialismo / Articuladora radical do neoliberalismo / A rede Globo visa somente negócios / Mídia orquestrada pelos poderosos

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REFRÃO

A estratégia de manipulação da mídia / São armas silenciosas para guerras tranqüilas / O poder de hipnotizar o povo é tenebroso / Esse é o império midiático da Globo

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Quem controla o discurso controla o poder / As narrativas da Globo servem para te manter / Na mediocridade na ignorância explicita / São armas silenciosas para guerras tranquilas

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A rede Globo controla os debates / Viabilizando as vozes da mediocridade / Pelas vias da internet, TV e radio / Deixando o publico hipnotizado

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Abobalhando o telespectador / Com telenovelas e reality show / Criam personagens depreciativos / Reforçando as estruturas do racismo

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Em todos os sentidos nos inferioriza / Humilhando o povo da periferia / Elevando seu ibope, sua audiência / Naturalizando a miséria, a pobreza

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A mulher negra faz papel de empregada / Que pela patroa branca é humilhada / E que pelo patrão é assediada / Desejada, insultada, violentada

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Sobrevivendo na subalternização / Que não resiste aos desejos do patrão / Cristalizando no imaginário popular / Que as mulheres brancas são para casar

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As negras servem para trabalhar e trepar / Estratégia maquiavélica em manipular / Os homens negros são estereotipados / Em personagens como malandro, drogado

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Porteiro, faxineiro, indolente, bandido / Trapaceiro, traficante, mendigo / A globo é ideologicamente racista / LGBTfobica, fascista

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REFRÃO

A estratégia de manipulação da mídia / São armas silenciosas para guerras tranqüilas / O poder de hipnotizar o povo é tenebroso / Esse é o império midiático da Globo

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Naturalizaram que as pessoas da periferia / São serviçais subservientes da burguesia / Estratégia da lavagem cerebral / Para esconder o racismo estrutural

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Te impendem de pensar criticamente / O racismo camuflado sistematicamente / A globo sabe mantém o povo manipulado / Falam de racismo quando um negro é espancado

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Morre asfixiado por um verme fardado / Ou quando um jogar é xingado / Essa é uma estratégia da mídia burguesa / Falar de racismo em situações extremas

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Esse é o crime perfeito dos Marinhos / Manipuladores das raízes do racismo / O intuito é manter os privilégios de classe / Que a branquitude usufrui na sociedade

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Mantendo a periferia subalterna / Refém da violência e da miséria / Com sentimentos derrotistas / É assim que opera ideologia racista

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Nossa Combatividade é histórica / Queremos igualmente e não esmola / Nosso legado é de luta resistência / A rede Globo teme essa potência

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Por isso que anestesiam os pobres / Com programa fúteis tipo o big brother / Hipnotizando de forma maquiavélica / Banalizando o debate com estratégia

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De difamação da militância, ativismo / Celebridades pra luta é desserviço / A Globo é especialista em forja narrativas / Em desqualificar o debate antirracista

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Frear e enfraquecer nossas pautas de luta / É primordial para uma emissora / Que compactua com ditadores e tiranos / Com o modo de vida norte Americano

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A Globo perpetua os privilégios / Criminalizando os sem terras, os sem tetos / Que lucra com a injustiça social / Com o mito da democracia racial

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A Globo é herdeira da casa grande / Que lucra de forma exorbitantes / Com derreamento de sangue e genocídio / Dos africanos e dos povos nativos

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A Globo manipula de forma intensa / Para que a periferia não perceba / Que o maior crime e atentado a vida / É um país dominado por seis famílias

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Maiores concentradores de riqueza / Enquanto a quebrada agoniza na pobreza / Um por cento de ricos filhos da puta / São acumuladores de fortuna

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Não há ricos sem empobrecido / Não há capitalismo sem racismo / A Globo é orquestrada pelos capitalistas / Império midiático dos supremacistas

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REFRÃO

A estratégia de manipulação da mídia / São armas silenciosas para guerras tranquilas / O poder de hipnotizar o povo é tenebroso / Esse é o império midiático da Globo

>> Escute a música aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=UsVI9i1ZQs4

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Nos olhos da libélula
Refletem-se
Montanhas distantes.

Issa

[Grécia] Condições desoladoras no campo de imigrantes de Corinto levam jovem ao suicídio

İbrahim Ergün, um curdo turco de 24 anos, foi encontrado pendurado no teto em um banheiro no campo de imigrantes de Corinto, onde passou os últimos 17 meses. Seu colega de quarto na última metade do ano disse que foram as más condições do campo que levaram ao suicídio do jovem. Segundo os imigrantes, o campo de Corinto é uma prisão construída para punir os imigrantes.

Ergün se suicidou em um acampamento a 80 quilômetros de Atenas. Preso em Corinto desde dezembro de 2019, ele recebeu no mês passado a decisão de deportação de volta à Turquia.

Ergün foi interceptado pelas autoridades enquanto tentava viajar para a Itália do porto grego de Igoumenitsa em novembro de 2019 e, um mês depois, foi enviado para o campo de Corinto, onde cerca de 800 homens, principalmente do Paquistão e do Afeganistão, aguardam deportação.

Em Corinto, a polícia grega entrega um documento aos requerentes de asilo que diz que eles ficarão 50 dias detidos. A cada 50 dias, o documento é renovado. Ergün foi disputado em Corinto pelos últimos 17 meses, após extensões consecutivas de 50 dias. Seus amigos dizem que ele ficou psicologicamente arrasado após a decisão de expulsá-lo.

Cicatriz  profunda no abdômen

Os amigos de Ergün o descrevem como um oponente do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e explicam que ele decidiu deixar a Turquia depois que mandados de detenção foram emitidos contra ele por participar de protestos na Turquia promovendo os direitos curdos.

Ergün também tinha uma cicatriz cirúrgica profunda em seu abdômen e disse a outros imigrantes que já havia se submetido a um tratamento para câncer de cólon. Seus amigos dizem que ele foi levado ao médico uma vez por causa de sua condição; no entanto, ele não foi capaz de obter o relatório do médico.

O que levou Ergün ao suicídio foi a incerteza e as condições físicas do campo de imigrantes. Os requerentes de asilo queixam-se de que nenhum deles recebe informação adequada sobre o tempo de permanência no país.

“A maior preocupação são os percevejos. Os corpos das pessoas estão cobertos de picadas. E a falta de sono faz com que você fique constantemente nervoso”, disse um imigrante que falou sob condição de anonimato. “Os requerentes de asilo são responsáveis pela higiene, mas não recebem produtos de higiene. O aquecimento da água é feito com base na energia solar, que não é suficiente no inverno. Não é possível pedir comida, detergente ou mesmo pasta de dente do lado de fora. As refeições são péssimas e você perde peso durante o tempo que fica no acampamento.”

“O pior de tudo é a incerteza. Eles colocam você atrás das grades e ninguém fala com você depois. Sem anúncios. Você não sabe quanto tempo vai ficar. Você só recebe os papéis de renovação a cada 50 dias.”

Os imigrantes dizem que funcionários do acampamento estão tentando ajudar e que eles não são maltratados. No entanto, eles alegaram que a gestão do campo, que eles chamam de “administração da prisão”, estava sendo despótica ao dificultar o acesso aos cuidados de saúde, restringir o acesso a produtos de higiene e mantê-los no campo pelo maior tempo possível. De acordo com os requerentes de asilo, a administração às vezes ignora ordens judiciais para a libertação de imigrantes.

Dezessete meses com as mesmas roupas

Era dezembro quando Ergün foi trazido para Corinto. “Ele estava com um suéter e calças, que tinha que usar no verão e no inverno. Ele não tinha dinheiro”, disseram seus amigos, destacando que os acampamentos não recebem roupas ou outras ajudas econômicas que, somadas a uma alimentação inadequada, levam muitos à depressão.

Após o suicídio de Ergün, os imigrantes atearam fogo nas cabines da polícia para protestar contra as condições do campo.

agência de notícias anarquistas-ana

A lua minguante
procura com quem falar
na boca da noite

Ronaldo Bomfim

[EUA] David Graeber: Após a Pandemia, não podemos dormir novamente

Por David Graeber

Em um ensaio escrito um pouco antes de sua morte, David Graeber argumentou que após a pandemia, não podemos voltar para uma realidade onde a forma como nossa sociedade é organizada – servir a todos os caprichos de um punhado de pessoas ricas enquanto humilham e degradam a grande maioria de nós – é vista como sensata ou razoável.

Antes de sua morte trágica e prematura aos cinquenta e um anos em setembro de 2020, o anarquista, antropólogo e articulador David Graeber escreveu esse ensaio sobre como a vida e a política poderiam ser após a pandemia de COVID-19. Jacobin está orgulhoso em publicar o ensaio de Graeber pela primeira vez.

Em algum momento nos próximos meses, a crise será declarada terminada, e nós seremos capazes de retornar aos nossos trabalhos “não-essenciais”. Para muitos, isso será como acordar de um sonho.

A mídia e as classes políticas vão definitivamente nos encorajar a pensar dessa forma. Foi isso o que aconteceu depois da crise financeira de 2008. Houve um breve momento de questionamento. (O que é “finanças”, afinal? Não são simplesmente dívidas de outras pessoas? O que é dinheiro? Não é simplesmente uma dívida, também? O que é uma dívida? Ela não é simplesmente uma promessa? Se dinheiro e dívida são simplesmente uma coleção de promessas que fazemos uns aos outros, então não poderíamos facilmente fazer promessas diferentes?) A janela foi quase que instantaneamente fechada por aqueles que insistiram que calássemos a boca, parássemos de pensar, e voltássemos ao trabalho, ou pelo menos que começássemos a procurar um.

Da última vez, a maioria de nós caiu nessa. Dessa vez, é fundamental que não o façamos.

Porque, na realidade, a crise que acabamos de passar foi o despertar de um sonho, um confronto com a atual realidade da vida humana, a de que nós somos uma coleção de seres frágeis cuidando uns dos outros, e aqueles que fazem o trabalho pesado deste cuidado que nos mantém vivos são sobrecarregados, mal-remunerados e humilhados diariamente, e que uma grande proporção da população não faz nada além de inventar fantasias, receber aluguéis, e de forma geral ficar no caminho daqueles que estão fazendo, consertando, movendo, e transportando coisas, ou atendendo as necessidades de outros seres vivos. É urgente que não caiamos de volta para uma realidade onde tudo isso faz algum tipo de sentido inexplicável, como as coisas sem sentido que costumam acontecer nos sonhos.

Que tal isso: Por que não paramos de tratar como totalmente normal que quanto mais diretamente o trabalho de uma pessoa beneficie os outros, é menos provável que ela seja paga por isso; ou insistir que os mercados financeiros são a melhor forma de direcionar os investimentos a longo prazo mesmo quando eles estão nos impulsionando a destruir a maior parte da vida na Terra?

Por que não, em vez disso, depois que a emergência atual for declarada encerrada, lembrarmos realmente do que aprendemos: que se “a economia” significa alguma coisa, ela é a maneira de fornecer uns aos outros o que precisamos para estar vivos (em todos os sentidos), que o que chamamos de “mercado” é em grande parte uma forma de catalogar os desejos reunidos dos ricos, a maioria dos quais são pelo menos ligeiramente patológicos, e os mais poderosos que já estavam completando os projetos para os bunkers que eles planejam escapar se continuarmos sendo tolos o suficiente de acreditar nas palestras de seus asseclas de que todos éramos, coletivamente, muito carentes de bom senso para fazer qualquer coisa a respeito das catástrofes que se aproximam.

Desta vez, podemos simplesmente ignorá-los?

A maioria do trabalho que estamos fazendo atualmente é o emprego dos sonhos. Ele existe apenas por sua própria causa, ou para fazer as pessoas ricas se sentirem bem consigo mesmas, ou para fazer as pessoas pobres se sentirem mal consigo mesmas. E se simplesmente parássemos, poderia ser possível fazer a nós mesmos várias promessas razoáveis: por exemplo, criar uma “economia” que nos permite realmente cuidar das pessoas que cuidam de nós.

SOBRE O AUTOR

David Graeber foi um antropólogo americano e ativista anarquista.

Fonte: https://jacobinmag.com/2021/03/david-graeber-posthumous-essay-pandemic

Tradução > Brulego

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Num só cobertor
Órfãos num canto da rua
– Menino e gatinho.

Mary Leiko Fukai Terada

[Espanha] “Eu também tenho um isqueiro”: crônica da manifestação em Mataró em solidariedade com os prisioneiros do 27-F

Em 27 de março de 2021, na localidade de Mataró, foi convocada uma manifestação solidária com Sara, María, Alberto, Danilo, Jalienne, Emmanuele, Ermano e Luca: presas e presos (a primeira já foi libertada com acusações) após uma operação policial que tentou ligá-los a uma célula de violentos anarquistas italianos, aproveitando toda a lenda negra que, historicamente, a imprensa burguesa espanhola e catalã construiu em relação ao movimento libertário neste país. E tudo isso no contexto dos protestos contra a prisão do rapper Pablo Hásel: o que nos coloca as e os anarquistas, que se manifestaram no sábado e/ou que demonstraram solidariedade de outras formas, em um cenário de resposta à repressão com aqueles que, por sua vez, se mostravam solidários pela mesma coisa. Digo isto porque acho necessário refletir sobre esta situação porque parece que já caímos na dinâmica de ação-repressão-ação que indica um momento de refluxo na luta. Na verdade, este é o ponto onde o sistema quer nos ver e do qual temos que tentar sair.

Por volta das 19:00 horas cerca de cinquenta pessoas se reuniram em frente à estação de trem Renfe e, após algum tempo para esperar a possível chegada de mais manifestantes, ocupamos a estrada N-II, exibindo duas faixas e uma bandeira anarquista. Sobre a maior delas foi escrita a frase que também tenho um isqueiro (referindo-se à história bizarra inventada no relatório policial dos Mossos [polícia catalã] de que as pessoas presas faziam parte da mesma célula por terem o mesmo isqueiro: um objeto que eles dão nos pacotes de tabaco de enrolar e que é comumente usado), o outra menor foi carregada por dois ativistas do coletivo Movimiento Pro-aministia criado para mostrar solidariedade com a repressão das lutas anticapitalistas e para exigir uma anistia total.

Seguidos de perto por uma força policial local, descemos a estrada gritando slogans como se eu também tivesse um isqueiro, liberdade para nossos camaradas porque o estado os tem prisioneiros, abaixo com os muros da prisão, as prisões são centros de extermínio ou visca, visca, visca ou Maresme anarquista até chegarmos a uma rotatória e virar à direita onde acima ficava a delegacia de polícia dos Mossos d’Esquadra. A medida que nos aproximávamos, o tom dos slogans aumentava, à medida que a polícia torturava e assassinava, por toda a raiva acumulada contra esses assassinos do proto-Estado capitalista catalão que nos aguardavam fazendo um cordão, com capacetes e bastões em mãos: houve alguns momentos de tensão sem chegar a nos golpear e nos movemos para a esquerda entrando no centro da cidade.

Continuamos gritando palavras de ordem e distribuindo alguns folhetos aos vizinhos que observavam a marcha até chegarmos à porta da prefeitura onde as duas faixas foram desfraldadas e o comunicado de solidariedade com os camaradas presos foi lido diante do olhar atônito de uma multidão de transeuntes, alguns dos quais não pareciam entender muito bem o que estava acontecendo: deve-se dizer que alguém que participou da manifestação se encarregou de explicá-lo a qualquer um que se aproximasse curioso para perguntar. Enquanto isto acontecia, fomos observados de perto por vários membros da Polícia Local, estacionados em frente a um escritório de um banco, ao qual um manifestante ironicamente reprovou que estavam protegendo um banco perante a Câmara Municipal, o que causou algumas risadas.

Aqui parecia que a manifestação ia terminar, mas não foi assim porque decidimos continuar a fazer barulho com o que estávamos encontrando, cercas de metal e de obras, enquanto continuávamos a gritar os slogans mencionados. Finalmente chegamos ao ponto de saída onde para terminar cortamos novamente a N-II por um tempo, mostrando as faixas para os veículos, até que foi decidido acabar com a demonstração que, no início e no final, foi discretamente vigiada (ou assim pensavam) por um grupo de pessoas secretas. Pessoalmente, acho que, apesar de não sermos muitas pessoas, houve muito incentivo e combatividade e foi uma marcha mais longa do que o esperado.

Liberdade aos prisioneiros do 27-F

Abaixo com os muros

Alma apátrida

Fonte: https://alma-apatrida.blogspot.com/2021/03/yo-tambien-tengo-mecherocronica-de-la.html

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

quarto escuro
silhuetas se amam
pecado puro

Carlos Seabra

[Espanha] Volta a revista Aula Libre, carregada de reflexões educativas

A Revista Aula Libre, promovida pela Federação de Ensino da CGT, volta a ser  reeditada.

A Revista Aula Libre, promovida pela Federação de Ensino da CGT, volta a ser reeditada. O primeiro número desta nova época acaba de sair em fevereiro deste ano, sendo elaborada desde o começo da pandemia do coronavírus. Da mesma forma, é fruto da colaboração de pessoas filiadas em diferentes territórios do Estado espanhol, concretamente em Andaluzia, Astúrias, Canárias, Madrid e Catalunha, as quais estão relacionadas com a educação de algum modo (educação pública, escolas livres, Universidade…).

Por último, destacar que nossa intenção, em linhas gerais, é difundir as ideais que giram em torno à pedagogia libertária. Desta maneira, ao longo destas páginas queremos tornar visível a pluralidade de experiências e de perspectivas que fazem parte da equipe de redação e das pessoas colaboradoras. Deste modo, esperamos e desejamos saber transmitir todo um leque de possibilidades que tenham o poder de enriquecer nossa prática educativa diária. E não nos referimos somente a um enriquecimento como profissionais da educação, mas também de sermos capazes de transferir esses conhecimentos a todos os aspectos de nossa vida. Desta maneira, conseguiremos ser coerentes entre nosso PENSAR, SENTIR e FAZER, um aspecto chave para fomentar a TRANSFORMAÇÃO de nossa sociedade em outra cada vez mais livre, justa e igualitária.

Podem encontrá-la em formato papel e também em formato digital:

https://aulalibrefecgt.com/

Boa leitura.

A equipe de redação

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Chuva de outono
Folhas secas de momiji
Entopem a calha

Chico Pascoal

Grupo de Estudos sobre Anarquismos, Feminismos e Masculinidades | Ação Direta, de Voltairine de Cleyre

03 de abril de 2021, sábado, às 16h – encontro online com intérprete de Libras

Ação Direta, de Voltairine de Cleyre

Disponível em: https://tinyurl.com/abril-acaodireta

Como Participar?

No encontro de abril, iremos falar sobre o conceito de ação direta, a partir do texto da anarquista americana Voltairine de Cleyre. Devido à pandemia de Covid-19, iremos realizar o encontro de forma virtual, o link para o encontro é https://meet.google.com/jjb-zizg-kzs. Não é necessário realizar inscrição. Os encontros do grupo são gratuitos e abertos para todas as pessoas interessadas. Sugerimos a leitura do texto para embasar nossas trocas, e então é só acessar o link do Meet no dia e horário do encontro para debatermos as ideias. Teremos intérprete de Libras.

Histórico

Grupo de Estudos sobre Anarquismos, Feminismos e Masculinidades é uma iniciativa do Centro de Cultura Social de São Paulo.

O Centro de Cultura Social de São Paulo foi fundado em 14 de janeiro de 1933 como remanescente das entidades culturais criadas pelo movimento anarco-sindicalista e libertário nas primeiras décadas do século XX e tem por finalidade estimular, apoiar e promover nos meios populares, o estudo dos problemas sociais, bem como pretende desenvolver o espírito de solidariedade, se opondo a todas as formas de opressão e de exploração que prejudicam as liberdades individuais e coletivas.

Objetivos

O Grupo tem o objetivo de estudar, refletir e debater textos sobre mulheres anarquistas ao longo da história e suas relações com a luta pela igualdade de gênero e libertação humana de toda forma de opressão.

A proposta do Grupo é dar visibilidade, principalmente, para as mulheres anarquistas, que foram esquecidas, tanto pela História oficial quanto pelos movimentos de esquerda. Dessa forma, pretendemos dar voz e vida a essas mulheres guerreiras, muito a frente de seu tempo, assim como a um movimento filosófico-político-econômico-social que sofreu dos dois lados da trincheira e sofreu um apagamento propositado para tentarem ocultar a ideia e a história revolucionária da humanidade.

Tanto a filosofia, quanto a prática do grupo estão orientadas pelos princípios do anarquismo, ou seja, autogestão, autonomia, cooperação, solidariedade, liberdade, igualdade, responsabilidade, anticapitalismo e não partidarismo.

Metodologia

Os encontros são abertos e contínuos. Então, pode participar de um ou de todos os encontros, mas não há obrigação, até porque não é um programa fechado, mas uma proposta flexível e em permanente construção cooperativa e autogestionária, que preza pela autonomia e participação das pessoas, incentivando, preservando e fortalecendo a liberdade e a igualdade.

As atividades do Grupo são divulgadas pela página do Instagram, Facebook e site do Centro de Cultura Social de São Paulo, bem como para as pessoas participantes, possuímos um grupo de Whatsapp para a divulgação de informações das atividades e outros assuntos relacionados.

Os textos são definidos pelas pessoas organizadoras, juntamente e/ou acolhendo sugestões de textos das demais pessoas participantes. Os textos selecionados estão sempre disponíveis online, os links são compartilhados via convite e divulgação nas redes sociais a fim de que seja efetiva a leitura, anotações e reflexões pessoais antes do próximo encontro.

Centro de Cultura Social

E-mail: ccssp@ccssp.com.br  – Site: www.ccssp.com.br – Facebook: www.facebook.com/CCSSP33 – Instagram: @centro_de_cultura_social

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agência de notícias anarquistas-ana

mãos que se tocam
olhos que se encontram
beijo na boca

Carlos Seabra

Violet Gibson, a mulher que tentou assassinar Mussolini, e que a História quase esqueceu

Quase mudou o curso da história, mas a História deixou-a quase esquecida. Violet Gibson, a “louca”, que quase assassinou o ditador Mussolini, terá uma placa em seu nome erguida na Irlanda

Uma das quatro tentativas de assassinato de Benito Mussolini, líder do Partido Nacional Fascista e primeiro ministro de Itália desde 1922, e considerado uma das figuras-chave do fascismo na Europa no século passado, e a que mais perto ficou do seu objetivo, foi perpetrada por Violet Gibson, em 1926. No entanto, apesar de amplamente noticiada na altura, foi a única que não mereceu grande atenção da História.

Baseado no livro “The Woman Who Shot Mussolini”, 2010, de Francis Stoner-Saunders, o documentário em áudio, em 2014, de Siobhán Lynam, deu-lhe outra projeção, e, em 2020, a tentativa de assassínio deu origem ao filme “Violet Gibson, The Irish Woman Who Shot Mussolini”, dirigido por Barrie Dowdall, marido de Siobhán.

Agora, um século depois, o seu feito será homenageado na Irlanda, onde Mannix Flynn, conselheiro municipal de Dublin, apresentou uma moção para que fosse erguida uma placa em sua honra.

“Convinha tanto às autoridades britânicas, como à sua família considerá-la [a Violet Gibson] ‘louca’ em vez de ativista. É agora a altura de trazer Violet Gibson para o olhar público e dar-lhe o seu merecido lugar na história das mulheres irlandesas e na história da sua nação e das suas pessoas” escreveu Mannix na moção. Contando já com o apoio da família de Violet Gibson, espera-se que a proposta avance, nas próximas semanas, para o comitê municipal seguinte. Mannix adiantou ainda à BBC que a placa ficará na casa de infância de Violet, na área de Merrion Square, no centro de Dublin, se o proprietário da casa o autorizar.

Quem foi Violet Gibson?

Violet nasceu a 31 de agosto de 1876, na capital irlandesa, filha do aristocrata, advogado e político Edward Gibson, que ocupava na altura o mais alto cargo legal do país, o de Lorde Chanceler da Irlanda. Cresceu dividindo o seu tempo em viagens entre Dublin e Londres, frequentou a corte da Rainha Vitória e esteve noiva de um artista, que morreu antes de casarem.

Na História ficou registrada como uma “louca”, obcecada com religião e com a ideia de que tinha de cometer um sacrifício. Antes de se mudar para Roma, onde viveu num convento, diz-se ter estado num hospício em 1922. Terá tentado cometer suicídio em 1925, sem sucesso, tendo a bala que alvejou no seu próprio peito feito ricochete na costela, salvando-lhe assim, a vida.

Foi aos 50 anos, a 7 de abril de 1926, que se dirigiu para Piazza del Campidoglio, em Roma. Do meio da multidão ergueu a mão, não para saudar o ditador, que regressava ao carro depois de discursar numa conferência internacional de cirurgiões, mas antes para o alvejar à queima roupa. No exato momento em que Violet disparou, estudantes que se encontravam na multidão começaram a cantar uma canção fascista, em celebração do líder. Isto fez com que Mussolini virasse a cabeça na direção dos estudantes, desviando-se da bala, que apenas lhe acertou de raspão no nariz. Ainda disparou mais uma vez, mas a segunda bala ficou encravada no cano da pistola, descreve Siobhán Lynam no documentário.

A multidão apressou-se a deitar Violet ao chão, de onde só foi retirada por uma intervenção policial, impedindo que fosse seriamente agredida.

Já Mussolini, fez questão que não fosse dada qualquer atenção ao incidente e, horas depois, voltou a aparecer em público com um penso no nariz. Francis Stoner-Saunders escreveu no seu livro que o líder italiano ficou envergonhado com a situação, não só pelo fato de os seus seguranças terem falhado, mas também por ter sido alvejado por uma mulher. “Ele era muito misógino, tal como o resto do regime fascista. Ficou chocado por ter sido alvejado por uma mulher, e que esta fosse estrangeira. Foi uma lesão no seu ego”, acrescenta ao jornal The World.

Por este motivo, o ditador não quis que a irlandesa fosse a julgamento em Itália. Ao invés, foi feito um acordo para que fosse deportada para Inglaterra, onde dois médicos a consideraram louca, com o consentimento da família Gibson, que achavam o seu ato uma vergonha para a família. “Foi libertada [de Itália] com a condição de ser presa para o resto da vida” afirmou Siobhán à BBC.

 Violet foi, então, enviada para um hospital psiquiátrico de St Andrews em Northhampton. Francis admite que, apesar de Violet ter tido problemas de saúde mental e esgotamentos nervosos no passado, convinha a Mussolini que esta fosse retratada como louca, em vez de indignada com a sua política. A escritora defende ainda que o tratamento dado à irlandesa foi o típico da altura, sendo habitual, em 1920, considerar mulheres como loucas. “Excluía a possibilidade de que alguém pudesse ser louco ou ter momentos convencionalmente descritos como loucura, e ter também pensamentos políticos legítimos. Como ela tinha”, acrescenta.

O que leva Siobhán e o marido, Barrie, a acreditar que Violet não era louca, são as cartas que a mesma escreveu apelando para que fosse libertada do hospital. Nunca foram enviadas, mas eram destinadas a importantes figuras como a Princesa Isabel (atual rainha britânica) e Winston Churchill, que se pensa ter conhecido Violet pessoalmente, durante a sua infância na Irlanda. “Se este feito tivesse sido perpetrado por um homem, havia provavelmente uma estátua ou alguma coisa erguida. Como era mulher, foi presa. Violet Gibson foi bastante corajosa no que fez, e entre ela e Benito Mussolini, e todas as coisas que este fez, quem é que era realmente louco?”, acrescentam os autores ao canal noticioso.

Violet morreu com 79 anos no hospital de St Andrews. Nenhum dos seus familiares esteve presente no funeral. Foi enterrada no cemitério de Kingsthorpe, em Northhampton, com uma lápide simples que apenas contém o seu nome e as datas de nascimento e morte.

Nunca saberemos como se teria dado a história se tivesse conseguido matar Mussolini naquele dia. Mas podemos imaginar que teria mudado o decorrer da Segunda Guerra Mundial. Teria um novo líder italiano apoiado Hitler no conflito mais letal da história da humanidade?

Fonte: https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2021-03-22-violet-gibson

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/24/italia-anteo-zamboni-o-menino-que-quase-matou-benito-mussolini-2/

agência de notícias anarquistas-ana

Ele fuma
à soleira da porta,
e é a fumaça que sai.

Werner Lambersy

[Espanha] Libertários: os heróis esquecidos que lutaram contra o franquismo

• Na sede da Associação para a Recuperação da Memória Histórica, pode-se lembrar desses heróis esquecidos que lutaram pelos direitos trabalhistas individuais e coletivos desde o movimento libertário, até 15 de abril.

Por Madalina Panti | 24/03/2021

À beira de completar 100 anos, Martín Arnal Mur tornou-se uma das poucas testemunhas vivas da Guerra Civil e Revolução Espanhola. Ele não é um nome desconhecido para os aragoneses nem para o anarco-sindicalismo. Desde os coletivos agrários de 1936 em sua cidade natal, Angüés (Huesca), até a luta pelos direitos trabalhistas, passando pelos campos de concentração franceses, sua vida representa uma compilação de memória histórica que continua a se espalhar.

Ramón Acín ou Joaquín Ascaso são figuras bem conhecidas pelo valor que contribuíram para a política e a cultura aragonesa. Suas vidas, e as de muitos companheiros da época, estão reunidas no livro “Libertarios de Aragón” de Agustín Martín, que narra a coexistência de vários protagonistas do movimento libertário em terras aragonesas desde o início do século XX. Aragão é um dos territórios onde o pensamento libertário se enraizou com mais força depois da Catalunha e no mesmo nível da Andaluzia, de fato a capital aragonesa foi chamada de “a pérola negra” ou “a cidade libertária”, pois testemunhou várias insurreições.

Através de breves biografias, a Associação para a Recuperação da Memória Histórica de Aragão (ARMHA) valoriza em uma exposição a todos aqueles que defenderam a fraternidade, a igualdade ou a rejeição da burguesia, “foi um dos movimentos mais importantes que existiram desde a República ou desde antes da criação da CNT, muito mais do que em outros países”. “Essas pessoas não tinham ninguém, ninguém se lembrava delas e mesmo assim tinham um enorme significado”, lembra Enrique Gomez, presidente da ARMHA.

Os painéis da exposição conseguem colocar o público nas duras horas de trabalho de 12 e 19 horas sem pausas, trabalho infantil, sem proteção e cuidados médicos ou proibição de greves. “Os anarquistas eram importantes, a República e a esquerda vieram em grande parte porque, de alguma forma, os libertários decidiram se colocar a ela, na verdade eles tinham até um ministro e um ministro que estava no governo da República, mas tudo o que eles fizeram foi esquecido porque eles não pertenciam a um partido político em particular. Se eles tivessem sido socialistas, por exemplo, teria havido livros ou uma fundação, mas não se fala de anarquistas, eles sempre tiveram uma má reputação”, diz Gomez, da ARMHA.

Esta exposição é complementada pela projeção de vários documentários como “Bajo signo libertario” e “Aragón, trabaja y lucha” realizados pela CNT, do Arquivo Cinematográfico da Revolução Espanhola, 1936-1939. Eles detalham as realizações, contribuições e dados relevantes, pouco conhecidos desta parte da história.

A resistência contra o fascismo

Milhares de pessoas perderam a vida por seus ideais ao defenderem conceitos universais como liberdade, bem-estar social e uma série de direitos individuais e coletivos, como o direito de formar e aderir a sindicatos, o que naquela época era proibido. Esta resistência teve consequências, “a repressão estava na ordem do dia”. Havia pessoas que acabaram em campos de concentração e outras que preferiram cometer suicídio”, diz Gómez. Este foi o caso de dois amigos, Evaristo Viñuales e Máximo Franco que, após anos de luta libertária, tiraram suas próprias vidas juntos em 1939 para evitar cair nas mãos dos fascistas. As últimas palavras de Viñuales foram: “este é nosso último protesto contra o fascismo”.

Muitos outros conseguiram exilar-se em países como a França ou cruzaram através do charco para países de língua espanhola. Quando a Guerra Civil terminou e parecia que eles iriam poder deixar os campos “tiveram a má sorte de os nazistas terem chegado” e “alguns acabaram voltando, muitos morreram durante a guerra e outros foram para o exílio no México”, diz o presidente da ARMHA.

Francisco Ponzán foi um dos que atravessaram para a França, onde permanece na memória. Discípulo de libertários, ele foi militante na CNT e promoveu a criação do Conselho de Aragão e organizou um grupo de espionagem entre outras ações, mas, no entanto, ele se destacou porque em seu exílio na França ele começou a espalhar uma rede antifranco dentro e fora do país. Ele facilitou a saída e a entrada na França de centenas de pessoas em troca de armas e dinheiro para lutar contra Franco até que finalmente foi pego e fuzilado pela Gestapo.

Mulheres livres

Na linha de frente da luta pelos direitos e liberdades havia também figuras femininas. De sangue aragonês, algumas delas, como Maria Castaneda, tornaram-se uma das confederadas mais ativas de Zaragoza, após terem sido presas em várias ocasiões por terem uma ideologia libertária. Ela foi uma das poucas que tentaram resistir ao regime de Franco, mas foi impossível. Ela decidiu deixar a cidade com seu marido, mas foi presa e fuzilada pouco tempo depois. Um dos objetivos dessas mulheres era unir o gênero feminino para mostrar-lhes uma vida diferente da submissão.

La Jabalina não é apenas uma peça, por trás do apelido está María Pérez, uma anarquista e enfermeira de Teruel que se juntou à Juventudes Libertarias em 1934 e mais tarde, em 1936, ela se juntou a confederal Columna de Hierro (Coluna de Ferro) em Sarrión e como enfermeira ela participou da criação de um hospital de campo. Em 1939 ela foi presa pelos franquistas e, após vários anos de julgamentos, foi fuzilada em agosto de 1942.

Quiteria Serrano conseguiu ir para a França e se estabelecer, apesar de ter acabado se casando no Chile. Após a ditadura de Pinochet nos anos 80, ela retornou à Espanha e viveu até os 87 anos de idade na província de Tarragona. Ela é reconhecida como uma das lutadoras e organizadora de fugas da capital aragonesa para a zona republicana, as famosas “Evasões” pela noite através dos Montes de Torrero.

Os direitos e liberdades que estes personagens deixaram na história pretendem continuar deixando sua marca para não esquecer os esforços e sacrifícios feitos para defendê-los. “Queríamos incentivar as pessoas para que, quando vissem isto, tentassem elas mesmas descobrir mais sobre elas, pois esta exposição chega a muitas escolas secundárias também”.

Também para lembrar histórias pessoais como o próprio avô de Enrique Gómez, cuja vida ainda está presente: “meu próprio avô construiu sua própria história, ele estava na CNT e como era um dos poucos que sabia ler e escrever, eles o colocaram no sindicato dos encanadores. Um dia o levaram ao museu Pablo Gargallo, que tinham como centro de detenção, e lá ele salvou sua pele porque o colocaram para trabalhar em troca de comida. Ele estava há 5 anos na prisão e depois vivendo sob o regime de Franco, ele teve a sorte naqueles tempos difíceis, apesar de ter uma atitude crítica”, conclui o presidente da ARMHA.

Fonte: https://www.eldiario.es/aragon/cultura/libertarios-heroes-olvidados-lucharon-franquismo_1_7343378.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Calor e chuva
Caminham pela janela
Lágrimas de outono

Yumi Kojima

“Dia do Jovem Combatente” é celebrado com protestos no Chile

Com barricadas em vários pontos de Santiago instaladas durante a madrugada e as primeiras horas da manhã, comemorou-se nesta segunda-feira (29/03) o “Dia do Jovem Combatente”.

A data não passou em branco apesar do confinamento total em que esta cidade está devido à pandemia de Covid-19 e relatos indicam que grupos de pessoas bloquearam a importante Avenida Bernardo O’Higgins no centro da cidade.

Os participantes do protesto lançaram folhetos exigindo a liberdade das pessoas que permanecem presas após participarem da Revolta Popular que começou em 18 de outubro de 2019.

Ainda em Santiago, três ônibus Transantiago foram queimados durante a noite. O primeiro foi incendiado na Av. Grecia, com Obispo Orrego, na comuna de Ñuñoa, enquanto outro veículo Transantiago sofreu o mesmo destino na comuna de La Pintana, na Av. San Francisco com Observatorio. Finalmente, um terceiro ônibus foi danificado no Departamental con Las Industrias, na comuna de San Joaquín.

Também ocorreram ações no bairro de Villa Francia, na comuna de Estación Central, assim como nos municípios de Lo Prado, San Bernardo e Lo Espejo, onde também houve confrontos com Carabineros chilenos.

Ao menos uma dúzia de pessoas foram presas por participarem das manifestações de protesto.

Todo 29 de março, o “Dia do Jovem Combatente” é comemorado no Chile com inúmeras ações em memória do assassinato dos irmãos Rafael e Eduardo Vergara Toledo em 1985 por agentes da ditadura do falecido general Augusto Pinochet.

agência de notícias anarquistas-ana

Cortado o arroz,
O sol de outono
Brilha no capim.

Buson

[Argentina] Militantes anarquistas desaparecidxs pela ditadura

Militantes da “Resistencia Libertaria”: Elvio Mellino, Rita Artabe, Ernesto “El Chino” Matsuyama, Patricia “Pastilla” Olivier, Edison Oscar Cantero Freire, Fernando Díaz Cárdenas, Raúl Olivera Cancela, Elsa Martínez de Ramírez, Hernán Ramírez Achinelli, os irmãos Marcelo Tello, Pablo Tello e Rafael Tello (os três filhos da militante anarquista María Esther Biscayart de Tello, integrante da Madres de Plaza de Mayo Linha Fundadora).

Militantes da FAU: Eduardo Chizzola, Julio César Rodríguez, Telba Juárez, Washington Domingo Queiro Uzal, Victoria “la gringa” Grisonas, Mario Roger Julien, María Emilia Islas Gatti, Juan Pablo Errandonea, Alberto “pocho” Mechoso, Gerardo Gatti, Leon Duarte.

Militantes da Resistência Obrero Estudiantil (ROE): Andres Humberto Bellizzi, Ary Cabrera Prates, Ruben “cachito” Prieto González.

Também evocamos a memória de Colonia Lola, uma comunidade em Córdoba forjada por militantes anarquistas que foi erradicada pela ditadura.

Organização Anarquista de Tucumán

#NoOlvidamos #NoPerdonamos #NoNosReconciliamos #Fueron30000

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/03/27/argentina-militantes-anarquistas-recordaram-os-desaparecidos/

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o arrozal lindo
por cima do mundo
no miolo da luz

Guimarães Rosa

[Chile] Comunicado de Pablo Bahamondes Ortiz “Oso”, preso subversivo – Stgo. 1, 29 de março de 2021

Em dias como hoje são muitxs xs irmãxs que me vêm a memória… o tempo passou, mas em cada momento da minha vida sempre estão presentes em meu ser, recorrendo toda a experiência e sabedoria de seus passos.

Mencionar cada uma dessas pessoas seria uma lista extensa, as diversas circunstâncias de suas quedas faz ver que os tempos não são tão distintos quanto aos golpes que o poder executa contra quem opta por desafiar a comodidade dos poderosos.

O sangue, a dor e a raiva se transformam em um caminho de destruição criadora que não tem fim. Desde esta humilde reflexão, tomo ar e continuo irredutível.

Entender que o encarceramento é somente um cenário provável da vida, para quem opta por romper com a normalidade e com a legalidade do poder.

O castigo e o isolamento como método de alcançar o arrependimento nunca será o resultado que encontrarão em nossos indômitos corpos e mentes.

A continuidade da luta é uma construção permanente, infinita e multiforme com caráter insurrecto e insolente ke konfronta a opressão, a miséria e a exploração.

Desde este lugar, o chamado sempre será pela agudização do conflito, se preparar, sentir e viver a práxis subversiva, rompendo com as lógicas alheias, dogmáticas, moralistas, patriarcais, autoritárias e tóxicas que só provocam danos e desconfianças no interior de koletividades e individualidades conscientes.

Desde sempre a vizibilização de nossxs irmãxs sequestradxs pelo estado será a tarefa que complementa a luta na qual milhares de vocês contribuem cotidianamente nos diversos espaços de resistência ofensiva.

Se faz urgente multiplicar e fortalecer as redes de cumplicidade, gerando diversas ações para exigir a liberdade sem condições de milhares de nós, que nos encontramos atrás destes muros. A solidariedade deve dar esse extraordinário salto ofensivo e combativo, que historicamente refletem os passos de milhares que caíram nesta luta.

O inimigo dia a dia está à espreita e é hora de devolver os golpes… é hora de colocar em prática que seus mecanismos de controle serão inúteis para quem assume, de consciência e coração, os caminhos da liberação total.

Um abraço cúmplice e insurrecto axs irmãxs que hoje estão em greve de fome, na qual colocamos nossos corpos como armas e enfrentamos mais uma vez o estado e suas leis.

Juventude kombatente, insurreição permanente!!!!

Pela revogação do artigo 9º e a restituição do artigo 1º do decreto de lei 321!!!!

Pela libertação do kompa Marcelo Villaroel e de todxs xs presxs políticxs subversivxs, anarquistas, da liberação mapuche e da revolta!!!!

Enquanto existir miséria, haverá rebelião!!!!

Pablo Bahamondes Ortiz “Oso”
Preso Subversivo de Villa Francia
Cárcere-empresa Santiago 1
Módulo Máxima
29 de março de 2021

Fonte: https://edicoesinsurrectas.noblogs.org/post/2021/03/29/comunicado-de-pablo-bahamondes-ortiz-oso-preso-subversivo-stgo-1-29-de-marco-de-2021/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/03/27/chile-ante-a-greve-de-fome-a-suspensao-de-visitas-e-a-restricao-de-comunicacoes/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/03/26/chile-barricadas-em-simon-bolivar/

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Com a luz do relâmpago,
Barulhos de pingos –
Orvalho nos bambus.

Buson