
por Liam Smillie
Quatro caixas comerciais vermelhas brilhantes parecem quase resplandecer sob as luzes halógenas da área de entrega de um supermercado, em algum lugar no interior do Southside.
Ker-chunk… Ker-chunk… Ker-chunk…
Um jovem vestido todo de preto se move rapidamente da esquerda para a direita, abrindo as tampas planas de plástico das lixeiras em ritmo perfeito. Observo enquanto três outras pessoas o seguem e se posicionam em cada lixeira. Em silêncio e em uníssono, começam a vasculhar o lixo, retirando sacos de lixo transparentes e separando-os em pilhas distintas.
Já se passaram cinco minutos desde o início da operação. A equipe trabalha com rapidez e silêncio – pegando alimentos em bom estado e colocando-os em mochilas e alforjes de uma bicicleta. Fico em silêncio a alguns metros de distância, observando e ouvindo.
De repente, um dos membros da equipe levanta a mão. A equipe para instintivamente. Antes que tenham chance de fugir, ouvem passos se aproximando de dentro do supermercado. O som da porta de entrega se abrindo ressoa no ar.
“Que porra está acontecendo aqui?!” exclama uma voz com sotaque rude de Glasgow.
Os ladrões foram pegos em flagrante. A equipe não diz uma palavra; em vez disso, agarra freneticamente suas mochilas, dá meia-volta e se afasta rapidamente, ignorando os gritos que vêm atrás deles.
O “bin squad” (esquadrão do “recicle”) faz parte do Glasgow Food Not Bombs; um núcleo independente de um coletivo internacional fundado nos Estados Unidos na década de 1980 como uma “iniciativa de ação direta não violenta” para protestar contra o armamento nuclear, distribuindo comida gratuita a pessoas vulneráveis. Atualmente, há núcleos estabelecidos em mais de 1.000 cidades em mais de 65 países, todos totalmente autônomos uns dos outros. Não há estrutura hierárquica dentro do coletivo, não há líderes nem sede; todas as decisões dentro de um capítulo do grupo são tomadas por consenso.
A atividade noturna que eu estava acompanhando era uma “incursão em lixeiras”, um método de obtenção de alimentos para o Food Not Bombs. As incursões em si se enquadram em uma zona cinzenta legal, embora possam ser consideradas furto segundo o direito consuetudinário na Escócia. Os participantes também podem se meter em apuros por invasão de propriedade, o que muitas vezes é necessário para acessar lixeiras comerciais.
A coleta em lixeiras (recicle por aqui) não é o principal método de obtenção de alimentos do Food Not Bombs. Eles também recebem muito apoio por meio de cestas básicas, tanto do público quanto de organizações como a Green City Whole Foods.
No entanto, o grupo nem sempre pode contar com doações. O ativista (que prefere permanecer anônimo) que liderava a “bin raid” (batalha do recicle) explicou o motivo pelo qual o grupo pratica a busca em lixeiras:
“O recicle é uma ação anticapitalista. Estamos lutando contra o desperdício de alimentos — a quantidade que simplesmente é jogada fora. É um classismo flagrante. Se você está comendo do lixo, está comendo dos lucros deles.”
Pode parecer chocante que as pessoas estejam dispostas a vasculhar o lixo para alimentar outras pessoas – mas, além da motivação política, isso também é visto como uma necessidade na luta contra a fome. Na pesquisa sobre recursos familiares, publicada pelo Departamento de Trabalho e Pensões (DWP) em 25 de março, foi relatado que, entre 2019 e 2020, 43% das pessoas que recebiam o Crédito Universal relataram ter segurança alimentar baixa ou muito baixa. O valor recebido por quem recebe o Crédito Universal não é suficiente para que as pessoas consigam se alimentar; mal sustenta o beneficiário em situação de pobreza.
A Trussell Trust lista as três principais razões para o uso de bancos de alimentos entre 2019 e 2020 como: baixa renda (39%), atrasos nos pagamentos de benefícios (17%) e alterações nos benefícios (15%).
Quase metade de todas as famílias pesquisadas nos bancos de alimentos pela Trussell Trust no verão de 2020 devia dinheiro ao DWP por empréstimos e pagamentos a maior. Além disso, quase três quartos das famílias pesquisadas estavam pagando atrasados com o auxílio mensal, utilizando o “adiantamento” oferecido para cobrir o período inicial de cinco semanas antes do início dos pagamentos do Crédito Universal.
Isso nos leva de volta ao Food Not Bombs, um dos muitos grupos comunitários que atuam no fornecimento de alimentos em Glasgow. O que os diferencia de muitos outros grupos é que eles são abertamente políticos, atuando tanto como um grupo de pressão quanto como um provedor de alimentos. Além disso, oferecem apenas comida vegana e vegetariana. Eles consideram isso essencial, pois tentar seguir uma dieta restritiva como o vegetarianismo (e especialmente o veganismo) é incrivelmente difícil quando se vive em situação de insegurança alimentar.
Toda a comida que eles recolhem das lixeiras é preparada na manhã seguinte, para distribuição no dia depois disso. Os alimentos que utilizam estão protegidos contra contaminação devido ao excesso de embalagens. Cozinhar logo em seguida garante que a comida recolhida não estrague, e os prazos de validade nas lojas costumam ser exagerados por motivos de proteção legal.
“Comida de graça! Haggis de graça!”, grita uma voz solitária com sotaque inglês no Queen’s Park, numa tarde de domingo. É a Flo, orgulhosamente em pé atrás da barraca da Food Not Bombs. Ela protege os olhos do sol da tarde com as mãos enquanto grita para os transeuntes que aproveitam um passeio dominical.
“Estou bem, querida. Mas vocês estão fazendo uma coisa ótima!”, responde uma senhora mais velha, que saiu para passear com dois westies branquinhos impecáveis.
O público no Queen’s Park é, no mínimo, variado: famílias de classe média, jovens descolados, skatistas, góticos, imigrantes recém-chegados de todas as partes do mundo, pessoas que buscam asilo, bem como moradores de rua ou pessoas em situação de vulnerabilidade.
Para que a comida chegue primeiro às pessoas que mais precisam, o grupo envia mensageiros com as refeições de bicicleta, enquanto uma equipe de duas ou três pessoas fica na barraca realizando atividades de aproximação com a comunidade e distribuição de alimentos no parque.
Um desses mensageiros é Rory, que chega de bicicleta logo após a montagem da barraca. Ele é bem mais alto do que todos os outros, vestindo uma peita branca da Hello Kitty enfiada em calças pretas justas, cortadas acima do tornozelo e presas por suspensórios pretos.
Quando perguntado por que estava usando uma peita da Hello Kitty, ele ri e responde: “Sou um cara grande e as pessoas podem se assustar se eu aparecer na frente delas, então uso roupas que não pareçam ameaçadoras, como essa, quando estou fazendo a distribuição. Tenho uma gaveta cheia de camisetas assim!”
Logo em seguida, duas adolescentes se aproximam da barraca de patins, dizendo enfaticamente aos voluntários como o trabalho que estão fazendo é incrível. Elas pegam algumas caixas para distribuir enquanto patinam pelo parque.
Um dos beneficiários é um violinista romeno na casa dos 70 anos, que toca nas ruas a apenas algumas jardas da barraca. Ele toca música desde criança e agora se apresenta todos os dias no Queen’s Park, economizando dinheiro para voltar à Romênia. Ele visita a barraca todos os domingos para almoçar e bater um papo com os voluntários antes de voltar a tocar nas ruas.
Um senhor mais velho se aproxima da barraca, escolhe algumas caixas para ele e sua esposa e diz: “Vocês são pessoas boas por fazerem isso. Vou viajar por alguns meses, mas espero voltar. Espero ver vocês aqui também. O mais importante é continuar por aqui.”
De volta à equipe de catadores de lixo, já há distância suficiente entre eles e o supermercado, o que significa que é hora de dar uma olhada no que foi coletado. Os catadores reuniram oito sacolas de batatas, uma grande quantidade de frutas e legumes variados, além de centenas de biscoitos e chocolates. Tudo será lavado, cozido e distribuído. Em seguida, a equipe sairá novamente, em busca de um novo destino para catar lixo.
Tradução > Reno Moedor
Conteúdos relacionados:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/17/eua-lancamento-rua-da-sopa/
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/06/01/a-historia-do-food-not-bombs/
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/11/10/eua-este-movimento-anarquista-dos-anos-1960-que-acreditava-que-a-comida-deveria-ser-gratuita/
agência de notícias anarquistas-ana
Nas águas do mar
O salto dos golfinhos.
Parece que dançam.
Eduarda Penteado – 10 anos
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.