
3O movimento anarcossindicalista se abre como alternativa no mundo do trabalho, enquanto as ideias do mundo libertário impregnam diferentes âmbitos de reivindicação social, como a habitação ou o ecologismo.
Por Danilo Albin | 20/07/2026
A marca não se apaga. Há 90 anos, o movimento anarquista escrevia uma página inédita na história: diante do golpe de Estado franquista, a massa libertária respondeu com coletivizações, virou as estruturas de poder de cabeça para baixo e levou milhares de militantes a lutar contra o fascismo. Hoje, a militância anarquista olha para aquele período com a mão estendida em direção a um novo processo de mudanças.
“Guardadas as devidas proporções, creio que a revolução de 1936 é um manual de instruções a ser seguido”, afirma ao Público Sonia Turón, até pouco tempo presidente da Fundação Anselmo Lorenzo (FAL). Esta entidade, pertencente ao sindicato CNT, se encarrega de difundir e proteger a cultura libertária.
O “manual” do qual Turón fala tem sido objeto, nestes dias, de lembranças, homenagens e reivindicações. A historiadora Dolors Marín, especialista nesse período, sustenta que a revolução social, com suas coletivizações de terras e fábricas em diferentes pontos do Estado, representou “uma mudança de paradigma dentro do que era o cotidiano”.
“Sem o impulso dos anarquistas, isso não teria acontecido. Isso torna a guerra civil espanhola tão especial aos olhos de pesquisadores do mundo inteiro”, afirmou.
A reconstrução da dissidência
A experiência revolucionária de corte libertário, curta, porém intensa, chocou-se contra o que Dolors Marín define como uma “guerra suja de stalinistas contra o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista, com um papel importante na Catalunha) e os anarquistas”.
Depois viria a longa noite da ditadura e do exílio, mas também da clandestinidade e da resistência. O que aconteceu a partir de então com o movimento anarquista no contexto do Estado espanhol? Que sementes tudo aquilo deixou entre as organizações libertárias atuais?
“Na Espanha, houve um corte geracional quando se perdeu a guerra. Toda a vida social prévia morre nos anos 40. O que há depois é uma reconstrução da dissidência e do antagonismo com um modelo novo, muito similar ao de outros países da Europa”, sustenta Miguel Gómez, secretário-geral do sindicato CNT na Catalunha.
Gómez fala, precisamente, a partir de um dos setores libertários com maior presença social: o anarcossindicalismo. Estima-se que a histórica CNT tenha hoje entre 15 mil e 20 mil filiados, enquanto a CGT, nascida de uma cisão no seio dessa central sindical, conta com mais de 100 mil, o que a coloca como a quinta força sindical em âmbito estatal em número de filiados.
A área de memória do sindicato CGT acaba de reeditar um guia no qual reivindica aqueles feitos revolucionários de 1936. “Talvez, algum dia, uma nova geração realize aqueles grandes princípios igualitários, em um mundo no qual o sol e a chuva sejam por igual para todos”, afirma nesse documento Joan Pinyana, coordenador de memória libertária da CGT.
Há também outros sindicatos menores que se situam no âmbito anarquista, como a Solidaridad Obrera, que tem representação nos comitês de empresa dos metrôs de Madri e Barcelona. Da mesma forma, uma recente cisão na CNT após um complexo processo em torno do uso de suas siglas resultou na criação da Confederação Anarcossindicalista (CA-AIT), impulsionada por um setor minoritário.
A Federação Anarquista Ibérica (FAI), composta por diferentes grupos no âmbito do Estado com diferentes graus de atividade atualmente, é outra das siglas históricas do movimento libertário, embora sua atividade tenha se reduzido nos últimos anos. Faz parte da Internacional de Federações Anarquistas (IFA), na qual participam grupos de diferentes países.
O mapa anarquista é composto também por várias organizações que se filiam ao anarco-comunismo e nas quais se situam Embat (Catalunha), Liza (Madri e Granada), Hedra (Alacant) ou Xesta (Galiza). Esses grupos realizarão um encontro de 14 a 16 de agosto no País Basco.
“Em um momento no qual a crise e a violência capitalista se intensificam e onde a guerra imperialista e o ecocídio ameaçam diretamente nossas vidas, as organizações que impulsionamos este encontro entendemos que o movimento libertário tem uma tarefa histórica”, afirmam os organizadores.
Atualmente funcionam também diferentes assembleias libertárias em cidades como Santander, Zaragoza ou Castelló. “Depois teríamos um anarquismo mais vivencial: gente no mundo rural que fugiu das cidades e foi viver em ecoaldeias ou comprou habitação em povoados pequenos. Dedicam-se a fazer projetos de todo tipo e impulsionam o cooperativismo rural”, assinala Gómez.
A tudo isso se soma a influência das ideias libertárias no âmbito das organizações ecologistas e antimilitaristas, bem como nos sindicatos de habitação ou nos centros sociais ocupados, sem esquecer a presença de libertárias no âmbito feminista não institucionalizado ou nas lutas pelos direitos da população LGTBIQ+.
“Não falamos de compartimentos estanques: uma pessoa pode estar em duas ou três dessas lutas porque colabora em diferentes causas”, explica o secretário-geral da CNT na Catalunha.
“Espaços de sociabilidade”
Coincidindo com o 90º aniversário da revolução social, Juan Cruz, arquivista da Fundação Anselmo Lorenzo, descreve o anarquismo como um movimento com um papel-chave para o futuro. “Refiro-me à necessidade que as pessoas terão de estruturar suas demandas e sua vida em torno de espaços de sociabilidade reais em um contexto cambiante”, apontou.
Para Cruz, “se o movimento libertário continuar crescendo de maneira sustentada como nestes últimos anos, será uma referência ineludível, porque propõe que a luta tem que partir de bases políticas mais próximas e que tem que ser gerida de baixo para cima”.
“O que é preciso fazer é tentar que esse tecido cresça numericamente e ganhe capacidade de transformação e que depois melhore sua implantação não só em núcleos urbanos, mas que também chegue a âmbitos rurais”, afirmou.
“Resposta válida”
“Vivemos tempos reacionários, mas sabemos que tudo volta, e que quando voltarem a se polarizar as ideias das esquerdas, as direitas terão feito tanta destruição que as pessoas vão querer uma esquerda revolucionária, e o anarquismo tem estrutura e enraizamento popular”, assinalou, por sua vez, o secretário-geral da CNT na Catalunha.
“O anarquismo continua sendo uma resposta válida para lutar pela emancipação das trabalhadoras e dos trabalhadores. É precisamente com esse espírito que estamos comemorando o 90º aniversário da revolução”, acrescentou, por sua vez, a historiadora catalã Dolors Marín.
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
no contorno do gato
um ponto negro no dorso
dorme –
Krzysztof Karwowski
Que isso, anarquia mesmo? Achei interessante esse ponto sobre a revolução espanhola, mas confesso que nunca tinha parado pra pensar…
O texto ficou bem natural, dá para sentir que veio de uma experiência real. Esses detalhes pequenos acabam prendendo mais…
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!