
Por Juan Cáspar | 26/07/2026
Enquanto grande parte do país arde, e infelizmente não é uma metáfora, sem que o sistema político e econômico que sofremos seja capaz, ano após ano, de oferecer uma digna solução preventiva, o mundo continua igualmente se carbonizando, de um modo mais metafórico ou talvez nem tanto. Talvez seja tudo parte do mesmo problema: sociedades hierarquizadas empenhadas mais em controlar do que em cuidar das pessoas e do meio ambiente. Enquanto acaba de terminar aquele peculiar evento realizado na potência estadunidense dirigida por um belicista enlouquecido, uma copa do mundo de futebol que enardece grande parte das massas, as quais vociferam os gols em vez de clamar contra as injustiças, o planeta segue seu triste curso. E falando em Trump, que há não muito tempo clamava contra a Espanha supostamente por não ter seguido à risca o investimento em gastos militares, agora deve estar muito orgulhoso, não só com a vitória esportiva daqueles pro-homens hispânicos bilionários, mas também com as declarações de Pedro Sánchez na recente cúpula da OTAN. Em um exercício notável de cinismo e falta de escrúpulos, o presidente deste inefável Reino da Espanha manifestou com orgulho ter cumprido, inclusive “com folga”, o aumento do gasto militar (2% do Produto Interno Bruto), conforme exigido pela aliança atlântica. Enquanto se cortam os recursos para a saúde pública, a habitação social, a educação ou, claro, o meio ambiente, financiam-se mísseis e todo tipo de veículos militares por terra, mar e ar. Como a linguagem orwelliana está na ordem do dia, já bem entrado o século XXI, aquele que está à frente do autoproclamado governo mais progressista do universo garantiu que todo esse aumento dos gastos belicistas é feito em nome da “busca pela paz”.
É claro que essa argumentação fraudulenta, que talvez penetre em parte do imaginário coletivo, vem acompanhada de um incremento de efetivos militares espanhóis nas Forças Terrestres Avançadas da OTAN, algo que só pode contribuir para o aumento da tensão bélica. E é que, se o mundo arde, os poderes fáticos buscam a solução em fornecer mais combustível ao fogo. Atualmente, os riscos de um devastador conflito mundial, que não esqueçamos que já sofre grande parte do planeta, superam os piores momentos da Guerra Fria ou da época posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001. Numa combinação de diversos fatores, o capitalismo sofre crise atrás de crise, a economia globalizada se fragmenta e o mundo se divide em blocos beligerantes opostos. A narrativa da maioria dos meios oficiais, voltada para um público bastante acrítico, é nos vender uma história maniqueísta do certo e do errado, de apresentar um dos lados em litígio de forma humana lutando pela “liberdade” enquanto “os outros” são descritos como tiranias pouco “civilizadas” em termos ocidentais. Não serei eu a defender minimamente regimes como os da Rússia ou do Irã, ou o abertamente totalitário de uma potência emergente como a China, que se mantém aparentemente à margem da tensão bélica, mas a verdade é que os bombardeios e toda atividade militar são sofridos pelos povos, estão sendo sofridos neste momento de maneira indignante enquanto grande parte da humanidade se perde celebrando eventos alienantes, com a cumplicidade ou direta responsabilidade dos governantes que se dizem pertencentes ao “lado correto”. Não entendo muito a lógica do sistema capitalista baseado no investimento, embora me pareça uma ingenuidade e uma quimera pedir aos Estados que os enormes gastos em armamento, controle e vigilância sejam transferidos para a busca por justiça social e climática. Não funciona assim, de modo algum, já que o objetivo é manter a população no medo e na alienação, bem como garantir a manutenção dos poderes estabelecidos.
No entanto, embora a possibilidade de uma comunidade mais livre, justa e inteligente passe, como não poderia deixar de ser, por construir-se de baixo para cima em função dos verdadeiros interesses das pessoas, isso não impede de denunciar a enorme hipocrisia dos poderes políticos e econômicos para tentar amenizar o sofrimento de tantas pessoas aqui e agora. E nos esforçaremos em desmontar esse mesquinho discurso de que é necessário o rearmamento, esse investimento permanente na força militarista atlântica, essa miserável sentença de “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Desde que me entendo por gente, sempre fui antimilitarista, enquanto ouvia “razões” ao meu redor de que os exércitos eram “necessários”. Atenção, não contingentes, como tantas outras atividades produto da atividade humana, mas “necessários”. Algo semelhante se podia ouvir sobre o Estado como forma política, enquanto a crítica anarquista sempre passou por ver um (o Exército) como suporte armado do outro (o Estado, como uma espécie de instituição coercitiva em forma oligárquica). E não só isso, mas o militar tem sido observado como a máxima expressão da hierarquia e do autoritarismo ao buscar a subordinação acrítica do ser humano para aprender a matar ou então sacrificar sua vida em nome desse Leviatã chamado Estado-nação. Esta visão radical, se se quiser hoje utópica diante da possibilidade de um mundo sem fronteiras, ou seja, livre e solidário, não está divorciada da luta pelo desarmamento, aqui e agora. Também não sou nenhum pacifista ingênuo, já que penso que há bons motivos para lutar por um mundo onde se tenha amenizado em grande medida o sofrimento humano. E, provavelmente, para defendê-lo quando estiver estabelecido, embora não na forma de nenhuma força patrioteira e uniformizadora.
Fonte: https://exabruptospoliticos.wordpress.com/2026/07/26/si-queremos-la-paz-desarme-inmediato/
Tradução > Liberto
agência de notícias anarquistas-ana
A noite caminha.
No negrume, o vaga-lume
acende a bundinha.
Flora Figueiredo
Que isso, anarquia mesmo? Achei interessante esse ponto sobre a revolução espanhola, mas confesso que nunca tinha parado pra pensar…
O texto ficou bem natural, dá para sentir que veio de uma experiência real. Esses detalhes pequenos acabam prendendo mais…
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!