
Do Vale de Susa, na Itália, impressões motivadoras de um combativo movimento de massas
~ Sara Dura e Barri Cate ~
No último fim de semana de julho, uma companheira e eu tivemos uma visão muito impressionante de como é um movimento de massas duradouro e combativo. Estávamos visitando companheiros em Turim e no Vale de Susa, no norte da Itália, onde há uma luta de três décadas contra a construção do TAV Turim–Lyon (Trem de Alta Velocidade), um projeto de infraestrutura capitalista gigantesco e extremamente destrutivo. O No TAV [Não ao Trem de Alta Velocidade] é um movimento de base que envolve dezenas de milhares de pessoas, com uma orgulhosa história de ação direta e diversidade de táticas.
As comunidades do vale que estão na linha de frente da luta contra a TELT, a corporação responsável pelo projeto, e contra o Estado italiano, conquistaram apoio de lugares muito diversos para resistir à devastação de suas terras e comunidades. Depois de 30 anos de uma campanha árdua para defender o vale, continuam firmes, apesar dos intensos e contínuos ataques policiais e da repressão estatal. Como diz a faixa que costuma estar à frente de suas manifestações: “Nós éramos, somos e seremos, sempre. No TAV.”
As bandeiras e pichações estão por toda parte na região, enquanto as montanhas ao redor servem como um lembrete permanente da motivação para continuar a luta. Foram dessas montanhas que os partisans antifascistas travaram uma guerra de guerrilha contra os ocupantes nazistas, e o movimento tem uma forte consciência de si mesmo como continuidade dessa história.
Lotta e festa
O Festival dell’Alta Felicità (festival da felicidade suprema) realizou sua décima edição este ano, no coração do Vale de Susa. São três dias de música, cultura e resistência: um festival radical, autogerido e gratuito que arrecada fundos para o movimento NO TAV por meio dos numerosos bares, restaurantes e espaços administrados coletivamente, além de doações.
Este ano foi evidentemente o maior até agora, com cerca de 20 mil pessoas. A combinação de festa e lotta, festa e luta, está no centro do festival e se fazia muito presente. Com falas entre as apresentações, debates e assembleias ao longo dos dias, faixas e pichações por toda parte, além de gritos de ordem entre as bandas e as músicas dos DJs, é forte a sensação de comunidades em resistência.
Mesmo com um italiano muito básico, rapidamente se percebe que aquilo é uma convergência de lutas e um movimento de movimentos. Anarquistas, comunistas antiautoritários, abolicionistas, feministas, ativistas pela libertação animal, ativistas ecológicos, organizações comunitárias, ocupantes, integrantes de centros sociais… todos juntos na mesma tenda, debatendo, estabelecendo conexões, apoiando as lutas uns dos outros e lutando em terreno comum.
“Diferentes ramos da mesma árvore”, como colocou uma das pessoas organizadoras. No pouco tempo que passamos ali, pudemos ver claramente muitos dos componentes e sinais vitais de movimentos fortes. Eles estão presentes nos discursos e nas reuniões, mas também na prática e nas ações. Vemos pessoas jovens e idosas trabalhando juntas nas cozinhas e nas reuniões, nas barracas e nos palcos.
O movimento No TAV é intergeracional, diverso e muito consciente de sua história. É cultural e político, determinado e intransigente. A compreensão e a prática de uma solidariedade genuína, assim como a diversidade de táticas, também constituem uma parte enorme da força do movimento e oferecem um exemplo muito significativo para que outros movimentos possam aprender com ele.
A manifestação
No sábado, 25 de julho, milhares de pessoas participaram da manifestação que saiu do festival. O clima era carnavalesco, com uma ausência total de presença policial e de câmeras de vigilância. Em determinado momento, a manifestação se dividiu para seguir até três locais diferentes das obras do TAV. A marcha da qual participamos subiu continuamente por belas estradas de montanha, vilarejos e, finalmente, trilhas em meio à mata, por mais de 7 km!
Os gritos de ordem e canções do NO TAV foram desaparecendo, dando lugar a um silêncio expectante e nervoso à medida que nos aproximávamos do local. Grupos se preparavam ao longo do caminho, usando guarda-chuvas para esconder os companheiros da vista, tomando precauções sensatas de última hora contra a vigilância (meias sobre os calçados, fita cobrindo logotipos etc.) e verificando uns com os outros se estava tudo bem. Não vimos ninguém bebendo no caminho de entrada, e o clima era concentrado e determinado. Logo ficaria claro o quanto de preparação havia ocorrido. As cercas de segurança foram derrubadas em questão de minutos e, pouco depois, explosões começaram a ecoar pelo vale, quando começou a batalha de Chiomonte.
O local de Maddalena foi invadido por um black bloc bem equipado, formado por 100 a 150 companheiros. Durante mais de duas horas, eles trocaram pedras, fogos de artifício e coquetéis molotov com as granadas de gás lacrimogêneo lançadas pelos policiais antimotim reunidos no local. A polícia foi repetidamente forçada a recuar diante de uma resistência determinada e contínua e de uma grande quantidade de fogos de artifício. Alguns policiais foram vistos mancando ou rolando pelo chão em chamas depois de serem atingidos diretamente.
O canhão de água da polícia não pareceu muito eficaz, nem contra os companheiros nem contra os diversos incêndios dentro do complexo. O corpo de bombeiros não pareceu querer se envolver, saindo rapidamente depois de uma breve avaliação daquela cena em chamas. Da mesma forma, a incessante barragem de granadas de gás lacrimogêneo não pareceu ter muito efeito preventivo sobre a ação. Os companheiros controlavam uma grande área do complexo, e uma quantidade significativa das instalações e propriedades policiais foi destruída.
As cercas foram destruídas, cabos foram cortados, o centro de controle foi incendiado juntamente com vários outros prédios, um carro e duas vans policiais de controle de distúrbios. Segundo a imprensa, os danos ultrapassaram um milhão de euros. Durante toda a ação, centenas de outros manifestantes, na encosta e na rodovia bloqueada e barricada acima, gritavam palavras de apoio e solidariedade. Finalmente, o bloco deixou o local em conjunto, retornando à mata e fechando a cerca atrás de si para dificultar qualquer perseguição policial.
Do nosso bella vista na encosta, parecia uma espécie de batalha medieval. Só que, desta vez, os rebeldes haviam vencido. Uma bela paisagem, não fosse pelas nuvens de gás lacrimogêneo que passavam por nós. Mais cedo, companheiros que pensaram rapidamente haviam dobrado uma barra de metal ao redor de um portão, bloqueando um possível acesso da polícia pela estrada para nos atacar. O grupo maior permaneceu na encosta, esperando o retorno dos demais. “Si parte insieme, si torna insieme“, “Saímos juntos, voltamos juntos”.
Quando a polícia avançou contra a manifestação com intenção vingativa, pedidos de calma e lembretes sobre nossa força coletiva, feitos por mulheres mais velhas e claramente experientes através de megafones, produziram o efeito desejado. Esse foi um bom exemplo de como as mulheres estão no centro do movimento No TAV, mantendo nossa posição e permitindo que os companheiros retornassem em segurança ao meio da multidão.
Rajadas de pedras e uma multidão corajosa que permaneceu unida impediram que a polícia chegasse perto demais ou capturasse companheiros. Um caminhão-pipa estacionado mais atrás na trilha estava reservado para os companheiros que retornavam, um dos muitos cuidados que observamos durante aquele fim de semana. Partimos todos juntos, de volta pelas trilhas montanhosas de uma beleza impressionante, sem policiais à vista, cantando durante todo o caminho de volta ao acampamento. Um dos slogans favoritos do movimento resumiu muito bem o dia:
“Grida forte la Val Susa, che paura non ne ha / Dalle barricate sventola la bandiera dei no TAV“
“O Vale de Susa grita bem alto, pois não tem medo / Das barricadas tremula a bandeira do No TAV.”
Em italiano, com centenas de pessoas cantando, soa melhor!
A possibilidade muito real de ataques de vingança por parte da polícia não se concretizou no caminho de volta nem no festival. Dá para imaginar como foi boa a festa da vitória naquela noite: de algum modo, ainda havia energia suficiente para dançar ao som do Asian Dub Foundation, de rap italiano, de DJs de Euro trash e de muitos gritos de ordem e canções até altas horas da madrugada por todo o vale.
Repressão e resistência
A previsível resposta do Estado começou rapidamente, com postos de abordagem e revista espalhados por toda a região, além das promessas da primeira-ministra fascista Meloni, que visitou o local dois dias depois, de aplicar a punição máxima e se vingar das “guerrilhas”. A imprensa italiana vem reclamando intensamente dos ataques contra “agentes públicos” (conhecidos localmente e, de forma mais comum, como sbirri di merda, ou “policiais filhos da puta”) e contra a “própria democracia”.
Tudo isso nos lembrou da reformulação jurídica promovida no Reino Unido, que passou a enquadrar policiais como “trabalhadores de emergência”, acompanhada de penas mais severas para qualquer pessoa que reaja contra eles. Como de costume, a imprensa de massa distorce as coisas, apresentando os agentes do Estado como vítimas. Fotos amplamente divulgadas de equipamentos apreendidos pela polícia, incluindo cortadores de cerca, estilingues, tinta spray, óculos de proteção e balaclavas, aparecem acompanhadas de matérias sobre uma sinistra conspiração internacional. E, é claro, a velha história dos “agitadores externos”.
Que preguiça. Um grande alvoroço midiático, mas, para nós, isso é simplesmente boa preparação e organização. É perfeitamente compreensível que pessoas acostumadas a serem atacadas pela polícia fabriquem escudos e levem objetos para equilibrar as condições e proteger a si mesmas e aos outros. Eles só chamam isso de violência quando nós reagimos.
Quando partimos, os companheiros se preparavam para uma onda de prisões e repressão, mas também celebravam a vitória daquele fim de semana e uma ação direta coletiva extremamente significativa e eficaz.
O movimento está muito acostumado aos ataques das autoridades e resistirá a eles coletivamente. Diante da tempestade de merda lançada pelo Estado e pela mídia, uma declaração do movimento No TAV, divulgada muito rapidamente após a manifestação, deixou claro que eles não serão divididos e que todos compartilham a responsabilidade pelos danos materiais. Uma porta-voz chegou a afirmar: “Somos todos black bloc.” Se isso não faz você querer erguer o punho, então não sei o que faria.
Fonte: https://freedomnews.org.uk/2026/08/10/la-valle-che-resiste/
Tradução > Contrafatual
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agência de notícias anarquistas-ana
Imóvel, o gato,
olha a flor de laranjeira.
Eu olho o gato.
Jorge Lescano
Viva a revolução espanhola e viva a anarquia!
bom texto!
posição lúcida. organização anarquista com marca registrada? pedindo ação do estado contra trabalhadores? opa, pera lá caceta!
Comunistas, Capitalistas e Anarquistas e a servidão voluntária. Mas... A hora mais escura é logo antes do amanhecer. (Provérbio árabe)
História sensacional! Desconhecia completamente essas informações.