[Portugal] Lançamento: “A afirmação negra e a questão colonial: textos, 1919-1928”

Ensaio e seleção: José Luís Garcia

Foi em 1919, há mais de um século, que Mário Domingues publicou num jornal o seu primeiro texto em defesa dos negros, intitulado “Colonização”. Jornalista, cronista, escritor, nascido em S. Tomé e Príncipe, atento ao ativismo do movimento negro por todo o mundo, foi construindo a partir daí, e até 1928, uma precursora obra de “rebeldia negra” na imprensa em Portugal.

Este livro recupera a maioria dos textos de Mário Domingues desse período, injustamente esquecidos, onde este escreve, muito à frente do seu tempo, sobre a condição dos negros, o racismo e a colonização, denunciando de forma arrojada preconceitos e discriminações, e expondo corajosamente a violência do colonialismo e de todas as formas de subjugação.

José Luís Garcia, que reuniu estas crônicas, apresenta ainda um ensaio introdutório sobre a obra, a vida e o contexto de Mário Domingues, “um dos maiores símbolos da passagem do negro de uma condição de subalternidade na sociedade portuguesa para autor da sua vida”, e um verdadeiro “precursor da afirmação negra”.

>> Mário Domingues nasceu na ilha do Príncipe em 1899, filho de mãe angolana natural de Malanje, de nome Kongola ou Munga, que tinha ido para a ilha do Príncipe como contratada (à força) com quinze anos de idade, e de António Alexandre José Domingues, oriundo de famílias liberais de Lisboa. Com dezoito meses de idade foi enviado para Lisboa, sendo educado pela avó paterna.

Aos dezenove anos de idade aderiu ao ideário do anarquismo e iniciou colaboração no diário anarco-sindicalista A Batalha e, posteriormente, no jornal anarquista A Comuna, da cidade do Porto. Nesse período participou nas atividades de um grupo libertário que, entre outros, integrava Cristiano Lima e David de Carvalho. Fez parte da redação da revista Renovação (1925-1926) e colaborou na organização do congresso anarquista da União Anarquista Portuguesa (UAP).

Publicou diversas obras de ficção. Após o golpe de 28 de Maio de 1926 dedicou-se ao jornalismo e tornou-se escritor profissional. Voltou-se para a história, escrevendo mais de uma dezena de volumes. Também se dedicou ao romance policial, de aventuras e à literatura cor-de-rosa recorrendo a pseudônimos pretensamente estrangeiros.

Apesar de se ter afastado do movimento anarquista, quando em 1975 apareceu a Voz Anarquista, publicada em Almada, escreveu uma carta ao diretor, onde declarava: Agora, mais do que nunca, é preciso proclamar bem alto que o anarquismo não é a desordem, a violência e o crime, como as forças reacionárias têm querido qualificá-lo. Urge desfazer essa lenda tenebrosa e demonstrar ao grande público, enganado por essas torpes mentiras, que o anarquista ama e defende o ideal supremo da ordem, exercida numa Sociedade edificada na Liberdade, na Fraternidade e na Justiça Social. À Voz Anarquista cabe essa sublime tarefa, recordando o exemplo de homens superiormente lúcidos como foram Proudhon, Eliseu Reclus, Sébastien Faure, Bakunine, Kropotkine, Neno Vasco, Pinto Quartin, Campos Lima, Cristiano Lima, Aurélio Quintanilha e outros propositadamente esquecidos, que abriram aos homens o Caminho da Liberdade.

A afirmação negra e a questão colonial: textos, 1919-1928

Ensaio e seleção: José Luís Garcia

Janeiro de 2022 | 320  PP | 21×14 CM

ISBN: 978-989-671-655-4

€17.01

tintadachina.pt

agência de notícias anarquistas-ana

Juncos secos –
Dia após dia se quebram
E vão rio abaixo.

Rankō

[Espanha] Condenamos as ações das forças repressivas do Estado espanhol em Melilla

Da Confederação Geral do Trabalho, CGT, condenamos as ações das forças repressivas do Estado espanhol em Melilla diante da tentativa dos migrantes do continente africano de entrar na cidade pulando sobre a cerca assassina que separa o Marrocos do Estado espanhol.

A mídia tem mostrado repetidamente imagens de migrantes desarmados, indefesos e assustados escalando a cerca que poderia dar a eles a chance de uma vida melhor.

Da mesma forma, a violência desproporcional e desnecessária utilizada pelas forças repressivas do Estado contra migrantes que conseguiram chegar ao solo espanhol pôde ser vista.

A CGT, em sua constante defesa dos Direitos Humanos, da livre circulação de todas as pessoas no mundo e do respeito à sua dignidade, condena a atitude e as ações violentas das chamadas Forças de Segurança do Estado Espanhol em relação aos migrantes na fronteira sul e exige que tanto os agentes envolvidos quanto o Ministro do Interior Grande Marlaska sejam responsabilizados.

Fonte: https://cgt.org.es/reprobamos-la-actuacion-de-las-fuerzas-represoras-del-estado-espanol-en-melilla/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

Paulo Leminski

[Chile] Valparaíso-Santiago: Lançamento do livro “Bendita sea la llama” – 18 e 24 março

Os convidamos cordialmente ao lançamento de nosso último livro “Bendita sea la llama“. Buscaremos alimentar em uníssono dois debates tratados no texto, por um lado a posição anarco-nihilista longe de qualquer caricatura, e por outro lado a história da resistência nos centros de extermínio.

A jornada contará com um breve vídeo introdutório, um espaço para desenvolver uma mesa redonda e claro, a venda de nosso mais recente título.

“Estamos sendo levados ao matadouro. Isto foi teorizado de mil maneiras, descrito em termos políticos, sociais e meioambientais, foi profetizado, abstraído e narrado em tempo real, e seguimos sem saber o que fazer com isso. O que está subjacente é que o progresso desta sociedade não tem nada para nos oferecer, mas tem tudo para que o tiremos. Frequentemente, parece que estamos nos entregando sem lutar: quando vendemos nosso tempo por dinheiro, quando permitimos que nossas paixões sejam mercantilizadas, quando investimos no melhoramento da sociedade, ou nos sustentamos sobre os despojos da destruição ecológica, participamos abertamente (ainda que não de forma consensual) em nossa própria destruição.

A pergunta pende em uma voz etérea e espantosa: Por que se deixam levar como ovelhas ao matadouro? Os sobreviventes dos mais explícitos matadouros humanos foram atormentados por essa pergunta durante décadas, uma pergunta a que alguns simplesmente responderam: Não o fizemos.

O quê podem nos ensinar sobre nossa própria situação as histórias da resistência no interior dos campos de concentração nazis?”

Valparaíso-Santiago. Lançamento do livro: Bendita sea la llama. Una introducción anarco-nihilista a la resistencia en los campos de concentración nazis.

– Valparaíso. Sexta-feira 18 de março
18h00
Espacio anarquista Flora. Serrano 591, oficina 9.
– Santiago. Quinta-feira 24 de março
18h00, Eskuela libertaria del sur. Santiago centro/Perto da Plaza Dignidad (Solicitar endereço em privado)
Editorial Memoria Negra: editorialmemorianegra@riseup.net

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Caminha a folha
morta,
pálio sobre formigas.

Yeda Prates Bernis

[Londrina-PR] 31 de Março – IV Marcha Antifascista

Assim como em outros anos o fascismo no mundo, no Brasil, no Paraná e, em Londrina, continua avançando e se consolidando.

É necessário mostrar que a resistência antifascista persiste em tempos de congressos nazifascistas na nossa cidade, além de aparições de suásticas por suas ruas, de financiamento de grupos neonazistas na Europa e no Brasil, e de apologia pelo presidente, apresentadores, deputados etc.

31 de Março data de quando iniciou-se o golpe civil-empresarial-militar em 1964, ainda é um dia que a extrema-direita se agita e pede a intensificação do controle contra a classe trabalhadora.

NÃO PERMITIREMOS NEM MAIS UM PASSO!

Ação Antifascista – Londrina-PR

agência de notícias anarquistas-ana

Quantas memórias
me trazem à mente
Cerejeiras em flor

Bashô

[São Vicente -SP] Aldeia Tekoa Paranapuã precisa de ajuda

A aldeia Tekoa Paranapuã, em São Vicente na baixada santista, é um território ocupado desde 2004, pelo povo Guarani Mbya.

A aldeia está localizada dentro de um parque estadual de preservação ambiental, onde resistiu e resiste, com muita luta, a diversas dificuldades, como ameaças de reintegração de posse pelo Estado genocida.

Segundo o cacique Ronildo Amandios, atualmente a aldeia passa por grandes dificuldades financeiras agravadas pela pandemia, e necessitam de apoio.

Os itens requeridos mais urgentes são alimentos não perecíveis, roupas de cama e colchões (quem puder doar, favor entrar em contato através de nosso inbox).

Doações em pix também serão de grande ajuda:

CHAVE PIX CPF: 43049947861

Ronildo Amandios

EM APOIO AOS POVOS INDÍGENAS DA BAIXADA SANTISTA! #pl191não #demarcaçãojá

CAFI -Coletivo Anarco Feminista

agência de notícias anarquistas-ana

É quase nada
a cara da libélula:
somente olhos. 

Chisoku

 

[Espanha] KRAS-AIT sobre a guerra na Ucrânia

Dada a velocidade com que os eventos da guerra na Ucrânia estão avançando e a informação fragmentada, confusa e tendenciosa que nos chega através dos diferentes meios de comunicação, o grupo Moiras decidiu enviar algumas perguntas esta semana à seção russa da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), a fim de obter uma perspectiva libertária sobre o conflito que nos ajudará a nos posicionar e tomar decisões baseadas em um conhecimento ampliado.  No texto abaixo, estas perguntas são coletadas juntamente com as respostas enviadas pela KRAS, a quem agradecemos pela sua resposta rápida e esclarecedora.

Moiras > Em sua comunicação à AIT sobre a guerra na Ucrânia, vocês apontam os mercados de gás como a principal razão do conflito. Gostaríamos de saber mais sobre os interesses capitalistas específicos por trás desta guerra, tanto do lado russo como dos países pró-OTAN, e sobre os recentes desenvolvimentos políticos em sua região em termos desses mercados e sua influência na economia dos países ocidentais. Estas informações tendem a ser relegadas para segundo plano na mídia daqui, que é muito focada nas notícias diárias, mas onde há pouca análise.

KRAS < Antes de tudo, é necessário entender que existem diferentes níveis de conflito e diferentes níveis de contradições inter-capitalistas. Em nível regional, a guerra de hoje é apenas uma continuação da luta entre as castas dirigentes dos estados pós-soviéticos pela redivisão do espaço pós-soviético. Ao contrário do mito popular, a União Soviética entrou em colapso não como resultado dos movimentos de libertação popular, mas como resultado das ações de uma parte da nomenklatura dominante, que dividia territórios e esferas de influência entre si, quando os métodos habituais e estabelecidos de seu governo estavam em crise. Desde aquela divisão inicial, baseada no equilíbrio de poder da época, desenvolveu-se uma luta constante pela redistribuição de territórios e recursos, levando a guerras constantes em toda a região pós-soviética. Ao mesmo tempo, as classes dirigentes em todos os estados pós-soviéticos (todos eles, em um ou outro grau, são oriundos da nomenklatura soviética ou seus sucessores) adotaram o nacionalismo militante na ideologia, o neoliberalismo na economia e os métodos autoritários de gestão na política.

O segundo nível de conflito é a luta pela hegemonia no espaço pós-soviético entre o Estado mais forte da região, a Rússia, que afirma ser uma potência regional e considera todo o espaço pós-soviético como uma área de seus interesses hegemônicos, e os Estados do bloco ocidental (embora aqui, também, os interesses e aspirações dos EUA e dos Estados europeus individuais da OTAN e da UE possam não ser exatamente os mesmos). Ambos os lados buscam estabelecer seu controle econômico e político sobre os países da antiga União Soviética. Daí o choque entre a expansão da OTAN para o leste e o desejo da Rússia de assegurar esses países sob sua influência.

O terceiro nível de contradições é de natureza econômico-estratégica. Não é coincidência que a Rússia moderna se chame “um apêndice do gasoduto e do oleoduto”. A Rússia desempenha hoje no mercado mundial, antes de tudo, o papel de um fornecedor de recursos energéticos, gás e petróleo. A classe dominante predatória e completamente corrupta, puramente parasitária em sua essência, não começou a investir na diversificação da estrutura econômica, contentando-se com os superlucros do abastecimento de gás e petróleo. Enquanto isso, o capital e os estados ocidentais estão iniciando a transição para uma nova estrutura energética, a chamada “energia verde”, destinada a reduzir o consumo de petróleo e gás no futuro. Para o capital russo e sua economia, isto significará o mesmo colapso estratégico que a queda dos preços do petróleo uma vez causou para a economia soviética. O Kremlin, portanto, procura evitar esta reviravolta energética, ou retardá-la, ou pelo menos conseguir condições mais favoráveis para si mesmo na redistribuição do mercado energético. Por exemplo, buscando contratos de fornecimento a longo prazo e melhores preços, empurrando os concorrentes para fora do caminho, e assim por diante. Se necessário, isto pode envolver pressão direta sobre o Ocidente de várias maneiras.

Finalmente, o quarto nível (global) são as contradições entre as principais superpotências capitalistas, os Estados Unidos em retirada e a China em avanço, em torno da qual blocos de aliados, vassalos e satélites estão se formando. Ambos os países estão hoje lutando pela hegemonia mundial. Para a China, com sua estratégia “um cinturão, uma estrada”, a conquista gradual das economias da Ásia, África, América Latina e penetração na Europa, a Rússia é um parceiro júnior importante. A resposta dos EUA e seus aliados no Ocidente é a expansão da OTAN na direção leste, aproximando-se através da Ucrânia e Geórgia para o Oriente Próximo e Médio e seus recursos. Este também é uma espécie de projeto de “cinturão”. Ele encontra a resistência dos rivais imperialistas: China e Rússia, que dependem cada vez mais dele.

Ao mesmo tempo, o aspecto político interno não deve ser negligenciado. A crise da Covid expôs a profunda instabilidade interna da estrutura política, econômica e social de todos os países do mundo. Isto também se aplica aos estados do Ocidente, Rússia, Ucrânia, etc. A deterioração das condições de vida, o aumento dos preços e da desigualdade social, a indignação em massa da população com medidas coercitivas e ditatoriais e proibições deram origem a um descontentamento generalizado na sociedade. E em tais situações, as classes dirigentes sempre recorreram a métodos experimentados e testados para restaurar a notória “unidade nacional” e a confiança da população no poder: criar a imagem de um inimigo e chicotear a histeria militar, até uma “pequena guerra vitoriosa”.

Moiras > Nos países da União Européia, a mídia, fazendo eco aos governos, continua repetindo que Putin é o único responsável por esta guerra. Conhecendo os antecedentes da OTAN, com os Estados Unidos na vanguarda, pensamos que este não é o caso. Como podemos explicar isto às nossas populações sem parecer justificar o ataque russo e estar do lado do governo Putin?

KRAS < Infelizmente, a consciência pública de massa tende a procurar respostas simples e rudes às perguntas. Não temos motivos para simpatizar com o proprietário do Kremlin e sua administração. Suas políticas neoliberais levaram a um colapso real dos sistemas de saúde e educação, à pobreza dos pensionistas e dos trabalhadores do setor público na província. Os salários no país são monstruosamente baixos, o movimento trabalhista está realmente paralisado… Mas, independentemente disso, entendemos que tudo isso é produto de um certo sistema baseado no Estado e no capital. Não estamos vivendo no século XVII, na era das monarquias absolutistas. Considerar tudo o que acontece no mundo como o trabalho de alguns poucos “heróis” ou “anti-heróis” individuais é no mínimo ingênuo, mas na verdade é uma das formas da própria teoria da conspiração. Isto foi perdoável no século XIX pelo romântico Carlyle ou pelo escritor Alexandre Dumas. Mas em nosso tempo vale a pena entender que o mundo é muito mais complicado, e que o capitalismo, como sistema social, funciona de uma maneira diferente. Portanto, nossa tarefa é explicar às pessoas a condicionalidade sistêmica dos problemas que abalam o mundo de hoje. Incluindo as guerras deste mundo. E que a única maneira de resolver estes problemas é destruir o sistema social que os cria.

Moiras > Os padrões da Guerra Fria estão sendo reproduzidos, de modo que parece que se você critica um lado é porque você está com o outro. Isto é muito problemático para os anarquistas, especialmente quando não temos força social. Queremos agir, mas temos medo de ser arrastados e usados pelos exércitos dos estados. Nas manifestações que estão ocorrendo em nossas cidades, a proclamação de “nenhuma guerra” está sendo misturada com apelos à intervenção da OTAN. O jornalismo simpático ao governo do partido socialista espanhol, o PSOE, nos apresenta a necessidade de intervenção, às vezes traçando um paralelo histórico com a guerra civil espanhola e as consequências da não intervenção de países europeus, ou a participação de exilados espanhóis na França, muitos deles anarquistas, no exército francês contra os nazistas. O que fazer: pacifismo e não-intervenção, como foi a posição majoritária do anarquismo na Primeira Guerra Mundial, ou apoiar a resistência ucraniana contra a invasão das tropas russas? Esta segunda opção poderia ser considerada como uma ação internacionalista contra o imperialismo?

 KRAS < Do nosso ponto de vista, não há comparação com a situação da guerra civil na Espanha e não pode haver. Os anarquistas espanhóis estavam defendendo uma revolução social. Da mesma forma, não pode haver comparação entre, por exemplo, o movimento Makhnovista na Ucrânia e a defesa do estado ucraniano moderno. Sim, Makhno lutou contra os invasores estrangeiros, austro-alemães, e contra os nacionalistas ucranianos, e contra os Brancos e, no final, contra os Vermelhos. Mas os partidários makhnovistas lutaram não pela independência política da Ucrânia (que, de fato, lhes era indiferente), mas em defesa de suas conquistas sociais revolucionárias: pela terra camponesa e pela gestão operária da indústria, pelos soviets livres. Na guerra atual, estamos falando exclusivamente do confronto entre dois estados, dois grupos de capitalistas, dois nacionalismos. Não cabe aos anarquistas escolher o “mal menor” entre eles. Não queremos vitória para um ou para o outro. Toda nossa simpatia vai para os trabalhadores comuns que estão morrendo hoje debaixo de projéteis, foguetes e bombas.

Ao mesmo tempo, vale a pena lembrar que a posição da maioria dos anarquistas na Primeira Guerra Mundial não era simplesmente pacifista. Isto, como declarado no manifesto antiguerra de 1915, é uma forma de transformar a guerra imperialista em uma revolução social. Sejam quais forem as possibilidades de alcançar isto no momento atual, os anarquistas, em nossa opinião, devem constantemente formular e propagar tal perspectiva.

Moiras > Por outro lado, estamos recebendo na internet imagens de grupos armados se apresentando como batalhão anarquista no exército ucraniano, você sabe se eles são realmente anarquistas e qual é sua maneira de ver o conflito? E quanto à dependência das armas ocidentais para repelir o ataque russo, isso não condiciona muito a possibilidade de batalhões libertários no exército ou de uma guerrilha anarquista ucraniana independente? Você sabe o que resta da maknovichina, a revolução anarquista de um século atrás, na memória do povo ucraniano? Existe hoje um movimento anarquista na Ucrânia?

KRAS < Em 2014, o movimento anarquista ucraniano foi dividido entre aqueles que apoiaram o protesto liberal-nacionalista em Maidan e depois ajudaram o novo governo contra os separatistas em Donbass e aqueles que tentaram tomar uma posição mais internacionalista. Infelizmente, a última posição foi menor, mas existiu. Agora a situação é semelhante, mas ainda mais aguda. Em termos gerais, existem três posições. Alguns grupos (como “Niilista” e “Ação Revolucionária” em Kiev) consideram o que está acontecendo como uma guerra contra o imperialismo russo e a ditadura de Putin. Eles apoiam totalmente o Estado nacionalista ucraniano e seus esforços militares nesta guerra. A infame foto dos lutadores “anarquistas” de uniforme mostra exatamente os representantes desta tendência: mostra especificamente os torcedores do clube de futebol “antifascista” Arsenal e os participantes da “Ação Revolucionária”. Estes “antifascistas” não se envergonham nem mesmo do fato de que formações armadas abertamente pró-fascistas, como o Azov, possam ser encontradas entre as tropas ucranianas.

A segunda posição é representada, por exemplo, pelo grupo “Estandarte Negro” em Kiev e Lvov. Antes da guerra, era uma crítica severa do Estado ucraniano, da classe dominante, de suas políticas neoliberais e do nacionalismo. Com o início da guerra, o grupo declarou que o capitalismo e os governantes de ambos os lados eram os culpados pela guerra, mas ao mesmo tempo pediu para unir as forças da chamada “autodefesa territorial” – unidades militares voluntárias de infantaria leve, que são formadas numa base territorial, sobre o terreno.

A terceira posição é expressa pelo grupo “Assembleia” em Kharkov. Também condena ambos os lados do conflito, embora considere o estado do Kremlin como a força mais perigosa e reacionária. Não exige a adesão a formações armadas. Os ativistas do grupo estão agora organizando assistência à população civil e às vítimas dos bombardeios do exército russo.

A participação de anarquistas nesta guerra como parte das formações armadas que operam na Ucrânia, nós a consideramos uma ruptura com a ideia e a causa do anarquismo. Estas formações não são independentes, estão subordinadas ao exército ucraniano e executam as tarefas estabelecidas pelas autoridades. Eles não apresentam programas e exigências sociais. As esperanças de realizar uma agitação anarquista entre eles são duvidosas. Não há revolução social a ser defendida na Ucrânia. Em outras palavras, aquelas pessoas que se dizem anarquistas são simplesmente enviadas para “defender a pátria” e o Estado, desempenhando o papel de carne de canhão para o Capital e fortalecendo os sentimentos nacionalistas e militaristas entre as massas.

Moiras > Em nossas cidades, as comunidades de trabalhadores migrantes ucranianos, com a colaboração de organizações humanitárias e conselhos municipais, estão organizando a coleta e o envio à Ucrânia de alimentos, roupas quentes, medicamentos… A população espanhola é muito solidária, mas nem a guerra nem a pandemia de covid parecem ter ajudado nossas sociedades a questionar sua dependência dos recursos energéticos e das matérias-primas, dependência que sustenta o neocolonialismo e destrói o equilíbrio natural do planeta. Em vista da escassez de recursos, prevê-se um retorno ao carvão e um impulso à energia nuclear. Talvez a sociedade russa esteja mais consciente dos perigos e da necessidade de alternativas? Há algum plano de ação nesse sentido por parte dos movimentos sociais? O que a KRAS e a AIT têm a dizer sobre isso?

KRAS < Infelizmente, o estado dos movimentos sociais na Rússia moderna é deplorável. É verdade que, mesmo nos últimos anos, houve vários protestos ambientais ativos e persistentes em nível local: contra aterros sanitários, incineradores de resíduos ou destruição ambiental pela indústria de mineração, incluindo a mineração de carvão. Mas eles nunca resultaram em um movimento poderoso no nível do país como um todo. Quanto à luta contra a energia atômica e as usinas nucleares, que atingiu o auge na União Soviética e na Rússia no final dos anos 80 e 90, não há praticamente nenhuma revolta desse tipo agora.

Moiras > As manifestações dos russos contra a guerra ajudam o povo da Europa a entender que não são os russos que estão atacando a Ucrânia, mas o exército do Estado que governa a Rússia. Isso está sendo refletido na mídia de nossos países, e sabemos que milhares de pessoas foram presas na Rússia como resultado das manifestações, como isso está afetando o anarquismo russo, o que isso significará para sua liberdade de expressão e ação em seu país?

KRAS < Manifestações e várias outras ações contra a guerra não pararam todos os dias desde o primeiro dia. Milhares de pessoas tomam parte neles. As autoridades as proíbem sob o pretexto de “restrições antiguerra” e as dispersam brutalmente. No total, até 8 de março, cerca de 11.000 pessoas foram presas durante manifestações em mais de 100 cidades em todo o país. A maioria enfrenta multas de 10.000 a 20.000 rublos por encenar um protesto “não autorizado”. Entretanto, já existem acusações mais ferozes: 28 pessoas já foram acusadas de vandalismo, extremismo, violência contra as autoridades, etc., pelos quais enfrentam penas de até muitos anos de prisão. As autoridades estão claramente usando a guerra como uma oportunidade para “apertar os parafusos” dentro do país. As mídias críticas são fechadas ou bloqueadas. Uma campanha de guerra histérica está sendo conduzida na mídia oficial. Foi aprovada uma lei segundo a qual a divulgação de “informações falsas” sobre as atividades do exército e “desacreditar o exército”, bem como resistir à polícia, é punível com até 15 anos de prisão. Há até mesmo um projeto de lei diante do parlamento que permitiria que os oponentes presos da guerra fossem enviados à frente. As pessoas são demitidas de seus empregos, os estudantes são expulsos das universidades por causa dos discursos antiguerra. Foi introduzida a censura militar.

Nesta situação, o pequeno e dividido movimento anarquista na Rússia está fazendo o que pode. Alguns estão participando de manifestações de protesto. Então, dois de nossos camaradas também foram presos e multados. Outros criticam essas manifestações, pois os apelos a elas muitas vezes vêm da oposição liberal de direita e muitas vezes não são tão antiguerra quanto pró-Ucraniano (e às vezes até pró-OTAN). Resta a possibilidade de ir a manifestações com seus slogans e cartazes (alguns anarquistas fazem isso), ou tomar ações pequenas, independentes e descentralizadas. Os anarquistas escrevem slogans antiguerra nas paredes, pintam grafites, colam adesivos e folhetos, penduram faixas antiguerra. É importante transmitir ao povo nossa posição especial e independente, ao mesmo tempo antiguerra, anticapitalista, antiautoritária e internacionalista.

Fonte: https://grupomoiras.noblogs.org/post/2022/03/13/kras-ait-acerca-de-la-guerra-en-ucrania/?fbclid=IwAR13ViibE8IEgLjT4gcOwYsmnCnAeieG3lc7samFk5MO6uqbC38rdPS_ClI

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/03/02/russia-kras-ait-contra-a-guerra/

agência de notícias anarquistas-ana

Em cima do túmulo,
cai uma folha após outra.
Lágrimas também…

Masuda Goga

[Espanha] Anti-militarismo

“Sem exércitos, não haveria guerras”, uma afirmação que pode parecer pueril em princípio, mas que na realidade é de uma evidência como um castelo. Em outras palavras, estamos falando de uma organização armada ferozmente hierárquica que serve aos interesses de uma nação, que é o mesmo que um Estado, ou seja, um poder político, que por sua vez é composto principalmente de uma oligarquia sujeita a certos interesses, que geralmente não coincidem no mínimo com a sociedade da qual fazem parte. Ou seja, mesmo nesta fase, pode haver pessoas que acreditam nesta mistificação iníqua chamada “patriotismo”, mas a realidade que eles não querem ver diante de seus olhos é que, se forem levados à guerra, eles obedecem aos interesses de uma classe dominante. É tão simples quanto isso. Alguém pode identificar um exército, meramente, com a defesa armada de um povo ou de uma comunidade, mas sejamos sérios e usemos a semântica de uma forma minimamente decente.

Lembro-me, há algumas décadas, quando o serviço militar ainda era obrigatório neste país inefável, de uma entrevista emocional com um insubmisso preso, naquele programa de televisão de Jesús Quintero, Cuerda de presos; o jovem disse algo assim, talvez houvesse muitas razões para lutar, como lutar pelos desprivilegiados ou defender uma sociedade mais justa, mas nunca para fazer parte de uma instituição autoritária que coloca as pessoas umas contra as outras. Na verdade, eu não poderia ter me identificado mais com essas palavras, o que acredito que tenha que fazer, de forma retumbante, com o que é o antimilitarismo. Na verdade, talvez eu nunca me declararia um “pacifista”, ou mesmo um “antiguerra”, já que estes são termos muitas vezes desvinculados de seu conteúdo e às vezes subscritos, de forma cruelmente cínica, por aqueles que promovem guerras. Desde que me lembro, e em nome da moral mais elementar, tenho me oposto àqueles órgãos que padronizam, em todos os níveis, e ensinam os jovens a assassinar outros de diferentes origens.

Pergunto-me se algum soldado russo pode acreditar que sua causa, a da recente agressão militar contra o povo ucraniano, tem alguma justificação ou são meros autômatos nas mãos de um executivo impiedoso. Em outro conflito militar perpetuado, também me pergunto se pode haver soldados sírios com algum motivo para acreditar que estão servindo sua pátria, suprimindo com armas os opositores do regime político dominante, ou melhor, obedecendo servilmente às ordens de uma classe dominante. Da mesma forma, e particularmente assustadoramente, me pergunto se todos aqueles soldados, da Arábia Saudita e de outros lugares, que há anos bombardeiam a população iemenita com inúmeras mortes, podem se orgulhar do que fazem em nome de sua pátria. Uma guerra sangrenta, esta no Iêmen, especialmente esquecida pela mídia, talvez por causa da conivência dos chamados poderes “democráticos” e por não provocar uma migração que afeta nosso Ocidente mesquinho. Diz-se que existem dezenas de conflitos bélicos ativos no mundo, a maioria deles esquecidos porque não interessam ao mundo “desenvolvido”, enquanto alguns continuam a elogiar o militarismo e a promover aquela mistificação chamada “patriotismo” que impede a desejada fraternidade universal. Sim, há muitas razões para lutar e, talvez, em ocasiões extremas, não teríamos outra escolha senão pegar uma arma; como parte de um exército, que é, na verdade, o que faz guerras entre estados, não consigo pensar em nenhuma.

Juan Cáspar

Fonte: http://acracia.org/antimilitarismo/

Tradução > Liberto

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panela velha
no avarandado novo
vaso de avencas

Alexandre Brito

Pré-venda do livro “Guerra”, de Piotr Kropotkin

Em 2022, damos continuidade ao biênio Kropotkin. O ano de 2021 marcou o centenário de morte do militante anarquista e, em 2022, comemoramos os 180 anos de seu nascimento. Nesse contexto, continuaremos com a coleção Kropotkin, realizada em parceria com a Intermezzo Editorial.

O livro Guerra conta com 20 artigos e cartas de Kropotkin escritos entre 1885 e 1920, nos quais aborda o tema bélico em diferentes contextos, sejam durante as guerras coloniais e imperialistas ou a eclosão da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa.

A obra apresenta as análises de Kropotkin em relação à Primeira Guerra e aos conflitos decorrentes desta. Para aprofundar esse debate, a publicação conta com o prefácio de René Berthier, no qual analisa minuciosamente a discussão feita pelo autor russo.

Guerra está com valor promocional até 31 de março de 2022 (quinta-feira), de R$ 45,00 por R$30,00.

previsão é que o envio se inicie a partir de 4 de abril de 2022.

O livro pode ser adquirido das seguintes formas:

1) Na loja da Livraria Terra Livre

2) Pix

Chave: bibliotecaterralivre@gmail.com

Não esqueça de acrescentar o valor do frete fixo (R$ 10,00 – dez reais).

  • O valor do livro + frete é de R$ 40,00 (quarenta reais).

IMPORTANTE! Não se esqueça de mandar por e-mail (bibliotecaterralivre@gmail.com) o comprovante, o título do livro e o endereço para o envio do pedido!

Ficha técnica:
Título: Guerra
Autores: Piotr Kropotkin
Editora: Biblioteca Terra Livre & Intermezzo
Idioma: Português
Encadernação: Brochura
Dimensão: 21 x 14 cm
Edição: 1ª
Data de lançamento: Março de 2022
Número de páginas: 208
Preço: R$ 45

agência de notícias anarquistas-ana

canta bem-te-vi
sol por todo o lado
natureza sorri

Carlos Seabra

[França] Guerra na Ucrânia: Dez Lições da Síria

Exilados sírios sobre como sua experiência pode inspirar a resistência à invasão

Em março de 2011, eclodiram protestos na Síria contra o ditador Bashar al-Assad. Assad voltou todo o poder dos militares contra o movimento revolucionário que se seguiu; no entanto, por algum tempo, parecia possível que pudesse derrubar seu governo. Em seguida, Vladimir Putin interveio, permitindo que Assad permanecesse no poder com um tremendo custo em vidas humanas e garantindo uma posição para o poder russo na região. No texto a seguir, um coletivo de exilados sírios e seus companheiros pensam em como suas experiências na Revolução Síria podem informar os esforços para apoiar a resistência à invasão na Ucrânia e o movimento antiguerra na Rússia.

Tanta atenção foi focada na Ucrânia e na Rússia no mês passado que é fácil perder a noção do contexto global desses eventos. O texto a seguir oferece uma reflexão valiosa sobre o imperialismo, a solidariedade internacional e a compreensão das nuances de lutas complexas e contraditórias.

Dez Lições da Síria

Sabemos que pode ser difícil se posicionar em um momento como esse. Entre a unanimidade ideológica da grande mídia e as vozes que transmitem sem escrúpulos a propaganda do Kremlin, pode ser difícil saber a quem ouvir. Entre uma OTAN de mãos sujas e um regime russo vilão, não sabemos mais contra quem lutar, a quem apoiar.

Como participantes e amigos da revolução síria, queremos defender uma terceira opção, oferecendo um ponto de vista baseado nas lições de mais de dez anos de revolta e guerra na Síria.

Deixemos isso claro desde o início: hoje, ainda defendemos a revolta na Síria de todas as formas em que ela foi uma revolta popular, democrática e emancipatória, especialmente os comitês de coordenação e os conselhos locais da revolução. Embora muitos tenham esquecido tudo isso, sustentamos que nem as atrocidades e propaganda de Bashar al-Assad nem as dos jihadistas podem silenciar essa voz.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://en.crimethinc.com/2022/03/15/guerra-na-ucrania-dez-licoes-da-siria-exilados-sirios-sobre-como-sua-experiencia-pode-inspirar-a-resistencia-a-invasao-1

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silêncio de folhas
bananeira secando
à beira da estrada

Alice Ruiz

Viva as putas de San Julían

As cinco mulheres paralisaram suas atividades e não atenderam os milicos argentinos, expulsando-os do bordel La Catalana com vassouras, paus e insultos que expressavam a indignação diante daqueles que atuaram diretamente como algozes de operários grevistas nos fuzilamentos em fazendas no extremo sul da América do Sul.

Há exatos 100 anos, em 17 de fevereiro de 1922, cinco trabalhadoras sexuais se rebelaram contra uma tropa de soldados. Seus nomes: Consuelo García, Angela Fortunato, Amalia Rodríguez, María Juliache e Maud Foster. Eram mulheres de origem local e imigrante, tinham entre 26 e 31 anos de idade e também ficaram conhecidas como As Putas de San Julián, o nome da cidade na província de Santa Cruz, território  controlado pelo E$tado argentino.

As cinco mulheres paralisaram suas atividades e não atenderam os milicos argentinos, expulsando-os do bordel La Catalana com vassouras, paus e insultos que expressavam a indignação diante daqueles que atuaram diretamente como algozes de operários grevistas nos fuzilamentos em fazendas no extremo sul da América do Sul.

Ao se recusarem a atender os fuziladores, essas mulheres, nas palavras do anarquista historiador Osvaldo Bayer, foram “os únicos seres valentes que foram capazes de qualificar de assassinos os autores da matança de operários mais sangrenta de nossa história” (BAYER, 2018 [1980]: 253-254).

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://ainimiga.noblogs.org/2022/02/20/viva-as-putas-de-san-julian/

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flor amarela,
no vaso, vê o mundo
pela janela

Carlos Seabra

 

A Invasão da Ucrânia: Intervenções Anarquistas e Mudanças Geopolíticas

Por Peter Gelderloos

A guerra atual na Ucrânia é difícil de encarar, não apenas para aqueles de nós com amigos e camaradas lá, lutando ou sobrevivendo, ou que já fugiram e agora se encontram em condições de rua; muitos pela segunda vez, no caso dos muitos refugiados que se abrigaram na Ucrânia nos últimos anos.

É também difícil saber como nos posicionar, dado que este parece ser um conflito com apenas dois lados, e ambos — OTAN e Rússia — estão sistematicamente envolvidos em torturas, assassinatos, repressão, exploração, racismo e ecocídio, domesticamente e no mundo inteiro.

Como anarquistas, entretanto, quando olhamos para o mundo a nossa volta, temos que estar cientes das campanhas de Estado e das estruturas do capitalismo, mas também criar espaço em nossa análise para as necessidades e ações das pessoas de fora das e contra essas forças.

Intervenções Anarquistas

Como fazemos com frequência, muitos anarquistas na Ucrânia e nos países próximos estão focados em dar apoio — ao concentrar recursos e compartilhá-los de forma a empoderar — a pessoas que sofreram danos e àquelas que perderam seus lares, bem como ao um milhão de refugiados produzidos pela guerra.

Muitos anarquistas estão também escolhendo lutar contra a invasão russa, mesmo que isso possa requerer algum nível de colaboração com as forças governamentais da Ucrânia. É significativo, contudo, que muitos desses que estão lutando sejam russos que já fugiram do país quando o governo de Putin se tornou um regime mais totalitário.

As experiências revolucionárias da Makhnovschina, e da Revolução Mexicana há cem anos, ao Curdistão de hoje, mostrou-nos que Estados não nos deixam qualquer parte de seus conflitos. É de seu interesse que seus conflitos estejam sempre entre versões minimamente diferentes do Estado. Uma vez que já faz muito tempo que não há um território totalmente independente de qualquer Estado para defender, um posicionamento anarquista significa criar nosso próprio espaço, lutar ao lado de forças estatais dispostas a nos oferecer alianças contra outras forças estatais que nos aniquilariam a qualquer momento. A lição histórica parece ser que, nessas situações, precisamos manter quanta autonomia pudermos para pensar continuamente em um horizonte revolucionário e transformativo, e não confiarmos ingenuamente na decência de aliados do Estado. Aprendemos também que revoluções, subordinadas às necessidades puras da guerra, murcham e morrem, mas, algumas vezes, pela mera sobrevivência, pessoas precisam se engajar no conflito e lutar. Na Guerra Civil Espanhola, até individualistas disciplinados apoiaram o engajamento com as imperfeições da situação, ao invés de fugir para manterem suas bolhas de pureza.

Essa pode ser uma lição difícil de afirmar porque em todos os outros momentos nossa posição de não fazer alianças com partidos políticos ou outras estruturas governamentais foi provada correta. Pelo que conhecemos, o falso pragmatismo que justifica tais alianças — com essa nova lei corrente, com esse novo governo no poder, nossos movimentos revolucionários serão mais fortes — nunca se confirma.

Mas também vimos que, quando há a erupção de um grande conflito, precisamos encontrar uma posição radical dentro dele, até e especialmente quando o enquadramento geral desse conflito não dá espaço para posições anárquicas. Defender ficar em casa como a coisa mais apropriada para os anarquistas quase sempre facilita que os centristas ou a extrema direita dominem esses conflitos.

A guerra é a saúde do Estado e é também onde revoluções morrem, mas ignorá-las não é uma opção, já que ameaçam nossa sobrevivência individual e coletiva, destroem movimentos sociais e esmagam estruturas comunais. Em situações de guerra, anarquistas não têm respostas fáceis; devemos equilibrar as necessidades conflitantes de sobrevivência a curto prazo e um horizonte revolucionário, com as lições conflitantes de sempre dar espaço a posições anarquistas em um conflito, nunca confiar em Estados, e não ser capaz de agir partindo de um lugar de pureza ou isolamento.

Sugeriria ainda uma outra lição. Não fizemos um trabalho adequado ao analisar as falhas dos movimentos anarquistas ao longo do século XX. Tem sido vital lembrar nossos mortos, mas isso frequentemente fora traduzido em uma romantização de um ímpeto de morte coletivo. Precisamos reconhecer como as perdas em nossos coletivos causaram uma grande interrupção à continuidade da nossa luta. Essa perda de memória e intergeracionalidade resultantes nos puxam para trás. A lição é que realmente precisamos valorizar mais nossa sobrevivência.

Ganhadores e perdedores

Aqueles que perdem mais em qualquer guerra são as pessoas e a terra, e aqueles que são oprimidos, de uma maneira ou de outra, são os mais vulneráveis à violência que se desencadeia. Não importa quem ganha ou perde, a coragem de lutar para defender o coletivo deve ser celebrada, mas a guerra em si não.

Ao contrário, deveríamos condenar a guerra e quem a instiga enquanto também tentamos entender a particularidade de cada guerra. Como o desfecho desse conflito afetará a geopolítica corrente, moldando as guerras que o seguirem, ambas frias e bélicas?

Penso que, independentemente de um país de governo democrático ocidentalizado como a Ucrânia sobreviver à guerra, já podemos dizer com um bom nível de certeza que, entre os Estados envolvidos, os perdedores serão os Estados Unidos e a Rússia, e os vencedores serão a China, Índia, Arábia Saudita e outros Estados de gama média. E, entre os capitalistas, além da observação óbvia de que as empresas de armamento lucrarão muito, podemos contar também as empresas de energia — ambas de combustíveis fósseis e de fontes renováveis — como grandes vencedoras.

A Rússia perderá todo seu brilho como um superpoder e quase toda a sua influência local se falhar em destituir o governo ucraniano, embora, se conseguir tomar Odessa e, com ela, a totalidade do litoral ucraniano, terá adquirido um prêmio de consolação significativo. Mas, mesmo que a Rússia vença a Ucrânia, terá acelerado a expansão da OTAN em suas fronteiras e se isolado da maioria dos outros países e órgãos internacionais. Terá acelerado também o declínio de seu maior braço econômico a nível mundial, sua importação de combustíveis fósseis, atrás apenas dos Estados Unidos no setor, mas uma porção imensa de seu PIB (mais de 50%, na verdade, o que mostra que a Rússia não tem uma economia sem a exportação de combustíveis fósseis).

As sanções econômicas impostas por instituições ocidentais não colocarão o governo russo de joelhos. Como efetivamente detalhado aqui, não alcançaram esse objetivo no Irã e a Rússia é muito mais protegida contra tais sanções. Mas elas servem para limitar suas alianças globais e influência econômica, e podem talvez até encorajar parte da classe capitalista russa a considerar um governo sem Putin.

O cancelamento do gasoduto Nord Stream 2, que iria fornecer mais combustíveis à Alemanha e ao mercado europeu, foi uma perda muito maior do que um governo amigável na Ucrânia pode reparar. Meu único palpite é que Putin cometeu esse erro de cálculo porque foi intimidado pelas rebeliões recentes no Cazaquistão, outro país que Moscou vê como seu quintal. Como estadista e, mais ainda, um com antecedentes em serviços de inteligência, Putin é propenso à visão paranoica e irrealista sofrida por líderes governamentais de todo lugar de que o povo não é inteligente o suficiente para se revoltar sozinho e o faz apenas como marionete. Ele provavelmente leu equivocadamente os protestos no Cazaquistão como uma interferência ocidental, um passo rumo ao desmantelamento final do Império Russo, criado pelos tsares em séculos de guerras sangrentas contra centenas de povos indígenas, expandido pelos capitalistas de Estado da União Soviética e herdado em uma forma diminuída por Putin, que é explicitamente um revanchista.

A razão pela qual o governo estadunidense será um perdedor é mais sutil, mas extremamente importante. Primeiro, contudo, vamos olhar para o que os Estados Unidos já conquistou. Pôs-se em um conflito com relativamente pouco risco direto, no qual não está garantido que fique do lado “bom”. Ainda mais, esse é um conflito que aumenta drasticamente a unidade europeia, revivendo o euronacionalismo e levando a Alemanha e a França para longe de sua amizade com a Rússia. Isso só pode ser algo bom do ponto de vista da OTAN. Ainda mais, os Estados Unidos aumentaram sua credibilidade, muito abalada após os anos de Bush e Trump.

Uma semana antes da invasão, tinha certeza de que a Rússia não atacaria a Ucrânia, quase que inteiramente porque o governo estadunidense disse que atacaria. Os relatórios diários parafraseando anonimamente oficiais de inteligência parecia tirado dos moldes utilizados para preparar o público para a invasão do Iraque em 2003. Ao que parece, entretanto, o governo estadunidense tem muitas cartas na manga e, desta vez, diziam a verdade. Em um uso mais atípico de guerra de informação, os Estados Unidos parecem transmitir inteligência precisamente escolhidas das comunicações do alto escalão do governo russo para assustar Moscou com o quanto sabem.

Essa predição equivocada foi um grande erro de minha parte porque constituiu cair em uma crítica liberal do governo. Como anarquistas, não nos opusemos a governos porque eles mentem, nós nos opusemos a sua existência como uma agressão a todos e todas e, independente de mentirem ou falarem a verdade, baseiam-se em seus interesses na manutenção do poder sobre todos os outros.

Então, por ora, os Estados Unidos recebem uma imagem de honestidade, decência e paz, uma grande mudança de sua imagem na mídia desde o fim da era Clinton.

Contudo, o novo brilho na marca manchada do governo estadunidense pode fazer nada para reverter o resultado mais importante desta guerra, em termos geopolíticos. Trata-se da aceleração da emergência de um mundo multipolar no qual nenhum Estado exerce hegemonia. Por causa de sua necessidade de ainda acessar energia russa e pagar por essas transações e sua ciência de sua própria vulnerabilidade a sanções, países como a China e a Índia estão rapidamente desenvolvendo alternativas ao sistema europeu SWIFT para transações bancárias e aos mercados de ações e produtos que dependem do dólar como a moeda comum.

Mesmo que a Rússia perca esta guerra ou se torne um pária completo, os Estados Unidos estão perdendo rapidamente seu poleiro de superpotência mundial. Isso ocorre em grande parte porque a hegemonia estadunidense nunca foi baseada primariamente em seu poder militar, ainda que fosse um ingrediente necessário. Mas o poder militar estadunidense sozinho foi suficiente apenas para manter governos aliados ocupados no Oeste Europeu e América Latina. A projeção de força de Washington foi arriscada em todos os outros lugares do mundo, como demonstrado na China, Coreia, Vietnã, Zimbábue, Afeganistão…

É fato que quase toda atividade econômica no mundo, até em assim chamados países socialistas, dependeu direta ou indiretamente em sua moeda e instituições financeiras, o que fez dos Estados Unidos o país mais poderoso do mundo. E essa realidade está chegando ao fim. Já estava acabando, como apontei em Diagnostic of the Future, mas todas as sanções ligadas à guerra que está acontecendo estão acelerando as coisas, ao invés de retardando-as. Os Estados Unidos estão usando suas armas econômicas mais potentes em um período que está em estado de tensão diplomática com muitos dos poderes médios mundiais, motivando esses governos a criarem defesas efetivas, com a maior parte da atividade econômica mundial saindo do NAFTA e da União Europeia.

Quanto aos vencedores capitalistas, esta guerra nos dá outro lembrete trágico de como energia renovável e combustíveis fósseis não são forças opostas; ao contrário, sempre cresceram em tandem e o que é bom para um tende a ser bom para outro.

Caso em questão, a Europa está sendo forçada a perceber o quão perigosa sua dependência do combustível russo é. Metade do combustível utilizado na Europa vem da Rússia e entre um quinto e um quarto da geração de energia na Europa vem desse combustível, com muitas casas se aquecendo e abastecendo fogões com esses recursos.

A resposta dos governos europeus tem sido a aceleração simultânea da mudança para energia renovável, com uma redução de 40% do uso de combustíveis fósseis até 2030, enquanto também aumentam a importação de combustíveis para serem estocados antes do próximo inverno e pressionam novos gasodutos para que tragam combustíveis não-russos para a Europa. Esses novos gasodutos provavelmente carregariam combustíveis do norte africano pela Espanha. Incidentalmente, os militares russos, através do Wagner Group, estão envolvidos em muitas guerras sangrentas no norte africano, assim como a França, um dos colonizadores de longa data da região.

E, embora os Estados Unidos continuem na liderança da produção mundial de petróleo e não sejam dependentes da produção russa, são dependentes da economia mundial sustentada por combustível barato e podem entrar em parafuso por um aumento rápido nos preços. Ainda não sabemos se a guerra na Ucrânia terá qualquer efeito ao acelerar a necessidade de energia renovável, dado quão retrógrado os Estados Unidos são na política e em infraestrutura, mas já conseguimos ver como Washington está investindo no lobbying da OPEC para o aumento da produção de petróleo.

Fronteiras e refugiados

Uma das áreas mais importantes de ação anarquista — e um local de grande potencial de organização desde o início — é em volta do problema de fronteiras e refugiados. A invasão russa produziu um milhão de refugiados em apenas uma semana e esse número continua subindo. Essas são pessoas que precisam de acesso a moradia, saúde, recursos ou empregos, afeto e apoio. Isso é algo que anarquistas não perderam tempo ajudando a organizar da Polônia à Espanha.

Temos também adicionado nossas vozes à raiva sobre a hipocrisia supremacista branca que caracteriza como refugiados ucranianos brancos são recebidos em comparação com refugiados da Síria, Iraque, Afeganistão e do norte da África, bem como as pessoas racializadas fugindo da Ucrânia.

Podemos, talvez, focar essa raiva de maneiras mais efetivas. Podemos nos atentar a como a mídia tradicional e partidos políticos que se vendem como progressistas são também responsáveis por reforçar as dinâmicas coloniais do capitalismo, e podemos pressionar ONGs e outras instituições que se consideram parte da esquerda para pôr um fim em suas práticas racistas e dedicar mais recursos às crises atuais de refugiados em outras partes do mundo. Projetos anarquistas que criam segurança, autonomia e moradia para e por migrantes continuarão a operar da Grécia aos Países Baixos. Mas, se pudermos intervir para pressionar esquerdistas com acesso a mais recursos para distribuí-los com mais equilíbrio, não apenas para refugiados brancos, fará uma grande diferença em muitas vidas e limitará ambas as formas que a direita e o centro estão encorajando o nacionalismo no conflito presente e mobilizará a xenofobia em resposta a refugiados racializados.

Outra coisa que podemos fazer na presente situação é perceber novamente o quão importantes são as relações diretas para a solidariedade internacional em meios anarquistas. Em tempo real, anarquistas de algumas áreas mobilizaram tanto para o Curdistão, Hong Kong, Chile, Chiapas ou Oaxaca quanto para a Ucrânia, embora a mídia tradicional mantenha seu silêncio sobre muitas das antigas guerras e repressões. O entusiasmo de nossa mobilização não se sujeita a práticas racistas, fortuitamente, mas aos relacionamentos globais desenvolvidos em uma cena radical particular, que em sua maioria é composta a partir de padrões globais de migração e viagens de solidariedade que levam a relações pessoais, espalhando-se além de fronteiras.

Precisamos ser mais estratégicos ao construir e coletivizar relações internacionais para aumentar o fluxo de informação e apoio com outras áreas do globo que enfrentam guerras ou repressão. Por exemplo, solidariedade e informação confiável sobre as guerras atuais no Sudão e na Etiópia são bem menos discutidas.

Para mais sobre solidariedade internacional [em inglês], confira:

https://roarmag.org/essays/international-solidarity-gelderloos/

https://chileboliviawalmapu.wordpress.com/2013/06/10/the-intensification-of-independence-in-wallmapu/

“Tankies Gonna Tank”

Infelizmente, temos que dedicar algum tempo às análises horríveis de autoritários de esquerda, que mais uma vez acharam apropriado comemorar os tanques enviados por Moscou, como fizeram em 1956 e novamente em 1968. A única razão pela qual ainda são relevantes é porque fornecem um enquadramento simplista e maniqueísta que é altamente compatível com políticas de Estado – compatível no sentido de não ser subversivo.

Então comecemos com alguns fatos que deveríamos ser capazes de discutir sem cair em uma visão de mundo dualista. Da perspectiva do governo de Moscou, sua invasão na Ucrânia foi de fato um ato de autodefesa. Desde a década de 1990, a Rússia foi crescentemente rodeada por bases da OTAN, sendo a OTAN uma aliança militar fundada especificamente para se opor ao poder russo. Em 2014, um governo aliado à Rússia foi tirado do poder por um movimento popular na Ucrânia e substituído por um governo favorável ao Ocidente, e apenas alguns meses atrás outra ação popular quase fez o mesmo no Cazaquistão, um dos poucos países ainda mais ou menos na órbita da Rússia.

Quando se é um governo, não se crê na legitimidade de movimentos populares. Eles são pratos sem sal necessários para eleições ou formas de expressão irrelevantes e incômodas que estão fora dos canais do governo. Quando se é uma democracia, são uma vitrine que prova que os cidadãos são livres, desde que não tentem realmente fazer algo, e, quando não se é uma democracia, são formas menores de traição. Quando protestos passam dos limites para a ação direta, transformam-se em ofensas criminais que precisam ser erradicadas. Nesses casos, são provavelmente casos de guerra híbrida orquestrados por seus inimigos porque, quando se é um governo, sua existência se baseia na crença de que o povo é incapaz de se organizar sozinho.

Então, sim, parte das informações sobre as quais a Rússia está agindo é fato (bases da OTAN) e outra é paranoia (poderes estrangeiros arquitetando todos os movimentos e protestos desde 2011), mas, independentemente, o governo russo está agindo em sua defesa.

Contudo, o que os Cold Warriors e stalinistas não compreendem é que você tem os mesmos exatos resultados se privilegiar a perspectiva de qualquer outro Estado. Todos os Estados estão agindo de acordo com os próprios interesses. O governo ucraniano também está claramente agindo em sua própria defesa quanto tenta se aproximar do Ocidente porque, é inegável, do Afeganistão à Chechênia, o poder russo é uma ameaça a seus vizinhos. Pelas mesmas razões, a Polônia e a Lituânia e todo o resto agiram em sua defesa quando pediram para entrar para a OTAN. Até os Estados Unidos estão agindo em defesa própria quando tentam se livrar de Putin porque Putin é hostil aos Estados Unidos e possui um arsenal nuclear capaz de tirá-los do mapa.

Esse é um dos problemas de Estados. Eles inevitavelmente criam guerras e conflitos porque seus interesses são mutuamente excludentes com os de outros Estados. Eles pensam que estão se defendendo quando, na realidade, estão trancados em uma dinâmica que os forçam a tentar conquistar o mundo, subordinar-se a outro Estado com uma chance maior de conquistar o mundo, ou entrar em colapso. É por isso que não nos importamos com os interesses dos Estados e, ao invés disso, buscamos destruir todos eles. Instituições não deveriam ter um direito de sobrevivência que supera as necessidades de sobrevivência das pessoas e do planeta.

Então stalinistas levantam a bandeira dos interesses legítimos da Rússia enquanto ignoram os interesses dos outros Estados. Falam sobre o imperialismo estadunidense, mas ignoram o russo. Na verdade, stalinistas e a extrema direita com frequência chegam a análises similares porque o stalinismo é uma ideologia de direita. Stalin explicitamente ligava a expansão da União Soviética com o Império Russo. Falas sobre “a pátria” era prevalecente na Rússia após a Segunda Guerra Mundial (e é novamente hoje), como na Alemanha da década de 1930. Sob os tsares, sob a União Soviética e sob Putin, a Rússia tem sido um império racista envolvido em genocídio e fundado nas terras de centenas de povos indígenas aniquilados. (Confira o seguinte artigo [em inglês]: https://thenewinquiry.com/blog/a-very-long-winter/). Na vasta maioria de seu território, a Rússia pode ser precisamente descrita como um Estado colonizador. Com a exceção dos barcos, pessoas brancas habitam Irkutsk e Vladivostok pelos mesmos meios que pessoas brancas habitam Des Moines e San Francisco.

Foi-nos dito que a Rússia não é imperialista porque ainda não atingiu certo nível de acumulação de capital; os Estados Unidos são os maiores imperialistas e, assim, o único imperialista e, portanto, devemos nos aliar à Rússia contra os Estados Unidos (aqui a Ucrânia e seus habitantes desaparecem da análise como meros marionetes). Essa análise, tão simplista que é insultante, é uma simplificação bruta do marxismo-leninismo, em si uma simplificação grosseira de Marx e, ainda mais, baseado em uma parte do marxismo que é, retrospectivamente, falsa: previsões em como a acumulação do capital global avançaria progressivamente e levaria ao socialismo internacional.

É uma perspectiva teórica sem validade. Seu único uso é como um tipo de sistema de teorias que sustentam o posicionamento das pessoas que não querem pensar sobre o mundo em que vivem, qual lado deveriam defender em conflitos que são muito complexos para que tenham seu engajamento. […]

Talvez o melhor argumento contra essa análise tankie é que eles mesmos não a usam quando a coisa aperta. Quando a União Soviética tentou dominar o Partido Comunista Chinês durante a revolução no país, Mao rejeitou o imperialismo soviético e se aliou aos Estados Unidos. Oops! Quando lutando contra os franceses, e então contra a ocupação estadunidense do Vietnã em meio a violência imperial intensa que matou milhões, Ho Chi Minh advertiu que o imperialismo chinês era um perigo maior à região do que o estadunidense a longo prazo. Similarmente, os comunistas vietnamitas agiram de maneira colonial ou imperialista quando suprimiram os Hmong, ou quando apoiaram a monarquia do Cambodja contra os comunistas.

Então, honestamente, quem os tankies estão tentando enganar?

Posso pensar em um argumento ainda melhor contra esses autoritários que dizem ser socialistas, comunistas ou anti-imperialistas, mas, na prática, são apenas direitistas apoiando as mesmas velhas dinâmicas coloniais. Autores e acadêmicos famosos que construíram suas carreiras sobre movimentos nativos que lutavam contra a violência dos Estados Unidos e do Canadá ajudam a silenciar as centenas de povos indígenas e racializados continuamente brutalizados pelo Estado russo. Autoritários que dizem se importar com as vítimas da guerra dos Estados Unidos no Iraque ou Afeganistão não se importam com as pessoas sofrendo agora com as bombas russas. Na realidade, a questão de “o que as pessoas na Ucrânia deveriam fazer agora que foram jogadas na guerra?” não pode ao menos aparecer em sua análise; simplesmente porque a Rússia é, de certa forma, parte de um imperialismo de menor abrangência do que o estadunidense, as vítimas ucranianas da guerra devem desaparecer da vista.

As pessoas que usam essa análise violam os padrões mínimos de solidariedade e decência, e falarão qualquer coisa para justificar suas noções preconcebidas.

Em oposição, ambos àqueles que justificam o imperialismo russo e àqueles que o depreciam enquanto dão carta branca à OTAN, repito um antigo dizer, nenhuma luta que não seja a de classes, e troco por: nenhuma guerra que não seja a contra o Estado, entendendo o Estado em todas as suas dimensões: capitalista, colonial, supremacista branco, patriarcal e ecocida.

Fonte: https://itsgoingdown.org/the-invasion-of-ukraine-anarchist-interventions-and-geopolitical-changes/

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Cercada de verde
ilha na hera do muro:
uma orquídea branca.

Anibal Beça

[Reino Unido] Elite Russa – Você ocupa a Ucrânia, nós ocupamos você

Declaração dos ocupantes de Londres:

Somos Anarquistas. Ocupamos esta propriedade em protesto contra Putin e seu mundo. Esta mansão é propriedade de um oligarca russo, cúmplice da invasão da Ucrânia por Putin.

Precisamos te lembrar por que Putin é um merda?

A invasão da Ucrânia é apenas o último episódio de uma longa série, desde o apoio a Assad na Síria até a milícia neonazista Wanger auxiliando a ditadura, campos de concentração para pessoas LGBT+, ecocidas, desigualdade brutal de riqueza, fazendas de trolls de extrema direita e assim por diante.

Ao ocupar esta mansão, queremos mostrar solidariedade ao povo da Ucrânia, mas também ao povo da Rússia que nunca concordou com essa loucura.

Queremos mostrar nossa simpatia aos bravos manifestantes que estiveram na barriga da besta e sofreram prisão injusta por terem feito frente a Putin.

Finalmente, algumas palavras para as elites aqui no Reino Unido, que são seguidores de Putin há anos. Você recebeu suborno, administrou a propriedade de Oligarca, até adotou a atitude autoritária de Putin de protestar e discordar. FODA-SE TAMBÉM.

Esta mansão servirá de apoio a refugiados, para o povo da Ucrânia e pessoas de todas as nações e etnias.

OCUPAR PROPRIEDADES DOS OLIGARCAS EM TODOS OS LUGARES

Fonte: https://nfaaf.wordpress.com/2022/03/14/russian-elites-you-occupy-ukraine-we-occupy-you/

Tradução > GTR@Leibowitz__

agência de notícias anarquistas-ana

sobre a cerca,
os mais novos girassóis –
ninguém à vista

Rosa Clement

Internacional! Contra a Guerra! Em Solidariedade!

Camaradas,

Onde há resistência, há opressão. Onde há resistência, há necessidade de dinheiro. É tarefa nossa não deixar os e as camaradas dos movimentos sociais, de esquerda, socialistas e anarquistas sozinhos!

Camaradas na Rússia são presos, agredidos e punidos com multas altas. Camaradas na Ucrânia estão construindo redes de apoio e abastecimento para todos e todas que continuam no país.

Transfira incluindo a seguinte observação: “Antirep Ukraine-Russland” para a conta Rote Hilfe:

Rote Hilfe Wien

IBAN: AT46 6000 0103 1036 9883

BIC: BAWAATWW

O dinheiro será enviado para:

> Fridays For Future Russia (multas e demais custos),

> Anarchist Black Cross Moscow and Kyiv (trabalho anti-repressão na Rússia e na Ucrânia),

> Sotsialnyi Rukh (alimentos, medicamentos, apartamentos e transporte na Ucrânia).

Organizado por Anti-Rep-Soli-Wien / Gruppe Zinnoberrot

Fonte: https://rotehilfe.wien/spendenaufruf-ukraine-russland/

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

cada haikai
uma nova peça
num quebra-cabeça sem fim

George Swede

[Espanha] Ecoespacio despede, a CNT responde

Várias centenas de pessoas manifestaram-se no sábado passado, 5 de março, nas ruas de Valladolid denunciando a repressão sindical que a Ecoespacio está exercendo contra a seção sindical da CNT naquela empresa.

A Ecoespacio, com sede em Valladolid e a seção sindical em Barakaldo, dedica-se aos serviços florestais, sendo sua principal ocupação a limpeza de linhas de alta tensão e gasodutos. É por isso que seus principais clientes incluem grandes empresas como Iberdrola, Red Eléctrica Española, Naturgy e OHL, e presta serviços em toda a Espanha.

A força de trabalho da Ecoespacio vem realizando sua atividade sindical desde 2018. Seguindo a má fé da empresa em não respeitar os acordos alcançados com a força de trabalho, a seção sindical tem se mobilizado desde julho do ano passado, e foi forçada a convocar uma greve de 15 a 25 de novembro de 2021. A administração da empresa reagiu à greve despedindo oito grevistas e transferindo à força outros seis.

Por esta razão, em apoio à seção sindical, foi realizada uma mobilização em Valladolid, começando na Plaza Zorrilla, passando pelas ruas do centro da cidade e terminando na Plaza de Portugalete, aos pés da catedral, onde os camaradas do SOV de Barakaldo, da seção sindical de Ecoespacio e do SOV de Valladolid tomaram a palavra.

Com slogans como “A CNT, não se vende nem se rende” ou “Reintegrar camaradas demitidos, nenhum passo atrás, venceremos esta greve”, a manifestação aconteceu para informar o público sobre os problemas vividos por esta empresa, cuja sede está no parque tecnológico Boecillo.

No final da manifestação, os camaradas de Barakaldo e da seção sindical explicaram o estado atual da greve da seção sindical da empresa, que as mobilizações e protestos não vão parar aqui e que estes despedimentos e transferências forçadas são uma clara represália pela participação destes trabalhadores nas greves e mobilizações convocadas pela seção sindical da CNT em defesa de condições dignas de trabalho. Eles também “anunciam que continuarão a lutar em defesa de cada emprego, pois consideram estas demissões um ataque direto a toda a Confederação, à liberdade sindical e, portanto, à classe trabalhadora como um todo”.

Em seguida, um camarada do Sindicato dos Sindicatos Vários de Valladolid pediu o fortalecimento dos sindicatos, dada a atitude dos patrões em relação aos trabalhadores, mencionando a repressão sofrida pelos camaradas de Gijón no caso de “La Suiza”; ele se referiu aos camaradas da seção sindical da CGT na Iveco para a reintegração da Chechu, que estavam presentes na manifestação, e as greves do pessoal das empresas Lingotes Especiales, Sesé e Frenos y Conjuntos.

O evento terminou com uma forte ovação para os camaradas de Ecoespacio, que se mostraram tão fortes em espírito quanto no primeiro dia.

Fonte: https://www.cntvalladolid.es/ecoespacio-despide-cnt-responde/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

dentro do jardim
o dia chega mais cedo
ao fim

Alice Ruiz

[Chile] “A luta contra o Estado é parte da luta contra o patriarcado”

Comunicado da presa anarquista Mónica Caballero para o 8 de março de 2022

As ruas das principais cidades do território dominado pelo Estado chileno, em um dia como hoje, 8 de março, a dois anos atrás se enchiam com milhares de pessoas que com cores, gritos, lemas, fogo e barricadas visibilizavam e/ou atacavam a escória machista. Hoje apenas alguns corpos enchem as ruas. Muitos preferem esperar as mudanças tão prometidas pelo novo governo, desde a comodidade de suas casas, mudanças que prometem acabar com o machismo hetero-patriarcal entre os habitantes deste território.

A expectativa pelas novas políticas públicas e as reformas relativas às questões de gênero levantaram uma esperança em uma parte dos grupos e individualidades feministas, dissidentes sexuais e em praticamente em todos os setores lambe bandeiras socialdemocratas.

As esperas e esperanças lamentavelmente ficaram só nisso, porque o heteropatriarcado não terminará com nenhuma reforma legal ou com ajudas sociais.

Lamentavelmente o heteropatriarcado é parte do sistema econômico, social e cultural que nos domina. Está em todas as partes! O encontramos na forma como vemos a nós mesmos e os outros. Na maneira de nos relacionarmos, em como nos submetem, etc. Não há ser que não seja afetado pelo patriarcado, mas sem dúvida os ataques machistas não são iguais para homens e para mulheres ou transexuais, queers, gays, lésbicas, sem vitimizar estes 5 últimos são os mais afetados.

Hoje o poder se veste na moda, toma trajes feministas e de dissidências sexuais, e porque não o faria? Se todos tem lugar na festa democrática, todos podem ser representados nas instituições, todos podemos ter os mesmos direitos constitucionais.

Os poderosos podem tomar estas ou outras roupagens para se perpetuar no poder, como da mesma maneira podem levantar diversas iniciativas para melhorar as condições de vida de mulheres e dissidências sexuais, mas o exercício do poder, portanto a dominação estatal não terminará.

As mudanças na forma como os poderosos “humanizam” a submissão ou criam um aparato repressor mais brando ou proclamam leis mais inclusivas para diversos coletivos, não deveria ser parte das lutas dos que querem realmente a destruição radical em todas as formas de opressão. Para que algo mude radicalmente todos temos que atuar sem delegações, nem intermediários, nem esperas.

Hoje saem à rua os que não ficam esperando que outros quebrem suas correntes, os que aqui e agora querem destruir o patriarcado.

Ação direta contra o machismo!
Que todas as instituições ardam até seus cimentos!

Mónica Caballero

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

fera ferida
nunca desiste –
luta pela vida

Carlos Seabra

“O Anarquismo mudou meu modo de pensar e agir em todos os sentidos, tanto na vida pessoal quanto na profissional.”

A seguir, entrevista de Luiza Angélica Paschoeto Guimarães concedida ao Instituto de Estudos Libertários (IEL).

Instituto de Estudos Libertários > Quem é Luiza Angélica Paschoeto Guimarães?

Luiza Angélica Paschoeto GuimarãesEu sou uma mulher de 60 anos que atuo na área da educação desde os 18, quando me formei no Curso Normal de Nível Médio. Em 1990, concluí a Pedagogia e em 1997 passei a trabalhar com a formação de professores, primeiro no ensino médio e depois em cursos de Licenciatura. Conhecida nos meios acadêmicos como Luiza Paschoeto, atualmente, além de professora, sou também coordenadora do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Geraldo Di Biase, em Volta Redonda, no qual venho difundindo a Educação Libertária e o Anarquismo sempre que encontro oportunidade. Passei a minha vida inteira trabalhando e estudando, e cheguei ao Pós-doutorado (que ainda não concluí), às custas de meu próprio esforço.

IEL > Como se deu seu primeiro contato com o pensamento libertário?

Luiza < Meu primeiro contato com o pensamento libertário foi no V Congresso Brasileiro de História da Educação – SBHE, em 2008, quando participei de um minicurso com o professor José Damiro de Moraes. Até então, só conhecia o Anarquismo pela minissérie “Anarquistas, Gracas a Deus”, baseada no livro de mesmo nome de Zelia Gattai, que, aliás, me deu uma visão bem distorcida acerca do Anarquismo. Nesse Congresso, eu fui apresentar um trabalho resultante de minha Dissertação de Mestrado que tratou das políticas públicas de Anísio Teixeira.

IEL > E Proudhon? Como ele entrou no seu campo de interesse?

Luiza < Nesse mesmo minicurso, o professor Damiro apresentou uma pequena biografia de anarquistas que direta ou indiretamente se envolveram com a educação, Proudhon estava entre eles. Minha identificação com ele foi imediata: filho de trabalhadores, com poucos recursos financeiros para estudar, um autodidata… E naquele momento, percebi que tinha “abandonado” Anísio Teixeira. Meu foco passou a ser Proudhon e passei a comprar e a ler seus livros editados no Brasil e muitos outros que se referiam a ele. E quando surgiu a oportunidade de cursar o Doutorado, lá estava eu a elaborar um projeto de pesquisa sobre o pensamento de Proudhon em educação.

IEL > Nos fale um pouco sobre a sua produção acadêmica na universidade.

Luiza < Minha produção acadêmica é pequena. Tenho poucos artigos publicados e a maioria deles tratam de assuntos relativos à Pedagogia. No campo do Anarquismo, publiquei um livro com parte da minha Tese de Doutorado; um capítulo no livro “O pensamento de Proudhon em Educação” da Intermezzo e um capítulo do Livro “Anarquismo e Educação Integral – memória da 3ª Jornada de Pedagogia Libertária”. Fui coautora com alunos da Pedagogia em dois artigos publicados na Revista Episteme Transversalis – um tratou da Escola Moderna e outro da escola Yasnaia Poliana de Tolstói. Também apresentei alguns trabalhos, conferências e palestras em Congressos e Jornadas de Educação Libertária. Na instituição onde atuo (UGB), implantei o “Simpósio de Educação: Cotidiano, História e Políticas” (que parou na 5ª edição, por causa da pandemia), no qual o tema central é a Educação Libertária. Além disso, no curso de Pedagogia temos a disciplina “Laboratório de Prática Pedagógica II”, cuja temática é pensamento libertário na educação e é ministrada por mim.

IEL > Como foi o seu trabalho em Portugal?

Luiza < Em Portugal, fui cursar o Pós-doutorado em História Contemporânea na Universidade de Évora. Fiquei lá realizando pesquisa durante dois meses, fotografando documentos em arquivos públicos e na Biblioteca Nacional de Lisboa. Tive contato com diversos anarquistas com os quais aprendi muito. Minha pesquisa envolveu o jornalista brasileiro Pinto Quartim e sua esposa professora Deolinda Vieira – portuguesa, ambos anarquistas do início do século XX. Ainda não consegui produzir o trabalho acadêmico, pois esses dois últimos anos não foram fáceis, mas ainda não desisti. A ideia é demonstrar as contribuições de ambos para o pensamento libertário em Portugal.

IEL > Em que o anarquismo contribuiu para a sua prática pedagógica?

Luiza < O Anarquismo mudou meu modo de pensar e agir em todos os sentidos, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Como pessoa, aprendi que ser livre não é fácil, mas não é impossível na medida em que compreendemos o sentido do termo “liberdade” como a possibilidade de agir de modo consciente, responsável e solidário consigo mesmo e com os outros. E é desse modo que procuro exercer as minhas funções como professora nas licenciaturas e como coordenadora do curso de Pedagogia.

Na minha prática, procuro agir com amorosidade para que meus alunos compreendam que ser professor é muito mais do que transmitir conhecimentos. Ser professor é “permitir” que os estudantes encontrem seus próprios meios e caminhos para aprender, assim como para se tornarem pessoas melhores. Pois educar é lidar com diferentes inteligências, sendo provedor de liberdade e felicidade, e é assim que contribuímos para a revolução social. E isso eu aprendi com Proudhon.

IEL > Como é estudar anarquismo em um contexto político tão adverso como o que estamos vivendo?

Luiza < Estudar o anarquismo atualmente não é nada fácil, pois vivemos entre dois polos autoritários que consideram o anarquismo como utopia romântica e caótica, muitas vezes visto com desconfiança e preconceito decorrente da falta de conhecimento sobre o assunto. No meu caso específico, que vivo no interior do estado do Rio de Janeiro, os anarquistas são em número reduzido (ou não se manifestam com muita frequência), o que dificulta ainda mais o estudo e a produção do conhecimento nesse campo.

Acredito na construção coletiva do conhecimento e isso se faz inicialmente pela reunião das pessoas com o intuito de estudar o assunto. Algumas vezes encontro pessoas que se autointitulam anarquistas, mas não demonstram estarem dispostas a se aprofundarem nas questões relativas ao pensamento libertário ou não têm tempo para se dedicarem a esses estudos.

IEL > Suas considerações finais.

Luiza < Preciso, inicialmente, agradecer ao Instituto de Estudos Libertários e ao professor Alexandre Samis pela oportunidade.

Acredito que há possibilidades de transformar o mundo em que vivemos, com tantas manifestações de violência contra a pessoa humana, principalmente contra aquelas consideradas diferentes do que a sociedade instituiu como “o comum”. Cada um pode fazer isso ao seu modo, via sindicato, grupos coletivos etc., considerando que há diferentes modos de “fazer” política, desde que realmente tenha vontade de fazê-lo. Eu escolhi a educação há 42 anos e o anarquismo há 14 anos para exercer, ao meu modo, a política.

Procuro utilizar o que aprendi com o pensamento libertário, principalmente ao ler Proudhon, na minha vida e no meu trabalho, na medida do que é possível. Minha luta contra o autoritarismo é via educação, pois é o que aprendi (e continuo aprendendo diariamente) e sei fazer. Por essa razão, não me incomodo em ser chamada de “utópica” ou “romântica”, afinal, sou anarquista (Rsrs).

Para acessar a tese A Educação do trabalhador no Movimento Operário da Primeira República no Rio de Janeiro: apropriações e traduções do pensamento de Pierre-Joseph Proudhon, clique no link a seguir: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/24075/24075.PDF

Fonte: https://ielibertarios.wordpress.com/2022/02/26/entrevista-de-luiza-angelica-paschoeto-guimaraes-ao-instituto-de-estudos-libertarios/

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Gatos no quintal
Disputam gata no cio
– Rato vai… e vem.

Mary Leiko Fukai Terada