O Capital e as Guerras do Fim do Mundo

Entender a invasão da Ucrânia pela Rússia neste início de 2022 requer um percurso por algumas das questões não resolvidas deixadas pelo século XX, em especial a derrota da luta pelo socialismo e a reemergência do problema das nacionalidades. O texto a seguir tentará contribuir para esse debate com algumas contextualizações. Começaremos pela discussão sobre a relação da Rússia e da URSS com a luta pelo socialismo, faremos um parêntesis para apresentar algumas particularidades da chamada “esfera de influência” russa, passaremos pela trajetória da Rússia pós-soviética e seu reerguimento com Putin, pela reconquista do status de competidor geopolítico (coincidindo com a origem do conflito com a Ucrânia), pelo histórico das relações entre Rússia e Ucrânia no século XX, para chegar ao debate sobre a invasão de 2022; e concluímos com a relação entre as crises capitalistas e as guerras atuais.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://quilomboinvisivel.com/2022/03/14/o-capital-e-as-guerras-do-fim-do-mundo/?fbclid=IwAR0XxkSRiiJxemRkE5fP78dnQAiLz6jE4BIaRjC2qyGIrcZWfwoCb6cvG-c

agência de notícias anarquistas-ana

Grande sol poente
chupa no horizonte
estrada serpenteante

Winston

 

[Portugal] Contra a invasão russa e a guerra! Solidariedade com o povo ucraniano!

A seguir, comunicado contra a invasão da Ucrânia pela Rússia, assinado por diversos coletivos e militantes anarquistas portugueses, e distribuído na manifestação realizada em Lisboa junto da Embaixada da Rússia, ontem, 13 de março, e em diversos pontos do país.

CONTRA A INVASÃO RUSSA E A GUERRA!

SOLIDARIEDADE COM O POVO UCRANIANO!

Estamos contra esta guerra. Nem Putin, nem Otan. Antimilitaristas, não tomamos partido por quem bombardeia as populações, seja o exército ucraniano sobre Donbass, sejam os mísseis e tanques do Estado Russo sobre a Ucrânia. Tomamos partido, sim, por quem sofre a força bruta dos nacionalismos, por quem sai à rua com a coragem para deixar claro que os povos têm outra maneira de se relacionar.

Pessoas na Ucrânia, antiautoritárias, antifascistas, ativistas LGBT, algumas das quais mantêm meios de informação independentes, pedem a nossa solidariedade enquanto combatem a invasão nas ruas.

Tal como em 2014, simplificar a guerra atual na Ucrânia, ou como uma batalha entre os interesses democráticos ocidentais e as aspirações imperiais pós-soviéticas, nacionalistas russas, ou como movimentos políticos neo-fascistas e lutas de libertação nacional, não ajuda à compreensão das verdadeiras causas desta guerra.

Distanciamo-nos de quem diz coisas como “a Rússia foi provocada e tem direito a retaliar”. Afirmações como esta sugerem um processo de desculpabilização de ações inaceitáveis. O atual governo russo nacionalista e reacionário, que desenvolve há anos um projeto imperialista, pretende agora subjugar outro país – bastante rico em matérias-primas como urânio, carvão, gás natural, e grandes produções agrícolas –, ao mesmo tempo que reprime constantemente as vozes dissidentes internas.

Estes mesmos recursos interessarão também a Joe Biden, cujas políticas imperialistas são igualmente reconhecidas. No entanto, ser contra o imperialismo norte-americano não pode significar que se desculpe outro imperialismo. Tal como já foi dito o imperialismo russo moderno baseia-se na percepção de que a Rússia é a sucessora da URSS – não no seu sistema político, mas em termos territoriais.

Neste momento, seguimos com atenção as situações de Chernobyl e de outras centrais nucleares da Ucrânia, e bombardeamentos sobre alvos civis, atos bélicos próprios de quem não olha a meios para atingir os seus fins.

A lei marcial imposta na Ucrânia obriga a que todos os homens entre os 18 e os 60 estejam proibidos de sair do país. São aconselhados a pegar em armas e a defender a sua “pátria”. A guerra evidencia que o patriarcado, expresso de forma natural nos nacionalismos e nas disputas pelo poder de Estado, é uma brutalidade para todas as pessoas. Mesmo que se reconheça o direitos dos povos à resistência a um agressor.

Estamos solidárias com todas as pessoas na Ucrânia que foram apanhadas por uma guerra que não compraram, bem como com a diáspora ucraniana espalhada por vários países. Refugiados/as serão bem-vindos/as, como todos/as os/as outros refugiados e migrantes deste mundo em guerra.

Rejeitamos ainda qualquer russofobia. Expressamos toda a nossa solidariedade com o povo russo, que irá sofrer uma crise sem precedentes, e estamos a seguir organizações de apoio aos detidos em manifestações contra a guerra que tiveram e têm lugar em território russo.

CONTRA AS GUERRAS ENTRE ESTADOS!

SOLIDARIEDADE ENTRE OS POVOS.

UM GRUPO DE ANARQUISTAS E LIBERTÁRIOS

Fonte: https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2022/03/14/contra-a-invasao-russa-e-a-guerra-solidariedade-com-o-povo-ucraniano/

agência de notícias anarquistas-ana

criança traquina
saltita atrás dos pássaros
natureza em flor.

Helena Monteiro

[EUA] Seattle em Solidariedade com os Anarquistas da Ucrânia

Relatório do comício de solidariedade no consulado ucraniano na então chamada Seattle, Washington, sábado, 12 de março de 2022.

Embora o consulado russo em Seattle tenha ficado vazio desde 2018, ainda é um local significativo para protesto. Não só já foi ocupado pelo governo imperialista russo, mas ainda é terra ocupada e “propriedade” do governo colonial e belicista dos EUA.

Como anarquistas, somos contra todas as nações, todas as ocupações, todas as guerras imperialistas, todo derramamento de sangue inocente! Somos solidários com os civis e anarquistas da Ucrânia, e pela libertação de todos os povos dos Estados-nação e da hegemonia global!

нет войне!

Mais fotos: https://pugetsoundanarchists.org/seattle-in-solidarity-with-ukraine-anarchists/

Tradução > dezorta

agência de notícias anarquistas-ana

Sobre o varal
A cerejeira prepara
O amanhecer

Eugénia Tabosa

[Grécia] Campo de batalha em Tessalônica: Violência política se agrava na Macedônia Grega

Os ataques

Anarquistas de Tessalônica reivindicaram separadamente ataques que aconteceram em janeiro de 2022 a veículos pessoais e apartamentos pertencentes a dois homens supostamente ligados ao grupo neofascista Sacred Company.

Em 10 de janeiro, um carro pertencente a um ex-soldado do exército grego foi destruído, o homem é conhecido por ter ligação com fascistas, os responsáveis deixaram um dispositivo incendiário aceso no painel do carro antes de escaparem. No comunicado assumindo a responsabilidade pelos atos, os autores dedicaram os ataques de 10 de janeiro ao despejo da okupa que existia há 34 anos na Universidade Aristóteles de Tessalônica, no campus de biologia.

Apenas duas semanas depois, em 27 de janeiro, um IID (dispositivo incendiário improvisado) construído com botijões gás de butano ou propano, foi deixado na entrada do prédio de outro homem, também alegadamente, membro da organização fascista Sacred Company. O IID foi detonado e como reportado, causou dano ao exterior do prédio. Os autores atribuíram esse segundo ataque ao aniversário da Crise Imia/Kardak (1996) – quando a Grécia e a Turquia quase entraram em guerra pela posse de uma ilha desabitada no Mar Egeu. O aniversário de Imia, e a morte de três oficiais da marinha grega durante o incidente é rememorado pela extrema-direita grega todo janeiro.

Após reivindicar os ataques, o comunicado clama por mais ações diretas contra fascistas:

Nós chamamos o mundo da militância antifascista à ação. Os dias em que fascistas agem e andam sem medo precisam acabar. Sejam eles da ΕΝΕΘ ou da Sacred Company, sejam eles da parte oeste ou leste da cidade, devem ser esmagados em todos os bairros.

ΕΝΕΘ” se refere ao movimento fascista em Tessalônica que tem sido particularmente militante nos últimos anos, também chamada Juventude Nacionalista de Tessalônica.

EΝΕΘ surge com a dissolução do partido-milícia Aurora Dourada, após um julgamento onde foram classificados como organização criminosa. (A maioria dos líderes do Aurora Dourada permanece atrás das grades após serem indiciados por terem ordenado diretamente o assassinato do rapper antifascista Pavlos Fyssas, em 2013).

Tessalônica: uma incubadora da direita

Nos últimos 4-5 anos, os grupos pós-Aurora Dourada tem sido especialmente descarados no norte da Grécia, com os incidentes mais polêmicos sendo relacionados a temas que abrangem toda a direita. Em Novembro de 2017, a casa de um menino afegão refugiado que foi escolhido para carregar a bandeira grega durante um desfile nos feriados nacionais, foi violentamente apedrejada. Um grupo misterioso chamado “Krypteia” – inspirados pela “polícia secreta” Espartana que vagava pelo interior aterrorizando a população – assumiu o ato. Em seguida, Krypteia fez vários ataques criminosos contra imigrantes após seu líder, um professor universitário de 48 anos, ser preso em 2019. Em Janeiro de 2018, centenas de milhares de nacionalistas gregos tomaram as ruas de Tessalônica, capital da Macedônia grega, para protestar pela mudança de nome da antiga República Iugoslava, Macedônia do Norte. Usando a mobilização de massas para agirem, militantes de direita avançaram pelas ruas, vandalizando um memorial do Holocausto e incendiando uma okupa anarquista, Libertatia, (cuja construção havia sobrevivido à ocupação nazista de 1940), depois de atacar um centro educacional anarquista, Sxolio. Meses depois, talvez inspirados por seus camaradas em Tessalônica, outro recém-formado grupo fascista, Apella, detonou múltiplos IIDs na okupa anarquista Piraeus Port. Os membros do Apella tiveram suas casas revistadas pela polícia, que encontrou várias armas e parafernália nazista, o líder do grupo, parece ser um antigo membro do Aurora Dourada. É provável que os atuais afiliados a ΕΝΕΘ e Sacred Company tenham sido responsáveis pelo ataque a Libertatia em janeiro de 2021.

No outono de 2021, Tessalônica foi novamente chocada por uma série de ataques brutais, que durou uma semana inteira. Estudantes de esquerda e aliados ativistas estavam protestando contra as reformas na educação no lado de fora de uma escola técnica na vizinhança de Stavroupoli no oeste de Tessalônica, quando foram repentinamente atacados por dezenas de membros da juventude fascista, todos de preto, encapuzados, com máscaras e capacetes de motocicleta, empunhando pedras, coquetéis molotov e armas brancas. Enquanto os grupos lutavam, os fascistas ocuparam o prédio da escola, pondo em ação a tropa de choque (MAT) que assistia. Inicialmente a MAT parecia mais interessado em formar uma barreira entre os dois grupos, do que em expulsar os fascistas do campus, mas isso mudou quando os fascistas começaram a fazer a saudação romana e arremessar objetos contra a polícia. Agentes da MAT dispararam gás lacrimogêneo e balas de borracha até a juventude de direita se dispersar. Embates como esses se repetiram no campus por vários dias, e em vários outros locais, inclusive no lado de fora de uma escola em Evosmos onde fascistas atacaram a polícia e jornalistas, até que uma série de mandatos de busca levou a prisão das lideranças. O “Youth Front” (Frente da Juventude) do Aurora Dourada parabenizou os perpetradores durante a semana de violência.

Sacred Company, assim como o extinto Aurora Dourada, provavelmente está envolvida direta ou indiretamente com toda atividade da juventude paramilitar de direita em Tessalônica. Eles estão ativos aproximadamente desde 2012, e parecem ser a ligação entre velhos quadros fascistas e os atuais movimentos da juventude fascista grega. Ambos dos supostos membros da Sacred Company alvos de ataques anarquistas em janeiro de 2022 são membros mais velhos do movimento.

Conclusão

Com relação ao grupo que reivindicou os dois ataques em janeiro, contra os supostos membros da Sacred Company, não é a primeira vez que ouvimos falar do Anarchist Against Oblivion. Recentemente eles atacaram a sede da juventude do governo de turno, Nova Democracia (ND), ΟΝΝΕΔ, com um IID similar ao usado no ataque de 7 de janeiro contra o suposto membro da Sacred Company. Exceto pelo fato que empregam os mesmos métodos e escolha de alvo, não é sabido (ao menos para este pesquisador) se o Anarchist Against Oblivion é formalmente alinhado com a rede mais ampla de grupos anarquistas de guerrilha urbana operando na Grécia desde 2021, a Direct Action Cells (DAC).

Supondo que Anarchists Against Oblivion é outra célula da DAC em Tessalônica, como é a Organization of Anarchist Action (OAA), a esquerda e pós-esquerda militante na Grécia parece estar se consolidando sob uma mesma bandeira com muito mais sucesso que a extrema direita, que continua cambaleando após o julgamento do Aurora Dourada.

Episódios recentes de violência em Tessalônica são tentativas da extrema-direita de se reorganizar após a sua expulsão do parlamento. De dentro da sua cela, o líder do Aurora Dourada, Ilias Kasidiaris, tem feito um esforço para criar um novo partido após a dissolução do AD. De todo modo, os movimentos de extrema-direita de rua, parecem estar encontrando meios de uma vez mais, criarem alianças, conforme a administração da ND volta sua atenção para as fontes de maior “desrespeito a lei” como os enclaves anarquistas ao longo das cidades da Grécia e aparentemente ignora a militância de direita.

Na Grécia, causas ultranacionalistas tem tido sucesso em mobilizar grande número de gregos de direita pelas ruas de Tessalônica, primariamente graças a sua proximidade com as fronteiras dos Bálcãs e da Turquia, com quem a Grécia tem relações conturbadas. Recentemente a rota de migrações em massa do Oeste dos Bálcãs motivou repetidas mobilizações de rua da direita, e ataques contra centros acolhimento aos imigrantes. As políticas da Nova Democracia vêm mirando nas ações de rua dos anarquistas e da extrema esquerda, fazendo com que esses redobrem seus esforços e intensifiquem seus ataques contra o Estado e seus aparentes aliados da direita extra parlamentar. Por mais que Atenas seja historicamente o epicentro da violência política da Grécia, a segunda maior cidade do país vem nos relembrando seu lugar neste conflito de baixa intensidade.

Fonte: https://www.militantwire.com/p/battleground-salonika-political-violence?s=r

Tradução > 1984

agência de notícias anarquistas-ana

A neve está derretendo –
A aldeia
Está cheia de crianças!

Issa

[França] Caravana Solidária Ucrânia

 

A Federação Anarquista está organizando uma caravana de ajuda aos refugiados ucranianos.

Esta é uma caravana libertária, autogerida e antiautoritária!

Participe via doação:

https://www.cotizup.com/convois-pour-l-ukraine

A guerra travada por Putin com a ajuda do Estado bielorrusso obrigou centenas de milhares de pessoas a fugir da Ucrânia e a migrar para os países vizinhos, chegando com o pouco que podiam levar consigo. Muitas caravanas já partiram para o leste para trazer suprimentos, mas cada vez mais refugiados estão chegando e, além disso, muitas dessas associações estão vinculadas aos Estados.

Vamos organizar uma caravana autogerida e antiautoritária!

Uma nova caravana está sendo organizada para se juntar aos países vizinhos. Em conexão com associações e companheiros libertários locais.

As necessidades são inúmeras:

> Equipamentos médicos, alimentos, água, cobertores, fogão, barracas, sacos de dormir…
> Também procuramos pessoas com caminhões, vans, utilitários prontos para fazer a viagem.
> Quanto mais melhor.

Nossos inimigos continuarão sendo esses criminosos que, por sede de poder, nacionalismo, capital, desenham fronteiras, criam guerras para ampliar seu domínio sobre um mundo que já devastaram tanto.

Diante da guerra e seus horrores,
Diante do fascismo e das bombas,

Mais do que nunca a solidariedade deve ser nossa arma!

Federação Anarquista

federation-anarchiste.org

agência de notícias anarquistas-ana

tarde de chuva
ninguém na rua
guarda a chuva

Alonso Alvarez

Curso “Perspectiva Antropológica Antifascista”

O Centro de Cultura Social (CCS) recebe o curso “Perspectiva Antropológica Antifascista”. O ministrante é Guilherme Falleiros, membro da Brigada Lucas Eduardo Martins e pesquisador colaborador do Centro de Estudos Ameríndios (USP). A proposta do curso é pensar o fascismo a partir de uma abordagem antropológica que leva em conta perspectivas políticas que lhe são antagônicas e de teor libertário. O curso terá a duração de 9 encontros e acontecerá às sextas-feiras, das 20h às 22h, a partir do dia 1º de abril, na sede do CCS. Para mais detalhes e se inscrever para participar, acesse: tinyurl.com/PerspectivaAA.

FB: https://www.facebook.com/events/315119724016454/?ref=nFewsfeed

agência de notícias anarquistas-ana

lua quase cheia
por trás das nuvens
nos olhos do cão

Alice Ruiz

 

[Rússia] Atualizações da Cruz Negra Anarquista de Moscou, março de 2022

A guerra na Ucrânia já aumentou o nível da repressão na Rússia, mas ainda não há novos procedimentos criminais contra ativistas anarquistas ou antifascistas. Nessa nova situação excepcional, estamos encaminhando alguns de nossos recursos a necessidades humanitárias que vão além de nosso estreito foco usual de suporte a anarquistas e antifascistas oprimidos.

Muitos foram detidos em manifestações e saíram sob fiança, ou entregues a uma imediata sentença de 15 dias de prisão. Acusações mais sérias podem ser feitas a qualquer momento. Mas, até lá, estamos acompanhando anarquistas e antifascistas que já encaravam a repressão antes da guerra.

Mas primeiro notícias boas.

Anarquistas de Chelyabinsk soltos

Esta já é uma notícia antiga, mas no dia 24 de novembro o tribunal de recursos revogou a sentença de dois anarquistas de Chelyabinsk, Anastasia Safonova e Dmitry Tsibukovski, que tinham sido sentenciados a 2 e 2.5 anos respectivamente por “vandalismo”, após colocarem um banner com o texto “FSB é o maior terrorista”. Seus casos criminais retornaram ao tribunal local, então uma nova sentença é possível. É extremamente fora do comum que sentenças políticas na Rússia sejam anuladas por meio de recursos. Até o novo processo, Safonova e Tsibukovski estão sob severas restrições.

Ruslam Gatamov sentenciado a serviço comunitário

Outra notícia antiga, no dia 27 de outubro o anarquista de Vologda Ruslan Gatamov foi sentenciado a 300 horas de serviço comunitário por jogar um coquetel molotov na parede da sede do partido governante russo “Rússia Unida” em outubro de 2019. Essa já é a segunda vez que Gatamov deu sorte, já que foi previamente acusado com desacato durante os protestos ambientalistas em Shies, na região Arkhangel, mas as acusações foram retiradas na audiência. Contudo, as autoridades não deixam Gatamov em paz; em 9 de fevereiro foi interrogado sobre outro caso criminal, do qual foi banido de falar sobre por razões legais. Contudo, declarou que tem nada a ver com o alegado caso.

E então algumas notícias ruins.

Promotor exige mais quatro anos de prisão para Nikita Uvarov

10 de fevereiro, https://avtonom.org/en/news/minecraft-terrorism-russian-court-sentences – … o anarquista Nikita Uvarov de Kansk, Sibéria, foi condenado a uma sentença drástica de 5 anos por acusações relacionadas a terrorismo, enquanto a dois outros acusados foram concedidos liberdade condicional. Mas nem isso foi o suficiente – no dia 25 de fevereiro, o promotor exigiu o aumento da sentença de Uvarov para 9 anos. Uvarov também entrou com recurso contra a sentença.

As novidades no caso dos Kansk foram um pouco enganosas. A mídia começou a chamar o caso de “o caso Minecraft”, como parte do material envolvia os adolescentes (Uvarov e outros acusados tinham 14 anos durante os alegados “crimes”) discutindo sobre explodir um prédio FSB no Minecraft. Mas, apesar dessas discussões estarem envolvidas nos materiais do caso, não foram uma parte proeminente das acusações. A principal razão pela qual Uvarov e seus amigos foram acusados foi por serem anarquistas, e também por montarem alguns explosivos pequenos, o que é um passatempo comum para adolescentes.

Neste vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=rwoNamgIbOU, você pode ver Uvarov se preparando por seu último dia no tribunal e possível encarceramento imediato.

Neste vídeo, uma pequena entrevista com Nikita após sua sentença: https://www.youtube.com/watch?v=VYwnzr01HDY&t=176s, na qual conta como fora agredido e estrangulado por agentes da FSB após ser detido.

Você pode escrever cartas de apoio a Nikita pelo endereço:

Nikita Andreevich Uvarov, 2005 g.r.

FKU SIZO-5 GUFSIN ROSSII po Krasnoyarskomu Krayu

ul.Kaytymskaya d. 122 Krasno yarskiy Kray g. Kansk

663600 Rússia

É necessário que as cartas sejam escritas em russo. Você pode usar ferramentas de tradução online ou outros serviços para isso.

Apoie ativistas reprimidos por uma ação contra a FSB

Ruslan Abasov e Lev Skoryakin são ativistas do Left Bloc, uma organização de unidade da esquerda que abrange ativistas anarquistas e comunistas através de um pequeno denominador comum. Eles foram acusados de uma ação contra o serviço secreto da FSB, no qual visitaram a FSB na rua Ivana Babushkina, em Moscow, e penduraram um banner “Happy day of a Chekist!”, lançando um pequeno artefato incendiário no jardim do prédio. Foram acusados com “Vandalismo com premeditação e uso de armas”, o que significa que podem receber pena de até 7 anos.

Lev Skoryakin é um ativista de longa data, com vários antecedentes criminais; em junho de 2020, foi preso e espancado por uma tentativa de pendurar um banner “Justice for Floyd” na embaixada americana de Moscou.

Abasov e Skoryakin estão detidos na infame Prisão Butyrka de Moscou, você pode enviá-los correspondências em apoio:

Ruslan Faridpashaevich Abasov 2002 g.r.

SIZO-2 Butyrka, ulitsa Novoslobodskaya dom 45

127055 Moscou, Rússia

Lev Vitalevich Skoryakin

SIZO-2 Butyrka, ulitsa Novoslobodskaya dom 45

127055 Moscou, Rússia

Recomendamos que escreva suas cartas em russo. Você pode usar ferramentas de tradução online ou outros serviços para isso.

Apoio a Evgeny Karakashev, anarquista ambientalista da Crimeia

Evgeny Karakashev é anarquista e ambientalista, ficou na Crimeia após a tomada russa de 2014 e continuou a lutar. Suas atividades para preservar o meio ambiente contra projetos turísticos, bem como atividades contra a brutalidade policial, incomodou as autoridades e, alguns anos depois da tomada russa, começaram a encontrar pretextos para prendê-lo.

Eventualmente, a polícia encontrou uma postagem antiga das redes sociais de Evgeny de 2014, na qual repostou uma entrevista com um grupo pequeno insurgente de partisans Primorsky, que travou uma pequena guerra contra a polícia local no extremo leste russo em 2010 (você pode ler mais sobre esse grupo, que não tem ideologia clara, mas algumas conexões aos National Bolsheviks, aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Primorsky_Partisans).

Essa postagem, e também alguns comentários em um chat de grupo, foram pretexto para condená-lo a 6 anos de prisão de acordo com a Parte 2 do Art. 205.2 do código criminal russo (chamados públicos para terrorismo). Evgeny tem sido irredutível na cadeia e, como resultado, foi mandado a uma notória prisão estilo EPKT. Esse tipo de prisão foi elaborada especialmente na década de 1980 para erradicar a resistência no cárcere na Rússia. A primeira prisão EPKT foi a notória “White Swan”, em Solikamsk (https://en.wikipedia.org/wiki/White_Swan_(prison), que é hoje uma prisão ainda mais extrema para condenados a prisão perpétua. Muitos prisioneiros políticos são mandados para essas unidades de isolamento.

Mas as condições de Evgeny também não estão suaves, por exemplo, ele só é concedido uma breve visita a cada 6 meses. Está escrevendo um blog em russo sobre sua experiência na prisão para o 7×7 Journal: https://7×7-journal.ru/bloggers/%D0%9A%D0%B0%D1%80%D0%B0%D0%BA%D0%B0%D1%

Escreva correspondência de apoio ao Evgeny:

Endereço: 361424, Kabardino-Balkariya, Chegemskij rayon, p. Kamenka, ul. D.A. Mizieva, 1, FKU IK-1, Russia, Karakashev Evgeni Vitalevich, 1978 g.r.

Recomendamos que escreva suas cartas em russo. Você pode usar ferramentas de tradução online ou outros serviços para isso.

Continue apoiando as pessoas em situação de cárcere na Rússia

Você pode encontrar os endereços para contato de todos os presos na Rússia apoiados por nós aqui: https://wiki.avtonom.org/en/index.php/Category:Currently_imprisoned_in_R..

e instruções de como doar aqui: https://wiki.avtonom.org/en/index.php/Donate

Se quiser doar para um preso ou caso em particular, por favor nos contate com antecedência para assegurar que os apoiadores estão arrecadando doações.

Nossos detalhes de contato estão aqui: https://wiki.avtonom.org/en/index.php/Contacts_of_Anarchist_Black_Cross_….

Cruz Negra Anarquista de Moscou

Confira o material original em https://avtonom.org/en/news/moscow-anarchist-black-cross-updates-march-2022 para fotos.

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Gotas de sangue
estão prestes a pingar:
pitangas maduras.

José N. Reis

[Canadá] 15 de Março: Tomem as Ruas Contra a Polícia Colonial!

Chamado do Committee Opposed to Police Brutality [Comitê de Oposição à Brutalidade Policial] por um dia anual de ação.

É difícil olhar o que está acontecendo agora na Yintah, o território Wet’suwet’en, sem refletir sobre o papel da RCMP (Royal Canadian Mounted Police) na colônia canadense. O que eventualmente se tornou a RCMP foi fundado em 1873, parcialmente em resposta à Rebelião Red River Métis de 1869-1870. O objetivo primário da RCMP, desde seu início, foi então manter a hegemonia imperial sobre o território no intuito de abri-lo à exploração capitalista.

A lista de crimes da RCMP é muito longa para ser completamente enumerada aqui. Desde a repressão à Rebelião Noroeste de 1885, ao banimento de práticas culturais indígenas, ao bloqueio de reservas e do movimento livre de pessoas nativas, ao assassinato de cães de trenó e, é claro, a separação das crianças e suas famílias e seu envio a internatos. Convidamos você para a leitura do artigo “A Condensed History of Canada’s Colonial Cops” do The New Inquiry para um rápido resumo do histórico da RCMP na perspectiva das pessoas indígenas.

Mas o gramado é mais verde no Quebec? O norte do Quebec esteve sob o controle da RCMP até 1960. Os internatos coloniais continuaram pela década de 1970 e abusos continuaram durante esse período, com o apoio total da SQ.

A SQ substituiu a RCMP, e pode-se dizer que cumpriu e continua a cumprir seu papel como representante da autoridade colonial sobre povos indígenas. Seja em Listuguj (Restigouche) em 1981, em Kitiganik (Lago Barriere) em 1988, em Kanehsatà:ke e Kahnawá:ke em 1990, a resposta da SQ para mobilizações indígenas sempre foi a mesma: repressão.

O relatório final da Comissão de Viens, apresentado em 30 de setembro de 2019, ilustra o local que a polícia ocupa no Estado colonial canadense. O relatório escreve explicitamente:

“Estas demonstrações [indígenas] são o produto de um desprezo persistente pelos direitos indígenas dos povos originários e da lentidão dos tribunais para resolver problemas de demarcação de terras. […] Comparado a outras manifestações, […] a polícia está acostumada a interferir para o lado do governo para reprimir ou desmantelar a manifestação, assumindo que os direitos reivindicados são errados, antes que os tribunais determinem a validade inerente das reivindicações.”

No relatório final da comissão de Viens, a polícia local, como a SPVM, é similarmente culpada: “Na literatura, é relatado que as comunidades indígenas têm ambos muito policiamento para crimes pequenos […] e pouco policiamento, no sentido de proteção insuficiente, face à violência que estão sujeitas.”

O papel da polícia, então, não é proteger, mas sempre reprimir qualquer esforço para resistir à exploração do território. Esse desejo pela exploração foi manifestado em 2012 com o projeto de lei C-45 do governo Harper. Essa lei alterou muitas leis canadenses, com o objetivo de facilitar o acesso de empresas extrativistas no assim chamado território canadense. Território que é, é claro, habitado principalmente por pessoas indígenas. A C-45 levou ao nascimento do movimento “Idle No More” [Não Mais Ocioso]. A reação do governo canadense foi reforçar o aparato policial e a coordenação entre os serviços policiais coloniais. O resultado é o que vemos agora no território Wet’suwet’en.

Então, em 150 anos, o papel da polícia no assim chamado Canadá não mudou. Seu papel ainda é abrir a terra para a exploração, o que significa a retirada das pessoas que vivem nela, não importa a que custo.

A polícia como uma força colonial de exploração não é, contudo, [uma situação] singular do Canadá. No Chile, por exemplo, o exército foi implantado para apoiar a repressão policial contra o povo Mapuche que demanda a devolução de seu território ancestral das mãos de donos de terras e de madeireiras multinacionais. A Colômbia todo ano bate novos recordes de assassinatos de ativistas ambientalistas e defensores de terras, muitos deles indígenas, todos sob os olhares da polícia, uma situação denunciada pela Anistia Internacional. No México, são os Zapatistas do EZLN, essencialmente indígenas, que são atacados pelas milícias armadas pelo Estado. E, no Brasil, é o Supremo Tribunal que dá a polícia o direito de perseguir povos indígenas para fora de suas terras para entregá-las às empresas de mineração, uma situação denunciada pelas Nações Unidas.

Frente à violência policial contra povos indígenas, seja aqui ou em qualquer outro lugar, chegamos à mesma conclusão: foda-se a polícia colonial!

Nós nos encontramos às 17:30 na terça-feira, 15 de março, na estação de metrô Lionel-Groulx!

Fonte: https://cobp.resist.ca/fr/node/23101

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

sementes de algodão
agora são de vento
as minhas mãos

Nenpuku Sato

Fórum Anarquista de Língua Curda: Nenhuma guerra, mas a guerra de classes

A guerra, todos os tipos de guerras, guerras religiosas e nacionais, guerras entre estados e corporações globais são todas contra os oprimidos, ataca seus meios de vida, ataca sua vontade e capacidade, a fim de subjugá-los à vontade dos opressores, à vontade das autoridades, dos capitalistas.

Somos os oprimidos, onde quer que estejamos, continuamente dentro de nossas atividades sociais, enfrentamos as diversas guerras de nossos inimigos de classe, como guerras políticas, militares, midiáticas, ideológicas e de pobreza.

Desemprego e cortes salariais, a guerra dos sem-teto e o alto preço da vida cotidiana, a guerra do sexismo, chauvinismo, racismo e fascismo, as guerras contra as populações mundiais, deslocamentos forçados e discriminação e rejeição de refugiados. Nossa vida é uma guerra permanente e total.

A guerra da Rússia e o ataque à Ucrânia não é uma guerra nova, em nossa opinião, esta guerra é uma continuação das guerras anteriores; a guerra e o genocídio de indígenas americanos, australianos, neozelandeses, canadenses, africanos… a guerra entre Irã-Iraque, a invasão do Kuwait, Iraque e Afeganistão, e os conflitos na Síria, Líbia, Somália, etc. Guerras, o objetivo é controlar e manter as contradições entre trabalho e capital, expandir e fornecer mercados para as necessidades de commodities, para experimentações e desenvolver novas armas, bombas e outros equipamentos militares.

No entanto, não está claro qual seria o resultado dessa guerra e onde mais ela chegará; se chega ao ponto de usar armas atômicas, produz mais genocídios, destruindo cidades e países, ou não. Mas o que está claro para nós é o resultado da guerra, pois nas guerras anteriores, não importa como termine, sempre produz perdas de trabalhadores e oprimidos de ambos os lados, seja em termos de baixas, em termos de destruições sociais, em termos de destruição social, em termos de criar dissensões e reforçar o espírito de nacionalismo e racismo, ou em termos de destruir a unidade, a cooperação e a solidariedade de classe entre os trabalhadores de ambos os lados, sempre acabará prejudicando os oprimidos do mundo. Ele vai aumentar o preço dos suprimentos, aumentando o preço do petróleo, diesel e gás. As consequências da guerra produzirão nacionalismo e racismo entre os ucranianos e os russos.

Sabemos que todos os tipos de guerra são gerados pelo sistema capitalista, então nos posicionamos contra o próprio sistema e a própria fundação do Estado, contra todas as agências estatais, corporações e bancos, e não apoiamos nenhum lado da guerra. Ao mesmo tempo, expressamos nossa simpatia e apoio às vítimas da guerra, aos trabalhadores, ao povo oprimido de ambos os países, aos nossos amigos anarquistas e aos libertários da Ucrânia e da Rússia. Além disso, das lições extraídas da nossa experiência, sabemos que só podemos acabar com as guerras através da unidade, cooperação, deserção das frentes de batalha e voltando nossas armas para os palácios dos governantes, contra os interesses e a soberania de criadores de guerra.

Não à guerra, à matança e a autoridade.

Sim ao apoio e luta dos revolucionários oprimidos contra a dominação de classes.

Nossa guerra contra os governantes e suas corporações capitalistas é uma guerra social global.

Fórum Anarquista de Língua Curda

25 de fevereiro de 2022

anarkistan.net

Tradução > GTR@Leibowitz__

agência de notícias anarquistas-ana

Bolhas de sabão
sopradas no ar da manhã
exalam arco-íris.

Ronaldo Bomfim

[EUA] Alice Molloy, a Guerreira Lésbica Irlandesa de Oakland (1936 – 2022)

Alice Molloy, faleceu em 2 de fevereiro de 2022 aos 86 anos, após honrar uma última vez os pescadores irlandeses de Castletownbere que enfrentaram a Marinha Russa.

Como fundadora da I.C.I. A Woman’s Place Bookstore em 1971, localizada na esquina da College com a Broadway, Alice era dedicada a construir uma comunidade lesbofeminista anarquista informada e um mundo livre das amarras do patriarcado.

Em seu livro, In Other Words, Notes on the Politics and Morale of Survival, publicado em 1973 pelo Women’s Press Collective, sempre a frente de seu tempo, escreve [em tradução livre], “Essa dominância do cérebro esquerdo criou um sistema monstruoso e a tecnologia que está usando e destruindo o planeta.” Ela foi uma crítica pontual de papeis femininos e masculinos de dominância e submissão, mas, como estávamos transformando a comunidade lésbica de uma cultura marginalizada em uma força político-cultural a ser reconhecida, acreditava que “não devemos parar de desempenhar papeis. Devemos desempenhá-los todos!”

Ela nos deu, em colaboração com Carol Wilson, Natalie Lando e com as muitas mulheres dedicadas que contribuíram com seu sangue, suor e lágrimas, um lugar no mundo. Foi verdadeiramente um “Lugar de Mulher”, um lugar de encontro, um centro de informações que fornece livros, panfletos, jornais e recursos por, para e sobre mulheres, lésbicas, os movimentos por visibilidade e empoderamento, paz e justiça.

Alice acreditava que conhecimento e intuição confiante estavam no cerne de toda ação significativa. Sua franqueza e humor provocativo pende, como seu cigarro, à beira da irreverência e inconveniência, seus valores morais determinados, como seu queixo, com uma determinação inabalável em direção ao coletivo, transformação radical e desvio social. Ela era uma lésbica fora da lei, e com orgulho.

Confrontando questões ainda sem nome que envolvem lésbicas, mães que perderam direitos sobre suas crianças, mulheres assediadas no trabalho ou em casa, mulheres buscando atenção médica por tentarem permanecer sóbrias, adolescentes que escaparam de famílias abusivas, mulheres forçadas para fora do serviço militar, escritoras e artistas, A Woman’s Place era um núcleo para a comunidade ativista da Costa Oeste.

Alice nasceu no Bronx, estudou na Cathedral High School. Seguiu Diane Di Prima para a Costa Oeste e Audre Lorde a seguiu, tornando-se uma ativista frequente em nosso meio. As três criaram laços em Nova Iorque como colegas de casa e como renegadas políticas, sexuais e literárias, cada uma em seus próprios termos, e permaneceram amigas para a vida.

Nas palavras de Audre Lorde [em tradução livre], “Todas dividimos uma guerra contra as tiranias do silêncio.”

A riqueza dessa camaradagem tocou todas nós, primeiro como Gay Women’s Liberation, e então como uma livraria e ativistas de coletivos de imprensa, morando cerca de 14 mulheres na mesma casa em Oakland, onde Alice continuou até sua morte.

Alice morreu de complicações no coração e sobrevive por seus amados membros familiares, suas almas gêmeas, Elizabeth Grindon, Wendy Cadden, Willyce Kim, Judy Grahn e sua gata Gracie. Seus desejos? [Em tradução livre,] “atire em mim como um soldado irlandês”, e uma contribuição para Fair Fight de Stacy Abrams.

Fonte: https://www.legacy.com/us/obituaries/sfgate/name/alice-molloy-obituary?id=33491420

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Eu limpo meus óculos
mas vejo que me enganei.
É lua nublada.

Neide Rocha Portugal

[EUA] Marcus Rediker: A História dos Piratas & a Reapropriação do Nosso Futuro

Conversamos com o lendário intelectual Marcus Rediker sobre como estudar “a história pelo lado de baixo” dos piratas, dos levantes de escravos e dos povos oprimidos. Falamos sobre as conexões da resistência histórica ao capitalismo com a rebelião contemporânea.

Asia Art Tours: No livro The Many-Headed Hydra [A Hidra de Muitas Cabeças], você e Peter Linebaugh discutem o conceito de “Hidrarquia”: “a organização do estado marítimo pelo lado de cima, e auto-organização dos marinheiros por baixo… uma tradição marítima radical que também era uma zona de liberdade.

O navio se tornava tanto uma máquina do capitalismo na esteira da revolução burguesa na Inglaterra quanto um espaço de resistência.” Você vê pontos em comum entre os trabalhadores do mar históricos e os trabalhadores da gigeconomy? Os marinheiros que entregavam cargas nos portos e os entregadores de comida por aplicativo experimentam uma forma semelhante de exploração ou disciplina por parte do capital? Você acredita que há potencial para “pirataria” ou algum tipo de resistência pirata pelos trabalhadores da gigeconomy?

Marcus Rediker: Sim, eu vejo semelhanças entre os marinheiros e os trabalhadores de aplicativos. Ambos têm horas de sono irregulares e estão frequentemente sob condições precárias de trabalho. Ambos têm papel central na economia capitalista. E devido a mobilidade, ambos têm dificuldades históricas de organização. E quando eles de fato se organizam, essa resistência pode ter um impacto desproporcional muito além da quantidade de pessoas mobilizadas, graças à posição estratégica deles na divisão do trabalho.

Também vejo diferenças, e a principal delas é que entre os marujos havia um poderoso senso de experiência e cultura coletiva baseados nos riscos do trabalho, o que estimulava a solidariedade. Os marujos sempre cultivaram uma forte identidade ocupacional, mesmo quando o trabalho que faziam era considerado degradante e desonroso pela sociedade em geral. Trabalhadores da gigeconomy geralmente trabalham sozinhos, o que significa que nem sempre desenvolvem relações horizontais ou estão cientes de sua força comum. O futuro das lutas trabalhistas entre os dois tipos de trabalhadores pode depender do desenvolvimento de práticas e de uma consciência de si mesmos como “trabalhadores de transporte” interligados. As ligações terra-mar entre esses trabalhadores podem produzir grande poder de controlar ou interromper os circuitos do capitalismo global.

Asia Art Tours: Na Hidrarquia há uma dependência do sistema carcerário para manter a disciplina, semelhante aos governos de nações terrestres? Como era a “cadeia” ou as tecnologias carcerárias nestes navios? É possível ver as raízes desta mesma violência carcerária nas formas modernas de disciplina trabalhista em navios de carga e de pesca?

Marcus Rediker: A Hidrarquia, como quase todas as coisas, precisa ser observada tanto pelo lado de cima quanto pelo de baixo. De cima, a Hidrarquia, que constituiu e sustentou impérios marítimos dentro de um sistema capitalista internacional, depende diretamente da disciplina e do encarceramento. Os códigos trabalhistas dos primeiros navios modernos do mundo são famosos por sua severidade e pela horrenda variedade de punições, que vão desde humilhações ao enforcamento de amotinados na verga dos navios. Historicamente, a disciplina trabalhista nos navios foi violenta ao extremo. É possível afirmar que o próprio navio tenha frequentemente servido de prisão flutuante. Isso é certo no caso dos navios negreiros, onde o encarceramento dos corpos Africanos era fundamental para a acumulação de força de trabalho e dos lucros eventuais no mundo todo.

O mesmo pode ser dito dos navios militares e mercantes, que coibiam duramente a capacidade dos trabalhadores em escapar da exploração e, de uma forma bastante real, faziam deles prisioneiros de seus capitães. Muitos navios possuíam cadeias menores dentro da prisão flutuante: por exemplo, os navios de detentos que saíam da Grã-Bretanha para a Austrália continham caixas pretos, pouco maiores que um caixão, nas quais os homens rebeldes e, com mais frequência, mulheres detentas, eram encarcerados em penas de duração variada para atenuar a resistência e restaurar a ordem social.

O navio negreiro, é claro, foi um grande experimento de desenvolvimento de tecnologias carcerárias: o uso do convés inferior como cadeia; as redes amarradas ao redor dos trilhos do navio para evitar que os escravos desafiassem a ordem e se matassem pulando no mar; os exemplos são muitos. Sempre me pareceu significativo que o verdadeiro criador do panóptico, a prisão concebida para maximizar o controle social (famosa graças à citação de Michel Foucault em “Vigiar e Punir”), tenha sido Samuel Bentham, o irmão mais famoso de Jeremy. Samuel era um construtor de navios.

Asia Art Tours: Diversas figuras que se utilizaram da luta armada – Gloria Richardson, John Brown, Huey Newton – estão ressurgindo como heróis na cultura contemporânea dos EUA. Como você vê a relevância da violência utilizada pelos piratas para resistir ao Capitalismo em relação aos esforços de resistência atuais?

E de que modo podemos observar a resposta estatal aos piratas para entender como os estados de hoje vão reagir à violência contra a propriedade privada (oleodutos, squatting, e assim por diante)?

Marcus Redike: O pirata é um americano em versão marítima e, até certo ponto um herói internacional, do povo: o fora-da-lei. Tomei emprestado conceito de “bandido social” de Eric Hobsbawn para argumentar que o pirata pode ter sido um criminoso aos olhos da lei, mas era visto de forma bem diferente pelos trabalhadores comuns. As autoridades da época lamentavam que os piratas fossem vistos como “heróis românticos” pelos trabalhadores coloniais do mar e da terra nas Américas. Os piratas utilizavam a contra-violência para combater um sistema violento do qual eles próprios haviam sido vítimas, e muitos ex-marinheiros traziam nas costas cicatrizes de chicotadas para provar. De fato, muitos marinheiros ingressaram na pirataria para tentar escapar do brutal sistema de disciplina trabalhista do mar.

Como disse o pirata John Fly na forca de Boston em 1726, instantes antes de ser executado: “Não posso mudar a mim mesmo — Não serei culpado de assassinato algum — nosso Capitão e seu Imediato nos usaram barbaramente. Nós, homens pobres, não podemos deixar que a justiça nos abata. Não há nada a ser dito aos nossos comandantes, apenas que nunca nos abusem tanto, nem nos tratem como cães.” Eles próprios consideravam a reação às opressões como uma forma de autodefesa.

Asia Art Tours: Além da ameaça material que os piratas representam para o estado e o capital, como suas práticas sociais ameaçavam a pulverização necessária à dominação dos cidadãos trabalhadores?

E, se é importante para os cidadãos trabalhadores lutar contra essa pulverização hoje, que práticas sociais da pirataria devemos procurar emular em nosso cotidiano, prática de micropolítica ou organização?

Marcus Rediker: Uma forma de pensar sobre o navio pirata é entender que ele era um modelo de e para os trabalhadores auto-organizados, diferentes dos conselhos de trabalhadores ou sovietes que sugiram mais adiante na história da classe trabalhadora. Trabalhadores assalariados e explorados se organizaram para criar um espaço de autonomia onde eles poderiam, como dizia um pirata, ser “donos da escolha” do modo de organizar suas vidas. Numa época em que os pobres não tinham qualquer direito democrático (início dos 1700s), eles elegiam seus representantes e limitavam seus poderes. Em uma época de desigualdade extrema, eles dividiam saques e recursos de uma forma surpreendentemente igualitária.

Essas práticas eram ataques diretos e subversivos à maneira como os navios mercantes e militares operavam – e as classes dominantes do Atlântico imediatamente as compreenderam dessa forma. Em retaliação, a classe dominante enforcou centenas de piratas e prendeu seus corpos em correntes na entrada marítima de cidades portuárias em uma tentativa deliberada de amedrontar marinheiros comuns e desencorajá-los a aderir à pirataria quando seus navios fossem capturados no mar. Foi uma campanha consciente para pulverizar o espaço de autonomia coletiva que os piratas haviam criado.

Os piratas tinham muitas ideias boas sobre como criar uma ordem social alternativa. Os leitores podem encontrá-las no meu livro Villainsof All Nations: AtlanticPirates in the Golden Age (2004) [Vilões de Todas As Nações: Piratas Atlânticos da Era de Ouro]. Eles praticavam a democracia e a igualdade conforme mencionei antes. Criaram um executivo duplo, estabelecendo o contramestre como detentor de poder equivalente ao capitão (que também era eleito) e encarregado de vigiá-lo para evitar abusos de poder. O contramestre, geralmente o homem mais confiável a bordo, era uma espécie de “tribuno da plebe”.

Os piratas também construíram um estado de bem-estar social em miniatura a bordo dos navios para cuidar de todos os que se machucassem no exercício do trabalho. Praticavam a solidariedade liberando pessoas presas em trabalhos terríveis. Quando se preparavam para retornar ao mar após uma farra em celebração de alguma viagem bem-sucedida, eles liquidavam os contratos de servos e os convidavam para ir junto. Os piratas foram inovadores na longa história dos ideais democráticos e igualitários, mas seus nomes, ideias e práticas nunca aparecem nos livros de teoria política.

Asia Art Tours: Por fim, como a Hidra de Muitas Cabeças pode nos ajudar a repensar questões de classe e de protesto?

Marcus Rediker: Por décadas as interpretações predominantes da história do trabalho se concentram em homens brancos artesãos ou em operários de fábrica em um contexto nacional, nas histórias da classe trabalhadora na Inglaterra, nos EUA e na França dos anos 1830. A Hidra de Muitas Cabeças oferece uma visão diferente, ao enxergar o proletariado como algo muito maior, mais amplo, e mais antigo: era composta por homens, mulheres e crianças, assalariados e não remunerados, formalmente livres e escravizados, cujos trabalhos criaram um sistema de capitalismo atlântico a partir do início do século XVII, muito antes da fábrica e além das fronteiras do Estado-nação.

A hidra não era apenas uma metáfora, mas um conceito. Que nos permite conceber a classe de uma maneira diferente, explorando as conexões entre um grande e variado grupo de trabalhadores, a heterogeneidade dentro da unidade, por todos os territórios Atlânticos. Vemos a “tripulação heterogênea” como uma força revolucionária. A classe trabalhadora multiétnica do passado, ou as muitas cabeças da hidra, se parecem muito com a classe trabalhadora de hoje. Os protestos militantes que surgiram em todo o mundo após o assassinato de George Floyd têm uma longa e inspiradora história.

Estou trabalhando em um novo projeto sobre a hidra contemporânea, outra história transnacional vista de baixo, intitulada “Hydra Rising!” [O Levante da Hidra] Uma equipe de ativistas acadêmicos, incluindo Nandita Sharma, Bridget Anderson, Cynthia Wright, Pia Klemp e Peter Linebaugh, explorará a experiência e a política móvel da classe trabalhadora migrante e seu desafio ao poder Hercúleo do capitalismo global. Pessoas em movimento, desafiando os poderes constituídos ao cruzar as fronteiras dos estados por terra e por mar, estão entre os mais importantes criadores de história do nosso tempo.

Fonte: https://asiaarttours.com/marcus-rediker-the-history-of-pirates-learning-to-steal-back-our-future/

Tradução > A.P.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/30/espanha-lancamento-la-vida-bajo-la-bandera-pirata-de-gabriel-kuhn/

agência de notícias anarquistas-ana

Fugiu-me da mão
no vento com folhas secas
a carta esperada.

Anibal Beça

Fundo de Solidariedade para Anarquistas Sudaneses

Como você deve ter ouvido falar, no final de outubro do ano passado a liderança militar do Sudão aplicou um golpe e derrubou o governo civil após um período de instabilidade seguindo a deposição do autocrata Omar al-Bashir há dois anos. O país está em revolução desde dezembro de 2018, contudo, esse último ato viu uma onda de violência do Estado quando milhares tomaram as ruas.

Desde outubro, cerca de 82 revolucionários foram assassinados, com mais de mil feridos com gás lacrimogêneo, bomba de efeito moral e munição real. Esse número tem crescido estavelmente desde que a resposta violenta da Junta aumentara, até com o uso de metralhadoras.

A situação ficou pior na medida em que o conflito se intensificou. Há uma necessidade vital por solidariedade material. Solidariedade internacional e apoio mútuo não são apenas pilares do Anarquismo, mas falam a todos e todas que acreditam que injustiça contra um é uma injustiça contra todos e todas, independentemente de como você define suas tendências políticas. Mesmo se você pode apenas fornecer uma contribuição pequena, é uma grande ajuda para estabelecer linhas de comunicação e manter o povo seguro durante esses tempos difíceis.

>> Uma Entrevista com a União Anarquista Sudanesa:

https://es.crimethinc.com/2022/01/07/sudao-anarquistas-contra-a-ditadura-militar-uma-entrevista-com-uniao-anarquista-sudanesa

>> Para colaborar financeiramente, clique aqui:

https://www.firefund.net/supportthesudaneseanarchists

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Cabelos tão brancos:
ancinho que raspa a terra,
colheita de anos.

Alckmar Luiz dos Santos

[Turquia] Uma análise anarquista sobre os anarquistas na resistência ucraniana contra a invasão russa

Por Batur Ozdinc | 05/03/2022

Um grupo de anarquistas ucranianos morando em Kiev declararam ter se unido à resistência popular contra a invasão russa e organizaram seu próprio grupo – levando a muitos debates entre círculos anarquistas. Uma vez que não conhecemos suas circunstâncias, pode-se pensar que são puramente pessoas a favor da OTAN, anarquistas nacionalistas confusos, ou ainda apoiadores do neonazismo. Na realidade, não o são! De acordo com suas declarações antes da e durante a guerra, sabem exatamente o que a OTAN, o capitalismo, o nacionalismo e o imperialismo são; e são contra todos eles. Para mim, são apenas um grupo de camaradas que se encontraram no meio de uma guerra e estão tentando encontrar uma maneira de defender suas próprias vidas e suas próprias ideias.

Pessoalmente (talvez como muitos e muitas anarquistas), acredito que o “Estado russo” (exceto por Donbass ou seja lá o que for) não tem “direito” algum de invadir a Ucrânia com a desculpa de se defender contra a OTAN. Nesse sentido, a resistência do povo local civil na Ucrânia (embora não a do exército ucraniano) pode ser visto como “correto”. Todavia, a guerra tem dois oponentes; ambos apoiam o capitalismo, embora um possa parecer mais opressor e imperialista. Além disso, o Estado e a máquina capitalista estão provocando civis uns contra os outros e impondo ideias nacionalistas – em alguns casos, levando a massacres ou genocídio, como ocorreu no último período otomano contra os armênios e na Alemanha nazista contra judeus e romenos. Assim, embora à primeira vista pareça “inocente”, a “resistência civil” pode levar a linchamentos, massacres contra outras nações e oponentes, ou acabar por estabelecer um novo Estado “nacionalista”.

Apoiar o “lado” ucraniano não é o mesmo que anarquistas fizeram no passado durante a revolução de 1936 na Catalunha (assim chamada guerra civil na Espanha), na qual instituições capitalistas, religiosas e estadistas foram questionadas, nem tem algo a ver com o que se passa em Rojava (Norte da Síria), que é largamente influenciado pelas ideias de Bookchin. A Ucrânia pode ser mais “democrática” e uma sociedade aberta em um sentido liberal (mais do que a Rússia), mas ainda é um Estado capitalista.

Por outro lado, a atmosfera anti-Rússia dirigida pela mídia ocidental está, de alguma forma, transformando-se em um tipo de racismo, uma hostilidade contra o povo e a cultura russa como um todo – não apenas Putin, o Estado russo ou o imperialismo. Acredito que isso seja algo que – como anarquistas – deveríamos ser contra, enfatizando que a OTAN é tão ruim quanto (talvez em alguns casos seja até pior do que) o imperialismo russo.

Anarquismo e “guerra” são dois conceitos diferentes que não discordam totalmente. Muitos de nós ainda usamos o termo “guerra de classes” em alguns casos, mas o que queremos dizer não é o mesmo que os apoiadores de Estado. Não defendemos a ideia de um grupo de “pessoas permanentemente armadas” organizadas para defender um país (um exército organizado), ou mesmo (como a maioria dos e das anarquistas) não apoiamos qualquer “exército”. Em geral, somos simpáticos às lutas libertárias das guerrilhas; que almeja uma revolução social ou autodefesa (ou ambos). Em alguns casos, embora nos encontremos em cooperação com diferentes forças (capitalistas, estadistas, ou até imperialistas), como diz Durruti: “nenhum governo no mundo luta até a morte contra o fascismo,” e devemos saber que essa cooperação é temporária e algo com o que não simpatizamos muito.

Para muitos de nós, é fácil dizer “Não a Guerra e Não a OTAN e o Imperialismo Russo“. Em turco, dizemos “Davulun sesi uzaktan hos gelir” (“O tambor soa legal quando distante” – “A grama parece mais verde do outro lado“). Por outro lado, li muitas coisas sobre a repressão contra os anarquistas bielorrussos que foram forçados a deixar o país (em sua maioria para a Ucrânia e a Polônia); também, posso apenas imaginar o quão difícil é viver e sobreviver em um país que é invadido por um Estado imperialista como camaradas ucranianes fazem. Então, posso apenas inferir como sofrem nas mãos de opressores na Bielorrússia e na Rússia, no sentido de que tento entender sua raiva contra o imperialismo russo.

Na análise final, embora (como anarquistas) nossas ações e expressões podem diferir dependendo do tempo e espaço, somos todos e todas contra o Estado, o capitalismo e o imperialismo. Nessas circunstâncias, enquanto como uma exceção possamos cooperar com forças não-anárquicas, não devemos nos esquecer do fato de que quem lutamos lado a lado agora pode ser nosso inimigo no futuro próximo. Nosso principal objetivo deve ser o desenvolvimento de solidariedade internacional entre camaradas e a classe trabalhadora; e continuar com a luta contra a guerra.

Fonte: https://avtonom.org/en/blog/anarchist-analysis-anarchists-ukrainian-resistance-against-russian-invasion

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

terreno baldio
lixo revirado
gato vadio

Carlos Seabra

“É preciso abalar e abolir o pensamento dicotômico”

pespegar

Os de um lado estão a favor da Ucrânia, os de outro pela Rússia. Porém há outros lados e a vida não é dicotômica. Falam que a nova cepa do novo coronavírus combinará as variantes delta e ômicron, portanto, com maior letalidade. Os de um lado, pretendem definir já a atual situação de Covid-19 como endemia. Os de outro lado, querem acabar com uso de máscaras em público. Querem a volta às aulas presenciais como exigência de consumidores (privadamente) ou exercício de cidadania (publicamente). E há os defensores do hibridismo, afinal se há professores com comorbidades, haverá também estudantes na mesma condição… Discussão interminável a ser encerrada pela solução na dicotomia. Em ano eleitoral, o futuro do Brasil deve depender da melhor escolha na dicotomia. O pluralismo escancarou a dicotomia como a realização da uniformidade. Minorias numéricas não são, nem nunca serão, minorias potentes. E minoria potente não é uma definição cabível para elites (principais ou secundárias) e vanguardas. É preciso abalar e abolir o pensamento dicotômico.

não há confusão!

No último domingo, um jornal de grande circulação estampou: “Guerra confunde direita e esquerda no Brasil em embates ideológicos”. A confusão, segundo o artigo, se dá pelo fato que há tanto esquerdistas como direitistas apoiando as violências de Putin. E o contrário também acontece, isto é, pelas redes e mídias variadas não faltam ativistas de direita, lado a lado com os de esquerda, defendendo a chamada “resistência” ucraniana. Mas, afinal, qual é a confusão? Nenhuma. Esquerda e direita dependem da guerra e dos posicionamentos derivados de seus amontoados de cadáveres. Antimilistarista, antiguerra, somente xs corajosxs anarquistas.

guerra permanente

A guerra é uma das principais e fundamentais atividades do Estado. Nascido na Rússia, o anarquista Mikhail Bakunin, afirmava no século XIX: “a guerra é permanente e a paz apenas uma trégua”. Visto que é inerente a toda e qualquer força centralizadora como o Estado, não admitir nenhuma outra distinta, seja ela menor, maior ou equivalente. Dessa forma, o objetivo da força centralizadora não é nenhum outro senão o da dominação e conquista dos territórios vizinhos. É constitutivo do Estado apresentar-se para si e seus governados como objeto absoluto, sendo que tudo o que é contrário aos seus interesses é declarado criminoso. Essa é o vício do patriotismo.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2022/03/flecheira661.pdf

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Choveu há pouco –
O sol baixa das nuvens
Finas cortinas de névoa.

Paulo Franchetti

 

Podcast | Antinomia de volta! Ep. 62: Guerra e Imperialismo

A invasão militar da Ucrânia acendeu o debate sobre o imperialismo e o militarismo no mundo. A Rússia se tornou do dia para a noite a vilã geopolítica. Os meios de comunicação, as organizações políticas e as grandes empresas constroem narrativas para justificar suas ações e interesses. Nesse contexto, qual a posição de anarquistas? Este episódio apresenta alguns pontos de análise a partir de uma perspectiva libertária. Quer saber mais? Vem com a gente!

>> Nos ouça em:

https://open.spotify.com/episode/5Qi2sNUtrKCENZop15or3Y

agência de notícias anarquistas-ana

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.

Guilherme de Almeida

[Porto Rico] O matrimônio escravo e o matrimônio livre. O desejo escravo e o desejo livre – Luisa Capetillo

Alguns deturparam o sentido do amor livre, e o qualificaram como prostituição. Será prostituição apenas para as mulheres, pois o homem sempre teve liberdade sexual e a mulher carrega apenas o epíteto da prostituta; esse, são prostitutas; aqueles que a usam tão bojudos e altivos, são chamados de cavalheiros jovens honestos e corretos.

Curioso cavalheirismo!… a de utilizar essas mulheres e logo depois as insultar e as depreciar: não sei o que vale mais, “aquele que renuncia para pagar ou aquele que paga pelo pecado”.

Como que se entende, imaculados julgadores, que a mulher que sente atração e amor por outro que não seja seu marido é uma prostituta? Ainda que seja uma só vez em sua vida?

O que pensam do homem que tendo três mulheres ainda se deixa cair, de vez em quando ou semanalmente, entre os mártires da vida pública e que não contente, ainda necessita “saborear” PRAZERES ou aberrações antinaturais? Será ele um prostituto, um viciado, um degenerado, ou o que? Vocês diriam isso?

De modo que, uma mulher se casa ou se une a um homem e tem obrigação, ainda que não goste, ao mês ou a semana ou ao ano, de viver com ele; me disseram que devesse avisar ao homem quando se apaixona por outro; O homem avisa à ela quando se apaixona?

Agora se opta pelo divórcio, mas não se liberta da crítica e da injúria, caluniam-na e tratam de anulá-la como honrada e boa mulher, convertendo-a em uma prostituta, tanto se ela se divorciar ou se vai com outro que ela goste mais.

A lei matrimonial escraviza a mulher? Pois venha o matrimônio livre, a união dos seres livre, o amor livre.

Porque o matrimônio atual é a venda feminina pela qual ela cede todos seus direitos ao marido.

Ela embora deixa de querê-lo, não se libertar pois o dogma escraviza-a perpetuamente e a lei a obriga a cumpri-la; a lei feita pelos homens a cobre de qualificações injuriosas que deixa um rastro sobre ela para que caia sobre seus filhos e familiares e, sentindo o desprezo dos filhos e dos país, se vê impotente de poder usar a liberdade que à custou tão caro.

Quantas tem sustentado essa luta por um marido infiel que as abandonaram!

Mas não querem aceitar que o amor não pode ser escravo, e para deformá-lo aprisionaram a vontade feminina, e a ataram ao poste dos dogmas religiosos, e não viram que o posto estava desgastado e que ao cair a mulher se tornaria livre.

Desorientada, a mulher depois de tantos séculos de opressão, vem buscado e vem encontrando uma grande porta de escape na liberdade do homem e aí tem o respaldo na liberdade que durante muito tempo as escravizou e se falavam; o homem é livre, a mulher tem igual direito e habilidades para ser também.

A atmosfera está cheia de lamentos e gemidos de milhões de mulheres que sofreram horríveis mutações por um conceito equivocado de moral.

Milhares morreram tísicas[2], histéricas, deformadas por essa abstenção que foram condenadas. A prostituição, com seus vícios e aberrações, não forneceu um número de tísicas, histéricas, nervosas e de outras disfunções, como forneceu o que chamaram de “virtude”, “moral” e “castidade”, que não são outra coisa que conceitos equivocados da ignorância combinados com o egoísmo e a força.

Por que senhores? O que há na natureza de impuro e desonesto? Se formos supor que o ato sexual é um ato sujo de rebaixamento moral, estão somos todos produto dessa degradação.

Se o ato sexual é indigno, ele é em qualquer forma que se realize. É igual em todos os idiomas como em todos os seres da criação, desde o inseto até ao homem.

De todos os modos, é uma necessidade como prazer e como meio de procriar de tanta urgência como o de comer, dormir e passear. Se alguém se abstém é dono de suas escolhas; assim, ninguém tem o direito de julga-lo ou acusa-lo. É uma necessidade? É para ambos os sexos. Quem o determinou e o legislou? – O Homem, – Pois que ele a siga e a pratique, ele não tem o direito de legislar para a mulher, nem de dize-la o caminha, nem assinalar os limites. A mulher é a única que sabe o que à ela lhe convêm e deve eleger o que lhe agrade. A liberdade da mulher, é a liberdade do gênero humano! Que lei mais justa, que faz com que tudo isso chegue ao fim! Abaixo a civilização escravizadora das mulheres!

Tradução > Rodolpho Jordano Netto

Notas

[1] Foi uma anarquista nascida no território dominado pelo estado porto-riquenho, pioneira em seu país do feminismo e sindicalismo. Lutou pelos trabalhadores e os direitos das mulheres. Se distinguiu como intelectual, escritora, jornalista e líder operária. Fez resistência aos convencionalismos sociais e chamou a atenção a suas posições ideológicas de múltiplas maneiras. (Nota do Tradutor)

[2] Tuberculosa; mulher acometida por tuberculose (Nota do Tradutor)

Fonte: https://anarcopunk.org/v1/2022/02/o-matrimonio-escravo-e-o-matrimonio-livre-o-desejo-escravo-e-o-desejo-livre-luisa-capetillo/

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A velha ponte –
No pó ajuntado entre as tábuas,
Brota o capim.

Paulo Franchetti