[Espanha] Isaac Puente: Medicina e Revolução

Isaac Puente foi o médico mais destacado do movimento revolucionário espanhol até a data de seu fuzilamento, em 1º de setembro de 1936.

Por Eduardo Pérez | 02/05/2021

Isaac Puente chegou ao local da Confederação Nacional do Trabalho na rua Zapatería de Vitoria-Gasteiz uma quarta-feira de 1923, “semeando o terror, pois por causa do chapéu pensaram que ele era um policial”, segundo relatou Daniel Orille, um dos iniciadores do sindicato vitoriano.

Desta forma tão peculiar, Puente começaria sua jornada como médico mais destacado do movimento revolucionário espanhol até a data de seu fuzilamento, em 1º de setembro de 1936. Partícipe de mil e uma revoltas e detenções, Puente é principalmente conhecido como autor do folheto “El comunismo libertário”, de 1933, que serviria como base da apresentação da CNT prévia ao estouro da Guerra Civil. Segundo este médico vasco, “o comunismo implica, melhor que a comunidade de bens, a existência de uma coletividade que atenda primordialmente a administrar a economia de modo que fiquem satisfeitas as necessidades de todos os seus componentes. E para que este comunismo seja libertário não há de conter um acúmulo de força ou de autoridade que seja uma ameaça para a liberdade individual”.

Menos conhecida é sua faceta como revolucionário no âmbito da medicina, tema que Puente abordou habitualmente na imprensa, tanto na mais ‘política’ como na especializada. Este médico que desempenhava seu trabalho no meio rural alavés, como era habitual na esquerda, e especificamente no anarquismo da época, estava atento às novas correntes que surgiam e, em seu âmbito profissional, contribuiu para popularizar algumas como o neo-maltusianismo ou a eugenia (ideias que, apesar de suas posteriores aplicações e perspectivas reacionárias, também foram valorizadas desde pontos de vista progressistas), assim como o direito ao aborto ou o naturismo.

Puente, sem renunciar a sua defesa da ciência, advertia dos perigos do exagero das virtudes de seu grêmio: “Em medicina, o mito propagado e aceito como axioma é crer que, sem a intervenção dos médicos, a mortalidade seria enorme e as enfermidades teriam uma duração maior ou um fim grave. Graças à medicina não desaparecemos como espécie. Médicos e profanos tem esperanças de que as enfermidades retrocedam ante os tratamentos e que tudo é resultado da ação vigilante do médico”.

No entanto, em sua opinião, “a verdade é que todas as enfermidades podem evoluir para a cura sem a intervenção do médico, e que em muitas enfermidades, em quase todas as infecciosas, pode se prescindir de todo tratamento. A realidade é que o médico não faz muitas vezes mais que dar a sensação de que faz algo, e as enfermidades evoluem apesar dele e acima do poder restrito dos remédios que maneja”.

Como anarquista, Puente traçava um paralelo entre o poder da medicina e o poder do Estado: “Os políticos praticam a fraude de que se desvelam por nossa vida ordenada e feliz. Graças a seus sacrifícios e a sua direção se sustentam as sociedades e não comemos uns aos outros. A Guarda Civil e a política, os Tribunais de Justiça e os presídios contêm a criminalidade em limites discretos. Sem eles, todos transgrediríamos as normas de convivência e nos dedicaríamos ao saque, ao crime e à pilhagem. A verdade é que se não há mais delitos que os que se registram é porque não se sente a necessidade de cometê-los. O homem de bons sentimentos não matará ainda que lhe ofereçam a impunidade, e ao contrário o perverso mata apesar de todas as coações”.

O médico alavés não mordia a língua para concluir que “a medicina, a educação e a política, e seus respectivos profissionais ou práticas, não resolvem os problemas que a natureza iria solucionar por si mesma, mas que complicam as coisas para tornarem-se imprescindíveis e tornar o indivíduo e a sociedade dependentes deles”.

A cirurgia selvagem e os médicos mercenários

Nesta linha, Isaac Puente era um feroz crítico de certas práticas médicas habituais tanto em sua época como hoje, quase um século depois. A respeito do encarniçamento médico, afirmava sua convicção de que “disputar violentamente uma vida à morte que, ao fim, será sua fácil presa, é empresa triste e equivocada”.

De seus ataques não se livrava a expansão da cirurgia, que para o profissional vasco não era senão um indicador do “atraso da medicina”, “uma arte parasitária que cresce a expensas daqueles enfermos que a medicina desaloja” e condenada a desaparecer se esta última avançava. A cirugia, com “origem em práticas de crueldade, selvagerismo e superstição”, “nem sequer merece o nome de ciência” e “desumanizou a medicina”, pois “sobre a mesa de operações o enfermo se converte em um animal viviseccionável” por parte do cirurgião, que antes da operação parece “um membro da Klu-Klux-Klan” e depois dela “um açougueiro de etiqueta”.

Além disso, em seus escritos Puente demolia a indústria sanitária de sua época, assim como o papel dos profissionais dentro da mesma. “O médico se converte assim em servidor mercenário do Estado, em funcionário do Corpo de Prisões, em inspetor encarregado de fazer a vista grossa, ou em parasita das pragas sociais, da tuberculose, da loucura ou da prostituição”, assinalava.

Não obstante, o médico revolucionário não perdia de vista que a progressiva proletarização dos médicos tornava possível sua participação no movimento obreiro. Puente, desta forma, foi um dos impulsionadores dos sindicatos de Saúde dentro da CNT.

Saúde e liberdade

A participação dos médicos no sindicalismo, na opinião de Puente, não devia ter como fim exclusivo suas reivindicações laborais. Ao estar a saúde conectada com a sociedade, seu grêmio devia lutar por melhorar ambas: “O direito do homem a um mínimo de bem estar e a condições de alimentação, moradia, trabalho e educação compatíveis com a saúde, pudesse com justo título e plena razão, figurar entre nossas aspirações de classe. Seria impedir que a medicina e a saúde fossem uma farsa a mais, das muitas com que se engana o povo”.

Punha o exemplo da tuberculose, fomentada por “má alimentação, moradia insana, sem luz nem ar, um trabalho extenuante”. Por isso, “seria mais eficaz que uma Revolução Científica (a conquista de um meio curativo e imunizante), uma Revolução Social que desse a emancipação econômica ao trabalhador”.

Apesar de sua ênfase nos fatores sociais, Puente não os identificava como origem de todos os males, mas que também prestava grande atenção à conduta pessoal. Daí sua conexão com o naturismo, que o levava a recomendar um modo de vida saudável, com vegetarianismo, combate ao uso de tóxicos, sol, ar livre e exercício físico. Daí uma das frases mais reconhecíveis do médico anarquista: “A saúde, como a liberdade, há de consegui-la cada qual”.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/contigo-empezo-todo/isaac-puente-medicina-y-revolucion?fbclid=IwAR39anLyPmMq1onajZjHO9elka5A_H0J2i7krCUBk8SnO19rJXjaKWeZ7UE

Tradução > Sol de Abril

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relampejou
sobre as árvores
a tarde trincou

Alonso Alvarez

[França] Deseja ler? A FA está aqui!

A Federação Anarquista (FA) tem sua própria editora. Desde o início, a passagem do conhecimento, mas também dos debates que atravessam o Anarquismo, são parte do trabalho de educação popular da Federação.

Você pode encontrar todos os livros publicados pela Editions du Monde Libertaire. Primeiro de tudo neste endereço:

http://editionsmondelibertaire.org/

O catálogo está aqui:

http://editionsmondelibertaire.org/?classement=toutes

Para fazer o download, acesse:

http://editionsmondelibertaire.org/couvs/Catalogue_Editions_ML_2021.pdf

A Federação Anarquista também tem uma livraria anarquista em Paris chamada Publico. Para encomendar on-line, acesse:

https://www.librairie-publico.com/

Se você está perto de Laon, convidamos você a ir ver a Etoile Noire, uma biblioteca social e livraria anarquista, dirigida pelo grupo Kropotkin! Para mais informações, clique aqui:

https://kropotkine.cybertaria.org/

Em Besançon, você encontrará tudo o que precisa na Autodidacte! É o grupo Proudhon que dirige esta livraria. Mais informações aqui:

http://groupe.proudhon-fa.over-blog.com/2016/07/librairie-l-autodidacte.html

E boas descobertas para todos vocês!

O grupo Graine d’Anar

Fonte: https://grainedanar.org/2021/07/06/envie-de-lire-la-fa-est-la/

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é quase noitinha
o céu entorna no poente
um copo de vinho

Humberto del Maestro

Vídeo documentário: Objetores de consciência em Israel: Antes presos que soldados

Como de todos os jovens israelitas, de Atalya também se espera que seja soldado. Mas ela vê com olhos críticos o exército de seu país e decide ser objetora de consciência. Uma decisão com enormes repercussões: é encarcerada.

De jovens, todos os membros da família de Atalya fizeram o serviço militar. A família não vê com bons olhos a decisão de Atalya de desafiar a lei e lutar por seu direito a ser objetora de consciência. Mas sua valentia obriga as pessoas de seu entorno a repensar suas posições políticas e a reconhecer o poder que tem cada uma e cada um para conseguir mudanças. O documentário acompanha Atalya em suas ações de protesto e ao cárcere, e oferece uma visão única do conflito israelense-palestino: desde a perspectiva de uma jovem mulher que luta pela verdade e a justiça.

>> Assista o vídeo documentário (42:26) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=UbrlsLCFNNc

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As folhas secas
caem com a ventania
sobre o riacho

Antonio Malta Mitori

[Argentina] Não queremos uma polícia melhor

Em todo assassinato e maus-tratos da polícia está a ação do Estado e do capital.

A polícia com a qual estamos lidando em cada época e região, assim como a “ordem social” cedida a seu controle, não respondem apenas à vontade individual de seus membros, mas ao que o capital definiu como perigoso para essa ordem. As ideias dominantes de cada época, as ideias que determinam o que é desejável e o que é perigoso, o que é possível e o que é implausível, são as ideias da classe dominante.

Desta forma, a defesa e a promoção desta ordem social por parte do Estado procura fazer de nós colaboradores na miséria policial. É assim que o monitoramento abrange cada vez mais aspectos de nossas vidas, seja controlando nossos padrões de consumo, policiando-nos ou classificando-nos, ou pressionando-nos a denunciar ou policiar outros. Nunca antes os estados e corporações tiveram acesso a tanta informação, a maioria dela exposta voluntariamente pelos consumidores que, à primeira vista, não percebemos nenhuma hostilidade nisto. É assim que, quase sem nos darmos conta, dia após dia estamos naturalizando a visão de mundo que nos foi dada, reproduzindo no cotidiano relações de dependência, controle e colaboração alinhadas com a ordem social capitalista.

Está ficando cada vez mais claro que a principal função do Estado é conter as consequências da crise atual, disciplinando-nos, reduzindo cada vez mais sua função de governo a sua forma repressiva-policial, aumentando ano após ano o número de policiais e de armas. É assim que eles tentam manter sob controle as massas cada vez maiores de pessoas excluídas do mercado de trabalho, das promessas de inclusão, participação e diversidade. É sobretudo nesta massa de pessoas, que não têm nada ou quase nada a perder, que o poder vê hoje o perigo social e a quem reprime e maltrata de forma mais rude.

Neste contexto, após um longo acúmulo histórico de brutalidade policial, a propagação do ódio à polícia é natural. Mas não basta odiar a polícia; se não rejeitarmos o conjunto de condições materiais que as tornam necessárias, apenas reforçaremos sua existência. Basta ouvir a voz daqueles que procuram dotar a polícia e o papel que desempenham na sociedade capitalista com características que os tornam mais agradáveis, mais “humanos”: desfinanciamento, refundação, democratização, controle popular das forças de segurança, são alguns de seus slogans. Em termos concretos, além das possibilidades reais de aplicação, estes projetos propõem medidas destinadas a transferir funções policiais para outros tipos de instituições civis/comunitárias; democratizar as instituições repressivas, gerar organizações civis para monitorar o trabalho policial, mudar o nome, uniforme e currículo das forças, etc., etc. As mesmas vozes enganadoras que em seu ideal progressivo anseiam por “menos polícia, mais educação”, seguindo, conscientemente ou não, uma lógica que o Estado já conhece e aplica: ampliar o escopo das instituições educacionais como formadoras de cidadãos inofensivos para diminuir os índices de desobediência e criminalidade.

A polícia não deve ser reformada, nem sindicalizada, nem supervisionada por nenhuma burocracia política, externa ou desconstruída. A polícia deve ser abolida, destruída e enterrada junto com tudo o que na sociedade a torna necessária: propriedade privada, classes sociais, trabalho.

Recuperar nossos espaços do controle policial e suas lógicas!

Pela destruição de tudo o que nos oprime!

Por uma revolução social!

Biblioteca La Caldera

>> Para baixar, clique aqui:

https://www.mediafire.com/file/8ae977bay3y4kta/noqueremosmejorarlapolicia.pdf/file

Tradução > Liberto

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livro aberto gelado
o norte geme no vento
sobre a página branca

Lisa Carducci

[Espanha] As coletividades anarquistas

PorCapi Vidal| 01/08/2021

Durante a guerra civil espanhola, na zona republicana, especialmente na Catalunha, Levante e Aragão, ocorreu uma importante prática de autogestão e que pode ser considerada uma das experiências sociais mais importantes do século XX.

As coletividades não eram originárias do Estado, nem de partidos políticos, nem de nenhuma vanguarda, mas eram o produto da vontade popular. Como disse Abad de Santillán, os órgãos da CNT ou da FAI não estabeleceram nenhuma diretriz, a reativação da indústria, dos serviços, dos terrenos, foram o trabalho de uma espontaneidade completa na qual novas bases foram estabelecidas. Em cada local de trabalho, foram formados comitês administrativos e de gestão, formados pelos trabalhadores mais capazes e confiáveis. Em poucas semanas após o início do conflito, já existia uma vigorosa economia coletivista com uma verdadeira regulamentação do trabalho e da produção dos trabalhadores e camponeses. Os meios de produção estavam nas mãos dos trabalhadores.

Pode-se dizer que, embora a espontaneidade tenha sido um fator importante, o sucesso das coletividades se baseou nas tradições comunitárias de longa data do povo espanhol. Embora algumas vezes apoiada pela UGT e outros grupos e personalidades republicanas, foi a CNT e o movimento libertário que garantiram a criação das novas formas de organização econômica e social. Gaston Leval, autor de uma das obras mais importantes sobre o assunto, Coletividades Libertárias na Espanha, afirmou que as conquistas do movimento anarquista não teriam ocorrido se não estivessem em sintonia com a psicologia profunda de pelo menos uma grande parte dos trabalhadores e camponeses. Outro autor, Daniel Guerin em O Anarquismo, disse que a coletivização não tinha imposição nem derramamento de sangue; os camponeses e pequenos proprietários de terras que não queriam se juntar à obra eram respeitados, embora muitos deles mais tarde se juntaram à coletivização quando viram as vantagens da mesma. Mesmo os direitos daqueles que não aderiram foram respeitados e eles puderam utilizar alguns dos serviços das coletividades.

Recordando as propostas do anarquismo clássico, deve-se dizer que a estrutura das coletividades não era homogênea; algumas eram próximas ao comunismo (o exemplo de Naval, em Huesca, é muitas vezes dado), mas a maioria respondeu mais ao coletivismo. Enquanto em alguns, a moeda oficial foi abolida e foram criados títulos equivalentes para troca (mais ainda em cidades de Aragão), em outros continuou a ser utilizada (Levante, Catalunha e Çastilla). Em qualquer caso, independentemente das diferenças, o que prevalecia nos coletivos eram valores libertários: solidariedade, apoio mútuo e igualdade. A fraternidade era praticada em benefício da coletividade e cada pessoa tinha que contribuir para o trabalho na medida de sua força.

Os coletivos mais ricos ajudaram os mais pobres através de um fundo de compensação regional ou municipal, que era responsável pela contabilidade da renda de cada trabalho coletivizado. Esses fundos foram administrados por pessoas designadas pela assembleia geral de delegados das coletividades. Vários trabalhos, como os mencionados acima, mostram o grande número desses fundos, que foram obtidos a partir do produto da venda dos excedentes das coletividades mais prósperas. Todos os recursos, ferramentas, máquinas e técnicos estavam a serviço das diversas comunidades de cada região; não havia nenhum isolamento, mas sim uma importante rede de solidariedade que também ligava efetivamente a cidade e o campo. O trabalho coletivo e autogerido, naturalmente, não estava completo; uma grande parte da economia permaneceu fora do trabalho coletivista, embora se deva dizer que nesses casos havia pelo menos o controle de alguns trabalhadores (em bancos e empresas estrangeiras, por exemplo).

Se estamos falando de coletivização agrária, ela estava centrada em Aragão e Levante e, em menor grau, na Catalunha. A Federação de Coletividades de Aragão foi criada em Caspe nos dias 14 e 15 de fevereiro. Cerca de 40% da população rural pertencia às coletividades. Os mais numerosos e sólidos, em termos de solidez de seu sistema, foram os da região de Valência. Em Castela, foram formadas cerca de 300 coletividades. Se olharmos para os números, podemos falar de um grande sucesso na autogestão agrária: as colheitas aumentaram de 30 a 50%. O regime coletivista agrário era mais abrangente e intenso do que no caso das coletivizações urbanas e industriais, provavelmente devido à intervenção do sindicato nos últimos casos; no caso agrário, havia maior independência e espaço para todos que queriam aderir.

No caso das coletivizações industriais e de serviços, o foco principal estava na Catalunha, embora também houvesse coletivizações em outras partes do país. As fábricas com mais de 100 trabalhadores foram socializadas, e aquelas com mais de 50 trabalhadores também poderiam ser socializadas se três quartos da força de trabalho o solicitassem. Na Catalunha, o trabalho de coletivização cobriu, além da agricultura, os setores mais importantes da indústria e dos serviços; de particular destaque foi a notável indústria bélica, cuja produção foi pelo menos dez vezes maior do que no resto da Espanha republicana.

Infelizmente, desde o início, as coletividades despertaram a suspeita de uma grande parte do lado republicano, desde os burgueses até os partidos socialistas. A maior hostilidade veio dos comunistas, que direcionaram seus esforços para desacreditá-las e tentar anulá-las. Uribe, o Ministro da Agricultura, boicotou a atividade de coletivização de dentro do governo; assim, o decreto de legalização, com o objetivo de retirar o controle dos sindicatos, originou-se com ele. Em março de 1937, grupos bem escolhidos de carabineiros e tropas de assalto partiram de Múrcia e Alicante em marcha para o norte para tomar Cullera e Alfara e, a partir dessa posição estratégica, iniciar a repressão contra as coletividades. Segundo Gaston Leval, tudo indica que a operação foi montada pelo socialista Indalecio Prieto, Ministro da Guerra, que estava de acordo com os comunistas quando se tratava de combater os anarquistas.

Em 10 de agosto de 1937, o Conselho de Aragão, que era um dos bastiões independentes do movimento anarquista, foi abolido. Pouco tempo depois, o General Líster, à frente da 11ª Divisão, eliminaria 30% dos coletivos em Aragão, prendendo os membros mais proeminentes dos coletivos. No caso da autogestão industrial na Catalunha, o governo central negou sistematicamente qualquer tipo de ajuda. Em 22 de agosto de 1937, o governo central, sob a direção de Negrín e dos comunistas, publicou um decreto que anulava o decreto de outubro de 1936, favorecendo as coletivizações. A guerra acabaria por se perder, mas antes disso, o movimento de autogestão, em grande parte encorajado pelos anarquistas, perdeu muitas outras batalhas para aqueles que deveriam ser seus aliados contra o fascismo.

Fonte: https://contrainformacion.es/las-colectividades-anarquistas/

Tradução > Liberto

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O grito do grilo
serra ao meio
a manhã.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] Os segredos do esquecido teatro anarquista

Por Guillermo Martínez| 12/08/2021

Tudo partiu de uma pergunta entre o passado e o presente: Que fizeram os anarquistas espanhóis durante uma série de anos para conseguir tal enraizamento do libertário que não se deu em outras latitudes? Juan Pablo Calero, doutor em História Contemporânea, encontrou a resposta. A chave esteve na forma de socializar e, nela, o teatro. Em ‘Antología del Teatro Anarquista (1882-1931)’ (LaMalatesta, 2020), este historiador oferece as chaves para entender a importância destas representações que percorreram grande parte dos ateneus e centros obreiros dispersos pelo país naquela ocasião.

“O teatro desenvolvia dois aspectos muito importantes. Por um lado, tornava visível o projeto anarquista, e o tornava visível para todo mundo, sem nenhum tipo de distinção. Por outra parte, as obras se convertiam em um vívido exemplo de ação e solidariedade libertária, pois seus autores eram grupos de aficionados com escassos meios que escreviam suas próprias obras e que nas funções realizavam coletas dedicadas a ajudar os presos ou greves”, explica o próprio Calero.

Sabiam que os obreiros, certamente, não liam sisudos tratados de filosofia, mas também sabiam que se podia chegar a eles de outra forma e fazê-los ver que o anarquismo não é uma utopia, mas uma realidade que puderam chegar a compreender através do teatro. Nasceu na marginalidade, sem nenhum tipo de pretensão a nível comercial, e dirigido a um espectador muito concreto: o único setor da sociedade que podia ver representada sua realidade e aspirações por meio destas obras.

A monografia começa em 1882, o ano em que aparece a primeira obra de teatro especificamente anarquista. Trata-se de “La mancha de yeso”, escrita por Remigio Vázquez, um carpinteiro madrilenho. Conclui em 1931, ano da proclamação da Segunda República, ainda que este não seja o motivo de dita fragmentação. “Durante este período de tempo o teatro se baseia no naturalismo, em expor de forma dura e crua a realidade social acompanhado de uma proposta de liberação e emancipação”, explica Calero. As coisas mudaram em 1931, quando o teatro passa a ser mais revolucionário com o início das vanguardas que tanto influíram durante o período republicano e a Guerra Civil.

O êxito extraordinário que este tipo de teatro experimentou durante aqueles anos não finalizou com a chegada da ditadura franquista, mas que perdurou no exílio. Mas quem eram os autores das obras? Segundo o historiador, há três tipos. Por um lado, aqueles personagens destacados do movimento libertário que em algum momento dado, em seu afã de divulgação, decidem escrever este tipo de representações. Exemplo deles são Anselmo Lorenzo na Espanha e Errico Malatesta na Itália.

Por outra parte, outros escritores criam obras de marcado caráter anarquista, ainda que sua evolução posterior não correspondesse com isso, como Eduardo Marquina. Por último, os mais destacados neste terreno, os anarquistas de base. São mestres racionalistas e obreiros com ofícios artesãos, por exemplo, que escrevem as obras para que sejam representadas pelos quadros teatrais de sua própria localidade, saindo dos municípios aquelas criações com maior êxito. “Na imprensa anarquista, muitas vezes apareciam mensagens perguntando se alguém tinha o libreto de uma obra da qual tinham ouvido falar porque queriam representá-la em sua localidade”, assinala Calero.

Muitos dos ateneus e sociedades obreiras da época já contavam com teatros próprios como espaço de socialização importante. Se não, os salões de atos valiam para isso. “Se costumava levar a cabo entendendo a carência de meios, assim que eram representações sem montagens muito complicadas”, continua o autor. Alguns desses salões acolheram representações escritas por José Fola Igurbide, reconhecido anarquista tolstoniano pelo qual tanto libertários como marxistas sentiam verdadeira paixão. De fato, muitas de suas obras seguiram representando-se no exílio na América após a chegada do ditador Franco ao poder na Espanha.

“O que se pode aprender do teatro anarquista é a importância que tinha como vitrine à sociedadee a perspectiva de futuro que oferecia. Muitas vezes se acusa a literatura, o teatro ou o cinema de que são alheios à realidade das pessoas, ou que a sociedade não se vê representada nesses produtos culturais. O teatro libertário sai disso, pois os espectadores viam como sua miséria cotidiana não era algo particular deles mesmos, mas comum e coletiva, algo compartilhado, o que os impulsionava a buscar soluções coletivas”, explica Calero.

Ao fim e ao cabo, tratava-se de um teatro feito pelo povo, e não para o povo. Este traço fundamental os fazia articular as criações em torno a um esquema baseado na crítica social que refletia uma situação cotidiana: uma greve, um conflito ou um acidente laboral. “Isto atraía e fazia com que as pessoas se engajassem”, aponta o escritor. Um segundo elemento valia para ampliar o público potencial da obra. Trata-se do conflito romântico, que também estava presente nas criações e no qual também, de forma pioneira, a mulher nem sempre tinha uma visão passiva do assunto. Sem ir mais longe, em uma obra de Antonio Hoyos e Vinent, autor recolhido na Antologia, a protagonista acaba assassinando o homem que a assedia.

Um terceiro elemento é o que faz com que o teatro fosse anarquista, e não meramente social: o final emancipador. “Não tinha por que ser exitoso, mas sim dava uma mensagem liberadora em que, por certo, quase nunca se utilizava a violência. Enquanto que sempre vemos e lemos obras que abordamo anarquismo com a violência como algo fundamental, no teatro escrito por libertários resulta algo muito marginal. Eles são quem as sofrem, não quem a praticam”, explica Calero. Seu êxito estava servido quando as pessoas saíam do teatro com a convicção de que outro mundo era possível, porque o haviam visto representado sobre o cenário.

Perguntado pelo estado atual do teatro anarquista, o historiador afirma que apenas existe, tanto o do passado como o do presente. “Muitas obras de teatro obreiro desapareceram e outras são muito difíceis de localizar, como uma de Teresa Claramunt, que perdemos para sempre”. Desta forma, fica tão somente a herança daqueles anos gloriosos para o teatro emancipador, pois sua importância também desapareceu. Por outro lado, Calero considera que não há criação deste tipo de teatro na atualidade: “A obra parecida e mais representada é “Muerte accidental de un anarquista”, de Darío Fo, e talvez exista algum projeto louvável, mas nunca com o eco que tiveram naquela época”.

A Antologia, desta forma, não guarda entre suas páginas as melhores obras desde a perspectiva da qualidade, mas aquelas realmente significativas e representativas dessa maneira de fazer teatro. Apesar de que o autor admite que foi uma tarefa difícil optar por elas, o livro de LaMalatesta recupera nove obras do teatro anarquista após quase 100 páginas que explicam ao leitor os elementos chaves para entender a questão: “La mancha de yeso”, de Remigio Vázquez; “Sofía Perowskaia”, de Carlos Germán Amézaga; “Honor, alma y vida, de Juan Montseny” (Federico Urales); “Un huelguista”, de J. Lofer; “El ocaso de los ódios”, de Emilio Carral; “Un buen negocio”, de Florencio Sánchez; “El Sol de la humanidade”, de José Fola Igurbide; “El fantasma”, de Antonio de Hoyos y Vinent; y “La guerra”, de Eugenio Navas.

Fonte: https://elasombrario.publico.es/secretos-olvidado-teatro-anarquista/

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

a cigarra… ouvi:
nada revela em seu canto
que ela vai morrer

Matsuo Bashô

Encontro online | Leitura coletiva da obra de Luce Fabbri

Vamos ler Luce Fabbri juntes?

Convidamos a todes para lermos em espanhol e português no dia 28 de agosto o opúsculo Fascismo definição e história, que publicamos com microutopias e publication studio. A atividade contará com a presença de Elena Schembri, pesquisadora da obra de Luce.

A publicação gira em torno da tese dos Fabbri e também é um reencontro de Luce com suas memórias juvenis e suas leituras de vida adulta sobre o fascismo. Escrito em 1963, quando Luce tinha 55 anos e quase 30 anos depois do seu livro mais famoso (Camisas Negras), “O fascismo: definição e história” é um suporte condensado de reflexões antifascistas. O momento atual demanda estudar a obra de Luce Fabbri, que tem muito a nos ensinar sobre cotidianidade e resistência. Um dos posfácios do livro é assinado por Margareth Rago, que se debruça sobre a história de Luce Fabbri há pelo menos duas décadas: em seu texto, destaca-se a importância por uma vida antifascista, de resistência cotidiana.

>> Baixe o pdf em espanhol ou português: tendadelivros.org/lucefabbri

>> Inscreva-se aqui:

https://us16.list-manage.com/survey?u=ed0a99874a968bad7378d2c35&id=12ac4ef535&mc_cid=da8b6ca374&mc_eid=8caea939b8&e=8caea939b8

A conversa será no zoom e mandaremos o link por e-mail duas horas antes.

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conversa de adultos
debaixo da mesa
adormeço entre brinquedos

João Angelo Salvadori

Barricada contra o marco temporal na BR 448 | Região Metropolitana de POA, RS

Contra o Marco Temporal e todos os ataques à Mãe Terra,

Contra o agronegócio que destrói nossas matas,

Contra o mal-viver que nos sufoca,

Acompanhando nossos e nossas irmãs na luta pela Vida em todo o país,

Nos organizamos.

Pela vida, pelas nossas crianças e pelos nossos antepassados, não nos submeteremos.

Guiados pela força dos nossos ancestrais, nesta madrugada da segunda-feira 23 de agosto, acendemos uma barricada de fogo no quilometro 15 da BR 448 em direção a Porto Alegre, dando assim início a uma semana de luta pela Vida.

Nossos parentes e irmãos estão reunidos em Brasília, mobilizados contra o Marco Temporal.

Estamos com eles, unidos na luta, abraçados no espírito da guerra.

E deixamos bem claro que nós não aceitaremos mais um retrocesso e convocamos toda a sociedade para que compreenda nossas ações. Convocamos para que nos ajudem na defesa das vidas humanas, contra o genocídio e a destruição da natureza.

Com força, determinação e alegre rebeldia, derrubaremos aos que há mais de 500 anos se acham os senhores e os donos deste continente.

Venceremos.

agência de notícias anarquistas-ana

Borboletas e
aves agitam voo:
nuvem de flores.

Bashô

[Chile] Santiago: Abre suas portas a Biblioteca Ateneo, todas as quartas-feiras a partir de 25 agosto

A p r e s e n t a ç ã o

Um livro, um fanzine, um jornal, um cartaz, um vídeo, uma palestra, uma canção podem ser um canal, uma via para a criação da consciência. Mas não qualquer consciência, senão aquela que nos permite compreender os problemas de nossa existência, que nos leva a alinhavar as ideias para refletir e discutir sobre nossas vidas, sobre o que somos, ou que alguma vez fomos e o que queremos ser. Ali, radica a necessidade de criar espaços para a reflexão, o diálogo, aquilo tão intrínseco ao ser humano, o desenvolvimento do pensamento.

Frente à carência de espaços físicos para o desenvolvimento do pensamento livre, surge a necessidade de criar uma biblioteca comunitária e anarquista. A Biblioteca Ateneo é criada para combater tanto o descuido teórico como a transformação das ideologias em fetiches, busca visibilizar as diversas experiências anarquistas enfrentando preconceitos e estigmas. Para isso, compartilhamos material proveniente de diversas iniciativas e espaços criados a partir da organização coletiva, como a Biblioteca e Videoteca da Produtora de Comunicação Social, o projeto de biblioteca da Sociedade de Resistência de Santiago, e diversas coleções individuais entregues para o desenvolvimento do bem comum.

A Biblioteca é um espaço de encontro e estudo, um lugar de discussão e geração de ideias. Promovemos a própria produção de conhecimento, o autodidatismo, e por isso, consideramos a relevância de compartilhar livretos, fanzines, revistas, entre outros. Entendemos que a partir da diversidade nos nutrimos e que são estas publicações, as que por sua vez, reforçam a busca de fazê-lo por si mesmos.

A investigação do e desde o anarquismo ganha sentido quando se elimina o afã individual e a busca do prestígio pessoal que rodeia o mundo acadêmico. Promovemos, portanto, a existência de grupos e jornadas de estudo, fóruns, encontros, ciclos de cine, publicações e outras instâncias para compartilhar e liberar o conhecimento. Este último elemento, longe de proceder de algum indivíduo, procede do resultado de múltiplas experiências, do desenvolvimento do pensamento coletivo.

A particularidade da Biblioteca Ateneo é que não busca restringir a leitura, nem o acesso a diversas ideias, entendendo que quando as pessoas são capazes de refletir por si mesmas, e conseguem romper com as lógicas meramente reprodutivas do conhecimento, são capazes de pensar de forma autônoma, desenvolvendo consigo ideias humanistas, sem limites, emancipadoras.

Por isso, na biblioteca se pode encontrar uma grande variedade de material, livros requeridos para estudos “formais” como material anarquista de mais de meio século e proveniente de diferentes partes do mundo. Compartilhamos experiências e lutas dos setores oprimidos, conhecimento prático e materiais de consulta de diversos tipos. Não descartamos que a história não seja só o escrito. Cremos que são os atos, desde esses pequenos lugares onde tecemos confianças e solidariedades, os que formam sujeitos críticos e livres, pois a liberdade se exerce e se vive no cotidiano. Esperamos que este espaço seja história viva, que permita dar rédea solta a pensamento próprio, a discussão coletiva e a ação consciente.

Contato: biblioteca_ateneo@riseup.net | IG: @ateneo.anarquista.stgo

Endereço: Aeropuerto #1095, Chuchunco [Est. Central]

Horários: Quartas-feiras, 18h00 às 21h00

Seja sócio

Com uma colaboração solidária (pode ser produtos de limpeza, conforto, resmas, materiais de escritório, etc.) podes inscrever-te e desfrutar do catálogo da biblioteca.

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

nadam no vento
como carpas douradas
folhas de bambu

Akatonbo

[Chile] Fórum online | Os limites ecológicos do capital

Falar do mundo atual como de um cadáver em decomposição não é um fácil recurso retórico. É uma imagem, mas uma das que ajudam a imaginar com precisão: retendo-a na mente se distingue melhor o que se tem ante os olhos, e toda classe de fenômenos, inclusive os que resultam bastante desconcertantes, se tornam inteligíveis” (“O abismo se repovoa“, Jaime Semprun).

Difundimos e convocamos ao fórum-debate “Os limites ecológicos do capital” no marco da Semana de Agitação Contra o Extrativismo Capitalista e pela Liberdade. O capital em seu devir assassino avança para a completa destruição da biosfera e da humanidade. O desenvolvimento da tecno-indústria – do trabalho morto sobre o trabalho vivo – consequência da compulsão doentia de conseguir lucros na brutal competição capitalista, se impõe através de uma relação social invertida pondo o valor – de natureza abstrata – sobre as necessidades concretas, materiais e ecológicas de toda a trama da vida. Te convidamos a participar deste evento com companheiros de diversas latitudes da América do Sul na quinta-feira, 26 de agosto.

Expõem:

– Crítica à tecnociência e conflitividade (Grupo Rizoma-Argentina)

– Crise e anarquismo (Assembleia Libertária de Santiago-Chile)

– A lógica capitalista e a acelerada destruição da biosfera (Vamos Hacia la Vida-Chile)

– Lei de pesca assassina (Coordenadora 18 de Octubre Tarapacá-Chile)

– Geopolítica e despojo no contexto de guerra na Colômbia (Coletivo Contra Control-Colômbia)

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/04/chile-semana-de-agitacao-contra-o-capitalismo-extrativista-e-pela-liberdade-23-a-29-agosto/

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De gato até o teto
a casa tem um miado
em cada objeto

Alvaro Posselt

[México] Estamos fritos?

Por Silvia Ribeiro | 14/08/2021

Esta semana, um novo informe do Painel Intergovernamental de especialistas sobre Mudança Climática (IPCC, em sua sigla em inglês) voltou a mostrar que o desequilíbrio climático global é muito severo e que as coisas estão piores do que já tinham advertido em seu informe anterior em 2013.

O ritmo do aquecimento global, desde o período industrial, não tem precedentes e a maioria ocorreu desde fins da década de 90. Estimam que o aquecimento não havia sido tão alto em 125 mil anos, nesse caso, devido a mudanças na órbita da Terra. Isto se traduz em aumento de furacões, chuvas e secas extremas; derretimento de glaciais e outros gelos permanentes; acidificação e aumento do nível do mar, assim como irrupção de correntes oceânicas que regulam a temperatura em países costeiros.

Em suma, os dados mostram que o capitalismo como sistema e uma centena de suas empresas transnacionais conseguiram desequilibrar em tempo recorde o clima global que para estabilizar-se levou milhões de anos de evolução, com um aquecimento que poderia levar ao planeta, em poucas décadas, a pontos de não retorno, o qual nos afetará a todos, mas fundamentalmente a quem menos recursos têm para enfrentar a crise.

Foi um processo consciente dos causadores do caos climático. Setenta e um por cento das emissões de gases de efeito estufa (GEI) são responsabilidade de 100 empresas transnacionais, principalmente da indústria de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão). Essa indústria é a que mais cedo começou a estudar a mudança climática (muito antes do IPCC), para entender o que estavam causando e buscar formas de prevenir as demandas que poderiam enfrentar, demandas que ainda não se materializam, apesar de alguns avanços como a que ganhou Amigos da Terra contra Shell este ano, que exige à petroleira reduzir suas emissões em 45 por cento (https://tinyurl.com/4j76kj7c).

Por enquanto, como explica John Saxe-Fernández, a indústria da energia fóssil, brutalmente devastadora de comunidades e do ambiente, segue sendo a que mais subvenções públicas recebe, com mais de 5.3 bilhões de dólares anuais (https://tinyurl.com/3ry4j6sp).

Apesar de tudo isto, a declaratória de “emergência climática” ou “código vermelho para a humanidade” como a chamou o Secretário das Nações Unidas, António Guterres, não nos ajuda a enfrentar a situação. Para começar, porque desde o IPCC ao próprio Guterres, em lugar de promover ações para conseguir reduções de GEI reais, o qual implica necessariamente questionar a essas indústrias de altas emissões e o modelo de produção e consumo massivo e injusto, aceitam que as empresas que mais contaminam (energia, agronegócios, alimentar, aviação, construção, mineração, automotriz e financeira, tecnológica, entre outras) avancem em consolidar uma nova armadilha chamada “emissões liquidas zero”.

Essas empresas afirmam ainda que vão aumentar suas emissões (a indústria petroleira e de gás em forma exponencial), as vão “compensar” com megaplantações de árvores e mono-cultivos, com mercados de carbono e com técnicas de geo-engenharia (armazenamento de carbono, captura direta de ar, manipulação da química oceânica, cultivos transgênicos, etc.) que não funcionam para cessar a mudança climática; são de alto risco e provocam maior deslocamento de comunidades e acúmulo de terras. Estados Unidos já aprovou novos subsídios milionários para o desenvolvimento destas técnicas “captura de carbono”, que irão parar fundamentalmente nas arcas das empresas petroleiras, as quais, paradoxalmente, as usam para extrair mais petróleo de reservas profundas às quais não podiam aceder (https://tinyurl.com/35e6j2sz).

Sem questionar as causas estruturais nem assinalar claramente os culpados do caos climático, chamar a impor um estado de “emergência climática” cria um ambiente de desespero e incerteza e prepara o terreno para que não nos oponhamos a essas e outras medidas inaceitáveis, que só vão favorecer as mesmas empresas e perpetuar o caos.

Tom Goldtooth, navajo, diretor da Red Ambiental Indígena e membro da Aliança por Justiça Climática declarou: “A gravidade da crise climática foi denunciada incansavelmente pelas comunidades indígenas e de base afetadas durante décadas. Devemos pressionar o IPCC antes que se publique o seguinte informe sobre mitigação no ano que vem, para que escutem as vozes e conhecimentos tradicionais dos povos indígenas e ponham fim às propostas de falsas soluções, como pôr preço ao carbono, a captura de carbono e a geo engenharia solar, que facilitam que se siga extraindo combustíveis fósseis”.

Ainda que a situação seja grave, desde os povos indígenas, das organizações camponesas e por justiça climática, das comunidades rurais e urbanas temos uma grande diversidade de propostas, experiências e conhecimentos para a justiça climática e social, como a produção camponesa e agroecológica de alimentos, o cuidado e restauração de bosques, manguezais e ecossistemas com os povos e comunidades, a construção e organização coletivas urbanas, sistemas de transporte coletivos e muitas mais, que são as que realmente urge apoiar e fortalecer, porque não só podem absorver parte do carbono excedente, mas, sobretudo prevenir futuras emissões.

Fonte: https://www.briega.org/es/opinion/estamos-fritos

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Virada do morro:
Ipê e seu grito amarelo
perpendicular.

Eolo Yberê Libera

Ajude os Cães e Gatos do Afeganistão

Conforme pessoas e organizações fogem do Afeganistão em aviões de carga, com nada além de documentos e as roupas do corpo, ou uma mochila, caso tenham sorte, nós estamos acolhendo nossos próprios refugiados. Eles estão vindo até nós através de outros resgates, de estrangeiros ou afegãos e de pessoas que amam seus animais, mas tiveram que abandoná-los. Nós ajudamos a recuperar cães e gatos deixados para trás durante a evacuação apressada das casas e condomínios pela cidade. Muitas vezes, eles chegam até nós sujos, com medo e fome. Mas, mesmo neste momento muito difícil, nossa equipe está fazendo seu melhor para oferecer aos animais um ambiente onde se sintam seguros e amados.

Este santuário que estamos dando a eles é provisório, tanto para os animais quanto para nossa equipe. Precisamos da ajuda de todos para evacuar a área junto com aqueles que amamos, independentemente da espécie. Estamos explorando diversas situações e opções, das quais todas exigem a mudança de vários fatores. Por favor, nos ajude a custear o que nós calculamos que será um enorme gasto de evacuação para os animais e para nossa equipe. Cada centavo é imediatamente convertido na saúde e segurança deles e nós somos imensamente gratos pelo apoio.

>> Para ajudar, clique aqui:

https://fundrazr.com/b1rsmb?ref=sh_87F1b1_ab_7eUFtdCA8A67eUFtdCA8A6

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O sol de inverno:
a cavalo congela
a minha sombra.

Bashô

[Espanha] Lançamento: “Mujeres de armas tomar | Trece historias de subversión y gênero”, de Rosella Simone

Encontros às vezes dolorosos, mas necessários, com mulheres que escolheram a luta em diversos rincões do mundo e, em muitos casos, tomando as armas.

Histórias explicadas em primeira pessoa, que desde os anos setenta chegam a nossos dias para subverter os estereótipos mais patriarcais e paternalistas.

Tinha vontade de falar das mulheres de minha geração. Mulheres nascidas no século XX que viveram sua época e que justamente por isto tiveram que enfrentar regimes ditatoriais de direita e de esquerda. Estas, junto com outras, buscaram sua liberdade e a de todos, também mediante as armas, mas sem fazer destas um fetiche. Algumas delas são amigas minhas, com outras só pude compartilhar experiências próximas, mas todas elas, de uma maneira ou outra, estão ligadas a minha vida. Por isto, a história de nossos encontros acompanha as histórias que elas me explicam com olhos de hoje e palavras de ontem.

Faz uns anos que a relação entre mulheres e militância em grupos armados se converteu em eixo central da memória histórica da política do século passado. Em relação com outros livros aparentemente parecidos com este, Rosella Simone aborda o tema com um sorriso interno, faz de seus encontros um recurso narrativo e acaba traçando treze histórias autobiográficas que vão mais além do relato sobre a implicação política, mas que as converte no retrato de uma época de emancipação das mulheres.

Sem heroísmo, mas com determinação, treze mulheres contam sua vida desde momentos e rincões muito diferentes, reivindicando seu direito a uma biografia das vencidas: Enza Siccardi (anarquista), Petra Krause (internacionalista), Susanna Ronconi (Primeira Linha), Nadia Ponti (Brigada Vermelha), Franca Salerno (Núcleo Armado Proletário), Emmanuela Bertoli (Autonomia Operária), Sylvia Ruth Torres (Frente Sandinista, Nicarágua), Maria Delia Cornejo (Frente Farbundo Martí, El Salvador), Marisa i Aitana (Frap, Espanha), Diana Chuli (escritora albanesa que viveu a ditadura de Enver Hoxha), Clara Queroz (Portugal, sob a ditadura fascista de Salazar). E para terminar, Nesrin Abdullah (combatente kurda em Rojava).

Mujeres de armas tomar

Rosella Simone

Bauma Edicion – Azadi Jin. Colección La Maquia. Barcelona 2021

424 págs. Rústica 21×15 cm

ISBN 9788412240597

18,00 €

facebook.com/baumataller/

Tradução > Sol de Abril

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palmo a palmo
dedo a dedo
inicio teu percurso

Eugénia Tabosa

[Espanha] O Afeganistão e as guerras

Nos anos 80, uma década na qual o que aqui escreve era um tenro adolescente, grotescamente proliferaram filmes anticomunistas. Entre eles estava a trilogia de um ex-combatente da Guerra do Vietnã chamado Rambo, que, embora não tenha começado mal, de uma forma aparentemente anti-militarista, terminou em um absurdo de proporções cósmicas. Assim, tendo esgotado a vingança do mal vermelho no sudeste asiático, o último filme foi sobre a invasão soviética do Afeganistão. E você adivinhou, o burro de Rambo se aliou a ninguém menos que os rebeldes mujaidines afegãos, precursores do que mais tarde se tornaria o Talibã, para combater o exército comunista. E ele fez isso, curiosamente, poucos meses depois do colapso da URSS e da Rússia se tornar um aliado dos Estados Unidos. O Afeganistão, após a retirada soviética, foi engolido em uma guerra civil sangrenta durante anos. Diz-se que o final do Rambo 3, onde o personagem retorna à sua terra natal, seria diferente; ele decidiu ficar e lutar com os mujahideen. O que não sabemos é o que teria se tornado este cara invencível após o fim do comunismo e depois de se encontrar do lado de grupos islâmicos, que mais tarde seria responsável pelo ataque às Torres Gêmeas em Nova York em 2001. A realidade, cruel e grotesca, supera a ficção.

Esse ataque ao coração do império deu carta branca aos Estados Unidos, juntamente com seus aliados da OTAN, incluindo naturalmente a Espanha, com quem quer que a governe, para lançar uma guerra contra o terrorismo, que foi iniciada pelo inefável Bush Jr. como líder supremo, mas continuada por Barack Obama, que quando se tornou presidente parecia ser a chegada de um novo mundo corajoso, e o grotesco Donald Trump até 2021, com um novo presidente “progressista”, Joe Biden. Quando, no final de 2001, os Estados Unidos lançaram a guerra contra o país afegão, já governado por um Emirado Islâmico, eles estavam muito orgulhosos de ter causado a fuga do Talibã. Claro que, como duvido muito que o fogo possa ser combatido com fogo, o que se seguiu foram anos de sangrentos confrontos armados; o Oriente Médio se tornou um foco de conflito e o muito progressista Obama lançou ataques ao Iêmen, Somália e Paquistão sob o pretexto de combater alegados grupos jihadistas. Além disso, os ataques islâmicos proliferaram na Europa e nos Estados Unidos, de modo que praticamente pudemos falar de uma Terceira Guerra Mundial, não fosse o fato de que a realidade pós-moderna nos impulsiona a viver com um horror de natureza bastante mascaradamente líquida.

Voltando ao Afeganistão, no final de 2014, Obama, a principal potência mundial, usou o subterfúgio do fim da guerra no país, mas na realidade as tropas da OTAN permaneceram ativas, mesmo tendo sido aumentadas antes de Trump se tornar presidente em 2016. Em fevereiro de 2020, aparentemente houve algum acordo de paz, assinado até mesmo com o Talibã, mas logo após a eclosão da violência no país e nesta primeira metade de 2021, onde Biden anunciou a retirada das tropas americanas (mais uma vez) é dito que foi o ano mais sangrento com incontáveis baixas civis. Tudo isso é muito familiar, se levarmos em conta outra agressão militar baseada na guerra contra o terrorismo e o perigo de armas de destruição em massa supostamente inexistentes, que é a invasão do Iraque em 2003; o rápido derrube do ditador Saddam Hussein, juntamente com sua execução, deu lugar ao crescimento de vários grupos islâmicos que mantiveram o conflito durante anos com inúmeras mortes. Desastres causados pelo militarismo, sob o subterfúgio da defesa da “democracia” e da guerra contra o terrorismo, que causa males maiores. Pergunto-me como é possível que, no século 21, as guerras, a opressão e tanto sofrimento continuem no mundo. A resposta, apesar do que nos é vendido diariamente, reside nos muitos interesses econômicos e geopolíticos envolvidos na manutenção das coisas como elas são.

Juan Caspar

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

esboço no céu
no mermar
da d’alva

Guimarães Rosa

[Espanha] Fios rubronegros: uma história oral do anarquismo desde os campos de concentração franquistas até as rádios livres e centros sociais

O historiador Vicent Bellver publica sua pesquisa sobre o movimento libertário valenciano e resgata aspectos inexplorados do ideal ácrata.

• Prostitutas liberadas, coletivizações e indisciplina: a lenda negra da Coluna de Ferro ácrata durante a Guerra Civil

Por Lucas Marco | 30/07/2021

No campo de concentração de Albatera (Alicante) foi formado o primeiro comitê nacional da CNT na clandestinidade, poucos dias depois do final da Guerra Civil. O precário comitê tardaria só uns meses em cair nas mãos da polícia política franquista. E, ao longo da terrível década de 1940, essa foi a tônica para os libertários clandestinos – queda atrás de queda – que haviam sobrevivido ao conflito em um longo exílio interior.

Com este ponto de partida, o historiador Vicent Bellver Loizaga (Valencia, 1989) traçou em Hilos rojinegros. El movimiento libertario en Valencia en el posfranquismo, 1968-1990 (Fios rubronegros. O movimento libertário em Valencia no pós-franquismo, 1968-1990), Editora Postmetrópolis, 2021, as andanças do anarquismo valenciano até o término do século XX mediante histórias de vida dos militantes que pôde rastrear, assim como a pegada nos novos movimentos sociais que surgiram durante a Transição. “O franquismo é um cilindro e houve um nível de violência e repressão enorme”, declarou Bellver a elDiario.es, doutor pela Universidade de Valencia, cuja pesquisa nasceu no calor das mobilizações do 15-M.

“Me interessava saber mais sobre essa experiência e como as pessoas do mundo anarquista lembram desses anos, sejam do anarcossindicalismo, do feminismo ou da ecologia, por isso escolhi as histórias de vida”, assinala o pesquisador. O autor, pertencente a círculos ácratas, reconheceu a dificuldade de localizar fontes para um campo pouco explorado (com as exceções dos pesquisadores Javier Navarro ou Rafael Mestre); “Muitas pessoas não querem falar, é bastante característico porque há muita desconfiança da academia”, sinaliza.

Com o “efeito bola de neve”, cada entrevistado foi proporcionando novos contatos (“É importante abrir novos fios”, afirmou o autor) para tecer uma série de histórias de vida que incluem uma “maior presença de vozes de mulheres”, que faz falta em muitas pesquisas sobre a esquerda radical espanhola.

A obra analisa as eternas dissenções no seio do movimento anarquista espanhol e a não sempre cordial relação entre setores ácratas e entre a clandestinidade interior e o exílio, especialmente vivo na França. Os valiosos testemunhos, como o de Manolo Bigodes ou o de Juan Ferrer (“nos passavam alguns livros (…), me fizeram ler Emilio Zola”) proporcionam várias chaves sobre o relevo geracional ao longo da cansativa ditadura franquista.

Além disso, também resenha o peso moderado do anarcossindicalismo nas grandes fábricas valencianas, como Macosa, e o chamativo fenômeno de cincopontismo (a aproximação entre umas poucas mas destacadas figuras ácratas ao sindicalismo vertical do regime, especialmente durante a etapa de José Antonio Girón de Velasco como ministro do Trabalho), um dos grandes cavalos de batalha das lutas internas no movimento libertário ibérico.

“O fascismo espanhol, sobretudo [o falangista Ramiro] Ledesma Ramos, mas não só ele, sempre tiveram certo interesse pelo anarquismo, o viam como fenômeno tipicamente espanhol e tentaram atrair setores anarcossindicalistas, com escasso ou nulos resultados”, explica Bellver, que destaca a “estranha misturada” dos setores cincopontistas em Macosa, no setor portuário e na empresa municipal de transportes de Valencia. “Não difere muito da atuação de Comissões Operárias (CCOO), mas no mundo anarquista na Transição se utiliza como arma de luta entre os diferentes grupos da CNT, é um legado ambíguo”, coloca o autor do livro.

Destaca o testemunho de Fermín Palacios, atual secretário geral do Sindicato Independente da Comunitat Valenciana, tachado de amarelo e herdeiro da Central de Trabalhadores Independentes, cujo dirigente era o ex-falangista Ceferino Maestú. Advogado do Sindicato Vertical, Palacios é um personagem “tremendamente conflituoso”, segundo um dos testemunhos recolhidos no livro. “Há um montão de suspeitas de que poderiam ter sido um infiltrado, conseguiu falar comigo e o que me contou é que sua atuação na CNT tinha que ver com não ceder todo o espaço sindical a CCOO e que se foi farto das lutas internas”, assegura Bellver. Outro testemunho assinala um episódio especialmente “obscuro”, como a aparição de Carmelo Palacios, irmão do líder do Sindicato Independente e afiliado então à CNT, em um ato na Praça do Oriente de Madrid “com a bandeira franquista”.

Em plena Transição, uma vez superado o feliz, ainda que tardio, feito biológico que levou o ditador Francisco Franco a sua antiga tumba no Vale dos Caídos, houve uma eclosão de grupos anarquistas, influenciados pelos novos movimentos sociais nascidos depois do maio do 68 francês e sua onda expansiva revolucionária na Itália ou México. O autor se aprofundou nos valiosos testemunhos de Mujeres Libres, a organização anarcofeminista resgatada dos gloriosos anos 30 ácratas, e a peculiar dialética entre as velhas militantes e as jovens ativistas do final do franquismo.

“O anarquismo tem o trunfo da história, todo o pensamento libertário de finais do século XIX e princípios do XX também volta a ser editado em edições clandestinas ou que chegam da França, como os livros de Ruedo Ibérico”, lembra Bellver, que adiciona: “Muita gente jovem descobre um passado, em alguns aspectos mitificado, que serve de bandeira de engate de um setor que vê o anarquista em um sentido amplo, como uma possibilidade de enganchar o velho, certa história da Espanha, com o novo, os movimentos sociais”, desde o feminismo até a ecologia ou o naturismo.

O historiador destaca a importância da contracultura e de publicações como a mítica revista Ajoblanco, com “uma tiragem muito importante para a época”. “Falam de naturismo, ecologia, liberdade sexual, e supõe uma bandeira de engate de muitas coisas”, adicionou Bellver. Hilos rojinegros [Fios rubronegros] também recolhe outro aspecto pouco explorado em sua vertente valenciana: o movimento autônomo, protagonista de algumas ações armadas de baixa intensidade.

Com a ideia de “desestabilizar o processo de Transição através da ação direta”, um “setor muito minoritário” mas que em Valencia “teve certa importância”, imbuídos por grupos franceses e pela estela do maquis urbano, os autônomos fizeram alguns ataques com coquetéis molotov. “Por desgraça, a visão que temos do anarquismo sempre está midiatizada pelo tema da violência e, evidentemente, ver só sob essa ótica o movimento libertário é um erro”, advertiu Bellver.

O autor fecha o livro com as experiências dos ateneus, as rádios livres e o incipiente movimento okupa das décadas de 1980 e 1990, com o fundo da desindustrialização, a paralisação disparada ou as mobilizações estudantis. “Os 80 supõem para o anarquismo armar-se sobre as ruínas pelo desencanto e as derrotas da Transição”, explica o historiador, que destaca a efervescência do punk e do hardcore no panorama musical.

O historiador marca os nascentes centros sociais (o primeiro edifício okupado em Valencia estava na rua de Palma, em pleno bairro de El Carman, um dos epicentros do movimento ácrata) na reordenação urbana com um “componente neoliberal e especulativo”. “Os jovens não encontram trabalho nem tem formas de se organizar, é lógico que as rádios livres, o punk e as okupações como moradias ou como centros sociais tenham certo auge”, indicou Bellver.

Projetos nascidos naquela época, como Rádio Klara, a emissora livre e libertária de Valencia, ou o ateneu Al Margen sobrevivem ainda hoje em dia. “Aqui em Valencia, desde então, perduram com certas descontinuidades geracionais”, explica o pesquisador. “Tem sido certa referência para as pessoas mais jovens, mas os possíveis esporos se moveram para outro lado”, analisou.

Como um historiador explicitamente alinhado com os princípios rubronegros vê o movimento ácrata hoje? “Minha experiência pessoal é tudo o que propôs o 15M, a primavera valenciana ou o movimento estudantil teve uma certa radicalização naqueles anos, com uma espécie de influência que fez ressurgir formas organizativas anarquistas que fizeram seu papel e que iludiu então a muitos, ainda que, visto com os anos, isso se murchou”, respondeu Bellver. “Em Valencia”, adicionou o historiador, “a maioria da militância, e não só anarquista, acabamos na luta por moradia e pelo território, com lutas contra a ampliação da rodovia V-21 ou em sindicatos de bairro, como Entre Barris”. A cultura ácrata valenciana, em todo caso, segue viva e ativa.

Fonte: https://www.eldiario.es/blog/memoria-democratica/hilos-rojinegros-historia-oral-anarquismo-campos-concentracion-franquistas-radios-libres-centros-sociales_132_8183765.html

Tradução > Caninana

agência de notícias anarquistas-ana

no mesmo galho
uma formiga a passeio
outra a trabalho

Ricardo Silvestrin

Viva como se o mundo estivesse Acabando – Um chamado para discutirmos Colapsologia

Tu sabe. Não são dias tranquilos.

O capitalismo avança, a natureza encolhe. Nossas comunidades cada vez mais atomizadas, nossas relações “humanas” sendo mediadas mais por máquinas que por contato genuinamente humano. Ascensão global do fascismo.

Sim. Tu tá bem ciente de todos esses problemas.

Talvez se sinta ansiosa, impotente, quando se fala sobre esses temas. Com alguma sorte, tens um grupo de amigos ou semi conhecidos com quem consegue conversar sobre esses assuntos, sem que seja visto como (ou se sinta) uma conspiracionista delirante.

Para todos os casos, te trago uma preciosa boa notícia: Você não está só.

Esse não é um convite para fundarmos mais uma “organização revolucionária” e (ainda) não é um chamado à marcharmos para uma revolução com R maiúsculo.

Esse é um chamado para anarquistas e pessoas libertárias de todas as esferas. O que proponho, é que a gente some nossos conhecimentos, vontades e vivências, para criarmos comunidades unidas e resilientes. Para praticar, planejar e discutir sobre qual mundo queremos para o tal “futuro” e como construímos ele hoje, entre nossos compas e vizinhos. Sem pressa ou desespero, mas sem esperar nenhum dia mais.

Quais são as ameaças mais imediatas à nossa existência, e quais as saídas à curto e longo prazo ?

Como cada bioma e território dominado pelo Estado do Brasil será afetado nos próximos anos e como faremos para alimentar e manter nossas comunidades seguras? Quais são os grupos reacionários e fascistas mais propensos a tirarem vantagem de um fechamento de regime, ou da ausência total do Estado? Quais e como itens de primeira necessidade e commodities podem ser estocados com segurança ? Quais estão mais propensos a sumirem das prateleiras? Quais as plantas mais indicadas para plantio de guerrilha?

Eu não sei a resposta pra nenhuma dessas perguntas, então, conto vocês pra me ajudarem.

Vamos juntes e otimistas, em direção ao colapso :)

[1984]

Para contatos futuros, escreva para librosparaninxslibres@riseup.net

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agência de notícias anarquistas-ana

Sob o caramanchão
o céu,
noturna renda.

Yeda Prates Bernis