[Espanha] Lançamento HQ: “Los Pistoleros”, de Ibán Díaz-Parra

Sevilha, anos vinte, El Grande é recrutado por um grupo de ação anarquista em um contexto de crescente agitação social. Uma greve provoca um rompante de violência política, com mortes de ambos os lados. Em busca do homem que os emboscou, El Grande chega a La Línea, na fronteira com Gibraltar. Forçado a decidir entre fugir para a América ou consumar sua vingança, ele se vê envolvido em uma nova escalada de violência entre contrabandistas, carabineros e trabalhadores que cruzam diariamente a fronteira.

> Ibán Díaz Parra (La Línea de la Concepción, 1979) é professor de Geografia na Universidade de Sevilha. Ele vem ilustrando contos infantis e materiais didáticos nos últimos vinte anos. Los pistoleros é sua primeira história em quadrinhos.

Los Pistoleros

Ibán Díaz-Parra

Los Libros de la Calle de Dirección Única, Barcelona 2021

144 págs. Rústica 29×21 cm

ISBN 9788409344550

15,00 €

direccionunica.net

agência de notícias anarquistas-ana

o vento afaga
o cabelo das velas
que apaga

Carlos Seabra

[Argentina] 1921-2021 | 100º Aniversário das Greves e Massacre na Patagônia

Companheiros/as:

100 anos após as greves e o massacre na Patagônia (1921-2021), convidamos você para a Jornada que ocorrerá em 18 de dezembro de 2021.

Nesse dia também apresentaremos a 70ª edição do jornal El Libertario junto com o livreto “La tragedia de la Patagonia y el gesto de Kurt Wilckens”. Haverá leituras de crônicas sobre o assunto, extraídas do jornal La Protesta de 1921. Por volta das 18h30 partilharemos uma palestra que preparamos especialmente para esta ocasião, com os/as companheiros/as da Comissão pela memória das greves de 1920-1921/El Calafate.

Haverá também uma feira autogestiva e, para finalizar, ouviremos vários números musicais.

Estaremos esperando por você a partir das 17h00 no Anchoris esq. Finochietto. Buenos Aires.

Federação Libertária Argentina – FLA

www.federacionlibertariaargentina.org

http://www.facebook.com/FederacionLibertariaArgentina

agência de notícias anarquistas-ana

A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.

Matsuo Bashô

[Colômbia] 93 anos da greve dos trabalhadores e o massacre das fábricas de banana pelo governo

Lembramos a grande greve dos trabalhadores do setor bananeiro da empresa multinacional United Fruit Company que começou em 12 de novembro de 1928 no departamento de Magdalena, no norte da Colômbia. Cerca de 22.000 trabalhadores nacionais e estrangeiros entraram em greve, incluindo 800 mulheres assalariadas, para exigir o cumprimento das exigências do Sindicato de Magdalena Medio (USTM), uma organização com tradição sindical libertária. Durante o conflito, a direção americana da empresa e o governo nacional de Abadía Méndez acusaram os trabalhadores de serem anarquistas por suas múltiplas formas de ação direta, solidariedade e resistência, e procederam à prisão dos ativistas trabalhadores oriundos do socialismo revolucionário e do Grupo Libertário de Santa Marta.

Finalmente, após o decreto do Estado de Sítio imposto pelo governo nacional, o exército sob a liderança do coronel Carlos Cortes Vargas, nomeado chefe civil e militar da área, decidiu massacrar os grevistas que estavam reunidos na praça de Ciénaga na madrugada de 6 de dezembro, preparando sua mobilização para a cidade de Santa Marta. O massacre na praça, realizado com fogo de metralhadora sobre uma multidão desarmada de pelo menos 5.000 pessoas, foi seguido pela perseguição violenta dos grevistas em toda a região, que catalisou uma revolta popular contra a empresa e uma nova onda de repressão brutal. A repressão contra a greve resultou em pelo menos 100 trabalhadores mortos, 400 feridos e 54 presos.

Pela memória e as lutas dos de baixo.

Arriba las que luchan!

Fonte: https://grupovialibre.org/2021/12/09/93-anos-de-la-huelga-obrera-y-masacre-gubernamental-de-las-bananeras/

Tradução > Liberto

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Por aqui passou
uma traça esfomeada:
livro de receitas.

Francisco Handa

Acervo punk: Colecionismo, Memórias e Resistências

Foi recentemente publicado um texto de Antonio Carlos de Oliveira do Centro de Cultura Social (CCS) e do Professor João Neves do “Acervo Formiga” com o titulo “Acervo punk: Colecionismo, Memórias e Resistências”. O texto foi publicado na Revista Sapiência – Sociedade, saberes e práticas educacionais – v. 10 n. 5 (2021): Dossiê. O Punk na pesquisa social, (UEG – Universidade Estadual de Goiás)

O Dossiê intitulado “O punk na pesquisa social” é o primeiro volume temático acerca da cultura punk, já produzido por um periódico científico nacional. Trata-se também da primeira publicação coletiva da Punk Scholars Network Brasil, rede formada por pesquisadores e pesquisadoras oriundos(as) de diferentes instituições do país, que se dedicam a refletir sobre o punk enquanto fenômeno social, político e cultural.  Tais fatores, em certa medida, simbolizam a consolidação das temáticas relativas ao universo punk nas pesquisas desenvolvidas no bojo da universidade.

Para além de somente pesquisadorxs são pessoas que vivenciaram ou vivenciam o punk de formas diferentes.

>> Para acessar o Dossiê, clique aqui:

https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/issue/view/644

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/15/relancamento-punk-memoria-historia-e-cultura-de-antonio-carlos-de-oliveira/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/02/relancamento-do-livro-os-fanzines-contam-uma-historia-sobre-punks-de-antonio-carlos-de-oliveira/

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No espelho d’água
oculta sua face, tímida,
a lua nublada.

Douglas Eden Brotto

 

[Grécia] A Morte Acidental de um Anarquista

Por Iason Athanasiadis | 06/12/2021

Como o Estado deveria lidar com um ambientalista que quer aboli-lo? Um anarquista grego acusado na polícia após um protesto contra a poluição. Eles responderam com cassetetes, negação e silêncio.

Quando ele tinha 18 anos de idade, Vasilios Mangos destruiu a sede do partido grego neonazista Aurora Dourada. Ele foi condenado por vandalismo por um tribunal na sua cidade natal, Volos, mas, com a sentença suspensa, evitou a prisão. Sete anos depois, em 14 de junho de 2020, Mangos novamente teria problemas com a lei. Desta vez, não houve julgamento: a punição foi administrada instantaneamente, nos portões do foro de Volos. Mangos foi chutado, agredido com cassetetes e enviado à delegacia após se precipitar em um grupo de policiais durante um protesto em frente ao foro. Solto sem acusações naquela tarde, foi admitido ao hospital, onde foi diagnosticado com seis costelas fraturadas e contusões no fígado e na vesícula. Quatro dias depois, foi mandado para casa sob medicação para a dor.

De volta com a sua família, o jovem de 26 anos cuidou de seus ferimentos e pesquisou sobre processar a polícia. O governo declarou apoio às ações do policial, declarando que Mangos – conhecido pelas autoridades como um anarquista comprometido – comportou-se de maneira ameaçadora. Mas havia evidência para sugerir que a polícia passou dos limites: a agressão em frente ao foro foi filmada nos celulares dos manifestantes.

Mangos se uniu a um grupo de ativistas da cena local anarquista e esquerdista que planejavam um desafio separado contra a polícia local, sobre sua repressão em uma manifestação ambientalista recente. Nas atualizações do Facebook, explicou por que tinha confrontado os policiais: tinha raiva sobre a destruição do meio ambiente e sobre brutalidade policial. Disse que os policiais apenas o deixaram ir quando perceberam que necessitaria de atenção médica. “Fiz com que falassem que seriam obrigados a me levar ao hospital se me mantivessem por mais tempo”, escreveu. “Duas semanas de recuperação agora, e quem sabe quantos anos até que haja justiça”.

Seja lá qual forma essa justiça eventualmente tome, virá tarde demais para Mangos. Um mês após seu encontro com a polícia, foi encontrado morto – o resultado de uma overdose. A família Mangos acredita que ele estava usando drogas para lidar com o impacto do ataque, e credita parte da responsabilidade por sua morte à polícia. “Sem ser uma figura de linguagem, acreditamos que o Vasilios morreu um mês após seu assassinato”, o pai de Mangos, Yannis, disse à Balkan Investigative Reporting Network, BIRN. Contudo, um relatório do promotor de Volos concluiu que não havia evidência de que os ferimentos de Mangos levaram a sua morte; ele foi morto pela heroína e sedativos em seu sistema.

Em 2020, a entidade de proteção aos direitos humanos da Grécia, a Ombudsman, recebeu cerca de 18,500 reclamações contra a polícia: o maior número em sua história, bem como um crescimento de 75% no total do ano anterior. Esta é a história por trás de uma dessas reclamações, que oferece um retrato de uma força policial em descontrole, praticando abusos sem medo de ser responsabilizada.

Os anarquistas são estrelas no que se referem na Grécia como sua “esquerda extraparlamentar”, uma constelação de grupos que opera fora do – e em oposição ao – sistema político. Muitas cidades gregas têm uma cena anarquista viva centrada em um espaço, ou no “horos” – uma zona de edifícios ocupados, com frequência grafitados, que dizem ter autonomia do Estado. O movimento anarquista está também na linha de frente dos protestos, comandando uma presença na rua que rivaliza com bastiões históricos como Itália e Espanha.

Na Grécia, como em qualquer lugar, os anarquistas apresentam um dilema: como o Estado deveria lidar com aqueles que buscam sua abolição? A resposta tipicamente envolve a polícia. Os próprios anarquistas também frequentemente acreditam em confrontação direta com os policiais: o monopólio da violência do Estado, como exercido pela polícia, deve ser desafiado com violência. Esta história oferece um relance de como a força policial grega lida com as pessoas que querem se livrar de seus empregadores.

A polícia “não encara os anarquistas como um fenômeno sem cara – eles também os tratam com hostilidade, social e pessoalmente”, diz George Sotiropoulos, um cientista político com base em Atenas e especialista no movimento. Ele descreveu a relação entre os dois lados como tendo “as características de um revanchismo”, bem como lutando uns contra os outros nas ruas, profanam uns aos outros “a níveis de estádios de futebol.”

‘Cultura da mentira’

O primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis foi questionado sobre o caso de Mangos em março deste ano, depois de motins engatilhados pela fúria do policiamento. Ele disse que a investigação oficial estava para acabar e uma decisão seria comunicada “em breve”. Nove meses passaram, ambos um inquérito policial interno e uma revisão desse inquérito pela Ombudsman foram completados, mas não há uma palavra sobre quando as descobertas serão publicadas. A família Mangos diz que foi mantida no escuro sobre o processo.

Um oficial da sede da Ombudsman, falando à BIRN anonimamente, disse que a revisão levou mais tempo do que o planejado porque a investigação policial fora “superficial” e “cheia de furos”. Uma porta-voz da polícia grega de Atenas, tenente Anna-Anniela Efthymiou, disse à BIRN que a polícia estava trabalhando para abordar as questões levantadas no relatório da
Ombudsman, incluindo um pedido por “muitos testemunhos adicionais”.

Enquanto não há veredicto sobre a conduta policial, acusações foram preparadas contra Vasilios Mangos. De acordo com sua advogada, Anny Papparousou, a polícia local colocou esforço em processá-lo por ofensas relacionadas a drogas após algumas horas do seu falecimento, apesar da ausência de qualquer base legal para processar uma pessoa falecida. “Isso é tanto uma violação à lei quanto à lógica”, disse Papparousou à BIRN.

Autoridades policiais de Volos não responderam aos pedidos por comentários da BIRN. Contudo, um policial da cidade que estava familiarizado com o caso, falando anonimamente, disse à BIRN que Mangos confrontou seus colegas em frente ao foro “com postura de boxeador, estendendo seus braços”.

Enquanto o policial concedeu que seus colegas tinham exagerado contra Mangos e deveriam ser “apropriadamente punidos”, ele também defendeu seus caracteres. “É uma vergonha… Eles são caras trabalhadores, honrados, homens sérios de família, o tipo que qualquer um quer como genro”. O policial enfatizou que os ferimentos de Mangos não tiveram a ver com a sua morte. “Respeito a dor do pai dele, mas não vejo como [a polícia] pode ser culpada pela morte”, disse.

Seguindo a instabilidade civil de março, o primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis fez uma admissão rara ao público. “Um código de honra” com a polícia levara a seus excessos serem encobertos, declarou. “Nossa polícia está ainda a um longo caminho de ser adequada à democracia moderna”. Seus comentários ecoaram as descobertas de uma revisão judicial atrasada da violência policial, ordenada pelo governo e publicada com reduções extensivas no ano passado. Concluiu que os policiais operaram em um ambiente de impunidade excepcional, apoiando críticas de entidades internacionais de direitos humanos.

“A liderança da polícia é de fato conivente a atos ilegais individuais de policiais, sem necessariamente tentar ser”, diz Anastasia Tsoukala, professora associada de criminologia na University of Paris-Sud. “Há uma cultura de mentira na polícia, e um medo da responsabilização que se move por toda a hierarquia.” Como resultado, diz ela, a maior parte dos abusos policiais são encobertos – “a não ser que fossem muito graves, ou muito bem documentados”.

‘Núcleo radical’

Sob ordens do novo governo, a polícia se impôs contra seus adversários ideológicos, os anarquistas. Sua repressão ao movimento gira em torno de uma história de reviravolta institucional. A força policial grega tinha uma relação desconfortável com o governo esquerdista Syriza, o qual tentou mantê-la sob controle mais rígido. O partido conservador Nova Democracia, eleito em 2019, derrotou Syriza ao prometer, entre outras coisas, a restauração da lei e da ordem. Quando no governo, engrandeceu as posições dos policiais e expandiu seus poderes. Em maioria de forma controversa, reviveu uma unidade de motocicletas que havia sido desbancada no governo Syriza por violações aos direitos humanos. Muitos dos recrutas da unidade foram tirados de posições de forças especiais militares, evitando a rota usual pela academia.

Até agora, as energias dessas forças engrandecidas têm focado no policiamento de espaços públicos em isolamento, controlando protestos e retomando zonas urbanas que têm tradicionalmente gozado de alguma autonomia do Estado. No distrito central de Atenas de Exarchia, onde se encontra grande parte dos anarquistas e da esquerda radical, ocupações bem estabelecidas foram invadidas e fechadas. A polícia também ganhou o direito de entrar em campi universitários, encerrando uma proibição em voga desde o colapso da junta militar de 1975, quando estudantes foram proclamados heróis da resistência e seus campi foram resguardados como refúgios dissidentes.

Como a força policial se empurrou à vida pública, encarou escrutínio sem precedentes. Seus excessos nunca foram melhor documentados, com gravações em celulares de agressões compartilhadas amplamente nas redes sociais. Em uma sequência típica de eventos, vídeos de brutalidade policial incitarão protestos de rua que preparam o cenário para que a violência cresça. O ciclo é temporariamente interrompido com linguagem conciliatória sobre reformar a força policial e promessas que acrescentam pouco demais.

Pela segunda vez neste ano, protestos contra a brutalidade policial em Atenas se transformaram em motins. Em outubro, foi sobre o assassinato de um homem, baleado em um carro roubado. Em março, foi sobre gravações da polícia agredindo um homem por uma alegação de violação do isolamento no bairro de classe média Nea Smyrni. Muitos protestantes foram feridos em uma perturbação subsequente, assim como um policial, puxado de sua motocicleta e agredido por uma multidão de vândalos torcedores de futebol.

Historicamente, o Estado torna anarquistas seus alvos com uma combinação de intensificada violência policial e vigilância, com frequência operando no limite da ilegalidade. Enquanto isso, a violência dos anarquistas tem tradicionalmente aparecido em um espectro, desde motins a roubos a bancos, a bombardeios e assassinatos por grupos guerrilheiros urbanos que foram designados como terroristas pelo Estado grego.

Sob a repressão recente, contudo, o movimento tem revisado seu uso de táticas violentas. O cientista político George Sotiropoulos diz que, “em um nível teórico, os anarquistas não abandonaram essa ideia de violência política, mas agora há uma atitude mais sutil sobre ela, precisamente por causa do nível de repressão policial”.

A influência do movimento aumentou quando a crise financeira atingiu a Grécia, 13 anos atrás. O assassinato de um adolescente desarmado, atingido por uma bala de um policial em Exarchia em dezembro de 2008 causou uma instabilidade nacional. Os motins que seguiram a morte de Alexandros Grigoropoulos canalizaram condições econômicas que se deterioravam.

Hoje, os anarquistas também exploram reclamações sobre a resposta do Estado a questões como poluição e incêndios, formando a vanguarda de um novo movimento ambientalista. A esquerda grega e os anarquistas “interseccionam com o movimento ambientalista no nível de lutas locais”, diz Sotiropoulos. Contudo, os anarquistas “não têm sido particularmente ativos na questão das mudanças climáticas”, adicionou, porque há uma ausência da Grécia em qualquer “movimento ambientalista mais amplo, lidando com questões maiores”.

Esse pode não ser o caso por muito mais tempo. Causas ambientais são esperadas a ganhar tração na Grécia por conta de incêndios catastróficos e climas extremos que preveem o caos que será iniciado por um planeta em aquecimento. Sotiropoulos diz que o Estado se encontra alarmado pela possibilidade de anarquistas formarem “o núcleo radical” de um movimento ambientalista em expansão – “uma luta radicalizada” será mais difícil de
conter.

Espírito autoritário

Da colina cravejada em que seu filho está enterrado, Yannis Mangos consegue ver os terraços de Volos, a cidade portuária que foi seu lar pelos últimos 30 anos. Ele cresceu em uma vila na província vizinha de Thessaly, mudando-se para a cidade após o seu casamento com Dati Mourtzopoulou, a filha de um advogado proeminente e poeta. O casal trabalhou como professores e criou três crianças, das quais Vasilios foi a segunda.

Políticas de esquerda eram comuns na família. Quando jovem, Yannis foi um membro do partido comunista grego. Seu pai foi da guerrilha comunista durante a guerra civil grega. Yannis ambicionava passar a tradição familiar adiante, levando o jovem Vasilios para as trilhas atrás de Volos, cena de algumas batalhas lendárias da guerra civil. Eles conversavam sobre a história da região e do herói comunista da resistência, Aris Velouchiotis, que se escondeu nessas montanhas para lutar contra a ocupação nazista na Grécia. Vasilios se tornou um jovem “profundamente político”, diz Yannis, preocupado com questões de injustiça, constantemente perguntando “por que existe, e o que pode ser feito sobre”.

O garoto foi criado em uma cidade em declínio. Volos foi um dia um centro comercial ocupado, ligando a Europa do Danúbio ao Mar Negro, e ao Levant. No século XX, ela se tornou o local do terceiro maior porto de carga da Grécia, suas fábricas da orla produzindo aço e cimento. Com a globalização, contudo, Volos foi no mesmo caminho de todos os centros da manufatura provincial. As fábricas ainda estão lá, soltando fumaça, mas elas produzem menos e contratam menos pessoas. Muito da antiga burguesia se realocou para a capital, e muitos dos jovens que se aglomeram nas calçadas à noite terminarão por usar seus passaportes europeus para ter um futuro no estrangeiro.

Vasilios Mangos permanecia. Ele tinha uma personalidade otimista e uma tendência à impulsividade, e fazia amigos com facilidade, conhecido entre eles por seu apelido, Billy. Ele torcia para o Volos Victory FC, o time de futebol local estabelecido pelos refugiados que aumentaram a população da cidade após a guerra greco-turca de 1922. Desde sua adolescência compartilhou o apetite de seu pai pela literatura política, lendo trabalhos canônicos de Camus, Dostoiévski e do dissidente de esquerda e ambientalista grego Chronis Missios.

Sua política, contudo, divergiria do esquerdismo de seu pai. Enquanto Vasilios compartilhava o ceticismo de Yannis sobre os partidos políticos gregos tradicionais, considerando-os coniventes com interesses americanos ou alemães, ele também rejeitava o dogmatismo dos comunistas. Ao invés disso, diz Yannis, seu filho “acabou se movendo para um espaço político um pouco mais além”. Vasilios gravitava para a cena anarquista de Volos, ficando na maior de suas ocupações, a Matsangou Occupation, em que ajudava a organizar eventos para arrecadação de fundos e culturais.

As origens do movimento anarquista grego moderno pode ser traçada às consequências da Segunda Guerra Mundial. A insurgência comunista que lutou contra os nazistas nas montanhas atrás de Volos foi eventualmente derrotada na guerra civil grega de 1946-9. Nas divisões da Europa do pós-guerra, a Grécia foi desenhada na órbita americana, tornando-se membro da OTAN e, pelo menos nominalmente, uma democracia. Na prática, contudo, seus partidos de esquerda foram marginalizados por um Estado do pós-guerra que temia um renascimento do comunismo. O movimento anarquista se expandiu durante esse período, prosperando ao lado dos comunistas que dominavam as margens. “O anarquismo moderno da Grécia emerge como uma tendência dentro de um radicalismo de esquerda mais amplo,” diz o cientista político George Sotiropoulos. “Desenvolveu-se no contexto de um movimento que demandava democratização”.

Depois que um golpe militar instalou uma junta autoritária de extrema direita em 1967, elementos dentro da subcultura esquerdista e anarquista endossaram a ideia de violência política. Sua crença era que a luta violenta sobreviveria o colapso da junta e a reformulação do sistema democrático em meados dos anos 1970. O anarquismo grego preservou um espaço para a violência política porque veio a ver “ordem legal democrática como uma fachada”, disse Sotiropoulos. Na visão anarquista, o Estado ainda estava sob o controle de interesses profundamente conservadores e reacionários com tendências fascistas, e então seu monopólio da violência tinha que ser continuamente desafiado.

Se os anarquistas se consideram os donos da tocha da resistência à junta, a força policial preserva ao menos uma parte daquele espírito autoritário da era. Ela consistentemente combateu os esforços para fazê-la mais responsável enquanto recrutando desproporcionalmente dos ranques de extrema direita e simpatizantes neonazistas. “Houve um esforço para democratizar entidades de segurança como resultado da junta,” diz Anastasia Tsoukala da University of Paris-Sud. “Mas, enquanto isso aconteceu satisfatoriamente com as forças armadas e não estamos mais no risco de um golpe, falhou deploravelmente com a polícia”.

‘Procurou sangue policial’

Depois de completar a escola, Vasilios Mangos se matriculou em um curso técnico superior em Atenas e se imergiu na contracultura anarquista da capital, centrado na rede de ocupações de Exarchia. Ele ocasionalmente performava como rapper e frequentava festivais de música, tomando trens pelo país, acompanhando seus amigos em farras épicas. Junto com as drogas de festa inevitáveis, Vasilios desenvolveu um gosto por heroína. Sempre um usuário funcional, fez várias tentativas de parar, entrando em programas de reabilitação em Volos e na cidade próxima Larisa. Ao final da última década, ele tinha conseguido se desabituar. Mudou-se de volta para Volos, encontrou trabalho como motorista de entregas e estava em um relacionamento sério com uma jovem da cidade.

Mangos estabeleceu suas credenciais antifascistas quando era adolescente, com o ataque à sede do Aurora Dourada. Crescendo, também fazia campanha por causas ambientais adotadas pelo movimento anarquista. Os anarquistas de Volos se mobilizavam aonde quer que detectassem que o governo passava dos limites. Protestavam contra as fábricas poluentes da cidade, planos oficiais para desviar uma nascente de montanha, e esquemas para construir usinas eólicas na região – empurradas, de acordo com os residentes, sem levar em conta suas necessidades.

Em 13 de junho de 2020, Vasilios se juntou a cerca de 5.000 pessoas em um protesto contra uma nova instalação planejada para converter lixo comercial em combustível para incineração na fábrica de cimento que dominava a periferia do norte da cidade. Combustível sólido recuperado, ou CSR, é produzido por papel tratado, lixo têxtil e plástico e está sendo cada vez mais usado na produção de cimento e na geração de energia no mundo todo.

É divulgado como uma alternativa mais sustentável para combustíveis fósseis, que tem o benefício adicional de reduzir a quantidade de lixo direcionado a aterros sanitários. Em Volos, contudo, muitos temem que as fábricas de CSR planejado ignorarão normas ambientais e piorarão a poluição do ar. A fábrica de cimento Heracles da cidade, propriedade do conglomerado suíço LafargeHolcim, está entre as maiores das unidades europeias. Um relatório de 2011 pela European Environment Agency, EEA, classificou entre os 10 piores sítios industriais da Grécia em termos do seu impacto na poluição do ar e saúde pública.

Vasilios participou da manifestação de 13 de junho com um grupo de torcedores do Volos Victory FC que foram incumbidos da guarda. Os manifestantes – uma mistura de ativistas, estudantes e famílias com crianças – avançaram em direção aos portões da fábrica de cimento, segurando caixões simbólicos e cartazes com slogans de um tipo que se tornou comum mundialmente em protestos ambientalistas. “Se o clima fosse um banco,” lia um, “o governo o teria salvado”.

Os ativistas e a polícia dão explicações conflitantes para o caos que se irrompeu quando o protesto estava em abrandamento, por volta das nove da noite. De acordo com um depoimento dado pelo sindicato legal da polícia, um grupo de manifestantes vestindo moletom teria “procurado sangue policial”, deixando pelo menos dois policiais com ferimentos na cabeça. Contudo, ativistas disseram que foram atingidos por gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral quando se aproximavam da fábrica de cimento com uma faixa grande.

Algumas contas ativistas disseram que a intenção era colocar a faixa nos portões da fábrica, outros insinuaram que era colocá-la dentro das instalações da fábrica. De qualquer forma, a polícia acabou perseguindo grupos de manifestantes por dois quilômetros de rodovia, até os portões do hospital da cidade. Testemunhas relataram ver manifestantes deitados no asfalto, vencidos pelo gás lacrimogêneo, ou cambaleando para o mar para escapar de seus efeitos.

Nem todos simpatizam com os ativistas ambientalistas. Um PM conservador de Volos os descreveu como “vândalos de moletom operando às margens da ilegalidade”. O PM, que falou com a BIRN anonimamente, diz que os manifestantes erraram ao fazer da fábrica de cimento um alvo. “Se Lafarge deixar sua localização atual,” diz, “irá se mover de vez para a Bulgária, levando embora seus empregos”.

‘Força necessária’

No próximo dia, a perturbação na manifestação foi a conversa da cidade. Até a hora do almoço, um pequeno protesto se formou em frente ao foro em que acusações foram feitas contra os manifestantes detidos na noite anterior. Os manifestantes se mantiveram de um lado da rua, de frente para as vans de motim da polícia posicionadas em frente ao foro.

O clima era hostil. Os policiais de motim alegadamente utilizaram sistemas públicos de comunicação para transmitir poemas e comentar as mulheres da multidão. Enquanto isso, os manifestantes gritavam slogans contra a polícia, rimando o termo grego para segurança de Estado, “asfalites”, com a palavra para assassino, “alites”.

Vasilios Mangos não foi à manifestação, mas morava perto e estava passando em sua motocicleta quando os detidos estavam sendo conduzidos para fora dos tribunais. Reconhecendo um deles, estacionou e, como que em um impulso, correu na direção da polícia, gritando: “O que vocês estão fazendo com ele?” Um vídeo filmado no celular de um manifestante e disponibilizado no YouTube mostra a reação da polícia.

Um policial vestido em roupas escuras é filmado voltando-se ao lado esquerdo do enquadramento, seu braço estendido. Vasilios está na beira da câmera, mas sua sombra pode ser vista momentaneamente no asfalto. Outro policial de preto corre para ele, seguido de um grupo de policiais armados para motim. A câmera vira para mostrar dois policiais agredindo Vasilios enquanto ele está no chão. Um dos policiais usa um cassetete enquanto outro é filmado chutando Vasilios, que levanta as mãos para proteger sua cabeça. Um terceiro policial armado para motins se junta a eles enquanto seus colegas dispersam, formando um cordão imediato entre os manifestantes e a agressão.

Há clamores chocados da multidão. “Deixe ele em paz!” alguém grita; “O que vocês vermes estão fazendo?” outro grita. Os policiais jogam granadas de efeito moral e a câmera captura os manifestantes correndo, seguidos pela polícia de motim. “Foi a coisa mais extrema que já vi”, diz S., um amigo de infância de Vasilios e membro da cena anarquista da cidade que falou à BIRN em anonimidade. “A polícia de motim nos perseguiu por dois quarteirões, passando uma taberna em que os clientes sentados nos observavam chocados”.

Um segundo vídeo, disponível no mesmo link do YouTube, mostra o ataque no foro de outro ângulo e captura sua conclusão: Vasilios está ajoelhado na rodovia com três policiais em cima dele, enquanto manifestantes se dispersam ao som das granadas. Ele contou posteriormente a S. que suas costelas já estavam fraturadas a esse ponto. Algemado e se contorcendo de dor, Vasilios disse à polícia que não conseguia respirar.

Ele foi levado em um veículo preto. Cerca de duas horas depois, foi visto por volta da delegacia local por conhecidos que traziam comida para seus amigos detidos. Visivelmente ferido, Vasilios foi auxiliado a chegar em casa, de onde foi ao hospital. Contou a seu pai e amigos que foi agredido novamente pelos policiais antes que o deixassem ir. Foi mantido brevemente em uma cela, disse, descrito como “bixa” e humilhado quando tentou beber água que gotejava de um bebedouro quebrado.

Após uma hora sob custódia, foi solto sem acusações. O incidente no registro da delegacia dizia que Vasilios Mangos foi detido sob suspeita de ter cometido um crime. Como base para a detenção, o registro também cita suas “atividades em vários coletivos” e seu “comportamento criminal em geral” – referências aparentes a sua ligação com grupos locais anarquistas e sua condenação pelo ataque à sede do Aurora Dourada. O registro diz que foi contido usando mais força do que o “absolutamente necessário”.

No hospital, Vasilios recebeu remédios fortes para a dor pelos ferimentos em suas costelas e órgãos internos. “Fazia anos que não o via tão dopado”, diz Yannis Mangos. “Foi quase como se estivessem tentando subjugá-lo”.

Recuperando-se em casa, Vasilios se registrou para benefícios por deficiência e saía para passeios gentis. Passeios de carro traziam uma mudança de cenário bem-vinda, mas ele tinha que maneirar – os trancos do veículo eram insuportáveis se estivesse a mais de 20 km/h. O amigo de infância de Vasilios, S., que o via quase diariamente durante esse período, lembra que não podia contar piadas – rir era muito dolorido.

Vasilios falava da agressão em tom descontraído, mas aqueles que o conheciam podiam ver que a experiência o afetara psicologicamente. “Ele estava estressado, tinha problemas para dormir, parecia diminuído”, seu amigo S. contou à BIRN. “Não era mais seu tipo gregário usual”. Amigos disseram que Vasilios também reclamava que estava sendo incomodado por pessoas que o vendiam drogas quando estava viciado; criou um novo perfil no Facebook para esquivar sua atenção.

Algumas semanas após a agressão, Vasilios procurou ajuda médica. Diagnosticado com depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático, recebeu uma receita para benzodiazepinas, uma droga que é usada no tratamento de ansiedade e insônia. Embora seja amplamente receitada e considerada segura para uso a curto prazo, benzodiazepinas podem causar uma overdose quando tomadas em combinação com outras substâncias supressoras do sistema nervoso, como álcool ou opioides. Na noite de segunda-feira, 13 de julho de 2020, um mês após ser agredido pela polícia, Vasilios foi encontrado morto em seu quarto por sua mãe. A autópsia confirmou que teve uma overdose de uma combinação de drogas lícitas e ilícitas, nominalmente heroína.

Yannis Mangos estava fora de casa quando seu filho morreu, cuidando de sua mãe enferma. Contou à BIRN que Vasilios estava calmo e falante quando se falaram por telefone no domingo. Quando se falaram novamente na segunda-feira de manhã, contudo, estava em “um péssimo estado: irritado, triste, estressado”, relatou Yannis.

O pai propôs que fossem às trilhas das montanhas quando Vasilios se recuperasse, fazerem algo que os dois amavam – e essa foi a última vez que se falaram. A overdose parece ter sido resultado de um trágico erro de cálculo, sendo que Vasilios misturou medicamentos com um opioide ao qual seu corpo havia perdido tolerância. “Se ele estivesse sóbrio por muito tempo, teria que ter sido mais cauteloso com a dose e combinação”, apontou Yannis.

Não há evidência para sugerir que Vasilios tinha intenção de tirar sua vida. Apesar das flutuações de humor após a agressão, a busca por reparação aparentava ter lhe dado um propósito. Na semana de sua morte, encontrou-se com Anny Paparoussou, uma advogada com base em Exarchia com uma reputação por defender vítimas de violência policial. A reunião foi marcada por Yiannis Hadziyannis, um ativista esquerdista de Volos que estava auxiliando a organização de defesa legal para ativistas acusados a partir da manifestação de 13 de junho. Declarou à BIRN que estava impressionado com a força das convicções políticas de Vasilios. “Vasilios era muito claro e não tinha ilusões de qual lado das barricadas estava”, disse.

‘Presença vívida’

Quando a notícia da morte de Vasilios se espalhou pelos círculos anarquistas e esquerdistas, causou indignação. O vídeo de celular da frente dos tribunais foi visto sob uma nova luz: a polícia foi implicada não apenas na agressão, mas também, potencialmente, no assassinato. “Pessoas me diziam que ativistas estavam se preparando para se reunir por toda a Grécia, que preparações estavam sendo feitas para tomar as ruas”, lembra Yannis Mangos. Ele lançou uma declaração rápida com a esperança de diminuir as tensões: declarou que a família não responsabilizava o Estado pela morte de seu filho. “Eu estava em uma dor terrível”, disse Yannis, “e Vasilios ainda seria enterrado”.

Hoje, contudo, a família Mangos diz abertamente que as ações do Estado contribuíram para a morte de seu filho. Eles acreditam que recorreu à heroína para lidar com o impacto da agressão. “Vasilios não morreu diretamente da agressão, mas o incidente criou danos psicológicos e o lançou em um caminho autodestrutivo”, declarou Yannis à BIRN. “Se não tivesse sido agredido e torturado, ainda estaria vivo hoje. Eles não atiraram em seu coração, mas certamente destruíram sua alma”.

A posição oficial do Estado sobre Vasilios Mangos mudou com sua morte. Duas semanas após a agressão, enquanto ainda estava vivo, o Estado defendeu os policiais de Volos. O representante ministerial pela proteção dos cidadãos, Eleftherios Ikonomou, disse que agiram apropriadamente contra comportamento “violento e ameaçador”. Contudo, dois dias após o falecimento, o chefe de Ikonomou, o Ministro da Proteção do Cidadão Michalis Chrisohoidis, disse que os policiais estavam sob investigação.

Como se provou, a reputação de Vasilios também estava sob escrutínio. Em 15 de setembro de 2020, sua advogada, Anny Papparousou, revelou que a polícia apreendeu o celular de Vasilios nas bases de que estava enfrentando acusações póstumas, por posse de drogas. “É um paradoxo ensurdecedor”, declarou à BIRN. “Eles usaram o pretexto dessa acusação que não existe para confiscar o celular”.

A BIRN perguntou à polícia de Volos por que eles apreenderam o celular de Vasilios. Em uma ligação breve, o chefe do diretório da polícia de Magnesia Miltos Alexakis disse que a força não podia discutir detalhes do caso. A BIRN fez várias tentativas para contatar outras filiais da força, bem como policiais individualmente, mas nenhum estava disposto a ser citado.

Um ex-policial de Volos que agora trabalha na indústria de segurança privada disse que “não é surpresa” que policiais ativos não estavam dispostos a falar. O ex-policial disse que o uso excessivo de força é “um problema recorrente” e que a “polícia recusará absolutamente quebrar posições para discuti-lo”, particularmente neste caso. “Esse foi um incidente muito vergonhoso,” declarou à BIRN, falando anonimamente. “Simplesmente não há razão para continuar usando violência depois de imobilizar o sujeito”.

Yannis Mangos visita o túmulo do filho todos os dias, uma caminhada curta de casa, acima de um caminho verdejante por trás da cidade. No caminho, passa um slogan grafitado que Vasilios tratava como um lema: “Even if we never win, we will always be fighting”. [Até se nunca ganharmos, sempre estaremos lutando.] A lápide contém um verso de um dos poetas preferidos de Vasilios, Kostas Kariotakis. “Let us make peace with nullity and infinity”, [“Deixe-nos fazer a paz com nulidade e infinidade”] lê a inscrição, embaixo de um símbolo do número zero aninhando um símbolo do infinito.

Yannis lava a lápide e se lembra de conversar sobre injustiça com um jovem que se importava com ela. “Ele tinha uma presença tão vívida”, diz. “De primeira, continuava pensando que ele ainda estaria por aí”. Em caminhadas pela cidade, ele é lembrado de seu filho quando vê outros jovens que se parecem com ele, e pelos slogans grafitados nas paredes: “Vasilios Mangos – Presente!” Em manifestações de hoje, os manifestantes pausam em frente a casa da família.

Para Yannis Mangos, a morte de seu filho revelou a verdadeira face do Estado grego. Ele é agora mais simpático à análise anarquista: o governo da lei é uma ficção e o Estado é inerentemente reacionário – é um candidato à abolição, não à reforma. “O que aconteceu na minha família me mostrou que não há democracia na Grécia”, diz. “Vasilios foi mais avançado em seu pensamento, eu era mais conservador. Anarquismo não apelava a mim quando era mais jovem. Agora, contudo, faz sentido”.

> Iason Athanasiadis é um jornalista freelancer sediado em Atenas. Esta história foi editada por Neil Arun. Foi produzida como parte da Fellowship for Journalistic Excellence, apoiada pela ERSTE Foundation, em cooperação com a Balkan Investigative Reporting Network.

Fonte: https://balkaninsight.com/2021/12/06/the-accidental-death-of-an-
anarchist/

Tradução > Sky

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/07/15/grecia-vasilis-maggos-foi-brutalmente-espancado-por-policiais-em-uma-manifestacao-de-solidariedade-um-mes-depois-ele-e-encontrado-morto/

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Chuva no lago
cada gota
um lago novo

Alice Ruiz

[São Paulo-SP] Caminhada pela Mooca de Maria A. Soares acontece neste sábado

Sábado (18/12) será o evento presencial da Tenda de Livros, vamos fazer uma caminhada da Estação Juventus-Mooca até onde era a casa da Família Soares, lugar muito importante para a história do anarquismo e do movimento operário na Primeira República.

Vamos nos encontrar às 14h no bar da estação, na saída da AV. Presidente Wilson N. 497., São Paulo (SP).

Vem pro grupo de zap: bit.ly/caminhadafamiliasoares

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/11/02/o-primeiro-livro-da-colecao-charlas-y-luchas-sera-lancado-quinta-feira-04-11-unidas-nos-lancemos-na-luta-o-legado-anarquista-de-maria-a-soares/

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Céu de primavera.
Nas açucenas floridas
dura mais o orvalho.

Anibal Beça

[Catar] Professor da Georgetown no Quatar Ensina Ciência Política através de Palavras Cruzadas

Acadêmico e criador de palavras cruzadas, o professor visitante da Georgetown University na parceira do Qatar (GU-Q), Dr. Leonard Williams, oferece uma maneira original de explorar conceitos chave da ciência política com a publicação de seu último livro de passatempos intitulado Black Blocks, White Squares: Crosswords with an Anarchist Edge (AK Press, 2021).

Oferecendo cinquenta e uma palavras cruzadas temáticas em uma coleção brochada, seu livro contempla a história, filosofia e ascensão do anarquismo, uma ideologia política que teve início na França do século XIX e que continua a impactar eventos mundiais hoje.

“Pessoas frequentemente associam a palavra com sua definição literal, que significa caos, desordem e ilegalidade. Mas, como ensino em meus cursos de ciência política, anarquismo é uma tradição ideológica com raízes históricas profundas, uma que enfatiza cooperação social e cuidados e liderança baseados na comunidade”, afirma.

Mas os solucionadores não precisarão de um diploma da Georgetown para se divertirem com o livro. Dr. Williams incluiu soluções e “Notas do Construtor” que explicam as ideias por trás de cada passatempo.

A evolução das palavras cruzadas de uma simples grade de quadradinhos e dicas por definição de palavras para uma forma artística complexa e educacional aproveitadas em clubes, congressos e comunidades online é o motivo pelo qual o hobby que começou em sua juventude prevaleceu, explica o Dr. Williams. Suas palavras cruzadas já apareceram em publicações como The New York Times, The Wall Street Journal, The Los Angeles Times e GAMES Magazine.

“Palavras cruzadas se tornaram mais relevantes com o tempo, usando linguagem contemporânea, referências e trocadilhos poéticos. Então, combinar meus interesses acadêmicos em ideologia política com meu interesse em palavras cruzadas para minha publicação mais recente foi um encaixe natural,” diz. Com muitas publicações em meio acadêmico, Dr. Williams diz que seus temas e dicas foram com frequência inspirados por sua pesquisa, partes de conversas, ou por notícias. “Quando uma palavra ou ideia prende minha imaginação, tomo nota para que possa voltar a ela e ver se uma palavra cruzada pode ser construída a partir dela.”

Por meio de suas palavras cruzadas, o Dr. Williams oferece um estudo fascinante da sociedade humana por um meio que também ensina fluência verbal, potencializa o aprendizado e encoraja o engajamento da comunidade, enquanto recebe um novo público ao estudo de questões internacionais.

>> Dr. Williams recebeu seu Ph.D. pela Ohio State University e se juntou ao GU-Q pela Manchester University em Indiana, EUA, onde trabalhou como Reitor Emérito da Faculdade de Educação & Ciências Sociais e Professor Emérito de Ciência Política. Suas publicações mais recentes incluem a co-edição de Anarchism: A Conceptual Approach (Routledge) e Political Theory: Classic and Contemporary Readings, Segunda Edição (Oxford University Press).

Fonte: https://www.qatar.georgetown.edu/georgetown-professor-at-qf-teaches-political-science-through-creative-crosswords/

Tradução > Sky

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cada haikai
uma nova peça
num quebra-cabeça sem fim

George Swede

I Fúria-Livre de SP

No próximo domingo (dia 19/12), a partir das 10h, ocorrerá a I Fúria-Livre de SP, jornada coletiva e auto-organizada de difusão de publicações e outros materiais anarquistas. Será realizada a céu aberto, em frente à Casa das Rosas, localizada na Av. Paulista, 37, próximo ao metrô Brigadeiro.

A participação é aberta, leve sua banquinha e seus materiais.

Atividade livre de autoritarismo, homofobia, misoginia, racismo e demais condutas intoleráveis!

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Arrastar espantalhos pelo chão
é o que a tempestade
faz primeiro.

Kyoroku

Relançamento: “Punk – Memória, História e Cultura”, de Antonio Carlos de Oliveira

O Centro de Cultura Social (CCS) é um espaço anarquista mantido pelos seus sócios e simpatizantes, assim, como parte do esforço para manter o espaço e divulgar as publicações de caráter social ou anarquista acaba de relançar o livro “Punk – Memória, História e Cultura”, de Antonio Carlos de Oliveira.

O presente trabalho é a divulgação, em formato de livro, da transcrição de uma palestra sobre o movimento punk realizada no CCS. O que segue além da palestra são documentos sobre o acervo do movimento punk com algumas notas de esclarecimento. Os textos refletem o desejo de divulgar o trabalho realizado na organização do Arquivo Punk do CCS, a grandeza e importância da cultura punk, da relação desta com o anarquismo de forma geral e com sua forma de expressão organizada. Hoje podemos afirmar que parcela significativa da militância do movimento anarquista organizado que conhecemos teve sua origem ou alguma relação com os movimentos ligados ao punk.

Punk – Memória, História e Cultura

Autor: Antonio Carlos de Oliveira

Editora: Rizoma

Ano: 2021

Páginas: 120

Preço: R$ 20,00

http://ccssp.com.br/livrariaccs/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/02/relancamento-do-livro-os-fanzines-contam-uma-historia-sobre-punks-de-antonio-carlos-de-oliveira/

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O sol brilha
Nas vigas da ponte –
Névoa da tarde.

Hokushi

[Colômbia] ‘Um massacre policial’: policiais colombianos mataram 11 manifestantes durante protestos contra a violência policial, diz relatório

Por Joe Parkin Daniels | 13/12/2021

Manifestantes contra a brutalidade policial foram recebidos com mais brutalidade

A polícia colombiana foi responsável pela morte de 11 manifestantes durante os protestos anti-polícia que se deu na capital em setembro de 2020, de acordo com um relatório publicado esta segunda-feira (13/12) após uma investigação independente apoiada pela prefeitura de Bogotá e pela ONU.

“Foi um massacre policial”, escreveu Carlos Negret, um ex-ombudsman do país sul-americano que liderou as investigações, no longo e mordaz relatório publicado na segunda-feira. “Uma liderança decisiva, ambas política e operacionalmente, baseada em direitos, é necessária a nível nacional e local para evitar esses acontecimentos”.

Manifestações varreram Bogotá e o subúrbio de Soacha em setembro do ano passado, após a viralização de uma gravação mostrando policiais derrubando e agredindo com um taser um pai de duas crianças que fora detido pela quebra das restrições do Covid. “Por favor, parem!”, pode-se ouvi-lo implorando no vídeo. Ele faleceu pouco depois por ferimentos de quando estava sob custódia.

O incidente foi comparado ao assassinato de George Floyd pela polícia em Minneapolis em maio de 2020, cuja gravação também viralizou e desencadeou protestos generalizados.

A morte de Ordoñez gerou protestos que encontraram resposta policial violenta que utilizava rondas “menos-letais”, matracas e gás lacrimogêneo, enquanto manifestantes ateavam fogo em dezenas de quiosques policiais pela cidade. Com 14 manifestantes assassinados – 11 dos quais pela polícia – centenas foram feridos de ambos os lados.

A maior parte das mortes ocorreram nos bairros mais pobre da cidade, levando investigadores a concluir no relatório de segunda-feira que “existe uma criminalização da pobreza pelas forças do Estado, o que desencadeou ações autoritárias e ilegais contra residentes de certos setores sociais”.

“A prática mais representativa e generalizada durante esses dias de protesto foi o uso ilícito da força por parte de membros da polícia nacional”, apontou o relatório. “Essa investigação conclui que a polícia nacional abertamente abandonou os princípios de proporcionalidade”.

A investigação foi realizada a pedido da prefeita de Bogotá, Claudia López, e foi apoiada pelo programa de desenvolvimento da ONU.

“Quem deveria assumir responsabilidade política?”, perguntou López em resposta inclusa no relatório. “Eu, para começar, mas também a polícia e o presidente [Iván Duque]”.

Na época dos protestos, López requereu a Duque que acalmasse a polícia, que responde ao Ministério da Defesa. O presidente colocou os manifestantes como “terroristas urbanos”, emprestando jargões da guerra civil do país que perdura por décadas contra insurgências de esquerda.

Alejandro Lanz, codiretor da Temblores, um cão de guarda da violência policial local, diz que o relatório demonstrou falhas sistêmicas do sistema de justiça, as quais permitiram que os policiais responsáveis escapassem de processos e punição.

“A coisa mais preocupante é que a vasta maioria dos policiais envolvidos no massacre ainda patrulham as ruas de nossa cidade”, diz Lanz. “É surpreendente que apenas quatro policiais foram acusados, e apenas um deles foi privado de sua liberdade, e isso significa apenas prisão domiciliar”.

“É extremamente alarmante ver a diferença de como a promotoria e o sistema jurídico se comporta em casos nos quais a polícia é o provável agressor e nos quais são as pessoas que participaram das manifestações”, declarou Lanz.

Protestos na Colômbia continuam a ser recebidos com violência policial. Em abril deste ano, a resposta policial às manifestações nacionais contra a pobreza foi semelhantemente brutal, com ao menos 20 pessoas assassinadas por policiais nos meses subsequentes de instabilidade, de acordo com a Human Rights Watch.

“A resposta do Estado foi caracterizada por um uso excessivo e desproporcional de força, em muitos casos, incluindo força letal”, afirmou a presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Antonia Urrejola, durante uma coletiva de imprensa em julho deste ano.

Fonte: https://www.theguardian.com/global-development/2021/dec/13/police-massacre-deaths-11-protesters-2020-report

Tradução > Sky

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No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!

Matsuo Bashô

 

[Nova Zelândia] Nova impressora para publicação radical em Wellington

Por 11 anos, nosso coletivo usou uma impressora antiga para ajudar as editoras a lançarem seus livros. Precisamos substituí-la para que possamos continuar publicando.

A impressora antiga fez mais de 600.000 cópias, teve quase todas as peças internas substituídas pelo menos uma vez, mas está chegando ao fim de sua vida útil. Precisamos de sua ajuda para garantir que possamos continuar fazendo livros radicais e independentes em Wellington. A Rebel Press abriga um coletivo de editoras que têm usado um pequeno escritório no Trades Hall para imprimir, guilhotinar e encadernar livros desde 2008. É uma configuração muito DIY que nos permite imprimir pequenas e grandes tiragens, o que significa que podemos começar com pequenas tiragens e depois usar esses fundos para continuar imprimindo mais.

A Rebel Press existe principalmente para apoiar a publicação de esquerda radical e atualmente é o lar de:

> The Freedom Shop é uma livraria anarquista sem fins lucrativos e um centro de informações cujo objetivo é espalhar informações radicais e apoiar a cultura anarquista DIY.

> Left of the Equator Press eleva e amplifica as vozes daqueles que trabalham para transformar nosso mundo para melhor, contra o capitalismo, colonialismo, autoritarismo e todas as estruturas e instituições injustas de poder e privilégio.

> Lawrence and Gibson é um coletivo que publica ficção literária voltada para o taciturno, satírico, prolixo e pensativo.

> 5ever books é uma editora de trabalhos vigorosos, experimentais e interdisciplinares.

Para cada livro que imprimimos para nossos membros coletivos, imprimimos o mesmo para amigos da comunidade. Estamos ansiosos para continuar oferecendo nosso trabalho e tempo para ajudar a manter a comunidade imprimindo e publicando. Por exemplo, além dos livros impressos por nossas editoras, imprimimos:

> Kia Mau: resisting colonial fictions de Tina Ngata,

> as primeiras nove edições de Counterfutures,

> a primeira edição de A Surfeit of Sunsets – que então foi publicado pela Mākaro Press,

> um livreto para o segundo álbum do Unsanitary Napkin e um para o mais recente Lake South,

> 4000 livretos para a campanha Double the Refugee Quota.

Não publicamos qualquer coisa – não é um negócio – apenas aquilo que ressoa com um espírito radical e independente. Usamos papel 100% reciclado e tinta à base de soja.

Estamos em um ponto de inflexão com as dificuldades da velha impressora – e a impressora está no centro do que uma editora clandestina faz! Com muitas reduções de escritórios, conseguimos fazer um ótimo negócio em uma impressora de modelo antigo que é confiável e econômica. Inicialmente, esperávamos realizar um show ou algum outro evento para arrecadação de fundos, mas com a Covid do jeito que está e com novos livros a caminho, simplesmente não temos tempo para esperar até que possamos colocar todos em uma sala e implorar por dinheiro. Se não chegarmos aos 3.000 dólares, teremos que descobrir outra maneira de arrecadar os fundos… o que provavelmente pode levar isso até 2022 e nossa capacidade de nos reunirmos.

Uso de fundos

Nós passamos o chapéu dentro do nosso coletivo e conseguimos arrecadar mais da metade dos 6.000 dólares necessários para a impressora. Agora estamos convidando amigos, colegas e camaradas para nos ajudar a arrecadar os restantes 3.000 nas próximas três semanas.

>> Para colaborar, clique aqui:

https://givealittle.co.nz/cause/rebelpressprinter?fbclid=IwAR1-aSbjG8pJ0SPCKh9PCzPkhYaBVR16Rj1FTgQfa3rcuIh3BLcMLZYa3TY

Tradução > A Estrela

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/05/19/nova-zelandia-feliz-25o-aniversario-para-a-freedom-shop/

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Borboleta azul
raspa este céu de mansinho
insegura e frágil.

Eolo Yberê Libera

[EUA] Pré-venda | A Inquisição Anarquista | Assassinos, Ativistas e Mártires na Espanha e na França, de Mark Bray

|| Economize 30% na pré-venda do meu novo livro, A Inquisição Anarquista: Assassinos, Ativistas e Mártires na Espanha e na França, com este código especial: 09BCARD ||

The Anarchist Inquisition explora as campanhas inovadoras de direitos humanos transnacionais que emergiram em resposta à onda brutal de repressão desencadeada pelo Estado espanhol para anular atividades anarquistas na virada do século XX. Mark Bray guia os leitores por essa era tumultuosa — de reuniões secretas em Paris e câmaras de tortura em Barcelona a conferências internacionais antiterroristas em Roma e manifestações por direitos humanos em Buenos Aires.

Bombardeios anarquistas em teatros e cafés na década de 1890 provocaram prisões em massa, a aprovação de duras leis anti-anarquistas e execuções na França e na Espanha. Ainda assim, longe de um fenômeno marginal, essa primeira ameaça terrorista internacional teve ramificações profundas no desenvolvimento mais amplo dos direitos humanos, bem como do policiamento moderno global e da legislação internacional em extradição e migração. Uma rede transnacional de jornalistas, advogados, ativistas sindicais, anarquistas e outros dissidentes relacionaram a tortura peninsular à supressão brutal das revoltas coloniais em Cuba e nas Filipinas pela Espanha para criar um movimento emergente por direitos humanos contra o “renascimento da inquisição.” Seus esforços definitivamente obrigavam a monarquia a aceder face a um criticismo global sem precedentes.

Bray apresenta vividamente os assassinos, ativistas, torturadores e mártires cujas lutas prepararam o terreno para uma era até então não examinada de mobilização pelos direitos humanos. Ao invés de assumir que lutas por direitos humanos e “terrorismo” são forças inerentemente contraditórias, The Anarchist Inquisition analisa como esses dois fenômenos políticos modernos trabalharam em conjunto para construir campanhas dinâmicas contra as atrocidades espanholas.

“Tão fascinante quanto sério, o conto emocionante de Mark Bray da violência anarquista lendária em Barcelona e Paris acerca de 1900 considera uma questão urgente: jogar bombas pode ser entendido como defesa dos direitos humanos contra a violência do Estado?” – Michael T. Taussig, autor de My Cocaine Museum

“Mark Bray é um dos estudiosos do anarquismo mundialmente preeminentes e não há alguém melhor para acender uma luz nesta escuridão, um capítulo sangrento — ainda que esperançoso — no complexo tradicional esquerdista e na evolutiva história global.” – Kim Kelly, autora de Fight Like Hell

The Anarchist Inquisition é uma história narrativa admirável, contada com detalhes emocionantes, e um desafio essencial para discursos entrincheirados sobre direitos humanos. Neste momento de nacionalismos calcificantes, Bray chama nossa atenção para a história anarquista de um internacionalismo potente, o que faríamos bem em recuperar.” – Natasha Lennard, autora de Being Numerous

The Anarchist Inquisition
Assassins, Activists, and Martyrs in Spain and France
Mark Bray
ISBN13: 9781501761928
Data de publicação: 15/03/2022
Páginas: 344
Ilustrações: 18 p&b meio-tom, 2 mapas
Dimensões: 6 x 9 x 1.06 in
Cornell University Press
$36.95
cornellpress.cornell.edu

Tradução > Sky

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/07/18/lancamento-antifa-o-manual-antifascista-de-mark-bray/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/02/28/eua-lancamento-educacao-anarquista-e-a-escola-moderna-um-guia-para-francisco-ferrer/

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É quase noite –
As cigarras cantam
Nas folhas escuras.

Paulo Franchetti

[Itália] 8 de dezembro de 2021. Um dia de festa e luta.

Em 8 de dezembro deste ano, a neve caiu fortemente, mas não parou um movimento que foi capaz de cerrar os dentes e continuar por décadas. Éramos muitos na procissão que depois de atravessar o centro da vila rumamos para a guarnição dos Borgones, que o alcaide quer destruir, construindo uma estrada inútil com o dinheiro das indenizações recebidas pelo Tav [trem de alta velocidade].

A guarnição Bourgogne nasceu na primavera de 2005. Todos nos lembramos daquele dia, porque foi o primeiro teste de um movimento que ainda não tinha consciência de sua própria força, de sua capacidade de passar do relatório a uma ação direta.

Eles tiveram que fazer um levantamento preliminar da obra, mas apesar do deslocamento massivo de forças, havia muita gente naquela área, a maioria deles habitantes do país que permaneceram a guarnecer sem parar por dias e noites. A polícia nunca voltou, mas a guarnição continua lá para testemunhar, com as suas quatro paredes de madeira, uma luta popular que conseguiu envolver países inteiros indo muito além das melhores expectativas.

A procissão então passou do centro de San Didero e terminou na guarnição de Baraccone.

Aqui tudo começou com bolas de Natal e festões nas cercas, e então continuou com ganchos e cordas para puxar metros e metros de arame farpado, enquanto bolas de neve congeladas voavam por cima da cerca. Um verdadeiro cerco ao canteiro de obras/forte militarizado de San Didero.

A polícia disparou canhões de água contra grupos do No Tav, que de todos os lados, protegidos por barreiras de plástico instáveis, avançavam em ondas quase contínuas.

Começou então a habitual barragem de gás lacrimogêneo, também disparado na praça, onde se distribuía vinho quente e castanhas torradas. Muitos gases lacrimogêneos foram devolvidos ao remetente, outros se afogaram na neve. Um 8 de dezembro de festa e luta.

Na memória das pessoas que lutam contra o Tav, dezembro de 2005 é um marco. Entre Novembro e Dezembro ocorreu uma epopeia de luta que atingiu o coração de muitos. Um movimento popular decidiu resistir à imposição violenta de uma obra inútil e devastadora e, apesar de ter quase todos contra, conseguiu sitiar as tropas de ocupação construindo a República Livre de Venaus. Após o despejo violento, o movimento assumiu um claro caráter insurrecional por alguns dias: todo o Val Susa se barricou contra o invasor. O dia 8 de dezembro foi um feriado. A manifestação, após uma breve escaramuça no cruzamento onde a polícia esperava os manifestantes, transformou-se numa marcha que, depois de subir a montanha, desceu em direção à zona ocupada enquanto a neve caía ligeiramente. Os caminhos em declive estavam encharcados de gelo e lama, mas ninguém parou. As redes caíram e as tropas foram convocadas.

Em 2011 – após o rigoroso inverno dos treinos – eles voltaram, muito mais agressivos do que em 2005.

O estado não pode se dar ao luxo de perder duas vezes no mesmo lugar.

O aparato repressivo feito de gás, cercas de cerveja, cassetetes e tortura se desdobrou com toda sua força. O judiciário entrou em campo com a perna esticada. Existem inúmeros julgamentos e condenações envolvendo milhares de ativistas do No Tav.

O governo e o judiciário não lidaram com a resistência do No Tav.

Este ano, após a evacuação da guarnição da garagem de San Didero, eles montaram um gigantesco aparato policial para transformar a área em um forte militarizado, cercado por arame farpado e fortemente iluminado por faróis gigantescos. Lá dentro, como em Chiomonte, soldados, carabinieri, polícia.

Várias aldeias do vale foram declaradas áreas de interesse estratégico, zonas vermelhas, onde o prefeito tem o direito de proibir a passagem à vontade.

Mas não é só uma questão de trens. Na fronteira, aberta para quem tem dinheiro, mas fechada para quem viaja, há quem luta contra as linhas do mapa que os homens armados transformam em barreiras difíceis de transpor. Alguém morreu na neve, outro foi deportado, mas as coisas teriam sido piores se não fosse por alguém que atrapalhou.

Pessoas como Emilio, que agora está trancado em uma prisão a centenas de quilômetros de seu vale, mas que muitos trouxeram consigo em sua marcha sob a neve.

O que aconteceu naquele outono de 2005 em Val Susa foi a força vital para os movimentos espalhados pela península.

O cancelamento de um projeto que já havia entrado na fase executiva mostrou que vencer é possível, que o que aconteceu naquele canto da montanha pode se repetir em qualquer lugar.

Não somente. A poderosa onda de solidariedade que varreu o No Tav surgiu da indignação. Uma indignação profunda, que atravessou a península e passou os Alpes, porque muitos pensaram que a medida estava cheia, que o que se passava no Val Susa dizia respeito a todos.

Hoje vivemos tempos difíceis, muito difíceis. Tempos marcados pela violência do Estado contra os movimentos de luta, os imigrantes e os pobres.

Muitas vezes, a grande fábula da democracia derreteu como neve ao sol. Sempre que a liberdade, a solidariedade, a igualdade são compreendidas e praticadas na sua alteridade radical e constitutiva com uma ordem social baseada na dominação, na desigualdade, na exploração, na mais feroz competição, a democracia mostra a sua verdadeira face.

A verdadeira democracia admite a dissidência, desde que seja uma opinião ineficaz, um mero exercício de eloquência, um simples jogo de palavras. Se a dissidência se torna ativa, se a ação direta é tomada, se corre o risco de explodir as regras de um jogo feroz, a democracia torna-se um discurso de poder que nega legitimidade a todas as outras palavras. A cada pedido, você quebra o atual.

O movimento No Tav, nas barricadas e nos caminhos da luta, tem lutado e lutado na consciência de que nossas vidas e nossa liberdade contam mais do que os lucros de quem enriquece, explorando, devastando e saqueando um planeta inteiro. O movimento No Tav nos mandantes e nas repúblicas livres colocou a solidariedade, o cuidado mútuo, a consciência de que um outro mundo começa a crescer dia a dia entre aqueles que optam por atrapalhar, não desviar o olhar, de quem sabe chegar indignado e agir.

Passada a enésima ilusão eleitoral, os No Tav têm consciência de que o jogo, hoje como em 2005, está de volta às mãos de um movimento popular que nunca desistiu.

É importante que a memória não vacile: os No Tav têm apoiado a prática da ação direta contra o canteiro de obras e as empresas colaboracionistas, os bloqueios de estradas e ferrovias, a greve geral, as grandes marchas e sabotagens.

Parar o Tav, obrigar o governo a retomar uma decisão nunca partilhada pela população local é a razão de ser do movimento No Tav.

8 de dezembro de 2005 foi o culminar da revolta contra o TAV. Mas, mesmo então, havia muito mais em jogo: a liberdade e a dignidade daqueles que não toleravam a imposição com a força de uma escolha não compartilhada.

Ninguém planejou, mas aconteceu. Fomos os primeiros a ficar maravilhados. As barricadas, os troncos no meio da estrada, os bloqueios de estradas foram a resposta à ocupação militar.

O vale tornou-se ingovernável.

O Vale deve voltar a ser ingovernável.

Longos anos de ação direta, confronto horizontal, construção de caminhos compartilhados de tomada de decisão têm sido um campo de treinamento extraordinário para a liberdade. Todos nós carregamos Venaus e Madalena em nossos corações, na memória viva de nosso movimento. Repúblicas livres, verdadeiras comunas libertárias, onde a hierarquia foi quebrada, trazendo à vida um outro tempo.

O futuro não está delegado: hoje, como então, só a ação direta, sem retrocessos, pode criar as condições para mais uma vez deter a corrida louca de quem coloca o lucro antes da vida e da liberdade de todos.

Federação Anarquista de Torino

Para ver uma galeria de imagens acesse www.anarresinfo.org

Fonte: https://umanitanova.org/8-dicembre-2021-un-giorno-di-festa-e-di-lotta/

Tradução > GTR@Leibowitz__

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agência de notícias anarquistas-ana

escreve
a tinta se esvai
o mar se expande

Seferis

Declaração da ABC-Belarus sobre a situação com Dzmitry Z.

Em 5 de dezembro, houve uma tomada agressiva da ocupação Sirena em Varsóvia; a razão para tal foi a tentativa de tirar Dzmitry Z. da ocupação. Z. vivia ali por cerca de cinco anos e o duradouro conflito interno da ocupação escalou em violência e ameaças de violência do Z. Durante uma discussão pública extensa dos incidentes, uma decisão coletiva foi feita para despejá-lo, da qual foi informado com antecedência e dado tempo para coletar seus pertences e encontrar um novo local para ficar, mas ele se recusou a mudar voluntariamente. Foi então forçado para fora do prédio, e sua parceira teve a oportunidade de juntar seus pertences e deixar o local quando estivesse pronta. Mais tarde, uma multidão armada veio da ocupação vizinha Przychodnia e atacou os e as residentes da Sirena, forçados a sair por medo, por sua integridade física e saúde.

É importante mencionar que Dzmitry Z. foi um prisioneiro que apoiamos no passado. Em 2013, houve uma briga coletiva com ativistas de extrema direita em Brest, depois da qual três pessoas foram condenadas, incluindo Z. Ele foi solto em 2016 e foi para Varsóvia. Seu passado, assim como o tópico delicado de Belarus e do grande número de refugiados políticos que chegaram na Polônia em 2020-2021, foi usado para criar uma imagem em torno de Z. como um mártir oprimido por ativistas poloneses privilegiados.

Como um coletivo político, estamos cientes da responsabilidade que a ABC tem em apoiar os reprimidos. Durante esse período de Z. no cárcere, visitamos mais de 100 cidades na Europa, divulgando seu caso, chamando atenção à brutalidade policial, distribuindo várias declarações e chamados por solidariedade na comunidade internacional e dando nosso melhor para adicioná-lo à lista internacional de antifascistas encarcerados para que seu nome aparecesse no contexto de repressão e apoio, entre outras ações. Tudo isso dá a qualquer pessoa em situação de cárcere uma certa reputação, e não podemos sempre confirmar as visões políticas e métodos de ativistas em particular, assim como não podemos prever como essas pessoas se comportarão após sua soltura.

Contudo, vale reconhecer que a publicidade que criamos ajuda essas pessoas a usar a infraestrutura política dos movimentos anarquistas e relacionados. Torna-se muito mais fácil sua migração, uma recepção amistosa em ocupações, auxílios de grupos anti-repressão. Não estamos dizendo que Dzmitry Z. foi integrado apenas pelos esforços da ABC, mas não podemos negar que o apoio da ABC tem um papel em como ativistas reprimidos de Belarus são percebidos dentro do movimento.

Estamos especialmente com raiva do fato de que algumas vezes esses “ativistas” vêm e tomam espaços políticos locais que emergiram como resultado da luta do movimento local, o que bielo-russos reprimidos não têm a ver, mas apenas usufruem dos produtos dessa luta e se consideram no direito de decidir seu futuro, sob o pretexto de sua “opressão”.

Não há solução fácil para esse problema. Podemos apenas estimular ativistas a não formar imagens de briguentos agressivos antissistema dos migrantes de Belarus. Qualquer pessoa é digna de confiança quando a conseguem em interação direta com novas pessoas.

Condenamos o comportamento do Dzmitry Z. e seu grupo de apoiadores.

ABC-Belarus (Cruz Negra Anarquista)

abc-belarus.org

Tradução > Sky

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agência de notícias anarquistas-ana

Vamo-nos, vejamos
a neve caindo
de fadiga.

Matsuo Bashô

“Os velhos muitas vezes são esquecidos pela juventude na nossa sociedade, isso se reflete em muitos grupos sociais, e também em ambientes que se dizem libertários.”

Entrevista com Marcolino Jeremias sobre anarquismo e o livro “Carlo e Anita Aldegheri”

Disponível para leitura na íntegra a entrevista que o Carlos Lopes fez com um membro do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA), onde falaram sobre o livro “Carlo e Anita Aldegheri: Vidas Dedicadas ao Anarquismo” e outros temas ligados ao anarquismo e a questão social.

Para quem ainda não conhece, Carlos Lopes (Dorsal Atlântica), além de excelente músico, letrista, desenhista e jornalista (um verdadeiro “faz-tudo” da cultura brasileira), desenvolve várias iniciativas artísticas fascinantes, entre elas a Revista Tupinambah (surgida em Brasília, em Julho de 2018), que é uma publicação independente, com excelente qualidade gráfica e estética, mas o que mais chama a atenção na Revista é mesmo o seu conteúdo magnífico que mistura quadrinhos, antropofagia, história, política e espiritualidade. Um dos seus slogans é “O Brasil repensado, refletido e desnudado”. O seu editor afirma: “A causa indígena é de todos nós!” e, especialmente nos dias de hoje, precisamos reafirmar isso sempre e cada vez com mais ênfase!!!

Essa entrevista que agora está disponível para a leitura no link abaixo, foi publicada originalmente no segundo número da Revista Tupinambah, cujo tema central é a história sobre o Estado de Exceção em Brazilândia (Verdade ou Ficção?), além de matérias sobre Sérgio ‘Macaco’ de Carvalho e Apolônio de Carvalho, além de dois pôsteres coloridos. A arte tem uma função que é sempre questionadora: “Milhares de mortos pela ignorância, a negação e o ódio tomaram conta de almas e mentes, cabe aos conscientes tomarem o destino em suas mãos” (Revista Tupinambah). # Importante: A Revista Tupinambah é contraindicada em caso de suspeita de intolerância artística!!!

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

http://tupinambah.com.br/entrevista-com-marcolino-jeremias-sobre-anarquismo-e-o-livro-carlo-e-anita-aldegheri/?fbclid=IwAR24A6JcoJew6xHK5TN05YJKemHXfYMAscWkH_-ct7ZYu9M5MGZb2WWRXJ4

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A noite caminha.
No negrume, o vaga-lume
acende a bundinha.

Flora Figueiredo

Anarquia no Reino Unido? O poder transformador do apoio mútuo

Por Rachel Shabi | 24/11/2021

As organizações hiper locais criadas durante a pandemia eram grupos políticos – mas não tinham intenção de substituir a ajuda estatal

Pergunte a qualquer integrante do grupo de apoio mútuo contra a Covid de Whalley Range, ao sul de Manchester, sobre seu maior motivo de orgulho e duas respostas aparecem: o fundo emergencial e o mutirão épico de limpeza das ruas. Não é difícil entender por quê. A transformação das ruas sujas que cruzam os terraços da vizinhança foi um ato de poder coletivo. Já o fundo, que conta com a contribuição de todos, permite que qualquer membro do grupo saque £50 em dinheiro todo mês, sem perguntas. Ambos os projetos sedimentaram a confiança e o senso de responsabilidade entre o grupo de 100 vizinhos.

Espalhado por três ruas na região sul de Manchester, esse grupo é o suprassumo da versão hiper local do apoio mútuo. Os integrantes são das mais diversas origens: locatários e proprietários, com idade variando entre 20 e 70 anos. No bairro, moram uma comunidade paquistanesa e uma família sudanesa. Os folhetos são traduzidos para o urdu, o hindi, o árabe e o guzerate, enquanto outros integrantes usam aplicativos de tradução online para participar das conversas no grupo de Whatsapp do bairro.

O foco inicial do grupo era suprir as necessidades imediatas durante os primeiros meses da pandemia, como ajudar com as compras, buscar receitas médicas ou compartilhar informações confiáveis sobre a Covid. De lá para cá, o escopo aumentou: hoje os integrantes compartilham alimentos e festivais, fazem rodízio de ferramentas DIY, cultivam um jardim comunitário e reúnem-se para discutir questões como os senhorios inescrupulosos e os motoristas que desrespeitam os limites de velocidade. Quando encontrei alguns integrantes do grupo, uma delas, Helena, de 50 anos, disse: “Quando vizinhos se falam, um quinquilhão de milagres inesperados acontece.”

Enquanto pesquisadores e militantes estudam o fenômeno do apoio mútuo no Reino Unido durante a pandemia, permanece a dúvida sobre o seu significado político. Semanas após o primeiro lockdown, em março do ano passado, a Grã-Bretanha viu surgir um dos maiores esforços de apoio mútuo do mundo, com mais de 4 mil grupos criados por todo o país. O acontecimento em si foi político, e é um reflexo terrível do vácuo que o apoio estatal deixou, e que os grupos voluntários se apressaram em preencher. A pandemia foi devastadora para quem não tinha caixas de papelão estocadas, nem economias ou redes de apoio. Rees Nicholas, integrante do pequeno grupo que montou o site Mutual Aid UK para contribuir com as organizações locais, me disse que no início da pandemia mais de 600 pessoas em dificuldade enviavam mensagens ao site todos os dias.

O apoio mútuo é, por definição, político. O anarquista russo Piotr Kropotkin cunhou o termo para descrever o fenômeno das comunidades que ajudavam umas às outras. As sociedades prosperam por meio do coletivismo. O trabalho voluntário de apoio mútuo geralmente vem acompanhado do slogan “solidariedade não é caridade”. Em contraste com o setor filantrópico, em que há um doador (a entidade filantrópica) e outro que recebe a doação, o apoio mútuo opera em sentido horizontal, de ajuda recíproca. Especialmente nos EUA, a tradição do apoio mútuo está enraizada entre a população negra e as minorias étnicas, nos grupos LGBT e em grupos de imigrantes, comunidades marginalizadas que não têm como depender do apoio estatal.

Quando a psicóloga política Emma O’Dwyer, da universidade de Kingston, começou a pesquisar os grupos de apoio mútuo contra a Covid na Grã-Bretanha, descobriu que a maioria dos voluntários era de mulheres, de classe média, e de esquerda. Mas em todo o país, muitos grupos evitaram qualquer tipo de discussão política, numa tentativa de estimular a inclusão. Política com “P” maiúsculo pode ser alienante e é algo malvisto por muita gente. Integrantes dos grupos em Whalley Range insistiram em se declarar não politizados. Uma mulher de 39 anos me disse que, na verdade, os objetivos do grupo eram “o amor, a gentileza e a ajuda mútua”.

Mas o problema de diluir a política é que a direita prontamente coopta o apoio mútuo como um esquema para repassar mais responsabilidades estaduais para o setor voluntário.

Ano passado, Danny Kruger, deputado do distrito de Devizes pelo Partido Conservador, lançou a Nova Unidade de Aliança Social, relacionando o discurso do governo sobre “equalização” ao surgimento dos grupos de apoio mútuo durante a pandemia. Mês passado, a Unidade publicou um relatório sobre “conservadorismo comunitário” que foi defendido pelo novo secretário de equalização, Michael Grove. O relatório classifica as milhões de pessoas que ingressaram em grupos de apoio mútuo como parte de um “núcleo cívico” cujo empoderamento seria “a conclusão lógica do Brexit”. Com o silêncio do Partido Trabalhista sobre o tema, o governo parece empenhado em transformar a onda de coletivismo em uma força Conservadora.

Voluntários com quem conversei dizem que, em vez de tampar as lacunas deixadas pela negligência do estado, o objetivo dos grupos é pressionar o governo a reduzir essas lacunas. Mas como a extraordinária rede de apoio mútuo da Grã-Bretanha se transformaria em uma força capaz de tanto? O primeiro passo é garantir que o apoio mútuo continue a florescer depois da pandemia. Nicholas diz que muitos dos grupos que permanecem ativos adotaram um modelo de caridade, como um grupo de Londres que é financiado por uma loteria, que arrecada laptops e celulares para imigrantes. Outros grupos se voltaram para necessidades de longo prazo. Um grupo de Newcastle administra uma despensa comunitária, permanente abastecida, que distribui comida de graça. Mas a permanência do grupo de Whalley Range sugere que a comunidade pode ser autossustentável, e uma necessidade em si. Se a esquerda tem dificuldade para encontrar apoio nas regiões devastadas pela desindustrialização e em dificuldades econômicas, talvez estas novas comunidades possam ajudar a abrir terreno.

Sejam politicamente articulados ou não, muitos voluntários dizem que o apoio mútuo mudou suas vidas. Participar de uma ação coletiva é algo poderoso e tem seu próprio impulso. Como me disse Emma O’Dwyer, não há nenhum gesto importante em particular, se não o ato em si. Conseguir transformar o apoio mútuo em uma força progressiva capaz de renovar a esquerda, é outra história.

Fonte: https://www.theguardian.com/commentisfree/2021/nov/24/left-mutual-aid-hyper-local-groups-pandemic-community

Tradução > Peixe

agência de notícias anarquistas-ana

O brilho do salto
do peixe na cascata,
lâmina de prata.

Luiz Bacellar