Hypomnemata 302 (julho de 2026)

abolição da pena

O tribunal segue sendo um teatro macabro. 

Juízes, promotores, advogados e demais “técnicos” seguem protagonizando este espetáculo averiguador de culpas

Constantes subordinações e surpreendentes enfrentamentos se alternam nestes espaços criados pelos Estados. 

Por vezes, irrupções potentes se fazem ouvir. Na maioria das vezes, burocratas apenas dão continuidade às formalidades pútridas determinadas pelos regulamentos.

Insurgentes, xs anarquistas nunca temeram suas eventuais capturas e exposições a estas “tribunas”. Seja como acusadxs, seja como defensores libertárixs. 

Entre estxs últimxs, alguns poucxs se destacaram, usando estes espaços como ação direta,forma de estancar as impropriedades de acusações infundadas e, por vezes, explicitamente confessadas de libertárixs dispostxs a expor que governo é desordem, sangue e violência, e propriedade é roubo.

A ação direta pode ser uma propaganda pela ação, mas, a propaganda pela ação não é qualquer ação direta. Foi assim que mais tarde a ação direta virou propaganda pelo fato com os sindicalistas… 

um defensor libertário

Um dos raros defensores libertários e de libertárixs na passagem do século XIX para o XX foi Pietro Gori, anarquista nascido na Itália em 1865, mesmo ano da morte de Proudhon, atuante em memoráveis processos que revolveram aquele país em decorrência da emergência potente de atos insurgentes que impactaram a referida sociedade peninsular. 

No famoso processo dos 35 anarquistas de Gênova acusados de atentar contra “a propriedade e a ordem pública”, o próprio Gori, após ter sido absolvido do rol dos réus, ressaltou diante do tribunal: 

“Ora bem, Senhores Juízes, eu tenho vivíssimo empenho em declarar que se professar as ideias anarquistas é delito, se denunciar as iniquidades de uma civilização odiosa, se combater todas as formas de tirania e de exploração, então de todos esses fatos sou também culpado e fizestes mal em absolver-me”. 

Após seu longo e erudito discurso, os aplausos dos presentes no tribunal tentaram ser, em vão, reprimidos pelo juiz e uma calorosa multidão saiu pelas ruas aos gritos de “Viva os amados malfeitores!”.

Vale lembrar, Gori viveu pela América do Sul na ultrapassagem do século XIX. Seus escritos, sua prática, para além de um combate inicial ao tribunal, se espraiou para a cultura libertária por meio de inúmeros textos escritos para teatro. No Brasil, no início do século XX, Gori era um dos autores mais encenados por mulheres e homens ácratas. 

Gori também foi defensor de um inesquecível jovem insurgente.

Sante Caserio atentou, com sucesso, contra o presidente francês à época. Com 20 anos, ele demonstrou que a afirmação de Gori sobre sua precoce prisão apenas iria radicalizá-lo ainda mais, o que se mostrou como uma afirmação certeira.

Gori não o defendeu no processo relativo ao atentado, pois Caserio recusou a representação. Um advogado foi nomeado à sua revelia apenas para cumprir as formalidades, o que nos dias de hoje seria correspondente a um advogado dativo.

Diante do impacto daquela existência jovem e potente, Gori, que também era músico, compôs uma das mais belas canções anarquistas históricas, a Ballata di Sante Caserio, em que ressoam os versos: 

“Numa manhã sombria, aos vinte anos,

você entregou sua vida ao vento da guilhotina,

oferecendo sua alma grande e nobre ao mundo vil

enquanto bradava: “Viva a anarquia!”

memórias insurgentes

Libertárixs historicamente não precisaram de advogados para defenderem seus atos.

Ações diretas diante dos tribunais pelo planeta como as de Ravachol, Vaillant, Henry, Faure, Czolgosz, Kanno e Kaneko foram explícitxs ao escancarar diante de todas as hipócritas autoridades de ocasião, que seus atos eram respostas do que se convencionou chamar de sociedade

Ravachol foi proibido de ler sua “Defesa Proibida” perante o tribunal. Seu advogado o leu. Ravachol morreu à guilhotina bradando a inesquecível canção feita em sua homenagem. 

Vaillant sucumbiu gritando o “Viva a Anarquia” e “Morte à sociedade burguesa”. 

Henry afirmou seus atos diante do tribunal e escancarou o Estado e suas violências: “Vocês enforcaram em Chicago, decapitaram na Alemanha, garrotaram em Jerez, fuzilaram em Barcelona, guilhotinaram em Montbrison e em Paris, mas o que nunca conseguirão destruir é a anarquia”.

Faure, no Julgamento do 30, quando 30 libertárixs foram levados a julgamento sob acusação de associação criminosa, recusou a representação e a presença de um advogado. Destruiu todas as alegações do tribunal, finalizando o processo com a libertação de todxs. 

Czolgosz, antes de ser executado na cadeira elétrica, não se arrependeu de ter matado William McKinley: “Matei o presidente porque ele era o inimigo da boa gente — dos bons trabalhadores. Não lamento pelo meu crime”.

Kanno, diante do tribunal, após saber que seria enforcada por planejar uma ação direta contra o Imperador do Japão, afirmou sua vontade: “se eu retornar como um fantasma, existem inúmeras pessoas, começando pelo juiz da corte, que eu gostaria de aterrorizar. Seria maravilhoso ver a cara assustada desses imbecis e vê-los rastejar”. 

Kaneko, em julgamento, ao ser questionada pelo juiz sobre sua ocupação, respondeu: “demolir o que agora existe”. 

Nos dias de hoje, em que advogados burocratas são extensa maioria, o abolicionismo penal situa sua perspectiva no sentido de que a advocacia criminal é um meio estratégico de enfrentamento direto contra as práticas de encarceramento de penalizações alternativas, indispensável para obstruir as internações como meio para desativar as prisões. 

A abolição do tribunal também é uma urgência.

oportunistas hipócritas

Os liberais e neoliberais continuam sendo maioria nas chamadas maiores entidades da sociedade civil organizada e no regozijo dos pomposos e vaidosos “orgulhosos” de sua “honrável” função profissional. 

Apenas ridículos oportunistas que atuam sob a lógica empresarial do individualismo neoliberal e aderentes às inclusões que amplificam suas aceitações perante os que clamam por justiça. E há os que creem nesta ladainha, desde marxistas, esquerdistas, democratas sociais de inspiração estadunidense, centristas e, obviamente, os dissimulados conservadores e fascistas.

Fonte: https://www.nu-sol.org/blog/hypomnemata-302-julho-de-2026/

agência de notícias anarquistas-ana

Tarde ensolarada
Reflexo do sol nas árvores
Transmite paz.

Matheus Henrique Albano – 17 anos

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