O 8 de Janeiro no Brasil | A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto

Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes apoiadores do ex-presidente derrotado Jair Bolsonaro invadiram prédios do governo em Brasília, numa imitação grotesca do fiasco que os eleitores de Donald Trump fizeram na capital dos EUA, Washington, no 6 de janeiro de 2021 . No relato a seguir, camaradas no Brasil detalham a trajetória que levou a esses eventos e discutem o que antifascistas enfrentam por lá como consequência desses protestos.

Estas ações da extrema-direita brasileira coloca questões que anarquistas e outros antifascistas devem enfrentar em todo o mundo.

Quem está conduzindo os esforços da extrema-direita para escalar o conflito civil e transformar as instituições estatais em um campo de batalha? Embora muitos nos Estados Unidos tenham sugerido o envolvimento de Steve Bannon, o Brasil e a América Latina em geral têm uma longa história de golpes liderados por militares locais e forças de direita e apoiados por centristas e conservadores dentro do governo dos Estados Unidos. Ao contrário de Trump, o próprio Bolsonaro esteve ausente do Brasil durante o assalto aos prédios, tendo fugido antes do fim de seu mandato presidencial. Provavelmente é um erro reduzir esses eventos às maquinações de alguns autocratas.

Quem quer que esteja por trás da incursão, por que o desastre de 6 de janeiro de 2021 foi considerado bem-sucedido o suficiente para valer a pena ser repetido? O objetivo dos participantes era tomar o poder, exercer pressão sobre o novo governo ou provocá-lo a uma reação exagerada, legitimar táticas extralegais como um passo para a construção de um movimento fascista? Ou não há objetivo racional aqui, apenas os efeitos colaterais das estratégias de campanha dos demagogos de extrema-direita, a crescente polarização de uma sociedade fragmentada e a atração irresistível dessas táticas meméticas?

Como as populações marginalizadas que são alvo dos movimentos fascistas podem se mobilizar para se defender sem legitimar as mesmas instituições de Estado que tanto fascistas quanto centristas empregam contra elas? Como os anarquistas e outros que investem em mudanças sociais profundas podem impedir que os “rebeldes” de extrema-direita monopolizem a maneira como o público em geral vê as táticas que nós também precisaremos usar, embora em busca da libertação?

Esperamos que a seguinte contribuição ajude nossos camaradas a refletir sobre essas questões.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://es.crimethinc.com/2023/01/12/o-8-de-janeiro-no-brasil-a-escalada-fascista-do-capitolio-ao-planalto-1

agência de notícias anarquistas-ana

arco-íris no céu.
está sorrindo o menino
que há pouco chorou

Helena Kolody

Por que anarquistas votaram em 2022?

Durante a eleição presidencial brasileira de 2022 houveram alguns argumentos sobre porque anarquistas deveriam votar. Em 6 de setembro, a Jacobin Brasil publicou um texto chamado “Anarquistas em defesa do voto em Lula“, assinado por “Anarquistas mascarados” que se descreveram como “um grupo anarquista autônomo formado por radicais de vários lugares”. O texto foi respondido num outro texto publicado também na Jacobin Brasil, no dia 30 do mesmo mês, desta vez assinado por pesquisadores do Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA).

Em resumo, os “anarquistas mascarados” defenderam que o que impedia os anarquistas de votar era um “ideal de coerência” que precisava ser abandonado diante de uma ameaça fascista. Anarquistas brasileiros deveriam votar em 2022 por motivos semelhantes aos que fizeram os anarquistas espanhóis votarem nos anos 30. A resposta do ITHA foi uma defesa da coerência anarquista em oposição ao reformismo. Além de demonstrar que não se pode defender uma estratégia somente pelo que aconteceu no passado, os pesquisadores também argumentam que: “Se o anarquismo tivesse hoje uma força relevante a ponto de influenciar decisivamente essa eleição, a menor preocupação das classes dominantes seria com nossa ‘possibilidade’ de voto, mas sim com a ameaça real a esse sistema de dominação”.

Eu gostaria de expandir esse argumento agora que os ânimos eleitorais se acalmaram. Acredito que a abstenção eleitoral no sentido mais amplo pode ser pensada para além da questão da coerência com os princípios historicamente defendidos pelo movimento anarquista. O argumento principal a favor da não abstenção do voto foi que esta eleição não seria uma eleição normal, e sim uma eleição que definiria a sobrevivência da democracia e, por consequência, das populações periféricas. Se abster seria irresponsável.

Esse argumento parte do pressuposto de que a crítica à democracia representativa, mesmo sendo válida, precisa ser relativizada quando a própria democracia está em risco. Como se a abstenção fosse um capricho que só pode ser assumido em condições plenamente democráticas. Isso implica em pensar no voto como tendo um poder insubstituível e imprescindível. A abstenção seria uma perda de poder político, o equivalente a se isentar de uma esfera da ação política.

A crítica à democracia representativa não é exclusiva do anarquismo. Marxistas e pós-estruturalistas também a fazem. Embora seja um assunto “espinhoso”, não podemos deixar de discutir a crítica à democracia representativa, a crítica ao governo e a crítica à representação política numa sociedade de classes.

Outro argumento a favor do voto anarquista é que deixar de votar implica em desconsiderar a diferença entre a conciliação de classes e o fascismo. Novamente, esse argumento toma como pressuposto que o voto tem poder político real. Para que esse pressuposto possa ser aceito como verdadeiro, é preciso que o problema levantado pela crítica à representação política seja devidamente resolvido. Isso significa que devemos responder à problematização não apenas do voto de grupos minoritários, mas também do voto popular.

No texto “Cinco lições de história para antifascistas”, Mark Bray nos lembra que, historicamente, os fascistas chegaram ao poder pelas vias legais e que a esquerda partidária privilegia as vias legais como meio para combater o fascismo. “A essência dessa fórmula é a crença no debate racional para se contrapor às ideias fascistas, na polícia para se contrapor à violência fascista, e nas instituições republicanas para se contrapor às tentativas fascistas de tomar o poder”, diz ele.

O motivo pelo qual não é possível debater com fascistas é que eles rejeitam os termos do debate racio­nal por princípio. A principal condição tanto para a democracia quanto para um debate honesto é a igual consideração entre adversários, o que contradiz o princípio de superioridade que é fundamental para o fascismo. O poder político fascista se foca na mobilização irracional das massas, e não na reflexão crítica. A base do fascismo é o anti-intelectualismo, a teoria da conspiração, a negação da história, da ciência e do conhecimento verificável em nome de uma paixão coletiva. Embora essas características não sejam exclusivas da direita, historicamente houve uma estreita relação entre fascistas e a extrema direita, seja essa a direita conservadora ou neoliberal. Por isso o antifascismo é neces­sariamente anticapitalista. Enquanto houver sociedade de classes, diferentes formas de fascismo (ou neofascismo) permanecerão como opção em caso de levante popular contra a classe dominante.

A ideia de proteger a democracia por meio de um instrumento democrático parece contraditória. Se os inimigos da democracia não têm o poder de rejeitar uma decisão democrática, como poderiam ter o poder de colocar a democracia em risco? Se eles têm esse poder, então como o resultado de uma eleição poderia derrubá-los? O anarquismo historicamente argumentou que as pessoas comuns podem se organizar sem governos, e que isto não depende de condições especiais criadas pelo estado. Pode acontecer aqui e agora, e as dificuldades para isso não poderiam ser muito maiores do que as dificuldades de organizar uma campanha para eleger um candidato “do povo” em meio a uma onda fascista.

Desde sempre, os anarquistas criticaram o governo e privilegiaram outras formas de organização política, como a organização comunitária, apoio mútuo, autogestão e ação direta. Entre essas pessoas estão Michael Bakunin, Peter Kropotkin, Lucy Parsons, Emma Goldman, Élisée Reclus, Errico Malatesta e Voltairine De Cleyre.

O ponto central é que se o voto tivesse algum poder real enquanto ação política, então ele não seria permitido numa sociedade com estado. O estado só pode aceitar o voto da classe trabalhadora na medida em que a mantém sob controle, seja pelo monopólio do uso da violência ou pela ideologia dominante. A práxis da abstenção se baseia na revolta contra o voto enquanto mecanismo de controle do poder popular. O poder político numa democracia representativa não é de fato concedido a uma maioria, nem sequer no campo restrito das eleições. Ele permanece sendo de uma minoria capaz de influenciar a maioria ou reprimi-la caso não aceite sua decisão. A eleição, nesse sentido, não dá poder ao povo. Ela apenas justifica a perda de poder político ou perda de autonomia que é inerente ao governo. Anarquistas em geral enxergam as eleições como um espetáculo criado para fazer o povo crer que tem um poder que na realidade não tem, e assim conceder seu poder a representantes que não o representam.

Logo, para argumentar não apenas a favor do voto anarquista, mas do sentido político do voto em si, seria preciso mais do que demonstrar as diferenças entre dois projetos políticos. Se o fascismo pode de fato ser derrubado pelo voto, então temos apenas duas opções:

  1. A crítica à política representativa está fundamentalmente errada. Isso significa que a abstenção nunca fez sentido. De Bakunin a Voltairine, todo mundo que criticou o voto estava ERRADO, dado que estavam se abstendo de um poder político real.
  2. Que certas condições específicas não permitem aplicar as mesmas estratégias defendidas historicamente pela crítica à representação política, e nessas condições não resta nenhuma outra saída viável senão a eleição de outro governante.

A primeira opção exige uma validação definitiva da política representativa, o que implica numa reconsideração completa da crítica a essa teoria política.

A segunda opção não compromete a teoria como um todo, mas exige a demonstração de um fato. Que condições justificam o voto como ação antifascista? Se a crítica à representação precisa ser deixada de lado em condições específicas, então o voto só tem poder real nessas condições específicas? Se isso fosse verdade, então não apenas anarquistas deveriam votar, como antifascistas também deveriam se candidatar e debater com candidatos fascistas, como exigem os valores democráticos. Afinal, se o voto anarquista faz sentido num certo contexto, a candidatura anarquista também faria. Essa opção exigiria uma reconsideração completa das práticas anarquistas e antifascistas.

A análise comum da própria esquerda partidária é que a democracia se encontra em crise. Mas se o voto anarquista não era tão necessário quando a democracia estava mais forte, porque seria agora que a democracia se enfraquece? O contrário pareceria mais provável: o voto teria ainda menos poder quanto maior for a crise das instituições democráticas.

A afirmação de que o voto é mais importante nas atuais condições precisa ser demonstrada com evidências. Se for demonstrada a importância estratégica concreta de uma candidatura de resistência, então o debate se encerra: não faria sentido abster-se da política eleitoral nessa situação só por ser anarquista, e não faria sentido para antifascistas deixarem de se candidatar só porque isso exige que eles debatam com fascistas. Isso não é algo pequeno: um argumento contundente a favor do voto não poderia ser ignorado, e uma candidatura anarquista, assim como o debate com fascistas, se tornaria coerente nessas condições.

Mas onde, exatamente, estão essas evidências? Deixemos de lado a questão da coerência teórica levantada pelo ITHA por um momento. Apenas me mostre evidências de que o voto, normalmente sem poder real, adquire poder real quando fascistas se candidatam. “Tirar o fascista do poder” não é possível por meio do voto a não ser que o voto efetivamente seja capaz de eleger alguém que não apenas não é fascista, como tem poder para governar APESAR da ameaça fascista. O que temos são evidências de que o fascismo permanecerá no poder independente do resultado das eleições, principalmente se o governo eleito permanecer negociando com ele.

Outro argumento bastante usado para defender o voto anarquista é o de que precisamos “escolher nossos oponentes”. Obviamente, esse argumento também parte do pressuposto de que o voto é um instrumento do povo para mudança política, mais do que das classes dominantes. Este argumento recai nos mesmos problemas apontados no argumento anterior.

É possível argumentar pelo poder simbólico do voto. Mas aí não se pode negar também o poder simbólico da abstenção. Além disso, o pressuposto de que a política representativa é válida, desde sempre ou numa determinada condição, precisa demonstrar que a abstenção é uma perda de poder, e não uma outra forma de poder. Partindo do pressuposto de que o poder representativo nem sempre existiu, é quem acredita no voto que precisa demonstrar que ele tem poder real. Exigir que a pessoa que não vota demonstre que ela exerce outras formas de poder é uma inversão do ônus.

Pedir que anarquistas votem é como pedir que ateus orem. Ateus podem participar de uma oração sem necessariamente acreditar em Deus. Anarquistas podem votar sem necessariamente acreditar no poder real do voto. Podem votar por conveniência, por exemplo, ou apenas para não serem excluídos de um grupo social. O voto anarquista não pode combater o fascismo se a política representativa em si é um problema. A abstenção não perde o sentido quando o fascismo avança, pelo contrário, ela se torna ainda mais poderosa como afirmação de que o fascismo não vem de uma pessoa ou de um governo específico, mas de uma estrutura política dominante. São as ações antifascistas que realmente combatem o fascismo.

Ao invés de uma bifurcação entre democracia representativa e fascismo, temos uma complementaridade. A oposição ao fascismo não necessariamente exclui a crítica radical à democracia representativa.

Se for demonstrado que o voto anarquista é, excepcionalmente ou não, uma ação significativa para combater o fascismo, não há motivo nenhum para anarquistas deixarem de votar. Mas se isso não for demonstrado, não faz sentido nenhum votar, sendo você anarquista ou não. Os argumentos que eu conheço, sem exceção, partem do pressuposto que o voto tem poder. Eles nunca demonstram que esse poder é real, porque isso sequer é colocado em questão para a maioria das pessoas.

Por exemplo, a afirmação de que a abstenção é um privilégio de quem não está diretamente ameaçado pelo regime fascista pressupõe o que deveria ser demonstrado: que as vias legais são eficazes para nos proteger contra o fascismo. Não faz sentido votar em nome da “esperança” de um futuro melhor se essa esperança não tem conexão com a realidade. Se ela é somente uma crença num fato não verificável, não faz sentido tentar convencer outra pessoa a crer. E se há um fato verificável, basta apresentar o fato.

A validade da abstenção como estratégia política é real até que se prove o contrário, pois o ônus da prova cabe a quem afirma a validade da política representativa em relação à que prevaleceu desde sempre: uma política sem representação, de relações diretas e autônomas. A crítica à política representativa precisa ser respondida com argumentos válidos, ou então o que se pede não é apoio político contra o fascismo e sim uma crença dogmática na política representativa. Sem uma demonstração de equívoco ou limitação da crítica à representação política, também não é possível invalidar a tese de que a participação em ações diretas antifascistas é mais relevante do que a participação em processos eleitorais, e que a escolha de não votar não representa necessariamente uma perda de poder político, mas uma escolha por outras formas de exercer poder político.

Contraciv

agência de notícias anarquistas-ana

fecho um livro
vou à janela
a noite é enorme

Carol Lebel

Nos vemos em 2023!

Vamos fazer uma pausa, retornaremos às nossas postagens no dia 1° de fevereiro de 2023. LIVRES e SELVAGENS!!!

agência de notícias anarquistas-ana

Primeiro sonho do ano —
Sem contar a ninguém
Sorrio em silêncio.

Shô-u

[Espanha] A anarquia não é utopia

Habitualmente as duas ideias mais difundidas e equivocadas sobre o que é a anarquia são as seguintes. A primeira é a que concebe a anarquia como caos, desordem, violência, etc. e que unicamente reflete o desconhecimento de uma filosofia política que propõe um modelo de sociedade sem governo, baseado em uma convivência não forçada. A segunda é que a anarquia constitui uma utopia social e, portanto, uma aspiração muito desejável mas impossível de alcançar. As razões que se expõe para sustentar este ponto de vista são das mais variadas, e não são motivos de atenção neste artigo. Só cabe destacar que inclusive entre alguns anarquistas está bastante difundida a ideia de que a anarquia é uma utopia, algo que no fundo reflete uma falta de confiança na viabilidade do tipo de sociedade que propugnam.

Pelo contrário, neste breve texto se pretende demonstrar que a anarquia não é uma utopia, mas que sim é uma realidade tangível que é suscetível de ser difundida mais além dos âmbitos nos quais hoje permanece circunscrita, e passar a definir assim a ordem de uma sociedade sem governo nem relações de poder. Para demonstrar isto se propõe desenvolver uma análise em três níveis diferentes da realidade: o do indivíduo e das relações interpessoais; o da sociedade; e o da esfera internacional.

A anarquia significa a ausência de uma autoridade superior que regule e supervisione as relações das pessoas e os coletivos humanos, de forma que ditas relações se desenvolvem através do mútuo consentimento e a livre associação em um contexto de ausência de coerção. São relações nas quais não existe o poder, entendendo por poder qualquer relação social baseada na força ou na ameaça possível de utilizar a força para conseguir um determinado resultado no comportamento dos demais que de outro modo não se produziria.

No nível do individuo a anarquia está muito presente. Esta se manifesta nas relações interpessoais, tal e como ocorre com os laços de amizade, as relações afetivas no casal, o companheirismo no âmbito acadêmico, profissional, esportivo, etc., as relações de vizinhança e, em geral, em todas as relações que o individuo mantêm com outras pessoas de forma voluntária. Estas relações não estão supervisionadas nem reguladas, e a pessoa pode iniciá-las e finalizá-las quando achar oportuno. Neste sentido pode falar-se de anarquia no marco das relações interpessoais.

Certamente estes tipos de relações estão limitadas pelo contexto político e sociocultural no qual se desenvolvem. Assim, em Estados totalitários ou teocráticos, como China ou Irã, o controle sobre as relações interpessoais é maior devido às características destes regimes. Isto contrasta com os sistemas liberais democráticos onde o intervencionismo é menor, apesar do qual o Estado tenta monopolizar estas relações através de seus regulamentos, para o que promulga inumeráveis leis que abarcam todos os âmbitos da vida humana. Em outros contextos nos quais o Estado é débil ou tem pouca presença são outros atores os que desempenham um papel dominante como sucede com máfias, tribos, caciques, religiões, grupos armados, etc.

No nível da sociedade cabe dizer que a anarquia esteve mais presente no passado que na atualidade. Os exemplos de grupos humanos relativamente extensos que se organizavam em ausência de governo são muito numerosos, e existe conhecimento disto graças aos estudos antropológicos e etnográficos. Pedro Kropotkin deu devida conta deste fenômeno ao examinar as sociedades primárias em sua obra “O apoio mútuo”. Mas junto a seu trabalho estão as investigações de outros autores que abordaram casos concretos. Alguns exemplos são as investigações de David Graeber em Madagascar, as de Harold Barclay no Sudão, as de Pierre Clastres na Amazônia, as de James Scott no sudeste asiático, as de Brian Morris na África central e o sul da Ásia, etc. Ao fim e ao cabo não há que esquecer que o ser humano viveu a maior parte de sua existência em ausência de governos e Estados, pois estes são uma criação relativamente recente.

Atualmente todas as sociedades vivem dentro do território de algum Estado. Apesar disto existem sociedades primárias que têm uma existência à margem das regulações que impõem as autoridades estatais. Isto sucede em alguns lugares da América do Sul, África e Ásia. No entanto, estes casos são a exceção devido ao enorme poder que concentram os Estados atuais graças aos recursos que conseguem extrair da sociedade, assim como pelos avanços tecnológicos a sua disposição. Em qualquer caso ainda persistem âmbitos nos quais, apesar da grande quantidade de regulações e ingerências burocráticas, a sociedade desenvolve atividades de um modo mais ou menos anárquico. Isto é o que acontece no terreno dos intercâmbios, sejam estes de caráter comercial ou de outro tipo quando se transacionam ideias, informação, bens, serviços, etc. Este tipo de interações costumam produzir-se de forma consentida nos termos acordados pelas partes.

Em último lugar se encontra o nível internacional. Neste âmbito não existe um governo mundial acima dos países que regule ou supervisione as relações que se desenvolvem entre estes. Na prática existe o que na disciplina de relações Internacionais se conhece como anarquia internacional. A anarquia opera aqui como um princípio ordenador devido à ausência de uma autoridade central. Isto não significa que o entorno internacional seja essencialmente caótico e desordenado, mas que se organiza de um modo no qual ninguém reclama, e ninguém reconhece tampouco, o direito a governar a todos os países do planeta.

A anarquia internacional não exclui a existência de normas internacionais que os países acordam entre eles, e cujo cumprimento depende exclusivamente de sua aplicação voluntária. Não existe nenhuma entidade superior com a capacidade e o direito de obrigar a um determinado país a cumprir ditas normas ou acordos subscritos. Este último só seria possível se um país ou grupo de países decidisse utilizar a força para obrigar a um terceiro a acatar ditas normas. Este tipo de cenário é pouco habitual, e o mais frequente é que se recorra a mecanismos de exclusão que impedem que quando um país não cumpre com as obrigações subscritas tenha acesso a determinados recursos, espaços de decisão e interlocução, etc. Portanto, o direito internacional é essencialmente voluntário, e unicamente vincula aos países na medida em que estes assim o desejam.

Por outro lado, as organizações internacionais são em sua totalidade instituições intergovernamentais nas quais as decisões são tomadas exclusivamente pelos países membros. Portanto, os órgãos executivos destas instituições carecem de poderes próprios e dependem em todo o essencial dos Estados membros que são os que estabelecem os mandatos sob os quais operam. As decisões que se tomam nestas instâncias costumam se concretizar em tratados, acordos, etc., que forma o direito internacional. Neste sentido as organizações supranacionais (ONU, UE, OTAN, OMC, FMI, etc.) não comprometem o caráter anárquico da esfera internacional.

À luz de tudo o antes exposto pode se concluir que a anarquia é uma realidade muito presente em diferentes níveis, o que demonstra que não se trata de uma utopia, apesar de que as condições nas quais acontecem a limitam consideravelmente. A existência de Estados, com seus correspondentes governos e instrumentos de dominação, constitui o principal impedimento para que a anarquia seja o princípio ordenador do conjunto da sociedade em todas as esferas da vida humana, tal e como propõe o anarquismo. No entanto, nada disto significa que a anarquia seja uma utopia, mas que, pelo contrário, é perfeitamente viável ao ser já parte da realidade.

As utopias são, em geral, um produto racionalista dos intelectuais completamente desconectados da realidade, o que explica em grande medida que sejam impossíveis de se materializar, ou que inclusive possuam um marcado caráter negativo que na prática as converte em distopias. A anarquia, pelo contrário, está apegada à vida ao manifestar-se nas práticas que articulam muitas relações sociais. O anarquismo unicamente da concretização teórica a esses aspectos anárquicos que estão imbricados na vida das pessoas e dos coletivos humanos, o que faz deste o farol da humanidade que ilumina o caminho para sua emancipação.

Esteban Vidal

Fonte: http://acracia.org/la-anarquia-no-es-utopia/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

no contorno do gato
um ponto negro no dorso
dorme –

Krzysztof Karwowski

[Espanha] Esta não é nossa guerra. Razões para a mobilização generalizada contra a guerra imperialista

Nos últimos meses estamos assistindo no leste da Europa a um confronto entre dois polos imperialistas em pugna por posições e recursos. A guerra na Ucrânia:

– Custou dezenas de milhares de vidas humanas desde fevereiro, produzindo morte, destruição e êxodo em sua passagem. Refugiados, exilados, mobilizações forçadas, desertores.

– A enorme mobilização militar está acelerando os graves problemas derivados da crise energética e eco-social à qual nos levou o capitalismo, o que repercute em altas de preços de produtos básicos que afetam (e afetarão mais) a amplas camadas da população.

– No Estado Espanhol, um Governo supostamente de esquerda vem desenvolvendo uma política claramente militarista, seguindo totalmente a linha da OTAN, encabeçada pelos EUA. Decisões perigosas que não respondem a outra coisa senão a manter os privilégios de sua oligarquia. O Governo da Espanha e a UE estão pondo em risco nossa vida para isso, pelas razões já mencionadas e por uma possível extensão do conflito. O chamado “Mecanismo Europeu para a Paz”, não é mais que um eufemismo para tapar a guerra. Aos olhos da sociedade civil, a rivalidade de ambos os lados se traduz em um exercício de avareza levado ao extremo em que os perdedores certos estão em ambos os grupos: mortos, mutilados, espoliados, vexados e empobrecidos. Guerra é oposto a Dignidade.

– Por outro lado, não podemos nos ver refletidos na defesa do Estado russo, ultraconservador e militarista que não respeita os direitos individuais e coletivos, que criminaliza o protesto e encarcera a dissidência. Aliado do Estado totalitário Chinês.

– É necessário pressionar na rua e nos centros de trabalho e estudo com o objetivo de eliminar o gasto militar e parar a guerra na Ucrânia e outras regiões do planeta.

Ante a situação atual vemos urgente gerar uma coordenação a nível do estado para:

– Promover mobilizações coordenadas para visibilizar uma crítica antimilitarista e anti-imperialista do conflito.

– Assinalar os responsáveis e estender a desobediência e o confronto frente à mobilização bélica de todos os estados.

– Boicotar as empresas que se beneficiam da guerra e nos opormos ativamente a qualquer envio de armas ou mercenários.

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

nadam no vento
como carpas douradas
folhas de bambu

Akatonbo

Festa de 90 anos do Centro de Cultura Social de São Paulo (SP)

No dia 14 de janeiro de 2023, o Centro de Cultura Social (CCS) de SP completa 90, sim, NO-VEN-TA ANOS!!! Isso merece uma celebração! Por isso, vamos abrir nosso salão para receber você que sempre andou com a gente, você que quer chegar junto, ou você que está perdido dando um rolê pelo centro! Convidamos todas as pessoas associadas ao CCS; os e as compas dos coletivos que sempre somam conosco; bem como as pessoas que frequentam nossas atividades, para que venham, no sábado, dia 14/01, às 15h, celebrar essa data.

Como toda boa festa, não pode faltar o apoio mútuo de cada um trazer algo para comer e/ou para beber. De preferência vegano ou vegetariano. E sinta-se à vontade para se expressar, trazer um poema, uma música, uma história que queira compartilhar. Ah! Vai ter bolo!

Viva o CCS-SP! Viva a anarquia!

Centro de Cultura Social

Rua General Jardim, 253, Sala 22, 2° andar – Vila Buarque – São Paulo – SP | Próximo ao metrô República

Site: ccssp.com.br

FB: facebook.com/CCSSP33

E-mail: ccssp@ccssp.com.br

agência de notícias anarquistas-ana

canta bem-te-vi
sol por todo o lado
natureza sorri

Carlos Seabra

[Alemanha] Tão pouco capitalismo verde! Novas alianças de energia entre Hamburgo e a América do Sul

Solidariedade e luta internacionalista de Hamburgo a Buenos Aires, de Montevidéu a Santiago do Chile e vice-versa.

No final de agosto de 2022, o prefeito social-democrata e político de Hamburgo, Peter Tschentscher, viajou para Buenos Aires, Montevidéu e Santiago do Chile, juntamente com uma delegação empresarial de 20 membros.

Representantes de empresas comerciais de Hamburgo como Hamburg Energie (empresa de energia), Hochbahn Hamburg (empresa de transporte público), HPA (Autoridade Portuária de Hamburgo), Handelskammer Hamburg (representantes comerciais de Hamburgo), o grupo de cobre Aurubis, o grupo Lother (produtos petrolíferos e imóveis) e outros faziam parte deste grupo de viagens neo-coloniais. A agenda desta delegação foi diversificada e definitivamente merece atenção. A agenda central era estabelecer novas “parcerias energéticas”, ou seja, vários acordos comerciais. Além disso, a delegação também visitou uma escola alemã e representantes da atual cooperação internacional dos Carabineros chilenos e da polícia alemã.

A nova tradição eco-colonial

Estas delegações têm uma longa história e não são hoje um caso isolado. Elas fazem parte da longa tradição colonial que começou há mais de 500 anos com as “conquistas” coloniais e hoje aparecem com um novo disfarce de capitalismo sustentável. Uma das consequências da guerra na Ucrânia foi a redução radical do fornecimento de petróleo e gás russo para grande parte da Europa. Devido a esta situação, muitos políticos e industriais estão viajando pelo mundo em busca de novas “alianças energéticas”. O duplo padrão aqui é evidente: Há alguns meses, o Ministro Federal alemão para Assuntos Econômicos e Proteção Ambiental, Robert Habeck, membro do Partido Verde, viajou ao Golfo Pérsico para o Qatar e os Emirados Árabes Unidos para chegar a um acordo sobre novas importações de energia. Com ele viajou uma delegação econômica de alto nível; representantes de empresas de energia como RWE e E.On (ambas empresas de energia), a empresa de armamento Thyssen-Krupp, a gigante farmacêutica Bayer, bem como Aurubis, Commerzbank e Deutsche Bank, o fabricante de software SAP, Evonik, todos eles responsáveis pelo grande desastre ambiental que estamos sofrendo atualmente.

A composição da delegação de Hamburgo não é uma coincidência, pois diante do avanço do desastre ecológico, os delegados devem projetar uma imagem de capitalismo verde e sustentável. Um dos principais interesses desta viagem foi o negócio do “hidrogênio verde”, que é produzido principalmente no sul do Chile. Desta forma, o porto de Hamburgo (o terceiro maior da Europa) pretende se tornar o novo centro europeu para o fornecimento de hidrogênio a longo prazo. Como primeiro passo desta cooperação, um “Memorando de Entendimento” foi assinado em Santiago do Chile para o negócio do hidrogênio para os próximos anos.

O hidrogênio é necessário para muitas coisas, como substituto para o gás natural, para a produção de aço e para a indústria pesada em geral. É notável que esta delegação alemã goste de enfatizar o progressismo dos centros de negócios sul-americanos, sem renunciar a declarações racistas e relativizar a história do colonialismo e da exploração.

Neste contexto, o prefeito de Hamburgo, Peter Tschentscher, enfatizou publicamente que estava feliz por o povo do Chile não ser preguiçoso em nada, e que estava feliz por ter ouvido tantos nomes alemães. Mas ele nada disse sobre a fuga de numerosos nazistas de alto escalão para a América do Sul após o fim da Segunda Guerra Mundial, nada sobre as relações do primeiro-ministro bávaro Franz Josef Strauss e outros políticos alemães com a ditadura de Pinochet, intensificando assim as relações comerciais germano-chilenas. Nada foi dito sobre as visitas de representantes do estado alemão ao centro de tortura Colonia Dignidad.

De acordo com o relatório da comissão, haveria muito espaço para turbinas eólicas ao longo das costas das áreas dominadas pelos estados argentino e chileno. Em Montevidéu, a cooperação portuária é acordada entre a HPA (Autoridade Portuária de Hamburgo) e a ANP, a Autoridade Portuária Nacional de Montevidéu.

Para este fim, o porto uruguaio deverá ser significativamente ampliado e aprofundado até 2025. Além disso, foi feito um acordo entre a HIF[1] (produção de e-combustível na Patagônia) do Chile, que produz combustível hidrogênio, e o Grupo Lother, sediado em Hamburgo. O negócio da “energia verde” é em última análise pérfido e significa uma extensão do neo-extrativismo, ou seja, a exploração colonial dos recursos naturais nos países do Sul e a destruição de seu meio ambiente, já que uma empresa de cobre e aço como a Aurubis não pode se encaixar neste conto de fadas verde, seu papel poluidor nos discursos públicos é deliberadamente omitido.

Outro componente desta política e dos negócios é a opressão das comunidades indígenas.

A luta do povo mapuche vale a pena mencionar aqui: suas terras são roubadas, militarizadas e atacadas pelos estados chileno e argentino, geralmente para os interesses das grandes corporações internacionais.

Por exemplo, a Aurubis já tem acordos de fornecimento com projetos multinacionais de mineração de cobre, que junto com a indústria madeireira e de papel, em territórios ocupados pelo estado chileno, estão destruindo as vidas das comunidades Mapuche. Demonstra-se aqui que, quer o governo seja de direita ou de esquerda, o Estado lutará com todas as suas forças contra a resistência mapuche na busca de seus interesses econômicos. É por isso que sua luta digna merece nosso total apoio e solidariedade.

Como anarquistas, estamos cientes de que na área europeia está sendo construída uma necessidade energética, que se destina, em última instância, a satisfazer as necessidades da indústria de armamento alemã e europeia, da indústria automobilística e da indústria pesada em geral.

O discurso populista de escassez iminente de energia, reforçado por conflitos geopolíticos entre Estados, é uma boa oportunidade para fazer as pessoas temerem por seu próprio abastecimento energético, como o aquecimento. E aqui também não queremos ignorar o nível fundamentalmente estrutural e neocolonial das dependências internacionais. Pois estamos bem conscientes dos níveis pérfidos em que esses medos dos europeus ricos se movem no contexto global: inúmeras pessoas no Sul global vivem sem acesso regulamentado à eletricidade, água potável e outras infraestruturas, uma situação que se deteriora continuamente devido à superexploração dos mercados europeus.

Os governos vêm e vão, a polícia fica!

No contexto de tratados econômicos internacionais de longo alcance, a segurança interna e a estabilidade são de particular importância. Esta questão também desempenha um papel importante na visita da delegação de Hamburgo aos países da América do Sul. Aqueles que querem investir dinheiro na região e comprar matérias-primas esperam estabilidade social, e se esta não existir, terá que ser imposta. Isto se refere especificamente ao contexto chileno após a revolta social de 2019 e a presença de muitas lutas revolucionárias e sociais em geral. Neste contexto, os Carabineros do Chile são treinados e educados pela polícia alemã, mais precisamente pela polícia de Hamburgo e Renânia do Norte-Vestfália[2] em um processo de reforma. Trata-se principalmente de “comunicação e relações públicas” e “estratégias policiais de desescalonamento”. Assim, a polícia de Hamburgo está dando aos “pacos” chilenos lições de contrainsurgência, estratégias que têm sido utilizadas na Alemanha há anos e que foram implementadas e aprofundadas desde a cúpula do G20 em Hamburgo, em 2017. No futuro, a polícia no Chile provavelmente tentará disfarçar a violência do Estado ainda mais eficientemente em campanhas públicas que visem limpar sua imagem.

Auto-organização, solidariedade e ação direta contra estas condições e desenvolvimentos terríveis! Queremos ser claros e solidários com os combatentes nos territórios dominados pelos Estados do Uruguai, Argentina e Chile e deixar claro que para parar e dificultar os mecanismos e projetos de dominação que mencionamos requer lutas internacionalistas que são travadas em todos os lugares e inter-relacionadas. Os responsáveis pelo colapso ambiental são vulneráveis e podem ser encontrados em muitos lugares.

Nossa solidariedade vai para os revolucionários presos nas prisões. Solidariedade também com os prisioneiros chilenos da revolta de 2019. Uma saudação particularmente calorosa aos camaradas anarquistas Monica Caballero e Francisco Solar, para quem o Estado chileno está exigindo atualmente mais de 150 anos de prisão.

Não vamos deixar os prisioneiros sozinhos nas mãos do Estado!

Até que todos os muros da prisão caiam!

Solidariedade com as comunidades indígenas em luta!

Solidariedade com a luta mapuche!

Solidariedade com todas as lutas em defesa da terra!

Para a revolução social!

Alguns anarquistas, Hamburgo, Alemanha, setembro de 2022

[1] //hifglobal.com/hif-chile

[2] Na Alemanha, além da Polícia Federal, existem forças policiais em todas as 16 províncias.

Fonte: https://radio31deenero.org/index.php/2022/11/07/tampoco-un-capitalismo-verde-nuevas-alianzas-energeticas-entre-hamburgo-y-sudamerica/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A sensação de tocar com os dedos
O que não tem realidade –
Uma pequena borboleta.

Buson

[Espanha] Comemorando 20 anos nas ondas livres!

ANARKUSTIKA, programa de contra-informação anti-repressivo/anti-prisão (Rádio RSK)

Olá a todos, Anarkustika completa 20 anos!

Em 2003 começamos na Molotoff Irratia em Hernani e depois a partir de 2009 na Zintzilik Irratia (Rentería-Orereta) até o final de 2010. A partir de 2011 o programa foi transmitido pela Radio Bronka (9 Barris/Bcn) e a partir de 2015 pela Radio RSK (9 Barris, Bcn) até hoje.

A contra-informação é o verdadeiro significado das rádios livres porque não são controladas pelo Estado e suas instituições e, portanto, a única fonte livre e atualizada da sociedade, além de algumas páginas anárquicas estabelecidas na Internet.

A rádio, além de sua presença na internet, é ouvida na FM que permite uma cobertura no bairro e em parte da cidade.

É uma de nossas armas mais poderosas contra um sistema corrupto e podre que tenta destruir nossas ideias, contra-culturas e/ou coletivos/comunidades, através da pura brutalidade, violência, repressão, prisão e morte.

A solidariedade com as vítimas desta segregação, não apenas física, mas também psicológica, não é necessária, mas indispensável e faz parte de nossa ideologia.

Ninguém será deixado sozinho nas mãos do Estado!

Mobilizações e a disseminação de informações confiáveis são a base para ações com todos os meios possíveis para destruir os bastiões do sistema, seus bancos e corporações multinacionais nos campos da eletrônica, produtos farmacêuticos, energia, carne, armas e assim por diante.

Nunca devemos esquecer nossos irmãos e irmãs que estão presos, perseguidos ou ameaçados, enjaulados e assassinados!

Continuaremos a dar voz a eles, vozes silenciadas pelo Estado!

Se tocam em um, tocam em todos nós!

Saúde, Solidariedade e Liberdade para todos!

Abaixo os muros da sociedade penitenciária!

Viva as rádios livres!

Pela Anarquia!

PS: Saudações fraternais a Gabriel, Thomas, Juan, Monica, Francisco, Giannis, Alfredo, Anna, Claudio, Andreas, Francesco, Toby, Ivan, Davide, Marcelo, e a todos os demais lutadores sequestrados pelo puto estado!

agência de notícias anarquistas-ana

o arrozal lindo
por cima do mundo
no miolo da luz

Guimarães Rosa

[Espanha] Lançamento: “Poesía del tango. Pasión, transtierros y pensamiento libertario en el siglo XX”, de Rafael Flores Montenegro

A rua, o porto, os cortiços, os curais, os cárceres eram o magma onde se forjou um dizer que logo se elevaria a canção nas primeiras décadas do século XX. Já os trovadores de La Pampa, os repentistas, e as pessoas da comédia depois, vinham introduzindo a fala popular em suas composições. O tango o fez em alguns títulos inaugurais, em refrões e quadras, precários, durante o tempo que levou para se  consolidar como música e dança. Os que o inventaram eram carreteiros, estivadores, pedreiros, pintores de casa, mecânicos… E as mulheres brilharam na interpretação cantada. Nesta obra se incluem as letras das canções tangueiras mais representativas de inspiração libertária, compostas por Pascual Contursi, José González Castillo, Celedonio Esteban Flores, Enrique Cadícamo, Francisco García Jiménez, Enrique Santos Discépolo, María Luisa Carnelli, Alfredo Le Pera, Homero Manzi, Jose María Contursi, Mario Batisttella, Cátulo Castillo, Homero Expósito, Eladia Blázquez. O tango visto por Borges e Carriego encerra as páginas belamente ilustradas por Nicoláas Picatto…

Rafael Flores Montenegro é considerado, internacionalmente, como um grande conhecedor desta música, sua canção e dança popular. É autor de originais ensaios literários sobre suas emblemáticas figuras.

Poesía del tango. Pasión, transtierros y pensamiento libertario en el siglo XX

Rafael Flores Montenegro

Ilustrado por Nicolas Piccatto

176 Páginas. Contiene imágenes inéditas de la época.

Precio 18 €

ISBN: 978-84-122547-7-8

www.lalinternasorda.com

ATENÇÃO: SÓ REALIZAMOS ENVIOS PARA O ESTADO ESPANHOL.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/08/01/argentina-tango-e-anarquia-o-desafio-e-que-estes-dois-produtos-tao-genuinos-voltem-a-ter-sentido-aos-olhos-do-povo/

agência de notícias anarquistas-ana

Como versos livres
– ao toque dos tico-ticos –
as flores que caem…

Teruko Oda

[Argentina] Livro | “El anarquismo de Rodolfo González Pacheco. Un ensayo crítico sobre Carteles”

Rodolfo González Pacheco, dramaturgo e ativista anarquista, nasceu em 1883 em Tandil, província de Buenos Aires, e morreu na cidade de Buenos Aires em 1949, em pleno auge do peronismo. Em 1910 esteve confinado na prisão de Ushuaia junto a seu amigo Teodoro Antillí, após o fechamento do jornal La Batalla, cuja direção compartilhavam. Antillí e González Pacheco foram apenas dois dos tantos reclusos no sul do país no marco de repressão generalizada ao anarquismo prévia à celebração do primeiro Centenário da Revolução de Maio. Em 1936, ao principiar a guerra civil na Espanha, González Pacheco partiu para aquele país para apoiar os revolucionários anarquistas que tratavam de levar adiante a revolução social. Ali dirigiu a Companhia de Teatro do Povo e a revista Teatro Social. Permaneceu na Espanha só nove meses, ocasião que lhe permitiu aprofundar seus contatos com os anarquistas espanhóis. Sempre se manteve fiel ao ideário anarquista até o último minuto de sua vida, apagada em Buenos Aires, como dissemos, em 1949, em pleno auge do regime peronista.

Como autor teatral teve seus momentos de fama, especialmente na segunda metade da década de 1910, com Las víboras (1916) e La inundación (1917). Mas, embora seu ideário anarquista e revolucionário esteja presente em quase toda sua produção dramática, o encontramos mais desnudo e em carne viva em seus escritos de propaganda e difusão denominados “carteles”, espécie de proclamas curtos que sintetizavam em poucas linhas alguma ideia ou sentimento. Com um estilo de escritura simples mas florido, aceso e convocante à ação, esses “carteles” apareciam com singular frequência nas numerosas publicações anarquistas e revolucionárias das primeiras décadas do século XX argentino. González Pacheco escreveu sucessivamente nos seguintes jornais: Futuro (em 1897), Germinal (em 1906), La Protesta (entre 1907 e 1908, e fugazmente anos depois), La Mentira. Órgano de la Patria, la Religión y el Estado (em 1908), La Campana Nueva (em 1909), La Batalla, diário anarquista da tarde (em 1910), Alberdi (em 1910), Libre Palabra (em 1911), El Manifiesto (em 1911), La Obra (entre 1916 e 1919, e novamente a partir de 1936), El Libertario (em 1920), La Antorcha (entre 1921 e 1932). Também colaborou com publicações espanholas como Tierra y Libertad (a partir de 1910), Nosotros (em 1937), El comunista (entre 1919 e 1920), Solidaridad Obrera (em 1920) e Umbral (entre 1937 e 1939).

>> Para baixar o livro, clique aqui:

http://www.fondation-besnard.org/IMG/pdf/el_anarquismo_de_rodolfo_gonzalez_pacheco.pdf

Fonte: https://www.portaloaca.com/pensamientolibertario/libros-anarquistas/libro-el-anarquismo-de-rodolfo-gonzalez-pacheco-un-ensayo-critico-sobre-carteles/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

rua em que nasci
as crianças riem
o riso do velho

Ricardo Portugal

[Espanha] Durruti, 90 anos desde seu desterro para Fuerteventura

O líder anarquista foi exilado na ilha por quatro meses em 1932 após a insurreição do Alto Llobregat durante a Segunda República.

Por Eloy Vera | 21/11/2022

Em meados de abril de 1932, o navio Cánovas del Castillo desembarcou no porto de Puerto Cabras. A bordo estava um grupo de nove a onze homens, considerados pelo Governo da República como “perigosos”. Entre eles estava o líder anarquista Buenaventura Durruti que, juntamente com os demais, permaneceu exilado por quatro meses em Fuerteventura após a insurreição em Alto Llobregat (Catalunha), no início daquele ano.

A estadia de Durruti foi somada à de outros deportados que os vários governos haviam enviado a Fuerteventura, que havia se tornado uma ilha e prisão para aqueles que expressavam ideias contrárias aos que estavam no poder.

Durruti e os demais anarquistas se juntaram ao desterro de Miguel de Unamuno e do jornalista Rodrigo Soriano em março de 1924, e mais tarde aos da conspiração de Munique em 1962.

Mas o que levou à deportação de Durruti para Fuerteventura há 90 anos atrás neste 2022? A resposta está na insurreição do Alto Llobregat, em janeiro de 1932. Nove meses após a proclamação da Segunda República, a situação havia se tornado insustentável nos condados de Manresa, na região de Alto Llobregat. Seu povo, trabalhadores das indústrias têxtil, de fosfato e de carvão, estavam cansados do abuso de poder e decidiram convocar uma greve geral, influenciada pela CNT.

Logo, espalhou-se a notícia de que tinha havido uma revolta por toda a Espanha e que o comunismo libertário havia chegado. “Todas as pessoas que estavam envolvidas nesta dialética haviam passado por um momento muito ruim. Eles decidiram, então, insurgir e tomar as cidades pacificamente, mesmo que a Segunda República já tivesse chegado, cansados de viver em condições duras, em um regime praticamente feudal”, explica o historiador Jesús Giráldez.

O pesquisador e professor do ensino médio vem seguindo o rastro de Buenaventura Durruti há anos. Um dia ele encontrou a informação de que o líder anarquista havia sido deportado para Fuerteventura e começou a puxar o fio da meada. Fascinado pelo personagem e após anos de pesquisa, em 2009 publicou o livro Creyeron que éramos rebaño. La insurrección del Alto Llobregat y la deportación de anarquistas a Canarias y África durante la II República (Acreditaram que éramos rebanho. A inssurreição do Alto Llobregat e a deportação de anarquistas para as Canárias e África durante a II República.

Após a insurreição do Alto de Llobregat, Giráldez explica como a República respondeu, através do governo de Azaña, “com grande repressão. Eles tentaram tomar uma medida exemplar que os levou a decidir prender muitas pessoas que haviam participado da insurreição, mas também numerosos anarquistas que eram significativos, embora não tivessem participado dela”.

A Lei de Defesa da República foi aplicada a todos eles. Uma lei, aponta o historiador, que “foi supostamente concebida para pessoas com tendências golpistas de direita e para alguns círculos militares conservadores”. Entretanto, as primeiras pessoas a quem foi aplicado foram os anarquistas que foram deportados”.

Em 17 de janeiro de 1932, Durruti deu um comício na área de mineração de Fígols. Em suas palavras, ele reafirmou a necessidade da revolução: “Não acreditem nas reformas da democracia burguesa, da qual os trabalhadores não podem esperar nada (…). A democracia burguesa falhou (…). É necessário realizar a revolução”.

Estas palavras foram interpretadas como um conselho de revolução para os mineiros Fígols que se preparavam para a luta final. Em 18 de janeiro de 1932, o comunismo libertário foi declarado, abolindo o dinheiro, a propriedade privada e a autoridade estatal. O movimento durou apenas cinco dias. O Exército conseguiu derrubar a medida.

No dia 21 daquele mês, Durruti e os irmãos Ascaso foram presos e levados para o porto de Barcelona onde foram aprisionados no Buenos Aires, um velho transatlântico cujo futuro imediato seria sucateado, agora convertido em uma prisão flutuante. As pessoas foram aprisionadas lá até que fossem mais de uma centena.

Depois de mais de 20 dias no cais sem que sua tripulação soubesse seu destino, em 10 de fevereiro a Buenos Aires começou a navegar. As notícias tinham chegado às Ilhas Canárias de um possível desembarque do grupo de anarquistas na ilha de Fuerteventura.

Jesús Giráldez explica como a imprensa estava dividida naquela época em duas posições opostas. Por um lado, os jornais operários apoiaram a presença dos camaradas anarquistas e lhes deram uma calorosa acolhida em Fuerteventura e Gran Canaria. Por outro lado, os jornais que representam a burguesia, “estão chorando porque consideram que essas pessoas poderiam trazer ideias com teorias dissolventes que poderiam afetar a população pacífica das Ilhas Canárias”.

El País, um jornal que se proclama independente, descreve os exilados como “bandidos, pistoleiros, uma avalanche de destruidores anarquistas, uma legião de bandidos, de indesejáveis que a Espanha joga fora de seu seio porque sua convivência com um povo sério e honesto é incompatível”. E ele continua escrevendo que Fuerteventura, “a ilha sedenta, a Cinderela das Canárias”, que se fez “grande honra ao abrigar em suas fendas o grande Dom Miguel, velho rebelde, pensador e eterno”, será agora “convertido em um lazarento infeccioso de podridão social”.

Guiné e Villa Cisneros

Enquanto a imprensa estava aquecendo a atmosfera, o Buenos Aires continuou sua viagem através do mar. Primeiro ao longo da costa mediterrânea até chegar a Gran Canaria. De lá, eles foram enviados para as colônias guineenses, mas lá “o elemento colonizador, com argumentos racistas, se impôs e disse que os brancos não podiam ser guardados por negros e índios na Guiné”, aponta Giráldez.

Mais tarde, foi recebida a ordem de enviá-los para o Saara. Após 24 dias no mar, eles chegaram à Villa Cisneros, onde também foram impedidos de atracar. Mais tarde, soube-se que a razão era porque Durruti estava viajando. O governador recusou-se a admitir o anarquista, que considerava ser o assassino de seu pai Fernando González Reguera, ex-governador de Biscaia. O fato foi falso porque a morte coincidiu com o tempo em que Durruti estava na prisão.

Após a recusa, o governo da República reconsiderou o que fazer com todas essas pessoas. “Havia uma epidemia a bordo. As pessoas começaram a ficar doentes e tiveram que voltar a Las Palmas. Um deles, Antonio Soler, morreu de doenças epidêmicas. A partir de então, os deportados começaram a ser distribuídos em três grupos. Um ficou em Gran Canaria e pouco a pouco voltaram para casa, o grupo principal ficou em Villa Cisneros e outro, entre nove e onze pessoas, veio para Fuerteventura onde ficaram por vários meses”.

Em 13 de abril Durruti e os demais foram embarcados no Cánovas del Castillo e levados para Puerto Cabras. Também no grupo estavam Domingo Ascaso e Manuel Prieto, tomados como o líder da insurreição dos Fígols. Dois dias após a chegada do navio, seu companheiro recebeu um telegrama assinado em Fuerteventura no qual Durruti lhe disse que havia desembarcado na ilha.

Poucas informações são conhecidas sobre sua estadia, exceto por duas cartas, uma de Durruti para sua irmã Rosa e outra enviada por Ramón Castañeyra, o comerciante que havia sido anfitrião da Unamuno durante seu exílio, para o biógrafo de Durruti, Abel Paz.

O historiador majorero Elías Rodríguez, falecido em 2018, publicou o artigo Buenaventura Durruti en Puerto Cabras (Fuerteventura, 1932) em 2013, que fornece informações valiosas sobre a estadia de Durruti na ilha. Graças a Elías, conhecemos o conteúdo dessas cartas. Na carta à sua irmã Rosa, o anarquista lhe fala da odisséia da viagem, reprova a falta de sensibilidade que o governo demonstrou para com eles e como vivem confinados em um quartel onde recebem 1,75 pesetas para sua subsistência diária. Mais tarde, eles foram transferidos para o hotel onde a Unamuno se hospedou em 1924.

Na carta à sua irmã, ele também lhe diz que quando chegaram a Fuerteventura “os vizinhos da ilha estavam assustados”. Tinham lhes dito que estávamos comendo as crianças cruas. Mas assim que nos viram, falaram conosco e nos trataram, eles se acalmaram e deixaram as crianças brincarem conosco”.

A resposta inicial da sociedade majorquina, aponta Giráldez, foi o resultado de “uma campanha de difamação misturando tudo com um discurso mitológico sobre como os anarquistas eram maus. Depois de superar suas reticências iniciais, eles se divertiram muito aqui e vieram a reconhecer que as pessoas eram muito amigáveis.

Em 1971, Ramón Castañeyra escreveu a Abel Paz elogiando Durruti e contando-lhe como o anarquista salvou seu irmão de ser baleado: “Nós nos conhecíamos e eu lhe dei livros, dos quais ele gostava muito; mas quando ele partiu nunca mais tive notícias de Durruti. Ele tinha fortes inclinações anarquistas, e eu era seu antagonista em todas as discussões que tínhamos sobre nossa ideologia. Mas meu irmão chegou em Barcelona, na Villa de Madrid em 20 de julho de 1936; e foi acusado de ser fascista por um dos garçons do navio, lembrou-se de nos ter visto falando e se dirigiu a ele, dizendo que era meu irmão. Isso foi suficiente para Durruti colocá-lo em uma casa em que ele confiava, poupando-lhe a caminhada terminal”.

Elías Rodríguez entrevistou alguns dos majoreros que tinham vínculos com Durruti. Alguns deles eram militantes ou simpatizantes da CNT. Entre eles, o historiador conversou com Juan Hormiga Rodríguez, que lhe disse que o anarquista se encontrou com estivadores, trabalhadores e marinheiros no beco de Juanito El Cojo, onde lhes deu informações sobre o sindicato e como se organizar.

Jesús Giráldez tem dedicado parte de sua carreira de pesquisa a seguir o rastro da CNT nas Ilhas Canárias. Ele afirma que Durruti e os outros anarquistas “deram um impulso à consciência dos trabalhadores, conseguindo formar, ligados à doca de Puerto del Rosario e ao grupo de pescadores, um sindicato de filiação anarquista: a CNT, que pertencia à Federação dos Trabalhadores de Tenerife”.

Juan Hormiga também disse a Elías que Durruti era um homem que ajudava muito. Ele até lhe garantiu que havia visto como ele havia dado dinheiro para as pessoas do campo que vieram a Puerto Cabras para comprar calçados. Ele também lhe disse que um dia lhe deu nove moedas de prata para levar ao Cabo Juby, aproveitando o fato de que o Hormiga viajava frequentemente para a África, para que um artesão lá pudesse fazer nove anéis, um para cada deportado e um para ele.

Outro dos entrevistados, Antonio Hormiga Domínguez, disse a Elías que Durruti dedicou parte de seu tempo a dar aulas para crianças e idosos que as desejavam. Jesús Machín contou a ele sobre os encontros que Durruti frequentou na casa de Don Julio, um sargento da marinha, que foram assistidos por um reparador de telégrafos.

Jesús Giráldez recorda uma anedota sobre Durruti, três dias depois de chegar à ilha. “Durruti soube que três de seus camaradas seriam transferidos de Las Palmas para Fuerteventura. Naquela época, não havia nenhum porto na capital e os navios ancorados no mar. Os passageiros foram trazidos a terra em barcaças. Durruti fez frente ao comandante militar e lhe disse que havia duas autoridades: os oficiais da República e a autoridade dos camaradas anarquistas, então ele exigiu encontrá-los também na barcaça. No final, ele conseguiu ir e receber seus camaradas, em meio a toda a expectativa que foi criada no cais de Puerto Cabras para ver o navio chegar com os deportados”.

Em agosto de 1932, o exílio dos anarquistas chegou ao fim. Eles foram para Tenerife, onde Durruti deu um comício na Plaza Weyler em Santa Cruz, e de lá para Barcelona. Em setembro, o grupo de deportados participou de uma assembléia no sopé de Montjuic. Um dos oradores foi Durruti, que aludiu ao fato de que graças “à República eles puderam difundir suas ideias anarquistas aproveitando sua estadia nas Canárias”.

Nem placas nem tributos

Este ano de 2022 marca o 90º aniversário da chegada de Durruti a Fuerteventura. Não tem havido homenagens, descerramento de placas ou cátedras culturais. Nem mesmo qualquer menção. “Fuerteventura sempre foi uma ilha prisional e a única coisa que transcendeu é que Unamuno e Soriano estavam lá. A figura que foi colocada no pedestal é a da Unamuno, mas todas essas deportações foram ignoradas”, lamenta o historiador Jesús Giráldez.

Em sua opinião, mais do que uma homenagem, “o que é necessário é um conhecimento dos fatos, do que eles fizeram, por que vieram e para justificar sua figura”. Não uma rua, mas algum tipo de reconhecimento que fizesse a ilha de Fuerteventura saber que o anarquista espanhol, possivelmente o mais conhecido na história do movimento operário, esteve aqui”.

Fonte: https://www.diariodefuerteventura.com/noticia/durruti-90-a%C3%B1os-desde-su-destierro-fuerteventura

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

sombras pelo muro:
a borboleta passa
seguindo a anciã…

Rosa Clement

[Espanha] Gabriel Pombo, um dos presos mais antigos: “Sigo no cárcere, ainda que já faz dez anos que cumpri minha condenação”

“Gabriel Pombo da Silva (Vigo, 1967) é um dos presos que está a mais tempo nos cárceres espanhóis. Entrou com apenas 17 anos e hoje tem 55 recém completados. Vários assaltos com seu grupo, um deles com homicídio, lhe abriram a porta das prisões do território ibérico e também da Alemanha. Foram mais de 30 longos anos entre grades. Agora, sua defesa exige a Audiência de Ourense, a que o condenou, que aplique o Código Penal em vigor, uma postura que também defende a Promotoria do Tribunal Supremo, o que implicaria na sua imediata liberdade, dez anos mais tarde do que lhe teria correspondido.

— Passaram já vários meses desde que a Promotoria do Supremo solicitou a aplicação a sua condenação do Código Penal vigente o que implicaria sua imediata liberdade…

— Agora está no Supremo, mas o importante que descobrimos é que o tribunal que em seu dia me condenou, a Audiência Provincial de Ourense, é o responsável de que nunca me aplicassem o Código Penal que mais me beneficiava, como exige a lei. Haviam-me condenado por um delito de roubo com homicídio a 28 anos e pouco, então a pena máxima e com o novo código penal são doze anos e seis meses.

— Quantos anos está no cárcere?

— Mais de 30. Percorri quase todos os cárceres espanhóis.

— É você o preso que mais anos está encarcerado na Espanha?

— Não sei. É provável. Eu creio que haverá mais por aí que foram esquecidos porque são pobres.

— Se lhe tivessem aplicado o Código Penal mais benéfico estaria livre e teria desfrutado de dez anos de vida sem estar entre grades.

— Sim. Estou sequestrado. A Audiência de Ourense teria que ter revisado minha condenação para aplicar o Código Penal mais favorável. Mas sigo aqui.

— E como poderiam devolver dez anos de vida?

— Não se pode. Eu fico com o bom, e é que tive tempo para me aprofundar muito em mim mesmo, na natureza humana, no mundo.

— Em que contexto começam seus confrontos com a Lei?

— Nos anos oitenta. Eu recordo o bairro de El Calvario, em Vigo, pobre, miserável, vermelho, onde estávamos, a um lado o povo e do outro a polícia. Me criei com meus avós, que me inculcaram a solidariedade de classe. Então comecei a fazer o que não devia: disparar, expropriar (assaltar) e juntar-me com os rebeldes. Havia muito desemprego, muito desespero e muita emigração.

— E não avaliou então que poderia seguir sua luta no âmbito político ou sindical e não usando a violência?

— Era inútil o caminho político ou sindical. Não servia. Repartíamos alimentos e dinheiro às famílias pobres. Era uma época dura. Estamos falando também de um período de tempo onde a extrema direita matava, onde havia grupos ultras e na classe obreira tínhamos que nos defender.

— E logo chegou a droga…

— Foi muito estranho. Começou a aparecer heroína pura por Vigo. Observei que, da noite pro dia, em todos os bairros onde estávamos organizados e trabalhávamos a nível político e social, aparece a droga e destrói os jovens, os trabalhadores, afeta a todos.

— Passou 8 anos de sua condenação no duro regime de isolamento FIES (Arquivos Internos de Acompanhamento Especial). Não se vê afetado nem psíquica nem fisicamente.

— Empurrei para a frente por inércia. Para resistir me concentrei em mim mesmo, na leitura, no esporte e basicamente em resistir o dia a dia.

— Se negou sempre a colaborar com o centro penitenciário. Não aceitou dar cursos a outros presos. Custou-lhe essa postura?

— Segue me custando. Fiz os piores inimigos em todas as partes: narcotraficantes, banqueiros, juízes e também entre os que trabalham aqui dentro.

— Mudou muito o cárcere nesses longos trinta anos?

— A maioria dos que entram são doentes mentais ou estão dopados. Hoje o cárcere já não é o vigiar e castigar de Foucault, mas o refletido por Orwell, a polícia do pensamento. Não se busca reabilitar. Basicamente isto é um negócio. Os que têm dinheiro saem do cárcere. Os que têm padrinhos políticos têm privilégios…

— Que fará quando sair?

— Criarei um ateneu que se chamará Agustín Rueda em meu sítio, no condado de Mos. Impulsionarei coletividades, editoras… baseados no apoio mútuo e na formação. Há que voltar à terra.

— Nada que ver com sua trajetória anterior

— Sim, é uma questão de realidade, de pragmatismo. Me vejo mais ajudando a formar e educar a outros companheiros que assaltando bancos. Traduzindo livros interessantes que não estão em espanhol, criando cooperativas…”

Fonte: https://www.lavozdegalicia.es/noticia/espana/2022/12/11/sigo-carcel-dez-anos-cumplido-condenação/0003_202212G11P21993.htm

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/11/21/espanha-atualizacao-sobre-nosso-companheiro-gabriel-pombo-da-silva-outubro-2022/

agência de notícias anarquistas-ana

Vôo dos pássaros!
fio costurando ligeiro
o céu ao mar.

Tânia Diniz

[Espanha] A Chaminé do Moinho de Caparroso, esconderijo na Guerra Civil

Em “Boulevard” de Radio Euskadi vimos como era esse esconderijo, essa chaminé, e como se viveu em Pamplona esse momento de pânico após o golpe militar Franquista.

Em “Boulevard” contamos uma história de memória Histórica, destas de filme ou novela, neste caso que aconteceu em Pamplona/Iruña, nos dias posteriores a esse golpe de estado franquista de 18 de julho de 1936.

É a história de Isidro Sarasate, um militante anarquista filiado à CNT que se escondeu e permaneceu dias escondido em uma chaminé. Concretamente, na Chaminé do Moinho de Caparroso, na margem do Arga em Iruña, a apenas 150 metros da praça do Castelo onde se concentraram os golpistas, franquistas, falangistas e requetés que nesse mesmo momento começaram o que chamariam a caça ao vermelho.

Sarasate vivia aí mesmo, porque era uma propriedade da central elétrica da companhia ‘El Irati’ que estava ao lado, e onde trabalhavam os três irmãos. Ao conhecer perfeitamente a zona e o moinho, se converteu no esconderijo perfeito.

Foi fundador do Club Natación Pamplona que está também nesse mesmo lugar. O Club Natación segue sendo uma Associação Desportiva e uma instalação com piscinas onde as pessoas vão tanto no inverno como no verão. Um clube, que ainda que a maioria das pessoas de Pamplona desconheça, foi fundado por militantes de esquerda, perseguidos e represaliados durante o Franquismo, que durante a república ensinaram a nadar a muitos habitantes de Pamplona, vencendo naquela época a proibição que havia de banhar-se no rio.

Em “Boulevard” de Radio Euskadi vimos como era esse esconderijo, essa chaminé, e como se viveu em Pamplona esse momento de pânico após o golpe militar Franquista. Mikel Armendariz, um de seus sobrinhos, nos conta a história.

>> Escute aqui: https://www.eitb.eus/es/radio/radio-euskadi/programas/boulevard/detalle/9039626/la-chimenea-del-molino-de-caparroso-escondite-en-guerra-civil/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

rajada de vento
a lua estremece
na corrente

Rogério Martins

[Argentina] “Multimilionários que fazem culto a pátria, a masculinidade, a família e seus pênis”

A 21 anos das jornadas de luta de 19 e 20 de dezembro de 2001, o povo argentino honra a sua seleção de futebol, o esporte e a sua pátria, como assim enfatiza o governo no seu decreto de feriado nacional dedicado às comemorações.

Não se trata de um povo “frágil” que se deixa contentar com circo face às migalhas, mas é justamente isso que é o povo: uma construção do Estado para impor os interesses da burguesia e sustentar a ordem dominante. O fervor mundialista não é uma simples “via de escape” contra o mal-estar, um entretenimento, é uma expressão clara da falta de perspectiva de classe e de transformação social. Não é que o mundial esconda a miséria, é a miséria que faz do mundial um acontecimento tão determinante na vida das pessoas.

A “alegria do povo” e o seu amor pela sua pátria surgem nos momentos mais oportunos como em 1982 quando se desencadeou a guerra das Malvinas, permitindo ao governo de fato desviar o insustentável descontentamento contra ele. Em 1978, os gritos dos torturados, muitos deles depois assassinados ou desaparecidos, eram silenciados pelo fervor nacionalista. Em 2022, mais um mundial infame, com milhares de trabalhadores semiescravidão mortos na construção dos estádios, acaba consagrando a seleção argentina.

Ironias da história, os “heróis do povo”, multimilionários que fazem culto a pátria, a masculinidade, a família e seus pênis, serão homenageados no mesmo dia que costumávamos recordar os 39 assassinados pelo Estado na explosão social de 2001.

Biblioteca Alberto Ghiraldo – Rosário

Terça-feira, 20 de dezembro de 2022

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agência de notícias anarquistas-ana

Escorre pela folha
a tarde imensa,
pousada em gota d’água.

Yeda Prates Bernis

Mães pretas e conservadoras: entendendo o conservadorismo na periferia.

A primeira coisa que precisamos elucidar nesse tema é que a palavra conservadorismo pode ter duas conotações: uma pode ser o movimento organizado de direita que propõe reagir às insurgências revolucionárias da esquerda e mudanças progressistas na sociedade. Por isso os chamamos de reacionários.

A segunda é mais literal, e é disso que falamos na maioria das vezes quando nos referimos aos conservadores, principalmente àqueles não ligados a movimentos. E dentro disso estão as nossas mães, vizinhas, tias e mulheres fortes que formaram nosso caráter na periferia, com base nesse conservadorismo (que está muito mais ligado a conservar nossas vidas que de fato conservar a Fé). Tendo isso em vista precisamos entender que o sistema não vai mudar de uma hora para outra e conservadores sempre existirão, talvez eles sejam ainda mais ativos quando algumas mudanças na estrutura social são empurradas goela abaixo por alguma agenda capitalista de mercado e de massas, como vemos hoje na propaganda progressista de inclusão superficial e a qualquer custo.

Sabemos que essas mulheres, em sua maioria cristãs e/ou da umbanda (ou alguma outra religião de matriz africana ou espírita), foram responsáveis por construir a base moral e ideológica de toda a periferia brasileira, e muitas vezes sozinhas, sem a figura paterna para o apoio financeiro e nem emocional, encontrando na solidão a força para reger as nossas quebradas. Elas que, sem percebermos, nos alertaram sobre os perigos de uma sociedade racista, de uma polícia que odeia nossa cor e um mercado de trabalho que nos despreza. Tudo isso embasadas em suas fés e suas éticas de construção da sociedade.

As mulheres pretas são as maiores agentes de qualquer revolução que se possa sonhar no Brasil, Carolina de Jesus é um exemplo profundo e histórico desta verdade, que mesmo em meio à fome, foi sem medo de errar, uma das maiores artistas do século XX, destrinchando a alma do terceiro mundo neste e naquele século. Elas são o grande seio e base de qualquer ideal, a fonte de toda esperança da classe trabalhadora brasileira, e o fato de serem religiosas nos dá a dimensão do quanto precisamos ouvir o diferente e entender que cada passo que dermos na luta política, o olhar crítico e revolucionário dessas mulheres, deve ser nosso norte. Caso contrário estaremos fadados a falar para o vento sobre coisas superficiais de uma utopia inalcançável.

Frente Anarquista da Periferia – FAP

agência de notícias anarquistas-ana

A pedra da rua.
Humilham-te sem cessar.
Ah! os pés humanos…

Fanny Dupré

[Espanha] Ramón Acín, a loteria e as Hurdes de Luis Buñuel

O livro de anedotas nos lembra um dos eventos mais significativos: o gesto abnegado de Ramón Acín de doar o prêmio da loteria que havia ganho ao cineasta Luís Buñuel, que graças ao gesto do professor anarquista conseguiu rodar um de seus filmes mais famosos, “Tierra Sin Pan” (Terra Sem Pão). O gesto de Ramón Acín reflete o caráter, a ética e a moral dos anarquistas.

Hoje em dia, uma das histórias extraordinárias sobre a loteria de Natal recuperou a anedota protagonizada por Ramón Acín 100 anos atrás, mas há muito por trás desta situação que vale a pena destacar.

Ramón Acín foi professor, escultor, caricaturista, pintor e líder da CNT em Huesca. Uma pessoa militante e comprometida que sofreu prisão e perseguição. Seu envolvimento na Revolta de Jaca, em dezembro de 1930, o forçou a exilar-se em Paris. Mesmo após a proclamação da Segunda República, ele foi preso novamente por sua solidariedade com as greves dos trabalhadores. Sua vida terminou, junto com sua companheira, quando foi brutalmente e cruelmente assassinado em 1936. Junto com seu amigo, Juan Arnalda, ele foi obrigado a se esconder, em julho de 1936, em sua casa na Rua Cortes, em Huesca, em um buraco atrás de um armário. Cansado de ver como os falangistas batiam e injuriavam sua esposa, Concha Monrás, tentando obter informações sobre seu paradeiro, Acín se entregou. Ele foi assassinado nas paredes do cemitério de Huesca em 6 de agosto de 1936. No mesmo local, 17 dias depois, sua companheira foi assassinada, juntamente com 94 outras pessoas.

– Acín e Buñuel:

Não há certeza de quando os dois artistas se encontraram, alguns autores colocam o momento em 1926, quando Acín estava no exílio em Paris e pode ter coincidido em Paris, outros autores colocam o encontro em Madri. Seja como for, as visitas de Buñuel a Huesca foram regulares, a convite do professor anarquista. Um dia em agosto de 1922, em Zaragoza, no café “Ambos mundos” frequentado por libertários e artistas, Buñuel reclamou com seus amigos, Rafael Sánchez Ventura e Ramón Acín, sobre seus problemas de financiamento de seu novo projeto. O último lhe disse: “Olhe, se eu ganhar o prêmio principal de Natal, eu lhe pagarei por esse filme”.

Dito e feito; após ganhar o prêmio da loteria em 22 de dezembro de 1932 com o número 29757 adquirido em Huesca, não em Madri, Acín manteve sua promessa e doou uma grande parte do dinheiro ao cineasta para filmar um documentário sobre os Hurdes, “Tierra Sin Pan” (Terra Sem Pão). O filme foi altamente crítico da pobreza e negligência das áreas rurais e foi até censurado pelo governo. Acín não só doou o dinheiro, como também participou das filmagens. Ele havia visitado anteriormente a área de Hurdes e até participado do roteiro e, junto com Ramón Sánchez Ventura, estava encarregado das tarefas de produção. O documentário só pôde ser lançado no final de 1936, quando a guerra havia começado e sob rígido controle comunista, que chegou ao ponto de apagar o nome de Ramón Acín dos créditos, devido a sua afiliação e envolvimento anarquista. Buñuel levou trinta anos para dignificar a figura de seu amigo, devolvendo-o aos créditos e devolvendo o dinheiro a suas filhas, Katia e Sol. Em 1962, Buñuel escreveu a Katia e Sol para anunciar o retorno das 25.000 pesetas, aparentemente sem a atualização de quatro décadas.

Kike García Francés

Fonte: https://rojoynegro.info/articulo/ramon-acin-la-loteria-y-las-hurdes-de-luis-bunuel/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Hermética música
há no silêncio da lágrima
que salga o mar.

Fred Matos