[Espanha] Lorenzo Morales doa parte de seu acervo de livros à biblioteca da nova sede da CNT de Utrera

Lorenzo Morales (El Noi del Sucre) doa parte de sua biblioteca, quase mil títulos, à biblioteca da nova sede da CNT de Utrera, que será inaugurada no sábado 4 de junho. Se você deseja comparecer, está convidado. A sede abrirá às 11h30 da manhã, dando início as diferentes atividades que foram programadas durante o dia. Durante as apresentações, haverá um aperitivo para os participantes.

Atividades:

11h30 – Abertura e boas-vindas.

12h15 – Tributo floral e colocação de placa no monumento dedicado à memória histórica localizado no Parque Libertad, em Utrera.

13h00 – Tributo floral no monumento dedicado a Carmen Luna Alcázar no Mirador de la Luna. El Muro Park (ao lado da nova sede da CNT).

13h45 – Inauguração da nova sede e apresentação do Ateneu Cultural Libertário Salvador Seguí.

14h30 – Almoço confederal.

16h30 – Entrega de placas comemorativas aos companheiros José Manuel García (CNT Arahal) e Juan Ceballos (CNT El Puerto de Santa María) por seu trabalho militante em defesa do anarcossindicalismo ao longo de suas vidas.

17h00 – Homenagem póstuma a Antonio Oviedo Cadierno e apresentação de sua autobiografia “Memorias de un campesino” por Sonia Turon, representando a Fundação Anselmo Lorenzo, editora do livro.

A cerimônia de abertura será apresentada por Antonio Moragues, secretário geral da CNT de Sevilha e Lorenzo Morales, representando o Ateneu Cultural Libertário Salvador Seguí e o Núcleo Confederal da CNT de Utrera.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/05/30/espanha-inauguracao-da-nova-sede-da-cnt-de-utrera-e-apresentacao-do-ateneo-cultural-libertario-salvador-segui/

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Dia grisalho
brotos brotam brutos
na ponta do galho

Danita Cotrim

Memória | A trágica bastilha santista!

Por Marcolino Jeremias

Em destaque, foto do Posto Policial da Vila Mathias, que se localizava na rua Comendador Martins, número 37, no início do século passado. Por esse local passaram vários militantes anarquistas e trabalhadores de Santos, São Paulo e outras localidades, que lutavam por melhores condições de vida. Aprisionados por participarem de uma greve, por distribuir um panfleto ou simplesmente por terem uma opinião crítica ao governo.

Os presos aqui eram colocados em solitárias, ficavam dias sem comer ou beber água, eram torturados com porretes ou mesmo chibatas. Deixados nus em suas celas, muitos contraíam tuberculose e morriam. Crimes do Estado que jamais devem ser esquecidos!

Por essa prisão passou Everardo Dias que conta os pormenores do seu martírio e como foi torturado nesse antro de violência no livro “Memórias De Um Exilado“.

Recordamos que a campanha de pré-venda desse livro lançado originalmente em 1920, formato 14 x 21 cm, 136 páginas, continua até esse final de semana! Além do texto original, o livro contém uma biografia sobre a vida do autor e mais 6 textos em anexo, que foram publicados em periódicos de época.

Preço promocional 30 reais, não paga frete. Desconto válido até o dia 3 de junho. Após efetuar o pagamento, nos informar para qual endereço (com CEP) o livro deve ser enviado.

Pagamento pelo pix: nelca@riseup.net

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/05/18/pre-venda-do-livro-memorias-de-um-exilado-de-everardo-dias/

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no capim orvalhado
guarda-chuva de renda
a teia de aranha

Tânia Diniz

[Chile] Santiago: Assumindo atentado incendiário contra o “Club de Huasos y Rodeo Gil Letelier”

Decidi envolver-me em sérias atividades delitivas, após uma séria reflexão que tomei como indivíduo.” Rod Coronado, guerreiro da Frente de Liberação Animal.

Ao amparo da lua e previamente organizados, em uníssono com o atuar da “Célula Insurreccional 2 de Noviembre”, nós atacamos com um artefato explosivo o edifício do “Círculo de Funcionarios de Gendarmería en Retiro”: atacamos, incendiamos e inutilizamos um dos centros de tortura para animais, chamado “Medialuna”. Onde se prática o rodeio, esporte nacional deste repugnante país, que consiste em dois ginetes montados a cavalo, açoitando um novilho contra uma parede, até causar-lhe hematomas, fraturas, derrames internos e inclusive a morte.

Esta “Medialuna” do “Club de Huasos y Rodeo Gil Letelier”, estava (risos) situada na rua Carlos Valdovinos #2951, comuna de Pedro Aguirre Cerda, Santiago.

Utilizamos grande quantidade de combustível para nossa tarefa. Prejudicando a segurança do recinto e a polícia bastarda, mas preparados para o caso de ter que nos enfrentarmos de igual para igual com vigilantes, cidadãos heróis ou pacos [polícia]. O qual não sucedeu para a sorte deles.

Tomamos como prioridade a ação de sabotagem, ameaça e justiça. Cansados de uma cena de supostos lutadores pela liberação animal, que se conformam com uma dieta alternativa, com inofensivas palavras e publicações beligerantes de redes sociais.

Enquanto vivem em sua paz guerreando com seu celular, os animais morrem, sofrem e lamentam haver nascido.

Rodeios, açougues, centros de vivissecção, biotérios, laboratórios, clubes de exploração animal por esporte. Todos são nossos objetivos, e sem dúvida todos os humanos que os realizam: financistas, trabalhadores, vigilantes, expectadores, consumidores, donos e competidores. Todos correm risco.

Deixamos pregada uma ameaçante bala calibre 380 com um panfleto, pendurando na malograda estrutura, em aviso do que lhes espera: sangue e lágrimas.

Enquadramos esta ação, particularmente nesta semana, para responder a um novo aniversário da morte em combate do guerreiro Mauricio Morales.

Como grupo operativo, nosso enfoque é principalmente a vingança, a liberação e a  sabotagem, em nome da Liberação Animal.

E em vista de que com o passar dos anos essa linha ficou esquecida por grande parte das Células que o reivindicaram. Nós quisemos rememorar seu caráter anti-especista, o qual manteve com a mesma convicção com a qual carregou essa última bomba contra a dominação.

Uma piscada incendiária aos grupúsculos informais que combatem a crua normalidade domesticadora: “Células Revolucionarias Mauricio Morales”, “Animales Refractarixs”, “Algunas sombras en la noche”, “Núcleo Lobxs”e “Célula Insurreccional 2 de Noviembre”.

Liberação Animal, custe o que custar, e a quem o custe.

Mauricio Morales, Sebastián Oversluij, Barry Horne, presentes.

Fogo aos cárceres para humanos e não humanos.

A praticar as ideias, e não deixar que morram na paz da inação.

Rumo ao sangue, para devolver a dor.

GRUPO DE RESPUESTA ANIMAL

Tradução > Sol de Abril

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do orvalho
nunca esqueça
o branco gosto solitário

Matsuo Bashô

Novo vídeo: O Monopólio da Violência Policial – João Damasceno

Após o recente massacre no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro (RJ), e o assassinato de Genivaldo de Jesus Santana em Sergipe (SE), pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), João Damasceno analisa a violência policial e a sua legitimidade.

>> Veja o vídeo (07:15) aqui:

https://antimidia.org/o-monopolio-da-violencia-policial-vozes-anarquistas-ep-9/

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Não há céu nem terra,
apenas a neve
caindo sem parar.

Hashin

 

[Chile] Confrontos entre a polícia e encapuzados em três escolas secundárias de Santiago

A aplika segue em pé de guerra”, nova saída incendiária e ataque a um ônibus em protesto contra a prisão do companheiro Kuyi¹.

Nem enfraquecidos nem arrependidos!

Kuyi para as ruas!

Na Escola Manuel Barros Borgoño, uma saída incendiária terminou com um ataque a um ônibus, o fogo foi extinguido por um caminhão pipa dos carabineros.

No INBA, um ataque relâmpago incendiário foi realizado nas instalações do exército e na guarita dos seguranças do parque da Quinta Normal. Neste último local também foram queimadas duas motocicletas e uma van, a ação é em resposta e vingança pela agressão realizada nas noites anteriores a partir da guarita dos seguranças de onde dispararam contra os estudantes em ocupação e atiraram pedras em direção ao estabelecimento de ensino.

Nenhuma agressão sem resposta!

Cumplicidade e solidariedade com os presos e presas da guerra social!

Viva as novas gerações de estudantes encapuzados e os macacões brancos!

[1] Acusado do ataque a um ônibus em uma saída incendiária em memória do anarquista de ação Mauricio Morales, o Punky Mauri.

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Ramo ressecado,
corvo empoleirado
—anoitece o outono.

Bashô

[Grécia] Daphne Vayanou para nós sempre estarás aqui

TEXTO DOS ANARQUISTAS PRESOS DO LUTA REVOLUCIONÁRIA POLA ROUPA E NIKOS MAZIOTIS

Ao longo de sua carreira jurídica, Daphne Vayanou lutou por sua causa. Desde muito jovem foi advogada de casos políticos bastante importantes. Com uma profunda cultura política, capacidade de mediação e uma alma lutadora, se encarregou de casos políticos pesados, processos e julgamentos. Não seria exagerado dizer que ela foi uma advogada pela causa. Defendeu muitos anarquistas em inúmeros casos de perseguição política. Sem nenhum rastro de conservadorismo, sem fazer pactos políticos, não disfarçou os valores políticos dos lutadores que defendia, não deixou de lado as questões políticas em nome de qualquer conveniência. E, com tudo isso, foi extremamente eficaz, combinando de forma única as dimensões políticas dos julgamentos com uma excelente defesa penal.

Daphne Vayanou foi nossa querida advogada, insubstituível companheira de viagem durante nossa trajetória política. Muitos processos, incontáveis reuniões, discussões longas, significativas e inesquecíveis, sobre questões jurídicas e políticas. Ela mesmo sabia, como dizíamos constantemente, mesmo após sua aposentadoria, e mesmo uns dias antes da sua morte, que era NOSSA ADVOGADA.

Estivemos juntos no júri da Politécnica em 95, que foi quando nos conhecemos. Estivemos juntos no julgamento e na prisão de Nikos Maziotis por instalar uma bomba no Ministério do Desenvolvimento em 1998. Estivemos juntos em todos nossos julgamentos e condenações (grandes e pequenas). Estivemos juntos nas prisões e julgamentos do Luta Revolucionária [grupo anarquista de guerrilha urbana], ela esteve conosco em hospitais e na maternidade onde nasceu nosso filho.

Foi nossa valiosa defensora nos julgamentos do Luta Revolucionária. Fez parecer que era fácil – e na verdade, não é – trazer a luz todas as dimensões criminais em nossos júris (que não eram poucos), junto com as apostas políticas, sem permitir que os elementos políticos fossem distorcidos pelos contextos criminal em que se situavam. Deu cabo da defesa jurídica e política, a sua maneira.

Não acreditamos que sua formação e cultura política deem conta de explicar singular – em nossa humilde opinião – advogada e jurista Daphne Vayanou. Foi sua alma de lutadora, sua sensibilidade política e sua profunda empatia política e caráter o que a fez viver na mesma luta que nós.

Por todos os anos que compartilhamos, por sua presença valiosa, por sempre ter estado ao nosso lado, nós te agradecemos. Daphne Vayanou para nós sempre estarás aqui

Pola Roupa, 3ª ala da prisão de Eleonas em Tebas.

Nikos Maziotis, 4ª ala da prisão de Domokos.

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1618699/

Tradução > 1984

agência de notícias anarquistas-ana

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia

Matsuo Bashô

[Itália] Ideias para a recreação?

O velho Tolstoi, em um artigo intitulado O que fazer? argumentou que deve ter havido muitas teorias peregrinas no mundo para que a expressão “isto é bom em teoria, mas na prática…” tivesse entrado no uso atual. “Se algo está certo em teoria”, disse o escritor russo, “também está certo na prática”. Se, por outro lado, é contrariada pela prática, significa que também não estava certa em teoria.

Alguns anos depois, o jovem Michelstaedter fz-lhe eco: ‘Mas os homens dizem: “Tudo bem, mas enquanto isso, devemos viver bem. “Mas enquanto isso”! Devemos esperar até o dia que isso ocorrer?”.

Nós não somos anarquistas porque gostamos de ser do contra. Somos anarquistas porque a teoria anarquista do estado e do poder sempre resistiu ao teste da história. Não é possível transformar a sociedade num sentido libertário e igualitário através das instituições do capitalismo e do governo; qualquer uso “temporário” de métodos autoritários distorce os fins com os quais se pretende justificá-lo.

Existem, diz-se, situações excepcionais que exigem um afastamento dos princípios de cada um. Na realidade, as situações “excepcionais” – aquelas em que é mais difícil se orientar teórica e praticamente – são precisamente as situações em que os princípios são mais necessários. Os princípios revolucionários não são construções abstratas, mas uma destilação histórica de ideias, valores e métodos, uma bússola que é tanto mais preciosa quanto mais a tempestade histórica confunde a paisagem e o horizonte. E uma teoria que não contempla situações excepcionais – ou seja, precisamente aqueles contextos em que o poder atua em campo aberto – é uma teoria de pouca utilidade. De fato, o que devemos fazer com uma teoria que só é válida para a recreação, a ser posta de lado assim que a lição real começar?

A crítica radical da tecnociência torna-se essencial precisamente quando os ‘cientistas’ estão no poder. Não contemplar que o aparato técnico-científico se estende através de emergências e sempre afirma agir ‘para o bem’ – enviando medicamentos à frente para preparar o caminho para o controle e a guerra contra os vivos – é, se algo, uma falha nessa crítica, não sua refutação prática. Ou será que esperávamos que os biotecnólogos viessem nos dizer, talvez nas notícias, que estão trabalhando em uma nova eugenia?

O mesmo se aplica ao nacionalismo e ao militarismo. Como é amplamente conhecido que certas sirenes se tornam muito mais persuasivas quando o inimigo está às portas, seria bastante curioso argumentar que na guerra é preciso deixar de lado o antimilitarismo e o internacionalismo. Uma rejeição da guerra que só se aplica em tempo de paz seria, de fato, uma ideia de recreação.

O que devemos fazer de uma crítica à ciência para ostentar quando a ciência não perturba direta e brutalmente nossas vidas e as vidas dos outros? O que devemos fazer da oposição à guerra se ela se tornar inútil quando as bombas caem?

Tomemos outro exemplo. Recusar-se a participar de eleições não é um grande esforço. É bem diferente quando uma massa de insurgentes deposita sua confiança em você e clama por você para se juntar a um “governo interino”. É óbvio que você se sente menos corruptível do que outros. Mas sua teoria, segundo a qual o ponto não é a qualidade moral dos líderes individuais, mas a estrutura do próprio governo, realmente revela seu valor quando a entrada no governo se torna uma possibilidade real.

A necessária coerência entre meios e fins – que somente o anarquismo tem afirmado entre as correntes históricas do movimento proletário – torna-se ainda mais indispensável em uma época em que os meios atingiram um poder sem precedentes, cuja natureza cada vez mais totalitária se desdobra tanto em “paz” quanto em “guerra”.

Precisamente porque, nestes dois anos da Emergência Sanitária, sentimos dentro e fora o quanto a força da gravidade social pesa nas escolhas e no discurso cotidiano, podemos imaginar o turbilhão que os anarquistas e as anarquistas da Ucrânia estão hoje em dia.

Se seu dramático “O que fazer?” merece a mais fraterna atenção, não podemos permanecer em silêncio sobre algumas coisas básicas, mesmo sabendo – sem precisar de ninguém para nos lembrar – como é confortável falar longe das bombas. Mas precisamente porque certos debates se tornam quase impossíveis quando a guerra está em casa, devem ser feitas perguntas claras sobre onde ainda podem ser feitas. A população ucraniana, por outro lado, certamente não está à espera de nossa opinião para decidir como agir. Nosso peso como internacionalistas é tão leve que seria a gota d’água para colocar ideias erradas na balança.

Colaborar com o Estado ucraniano contra a invasão russa e tentar esculpir – dentro dessa colaboração – sua própria autonomia de ação é, em nossa opinião, um grave erro. Não apenas porque desta forma se contribui para a continuação da guerra, mas porque se luta, de boa ou má vontade, em nome da OTAN e do capitalismo ocidental.

Vamos entender isto. Longe de nós negarmos a violência do regime russo. Nossos camaradas russos torturados pelos serviços secretos ou pelos rebeldes cazaques reprimidos em sangue pelos soldados de Moscou nos lembram o que é viver sob aquele calcanhar de ferro. E é normal que nessas latitudes o poder estatal russo seja sentido mais diretamente do que a longa manus do imperialismo ocidental. Assim como vale a pena lembrar que diante da opressão nunca somos, como habitantes de diferentes partes da terra, completamente iguais que um ao outro.

Mas se há um país no Oriente onde é muito claro o que representa o jugo do FMI, e o que implica ter treinadores da OTAN em casa, é a Ucrânia. Enquanto vários milhões de ucranianos – e especialmente ucranianas – emigraram durante a última década para escapar da miséria, milhares de neonazistas foram armados, treinados militarmente pelos EUA e depois integrados ao exército ucraniano. Que o regime de Putin tem seus próprios objetivos de poder é certo. Mas que a maior responsabilidade pela guerra em curso é do imperialismo ocidental – que usou a Ucrânia e sua população como zona de guerra por procuração e como carne de canhão – é igualmente certo.

Uma escolha consistentemente internacionalista na Ucrânia de hoje implica em posições decididamente impopulares: denunciar as responsabilidades do “próprio” estado e do campo ocidental; exigir a paz em quaisquer condições (às custas, isto é, do governo e do exército ucraniano); opor-se à lei marcial e ao recrutamento forçado; apoiar todos aqueles que querem fugir; utilização de meios de luta e autodefesa contra o exército ocupante que vão além da lógica da guerra e das frentes, que podem então ser adotados como uma forma de insubordinação e resistência contra a criação de um possível governo fantoche pelo Kremlin; satisfação das necessidades de sobrevivência através da expropriação daqueles que se enriqueceram com a venda de riquezas ao capital ocidental.

Em poucas palavras: paz com o inimigo da nação a fim de aprofundar a guerra contra o inimigo de classe, contra o qual se pode virar a raiva de uma população que agora se sente abandonada pela OTAN e pelo Ocidente.

Colaborar com o exército – e, portanto, com o governo – não significa apenas se subordinar a interesses opostos aos próprios e fortalecer a turma de Zelensky; significa não apenas ser esmagado ou absorvido pelas esmagadoras forças nacionalistas e locais, mas implica aceitar os meios de combate (foguetes, mísseis antitanque, etc.) que provocam em resposta mais bombardeios, destruição de casas, mortes de civis, riscos de derramamento de radiação nuclear.

A “paz a qualquer custo” (incluindo a anexação russa de territórios do Donbass ao Mar Negro) não significa aceitar passivamente a bota de ferro russa, mas responder a ela com insubordinação social (se necessário, com guerrilha), fora do campo e do armamento da OTAN, em coordenação e solidariedade com as lutas na Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e outras partes do mundo, que encontrariam nesse protagonismo de baixo um exemplo a seguir contra os senhores de todas as facções beligerantes.

Perseguir a derrota militar do ocupante, por outro lado, implica um chamado da OTAN às armas, ou seja, um cenário (potencialmente nuclear) de guerra mundial; “fazer o exército russo pagar a conta mais pesada possível” significa arrastar a Ucrânia para uma enorme tragédia de destruição e morte. Este certamente não é o heroísmo que a emancipação social precisa.

Intenções impopulares? Definitivamente.

Com que forças para implementar tal derrotismo? Nós não sabemos.

Nunca as palavras do poeta foram mais válidas do que diante das catástrofes que este mundo está preparando para nós:

Não nos peça a fórmula que os mundos podem abrir para você

Sim, algumas sílabas tortas e secas como um ramo.

Isto só hoje podemos dizer-lhe

o que não somos, o que não queremos.

Um anarquista antimilitarista

Fonte: https://ilrovescio.info/2022/03/23/8707/

Tradução > Liberto

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poesia sem inspiração.
a culpa, certamente,
é a mudança da estação.

Lineu Cotrim

[Fortaleza-CE] Feira Punk

Aí punx e afins, depois de uns dias amargando o block do faceshit voltei a interagir com os demais e trazendo novas conspiras entre os punx e afins. Será mais uma edição das nossas já conhecidas feiras punx, e dessa vez vamos levar nossas inquietudes pro espaço contra-cultural LAS CRIAS CULINÁRIA VEGAN, com uma programação bem marota pra energizar nossas dissonâncias, deboches e desprezo pelo convencional e o status quo dessa sociedade falida. Então se agiliza e vem conspirar com essa horda de seres desajustados e profanos, afinal o punk só se mantém vivo e ativo em movimento.

Por fim, agradecer a galera que chegou junto e somou com o corre da exposição fotográfica ZONA PUNK AUTÔNOMA. Sem o apoio de vocês essa exposição não seria possível. A movida agradece.

FASCISTAS, MACHISTAS, RACISTAS, HOMOFÓBICOS, TRANSFÓBICOS E SEXISTAS NÃO SERÃO TOLERADXS!

agência de notícias anarquistas-ana

É quase nada
a cara da libélula:
somente olhos.

Chisoku

[Espanha] Obituário: Antonio Morales Rey

Esta manhã (30/05) faleceu o companheiro Antonio Morales Rey, de Jerez de la Frontera, militante da CNT desde 1979.

Antonio era uma pessoa humilde, mas um dos imprescindíveis; rara vez faltava a algum encontro da organização e sempre estava se esforçando.

Criou-se num condomínio popular de San Juan de Dios de Jerez, em um contexto extremo de miséria e marginalidade. Trabalhou desde criança e em tudo: apertador de botões, de padeiro, de pedreiro, de encanador, de diarista… até que suas dificuldades visuais o levaram a trabalhar na ONCE. Quando jovem militou na Juventude Obreira Cristã, mas logo suas inquietudes e a de seu grupo de amigos o levou a separar-se dos curas e a militar nas fileiras do anarcossindicalismo.

Pessoa generosa e apaixonada, Antonio foi famoso por seus protestos nudistas contra os bancos, ou por suas irrupções escandalosas aos gritos em reuniões dos sindicatos apelegados.

Sempre esteve nos momentos bons e difíceis para qualquer companheiro/a que o necessitasse. De acordo com sua generosidade vital, em 2020 doou um local à FAL (Fundación Anselmo Lorenzo) na localidade jerezana, para poder aprofundar no trabalho cultural e educativo em prol da Ideia.

Desde aqui abraçamos a sua companheira, Juana, e a suas filhas, e a Antonio lhe dizemos: Que a terra te seja leve, companheiro.

cnt.es

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Na tarde sem sol
folhas secas projetando
sombras em minh’alma.

Teruko Oda

[Chile] Grupo anarquista reclama a responsabilidade pela explosão de uma bomba de ruído em uma delegacia de polícia em Puerto Montt

O Ministério Público está investigando o incidente no sul do país. A Delegada Presidencial, Giovanna Moreira, apresentou uma reclamação invocando a Lei Antiterrorista.

Um grupo anarquista chamado “Negra venganza, Núcleos de Melipulli José Huenante” reivindicou a responsabilidade pela instalação de um dispositivo explosivo que detonou fora do quartel da Oitava Delegacia de Controle da Ordem Pública de Carabineros em Puerto Montt. O incidente ocorreu na noite de quarta-feira, 25 de maio.

A organização divulgou as informações através de sites e redes sociais. Eles declararam que “na noite de 25 de maio de 2022, deixamos uma surpresa explosiva na delegacia de polícia das forças especiais de Melipulli”.

A carta também se refere ao fato de o evento estar relacionado ao desaparecimento de José Huenante, que ocorreu em 2005. “Quase 17 anos se passaram desde aquela noite, quando José Huenante, um jovem Mapuche desaparecido pelos Carabineros do Chile, foi levado embora. Quase 17 anos se passaram e hoje, em um gesto de memória e vingança, estamos atacando um de seus esconderijos”, diz parte do comunicado.

“Sabemos que nenhum dos envolvidos no desaparecimento de José trabalha nesta delegacia, mas ela faz parte da nefasta instituição”, disse a declaração do grupo anarquista.

Procuradoria seguirá com trabalhos de investigação

O promotor Marcelo Maldonado explicou que a investigação está em andamento e que a atribuição do ataque não significa que a investigação esteja encerrada.

“É importante notar que se um ataque é assumido, não é isto que nos faz, como Ministério Público, estabelecer a participação. Ao contrário, como já assinalamos, são os elementos científicos. As provas que podem ser extraídas da análise que o pessoal especializado realizou no local”, disse o promotor Maldonado.

“Como resultado, equipes especializadas dos Carabineros de Santiago estão apoiando a investigação do Ministério Público, a fim de identificar e localizar aqueles que instalaram e detonaram um dispositivo explosivo”, disse o General Carlos López González, chefe de zona dos Carabineros.

Delegação Presidencial de Los Lagos

Por sua vez, a Delegada Presidencial Regional, Giovanna Moreira, informou que apresentou uma reclamação por este ato, apelando para a Lei Antiterrorista.

“Queremos reiterar nossa total e absoluta rejeição a qualquer ato de violência em nossa região. O Ministério do Interior apresentou uma queixa com base na Lei Antiterrorismo contra os responsáveis pelos eventos que ocorreram nas proximidades da 8ª Delegacia de Polícia em Puerto Montt. Instruímos o Ministério Público a tomar todas as medidas necessárias para esclarecer estes fatos”, disse a autoridade.

Para a representante do Presidente Boric na região, esses eventos “não constituem instâncias de diálogo em um país democrático e não são o caminho do diálogo e consenso que o país necessita”.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

Silêncio:
cigarras escutam
o canto das rochas

Matsuo Bashô

[Itália] International Society of Proudhonian Studies

para as barricadas

International Society of Proudhonian Studies (ISPS) é uma comunidade de investigação e intercâmbio de ideias fundada por Juan Pablo Macías que discute e atualiza o legado intelectual do economista e político francês Pierre-Joseph Proudhon (Besançon 1809 – Paris 1865).

Apresentada no sábado 28 de maio de 2022 em Villa Romana (Florência) no marco de Manifestiamo, a sociedade internacional está criando uma biblioteca especializada no pensamento anarquista que serve de ferramenta para analisar e decifrar conceitos como a liberdade, a justiça, a criação, a produção e a descentralização do humano.

Na apresentação interviram: EdouardJourdain, que esboçou os fundamentos e o desenvolvimento do pensamento filosófico de Proudhon; Franco Bunčuga que falou da relação entre o pensador francês e o artista Courbet e Massimo Mazzone que analisou a influência das teorias proudhonianas no mundo das artes desde Duchamp até o dadaísmo, passando pelo situacionismo e chegando às recentes experiências de autoconstrução. Projetaram-se partes de três filmes emblemáticos como Non toccare la donna bianca de Marco Ferreri, Themroc de Claude Faraldo e La proprietà non è piùun furto de Elio Petri.

Proudhon foi um crítico do sistema capitalista sem teorizar a abolição da propriedade privada, até sua difusão entre todos os trabalhadores. No entanto, longe do modelo comunista – que escravizava o indivíduo às necessidades da sociedade – se inspirou, por ventura, no pensamento libertário. Considerou que a propriedade privada é um roubo quando produz renda e expropria o trabalhador do valor produzido. Os trabalhadores devem ser capazes de autogestionar o processo de produção através de uma reorganização da economia e seus modelos, criando uma pluralidade de centros que se equilibrem e ajudem mutuamente. Só assim se pode garantir a justiça e a liberdade.

Matteo Binci

Fonte: http://alasbarricadas.org/noticias/node/48421

agência de notícias anarquistas-ana

Mosaico no muro.
O gato ensaiando o pulo.
Azuis borboletas.

Fanny Dupré

[Espanha] Ordesa arde enquanto se pretende desmantelar a operação de combate a incêndios de Aragão

A CGT-SARGA denuncia que nem o Governo de Aragão, especificamente a Diretoria de Manejo Florestal, nem a SARGA, a empresa responsável pela maioria do pessoal dos meios de extinção de incêndios, são capazes de lidar com o manejo da mudança climática em termos de incêndios florestais.

Eles explicam que um dos efeitos da mudança climática é a dessazonalização dos incêndios florestais, ou seja, que eles ocorrem fora do período habitual devido a mudanças climáticas como menor precipitação, ou altas temperaturas e trovoadas mais cedo do que em outros anos.

A organização afirma que um exemplo disso é o incêndio florestal que ocorreu no município de Fanlo. Um incêndio deflagrou no domingo 22 de maio, causado por uma trovoada após uma tempestade. O incêndio foi extinto naquele mesmo dia após queimar 1 hectare. Durante a semana passada, a vigilância foi mantida na área, mas na quinta-feira 26, o incêndio foi reativado, exigindo a intervenção de bombeiros e equipes terrestres e de helicópteros das 3 províncias, bem como a ativação de outros recursos aéreos, dois hidroaviões, dependentes do Ministério de Transição Ecológica. Os recursos de combate a incêndios da SARGA continuam a trabalhar no incêndio, que já queimou mais de 40 hectares, pois ainda não é considerado extinto.

A CGT-SARGA alerta para o perigo do patrimônio florestal aragonês, não só por causa deste incêndio, que se localiza na área do perímetro do Parque Nacional da Ordesa, mas também por causa da terrível gestão realizada pela própria DGA e SARGA.

Precisamente neste ano, a Diretoria Geral de Manejo Florestal está propondo uma mudança no modelo da Operativa de Prevenção e Extinção de Incêndios Florestais de Aragão, uma mudança que visa resolver certas situações de precariedade histórica em torno desta operação, ao custo da eliminação de 5 equipes completas.

A CGT-SARGA afirma que a operação de combate a incêndios obviamente requer uma mudança que elimine a precariedade existente, mas eles denunciam que isto nunca deve ser feito desmantelando a operação com a eliminação de 35 empregos, e com o que isto implica, a redução de elementos disponíveis para agir em caso de incêndio, áreas desprotegidas que estão atualmente cobertas e aumentando o tempo de resposta.

Eles também acrescentam que as negociações com a empresa SARGA estão se tornando cada vez mais complicadas, mesmo inexistentes, devido à posição fechada mantida pela administração da empresa. Em março, a empresa e os sindicatos se reuniram para discutir a questão das férias do pessoal operacional, até o momento impostas pela empresa. Enquanto os sindicatos propuseram um grau de flexibilidade em termos de pessoal, o que também garantiu que todas as equipes permanecessem ativas durante toda a campanha, a empresa manteve sua proposta fechada de direito a férias “em bloco”, ou seja, todos os membros de cada equipe ao mesmo tempo, com cada equipe ficando inativa. As negociações fracassaram e a empresa passou a impor esta fórmula à operação.

Os representantes da CGT-SARGA denunciam que esta decisão afetou a gestão caótica do incêndio do Fanlo, pois grande parte dos elementos da província de Huesca estão atualmente desativados porque estão desfrutando suas férias “em bloco”, de modo que outras tripulações da província tiveram que vir de áreas tão distantes como Peñalba, Monzón ou Enate, descobrindo suas próprias áreas que, com as condições atuais de chuvas e temperaturas, também estão em alerta. As equipes de Zaragoza e Teruel até tiveram que agir.

A CGT-SARGA alerta para o perigo iminente em que tanto o território florestal como o campo aragonês se encontram, nas mãos de um Governo de Aragão e de uma empresa pública sem capacidade de gerenciar esses graves problemas, e insta ambas as instituições a abandonarem a política de contar com a sorte, que até agora as tem acompanhado, e começarem a realizar uma gestão séria e responsável que garanta a segurança da floresta aragonesa e do pessoal que nela trabalha todos os dias. Eles acrescentam que Aragão merece uma operação profissional e estável dos Bombeiras e Bombeiros Florestais, e que isto requer vontade política real e um orçamento suficiente, e não fórmulas precárias ou cortes de pessoal, como este grupo tem sofrido historicamente. Concluem afirmando que os partidos governamentais que afirmam ser de esquerda devem dar o exemplo com suas políticas e não tanto com seus discursos.

Fonte: https://rojoynegro.info/articulo/ordesa-arde-mientras-se-pretende-desmantelar-el-operativo-de-incendios-de-aragon/

Tradução > Liberto

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um ponto vem do horizonte,
vira pássaro, desce e pousa;
a árvore o repousa.

Alaor Chaves

Memória | A voz feminina da revolução!

Por Marcolino Jeremias

Em destaque, foto de uma jovem trabalhadora falando durante um comício, no dia 1 º de maio de 1927, organizado pela Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ), na Praça 11 de junho.

Segundo a imprensa [da época], o discurso dessa operária constituiu um dos mais vibrantes manifestos durante o Primeiro de Maio daquele ano.

No comício também falou o anarquista negro Domingos Passos que havia conseguido retornar naquele ano da Colônia Penal de Clevelândia (na prática essa prisão em Oiapoque/Amapá funcionava com um verdadeiro campo de concentração e de extermínio no Brasil).

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tocar sobre teu corpo
ao silêncio das estrelas
um acorde de guitarra

Lisa Carducci

 

Entrevista | “O punk em grande medida fez de mim o rebelde que sou”

A seguir, primeira parte da entrevista com Antônio Carlos de Oliveira, ex-participante do movimento punk, anarquista, professor de história e membro do Centro de Cultura Social (CCS) de São Paulo (SP) e do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA).

Agência de Notícias Anarquistas > Para começar, quem é Antônio Carlos de Oliveira?

Antônio Carlos de Oliveira < Sou um feliz e orgulhoso pai de três competentes, lutadoras e lindas mulheres: Daniela, 38 anos, mãe do Mateus, meu neto de 14, Isabel de 30 e Alice de 19. Apesar de dependente químico em recuperação (tenho uma doença incurável que tem tratamento) vivi mais que toda minha família, irmão, pai e mãe, que já faleceram.

Sou professor de história em uma escola estadual na periferia da Zona Leste de São Paulo, mesmo bairro onde minha família tem casa há mais de 53 anos e resido. Tive a oportunidade de trabalhar em um curso de extensão universitária para professores na PUC/SP/COGEAE. Na Ação Educativa em um projeto na Cidade Tiradentes, no CEDECA – Centro de Defesa das Crianças e Adolescentes Monica Paião Trevisan no Parque Santa Madalena, na favela do Jardim Elba, e no internato Lar Sírio Pró Infância, no Tatuapé, trabalhando com jovens retirados por ordem judicial de suas famílias.

Adoro ler. Escrevo um pouco, falo muito. Publiquei os livros “Projetos pedagógicos, práticas interdisciplinares“, “Os fanzines contam uma história sobre os punks” e “Punk – memória, cultura e história”, de vez em quando publico em algum fanzine, site, blog, revista científica ou livro.

ANA > E você têm planos de escrever outros livros?

Carlos < Planos? Muitos, tempo, pouco. Gostaria de escrever sobre paternagem. A relação entre as experiências das greves de 1917 em São Paulo e a questão da organização por bairro (desejo antigo). Penso na chegada dos anarcopunks ao Centro de Cultura Social (CCS) no início dos anos 90. Muitos projetos, pouco tempo.

ANA > E como você chegou ao anarquismo?

Carlos < Cheguei pelo punk, inicialmente de uma forma confusa, depois com os zines e as sugestões de leituras que traziam as coisas ficaram um pouquinho mais claras.

Em 1985 fui ao CCS, não entendi muito bem as coisas que falavam. Frequentei de forma esporádica até que em 1988 me associei ao mesmo.

Importante destacar que me sindicalizei no Sindicato dos Sapateiros em 1979, depois veio o punk e o movimento estudantil. Quando cheguei no CCS em 1985 era metalúrgico associado ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, tinha uma pequena noção de aspectos da política e da política partidária.

O CCS dessa época era frequentado por pessoas de diferentes idades, condições sociais e formação. Tinha uma geração de homens e mulheres de idade já relativamente avançada, muitos vindos de Portugal, Espanha e Itália. Cada vez que uma dessas pessoas falava era quase uma palestra a parte.

Pensem, nós jovens, lendo, entre outros, sobre a história, filosofia, economia anarquista e tendo como interlocutores pessoas que lutaram contra o fascismo, o nazismo, que vivenciaram a Revolução Espanhola. Tinha a literatura e elas questionando, relativizando essas histórias da literatura. Ficávamos entusiasmados com a experiência espanhola, contudo, os velhos traziam uma série de contradições, limitações dessa experiência.

O velho Carlo Aldegheri, contou em sua casa, a história de quando morava na aldeia, em assembleia combinaram de trazer suas roupas para um galpão, de lá cada um tiraria o que fosse necessário, assim todos estariam vestidos e agasalhados. Segundo disse, viu gente que não trouxe e outros que tiraram mais do que era necessário. O Carlo foi uma das pessoas que contribuiu para eu rever minhas impressões sobre o anarquismo, reafirmar minhas convicções.

O velho Martins, uma vez conversávamos sobre a questão da violência revolucionária, ele trouxe um livro, infelizmente não recordo o título, que questionava a adesão dos anarquistas ao exército republicano, também da opção pela violência como estratégia de luta.

É fato que era frequentado por muitos alunos e professores universitários, porém a relação com esses também era diferente. Uma vez o Jaime nos disse que a verdadeira defesa de tese era feita no CCS, ali era o crivo para eles saberem se de fato fizeram ou não uma pesquisa consistente sobre o anarquismo. Não tinha esse lance de professor universitário “especialista em anarquismo” perguntar de forma arrogante se já tínhamos lido isso ou aquilo.

Na sua maioria os frequentadores eram autodidatas, eles estariam ferrados se fizessem esse tipo de pergunta. Não porque seriam destratados, mas aquelas pessoas lembrariam a eles onde estavam e com quem falavam.

Essa era a cara do CCS na época, um espaço que não se colocava como anarquista por saber que nem precisava, era reconhecidamente anarquista.

Com isso não estou criticando o CCS de hoje, sou parte do CCS, assim como do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA). Eram outros tempos, outro contexto, outras pessoas. Brinco sempre, sou uma pessoa não só do século passado, mas do milênio passado. Não tínhamos acesso à literatura, a formas de comunicação com pessoas que vivenciam tantas experiências diferentes como hoje; o CCS tinha um jeito marcante para todas as pessoas que de fato o vivenciaram.

Hoje é diferente, eu sou o que caminha a passos largos para ser o velho (risos) e não me vejo tão preparado como eles.

ANA > Ser anarquista dá trabalho? (risos)

Carlos < Sei lá, afinal o que é ser anarquista? Acreditar em uma filosofia? Em uma utopia? Que um outro mundo é possível? Que precisa ser cotidianamente construído e reconstruído num esforço contínuo de viver esse projeto utópico? De planejar, agir, avaliar, planejar e assim sucessivamente? De viver na prática o máximo desse anarquismo desejado? Certa vez o Sergio Norte, entre muitas coisas marcantes que escreveu e falou, disse: “sou um romântico, acredito em revolução, em utopia”.

O que dá trabalho é ser coerente entre o que acredito, falo e prático. Aprender é um ato contínuo, logo sei que sou uma pessoa em constante construção e reconstrução, consequentemente conhecer mais sobre o anarquismo e a questão social é uma constante.

Ser coerente entre o que acredito e prático é a grande questão. Voltamos ao velho Carlo e a história da aldeia. O Martins e a defesa da violência ou não como estratégia revolucionária.

Ser anarquista é difícil na relação com os que não são – e olha que MUITAS vezes é o contrário (risos). Quando falo sobre o que pensa e propõe o anarquismo a maioria concorda, porém quando chega em tabus como não acreditar que participar do processo eleitoral votando em políticos mudará a ordem das coisas, sociedade sem um Estado onipotente, onisciente, onipresente, causador de toda essa desorganização social, que privilegia a classe que o domina, o anarquismo então passa a ser uma utopia, algo irrealizável, impraticável. Às vezes sinto que me olham como se fosse um coitado: “ah! Coitado, ele é bacana, comprometido com as lutas que vivencia, porém nunca verá seu ideal realizado”, foda.

Felizmente existem exceções. Noutro dia numa conversa com algumas pessoas jovens, um foi mais incisivo, insistente e disse: “tá, mais qual a sua, responde anarquista”, “que bosta você não acredita em leis ou em governo”. Então uma colega dele disse: “mas são as leis e governo que causam essa confusão que vivemos”. Quase chorei, uma jovem de 16 anos com uma reflexão tão pertinente.

ANA > E é perigoso ser anarquista? Não sei, mas me parece que os “velhos anarquistas” eram mais corajosos, ousados, corriam mais riscos… O anarquismo para eles e elas era efetivamente uma ferramenta de luta, de enfrentar o poder… Enfim…

Carlos < Ser anarquista de fato tem seus perigos, porém acho que o problema pode ser de outra ordem, exemplo: essa “militância” digital, o academicismo estéril, o distanciamento de muitos anarquistas com os movimentos sociais e os espaços de luta, o distanciamento dos anarquistas dos próprios anarquistas.

Por tudo que lemos, observamos que a militância no passado era uma coisa que invadia a vida das pessoas que participavam do movimento, os piqueniques, os saraus, os encontros informais são tão ou mais importantes que as atividades públicas, perdemos muito dessa capacidade e desejo de convivência.

ANA > O que representa o punk e o CCS para você e também para a identidade anarquista brasileira?

Carlos < No momento que vivenciei o punk ele deu um sentido a minha revolta juvenil, sugeriu um caminho. Foi de fato meus primeiros passos para o conhecimento no sentido amplo da palavra. Me proporcionou aprendizados de organização super importante. O punk em grande medida fez de mim o rebelde que sou e gosto de cultivar em mim mesmo.

Repito sempre uma frase do fanzineiro e professor Renato Lauris Jr.: “O punk é a escola e o fanzine é a apostila que o aluno faz para estudar”.

Quando me aproximei do CCS e caminhei na direção de ficar, era o momento em que o punk em SP estava comprometido pela violência que vivenciava, o crescimento de grupos que já se mostravam, pelas atitudes violentas, machistas e homofóbicas, uns fascistas, tendo cabeça raspada ou não.

Admiro os que continuaram e os que se identificaram como anarcopunk. O anarcopunk modificou boa parte do anarquismo, o trouxe para próximo de pautas mais relevantes para aquele contexto. Trouxe uma alegria e um entusiasmo que faltava ao anarquismo.

É importante que fique claro, esse comentário não é uma crítica aos homens e mulheres que citei do CCS, jamais, porém a diferença entre as gerações criava esse hiato, esse intervalo na ação sobre o tempo presente. Dificilmente encontraremos um punk que vivenciou o CCS e não fale dos velhos com carinho, respeito e admiração. A foto do Jaime em Santos, na Baixada Santista, no meio dos anarcopunks é um quadro muito bom daquele momento.

Enfim, foi no CCS que conheci profundamente o anarquismo e naquele momento esse fez sentido para aquilo que desejava em termos de vida, de engajamento, de ação.

A identidade anarquista hoje, pelo menos em SP, para não citar outros estados, tem muito do movimento punk, anarcopunk, hardcore, straight edges. Eles estão nos grupos, chegaram às universidades, produzem música assim como escrevem textos, estão nos encontros, nos bate papos, animam o movimento. As minas do anarcopunk ao romperem com uma série de limites dentro do próprio movimento anarcopunk deram uma lição da necessidade das pessoas homens cis, como eu, se reverem e ao anarquismo, suas posturas, atitudes. Puta aprendizado, para quem quer aprender.

ANA > Percebemos que na internet somos milhares de anarquistas, postagens no Facebook com centenas de “curtidas”… Mas no mundo real, no local de trabalho, de estudos, nas ruas… somos poucos atuantes. Como você analisa este fato? Não é muita contradição, pouco compromisso?

Carlos < Me faço essa mesma pergunta. Às vezes vejo alguma atividade com uma porrada de curtidas, porém, quando você comparece, são as mesmas pessoas em número sempre bem menor que o número de curtidas.

Por outro lado, vejo muita gente falando do anarquismo, das coisas que leem, dos debates que participam. Ótimo! Porém gostaria de ver, ainda que em proporção menor, as pessoas comentando da luta em seu local de trabalho, de moradia, de estudo.

Eu me propunha a falar sobre o anarquismo, com mais frequência, sempre a partir daquilo que vivencio, depois de um tempo tive a sensação que as pessoas querem ouvir resultados de pesquisas acadêmicas. Nada contra, contudo não sou um pesquisador, no sentido estrito da palavra, estudo para entender como lidar com os problemas que vivencio, isso não obrigatoriamente resultará em um artigo científico. Nem tenho tempo para toda essa produção. É trabalhar na escola e em casa, estar com a família, com as pessoas que gosto de estar junto.

Trabalhar na escola é estudar muito, é pensar se o vocabulário que uso é adequado, se as imagens e filmes que escolho tem o tempo adequado, se consigo fazer a relação entre o que sugiro discutir e o cotidiano, se fazem sentido para esse jovem morador da periferia. Cuidar da casa ou estar com as pessoas que gosto é estar com elas e não com o celular. Isso sim dá trabalho, é dedicação, tempo, cuidados.

As pessoas que não vivenciam um espaço autônomo ou anarquista não têm noção da quantidade de trabalho, tempo e dinheiro que empregamos para manter essas iniciativas. Isso daria um bom número de parágrafos.

Não precisa ser uma palestra, nem deveria, e sim um bate papo, trocar experiências, aprender um com o outro, ver como o outro conseguiu lidar com coisas que ainda não consigo.

Quem sabe dessas conversas surgem propostas de ações conjuntas, construir intervenções de baixo para cima? De forma autônoma?

Vejo a mesma preocupação em um monte de companheiros e companheiras no CCS e fora dele. Conheço pessoas super inteligentes pós graduando nisso ou naquilo, um povo fudidão na academia, quando batemos papo é só isso, um papo, no meio da conversa alguém comenta: “Mas você já leu isso? Não? Quer que mande uma cópia” sem cobrança, sem expectativa a não ser contribuir com o outro.

Sempre que falo em algum lugar pergunto para alguma pessoa próxima “falei muita merda?”, às pessoas respondem onde deixei passar algo, o que não ficou claro, porém dizem, é legal ouvir você falar, fala como a gente. Para não ser deselegante não vou citar o nome de ninguém e esquecer pessoas importantes, tem um monte de gente inteligentíssima assim, simples. Isso faz falta.

Trabalho em uma escola há quase 30 anos, nesse ano tenho feito reuniões com xs alunxs lgbtqiapn+, percebi como estavam isolados e sofrendo uma série de agressões, me propus a contribuir com o que conheço, possíveis formas de organização na escola, tenho aprendido muito com elxs.

Esse grupo por conta de todas as formas de agressão e preconceitos que vivem não são receptíveis as pessoas que vem de fora, vou vencendo resistências. Estamos em uma escola na periferia que atende muitos alunos de favelas, invasões e mutirões. Em muitos momentos a coisa da violência é pesada.

Cristãos conservadores são maioria. Então para tudo é necessário muita articulação, negociação, ponderação.

Professor que defende o racismo reverso, que dá bronca porque “a menina não senta como deveria”, “que se refere à homossexualidade como homossexualismo”, que ameaça com retenção, que nos bastidores chama aluno de bandido e traficante, etc.

Chegou um assumidamente bolsonarista e a coisa só piora, sugeriu fazer um debate tipo café filosófico, um povo evangélico adorou, no fim e no fundo não são tão diferentes. Não percebem que para esse pessoal debater, é aceitar o ponto de vista deles. Não tem diálogo crítico, reflexivo, é o que é e ponto. Então dão palanque e megafone pra fascista. Numa escola com muitos homofóbicos, machistas, sexistas, racistas assumido e enrustido, basta isso para aproximar um do outro, para fortalecê-los e a ação deles. Entre os professores uns poucos entendem o problema, então vamos abrindo conversas com eles; nesse grupo de alunxs a conversa faz mais sentido e começamos a combinar formas de ações.

De um lado é isso, de outro tem os problemas da desorganização profissional da categoria de professores, do descrédito no sindicato oficial, porém que não veem outras formas de organização, de luta. Nova frente de luta, outros interlocutores.

No bairro um pessoal ameaçando ocupar uma das poucas áreas verdes que ainda existem, entendo o problema da falta de moradia, porém temos uma luta de 20 anos para fazer ali um parque linear, criar alternativas para lazer e esportes. Outra frente de luta outros interlocutores.

O baile funk que às vezes começa na sexta e se estende até o domingo ao meio dia é um problemão, as pessoas da proximidade e do entorno não dormem, como ter um espaço em que essa juventude possa curtir seu som, sem dificultar a vida do trabalhador? Nem é só o baile, mais de um já caiu desacordado na porta de casa, não tem como não prestar algum tipo de socorro, achamos normal uma galera super jovem consumir os mais diferentes tipos de substâncias químicas até cair? O número de mortes por consumo de lança perfume é altíssimo. Muitos vizinhos acham que a polícia dar porrada e soltar bomba resolve. Como dialogar com o pessoal que organiza o baile e ao mesmo tempo os vizinhos e pensar em alternativas viáveis? E o bar vizinho a minha casa que fica com o som alto todo dia, outro problema?

A literatura anarquista não contempla isso, o anarquismo não faz essas discussões. Esperamos a redentora revolução social para discutir isso? Esses não são temas relevantes para o anarquismo? Então a vida não é relevante para o anarquismo!

Anos atrás mantínhamos uma horta em frente de casa, com a mudança do meu avô isso passou para outro vizinho e hoje não existe. Serviu de fonte de complemento alimentar para muitas pessoas, isso não é importante? Como associamos a produção dessa horta com outras lutas no bairro? De falta de trabalho, por exemplo?

Se não consigo fazer uma leitura anarquista dessas diferentes realidades e sugerir formas de ações horizontais, autônomas, não tradicionais, que anarquismo é esse que acredito, defendo e prático?

Essas são conversas que me instigam, dão tesão, motivam, impulsionam, para procurar conhecer mais, encontrar pessoas que vivam experiências que possam somar. Falar sobre essas lutas me anima, conhecer pessoas que estão na mesma pegada, instiga.

Então é isso, se para alguns as redes sociais são seu campo de luta, parabéns, as redes sociais são importantes para divulgar atividades, encurtar distancias, em último caso realizar reuniões e atividades com os que estão distantes. No meu caso a luta é ali, é estar junto, pensar junto, agir junto, talvez, nem sempre na mesma velocidade, porém sempre buscando a mesma direção.

Nos anos 90 tinha uma frase muito legal: “Revolucionar o cotidiano para cotidianizar a revolução!”

ANA > É fato que o anarquismo é invisibilizado na grande imprensa (falada, escrita, televisada), raramente vemos algo abordando este tema sendo divulgado, uma opinião… Por outro lado, na academia não é bem assim, o anarquismo não é tão maldito, esquecido… Você acha que nos últimos tempos o anarquismo vem avançando nas faculdades, universidades?

Carlos < Em relação à grande imprensa é fato, o anarquismo é invisibilizado, no passado talvez menos na imprensa escrita, porém na TV e outros meios parece que não existe.

Quanto à academia, calma. Temos companheiros e companheiras anarquistas que pesquisam o anarquismo e tem relação com o movimento, são militantes, mantém relação de companheirismo. Temos pessoas simpáticas ao anarquismo que o pesquisam e não tem relação com o movimento, ainda que pontualmente colaborarem de alguma forma. Temos pesquisadores que descobriram um conjunto de temas interessante relacionados ao anarquismo, após suas defesas de teses sua relação com seu objeto de estudo acaba. Respeito a todos, atendo a todos, contudo, procuro estar com os primeiros.

Continuará…

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beija flor perplexo
sem encontrar umidade
nem no bebedouro…

Haruko

[Itália] Caixa automático destruído em solidariedade com todos os anarquistas encarcerados

11 de maio – Caixa automático de uma sucursal do banco Intesa-San Paolo destruído a marteladas em Via Rapisardi, Milão.

Esta ação tem como objetivo golpear um dos muitos especuladores envolvidos na guerra da Ucrânia. Intesa-San Paolo, o principal banco italiano, está presente na Rússia com 28 sucursais, possui ativos no valor de 1.300 bilhões, concedeu empréstimos de mais de 5.000 milhões a empresas russas e possui mais de 50 milhões em bônus do Estado. Em 2017 comprou 19% do capital social da Rosneft, um gigante petroleiro russo. Controla o banco Pravex na Ucrânia. Atualmente está realizando uma revisão estratégica para enquadrar seus lucros com as sanções ocidentais.

É necessário sabotar a guerra lançando ataques contra nossos próprios capitalistas e belicistas, rechaçando as mobilizações do pacifismo civil.

Junto aos que lutam se rebelam e não se rendem.

Máximo apoio a Alfredo Cospito, recentemente posto sob o regime do 41bis.

Solidariedade com todos os anarquistas encarcerados na Itália, Chile, Grécia, Inglaterra, Espanha, Rússia, Bielorrússia, etc.

Não há paz – Guerra ao poder

Fonte: https://ilrovescio.info/2022/05/20/milano-distrutto-un-bancomat/

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as pálpebras do gato
ao ritmo das gotas
do candelabro

Valentin Busuioc

[Espanha] CGT obtém maioria absoluta nas eleições de Primark (Torrejón de Ardoz)

Em 27 de maio de 2022, as eleições sindicais foram realizadas na loja que a multinacional britânica Primark tem no centro comercial Parque Corredor, em Torrejón de Ardoz.

Não há dúvida de que o trabalho duro compensa e durante todo o dia de votação houve alegria entre o pessoal, mais de 100 pessoas, a maioria delas mulheres em meio período. O apoio à CGT foi palpável, explicado pelo forte reconhecimento do trabalho realizado por esta jovem seção sindical.

Com uma participação muito elevada, a CGT obteve um grande resultado nestas eleições:

CGT: 50 votos; 6 representantes no Conselho de Trabalho.

CCOO: 28 votos; 3 representantes no Conselho de Trabalho.

Houve 3 votos em branco e 1 voto inválido.

A partir de hoje Estela, Tania, Beatriz, Sergio, Esther, Patricia e Cristina continuarão a trabalhar no novo comitê deste centro de trabalho que une as maiorias em outras empresas do setor do Comércio que o Sindicato da Alimentação, Comércio, Restauração e Tabaco de Madri da CGT está começando com o trabalho nos últimos tempos.

Outras lojas Primark estão ansiosas por este processo e, sem dúvida, esta vitória não será a última, dado que o trabalho das seções da CGT está sendo reconhecido pelo pessoal, unindo forças em um setor precário que quer melhorar suas condições de trabalho.

Fonte: https://rojoynegro.info/articulo/cgt-obtiene-mayoria-absoluta-en-las-elecciones-de-primark-torrejon-de-ardoz/

Tradução > Liberto

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Sopra o vento
Pássaros correndo
Atrás de sementes

Rodrigo de Almeida Siqueira