[Itália] Lançamento | E. Malatesta: Obras Completas – FRENTE ÚNICA DO PROLETÁRIO

No dia 27 de dezembro de 1919, as sirenes do porto de Gênova chamaram os operários para dar as boas-vindas a Errico Malatesta, que havia retornado à Itália apesar das travessuras do governo. Um vento de revolução sopra no proletariado italiano. Malatesta imediatamente mergulhou em uma intensa viagem de propaganda, acolhida em todos os lugares pelo entusiasmo popular, e em fevereiro de 1920 assumiu a direção do jornal anarquista Umanità Nova em Milão. Exorta os proletários a se unirem em uma frente única que dá início à revolução de expropriação e a agir de forma autônoma, mas coordenada, tanto no ato insurrecional quanto no período posterior à revolução. No jornal, ele discute os problemas da reconstrução pós-revolucionária, critica o bolchevismo e esclarece o caminho libertário para o comunismo. Durante a década de 1920, as oportunidades de insurreição não faltaram, culminando com a ocupação das fábricas em setembro, mas a resistência dos socialistas as frustrou. Com o abandono das fábricas e a enganosa conquista do “controle operário” começa a parábola do movimento operário e da reação que levará o fascismo ao poder em dois anos. Em outubro, Malatesta e outros são presos. Eles foram julgados e absolvidos apenas em julho de 1921 e Malatesta mudou-se para Roma, a nova sede do Umanità Nova, onde se engajou na luta antifascista em vão. Após a ascensão de Mussolini ao poder e o fechamento do jornal, Malatesta retorna ao seu trabalho como eletricista e continua o esclarecimento das ideias anarquistas na imprensa sobrevivente.

E. Malatesta: Opere Complete

FRONTE UNICO PROLETARIO

Il biennio rosso, Umanità Nova e il fascismo (1919-1923)

Com curadoria de Davide Turcato. Ensaio introdutório de Paolo Finzi

Págs. 752 EUR 40,00

ISBN 978-88-95950-70-9

(Co-edição Zero in Condotta – La Fiaccola)

Associazione Culturale Zero in Condotta

Casella Postale 17127 – MI 67, 20128 Milano.

www.zeroincondotta.org

Tradução > GTR@Leibowitz__

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/08/21/italia-obras-completas-de-errico-malatesta-serao-lancadas/

agência de notícias anarquistas-ana

A jabuticabeira.
Através de líquida cortina
olhos negros espiam.

Yeda Prates Bernis

[EUA] História em quadrinhos ilustrada por professor da VCU conta a história de ‘O dia em que a Klan veio à cidade’

A HQ é uma adaptação recontando a resistência de uma comunidade a uma marcha violenta de milhares de membros da Ku Klux Klan em Carnegie, na Pensilvânia.

Por Brian McNeill

Uma nova história em quadrinhos com arte do professor de publicidade da Virginia Commonwealth University Bizhan Khodabandeh conta a história da resistência de uma comunidade a uma marcha violenta de 10,000 a 30,000 membros da Ku Klux Klan em 1923.

“The Day the Klan Came to Town” foi escrito por Bill Campbell e publicado pela PM Press. Khodabandeh, um professor assistente da Richard T. Robertson School of Media and Culture na College of Humanities and Sciences, é o designer, ilustrador, artista e ativista que colaborou com Campbell e com a Campbell’s Rosarium Publishing em vários projetos passados.

“Bill teve essa ideia para a história porque ele realmente é da cidade em que aconteceu,” diz Khodabandeh. “Ele conversou com seu irmão sobre todos esses fatos históricos pouco conhecidos sobre sua cidade natal e um deles lembrou dessa marcha da Klan. Ele nunca tinha ouvido falar sobre ela, então começou a pesquisá-la.”

O quadrinho, que será publicado este mês, é uma adaptação do motim em Carnegie, na Pensilvânia, contado pelos olhos de um protagonista imigrante siciliano, Primo Salerno.

Da descrição da editora de “The Day the Klan Came to Town”:

O ano é 1923. A Ku Klux Klan está no ápice de seu poder nos Estados Unidos. Com o número de membros já dentro dos milhões, expandem suas fronteiras sulistas. À medida que continuam em suas campanhas de terror contra afro-americanos, seus alvos agora incluem também católicos e judeus, europeus do sul e oeste, todos em nome da “supremacia branca.” Incorporando mensagens de decência moral, valores familiares e temperança, a Klan estabeleceu uma fina camada de respeitabilidade e se tornou uma “organização cívica,” atraindo novos membros, policiais e políticos para sua marca particular de brancos, anglo-saxões e “americanismo” protestante.

A Pensilvânia entusiasticamente aderiu à onda. Isso ocorreu quando o Grand Dragon da Pensilvânia decidiu exibir o novo poder da Klan em uma demonstração de força; ele escolheu uma pequena cidade nos arredores de Pittsburgh nomeada em homenagem a Andrew Carnegie, um pequeno, despretensioso burgo cheio de católicos e judeus, o lugar perfeito para ensinar uma “lição” aos imigrantes. Cerca de 30,000 membros da Klan se reuniram de lugares tão distantes quanto o Kentucky para o “Karnegie Day.” Após a iniciação de novos membros, armaram-se com tochas e armas de fogo para descender à cidade e mostrá-la o que o americanismo realmente era.

“Gostaria que o livro talvez ajudasse a desmantelar a supremacia branca em algum nível,” diz Khodabandeh. “mas esse é um objetivo bem grande. Na realidade, é uma história em quadrinhos, não vai mudar o mundo, mas talvez vá lascá-lo um pouco.”

Khodabandeh, que fez seu bacharelado e mestrado em design gráfico na VCU School of the Arts, trabalha com freelances pelo nome Mended Arrow. Seu primeiro quadrinho, “The Little Black Fish,” publicado pela Campbell’s Rosarium Publishing, foi uma adaptação de uma história infantil clássica persa de Samad Behrangi sobre um peixe que questiona a autoridade.

Khodabandeh seguiu com um quadrinho original em parceria com o escritor James Moffitt, “The Little Red Fish,” que é uma alegoria para a Revolução Islâmica do Irã de 1979. Khodabandeh também contribuiu para várias antologias de quadrinhos, incluindo o Magic Bullet, um jornal de quadrinhos livres de Washington, D.C., no qual ele também lidera tarefas da produção.

Para “The Day the Klan Came to Town,” a abordagem de Khodabandeh para a arte foi orientada em parte por restrições de tempo, como teve que balancear o projeto com o trabalho integral na VCU.

“Decidi fazer em preto e branco e um pouco mais simples,” declarou. “E eu tive que fazer essas páginas um pouco mais rápido porque sou professor universitário em tempo integral, não cartunista. Esses cartunistas em tempo integral fazem algo como 23 páginas por mês. Para o projeto, foram cem páginas no curso de 9 ou 10 meses. Comecei logo antes do início do segundo semestre e terminei pelo verão de 2020. Então, na realidade, havia terminado no ano passado e agora está finalmente sendo impresso.”

“The Day the Klan Came to Town” pode ser encomendado diretamente pela editora e será encontrado em breve nas lojas de histórias em quadrinhos e livrarias de Richmond.

Fonte: https://news.vcu.edu/article/2021/08/graphic-novel-illustrated-by-vcu-professor-tells-the-story-of-the-day-the-klan-came-to-town

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

um raio de sol
transluz — balança a cortina…
borboleta amarela!

Douglas Eden Brotto

[Espanha] Vídeo | A FAL lança campanha de financiamento público para a catalogação de toda a coleção pós-1939

A Fundação Anselmo Lorenzo (FAL) está lançando sua mais ambiciosa campanha de financiamento público para a recuperação e catalogação de toda a coleção pós-1939.

Nossa documentação inclui cartazes, fotografias e material audiovisual da Guerra Civil, do exílio e da Transição. Uma coleção de 5.000 cartazes, mais de 5.000 títulos de imprensa catalogados desde o início do século XIX até os dias atuais, um enorme arquivo audiovisual dos anos 30 até os dias atuais… Em resumo, um tesouro que nos torna o maior arquivo anarquista da Península Ibérica e um dos maiores do mundo.

Temos realizado um grande trabalho com a coleção pertencente ao movimento operário e libertário antes de 1939, mas ainda há um longo caminho a percorrer para conservar e divulgar a coleção após essa data: o exílio, a Transição e os dias de hoje.

É por isso que pedimos a sua colaboração para avançar com nosso projeto, que também é seu.

>> Link para colaborar no crowdfunding:

https://www.gofundme.com/f/aydanos-a-preservar-la-memoria-libertaria

>> Para ver o vídeo, clique aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=3lw1MJOgdVk

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/16/espanha-crowdfunding-da-fal/

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tocar sobre teu corpo
ao silêncio das estrelas
um acorde de guitarra

Lisa Carducci

[Canadá] O 15º Festival Internacional de Teatro Anarquista de Montreal procura peças!

Prazo de inscrição: 30 de novembro de 2021

O Festival Internacional de Teatro Anarquista de Montreal (MIATF), o único festival no mundo dedicado ao teatro anarquista, está atualmente em busca de peças, textos, monólogos, dança-teatro, espetáculos de marionetes, mímica, em inglês e francês, sobre o tema do anarquismo ou qualquer assunto relacionado ao anarquismo, ou seja, contra todas as formas de opressão, incluindo o Estado, capitalismo, guerra, patriarcado, etc. Também consideraremos peças explorando a justiça ecológica, social e econômica, o racismo, o feminismo, a pobreza, a opressão de classe e gênero a partir de uma perspectiva anarquista. Acolhemos trabalhos de escritores anarquistas e não anarquistas.

>> C o n t a t o s

E-mail: festivaltheatreanarchiste@yahoo.ca

Site: www.anarchistetheatrefestival.com

Correio postal:

Montreal International Anarchist Theatre Festival

C.P. 266, Succ. ‘C’

Montreal, QC H2L 4K1

Canadá

Tradução > solan4s

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/03/19/canada-tema-anti-fascista-no-festival-de-teatro-de-montreal/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/05/16/canada-14o-festival-internacional-de-teatro-anarquista-de-montreal-de-17-a-23-de-maio/

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apaga a luz
antes de amanhecer
um vagalume

Alice Ruiz

[EUA] Quarenta anos é tempo demais: ainda não há justiça para Mumia

Por William P. Muhammad | 14/12/2022

Apoio nacional e internacional para o jornalista encarcerado e ex-membro do Partido dos Panteras Negras Mumia Abu-Jamal continua nas ruas de cidades do mundo inteiro e no ciberespaço. Apoiadores e apoiadoras estão chamando por sua condolente liberdade, citando não apenas testemunhos questionáveis que levaram a sua detenção em 1981 por matar um policial branco, mas também a natureza política do veredicto e sentença, sua idade e condição debilitada de saúde na prisão.

“9 de dezembro de 1981, Mumia Abu-Jamal é detido (e) baleado, em um caso que mudou o mundo e impactou todos nós”, afirma Gabriel Bryant, moderador do webcast em protesto em várias plataformas de redes sociais da Filadélfia. “Esse caso, na verdade, traz a este momento, 40 anos depois. O que ele significa para um homem que todos sabem que é fatidicamente e legalmente inocente?”, questionou na abertura do evento transmitido ao vivo.

Referindo-se ao encarceramento do Mumia como uma extensão do infame Counter-Intelligence Program (COINTELPRO) do governo federal, o qual por décadas buscou destruir lideranças da libertação preta e movimentos sociais pelos Estados Unidos, o evento “Free Mumia” recente usou plataformas de redes sociais e uma rede de apoiadores internacionais para dizer que 40 anos como preso político é tempo o suficiente.

“Mumia ainda está aqui hoje apesar das muitas tentativas de matá-lo devagar”, diz Sophia Williams, ativista de Nova Iorque e co-apresentadora do painel no Zoom que incluiu participantes de lugares tão longínquos quanto a Europa, o Caribe e a América Latina. “O evento de hoje à noite (é) incrível e nos mobilizará a continuar a retomar a narrativa e a tomar as ruas para ganhar a liberdade de Mumia”, declarou.

Clarence Thomas, ativista da luta trabalhista da Costa Oeste e contribuinte da discussão do painel, também representante executivo aposentado do International Longshore and Warehouse Union Local 10 (ILWU) e autor de “Mobilizing in Our Own Name”, disse que sua organização tem estado na vanguarda da liderança do movimento pela liberdade de Mumia Abu-Jamal e quatro décadas de confinamento, incluindo seu recurso de 2001 que teve sucesso em removê-lo do corredor da morte, deve resultar na vigilância contínua a questões de injustiça na América e no mundo.

“Mumia Abu-Jamal sempre manteve sua inocência sobre o assassinato do policial Daniel Faulkner da Filadélfia, e há membros dos Panteras Negras que foram parte do Movimento de Libertação Negra que têm definhado como presos políticos por mais de meio século”, continuou o Sr. Thomas.

Além das críticas alegando prevaricação judicial, outros apresentadores e apresentadoras expressaram sua preocupação com os múltiplos problemas de saúde de Mumia, incluindo doenças do fígado e insuficiência cardíaca congestiva intensificados pela pandemia global do Covid-19, acusando um complexo industrial prisional cruel e indiferente de extremos abusos aos direitos humanos.

Pela contribuição de conhecedores da legalidade do caso e por declarações de outros estadunidenses que sofreram semelhantemente com repressão policial, panelistas mencionaram cartas internacionais de apoio do México, Áustria, Alemanha e França, expressando não apenas incredulidade ao que muitos afirmam ser uma grande injustiça, mas também ao que chamaram de hipocrisia estadunidense no cenário mundial.

“Do 40º aniversário de sua prisão, tudo o que podemos dizer é que isso já durou por tempo demais e os líderes da Pensilvânia e das instituições federais são diretamente responsáveis por essa injustiça; (ele) deveria ser solto pelas autoridades”, declarou Jacky Hortaut, co-coordenador do Free Mumia Collective francês, durante sua apresentação ao vivo na conferência de Paris.

Falando por meio de um intérprete, Mr. Hortaut disse ainda que ativistas franceses organizaram uma manifestação em frente a embaixada estadunidense antes da conferência e, dias depois, o prefeito de Paris, ao lado de ativistas europeus pelos direitos humanos, fortaleceram os protestos na embaixada ao honrar Mumia como a primeira pessoa em 20 anos a ser reconhecida como cidadã de Paris pela Prefeitura.

A conferência online foi encerrada com uma discussão entre uma ampla variedade de líderes das juventudes, incluindo a juventude trans, representando a próxima geração de ativistas pelos direitos humanos por todos os Estados Unidos continentais, incluindo pretos, brancos, indígenas, asiáticos do Pacífico e latinos.

Fonte: https://new.finalcall.com/2021/12/14/forty-years-is-too-long-still-no-justice-for-mumia/

Tradução > Sky

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/06/eua-libertem-mumia-agora/

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sol na varanda –
sombras ao entardecer
brincam de ciranda

Carlos Seabra

[Portugal] A pandemia da civilização

As montanhas não tinham caminhos nem trilhas,
os lagos não tinham barcos nem pontes
Não faltavam pássaros nem animais
As ervas e as árvores conseguiam perdurar
Chuang Tse, Cascos do Cavalo1

A história da civilização é também a história das pandemias. Durante o Neolítico, a expansão da agricultura totalitária2 a partir do Oriente Próximo, foi o ponto de partida não só para o emergir do Estado, da estratificação social e do Patriarcado, como para o despontar de pestes e pragas até então inexistentes. A progressiva sedentarização, conseguida pela domesticação de animais e plantas, substituiu a diversidade alimentar dos caçadores-recolectores, pela quantidade dos agricultores, resultando no aumento exponencial da população. Doenças infectocontagiosas como a varíola, a peste, o sarampo, a gripe ou a tuberculose necessitam de grandes aglomerados populacionais para subsistirem. A maioria destas doenças evoluiu de outras semelhantes existentes em animais domesticados, como é o caso do sarampo que surgiu a partir da peste bovina; ou são provenientes de animais sinantrópicos3, como algumas espécies de ratos, potenciais transmissores da peste. Com a crescente densidade populacional de vilas e cidades, ligadas por rotas de comércio mundiais, as epidemias tornaram-se pandemias.

A peste bubônica que assolou o império Bizantino no século VI, fazendo milhões de mortos, terá chegado a Constantinopla em navios mercantes, carregados de grão, ratos e pulgas4, disseminando-se rapidamente pelo império. Foi uma vantagem para as tribos bárbaras, muitas delas nômades, dispersas por zonas rurais e por isso menos expostas ao contágio5. No século XIV, a peste negra, provocada pela mesma bactéria, reduziu para dois terços a população europeia. Acredita-se que o surto tenha chegado à Europa através da rota da seda. Atingiu sobretudo as cidades, sobrepovoadas, com populações enfraquecidas pela fome, pela guerra e pela insalubridade constante. Durante este período foram iniciadas perseguições sangrentas a várias minorias, entre elas os ciganos e os judeus, acusados de serem os causadores da peste.

O genocídio dos povos indígenas da América e da Oceania, iniciado com a colonização europeia no século XV, foi conseguido não só através da guerra e da violência, mas também pela disseminação de doenças até então inexistentes, levadas pelos colonizadores, para as quais os povos nativos não tinham imunidade. Epidemias de varíola, sarampo, cólera, febre tifoide e malária contribuíram para esse extermínio, ajudando a consolidar o domínio dos impérios coloniais. A virulência destas doenças foi agravada pela aniquilação dos modos de vida que esses povos tinham antes da chegada dos europeus. A caça, a recolecção e variedades de agricultura sustentável destinadas à subsistência refletiam o respeito e a intimidade que estes povos mantinham com a natureza. A introdução da agricultura expansiva, destinada a alimentar os fluxos comerciais das metrópoles, foi acompanhada pela desflorestação, expropriação de terras e trabalhos forçados, para os sobreviventes desse etnocídio. Também o comércio transatlântico de escravos e o estabelecimento de colônias penais originaram novas doenças e epidemias que ajudaram a dizimar as populações nativas.

Com a revolução industrial, o rápido crescimento da população, a migração em massa de desapossados do campo para a cidade e a progressiva urbanização, foram criadas as condições para que doenças endêmicas se tornassem pandêmicas. A abertura do canal de Suez e a invenção do navio a vapor reduziram a distância entre a Europa e a Ásia Meridional, acelerando a propagação de doenças como a cólera ou a tuberculose. Os surtos de cólera na Europa foram devastadores, atingindo as cidades em crescimento, habitadas por explorados do capitalismo industrial que sobreviviam em circunstâncias de extrema pobreza, desnutrição e insalubridade. É neste contexto que surge a gripe “espanhola”, uma das mais letais da história, em que a degradação generalizada das condições de vida foi intensificada durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Estudos recentes mostram que essa estirpe não era afinal tão virulenta como se pensava6. A guerra e o comércio internacional foram os principais fatores de contágio. Teve origem provável nos Estados Unidos, a partir de vírus de aves ou suínos, coincidindo com a modernização da agricultura no país. Nos anos 1970, esse modelo de criação intensiva de animais começou a ser exportado para todo o mundo7.

Texto de  M. Araújo

Legenda da fotografia em destaque  – Um nativo norte-americano contempla a linha de comboio trans-continental em Sacramento [1867]. A composição do fotógrafo Alfred Hart transmite o choque definitivo da civilização e do progresso na vida dos povos originários, para cujo genocídio tinha já contribuído imensamente a disseminação de epidemias.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.jornalmapa.pt/2021/12/15/a-pandemia-da-civilizacao/

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Manchas de tarde
na água. E um vôo branco
transborda a paisagem.

Yeda Prates Bernis

 

[EUA] Um Anarquista Condenado Fala a Verdade sobre a Injustiça – por Dan Baker

Não posso continuar calado face a autoridade corrupta e eventos recentes. Meus amigos ririam e perguntariam quando estive calado em primeiro lugar. Tentei dar uma diminuída antes do meu julgamento e sentença, mas disse ao meu comitê de defesa que mesmo se “eu me ajoelhasse”, como dizem em Game of Thrones, e beijasse o anel e lambesse as botas, mesmo se me rebaixasse dessa forma, o juiz tentaria jogar o livro em mim. Fui acusado injustamente de “Extorsão – transmitir uma ameaça interestadual de sequestro ou agressão a uma pessoa” porque postei panfletos encorajando minha comunidade a se defender de um golpe fascista, o que falhou em fazer em 6 de janeiro de 2021, para derrubar os resultados de eleições democráticas. No mesmo ano, Kyle Rittenhhouse foi absolvido após ultrapassar as fronteiras do estado com um rifle de assalto e matar vários manifestantes. Essa é a razão pela qual os Estados Unidos são a chacota do mundo. Isso me enoja. No último ano, tenho pulado pelo país entre 4 prisões, detido ilegalmente antes do julgamento e sujeitado a condições e torturas piores do que se estivesse em um zoológico, tudo porque sou anarquista. Por meu amor à liberdade, sou um preso político.

O Federal Bureau of Investigation (FBI), por incompetência ou cooperação complicada, falhou em deter o tiroteio de Rittenhouse, mas conseguiu organizar um ataque da SWAT contra mim por postar panfletos online. Enquanto gasta uma quantidade obscena de recursos me rastreando, assediando-me, ligando para minha família, amigos, empregadores, e tentando me jogar em um comportamento antissocial, o FBI falhou em deter dezenas de atiradores. Ao fazer isso, provou todas as críticas anarquistas à prisão e ao complexo industrial militar.

O anarquismo é uma ideia em evolução, uma ideia viva baseada na cooperação, liberdade e democracia direta. Anarquistas exigem liberdade humana máxima porque a natureza humana é social e tende a trabalhar para o benefício mútuo de todos. Rejeitamos o governo, a hierarquia, a dominação, a propriedade privada, a coerção e a autoridade. A liberdade depende da igualdade, e essa igualdade é produto de indivíduos livres trabalhando juntos para assegurar que todos tenham acesso igualitário aos recursos produzidos coletivamente. Ao rejeitar a privatização de riquezas pelo Estado, seja ele socialista ou capitalista, acreditamos que ele seja desnecessário e que a organização social é melhor quando deixada à associação livre de indivíduos para que decidam seus destinos pela democracia direta. As pessoas deveriam ser livres para se associarem na criação de organizações sociais feitas para estruturar a vida social.

Movimentos anarquistas desafiam os Estados liberais democráticos, os quais empoderam a criminalização da pobreza, criando um Estado policial distópico. A justiça criminal e a lei são apenas uma outra forma de coerção.

Há nada que posso aprender na prisão que não poderia ter aprendido em uma comunidade saudável, funcional e social. Quanto mais sou oprimido pelo governo estadunidense, mais sou motivado e empoderado a remover todos os obstáculos da opressão. Fui criado por um xerife do Condado de Palm Beach que me tirou da minha mãe porque ela usava drogas, as quais ele fornecia. Sou o resultado de um caso dela com outro homem. Fui tirado dela, e então colocado na rua quando adolescente. Depois de uma infância em que fui forçado a treinar, atirar e brigar, senti que não tinha outra escolha senão entrar para o exército. Lá fui designado a uma unidade que se gabava de estupros, saqueamentos e assassinatos que cometiam no Afeganistão. Tornei-me foragido quando foram enviados ao Iraque, ausente sem licença. Consegui evitar ser enviado com essa unidade e, enquanto estavam no Iraque, cometeram o Mahmudiyah Gang Rape Massacre [Massacre e Estupro Coletivo de Mahmudiyah] – pesquise. Então, embora tenha sido chutado sem dispensa honrosa, preservei minha integridade, mas a “sociedade” estadunidense é dura com veteranos sem-teto e tive dificuldades para encontrar emprego, habitação e educação. Usei esmolas para treinar jiu jitsu e lutar em torneios. Quando recuperei minhas forças, usei esmolas para voar para o Iraque, onde cruzei a fronteira para a Síria e então para Rojava, onde entrei para a YPG curda, a People’s Protection Unit. Fiz isso porque acredito na revolução de Rojava, que é baseada no feminismo, ecologia social, democracia direta e as ideias levadas adiante por Murray Bookchin e Abdullah Öcalan. Lá, lutei contra o ISIS e vi os militares estadunidenses massacrarem uma multidão de mulheres que escaparam dos jihadis e tentavam se render. Elas foram desintegradas por um ataque aéreo e partes de seus corpos choviam em nós por vários longos minutos. Quando voltei para casa, para ajudar a cuidar do homem que me criou enquanto ele morria, fui perseguido por agentes do FBI como Brian King e Nicolas Marti. Minha mãe morreu um pouco antes de quando fui para Rojava. Tornei-me alvo por criticar a ICE e Trump. Apesar de me manter longe de problemas, e recusar me envolver em comportamento “criminal” que agentes disfarçados tentavam armar, disseram que “estavam vindo para cima de mim com tudo”. Até disse a eles que me renderia pacificamente se tivessem um mandado, mas, em 15 de janeiro de 2021, o FBI arrombou minha porta aos chutes, logo após ter deixado as ruas e ter uma casa, recém saído da condição de rua. Fui arrastado direto para a prisão e jogado em uma cela coberta por merda para seis meses de isolamento antes do julgamento. Fui submetido a abuso criminal e tenho algumas críticas que estão inclusas em meus processos contra os agentes carcerários.

Prisões escravizam pessoas e traficam seus corpos por trabalho e para justificar seus orçamentos inchados. Carcereiros são endoutrinados em uma ideologia que os convencem que todos os encarcerados são criminosos sub-humanos, o pior da sociedade. Na verdade, a maior parte dos encarcerados são apenas pessoas sem acesso à educação que lutam contra a pobreza, uma pobreza esmagadora e planejada que existe para manter uma massa de pessoas escravizadas no chamado “trabalho não qualificado”. Prisões também têm como alvos os deficientes. Um de meus vizinhos de isolamento era um homem autista claramente sofrendo com uma crise contínua de saúde mental. Ele gritava constantemente quando sua luz estava acesa e esmurrava e chutava sua porta a cada 30 segundos. Os carcereiros diziam, “vá se foder, seu neguinho, vou deixar a luz acesa!” Após 3 dias gritando, tornava-se desarticulado, parava de gritar “apaguem minha luz!”, apenas tremendo. Os carcereiros se recusavam a coletar nossos isopores com comida por dias, dizendo então ao meu vizinho autista para dar descarga nos dele. Quando a privada entupia, acusavam-no de tentar inundar sua cela e desligavam seu abastecimento de água por 3 dias. Esse homem falava apenas 20-30 frases repetidamente. O capitão da unidade espirrava mace, então atirava bolas de papel e, finalmente, jogava granadas de CS em sua cela até que ele desmaiasse. Os agentes carcerários abertamente falavam sobre tentar fazer com que se matasse, dizendo-lhe para se enforcar com os lençóis. Ele espalhava suas fezes por toda sua cela e empurrava-as pela porta em direção ao corredor. Por vários meses não fui levado a locais externos. Não vi o sol nem senti uma brisa sequer, e tudo o que podia escutar eram os gritos, dia e noite.

Inscrito nos corpos de muitos encarcerados e nas paredes das celas e cidades, você encontrará o símbolo do A circulado. Pierre-Joseph Proudhon argumentava que a anarquia é a realidade da condição humana da qual emerge a verdadeira liberdade, como uma flor crescendo do chão da existência. Acredita-se que o A circulado foi tirado da proposição proudhoniana de que anarquia é ordem – o A no O.” de ‘Classic Writings in Anarchist Criminology’ (AK Press, 2020)

Como revolucionários internacionais, devemos receber em nossos postos quaisquer estrangeiros, indivíduos isolados, províncias, comunas, associações e países que se rebelaram em nome dos mesmos princípios, mesmo que pertençam a sistemas políticos diferentes. Tomem como exemplo os voluntários internacionais do Batalhão Internacional da YPG.

Durante meu julgamento, o promotor me acusou de odiar o governo estadunidense. Neguei essa acusação na época e continuo a negá-la agora, sentado na prisão. Nem mesmo odeio o ISIS, mesmo que tenha lutado contra jihadis nas linhas de frente. Como anarquista e ascético filosófico, estou contente em sentar e distribuir comida enquanto a economia entra em colapso sob sua própria decadência e ruína. Ensino ioga, meditação e primeiros socorros. A resiliência de nossa saúde, processos de cura e ajuda mútua são mais fortes que qualquer estrutura de poder temporária, não importa o quão fascista e autoritária seja. Ao mesmo tempo, entramos em grupos de apoio inspirados em Tyler Durdan. Tudo é temporário – seu corpo, o planeta, o sol, impérios, tudo. Eventualmente todos os tiranos insignificantes caem. Não precisamos ao menos empurrá-los; se você é tão impaciente que precisa recorrer a ações diretas, lembre-se das primeiras duas regras do Clube da Luta: não falamos sobre isso. Amo minha cidade, meus vizinhos e todos os povos. Nações e Estados não são o povo, não são as sociedades em si. Esses governos são meras ideias se disfarçando de estruturas corruptas de poder. Essa é uma guerra para sua mente, uma guerra espiritual de ideias. Você deve defini-la por você mesmo através da leitura, discussão e ação, pelas conclusões em que sua comunidade tem acordo. Recomendo fazer sabão e jardins comunitários.

Daniel Alan Baker 25765-509
FCI Memphis
PO Box 34550
Memphis, TN 38184 – EUA

Fonte: https://mongoosedistro.com/2021/12/09/a-convicted-anarchist-speaks-truth-to-injustice-by-dan-baker/

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

flores ao vento
na cortina da janela
cores da primavera

Alonso Alvarez

[EUA] Um país de fantasmas, por Margaret Killjoy (resenha de livro)

Por Jonathan Thornton | 25/11/2021

A Country Of Ghosts, de Margaret Killjoy, é um livro extraordinário, um que demonstra o poder da ficção especulativa e fantasia como uma ferramenta para imaginar novas maneiras de viver fora de regimes repressivos. É costumeiro para resenhistas de fantasia preguiçosos comparar qualquer obra vagamente política de ficção especulativa e fantasia de uma escritora a Ursula K. Le Guin, mas, neste caso, o romance de Killjoy novel é um sucessor genuíno à exploração de uma sociedade anarquista e anticapitalista de Le Guin emThe Dispossessed (1974). A Country Of Ghosts traz um personagem de um poder imperial colonizador entrando em contato com uma sociedade anarquista em um mundo fantástico secundário do século XIX e,disso, Killjoy explora como uma sociedade utópica pode se organizar de uma forma radicalmente diferente da nossa com eloquência, cordialidade e humanidade. Originalmente publicado pela Combustion Books em 2014, A Country Of Ghosts é republicado este ano pela AK Press como o primeiro livro em sua série Black Dawn, dedicada a imaginar futuros anticapitalistas, anticolonialistas e antirracistas na honra das obras de Octavia E. Butler, o que dá um excelente tom à missão da linha.

A Country Of Ghosts conta a estória de Dimos Horacki, um jornalista de Borol que é enviado à linha de frente da guerra para trazer um relatório das façanhas do herói de guerra borolian Dolan Wilder. Viajando com o Exército Imperial, Dimos logo experimenta a brutalidade de Wilder e seus homens e a violência que impõem aos assentamentos locais nas montanhas Cerrac. Quando seu relatório honesto de testemunho visual é interceptado por Wilder, ele é enviado a uma missão suicida e capturado pela Companhia Livre do Mountain Heather. Dimos descobre que as montanhas são o lar do país anarquista de Hron e, como cria laços com a milícia e aprende sobre seu estilo de vida e cultura, é apresentado a uma forma de viver livre da opressão tirânica do Império Borolian.

Como muitos textos utópicos clássicos, a anarquia de Hron é mostrada a nós pelos olhos de um forasteiro, o que nos permite aprender sobre a cultura da sociedade e sua organização enquanto o protagonista aprende sobre ela. Dimos é um personagem excelente para isso; como um jornalista político, um homem gay e um órfão criado pelo Estado, Dimos tem um entendimento contrastante das várias camadas de opressão que modelam Borol. O Império Borolian é vagamente baseado no Império Britânico e seus métodos de expansão colonialista, seu uso de violência e seu apagamento de culturas indígenas, e sua redução de seu próprio povoa uma classe alta privilegiada e uma classe trabalhadora faminta e espezinhada são bem familiares. Dimos talvez tenha um cinismo saudável sobre o Império Borolian, o que o faz disposto a ouvir seus novos amigos que conhece em Hron, especialmente depois que viu em primeira mão as atrocidades cometidas pelo Exército Imperial, mas ele ainda tem muitas questões sobre como a sociedade em Hron funciona. À medida que explora as montanhas Cerrac, aprende algumas respostas àquelas perguntas por meio das várias personagens que encontra e com quem interage: Sorros Ralm, o miliciano que se torna seu primeiro amigo; Nola, sua parceira e uma mulher com uma brilhante mente militar; Grem, Dory, Joslek e Desil, os membros mais jovens de Mountain Heather com quem passa o tempo.

O que faz A Country Of Ghosts tão irresistível é que as lições de Dimos não são transmitidas simplesmente pela discussão com outras personagens, embora isso aconteça muito. Killjoy habilmente constrói seus argumentos ao deixar suas personagens dar o exemplo. O romance é uma ficção de ciência social excelente, espelhando várias formas diferentes em que as pessoas podem abordar a vida em uma sociedade anarquista. Através de Dimos, podemos ver em primeira mão como as Companhias Livres são capazes de auto-organização, sem ter que recorrer a cadeias de comando hierárquicas. Cada assentamento em Hron, desde os vilarejos de Holl e Molikari à grande cidade-refúgio de Hronople, tem seu próprio jeito particular de auto-organização, que é construído à base de liberdade, cooperação e respeito mútuo. Em contraste à pobreza e violência em Borol, as pessoas de Hron acharam uma forma de viver fora das restrições rígidas do capitalismo e império. Killjoy explora como uma sociedade pode operar com respeito à autonomia pessoal, ainda capaz de funcionalmente se unir e se defender,e na qual não há leis, mas ainda há consequências que previnem assassinatos e violência. Adicionalmente, essas liberdades permitem às pessoas de Hron uma existência livre das atitudes racistas e colonialistas do Império Borolian, com pessoas interagindo em um nível mais pessoal. Dimos descobre que, como uma pessoa queer, ele tem muito mais liberdade com os Hron para explorar sua sexualidade e para estar com outras pessoas do que jamais teve em Borol, e a diferença de como as várias pessoas que encontra trata estrangeiros, comparada à violência brutal que pessoas das montanhas Cerrac recebem nas mãos do Exército Imperial, é surpreendente.

A Country Of Ghosts funciona como uma exploração da anarquia e como  literatura. O estilo de escrita de Killjoy é ponderado e elegante, e a estória é estruturada em volta de vários conflitos armados entre as Companhias Livres e o Exército Imperial, criando considerável ação e tensão para manter o leitor interessado. As personagens de Killjoy são humanas e credíveis e ela não recorre a atalhos ou respostas fáceis para trazer para casa seus argumentos políticos a marteladas. É um romance que ficará comigo por muito tempo e estou ansioso para ler mais obras de Killjoy e ver onde a AK Press leva sua série Black Dawn daqui em diante.

Fonte: https://fantasy-hive.co.uk/2021/11/a-country-of-ghosts-by-margaret-killjoy-book-review/?fbclid=IwAR3Qp7bOhnkcBbGvWiEeF0mvo9f3b8nINpXVsuez6oefr-kcvoIXYCBrb6U

Tradução > Sky

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/10/18/eua-lancamento-a-country-of-ghosts-de-margaret-killjoy/

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Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma

Eugénia Tabosa

[Espanha] Miguel Íñiguez: “Nosso principal problema é a escassa formação ideológica de parte da militância jovem”

MILITANTES DE TRADIÇÃO | Betanzos (Galiza) | Extraído de cnt nº 428.

Por Suso García

Nosso Companheiro decidiu empreender esta tarefa magna e dedicou boa parte de sua vida para dar vida à “Enciclopedia del Anarquismo Ibérico”, obra bem conhecida entre os estudiosos de nossa História, e a respeito da qual já foram realizadas muitas análises. Entretanto, poucos conhecem o autor, que prefere esconder-se no coletivo, deixando o protagonismo para os nomes e fatos mencionados.

No [jornal] cnt, não resistimos em querer conhecer o lado humano que estas contribuições sempre trazem, e entrevistamos Miguel Iñiguez, companheiro da CNT de Vitoria e da Associação Isaac Puente.

Pergunta – Como tomou contato pela primeira vez com a CNT? Foram as ideias ou algum conflito de trabalho?

Resposta – As ideias e a ética, e até a psicologia. Nem querer mandar nem ser mandado, exaltação da liberdade e recusa da autoridade. E tenho mais a convicção do que razões de trabalho – estas são as que impregnam e movem grande parte da militância dos anos 70 e 80, e que ainda hoje perseveram na Ideia. E acredito, depois de ter descrito dezenas de milhares de perfis, que o mesmo cabe dizer sobre Salvochea, Manuel Pérez, Durruti, Salvador Seguí, Teresa Claramunt, Lucía Sánchez Saornil e um inacabável etecetera. Se formos ao concreto, cabe datar em 1971 minha entrada no movimento libertário. É quando começo a receber propaganda impressa a partir de Toulouse, enviada por Roque Llop, poeta anarquista e confederado catalão. Em 1973 viajo a Paris e entro em contato com a outra corrente, da Frente Libertária. Então as coisas acontecem naturalmente. Em fins de 1976 iniciamos a reconstrução da CNT de Vitoria, e participo de eventos (reunião de San Sebastián de los Reyes, Jornadas Libertárias de Barcelona),marcos no momento do tornar-se confederado e libertário.

P. – Todos temos sempre algum nome especial em nossa memória. Que militante veterano te deixou essa impressão duradoura que levamos como referência?

R. – Em Vitoria, Atanasio Gainzaráin e Macario Illera, por aspectos distintos, companheiros infalíveis que conhecemos. Fora do contexto local, me impactaram, pelas fortes personalidades, Ramón Álvarez e José Peirats. Do primeiro sempre recordarei que, num Plenário de Regionais, lhe ofereci minha ajuda como delegado da Regional de Euskadi, diante dos ataques que Astúrias recebia da delegação levantina. E, me olhando fixamente, pôs sua mão direita em meu ombro e disse: “Jovem companheiro, Astúrias se defende sozinha”. Reencarnação de Don Pelayo ou Favila. De Peirats, as dez ou doze horas seguidas que passei em sua casa em Vall de Uxó, onde falamos do humano e do divino. Um oleiro de cultura ciclópica e grande acuidade conceitual. Os quatro, prontos a defender seus princípios diante de audiências adversas, sem renúncias nem concessões. Algo raro.

P. – Agora que está aposentado, o que gostaria de deixar como reflexão aos jovens que se aproximam das Ideias e da Organização?

R. – Que saibam que na CNT podem passar por momentos ásperos, exasperados e desagradáveis. Mas, seguramente, por outros, mais numerosos, que recordarão entre os mais felizes, gratificantes e apreciados de sua existência. Uma Organização dura, na qual encontrarão algumas pessoas que não deveriam se formar nela; mas também muitas mais com um puro idealismo, que dão tudo por nada, pessoas a quem o catolicismo teria por muito menos beatificado e transformado em santos. Na qual contemplarão algumas pequenas maldades inerentes à condição humana, tensões internas que devemos saber superar e onde pequenas vitórias produzem enorme satisfação. Contudo, formarão a única organização (e temos visto o enterro de centenas) que – depois de quase 50 anos de pressão ambiental, social, midiática e política – se mantém de pé, sem depender de subsídios ou subvenções. Uma anomalia histórica que convém preservar.

P. – Uma enciclopédia representa de alguma maneira o passado, mas não podemos deixar de perguntar sobre nosso presente. É otimista sobre os passos que a Organização está dando?

R. – Somente de alguma maneira o passado, porque na Enciclopédia circula um bom número de ativistas de agora mesmo – uma confirmação de que ela respira e se agita. Otimista e, ao mesmo tempo, um pouco desconfiado. Desconfiado diante de certas contaminações vindas de outros âmbitos e do ambiente social reinante que favorecem a tendência à profissionalização e prejudicam o ativismo militante. Acho que nosso principal problema é a escassa formação ideológica de parte da militância jovem, que algumas vezes nos arrasta ao seguidismo, e que nos leva a tomar parte da sopa de siglas e plataformas com muitos de cujos membros não temos nada a compartilhar. Nos apagamos nessa mistureba esquerdista de tons localistas, colocando na penumbra nossas marcas de identidade. Existem, creio eu, certos complexos e medos que os antigos não tinham. Neste sentido, acho que o Congresso do próximo ano deve se desenrolar com mente aberta e ânimo construtivo no debate e na discussão, evitando enfrentamentos viscerais e posturas irreconciliáveis, em benefício do equilíbrio interno e da sensatez.

Muito obrigado, Miguel.

Esta redação te admira. Sempre é um prazer contar com suas palavras.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/miguel-iniguez-nuestro-principal-problema-es-la-escasa-formacion-ideologica-de-parte-de-la-militancia-joven/

Tradução > Erico Liberatti

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Flor declarada
o vento puxa da mão
pra se perfumar.

Masatoshi Shiraishi

[Canadá] Chamada para apresentação de propostas para o número 4 da revista “No More City”

Estamos procurando artigos originais locais para a chamada Vancouver e assim chamada bc para a nossa 4ª edição! Esta edição cobrirá outono/inverno 2021 e inverno 2022. Estamos procurando relatórios, reflexões e análises de Fairy Creek, Gidimt’en e Coyote Camps, luta anti-TMX em território Secwépemc, e quaisquer outras lutas contra o extrativismo, indústrias destruidoras de terra.

Também buscamos equilibrar o foco na ação direta e sabotagem com outras formas de luta e construção do mundo em que buscamos prosperar, como justiça para deficientes físicos, soberania indígena, libertação queer e trans, cuidado ao próximo nas redes-sociais, ativismo do prazer, ajuda mútua, raça em comunidades anarquistas, relações com a “natureza” e muito mais.

Também estamos procurando por qualquer outra coisa que você esteja interessado em escrever ou enviar! Poemas, comunicados, arte digital e visual, fotografia, reflexões sobre ações passadas, resenhas de livros, reflexões pessoais/emocionais.

Por favor, leia nossa página de diretrizes de envio e nossa seção de privacidade sobre como enviar seu material com segurança. E envie seus comentários para nomorecity@riseup.net até 15 de fevereiro.

https://nomore.city/

Tradução > GTR@Leibowitz__

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Balde d’água
subindo pelo poço.
Dentro uma perereca!

Sonia Mori

[Espanha] Vídeo | Homenagem a Durruti, 85 anos depois, a luta continua.

Oitenta e cinco anos depois, a luta continua. Ferrer, Ascaso, Durruti! Eles simbolizam e nos recordam de tantas pessoas anônimas que deram suas vidas pelos ideais de liberdade e justiça social.

CNT-AIT Barcelona

>> Veja o vídeo (00:47) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=4FYAtnISxjw

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Chuva de primavera—
São restos de comida
os patos que grasnam

Issa

[EUA] Suzanne Ross visita Mumia Abu-Jamal na prisão

Segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Mumia pareceu ótimo. Ele é brilhante, como de costume, mesmo com tantos problemas, cheio do seu amor pelo povo, e anda se exercitando bastante. Ele está convencido de que suas caminhadas e exercícios determinados e contínuos têm sido decisivos em manter sua boa saúde. Continua a admirar a vitória incrível de nosso movimento com sua crise de hepatite C, sabendo o quão perto da morte estava, e tem retorno no que significa centenas/milhares de outras pessoas encarceradas sofrendo de hepatite C. Sim, amigos e apoiadores de Mumia e da justiça. A LUTA DA HEPATITE C QUE TRAVAMOS E VENCEMOS FOI, DE FATO, UMA VITÓRIA INCRÍVEL, um milagre revolucionário, O PODER DO POVO. Devemos construir em cima disso com a confiança no poder do nosso povo, nosso amor por Mumia e por todos os presos políticos e pelo povo.

Suzanne Ross

International Concerned Family and Friends of Mumia Abu-Jamal

Tradução > Sky

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alta madrugada,
vaga-lumes no jardim
brincam de ciranda

Zemaria Pinto

Novidade editorial: “Anarquismo actual en Chile | La experiencia personal y social de individuos anarquistas”, de Carlos Andrés Reyes Velásquez

O que é o anarquismo hoje no Chile? Como é que aqueles que se definem como anarquistas vivenciam isso em nosso país? Qual foi o impacto disso no “estallido social”? Este livro explora e aprofunda uma ampla gama de experiências de indivíduos e grupos que se identificam com a ideia do anarquismo, que no seu dia a dia desenvolvem uma vastidão não uniforme de práticas antiautoritárias e não dogmáticas. No campo das Ciências Sociais desenvolvido no Chile, podemos encontrar uma vasta investigação crítica que se concentra na análise e descrição de vários movimentos sociais. Mas não há textos que se refiram expressa e detalhadamente à invisível (pelas narrativas de dominação) subjetividade anarquista. Este trabalho de pesquisa está organizado em torno dos seguintes objetivos específicos: primeiro, descrever as noções emergentes que os participantes do estudo têm sobre o anarquismo e o ser anarquista; a seguir, descreva as relações que esses atores têm com as noções de poder e cultura dominante; e, por fim, interpretar as práticas de conhecimento com as quais constroem como individualidades anarquistas seu cotidiano. O anarquismo é aqui descrito como uma prática do presente, inserida na vida social, mas não como uma razão instrumental, mas como uma tentativa de autoconstrução integral fora das instituições do mercado, do Estado e dos dispositivos de poder em todas as suas facetas.

>> Carlos Reyes Velásquez é Doutor em Ciência Política pela Universidade Pablo de Olavide. Poeta, pintor e músico amador, formou-se jornalista pela Universidade de La Frontera onde atualmente atua como professor e pesquisador no Departamento de Línguas, Literatura e Comunicação; o Centro de Pesquisas em Comunicação, Discurso e Poder; e o Centro de Estudos sobre Epistemologias de Fronteira e Economia Psicopolítica da Cultura. Publicou diversos artigos científicos em revistas ibero-americanas vinculadas ao campo das Ciências Sociais.

Anarquismo actual en Chile

La experiencia personal y social de individuos anarquistas

Carlos Andrés Reyes Velásquez

Ceibo Ediciones, coleção de ensaios. Chile 2020

365 pp. 23×15 cm rústico

ISBN 9789563590968

CLP $ 14.000

prolibro.cl

Tradução > GTR@Leibowitz__

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A orquídea –
a cada instante
o silêncio é outro.

Constantin Abaluta

[EUA] Marcha para Mumia na Filadélfia marca 40º aniversário de seu encarceramento

Ativistas dos direitos humanos e de comunidades do mundo inteiro marcharam em 11 de dezembro para marcar os 40 anos de cárcere de Mumia Abu-Jamal, jornalista, personalidade da rádio e ex-Pantera Negra da Filadélfia, e exigiu sua soltura. Apoiadores e apoiadoras mantêm que Abu-Jamal “foi preso, condenado e injustamente encarcerado como resultado de improbidade judicial, da promotoria e da polícia por alegadamente matar um policial da Filadélfia em dezembro de 1981.” Ele foi liberado do Corredor da Morte da Pensilvânia em 2011. Contudo, apoiadores e apoiadoras do mundo inteiro afirmam que Abu-Jamal foi incriminado, é inocente, e continuam a lutar por sua soltura. Ativistas protestaram e marcharam na Filadélfia, Houston, México, França, Alemanha, Áustria e outras cidades e países.

Tradução > Sky

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Frescura:
os pés no muro
ao dormir a cesta

Matsuo Bashô

[Portugal] Fragmentos de um antropólogo anarquista

Por Sandra Faustino | 10/12/2021

Quando a administração colonial francesa chegou a Madagascar no século XIX, dividiu a população em “tribos”: entre elas estavam os Tsimihety, que recusavam aliar-se a qualquer monarquia. Os Tsimihety mantiveram durante muito tempo a reputação de “mestres da evasão”: de cada vez que os colonos franceses enviavam delegações para contatá-los, encontravam aldeias completamente abandonadas – os Tsimihety tinham-se mudado. Uma outra “tribo”, os Sakalava, fiéis à dinastia Maroantsetras, ignoravam os seus descendentes vivos e continuavam a adornar e reconstruir os túmulos dos antigos reis, “fossilizando” o poder e negando-o a quem pudesse exercê-lo em vida.

Este é um dos relatos que compõem Fragmentos de uma antropologia anarquista, uma publicação que reúne “pensamentos, esboços de potenciais teorias e pequenos manifestos”, escritos por David Graeber. Graeber foi um antropólogo e professor, implicado no movimento Occupy Wall Street, aliado de processos revolucionários como o de Chiapas ou Rojava, e anarquista – embora recusasse o rótulo exótico de “antropólogo anarquista” nos meios universitários. Nesta publicação, Graeber pergunta: Porque não existe um corpo de antropologia anarquista? E porque há tão poucos anarquistas na academia?

Graeber foca-se numa questão de design: como é que as sociedades sem estado “desenham” o seu sistema de poder? E como é que esse desenho permite a recusa do estado?

Para responder a estas perguntas, Graeber começa por mapear o lugar da teoria anarquista na disciplina da antropologia. Claro que existe um corpo de teoria anarquista – Bakunin, Kropotkin, Goldman, de Cleyre – mas nenhuma corrente é representada através de um -ismo, à semelhança, por exemplo, do marxismo. O pensamento anarquista tem-se debruçado sobretudo sobre questões éticas da sua prática e pouco sobre definições conceituais, como “mercadoria” ou “classe”. Para além disso, as autoras e autores anarquistas não escrevem como quem inventa algo novo: os -ismos do pensamento anarquista são, por isso, criados a partir da prática: anarco-sindicalismo, anarco-comunismo, anarco-feminismo, e por aí fora.

Graeber relembra também alguns “clássicos” da antropologia que tiveram influência no pensamento anarquista. Por exemplo, o antropólogo francês Pierre Clastres que, através da documentação detalhada de povos amazônicos, em A sociedade contra o estado (1974), tornou evidente que a antropologia ocidental partia sempre do princípio que as sociedades sem estado não eram sociedades e que, portanto, não mereciam ser estudadas enquanto sistemas políticos. Graeber relembra também Marcel Mauss, antropólogo, fundador da “sociologia francesa” e autor da “teoria da dádiva” (1925), que foi uma das mais importantes críticas à disciplina da economia e ao argumento de que o dinheiro é necessário para resolver o “problema” da troca. Sobre a história do dinheiro, Graeber publicou, em 2011, um dos mais importantes trabalhos da antropologia contemporânea: Dívida: os primeiros 5.000 anos.

A proposta de Graeber para uma “antropologia anarquista” é, por isso, cuidadosa mas otimista. Reconhecendo o passado problemático da antropologia, aliada do processo de colonização, Graeber defende que nenhuma outra ciência social conhece tão bem sociedades sem estado e economias sem mercado. Na segunda parte da publicação, Graeber comenta excertos da “antropologia anarquista que quase já existe”, a partir da pesquisa de várias autoras e autores, incluindo da sua própria pesquisa em Madagascar. Graeber foca-se numa questão de design: como é que as sociedades sem estado “desenham” o seu sistema de poder? E como é que esse desenho permite a recusa do estado? Ao olhar para a “história moderna”, e para os contextos insurrecionais onde estamos habituadas a falar de “teoria anarquista”, as práticas “organizadas” que recusam o estado estão vivas: a ação direta, o consenso, a mediação. Graeber deixou-nos também trabalhos onde documentou detalhadamente estas práticas, como Ação direta: uma etnografia, um trabalho construído a partir da sua própria experiência nos Estados Unidos. David Graeber morreu em setembro de 2020.

Fonte: https://www.jornalmapa.pt/2021/12/10/fragmentos-de-um-antropologo-anarquista/

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nas ramagens embaciadas
o sol
abre frestas

Rogério Martins

[EUA] Ajude-nos a Recuperar do Incêndio que Destruiu Nosso Espaço de Envios Postais | Queimado — Mas Não Desativado!

Dia 15 de dezembro de 2021, o prédio onde organizamos os envios de correio do Coletivo CrimethInc. foi destruído em um incêndio catastrófico que reduziu três grandes edifícios em escombros no centro de Olympia, estado de Washington nos EUA. Sim, a foto acima é do incêndio. Milhares de livros, pôsteres e adesivos foram totalmente queimados, sem falar nos equipamentos e suprimentos. Perdemos tudo o que havia no espaço.

Nos ajude aqui: https://www.gofundme.com/f/fire-destroyed-the-crimethinc-mailorder-space

Isso significa um grande atraso para nós. Para retomar as operações, precisaremos substituir os livros, pôsteres, adesivos, computadores, impressoras, materiais de embalagem, móveis e muitas outras coisas e achar um novo espaço.

Somos uma rede que trabalha de forma totalmente voluntária. Sempre operamos com um orçamento apertado, vendendo todo o nosso material de impressão a preços de custo. Fazemos isso há 25 anos; para nós, é apenas um pequeno apoio aos movimentos sociais dos quais participamos. Não recebemos bolsas ou qualquer outra fonte de financiamento externo. Temos determinação para nos reerguer e continuar nossa missão, mas vamos precisar de ajuda.

É especialmente lamentável que isso ocorra agora, quando estamos prestes a concluir uma campanha no Kickstarter para reimprimir dois de nossos livros. A boa notícia é que, como esses livros ainda estão em produção na fábrica, eles não foram destruídos no incêndio. Eles ainda sairão como prometido assim que os recebermos. É assustador pedir mais ajuda agora, mas realmente não temos outra escolha.

As doações dedutíveis de impostos também podem ser feitas diretamente em https://crimethinc.com/support. Considere se inscrever para fazer uma doação mensal recorrente para nos ajudar a sustentar o que faremos no futuro.

Agradecemos a todas as pessoas que nos ajudaram a chegar até aqui. Se conseguirmos superar isso, prometemos continuar fazendo esse trabalho por décadas.

Fonte: https://pt.crimethinc.com/2021/12/17/ajude-nos-a-recuperar-do-incendio-que-destruiu-nosso-espaco-de-envios-postais-queimados-mas-nao-derrotados

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Os grilos cantam
Apenas do meu lado esquerdo –
Estou ficando velho.

Paulo Franchetti