[Chile] Nação Mapuche. “Não há outra maneira senão weychan (resistência)”.

O projeto político e burocrático reciclado para enfrentar o conflito com a nação Mapuche está condenado ao fracasso. Se insistirá na teoria dos “caminhos”, que serve para reforçar uma institucionalidade opressiva com um discurso que criminaliza antecipadamente as expressões de resistência.

Declaração da Coordenadora Arauco Malleco (CAM) sobre as novas táticas de assimilação e indigenismo das elites e Gabriel Boric:

Em nossa opinião, a eleição de Boric é parte de um contexto marcado pela reciclagem de uma antiga institucionalidade assimiladora que falhou no Wallmapu.

A presença indígena na assembléia constituinte e a suposta aspiração plurinacional do novo governo, ambos fatores com claras limitações políticas e ideológicas, indicam que o objetivo institucional não é transformar a correlação de forças entre as duas nações, uma questão que forçaria a questão da despossessão territorial e os interesses do grande capital que opera em Wallmapu, mas legitimar um discurso progressista sobre questões indígenas em nível nacional e internacional que cega os amantes deste novo governo “progressista” e de “boas vibrações”.

Neste contexto, certos setores mapuches que vêem uma oportunidade na institucionalidade Winka aparecem e se reorganizam, seja para benefícios pessoais ou porque demonstram, agora sem problemas e dançando alegres no palácio de La Moneda, que sua luta tem mais a ver com o preenchimento de formulários no CONADI ou na Forestal Arauco do que com a recuperação de nosso território. Como já dissemos antes, esta abertura institucional deve ser lida como um rearranjo das formas de legitimidade e hegemonia colonial que o grande capital estabelece no Wallmapu para encurralar e sufocar as expressões revolucionárias da resistência mapuche e não como um sinal de vontade política para resolver o conflito histórico.

É assim que podemos entender o papel que os históricos Yanakonas, como Santos Reinao e Galvarino Reiman, entre outros personagens com o sobrenome Mapuche, estão desempenhando em servidão às empresas florestais.

A tal ponto que este rearranjo é funcional ao sistema capitalista neoliberal que setores da ultra-direita, empresários, colonos e grupos paramilitares que existem em nosso território ancestral, promovidos por organizações como a APRA e indivíduos como Gloria Naveillan e Miguel Mellado, firmemente anti-Mapuche, têm apoiado publicamente personagens como Galvarino Reiman, Aucan Huilcamán ou Norín como atores relevantes no problema Mapuche.

Portanto, não deve ser surpresa que setores supostamente progressistas identifiquem as mesmas pessoas como interlocutores “válidos” para supostos diálogos. O que o governo procura não é fazer progressos na resolução do conflito, mas legitimar seu aparato assimilador a todo custo, principalmente com setores Mapuche cooptados e servis.

Ao mesmo tempo, os chamados “acadêmicos” e “intelectuais” mapuches que, após ganharem dinheiro às custas do movimento revolucionário autonomista, fingindo ser especialistas no assunto a fim de conseguir empregos no sistema, se posicionaram como porta-vozes de uma democracia plurinacional que está apenas em suas mentes nostálgicas, estão mais uma vez aparecendo.

Aqueles que antes pretendiam ser “intelectuais do movimento mapuche” tomaram agora sua posição nas Universidades, Centros de Pesquisa e órgãos públicos para elaborar a engenharia para legitimar este rearranjo colonial, mesmo utilizando as mais sofisticadas elaborações teóricas, historiográficas e artísticas para cumprir seus fins institucionais.

Estes chamados intelectuais, após suas piruetas analíticas e conselhos aos novos gabinetes, acabam ignorando o fato de que o legado do weychan é atualmente uma prática viva, uma questão já demonstrada nas diversas zonas de conflito e processos de recuperação territorial que as organizações mais consistentes empreenderam na luta pela reconstrução nacional mapuche.

É por causa do exposto acima que prevemos que o projeto político e burocrático reciclado para lidar com o conflito com a nação mapuche está condenado ao fracasso. Insistirá na teoria dos “caminhos”, que serve para reforçar uma institucionalidade opressiva com um discurso que criminaliza antecipadamente as expressões de resistência.

Eles procurarão cooptar o número máximo de pessoas que pertenceram ao movimento Mapuche; haverá setores e lonko histórico do weychan que se deixarão seduzir por negociações leves e trocarão princípios por esmolas lamentáveis. Apesar disso, existem expressões comprometidas em continuar no caminho da libertação nacional weychan e Mapuche, um espaço onde assumimos um compromisso como CAM, sem concessões, e seguindo os princípios legados por nosso futa keche kuifi.

É por esta razão que nos definimos como Mapuche revolucionários e lutamos durante anos contra as expressões territoriais do Estado capitalista e colonial. É pela mesma razão que nossas ações continuarão a atacar a reprodução do grande capital que opera com sangue e fogo em nossa Wallmapu e fortaleceremos o controle territorial como a plataforma básica e única para transformar a realidade criada pelo extrativismo genocida.

Como CAM, não dialogaremos com aqueles cujo objetivo final é a aniquilação de nosso povo, como Monsalve e companhia.

Em meio a tanta confusão, reafirmamos nosso caminho político-militar do weychan como fizeram Leftraru, Pelontraro e nosso weychafe caído em combate em seu tempo, que não está focado em obter migalhas burocráticas do inimigo, mas em lançar as bases de nossa proposta de libertação nacional mapuche, para a qual é necessária a expulsão de toda expressão capitalista e colonial do Wallmapu.

“Chumkawürme famentu kunulayayiñ taiñ rüf chumkunurpuel zungu taiñ kuifike cheyem”…

“Furi trekawlayiñ, chew ñi witrum mollfüñ, chew ñi fenteñma kutrankawmum fentren ke cheyem taiñ wiño kisu ngunetuafel”…

“Femechi mu llemay, pu Lonko, pu Machi, pu wewpife, kuifike Koyawtufe, ka pu Weichafe, eluwlaymün tañi wewngeal tüfachi Weichan mu”…

“Taiñ pu trananagchi weichafeyem mew amuleay taiñ weichan”…

” Inayafiyiñ tüfachi kiñe rüpü müten, taiñ ka antü kizungunewtual, eluwlayiñ welu trapümnerpuayiñ tañi Mapuche newen”.

Weuwaiñ!

Marrichiweu!

Comissão Política, CAM.

Fonte: https://prensaopal.cl/2022/04/04/nacion-mapuche-no-hay-mas-camino-que-el-weychan-resistencia/?fbclid=IwAR2cKoTi_IjQJcpMeQB_nFH4wp04oj6Mn4VGjL-hlHG7OUycIZe0W1b6qrM

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Solidão no ninho
O pássaro se assusta
No eco do trovão

Rodrigo de Almeida Siqueira

[México] 1° Jornada Anarquista Pela Memória do PLM

|| Quinta-feira, 19 de maio, CSL Ricardo Flores Magón, C. Donceles, N°10, Centro Histórico, Cidade do México ||

É um prazer convidá-lo para este próximo evento, esperamos que você possa se juntar a nós e desfrutar tanto quanto nós destas interessantes participações. Esperamos vê-lo a partir das 17h.

Pela reivindicação histórica do anarquismo!

Apresentação dos livros:

La Revolución Social en el norte de México y Las Comunas anarquistas del Partido Liberal Mexicano“, apresentado por Luis Maldonado.

La poesía de la revolución. Vida y obra de Práxedis G. Guerrero en el anarquismo mexicano, apresentado por Erick Benítez Martínez.

Las magonistas, apresentado por Nayeli Morquecho.

Federación Anarquista de México (FAM) – Internacional de Federações Anarquistas (IFA)

agência de notícias anarquistas-ana

a lua se foi
meu rouxinol se calou
acabou-se a noi-

Issa

Memória | Anarquismo, Raça e Classe!

Por Marcolino Jeremias

Em destaque, foto de uma assembleia organizada pela Federação Operária do Rio de Janeiro, na sede do Centro Cosmopolita, em março de 1917, poucos meses antes da Greve Geral daquele ano. O objetivo daquela reunião era tomar medidas efetivas para conter os constantes ataques aos direitos dos trabalhadores que estavam acontecendo.

Segundo a imprensa oficial, um dos oradores foi o anarquista negro brasileiro, Candido Costa, carpinteiro de profissão, que proferiu um discurso sensacional, pela concisão e rigor da crítica exercida sobre as causas da premente condição em que se encontrava a classe trabalhadora.

Fala-se aqui – diz o orador – da crise, da miséria, da carestia, dos prejuízos gerais, mas nem sequer por mera curiosidade se consulta o operário (…) Nós os pobres, cuja pátria única é o mundo, devemos compreender o quanto somos usurpados em nossos direitos para que saibamos marchar para a sua reivindicação, convictos e enérgicos.

O orador falou na revolta dos negros em São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, no tempo do cativeiro no Brasil, citando o heroísmo com que batalhavam e resistiam às próprias armas, a bem de sua liberdade. Transporta-se à revolução na Rússia, de que resulta o baque do déspota, e incita, por esses exemplos dignificantes, a assembleia, a secundá-los.

Neste diapasão, o orador prossegue, ainda por longo tempo, em seu discurso, e termina-o sob grandes aplausos da assembleia, confessando a sua confiança na ação dos trabalhadores. Nessa reunião também falaram os anarquistas: José Romero, Paschoal Gravina, entre outros…

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/05/11/memoria-a-revolucao-pela-fome-o-anarquismo-brasileiro-contra-a-carestia/

agência de notícias anarquistas-ana

Sob o caramanchão
o céu,
noturna renda.

Yeda Prates Bernis

[Portugal] Cá está mais um Jornal MAPA – edição 34 (Maio-Julho 2022)!

No meio da tempestade perfeita, potenciada pela espiral de destruição da guerra na Ucrânia, a edição #34 (Maio-Julho) do Jornal MAPA, reflete inevitavelmente sobre a barbárie da guerra e a militarização das nossas vidas, essa normalidade do “medo permanente” que recusamos. Nestes tempos é cada vez mais importante que falemos do mundo rural e do sistema agro-alimentar que nos toca a todos/as – aqui numa conversa com a revista espanhola Soberanía Alimentaria, Biodiversidad y Culturas; como que mantenhamos sempre em destaque as lutas contra a mineração, desta feita num artigo sobre os truques de ilusionismo levada a cabo pelas companhias mineiras na região do Barroso; ou que anunciemos outras não menos importantes Lutas pelo Território como a do recente movimento Idanha Viva contra o projeto do IC31. Porque importa que sejamos espaço para outras memórias e narrativas, a história da Livraria Utopia, no Porto, inaugura a primeira de várias peças onde tentaremos trazer à superfície as histórias e estórias de Abril ligadas à espontaneidade e auto-organização. E continuamos a ser veículo de cartas vindas diretamente das prisões, para que se possa ler aqueles/as que nunca tem direito à voz. Outros apontamentos e crônicas levam-nos aos despejos de dezenas de casas ocupadas por todo o país, à ciganofobia, assim como a falar dodesporto popular lisboeta d’ O Relâmpago; ou do festival Periferias, cinema combativo entre Marvão e Valência de Alcântara. E outros temas mais há para descobrirem.

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agência de notícias anarquistas-ana

curta noite
perto de mim, junto ao travesseiro
um biombo de prata

Buson

 

[Espanha] Por que Barcelona se tornou a capital mundial do anarquismo

O livro ‘La lluita per Barcelona’ analisa os fatores sociais, urbanos e econômicos que transformaram a capital catalã no epicentro do movimento libertário global.

Por Pol Bareja | 29/04/2022

Quando Albert Einstein visitou a Espanha em fevereiro de 1923, o cientista já era uma estrela mundial. Dois anos antes, ele havia recebido o Prêmio Nobel de Física e a imprensa se referiu a ele como “o Newton do século 20”. Depois de passar alguns dias em Barcelona, ele não quis deixar a cidade sem antes ir à sede do sindicato anarquista CNT e dar uma palestra a um grupo de trabalhadores, a quem ele elogiou por seu compromisso social.

A ideia de que o principal cientista do mundo visitaria hoje a sede de um sindicato anarquista parece inverossímil. A anedota destaca até que ponto o anarquismo se tornou um importante ator social na Catalunha durante a primeira metade do século 20, com centenas de milhares de membros. O sindicato tornou-se um verdadeiro poder de fato, com uma capacidade de mobilização sem igual, e liderou projetos educacionais e sociais que preencheram o vácuo de um estado em decomposição após a perda de suas três últimas principais colônias (Cuba, Porto Rico e Filipinas).

O poder que o anarquismo teve em Barcelona desde o final do século XIX até a Guerra Civil foi descrito em várias ocasiões. Desde as greves do início do século até o período entre julho de 1936 e maio de 1937, quando 70% das fábricas da cidade foram coletivizadas e a capital catalã se tornou a maior cidade do mundo a experimentar o libertário.

O que levou a cidade catalã a se tornar o maior centro anarquista do mundo? Por que Barcelona e não outra cidade? O livro La lluita per Barcelona (A luta por Barcelona) tenta responder a estas perguntas com uma análise exaustiva do movimento libertário de Barcelona. Inicialmente publicado em espanhol em 2005 pela Alianza, agora está disponível em catalão nas livrarias publicadas pela Virus.

Escrito pelo hispanista britânico e discípulo de Paul Preston, Chris Ealham (Kent, 1965), o livro passa em revista os fatores que fizeram de Barcelona a capital do anarquismo do ponto de vista econômico, social e urbanístico. Também expõe as lutas internas entre as diferentes facções da CNT e da FAI, a violência exercida tanto por grupos libertários quanto por quadrilhas armadas dos patrões, e a repressão ao movimento operário durante o primeiro terço do século XX.

O livro aborda um assunto tabu que quase não é lembrado: como o governo da Segunda República – e o da Generalitat liderada pela ERC – reprimiu duramente o movimento de trabalhadores libertários em defesa da ordem republicana. “A República que havia prometido tanto às massas”, escreve Ealham, “assumiu uma compleição que muitos trabalhadores acabaram achando tão condenável quanto a monarquia que a precedeu”.

A importância dos bairros

Em seu estudo, o historiador descreve a influência dos diferentes bairros de Barcelona ao reunir uma massa de anarquistas na cidade. Ealham olha tanto para os fatores organizacionais desta vida nos distritos como para os planos urbanos que promoveram seu assentamento e acabaram dividindo Barcelona em bairros ricos e bairros operários.

O livro menciona o fracasso do Plano Cerdà como uma continuação das desigualdades sociais na cidade. Ele descreve como a visão utópica do urbanista, que viu em seu projeto uma proposta integradora e civilizadora que eliminaria o conflito social, caiu em ouvidos surdos após a ocupação das classes abastadas no Eixample de Barcelona.

Ealham acredita que o sonho de Ildefons Cerdà de um novo bairro interclassista foi rapidamente frustrado. A partir de 1880, a burguesia deixou o centro da cidade em um processo que se acelerou no início do século 20, quando houve vários episódios de barricadas e revoltas em várias greves gerais no referido centro.

Durante as primeiras décadas do século XX, milhares de migrantes do resto da Espanha chegaram a Barcelona. Aos poucos, as favelas começaram a proliferar na periferia da cidade e o centro da cidade também foi ocupado pelas classes mais pobres. Estima-se que no final da década de 1920, 35% da população urbana da capital catalã era migrante.

As áreas da classe trabalhadora ficaram cada vez mais superlotadas. Em alguns bairros periféricos, como Torrassa e Collblanc, em L’Hospitalet de Llobregat, a população aumentou 465% em apenas uma década. Em 1930, Barcelona era a cidade mais populosa da Espanha depois da anexação nos anos anteriores das cidades de Gràcia, Sant Martí, Sants e Sarrià.

Segundo o hispanista, este rápido crescimento gerou uma “profunda crise urbana” na qual o Estado estava ausente em muitos distritos. Em alguns casos foi a igreja que preencheu o vazio, em outros foi a CNT e sua rede de ateneus e instalações oferecendo serviços, ajuda e educação às classes trabalhadoras.

“Os bairros, uma criação direta da cidade capitalista, produziram as estruturas culturais através das quais os trabalhadores faziam sentido no mundo urbano”, diz o historiador. “Por sua vez, eles exerceram uma profunda influência sobre a identidade coletiva e política do movimento operário na cidade”.

Ao contrário do resto da Europa, até o final dos anos 30 as fábricas de Barcelona estavam localizadas nos mesmos bairros onde os trabalhadores moravam, e eles andavam de casa para o trabalho. Este aspecto, juntamente com o bom clima e a precariedade da habitação, encorajou uma socialização na rua que ajudou a gerar uma extensa rede de colaboração cidadã. A ocupação do espaço público também promoveu uma grande interação entre os cidadãos nascidos em Barcelona e os recém-chegados. “Nenhum bairro de migrantes se tornou um gueto”, analisa Ealham.

E havia a CNT como uma força integradora, tentando resolver os problemas cotidianos dos vizinhos, como a inflação ou os preços de aluguel, e ganhando gradualmente influência na cidade. E depois houve seus ateneus e escolas racionalistas, educando sucessivas gerações de ativistas e líderes libertários, propagando uma tradição anticlerical que desafiou a educação católica e transmitindo uma cultura de ação e mobilização às classes mais baixas.

“Podemos concluir que, ao final da Primeira Guerra Mundial, havia uma esfera pública alternativa vibrante, com seus próprios valores, ideias, rituais, organizações e práticas”, diz o autor, que descreve a consolidação de um “projeto anti-hegemônico” que permeou os bairros de Barcelona.

A isto deve ser acrescentada uma extensa rede de solidariedade entre vizinhos que foi além do núcleo familiar. A inflação descontrolada e os baixos salários – muitos trabalhadores com emprego permanente tinham problemas financeiros – fizeram o resto. “Devido à existência precária a que grande parte da classe trabalhadora estava sujeita, qualquer deterioração das condições econômicas poderia provocar uma resposta violenta”, observa o livro.

A repressão aos trabalhadores

Outro motivo crucial para a criação de um viveiro libertário na cidade, de acordo com Ealham, foi a severa repressão do Estado às mobilizações dos trabalhadores no início do século 20. “Em vez de produzir calma, a violência do Estado exacerbou a rebelião social”, aponta o historiador. “A ausência de qualquer canal para a resolução pacífica das disputas trabalhistas significava que elas sempre acabavam nas ruas”.

O crescente conflito urbano foi agravado por uma burguesia catalã que se sentia cada vez mais abandonada pelo governo central, presa entre um estado distante e um movimento operário em ascensão. As classes ricas se sentiram inseguras, indefesas e distantes dos centros de poder, e acabaram incentivando a criação de grupos paramilitares e/ou armados como o Sometent ou os Sindicatos Livres, que agiram ao lado das forças de segurança do Estado contra os trabalhadores.

O livro vai ao ponto de apontar que os conflitos violentos dos trabalhadores na cidade originaram “principalmente” da “propensão” dos “homens de ordem” para “militarizar” as relações industriais.

O autor também dedica muitas páginas para descrever a deterioração da relação inicialmente boa entre a CNT e o ERC, e como esta divisão acabou facilitando um aumento do apoio anarquista em Barcelona.

O partido pró-independência capitalizou inicialmente o sentimento antimonarquista e ganhou muitos votos de militantes libertários. Com a declaração da Segunda República, porém, a “ordem” tornou-se uma das marcas da Generalitat nas mãos da ERC, que também implantou uma campanha xenófoba contra os trabalhadores espanhóis – inclusive fretou trens para “repatriar” migrantes do resto do país – que ampliou a lacuna com a militância anarquista.

“O discurso do ERC era parte de uma estratégia deliberada para dividir a classe trabalhadora segundo linhas étnicas e também entre aqueles que estavam empregados e aqueles que não estavam”, observa Ealham, “em vez de investir em pacotes de reforma de longo alcance que teriam desanuviado as tensões sociais, as autoridades aumentaram os gastos com as forças de segurança”.

O livro conclui que esta postura do ERC “deixou muito espaço” para o anarquismo na cidade, a ponto da CNT se tornar a estrutura organizacional dominante em Barcelona. Os setores mais radicais do sindicato aproveitaram o desencanto dos trabalhadores com a Segunda República e acabaram se impondo às vozes mais pragmáticas dentro do movimento, com confrontos armados entre as diferentes facções.

A divisão levou a uma perda significativa da filiação aos sindicatos libertários. Em Barcelona, no entanto, o declínio do número de membros foi quase imperceptível e a CNT manteve grande parte de sua capacidade de mobilização. Os anarquistas então começaram uma campanha de revoltas antirrepublicanas em 1933 que abriria uma brecha com as autoridades que nem mesmo a revolta fascista de 1936 conseguiu fechar.

Fonte: https://www.eldiario.es/catalunya/barcelona-convirtio-capital-mundial-anarquismo_1_8955643.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

sobre os vidros
traços de nariz e dedos
olham ainda a chuva

André Duhaime

[Espanha] CGT inaugura nova sede em Teruel à medida que aumenta o número de afiliados

José Manuel M. Póliz, secretário geral da CGT: “Nosso DNA é este: todos os acordos que são gerados são o resultado das decisões das pessoas filiadas à nossa organização”. A Confederación General del Trabajo (CGT) tem agora uma presença em todas as províncias da Espanha. Esta é uma consequência do crescimento que a organização anarcossindicalista vem experimentando nos últimos anos, tornando-a uma opção sindical honesta, séria e real diante das ações dos sindicatos institucionais ou convencionais.

A pandemia do coronavírus atrasou por mais de dois anos a inauguração desta nova sede em uma cidade tão importante como Teruel, e chega em um momento muito positivo tanto para o anarcossindicalismo quanto para a CGT.

César Yagües, Secretário Geral da CGT Aragón-La Rioja, explicou que isto era um reflexo do aumento do número de afiliados e lembrou que dentro de algumas semanas outra sede será aberta em Zaragoza. Yagües também lembrou que a pandemia de Covid-19 trouxe não apenas meses muito ruins para a saúde, mas também para a atividade sindical e social em todo o estado. “É por isso que neste momento temos que apostar em outra forma de fazer sindicalismo, e a CGT é uma opção mais do que válida para responder em nossa sociedade a todas as exigências da classe trabalhadora”.

A CGT é, segundo o Secretário Geral José Manuel M. Póliz, uma organização sindical que já criou raízes em toda a Espanha: há cada vez mais pessoas filiadas e isto significa que temos que buscar instalações mais acessíveis e maiores para que possamos funcionar com base na atividade que o sindicato gera. Nas palavras de Muñoz Póliz, “a chave para o crescimento da CGT é que ela é uma organização muito participativa”. Os membros são os que decidem o que querem. Não há executivos que o façam por eles na assinatura de acordos, reformas trabalhistas, ou qualquer outro tipo de ação que não envolva a assembléia de companheiros”. Segundo Poliz, um exemplo disso pode ser visto recentemente na greve dos metais na Baía de Cádiz, onde a CGT avançou com as mobilizações, incluindo a greve, quando outras organizações sindicais chegaram a acordos com os patrões sem levar em conta os sentimentos dos trabalhadores afetados, que sentiram que tinham que continuar lutando contra a precariedade nesta região andaluza.

A situação foi explicada por José Manuel M. Póliz na coletiva de imprensa para apresentar a nova sede à mídia: “Desde a crise de 2008, onde as pessoas começaram a sofrer muito porque muitas pessoas saíram do trabalho e os empregos que ficaram também eram muito precários, enquanto a UGT e a CC.OO. caíram em 25% em seus níveis de filiação à CGT, notamos que estávamos crescendo. Nossa organização trabalha de uma maneira totalmente diferente. Na UGT e CC.OO., no sindicalismo institucional, por assim dizer, é a liderança que decide por todos os membros. Acreditamos que os trabalhadores afetados pelo fechamento de sua empresa têm uma palavra a dizer, eles são os que melhor conhecem as circunstâncias de seus empregos, e por esta razão não podemos impor-lhes nenhuma decisão ou solução, como aconteceu com o fechamento da SINTEL em Madrid. Os sindicatos do regime impuseram uma solução aos trabalhadores sem sua contribuição, razão pela qual muitos deles acamparam por algum tempo no Paseo de la Castellana”.

Pablo Herreros (CGT Teruel Secretário Geral) está bem ciente da situação do emprego na província. “Estamos crescendo muito na SARGA, que é uma empresa onde o trabalho é casual e muito precário. As pessoas estão procurando outro modelo de sindicalismo que responda aos seus problemas reais e porque o sindicalismo tradicional não o está fazendo”. “Além disso”, disse Herreros aos jornalistas, “temos companheiros que se organizaram na Cruz Vermelha, ganhando as eleições pela primeira vez nesta empresa e assinando um novo acordo na província de Teruel que melhorou muito suas condições de trabalho na ONG”.

Pablo lembrou que na CGT eles estão conscientes de que não têm o mesmo aparelho ou o mesmo poder de convocação na mídia convencional, mas pouco a pouco, o trabalho está dando frutos e a CGT tem conseguido um reconhecimento muito importante.

Fonte: https://cgt.org.es/cgt-inaugura-una-nueva-sede-en-teruel-ante-el-aumento-de-la-afiliacion/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

espiral de sol –
luz nas frestas da
escada em caracol

Carlos Seabra

[Chile] Diante da ofensiva estatal do “Estado Intermediário”, a CAM pede para se preparar para a defesa

A imprensa informa que esta semana o Congresso poderia começar a debater a ideia do Governo do Presidente Gabriel Boric do “Estado Intermediário”, que busca criar um estado de exceção que permita que os militares sejam destacados para proteger o fluxo de mercadorias do capitalismo extrativistas ao longo das estradas.

Mesmo sem conhecer os detalhes específicos da iniciativa repressiva, para o werken da CAM (Coordinadora Arauco-Malleco), Héctor Llaitul, nada mais é do que uma variação dos estados de exceção da ditadura sob um manto amigável aos olhos do progressismo, mas que significa repressão e morte para o povo mapuche.

“O estado intermediário está chegando, o que nada mais é do que um novo estado de exceção. Ou seja, os milicos capangas estão mais uma vez destacados no Wallmapu, guardando os interesses do grande capital. É a expressão plena da ditadura militar que os mapuche sempre sofreram, uma ditadura que agora é assumida pelo governo de Boric”, argumentou ele em suas redes sociais.

Diante de uma nova ofensiva estatal para aprofundar a militarização de Wallmapu e assim bloquear as demandas das comunidades e organizações mobilizadas, Llaitul chamou para se preparar para a defesa.

“Vamos preparar as forças, organizar a resistência armada pela autonomia do território e a autonomia da nação mapuche”, disse ele.

Fonte: https://infowerken.com/?p=199

agência de notícias anarquistas-ana

a noite sorri
lua crescente
nos olhos do guri

Alonso Alvarez

Chamada de solidariedade com os compas perseguidos na Grécia Ocidental (Messolonghi)

Na sexta-feira, 25/02, pela tarde, o Ministro do Interior, Makis Voridis (antigo membro de uma organização fascista), estava a ponto de participar de um evento do partido no poder em nossa cidade, Messolonghi (Grécia Ocidental). Um pequeno grupo de anarquistas e antifascistas parou espontaneamente na passarela próxima da cafeteria onde se realizaria o evento como fim de expressar nossa “hospitalidade” a ele e a seus amigos. Não passou muito tempo para que chegasse a polícia, bloqueando o caminho para a cafeteria e tratando de manter longe a multidão reunida (membros do partido, congressistas, prefeitos). Durante umas 2 horas paramos próximo do café gritando lemas antifascistas, enquanto que também os transeuntes (estudantes, trabalhadores) se uniram à manifestação contra o bloco de policiais vaiando, atirando laranjas e garrafas.

A poucos minutos do final do evento, chegaram reforços à polícia, nos rodearam e atacaram para nos tirar da passarela. Em meio do conflito seguinte de homem a homem, um policial ferido na cabeça e a maioria das pessoas espalhadas em volta.

Posteriormente, a polícia deteve 10 pessoas enquanto registrava outra, que foi o culpado da lesão do policial (foi detido dois dias depois). Finalmente 7 pessoas imputadas por faltas e 2 por delitos graves relacionados à lesão. Cada um dos 2 últimos companheiros mencionados tem que pagar 3.000€ de fiança para evitar a custódia e se apresentar à delegacia local 3 vezes por mês. Interpuseram-se recursos contra as fianças e agora estamos à espera da decisão do conselho da corte em um tempo indeterminado.

“Contra o controle” (antielegxou) é um contínuo esforço de luta de anarquistas e antifascistas nas ruas e praças contra o Estado, os fascistas e qualquer forma de autoridade desde 2017. Não cremos que possuamos a receita perfeita para a destruição deste explorador e opressivo mundo, mas isto não impede que sigamos avançando para um mundo de liberdade, solidariedade e auto-organização. Desde a pequena cidade de Messolonghi a todos os rincões da terra o ponto é: nunca te detenhas. A repressão do Estado tenta nos derrubar, nos aterrorizar, quanto mais cravamos nossos calcanhares. Nunca te rendas. Há que se pôr de pé.

Solidariedade com os companheiros perseguidos. A luta continua contra o Estado e qualquer forma de autoridade.

Apoio econômico em: https://www.firefund.net/messolonghisolidarity

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

um ponto vem do horizonte,
vira pássaro, desce e pousa;
a árvore o repousa.

Alaor Chaves

[Portugal] Manifesto das Jornadas Anarquistas do Livro e da Autoprodução

Para se discutir livremente deve-se arrebatar tempo e espaço aos imperativos sociais. Em suma, o diálogo é inseparável da luta. É inseparável materialmente (para falarmos devemo-nos subtrair ao tempo imposto e agarrar os espaços possíveis) e psicologicamente (os indivíduos adoram falar daquilo que fazem, pois só então as palavras transformam a realidade).” – Ai Ferri Corti

Nestes 3 anos desde o último Encontro Anarquista do Livro do Porto temos a impressão de que o mundo inverteu os seus pólos. Desde a “crise” pandêmica, que justificou e agravou a crise “endêmica” do capitalismo, à recente mobilização militarista dos impérios decadentes, parece ser difícil encontrar pontos de referência e momentos de discussão que fujam à polarização imposta a partir de cima.

Momentos como este demonstram, mais uma vez, a necessidade do debate contínuo entre indivíduos que partilham um mesmo projeto, uma mesma vontade, um mesmo ideal (apesar das diversas formas que ele possa assumir). Um debate que fuja à artificialidade do digital, principal responsável pela degradação da capacidade de análise (e pela consequente propagação de um consenso estéril), pela presente leviandade do que é dito e pela auto-suficiência ativista por trás de um ecrã.

Neste mundo que avança a passos largos para a completa desmaterialização da vida e onde os significados das palavras são constantemente manipulados na tentativa de apagar qualquer vestígio de um pensamento minimamente crítico, impõe-se a questão de fazer ou não sentido despender energia a organizar mais um Encontro Anarquista do Livro. Para nós a resposta é óbvia.

Porque continuamos a reconhecer a palavra escrita e impressa como parte de um arsenal a explorar, o livro como algo com potencialidade de nos abrir um vasto campo de debate que vai para além da discussão efêmera e fútil das redes sociais modernas e do imediatismo da opinião formatada pela propaganda midiática.

Porque através da leitura continuamos a encontrar, no passado e no presente do “sonho anarquista”, centenas e centenas de exemplos de companheiros e companheiras que nos inspiram e nos mostram que, apesar de todas as adversidades, sempre fomos capazes de desenvolver uma crítica e prática antiautoritárias contra este mundo, de planejar o assalto aos céus, sem nunca pedir autorização a nada nem ninguém. Exemplos inspiradores de quem pensou e agiu enquanto havia quem esperasse o amadurecimento das condições ideais!

Tendo como pressuposto a recusa da espera pelas ditas condições e valorizando, de certo modo, a criação de alternativas práticas que nos permitam sobreviver no sistema vigente no imediato, decidimos nesta edição alargar o Encontro do Livro a projetos de autoprodução. Projetos que vão desde a autonomia alimentar à impressão, mostrando que a vontade de emancipação se pode traduzir em opções válidas mesmo nos tempos sombrios que vivemos.

No entanto, somos conscientes que projetos baseados meramente num impulso de autonomia em relação ao mercado têm por definição certos limites e que podem, até mesmo, representar apenas uma solução confortável para criar somente mais um novo estilo de vida, deixando intacta toda a estrutura de dominação existente. Nesse sentido, o nosso objetivo ao incluir a questão da autoprodução é encontrar os pontos onde a vontade de autonomia e a necessidade de revolta e subversão se tocam.

Assim, vemos estes 2 dias como um espaço de debate claro entre companheiros e companheiras e como momento público de divulgação desse amplo espectro de ideias e práticas que constitui o “espaço anarquista” e o define como o movimento de negação multiforme para a subversão da ordem social e pela apropriação das nossas próprias vidas.

Estas Jornadas Anarquistas do Livro e da Autoprodução são, pois, uma tentativa de arrancar tempo e espaço ao quotidiano do poder, de os definir nos nossos próprios termos, de criarmos um momento de contágio. Um momento de encontro e debate pela criação de novas afinidades rebeldes e de reforço de laços antigos entre companheiros e companheiras, na esperança de acabarmos estes dois dias com motivações renovadas para enfrentar os tempos difíceis que já cá estão.

Contato: encontroanarquistaporto@riseup.net

FB: https://www.facebook.com/JAnarLAP/

agência de notícias anarquistas-ana

uma folha salta
o velho lago
pisca o olho

Alonso Alvarez

[Reino Unido] Resistir à guerra, recusar a corrida às armas

Por Satish Kumar (sobre a resistência não violenta)

A revista Resurgence  (hoje, Resurgence & Ecologist) nasceu em 1966, quando a Campanha para o Desarmamento Nuclear (CND) e o Comitê dos 100 estavam profundamente empenhados em protestos não violentos contra a corrida às armas nucleares. Bertrand Russell e centenas de outros ativistas pela paz tinham sido presos por causa da sua resistência à bomba. O editor que fundou a revista Resurgence, John Papworth, era na época uma parte integrante do movimento dessa resistência. A Resistência Internacional à Guerra (War Resisters’ International), juntamente com o seu jornal Peace News, situava-se na frente da ação direta não violenta com vista a parar a guerra fria, simbolizada pela bomba atômica.

Tinha eu então 25 anos quando li que, aos 90 anos, o velho Russell tinha sido lançado na prisão por ter protestado contra a bomba. Foi para mim uma inspiração tão grande que parti da Índia a pé com o meu amigo E. P. Menon, sem um centavo nos nossos bolsos mas com a coragem da convicção e confiança nos nossos corações. Dirigimo-nos às quatro capitais nucleares do mundo, Moscou, Paris, Londres e Washington, para protestar e resistir à corrida às armas.

O equivalente nos Estados Unidos ao movimento europeu era a luta contra o racismo, que resultou também na prisão de grande número de ativistas. O próprio Martin Luther King foi preso 29 vezes por se recusar a obedecer ao sistema da discriminação social. O meu amigo e eu tivemos a honra de nos encontrarmos com esse lutador da resistência não violenta. King era a encarnação do amor e da ação radical. Disse-nos: “As pessoas querem que eu me esforce por uma mudança gradual, mas justiça adiada é justiça negada.”

Quando King se empenhou na resistência não violenta, chamaram-lhe criminoso, mas agora ele é um herói nacional e a sua imagem ilustra a Sala Oval da Casa Branca.

Nelson Mandela sofreu na prisão durante 27 anos e acabou por se tornar presidente da África do Sul. Fiquei de tal forma impressionado com a prisão de Mandela que me juntei ao Movimento Anti-Apartheid e me postei em protesto diante da Embaixada da África do Sul com o meu amigo Canon Collins.

Todos esses heróis da resistência não violenta aceitaram de livre vontade as consequências das suas ações. Estavam preparados para sofrer pela causa. Mahatma Gandhi chegou mesmo a dizer: “Entrarei na prisão como o noivo ao entrar no quarto nupcial.”

Emmeline Pankhurst e o movimento das sufragistas faziam parte da nobre tradição de resistência não violenta que afirma que os fins nobres devem ser alcançados por meios nobres. É por isso que os ativistas não violentos estão preparados para assumir o sofrimento para si mesmos em vez de infligir sofrimento aos seus oponentes. Esse ideal continua a inspirar muita gente no nosso tempo. A luta contra a corrida armamentista, contra o racismo e contra a catástrofe climática  é um contínuo. O Greenpeace pôs em prática exemplos cintilantes de ação direta não violenta. O movimento Rebelião Contra a Extinção atraiu pessoas de todas as idades para se prontificarem voluntariamente a serem presas, já que estão preparadas para sofrer  pela salvação do nosso precioso planeta Terra. Greta Thunberg sentou-se na rua em Estocolmo arrostando com o ridículo e a chacota, de forma a lembrar-nos da estupidez da civilização industrial. Vandana Shiva e Jane Goodall são heroínas ativistas que se entregaram à luta, ao longo de toda a vida, para restaurar uma cultura e uma agricultura regeneradoras.

A história da resistência não violenta  é tão longa quanto inspiradora, entusiasmante e enérgica. Para tornar a vida sagrada, nós, os ativistas não violentos, fazemos sacrifícios, mas fazemo-lo com prazer e com amor. A revista Resurgence celebrou esse ativismo ao longo dos últimos 56 anos. Possa ela continuar a fazê-lo pelos próximos 56 anos.

>> Satish Kumar é autor do livro Pilgrimage for Peace, no qual conta a sua marcha de 8 mil milhas em expressivos pormenores. Ver: shop.resurgence.org/books

Tradução > José Carlos Costa Marques

Fonte: https://aideiablog.wordpress.com/2022/05/11/resistir-a-guerra-recusar-a-corrida-as-armas/

agência de notícias anarquistas-ana

Noite de desejo!
O amor penetra e ilumina
Quando a luz se apaga…

Clície Pontes

 

[Holanda] As raízes radicais do bikesharing

Na Amsterdã dos anos 1960, um movimento de contracultura com uma pequena frota de bicicletas brancas foi pioneira em um modelo de transporte que conquistou milhares de cidades pelo mundo todo.

Por Feargus O’Sullivan | 26/02/2022

Em 1967, um representante recém-eleito do Amsterdam City Council [Conselho Municipal de Amsterdã] chamado Luud Schimmelpenninck apresentou uma proposta inovadora à cidade: por que a prefeitura não ajudava a resolver os problemas de congestionamento do tráfego criando uma frota de bicicletas que seriam de uso completamente gratuito? Na época, as ruas da capital holandesa estavam entupidas de carros, com mortes e acidentes frequentes. Não seria melhor, sugeriu Schimmelpenninck, tornar o ciclismo tão barato e fácil que os carros desapareceriam?

Dado que 55 anos depois a Amsterdã de hoje tem a reputação de capital mundial do ciclismo, a resposta para essa proposta — para o que seria o primeiro esquema de bikeshare [compartilhamento de bicicletas] urbano no mundo — talvez lhe surpreenda: os membros do conselho o rejeitaram quase que unanimemente.

As razões dessa rejeição revelam muito sobre o passado radical do bikesharing, uma indústria multibilionária que agora se expande por mais de 3.000 cidades no mundo inteiro. Não foi rejeitada apenas porque o conselho de Amsterdã acreditava que os carros eram o futuro, mas também pela origem da proposta: não partiu de um oficial com um partido tradicional, mas de um grupo de provocadores anarquistas já notórios que pensavam que a dependência dos carros na Holanda representava não apenas políticas ruins, mas o “terror do asfalto da burguesia motorizada.”

O nome do grupo era Provo — vindo da palavra provocativo, ou provocação — e, até 1967, já tinham estrelado manchetes locais há alguns anos. Um grupo misto de beatniks, ativistas antinucleares e jovens da subcultura Nozem holandesa (similar aos greasers estadunidenses ou aos Teddy Boys britânicos), o Provo era um movimento que aspirava trazer mudança ao que reconheciam como uma mistura tóxica de conservadorismo e consumismo que dominava a sociedade holandesa. Sua principal ferramenta para esse objetivo inicialmente não era a política municipal, mas os trotes.

O Provo, a partir de 1965, montava “acontecimentos” públicos semanais no centro de Amsterdã com a intenção de destacar os perigos e absurdos da cultura do consumo. Ações mais antigas incluíam a distribuição de “símbolos de amor” e pintar a letra “K” para câncer (Kanker em holandês) em anúncios publicitários de cigarro. O grupo ganhou notoriedade por jogar bombas de gás no desfile de casamento da futura rainha Beatrix (controverso porque seu noivo alemão fora membro da juventude nazista na adolescência) e espalhar rumores de que deram bloquinhos de açúcar com LSD aos cavalos da carruagem de Beatrix.

Apesar — ou possivelmente por conta — dessa abordagem, o Provo desenvolveu uma afinidade maior com seguidores de dentro da juventude holandesa. Isso também pode ter ocorrido por conta de muitas de suas preocupações terem parecido absurdas na época, apesar de parecerem atuais hoje: queriam desarmar a polícia, ocupar construções vazias para moradia e que os e as jovens tivessem acesso ilimitado e sem julgamentos a métodos contraceptivos.

Idealizado pelo ativista do Provo Schimmelpenninck, o Witte Fietsenplan, ou “Plano da Bicicleta Branca,” também teve início com uma ação. Uma multidão se uniu na rua principal para assistir os ativistas pintarem suas bicicletas de branco. Enquanto a tinta secava, membros do Provo entregaram um panfleto contra os carros: “sacrifícios humanos diários são feitos para essa nova autoridade às quais as pessoas se submetem,” dizia no panfleto, “o carro virou uma autoridade. O sufocante monóxido de carbono é seu incenso. Sua imagem arruinou milhares de ruas e canais.”

O Plano da Bicicleta Branca era algo muito mais paliativo do que os esquemas ciclistas contemporâneos. Ao invés de bicicletas acorrentadas e programas pagos, o Provo apenas deixou as bicicletas no centro de Amsterdã para qualquer um levar e devolver, na esperança de que o sentimento comunitário preveniria roubos. Isso pode parecer loucamente ingênuo agora, mas as ruas de Amsterdã na época já tinham algumas bicicletas abandonadas: ciclistas sem escrúpulos às vezes roubavam uma bicicleta, para então abandoná-la quando chegavam aos seus destinos. As bicicletas brancas apenas regulariam a situação ao prover uma alternativa legal, enquanto a frota em si podia ser criada sem muitos custos altos pela quantidade massiva de bicicletas perdidas que a prefeitura já possuía.

O plano nunca funcionou de verdade, contudo, porque nunca foi essa a intenção. De acordo com Schimmelpenninck, a ideia era simplesmente para ilustrar como ela funcionaria, inicialmente utilizando cerca de 10 bicicletas. No fim, a maioria delas foram levadas, não por ladrões, mas pela polícia, uma vez que era ilegal deixar bicicletas sem corrente.

Em 1966, o Provo decidiu usar uma plataforma institucionalizada, assegurando um único assento nas eleições municipais daquele ano — nada mau para um movimento de juventude em uma era na qual só se podia votar na Holanda a partir dos 23 anos. Concordaram em participar do posto em revezamento entre vários membros. Quando Schimmelpenninck ocupou o posto, no inverno de 1967, propôs um plano mais ambicioso de uma frota de 10.000 bicicletas brancas.

Ele não teve a aprovação do conselho, mas a ousadia da ideia cultivou imaginações. O Provo inspirou movimentos por toda a Europa, e seu plano ciclista inspirou uma música popular psicodélica de 1967 chamada “My White Bicycle,” da banda Tomorrow (que ficara muito famosa em 1975 na Grã-Bretanha quando ganhou um cover da banda escocesa de roque pesado Nazareth). Uma das bicicletas brancas do Provo apareceu no John Lennon and Yoko Ono’s Bed-in For Peace no Hilton de Amsterdã, em 1969. À medida que as décadas foram passando, as ações do Provo entraram na memória de vanguarda, com o grupo de arte pública NVA recriando o lançamento do Plano da Bicicleta Branca nas ruas de Glasgow em 2010.

As bicicletas brancas podem parecer uma nota de rodapé peculiar na história do transporte urbano, mas pode-se traçar uma linha entre a ação contracultural do Provo e a indústria de bikesharing de hoje.

Para começar, as bicicletas brancas nunca realmente acabaram: houve uma frota de 1.800 bicicletas de uso livre no Hoge Veluwe National Park, um dos parques mais populares dos Países Baixos, desde 1974. O experimento do Provo foi também de grande valor ao apontar como um serviço municipal pode funcionar. Ao demonstrar a necessidade de segurança, influenciaram uma segunda geração de programas de bikeshare, que introduziram pontos em que se acessa as bicicletas ao inserir uma moeda ou token. Schimmelpenninck foi consultado no primeiro desses esquemas, que ocorreu em Copenhague em 1995. Quando Amsterdã lançou um sistema mais formal de bikeshare em 1998, usando um cartão de chip ao invés de moedas, o Plano da Bicicleta Branca era novamente o modelo seguido.

Enquanto isso, Schimmelpenninck continuou a promover o compartilhamento de veículos com muita persistência. Falava então de veículos elétricos ao elaborar o Plano do Carro Branco, usando uma pequena amostra de carros elétricos pequenos, parecidos com aqueles de golfe. Extraordinariamente, o esquema foi adiante em 1974, com motoristas que pagavam uma taxa de assinatura para o acesso de 25 veículos disponíveis em quatro (mais adiante cinco) pontos em Amsterdã. Os carros brancos foram eventualmente descontinuados nos anos 1980, mas a premissa sobrevive através de serviços de compartilhamento de carros como ZipCar e Car2Go.

Muitas das questões que afetaram o primeiro Plano da Bicicleta Branca também retornaram às discussões públicas. Chegando décadas antes das tecnologias que dirigem a indústria moderna, como os smartphones e GPS, as bicicletas de guerrilha do Provo ainda são prenúncios do efeito revolucionário trazido pelas bicicletas soltas e pelo scooter-sharing, assim como das preocupações quanto à confusão nas calçadas e do vandalismo que seguiram essas medidas.

Enquanto o experimento social teve vida curta, a crítica gerada à cultura automobilística persistiu. Mortes de pedestres nas rodovias de Amsterdã alcançaram um pico de 3.300 — incluindo mais de 400 crianças — em 1971. Como resposta, ativistas enraivecidos realizaram ações diretas, como bloqueios do trânsito por bicicletas em locais de altos índices de acidentes, para empurrar a cidade rumo à mudança. Esse movimento de massa ajudou a moldar Amsterdã no que é hoje — um dos espaços urbanos com a mais intensa atividade ciclista do mundo. É uma cidade na qual o bikesharing acabou tendo menos impacto do que em qualquer outro lugar porque o número de ciclistas que têm sua própria bicicleta já era notavelmente alto.

Na Amsterdã de hoje, as viagens de bicicleta e a redução do uso de carros são amplamente vistas como um bem inequívoco, até (ou talvez especialmente) entre a “burguesia” cujos hábitos eram os alvos primários do Provo. Vale lembrar que sua ideia inovadora — como tantas outras que entraram no senso comum — fora uma vez desprezada como o trabalho de uma marginalidade radical.

Fonte: https://www.bloomberg.com/news/features/2022-02-26/the-dutch-anarchists-who-launched-a-bikesharing-revolution

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Tarde de outono —
Assustada a coruja
Acorda com o trovão

Eduardo Balduino

[Reino Unido] Eles começaram a revolução sem você… mas você está convidado a participar

Fim de semana de Páscoa fui transportado para uma visão do futuro. Não de uma maneira vaga, William Morris, utópica (embora, todo o poder para isso! Definitivamente precisamos de mais visões utópicas para combater o cinismo patológico das divertidas esponjas distópicas), mas de uma maneira muito real, prática e inspiradora.

O anfitrião da nossa última reunião DIY Alliance (DIYA) foi o notável e multipremiado Lancaster Cohousing em Halton, nos arredores de Lancaster. Como mencionei anteriormente, as reuniões DIYA são projetadas para reunir projetos de base, auto-organizados, amigos dos anarquistas e focados na comunidade, para que possamos aprender uns com os outros e maximizar nosso impacto por meio da solidariedade e da ajuda mútua. O plano original era unir projetos em todo o norte da Inglaterra, mas a ideia ganhou um impulso imprevisto em que viu pessoas de lugares tão distantes quanto Northampton se juntarem a nós no fim de semana. Entre eles estavam nossos velhos amigos do Bolton Diggers, o festival antifascista 0161 em Manchester e membros de A Commune in the North (ACitN) – sobre os quais escreverei mais detalhadamente em um artigo futuro – para citar apenas alguns. Foi Cath da ACitN quem convidou Natalia da Anna’s House Education para dar uma palestra sobre o Movimento de Liberdade do Curdistão. Mais sobre isso em um momento.

O local em si era uma espécie de paraíso. Construída às margens do rio Lune, rico em salmão, em terras ex-industriais, Lancaster Cohousing é uma longa rua de casas aconchegantes que atendem aos padrões Passivhaus e Code for Sustainable Homes (nível 6). Não são permitidos carros na área residencial, então os vizinhos devem se cruzar na rua e as janelas da cozinha de cada casa estão voltadas para a rua para que cada morador veja todos os outros regularmente, reforçando o senso de comunidade. Parte da energia do projeto é fornecida pela Halton Lune Hydro, a maior hidrelétrica comunitária da Inglaterra, em combinação com a geração de energia solar comunitária e a rede nacional. As casas são tão eficientes que você precisa programar quantas pessoas estão dormindo na casa. Esquecemos de adicionar alguém em uma das casas onde ficamos e ficou visivelmente quente durante a noite devido ao calor extra do corpo. Eles têm uma grande cozinha comunitária e sala de reuniões, que usamos para nosso encontro, e um Moinho com escritórios e oficinas.

Em um fim de semana ensolarado de Páscoa, o lugar era ridiculamente idílico. Toda vez que pensávamos que não poderia ficar melhor, ele continuava. As crianças brincavam e as famílias nadavam no rio. Juro que até os cachorros tinham sorrisos em seus rostos. E quando abrimos a cortina do nosso quarto de manhã, um par de blue tits acenou para nós de um alimentador do lado de fora da janela.

Meu eu mais jovem teria ficado irritado com o fato de que as crianças em comunidades da classe trabalhadora como a minha não teriam a chance de desfrutar de um lugar como este. Mas hoje percebo que o trabalho é garantir que um dia, não importa quanto tempo leve, as futuras gerações de crianças desfrutarão de uma variedade de ambientes acolhedores onde quer que nasçam. Certa vez, projetei uma propriedade de habitação social autoconstruída. Baseava-se na construção de fardos de palha com terrenos para cultivo e oficinas para pequenos empreendimentos que permitiriam às famílias construir sua saída da pobreza. O projeto avançou bastante antes de ser interrompido pelas limitações dos regulamentos de construção, provedores de hipotecas e leis de planejamento, que eram a construção do lobby de grandes incorporadores imobiliários, como o Persimmon, em vez de regulamentos criados para a proteção daqueles que moravam lá. Acesso à terra também é uma questão importante no Reino Unido.

Um lugar que conseguiu financiamento coletivo para garantir 6 acres de terra em confiança para sua comunidade é a Claver Hill Community Farm. Após o nosso tour de Lancaster Cohousing, visitamos Claver Hill. Eles descreveram como foi um projeto liderado por voluntários, onde todos os voluntários são membros iguais do projeto. Um sistema semelhante ao existente na Bentley Urban Farm (BUF), mas mais bem definido (algo que irei abordar graças a esta visita). Todo o local não é escavado e há 92 canteiros grandes e produtivos divididos em seis projetos distintos, incluindo um lote de banco de sementes e um lote comercial de flores. Este ano provavelmente será o primeiro em que todo o composto para o sistema sem escavação (que precisa da adição de uma polegada de composto em cada canteiro a cada estação) foi feito no local (em caixas de compostagem com telas muito atraentes que foram tecidas de salgueiros que crescem nas suas encostas como quebra-ventos), dando-lhes uma camada adicional de autonomia e resiliência. Emma, ​​a inspiração por trás do DIYA, identificou sites como este e o Bolton Diggers como os ‘novos comuns’; espaços autônomos onde podemos prestar a assistência necessária às pessoas no presente e onde também podemos experimentar e construir para o futuro.

Emma ajudou a organizar a recente turnê zapatista no Reino Unido, e foi aqui que ela percebeu que os zapatistas não estão criando seus eventos de educação, divulgação e diálogo na esperança de que contemos sua história. Em vez disso, eles estão buscando ativamente vincular grupos autônomos, auto-organizados, revolucionários (e potencialmente revolucionários…) em todo o mundo porque vêem que a construção de um futuro melhor, mais corajoso e mais brilhante já começou. Pode não parecer assim nos chamados países “desenvolvidos”, porque existimos em um mundo que está muito mais distante da possibilidade de belas alternativas. Mas o povo de Chiapas e Oaxaca sabe que a luta pelo futuro já começou.

O mesmo é, claro, verdade para o povo de Rojava que vive dentro da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria (AAENS). Como mencionado anteriormente, Cath da ACitN convidou Natalia da Anna’s House Education (nomeada, é claro, em homenagem à amiga de Natalia, Anna Cambell) para falar no encontro DIYA. A ACitN já tem oficinas regulares de educação no segundo domingo do mês e, como estávamos em Lancaster no fim de semana, Cath achou que seria bom dobrar. A educação política é central para as revoluções zapatista e curda. Como Natalia nos explicou, a revolução não surge do nada. São necessários anos de educação para incutir as habilidades, a confiança e a cultura necessárias para uma mudança real. As sementes para a revolução de Rojava em 2012 foram plantadas há 50 anos, quando um pequeno grupo de pessoas começou a falar com orgulho sobre sua identidade curda e deu os primeiros passos para a independência curda. O mesmo valeu para o levante zapatista (embora o caminho para a revolução tenha sido mais rápido, porque foram os revolucionários marxistas que foram educados em uma visão de mundo indeginosa milenar) e para a revolução espanhola.

A outra qualidade que cada um desses movimentos compartilha é a capacidade de autocrítica e adaptação. Como acabei de mencionar, os marxistas que foram para as montanhas de Chiapas se converteram a uma visão de mundo indígena que criou um ethos refrescantemente anti-hierárquico e pós-colonial que inspirou profundamente minha geração na década de 1990 e mostrou à humanidade que outro mundo é possível. O Movimento de Liberdade Curdo também se mudou de uma perspectiva hierárquica, patriarcal e marxista para o conceito ecofeminista de Jineologia e a prática diária do Confederalismo Democrático. Nas regiões organizadas da AAENS as decisões são tomadas por conselhos mistos de gênero, conselhos femininos e conselhos infantis. Assim como os ocidentais há muito domesticados são os mais afastados da crença na liberdade real, as mulheres e as crianças estão mais afastadas da influência corrupta do patriarcado e, como tal, são mais aptas a tomar as decisões que nos levarão a uma vida mais livre no mundo. Tampouco existe o medo do fracasso tão endêmico em pessoas que foram condicionadas pela educação ocidental. A AAENS vem experimentando a construção de uma rede de cooperativas de trabalhadores para ajudar a apoiar a revolução. A primeira onda de construção cooperativa não alcançou os resultados desejados, então eles estão redesenhando o sistema de baixo para cima. Esse tipo de feedback raramente existe em nossa visão de mundo atual, intensamente polarizada, “eu estou certo, você está errado”, antidiálogo, mas é essencial para construir um futuro antiautoritário, antidogmático e anarquista.

Em homenagem a sua amiga Anna, Natalia passou um ano em Rojava. Foi difícil, mas ela adoraria voltar. Mas ela percebe o trabalho educacional que precisa ser feito em sociedades como a nossa, então agora se dedica a educar as pessoas sobre Jineology em países como o Reino Unido. Como mencionei anteriormente, também estamos realizando oficinas regulares de educação política no BUF para ajudar a familiarizar as pessoas com os avanços feitos pelos zapatistas e curdos. Também estou mais do que preparado para trabalhar em algo que não se concretizará em minha vida. Mas se olharmos para o trabalho de uma perspectiva global, pode não levar 50 anos para construir uma revolução neste país. Tanto os zapatistas quanto os curdos são da opinião de que a revolução está aqui e agora. O que quer que escolhamos fazer para alcançar seus objetivos é parte de algo muito mais amplo. Não estamos começando do zero. Temos ilustrações muito reais e tangíveis de alternativas ao status quo criadas por pessoas que já fizeram muito trabalho braçal para nós. Se usarmos os ‘novos comuns’ – sítios como aqueles que visitamos em nosso excursão DIYA – como oportunidades educacionais para apresentar o zapatismo e a Jineology às pessoas em algumas das áreas mais marginalizadas do Reino Unido, teremos o potencial de reduzir alguns dos problemas revolucionários dos alicerces. Só precisamos perceber que todos fazemos parte do mesmo movimento. Parafraseando um ditado bem usado, é nosso negócio “Pensar globalmente, agir de forma autônoma”. E parafraseando William Gibson: “A revolução já está aqui, só não está distribuída uniformemente ainda”.

No verdadeiro estilo curdo, terminamos nossa visita com dança. Um grupo pequeno, mas incrivelmente diversificado, de pessoas dançou ferozmente na noite – e no futuro.

DIY Alliance está ativamente fazendo ligações em todo o Reino Unido. Se você quiser que nós o visitemos, se juntar a nós em nossas visitas, ou apenas quiser mais informações, entre em contato com a rede diretamente através de nossa lista de discussão em diy_alliance(at)lists.riseup.net

Warren Draper

*Desde a publicação, descobri que, graças ao sucesso do Lancaster Cohousing, um novo empreendimento de eco-habitação social está sendo construído ao lado do projeto existente em conjunto com o conselho de Lancaster. Espero que isso crie um precedente muito necessário para outros conselhos. E como Alan do Bolton Diggers apontou, esses projetos são os desbravadores que desenvolvem habilidades essenciais para o futuro.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2022/04/28/they-started-the-revolution-without-you-but-you-are-welcome-to-join-in/

Tradução > GTR@Leibowitz__

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agência de notícias anarquistas-ana

lá se vão as garças
vão pairando sobre o rio
vão cheias de graça

Gustavo Felicíssimo

[Espanha] Lançamento: “As falsas alternativas: Pedagogia libertária e nova educação”, de Ani Pérez Rueda.

Nas últimas décadas, a crítica à escola tradicional deu origem a inúmeros espaços educativos “alternativos” fora da escola pública — tida como inimiga da “liberdade” —, ao mesmo tempo em que nela foram introduzidas novas “práticas inovadoras”. Recusando-se a aceitar a dicotomia entre uma educação controlada pelo Estado capitalista e suas supostas rotas de fuga, o livro Las falsas alternativas revela o que se esconde sob a face amigável dessas propostas: seu caráter segregador, sua função privatizadora e as premissas liberais de seus pressupostos pedagógicos.

A centralidade da felicidade pessoal, o apelo às supostas capacidades inatas ou a irrefletida celebração do desejo e da autoeducação são alguns dos pilares teóricos de abordagens que utilizaram ideias e conceitos historicamente associados à tradição libertária para colocá-los a serviço do ultraliberalismo, onde a ideologia capitalista se esconde por trás do ideal de um naturalismo infantil sorridente.

Isso coloca as propostas contemporâneas que se reivindicam como parte da tradição anarquista diante de um problema político de primeira ordem e frente a dilemas que não são novos, como mostra Ani Pérez Rueda a partir de um rigoroso conhecimento histórico e teórico. Questões como a relação com as instituições escolares estaduais, o vínculo entre metodologias e conteúdos, os objetivos da educação, a complexidade do ideal de liberdade, o papel dos educadores são hoje tão ou mais importantes do que foram para os anarquistas durante o século XX, o que nos obriga a fazer uma pergunta crucial: o que tem permitido que pedagogias “alternativas” usem abordagens libertárias sem aparente contradição?

Falsas alternativas é (e tem sido, antes mesmo de ser o livro que agora tens nas mãos) uma das críticas mais enriquecedoramente controversas aos conflitos que atravessam hoje a relação entre educação e emancipação social.

Ani Perez Rueda (Madrid, 1986) Doutora em Educação pela Universidade Autônoma de Madrid, militante, tem participado em diferentes espaços dentro dos movimentos sociais e do movimento libertário. Nos últimos anos escreveu a tese de doutoramento que deu origem a este livro e motivou muitas palestras e debates.

Las falsas alternativas: Pedagogia libertária y nueva educación.

Ani Perez Rueda

Prefácio de Marina Garces

17 Euros

288 páginas (14 x 21 cm)

978-84-17870-12-6

víruseditorial.net

Tradução > Mauricio Knup

agência de notícias anarquistas-ana

Só o Ipê vê, pasmo,
o tremor suado — orgasmo —,
borboleta treme e passa.

Alckmar Luiz dos Santos

[Espanha] Atualização sobre os companheiros anarquistas presos em 27-F

Ontem (05/05) à noite Ermann foi solto e hoje Emanuele será solta.

Os caras decidiram pagar as fianças junto com a ajuda dos fundos de solidariedade, dos companheiros, amigos e parentes.

Apenas as fianças de Danilo, Albo e Beppe (o último preso) permanecem por pagar.

Danilo decidiu sair depois do dia 3 de junho, porque não quer perder seus exames universitários, Albo vai ficar com ele esperando-o no mesmo módulo.

Esperamos que a solidariedade recheie os cofres com o dinheiro necessário para libertá-los.

Nos vemos nas ruas!

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Move-te ó tumba!
Meu pranto
é o vento do outono.

Matsuo Bashô

[Peru] Chamada: Anarquia Anticolonial

Dos Andes meridionais usurpados pelo Estado peruano fazemos um chamado para refletir sobre o seguinte tema: o anarquismo é anticolonial? Convidamos você a unir forças para esclarecer essa questão e, assim, enfrentar a máquina colonial. Prazo até antes do final de agosto. Comunique-se por escribanosaquipues@tutanota.com

Fonte: https://periodicolibertaria.wordpress.com/2022/05/05/convocatoria-anti-colonial/

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite sem lua
o mar todo negro
se oferece em espuma

Eugénia Tabosa

[EUA] Coletivo Anarquista Compartilha Instruções para a Produção de Pílulas Abortivas DIY

Coletivos de medicina DIY estão se preparando para a previsão aterrorizadora de que Roe v. Wade será anulada.

Por Jason Koebler | 03/05/2022

Com a Suprema Corte prestes a anular o direito constitucional ao aborto, um coletivo anarquista que focado em medicina DIY divulgou instruções detalhadas para a confecção de pílulas abortivas. O grupo anteriormente havia divulgado instruções para uma EpiPen DIY e para fazer daraprim, a pílula que tornou infame Martin Shkreli.

O Four Thieves Vinegar Collective demonstrou como fazer tabletes de misoprostol, que são usados para induzir o aborto, na conferência Please Try This at Home de Pitsburgo em 2019. No ano passado, após o Texas passar um banimento quase total do aborto, Mixael Laufer, que dirige o coletivo, publicou um vídeo de 17 minutos (https://archive.org/details/FTVDIYA) explicando como fazer as pílulas em casa.

“A primeira coisa a mencionar é que isso foi pensado com um pouco de pressa,” declarou Laufer. “Houve um grande pânico porque a República do Texas colocou em prática algumas manobras para beneficiar as pessoas no poder e manter um monte de outras pessoas sem poder algum.”

Laufer compartilhou o vídeo repetidamente após o vazamento de uma decisão dos tribunais que mostrou a Suprema Corte planejando a anulação de Roe v. Wade, o que geraria automaticamente banimentos totais do aborto em quase metade dos estados estadunidenses. Quando um usuário do Twitter perguntou se havia um registro do “hipotético” processo de fabricação da pílula abortiva, Laufer respondeu com um link para o vídeo.

“Nem um pouco hipotético. Vá em frente e arrase,” tuitou Laufer.

No vídeo, Laufer explica que, além de ser utilizado para induzir abortos medicinalmente, o misoprostol também é utilizado no tratamento de úlceras em cavalos. Isso faz o pó de misoprostol relativamente acessível por meio de veterinários. (É remanescente da ivermectina, que é utilizado para controlar parasitas em cavalos, mas também se tornou um tratamento para COVID — apesar de ineficaz — entre os conspiracionistas. O uso da ivermectina em cavalos facilitou que humanos o adquirissem sem prescrição.)

Laufer explica no vídeo como dosar o misoprostol e como transformá-lo em pílulas através do uso de uma balança, xarope de milho, açúcar refinado, um recipiente de spray e uma prensa. Explicam que um regime de três doses de misoprostol é 85% eficaz em induzir o aborto. Se tomado com mifepristona, outra pílula abortiva, a eficácia chega a 95%, embora a mifepristona pura seja mais inacessível.

Motherboard não pode garantir a segurança de fazer a própria pílula, e o Four Thieves Vinegar Collective foi criticado por algumas pessoas da medicina e farmácia institucionalizadas que pensam que a medicina DIY não é segura sob quaisquer circunstâncias. Em um mundo progressista e justo, abortos seriam gratuitos e administrados em segurança por profissionais da área médica, mas vimos diversas vezes que ataques ao acesso ao aborto levaram a alternativas menos seguras, realizadas pela própria paciente ou sem supervisão médica. Se Roe for anulada, vamos ver mais pessoas buscando métodos de aborto DIY, o que incluirá fazer suas próprias pílulas abortivas. Laufer afirmou que espera que as pessoas que farão suas pílulas abortivas as farão proativamente e como precaução, e não sob circunstâncias emergenciais.

O vídeo provavelmente ajudará ao menos algumas pessoas que buscam realizar abortos, embora Laufer afirme que, em uma emergência, as pessoas deveriam buscar ajuda das organizações de saúde tradicionais que têm buscado expandir o acesso ao aborto há anos.

O fato de haver necessidade de fazer o vídeo atesta a natureza aterrorizante do mundo em que nos encontramos e de até que ponto as mulheres precisam potencialmente chegar para fazer um aborto em um mundo sem as proteções de Roe v. Wade. Pesquisas extensivas demonstram que, legalmente ou não, mulheres ainda abortarão e que, quando ilegais, esses abortos serão muito mais perigosos. Um estudo recente sugeriu que um banimento do aborto levaria a um aumento de 21% das mortes relacionadas à gravidez, e de 33% em mortes relacionadas à gravidez em mulheres pretas.

Fonte: https://www.vice.com/en/article/qjby4b/anarchist-collective-shares-instructions-to-make-diy-abortion-pills

Tradução > Sky

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