[EUA] Jacinto Vive! Memórias de St. Louis

Esta semana nós descobrimos uma triste notícia. Jacinto Barrera Bassols, anarquista, historiador e amigo, havia falecido em julho de Covid-19 aos 65 anos. Passamos apenas alguns dias com este homem engraçado, inquisitivo e caloroso. Ele desafiou todos os nossos estereótipos de um historiador acadêmico, e deixou uma profunda impressão em nós.

Na caça aos vestígios persistentes de Ricardo Flores Magon e seus companheiros anarquistas mexicanos expatriados, Jacinto e seu companheiro fotógrafo, Heriberto Rodriguez, refizeram a rota em zigue-zague de Magon através dos EUA. Aqui em St. Louis, eles encontraram a bandeira preta e vermelha hasteada na Cherokee Street e entraram na vitrine da padaria Black Bear Bakery. Estávamos em 2008. O momento não poderia ter sido melhor. O coletivo da padaria era um grupo animado e o espaço e sua biblioteca haviam se tornado ponto de encontro da pequena, mas apaixonada coleção de anarquistas da cidade. Muito para o deleite de Jacinto, na parede acima da caixa de pastelaria, pendurado um grande quadro de Magon, braços estendidos – fogo e destruição de um lado, cooperação e utopia do outro.

Depois deste encontro casual, conversamos até tarde da noite, compartilhando as histórias esquecidas desta cidade… Jacinto, um historiador na trilha centenária deste homem fugido das autoridades mexicanas e traçando uma insurreição mexicana desta agitada metrópole da América Central, e alguns anarquistas tentando fomentar uma insurreição atual nos restos empobrecidos desta mesma metrópole. Ele perguntou sobre as possibilidades de tumultos urbanos caso Obama perdesse a eleição, e nós perguntamos onde Magon havia colocado sua cabeça para descansar todas as noites enquanto estava aqui. No dia seguinte, mostramos-lhe a cidade e o apresentamos aos amigos. Ele era um ser humano – despretensioso, amoroso e gracioso, diferente de qualquer historiador ou acadêmico que já tínhamos encontrado. Ele era um ser humano gentil e espirituoso, de 50 anos de idade, que se encontrava sem esforço com todos nós, inquietos de 20 e poucos anos. E com a criança de 4 anos de idade entre nós, ele tinha o brilho nos olhos de um tio e o brilho em seu rosto de alguém que valoriza a bela liberdade inquebrantável que as crianças exalam.

Ele nos visitou novamente em 2013, desta vez com sua maravilhosa assistente Veronica. A idade havia tido um impacto em seu corpo, mas seu humor e compromisso eram tão agradáveis e afiados como antes. Ele havia acabado de vir de Leavenworth, visitando a cela onde Magon havia dado seu último suspiro. Ele compartilhou histórias sobre as celebrações do Dia de Maio do início do século 20 e grupos de estudo anarquistas que ocorreram de forma notável no inferno na terra que era aquela prisão. Levamos ele e Veronica a uma festa em uma praça anarquista na zona norte da cidade, e mais tarde, em um restaurante próximo, ele nos tratou com jambalaya (algo que ele não conseguia encontrar no México). Ele se perguntou sobre a violência do cartel/estado no México, removendo sua capa, descrevendo-a muito simplesmente como uma guerra civil – com apenas a Cidade do México imune a sua crueldade.

Nós dirigimos ao redor do distrito de Gate, ele apontando o terreno abandonado onde outrora se encontrava a gráfica de “Regeneração” e a biblioteca pública com os jornais mexicanos que Magon andava todos os dias para se manter a par dos conflitos que se desenrolavam ao sul da fronteira. Ele nos mostrou o bairro (há muito destruído por uma rodovia) ao sul do centro da cidade onde viviam os imigrantes anarquistas espanhóis – entre os quais Magon e o resto dos anarquistas mexicanos que fundaram essa camaradagem. Ele explicou o estreito relacionamento entre os anarquistas mexicanos e o anarquista catalão, que também encontrou um lar nesta cidade.

Entre suas visitas, como crianças empolgadas, compartilhamos a história que descobrimos sobre o tempo de Magon aqui – mapas antigos, documentos da corte, endereços de antigas residências anarquistas, manuscritos obscuros de detetives privados pagos pelo estado mexicano para localizá-lo, desenhos de prédios antigos… Para nós, isso tornou nossa cidade viva com fantasmas, para ele, não temos certeza, mas era provável que fosse o clique satisfatório das peças do quebra-cabeça do trabalho de sua vida. Não temos certeza de qual era sua relação com os não acadêmicos em San Antonio, Los Angeles, Toronto e nos outros lugares onde Magon se encontrou, mas achamos que ele encontrou grande alegria e amor que – para nosso próprio bem, não um amor institucional – nós anarquistas de St. Louis nos sentimos comovidos que esses anarquistas cheios de sonhos tinham abençoado nossa cidade cem anos antes.

Mas não se tratava apenas de Magon. Conversamos sobre criar crianças, nossos problemas de saúde, comida Cajun, ska-punk mexicano, a beleza do oceano, a rebelião em Oaxaca e a fantasiosa e contestada história de se as cinzas de Trotsky alguma vez foram realmente roubadas por anarquistas, cozidas em biscoitos e enviadas pelo correio para pessoas ao redor do mundo.

“Mi casa es tu casa” – e não havia dúvida de que ele estava falando sério. Durante os 13 anos, dois grupos de amigos fizeram a viagem ao México, um para visitá-lo na Cidade do México, o outro para visitá-lo em seu pacífico lugar em Puerto Escondido. E quando um de nós teve um ferimento quase fatal e catastrófico durante os protestos em Ferguson, sem hesitação, ele novamente ofereceu sua casa em Oaxaca para que pudéssemos nos recuperar do trauma de tudo isso.

Durante nossa última correspondência, um de nós se arrependeu de não ter escrito “Magon vive!” nas paredes de Ferguson durante os protestos. Ambos entendemos os fios da história, muitas vezes díspares e curtos, que tecem, em retalhos, até o presente. O sangue que pulsa através de nós é principalmente nosso, sim, mas seríamos negligentes em não apreciar, maravilhar-nos e transmitir os pequenos pedaços que vêm de nossas histórias vividas e aprendidas – os pedaços que revigoram nossos corações e bombeiam esse sangue através de nós fazendo-nos acreditar que utopias, que “sueños de libertad”, são realizáveis. A história do adorável Jacinto, como a de Magon, agora se move para sempre através de nós.

Alguns tristes anarquistas em St. Louis, setembro de 2021.

Para saber mais sobre a vida e o trabalho de Jacinto:

O trabalho de sua vida sobre Magon – fotos, um mapa de seu percurso, todas as questões de Regeneração, uma compilação das obras completas de Ricardo Flores Magon, e muito mais:

http://archivomagon.net/

Memórias de sua sobrinha:

https://mobile.twitter.com/Jaztronomia/status/1417848764488896517

Memórias de seu primo:

https://www.jornada.com.mx/notas/2021/07/23/opinion/el-correo-ilustrado-…

Documentário sobre o anarquismo na Cidade do México, “Hay un lugar, Anarquistas de la Ciudad de México”, com entrevistas com Jacinto:

https://m.youtube.com/watch?v=xFswWQsaIM4

Fonte: https://www.katesharpleylibrary.net/c2fsjs

Tradução > solan4s

agência de notícias anarquistas-ana

língua pendente
cachorro com sede
sol ardente

Carlos Seabra

[Itália] Lançamento: “Kropotkin”, de Luigi Fabbri

Um manuscrito inédito de Luigi Fabbri – publicado hoje pela primeira vez depois de mais de cem anos – nos dá uma introdução apaixonada e emocionante às ideias e à vida do anarquista Pyotr Kropotkin, por ocasião do centenário de sua morte.

O texto, editado por Selva Varengo, é acompanhado por uma introdução de Massimo Ortalli.

A concepção anarquista de Kropotkin é apenas a conclusão, a soma do progresso do espírito humano e da atividade individual e social em todos os campos, mesmo nos mais aparentemente opostos. A história e sua filosofia, as ciências naturais e biológicas, a criminologia, a moralidade, todos os terrenos sobre os quais o intelecto humano se exerceu não lhe são estranhos. Não só não são estranhos para ele […] como não são estes vários ramos do conhecimento humano, ao seu anarquismo. Pelo contrário, eles formam um todo inseparável“.

Luigi Fabbri (Fabriano 1877 – Montevidéu 1935), mestre de escola, foi uma das figuras mais importantes do anarquismo italiano e internacional.

KROPOTKIN

Luigi Fabbri

pp. 128 EUR 10,00

ISBN 978-88-95950-71-6

www.zeroincondotta.org

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

confira
tudo que respira
conspira

Paulo Leminski

[Espanha] Rai, onomatopeia de um gênio

Por R. Pérez Barredo | 21/10/2021

O Arco de Santa María acolhe desde amanhã a exposição ‘Rai Ferrer. Pasión por la imagen y la palabra’, uma homenagem ao grande desenhista, ilustrador e jornalista burgalês falecido em 2017

Rai Ferrer sempre foi um tipo lúcido. Às vezes, francamente lúcido. Era um filho do povo e um ácrata, um pessimista bem humorado. Um homem furiosamente livre que nasceu, cresceu e amadureceu em tempos sinistros nos quais a liberdade era um anseio longínquo. Mas tinha talento para o desenho. E domínio da palavra. E assim foi como se abriu caminho naquela Barcelona fascinante dos últimos sessenta e dos setenta com todas as honras. Nascido no povoado burgalês de Manciles, teve uma infância desgraçada e doente. Conheceu orfanatos e esteve a ponto de uma tuberculose leva-lo a esse lugar do qual já não se regressa. Mas instalado pela mão de sua mãe em Barcelona, aos 14 anos (14!) começou a trabalhar na Editorial Bruguera. Ainda era a década dos 50, XXV Ano Triunfal. Quase nada.

Falecido em Barcelona no ano de 2017, Rai Ferrer nunca perdeu de vista sua terra de origem, onde tem familiares. Agora regressa, como redivivo, pela mão do Instituto Municipal de Cultura, que inaugurará no Arco de Santa María, a partir do dia 22 de outubro e até 28 de novembro, a exposição ‘Rai Ferrer. Pasión por la imagen y la palabra’, mostra com curadoria de sua viúva, a jornalista e crítica de arte Marie-Claire Uberquoi.

A exposição permitirá fazer-se uma ideia cabal do talento de Rai Ferrer como desenhista, ilustrador, desenhista gráfico, historiador e jornalista, pioneiro de tantas coisas. “É a exposição mais completa sobre a trajetória de Rai Ferrer. Haverá mais de duzentos originais (cartazes, capas de livros, revistas, desenhos, fotomontagens, artigos) onde abordou suas grandes paixões (também poderá contemplar-se um retrato da grande artista burgalesa Marta Tapia, com quem unia a Rai muito carinho). Porque Rai foi um apaixonado de muitos âmbitos da cultura. Tinha paixão pelo cinema, paixão pela história, paixão pela novela popular – a policial e a de aventuras -, paixão pelo jornalismo, pela ilustração…”, explica a este jornal, Uberquoi.

Não em vão, ao longo de sua extensa trajetória, o burgalês trabalhou nas prestigiosas e essenciais editoras Bruguera e Marco; foi diretor artístico do semanário ‘Strong’ (que publicou as HQs Lucky Luke, Los Pitufos ou Gastón el Gafe, entre outros) e do departamento juvenil da editoria Argos.

Também, foi cofundador do coletivo Onomatopeya (que ao cabo se converteria em sua assinatura como pseudônimo) e publicou infinidades de trabalhos em publicações míticas como ‘El viejo topo’, ‘Por favor’, ‘Fotogramas’ ou ‘El Papus’, onde exerceu como escritor e desenhista. Representante da Transição, também deixou sua marca em ‘Diario 16’, ‘Interviú’, ‘El Periódico’ e ‘Mundo Diario’, e realizou centenas de capas de novelas de todo tipo: policiais, românticas, de aventuras… Comprometido até os ossos, sempre de inspiração anarquista, escreveu e desenhou a biografia gráfico-literária de Durruti; um de seus últimos trabalhos foi o monumental livro gráfico-literário Viento del pueblo. Centenário da CNT.

No catálogo desta exposição há textos da própria Marie-Claire Uberquoi, mas também de Juan Manuel Bonet, Miguel Agustí, Mario Gas e Joan Ignasí Ortuño, e inclui um poema de Rai Ferrer.

Fonte: https://www.diariodeburgos.es/Noticia/Z3064C4EB-D821-8458-B395D9F7329A77B2/202110/Rai-onomatopeya-de-un-genio

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/09/15/espanha-falece-rai-ferrer-um-filho-do-povo/

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o vento afaga
o cabelo das velas
que apaga

Carlos Seabra

[Reino Unido] Atualização sobre a situação do companheiro anarquista Toby Shone

O julgamento de Toby começou em 6 de outubro na Corte da Coroa de Bristol. As acusações de administração do site 325.nostate.net, financiar o terrorismo através do site e divulgar e coletar material útil aos terroristas foram abandonadas devido à falta de provas.

As outras acusações de posse de drogas de classe A e B com intenção de fornecimento, produção de uma droga de classe B e uma outra acusação de posse de drogas de classe AA estão em andamento. Nesta fase, entendemos que isto poderia acarretar uma pena de prisão de 3 a 6 anos.

A operação Adream desencadeada pelo estado britânico é uma tentativa de destruir o 325 e suas publicações, um ataque à contrainformação que está ligada à repressão que se intensificou nesta ilha desde a pandemia e os fechamentos resultantes, uma repressão que sempre existiu, um ataque a qualquer forma de revolta ativa.

Não acreditamos na culpa ou na inocência, nem na passividade, apenas na solidariedade que contribui para a continuação do conflito contra o existente.

Força e solidariedade ao companheiro anarquista Toby Shone!

Nada está acabado, o conflito continua!

Coletivo Dark Nights

Fonte: https://darknights.noblogs.org/post/2021/10/09/uk-update-on-the-situation-of-anarchist-comrade-toby-shone/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/10/08/reino-unido-companheiro-encarcerado-por-sua-participacao-no-site-325-nostate-net/

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Ah, quanta saudade
De meu pai e minha mãe
Na voz do faisão.

Bashô

[EUA] Membros da extrema direita são julgados por incidentes de Charlottesville em 2017

A Justiça dos Estados Unidos iniciou nesta segunda-feira (25) o processo contra os organizadores de uma manifestação de extrema direita em 2017 em Charlottesville e que se transformou em uma tragédia que deixou um morto e vários feridos.

Habitantes desta cidade de Virgínia que foram vítimas dos confrontos culpam pelos danos várias figuras e grupos da extrema direita, acusados de terem “planejado, promovido e executado os eventos violentos”.

Em agosto de 2017, centenas de nacionalistas brancos se manifestaram contra a decisão da prefeitura de remover uma estátua do general Robert Lee, que liderou os estados escravistas do sul durante a guerra civil americana.

O protesto começou em 11 de agosto à noite com uma manifestação de neonazistas e membros do Ku Klux Klan que marcharam com suas tochas.

No dia seguinte, houve confrontos entre simpatizantes da supremacia branca e manifestantes antirracistas. Um simpatizante neonazista, James Fields, bateu seu veículo em uma multidão de contramanifestantes. Uma mulher de 32 anos, Heather Heyer, morreu no ataque e outras 19 pessoas ficaram feridas.

O então presidente Donald Trump denunciou a violência “dos dois lados”, o que foi visto como um ato de complacência com a extrema direita.

Fields foi condenado à prisão perpétua.

O processo civil iniciado em 2017 por quatro feridos pelo automóvel e outras pessoas que sofrem um “estresse profundo e incapacitante” avançou mais lentamente, particularmente pela falta de cooperação dos acusados.

A denúncia é contra cerca de dez grupos neonazistas, dois ramos locais do Ku Klux Klan, o proprietário de um site neonazista e cerca de quinze figuras desse movimento. Entre eles estão Jason Kessler, que convocou a manifestação do dia 12, e Richard Spencer, que organizou a marcha da véspera.

“As violências de Charlottesville não foram acidentais”, destacam as vítimas em sua denúncia. “Foram resultado de um plano (…) preparado durante meses e cuja implementação foi ativamente supervisionada” pelos acusados, afirmam.

Os réus rejeitam as acusações de complô e alegam o direito à liberdade de expressão.

A Justiça federal começou nesta segunda-feira o processo de seleção do júri e o julgamento pode durar várias semanas.

Fonte: agências de notícias

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/08/13/eua-um-ano-apos-confronto-charlottesville-promove-protesto-contra-o-odio-racial/

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Clara luz da lua
dança nas poças d’água
com o vento suave.

José Neres Reis

 

[Grécia] Ataque contra filial do Banco Nacional & EFKA em Kifissia | Solidariedade com Giorgos Kalaitzidis e Nikos Mataragkas

Com um julgamento espúrio que começou em 13 de outubro e continua na sexta-feira 29 de outubro, o Estado está tentando condenar a penas de prisão perpétua dois militantes anarquistas por incitação moral e criminosa, mostrando a sua face vingativa àqueles que lutam contra os seus interesses.

Mas estamos ao lado daqueles que lutam e queremos mostrar a nossa solidariedade, assim realizamos um ataque com marretas à filial do Banco Nacional & EFKA em Kifissia.

Solidariedade com Giorgos Kalaitzidis e Nikos Mataragkas

Solidariedade

>> Clique aqui para ver o vídeo do ataque:

https://athens.indymedia.org/media/upload/2021/10/28/kifisias.mp4

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/10/12/grecia-apoio-a-giorgos-kalaitzidis-e-nikos-mataragkas-do-grupo-anarquista-rouvikonas/

agência de notícias anarquistas-ana

Dia de primavera —
Os pardais no jardim
Tomam banho de areia.

Onitsura

[Chile] Já saiu o boletim: “Já não há volta atrás” Nº 5

Já circula em formato físico – com uma tiragem de 1000 exemplares, e pela internet – o quinto número de nosso boletim reflexivo-agitador. Esta edição conta com um só texto central, “A dois anos da revolta: um esboço de balanço e perspectivas para o debate coletivo”, o qual está dividido em 6 anexos que sintetizam algumas ideias e notas que discutimos coletivamente entre váries companheires com quem nos encontramos na luta.

Pretendemos com este insumo, humildemente, contribuir com a discussão e com o intercâmbio recíproco e companheiros de posições nos entornos anticapitalistas:

“Este processo de crise, ao degradar ainda mais a vida e aumentar a miséria, gera as condições próprias para a explosão de revoltas protagonizadas pela população proletarizada – e, sobretudo, por seus setores mais atingidos, que não têm muito a perder, e também por aqueles que resistem a ser proletarizados, como os povos indígenas -, tal e como experimentamos em primeira pessoa em outubro de 2019.

No Chile, o modelo de desenvolvimento neoliberal imposto a sangue e fogo durante a ditadura civil-militar de Pinochet, que tinha funcionado por décadas sem maiores contratempos, se esgotou para, pelo menos, quatro milhões de pessoas que participaram da revolta.

A região chilena tem um dos países mais desiguais do mundo, quanto à renda de seus habitantes, uma porcentagem enorme da população só pode sobreviver na base do crédito, o sistema de saúde pública é um desastre, as aposentadorias miseráveis, alcançar uma casa própria é cada vez mais impossível, as mulheres experimentam uma exploração agravada – tanto ao nível assalariado, como doméstico -, o trabalho é cada vez mais precário, o custo do transporte é altíssimo, o ambiente em que vivemos é cada vez mais hostil, tanto nas cidades, como nos setores rurais – as ‘zonas de sacrifício’ são a máxima expressão desta tendência – e um longo etcétera (…)

Este é o contexto histórico geral que abriu a porta e fez possível que a contestação social mais imponente na região se estalasse naquela sexta-feira, 18 de outubro, a partir do catracaço¹ massivo protagonizado pelo combativo proletariado juvenil secundarista.

As contradições não só continuam existindo, e hoje, dois anos depois – com o fenômeno da pandemia de COVID-19 incluído -, continuam se desenvolvendo e agravando”.

Link para baixar a versão de leitura: https://hacialavida.noblogs.org/ya-no-hay-vuelta-atras/

Tradução > Caninana

[1] Evasión é a palavra que se usa para definir o ato de não pagar a passagem no transporte público, em espanhol chilensis. Aqui, usamos catracaço como tradução.

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Não sei
de qual árvore vem,
aquela fragrância.

Bashô

[Chile] Santiago: Assumindo atentado explosivo contra a Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos (ANEPE)

A dois anos da Revolta de Outubro, nada está quitado
Que nossas práticas potencializem e se encaminhem a uma nova guerrilha urbana
Porque combater a impunidade dos assassinos, mutiladores e torturadores será nossa vitória

Caída a noite de 17 de outubro, instalamos um artefato explosivo no interior da sede da Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos (ANEPE), nas vésperas de uma nova comemoração da revolta de Outubro.

Este local colaborador em matéria de segurança Estatal e manutenção da ordem pública realiza permanentes atividades acadêmicas dirigidas a elementos policiais, em termos de inteligência, estratégias investigativas e contrainsurgentes. É um órgão repressivo dependente do Ministério de Defesa, que também compartilha conhecimento internacionalmente com Estados como o de Espanha, Colômbia, Israel, etc.

Diferentes acadêmicos deste antro do Poder escreveram sobre práticas e tendências anárquicas, tratando de analisar nossas ideias, dinâmicas e propostas, com textos de pretensos estudos acerca de projetos internacionais (Internacional Negra/FAI-FRI) ou o panorama atual de nossos entornos.

Héctor Barros, funcionário de turno na Promotoria Sul, realizou cursos de inteligência e investigação na ANEPE, assim como Gonzalo Blu que esteve a cargo da DIPOLCAR nos tempos da chamada Operação Huracán, demonstrando que este local só se encontra destinado ao aperfeiçoamento das polícias, juízes e promotores, e não de “todos os chilenos” como asseguram desde este centro.

Hoje completam dois anos daquele 18 de Outubro que acendeu a mecha a este barril de pólvora, das ruas brotava fogo, destruição e nossos olhos viam ao horizonte a expansão da Guerra Social. Nossas energias e perspectivas estão no aumento das ações que potencializam a nova guerrilha urbana para combater a impunidade dos que assassinaram, cegaram e torturaram durante essas datas.

A propósito dos conspiranóicos de sempre, bastante se estendeu o discurso da montagem, seja por práticas de propaganda pelo fato ou os incêndios que em seu momento afetaram estações de metrô. Inclusive anarquistas, e setores com uma história de combate, chegaram a difundir estes discursos aniquiladores de capacidades destrutivas e elevando um status vitimista. Chamamos a seguir confiando em nossas capacidades e conhecimentos para que a paz social não seja o botim dos Poderosos e que se dominem nossas vidas sob a falsa ilusão de um “oásis”.

A quase uma semana de que o Estado Chileno tenha decretado a militarização do Wallmapu, nos solidarizamos com a resistência Mapuche e saudamos as ações de sabotagem e ataque.

Solidariedade Revolucionária com os presos Anarquistas, subversivos, mapuche e da revolta

A 14 anos de iniciada a perseguição contra Juan e Marcelo

Porque existe todo um mundo por destruir, a multiplicar o acionar autônomo

Recordamos aos companheiros Mauricio Morales, Sebastian Oversluij, Claudia Lopez e todos que morreram em ação

Fracción Autonómica Cristián Valdebenito¹

[1] É assassinado em 6 de março na Plaza Dignidad durante enfrentamentos com a polícia após ser impactado por uma bomba lacrimogênia em sua cabeça. Constantemente participava nas manifestações e colaborava com o ataque contra os esbirros do Poder. O reconhecemos como um irmão e companheiro de batalhas na rua durante a revolta de Outubro.

agência de notícias anarquistas-ana

Não se preocupem, aranhas,
Eu limpo a casa
casualmente.

Issa

[Chile] Rancagua: Contra os obstáculos da Gendarmeria, Solidariedade, agitação e ação pela vida e saúde do companheiro Francisco Solar!

Em 22 de setembro de 2021, o companheiro anarquista Francisco Solar é hospitalizado no interior do cárcere La Gonzalina de Rancagua após se detectar diabete e encontrar-se à beira de um coma. Hoje o companheiro se encontra de volta ao módulo 2 de máxima segurança e desde então o pessoal médico/carcereiro da prisão, mediante um tratamento negligente e insuficiente tentaram estabilizá-lo.

De forma imediata tanto Francisco como parte do entorno solidário desde fora, começamos a realizar gestões para a entrada de una médica particular, poder realizar uma série de exames, modificação no regime alimentar e encaminharmos para um tratamento mais autônomo possível por parte de Francisco, sem depender dos vai e vens anímicos dos carcereiros que devem administrar-lhes insulina.

Como era de esperar, a Gendarmeria não deu resposta nem facilidades tanto para a entrada de uma médica particular nem a entrega da ficha médica do companheiro.

O chamado é para gerar pressão para a entrada de una médica particular e o levantamento de qualquer obstáculo para um tratamento adequado. Pelo que chamamos a todos que sintam a urgência da vida e saúde do companheiro, a mobilizar-se e agitar para destravar esta situação de proibições e obstáculos na atenção do companheiro.

Cartas, comícios, agitação, visitas a embaixadas e todas as iniciativas que cada compa, grupo ou coletivo estime pertinente dentro da pluralidade. Tudo serve para conseguir dobrar as infinitas proibições no mundo do cárcere.

Solidariedade, agitação e ação pela vida e saúde do companheiro Francisco Solar!

Prisioneiros subversivos e anarquistas à rua!

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/10/12/chile-urgente-sobre-a-recente-enfermidade-detectada-no-companheiro-anarquista-francisco-solar-e-sua-delicada-situacao-de-saude/

agência de notícias anarquistas-ana

Calor. Nos tapetes
tranquilos da noite, os grilos
fincam alfinetes.

Guilherme de Almeida

[Grécia] Não esquecemos aqueles que se foram pelas mãos do Estado

Oito anos se passaram desde o dia em que os assassinos nazistas do Aurora Dourada mataram Fissas. Mas o fascismo ainda anda por aí e ainda está à espreita. Ainda pressiona sobre a suposta ignorância e pobreza. Sempre com o sistema e o capitalismo como aliados. Na situação atual com a pandemia e a gestão criminosa dos governantes, os grupos fascistas estão de volta às ruas, em meio às fermentações que acontecem na esfera nacionalista. A luta contra o fascismo é uma luta contra o medo.

Os anarquistas não pedem vitórias ou derrotas contra os fascistas através dos tribunais civis. O fascismo está sendo esmagado em nossa vida cotidiana, nas praças e nas ruas.

POR UM MUNDO SEM EXPLORAÇÃO, MAS DE SOLIDARIEDADE E LIBERDADE

E ESTE ANO ESTAREMOS NAS RUAS PARA HOMENAGEAR PAVLOS

Fonte: https://anarquia.info/grecia-no-hemos-olvidado-a-lxs-que-se-fueron-en-manos-del-estado/

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Veste geada
e se forra de vento
bebê na rua.

Bashô

[EUA] Após Revelações, é Hora de Desfazer Amizade com o Facebook

Por Amy Goodman | 22/10/2021

O Facebook cresceu e se tornou uma empresa mundial de 1 trilhão de dólares que permite que as pessoas se conectem online com familiares e amigos, compartilhando fotos e “curtindo” as postagens de outras pessoas. Por trás dessa fachada do bem, há uma vasta rede por meio da qual a empresa lucra promovendo a discórdia, a violência, o tráfico humano e levando os jovens, especialmente as meninas, a sentirem-se mal consigo mesmos, o que pode resultar em depressão e suicídio. O Facebook sabe de tudo isso. Documentos internos da companhia tiveram seu conteúdo vazado, o que resultou numa série de exposições bombásticas pelo Wall Street Journal. No domingo, a pessoa que divulgou os documentos, Frances Haugen, apareceu no programa “60 Minutos” da CBS e, na terça-feira, falou perante um subcomitê do Comitê de Comércio do Senado dos EUA.

“Eu vi o Facebook repetidamente identificar conflitos entre os próprios lucros e nossa segurança”, testemunhou Haugen. “O Facebook constantemente resolveu esses conflitos em favor dos lucros. O resultado tem sido mais divisão, mais danos, mais mentiras, mais ameaças e mais combate… essa perigosa conversa online levou à violência real que prejudica e até mesmo mata pessoas.”

O Facebook tem cerca de três bilhões de usuários em todo o mundo, e também é dono do Instagram e do WhatsApp, aplicativos de mídia social com outros três bilhões de usuários combinados. O Instagram, popular entre os adolescentes, incentiva os usuários a postar selfies e vídeos. Parâmetros como o número de seguidores ou o número de curtidas, interações negativas e compartilhamentos que uma postagem recebe, pesam muito na psique de muitos desses jovens usuários, muitas vezes negativamente.

Este trecho da entrevista de Haugen no “60 Minutos” ilustra o problema:

“Scott Pelley: Um estudo diz que 13,5% das meninas adolescentes dizem que o Instagram intensifica os pensamentos suicidas; 17% dizem que o Instagram piora os transtornos alimentares.

Frances Haugen: O que é super trágico é que a própria pesquisa diz que, conforme essas jovens começam a consumir o conteúdo relacionado ao transtorno alimentar, elas ficam cada vez mais deprimidas, o que as faz usar mais o aplicativo. Então, acabam neste ciclo, odiando seus corpos cada vez mais. A pesquisa diz que o Instagram é perigoso e prejudicial aos adolescentes e que é claramente pior do que outras mídias sociais.”

Entre os documentos obtidos pelo The Wall Street Journal estava um slide vazado de uma apresentação interna do Facebook / Instagram de 2019, intitulada “Teen Mental Health Deep Dive” (Uma Análise Profunda na Saúde Mental dos Adolescentes, em tradução livre). Nele, os pesquisadores da empresa admitem: “Tornamos os problemas de imagem corporal piores para uma em cada três meninas adolescentes”. Segue uma lista, especificando como:

“Os adolescentes consideram que o Instagram prejudica a saúde mental das seguintes maneiras:

• pressão para se adequarem aos estereótipos sociais;

• pressão para se igualarem aos influenciadores física e financeiramente;

• necessidade de validação – visualizações, curtidas, seguidores;

• conflitos entre amigos, bullying e discurso de ódio;

• hipersexualização de meninas;

• anúncios inadequados direcionados a grupos vulneráveis​​”

A ação do Facebook perante os adolescentes, tem sido comparada ao dos grandes fabricantes de cigarro, que, no intuito de fisgar fumantes cada vez mais jovens, fazem vista grossa às propriedades nocivas e viciantes desse produto.

A teia destrutiva de conteúdo tóxico empurrado pelo Facebook e pelo Instagram vai muito mais longe. Como revelam os documentos vazados, o Facebook sabe, há anos, que suas plataformas são usadas por organizações criminosas. Os cartéis mexicanos usaram a rede social com o objetivo de recrutar jovens para se tornarem assassinos e postarem vídeos celebrando os atos violentos.

Organizações de tráfico de pessoas usam a rede social para recrutar empregadas domésticas para trabalhar no Oriente Médio e, em seguida, confiscar os passaportes dessas emigrantes — muitas das quais vêm da África — e depois vender os contratos de trabalho. Elas muitas vezes são submetidas a condições análogas à escravidão, algumas até mesmo acorrentadas para evitar fugas.

Em zonas de conflito, o Facebook desempenhou um papel central em atiçar as chamas do ódio racial e étnico, encorajando a violência que contribuiu para assassinatos em massa e a limpeza étnica contra populações minoritárias, como os muçulmanos rohingyas , na ex-Birmânia (atual Mianmar), e o povo de Tigray , na Etiópia.

O Facebook sabia que estava causando danos, mas se recusou a agir. O próprio CEO Mark Zuckerberg interveio, ignorando os investigadores da empresa que sugerem soluções para esses problemas que poderiam afetar os lucros . Criador e criatura se recusam a contratar um número suficiente de monitores de conteúdo – especialmente em outros idiomas que não o inglês, que representam a grande maioria dos usuários – ou a ajustar o algoritmo secreto que impulsiona os enormes lucros da empresa.

“A parte chocante aqui é o número de mentiras descaradas repetidas continuamente”, disse Jessica González, co-CEO da organização de defesa da mídia Free Press, no noticiário do Democracy Now!. “Isso indica claramente que o Facebook não deve se autogovernar e o que o Congresso e o governo dos EUA devem intervir e fornecer transparência e responsabilidade.”

Nós – nossa atenção, nosso tempo gasto nesses sites e aplicativos – somos o produto que o Facebook vende aos anunciantes. Precisamos exigir responsabilidade. Ações do Congresso e ações antitruste são necessárias de imediato para controlar esse monopólio global que tira proveito do sofrimento.

Fonte: https://www.pressenza.com/pt-pt/2021/10/apos-revelacoes-e-hora-de-desfazer-amizade-com-o-facebook/

agência de notícias anarquistas-ana

Assim tão exata
sem se assemelhar a nada
sendo vária e vaga.

Olga Savary

[Grécia] Vídeo | Anarquistas atacam centro de dados do governo grego com molotovs; “da próxima vez não atacaremos janelas e paredes”

Ninguém foi machucado no ataque noturno

Um grupo anarquista [ΑΝΑΡΧΙΚΟΙ-ΕΣ] bombardeou o lado externo de um centro de dados do governo grego em protesto contra a vigilância e a prisão de 14 indivíduos.

No Indymedia Atenas, o grupo de anarquistas reivindicou a responsabilidade pelo ataque de 10 de outubro, acrescentando “da próxima vez não atacaremos janelas e paredes”.

Aproximadamente sete molotovs são mostrados sendo jogados no prédio em um vídeo granulado postado pelo grupo. A maioria explode no estacionamento, com alguns atingindo os lados do escritório e do centro de dados. Ninguém foi ferido no ataque.

O prédio da Secretaria Geral de Sistemas de Informação da Administração Pública em Moschato abriga o principal domínio gov.gr usado pela maioria dos sites e serviços governamentais.

Em um post recebendo crédito pelo ataque, o grupo disse que “a administração central grega quer um banco de dados digitalizado para combater a ilegalidade – ou melhor, para seu controle absoluto”. O grupo apontou para um acordo secreto entre o governo grego e o controverso negócio de grandes dados e vigilância Palantir.

O grupo alegou que o governo estava visando aqueles que falaram, e que 14 “camaradas” haviam sido detidos e estavam sendo forçados a dar o DNA. “Nossa ação na Secretaria Geral de Sistemas de Informação é um sinal de solidariedade com os camaradas”.

O centro de dados é apenas um entre dezenas de ataques a bomba e fogo postos em alvos em toda a Grécia este ano, com críticos alegando que o partido de direita Nova Democracia usou a pandemia para justificar uma série de políticas repressivas destinadas a esmagar grupos de extrema esquerda e anarquistas.

Neste mês, indivíduos desconhecidos explodiram um dispositivo incendiário no escritório do deputado do Nova Democracia Yiannis Kallianos.

>> Link da reivindicação de responsabilidade [idioma grego]: https://athens.indymedia.org/post/1614804/

>> Vídeo do ataque: https://athens.indymedia.org/media/upload/2021/10/20/%CE%9A%CE%A0%CE%A3.mp4

Tradução > solan4s

agência de notícias anarquistas-ana

As águas silentes
E a névoa sobre o capim —
Entardece agora.

Buson

[Espanha] O fascismo sociológico da “conversa de bar” e o classismo da intelectualidade revolucionária da classe média se reforçam mutuamente

Quando eu era mais jovem, comecei no movimento libertário, com dois outros camaradas, fundando um grupo de afinidade anarquista. Nós três nos consideramos como tal, e nos relacionamos, fundamentalmente, com outras pessoas que compartilharam nossas preocupações. Pessoalmente, fiquei um pouco obcecado com a pureza ideológica do grupo, como alguns outros camaradas, e viemos a rejeitar na assembleia propostas que iam no sentido de transformá-lo em algo mais amplo: anticapitalista, antifascista, etc. Quando ocorreram duas importantes mobilizações no povoado (contra a construção de uma estrada e de uma central térmica) participamos ativamente delas, dando-lhes um selo diferente e divulgando-as através de cartazes, folhetos e uma revista que publicamos. Isto, ao contrário do que pensávamos, não resultou na adesão de novos jovens ao coletivo, pelo contrário, quanto mais coisas fazíamos, na verdade, menos éramos.

Mas nossa atitude, em vez de repensar algo, foi rir deles, de como eles eram estúpidos, de sua submissão e conformidade tácita com a ideologia do sistema. Uma vez, depois de algum tempo, entrei para o sindicato, comecei a conhecer outra realidade: em uma ocasião, me disseram que um jovem trabalhador vestindo um traje do exército espanhol entrou para uma consulta, e quando ele viu que havia vários trabalhadores norte-africanos esperando para serem vistos no escritório, ele murmurou: “quantos mouros estão aqui!”, mas um dos camaradas veteranos, em vez de expulsá-lo imediatamente (que é o que minha intransigência um pouco anarquista juvenil postal teria esperado) o atendeu, explicando-me que talvez se este jovem trabalhador visse que nós, libertários, o apoiávamos, ele pudesse mudar sua maneira de ver as coisas.

No município onde moro há uma grande comunidade marroquina rifenha, a maioria deles trabalhadores e alguns pequenos comerciantes. A visão que muitos cidadãos catalães e espanhóis têm deles vai de uma xenofobia sociológica de “conversa de bar” (ou seja, que não se traduz, por enquanto, em um voto explícito para o VOX ou a FNC, que já seria uma xenofobia política) até mesmo uma certa visão orientalista como uma exaltação do “que é diferente”. O orientalismo é conhecido como a disciplina acadêmica fomentada, na época, nas metrópoles francesas e britânicas, que consistia em elaborar um discurso funcional ao colonialismo sobre os países árabes, entre outros: para isso, os “exóticos” e os “diferentes” foram exaltados a fim de construir uma “alteridade” radical que, embora interpretada como algo belo, precisava, ao mesmo tempo, de sua “missão civilizadora”. Há uma loja hippie na cidade velha que é um claro exemplo disso.

Por outro lado, um trabalhador marroquino, militante de um grupo marxista em seu país, me disse que este tipo de preconceito também ocorre de forma inversa: Alguns muçulmanos piedosos, disse-me ele, pensam que a maioria dos catalães e espanhóis são descrentes que não conhecem a Deus (como se ser ateu ou “não praticante” fosse necessariamente sinônimo de não acreditar em nada), embora não se deva esquecer que os preconceitos que um grupo estigmatizado pode ter com relação ao grupo majoritário nunca terão a mesma capacidade prejudicial, embora possam ser motivados por sentimentos semelhantes. Mas dito isto, a questão é: como lidar com este tipo de preconceito? Talvez um anarquista intransigente possa pensar que o fascismo ou o racismo sociológico de “conversa de bar” (ou os preconceitos mais estruturalmente inócuos da loja de chá) deveria ser combatido com uma ferocidade semelhante às manifestações políticas da extrema-direita.

Estes anarquistas estão sempre dispostos a apontar os preconceitos muitas vezes ingênuos dos outros, sem questionar que muitos de nós temos um pensamento progressista sobre certas questões porque tivemos um contexto social e cultural (o último é uma consequência do primeiro e não o contrário) mais favorável ao seu desenvolvimento. Neste contexto, o progressivismo usado como arma de guerra pode constituir uma forma nauseante de classismo e até de racismo. Isto significa que devemos adotar um modo de pensar furiosamente antiprogressista como os hooligans estalinistas-populistas do Frente Obrero? E que se note que, nesta ocasião, por progressivismo, não estou me referindo a nenhum tipo de centro-esquerda, mas ao pensamento avançado em termos de diversidade cultural, sexual, etc. (alguns ateneus libertários dos anos 30 não eram tão exigentes quanto ao uso de certos termos).

De modo algum, mas devemos ter em mente que, no primeiro caso, o racismo sociológico, que existe em parte da classe trabalhadora (mas não o racismo político, lembre-se), é uma forma de sublimar o classismo para os setores mais subalternos da mesma classe e adotar uma postura arrogante e não pedagógica em relação a ele significa aprofundar o confronto entre os diferentes segmentos do proletariado (logicamente, quem mais promove tal confronto é o próprio racismo, mas estou falando, sempre, de pedagogia que acredito que deve ser usada no nível sociológico e não de ação direta no nível político). E com esta situação, somente aqueles que, no fundo, são indiferentes à sua unidade, mas entendem a política, como um ato de reafirmação de seu capital cultural, como um marcador de classe excludente, podem se regozijar. Por outro lado, alguma indiferença (não oposição como afirmam os seguidores demagógicos de Roberto Vaquero) a certas questões como a diversidade sexual se deve ao fato de que elas ainda constituem uma parte minoritária das preocupações diárias da maioria da classe trabalhadora.

Repito, isso significa que devemos adotar a postura demagógica de que, por não serem tão importantes quanto o desemprego, a saúde ou a corrupção dos políticos, não são importantes? Nada disso, já que aqueles de nós que querem mudar a sociedade têm a obrigação moral de levantar todas essas questões que podem levá-la adiante, pois limitar-se ao nível atual de consciência do povo (e pior, pedir desculpas por isso) nada mais é do que populismo barato, e nesse sentido o VOX de Santiago Abascal e o Frente Obrero de Roberto Vaquero não são tão diferentes: eles apelam para as paixões inferiores, para essa “conversa de bar” reacionária a fim de explorá-la politicamente. Mas esta abordagem deve ser feita, creio, de forma pedagógica e não confundir os níveis sociológicos (os preconceitos um tanto idiotas) com o nível político e ideológico (o que implica um certo nível de tentativa de argumentar um discurso de ódio). Por ser politicamente intransigente demais, penso que, no nível dos preconceitos que ocorrem nas relações sociais cotidianas, pode nos levar ao isolamento e à classe trabalhadora se jogando nos braços dos populistas fascistas da direita (VOX) ou da esquerda (Frente Obrero).

Há alguns dias, um camarada do sindicato me recomendou ler Cuestiones de Táctica o la Anarquía sin Adjetivos, do anarquista cubano Fernando Tarrida de Mármol, recentemente publicado pelo Ateneu Libertário de Carabanchel Latina, no qual ele explica, em 1890, a maior adequação das táticas dos anarquistas espanhóis em comparação com as dos franceses. O primeiro, ao contrário do segundo, havia aceitado o pragmatismo de participar das sociedades de trabalhadores. Estes libertários acusaram aqueles que afirmavam que o anarquismo era uma organização de pensadores de serem metafísicos, sem entender que a maioria dos trabalhadores não tinha tempo nem estudos preparatórios para entender as ideias modernas do anarquismo logo de cara.

Era para isso que os anarquistas espanhóis estavam lá, para introduzi-los gradualmente, mesmo que pudessem encontrar a oposição inicial dos trabalhadores: ideias que iam muito além das exigências materiais. Se eles se tivessem limitado a eles, não teriam tido a concepção integral da revolução e do ser humano que Guy Debord lhes atribuiu em sua Sociedade do Espetáculo. Algo que a demagogia populista e stalinista dos seguidores do Frente Obrero não tem. Mas também não tem um certo elitismo revolucionário da juventude de classe média alternativa.

Alma Apátrida                     

Fonte: http://alma-apatrida.blogspot.com/2021/10/el-fascismo-sociologico-de-charlade-bar.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

O campo queimado –
Na árvore de um só galho
um cacho de flores.

Teruko Oda

Ajude a construir a 1° Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre/RS

PEDIMOS AJUDA COM APORTE FINANCEIRO E/OU DIVULGAÇÃO

Saudações Anárkicas!

Vai acontecer a 1ª Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre – FAFPOA!

Nos juntamos entre coletivos e individualidades na organização da 1ª Feira Anarquista Feminista da cidade de Porto Alegre!

A FAFPOA vai acontecer em dois momentos: um final de semana presencial, no dia 04-05/dez – com medidas de cuidado mútuo coletivo – e um final de semana via internet, no dia 11-12/dez – devido às incertezas da pandemia da Covid-19 e para tornar o evento mais acessível à mais pessoas.

Nós achamos muito importante os encontros e as trocas compartilhadas, principalmente que convergem com o ideal anarcofeminista, e não podemos mais deixar de habitar os espaços, menos ainda no momento pandêmico que estamos vivendo.

Todas as ajudas são bem-vindas para que possamos realizar a Feira e arcar com os custos materiais que envolvem: infraestrutura, apoio a participantes, alimentação, transportes, equipamentos, protocolos relacionados à prevenção da Covid-19​, etc…

Para apoiar, clique aqui:

https://apoia.se/fafpoa

agência de notícias anarquistas-ana

Um balé no ar.
Beija-flor equilibrista
suga a flor imóvel.

Zuleika dos Reis

[Itália] Uma sentença vergonhosa! Solidariedade com Mimmo Lucano

O Tribunal de Locri condenou Mimmo Lucano¹ a 13 anos de prisão, o dobro da pena solicitada pelo Procurador Público.

Uma sentença digna dos tempos da Inquisição onde o crime é o de solidariedade.

Esta sentença condena uma importante experiência de grande valor moral reconhecida em todo o mundo: um exemplo de comunalismo de base que foi capaz de criar uma verdadeira comunidade intercultural de solidariedade com os mais indefesos, imigrantes que fogem da guerra e da fome.

Uma conspiração realizada por magistrados, mídia e órgãos institucionais da prefeitura, já que o sistema Riace colidiu com os interesses da máfia local, mas os instigadores residem no parlamento.

A injustiça foi feita e da pior maneira possível, demonstrando ainda mais que a lei não é a mesma para todos, sempre contra os últimos, os explorados, os excluídos e todos aqueles que os defendem e se mostram solidários.

Expressamos todo nosso desprezo por esta condenação. Expressamos toda nossa solidariedade com Mimmo Lucano e sua importante experiência.

Exigimos manifestações de todas as maneiras e formas possíveis contra esta maior destruição dos direitos humanos.

Comitê Executivo da USI-CIT

Secretariado da USI-CIT

[1] Mimmo Luciano esteve envolvido, na cidade italiana de Riace, em uma iniciativa de acolhimento de diversos imigrantes, bem como no desenvolvimento de associações e cooperativas que empregavam tais imigrantes.

Fonte: https://usi-cit.org/una-sentenza-vergognosa/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Vento de primavera —
Do outro lado do aterro,
O mugido da vaca.

Raizan

[Itália] Florença: Solidariedade com o Si Cobas

Expressamos nossa solidariedade com o Si Cobas¹. Na segunda-feira (11/10), durante a greve geral, assistimos ao enésimo ataque dos militares com cassetetes contra os trabalhadores na linha de frente.

Em todas as formas, o Estado e os patrões querem impedir o direito à greve em nome de uma lógica de lucro a todo custo.

Nossa resposta concreta é continuar a unidade dos sindicatos de base através do conflito de classes e da solidariedade.

Comitê Executivo da USI-CIT

Secretário da USI-CIT

[1] O Si Cobas é um sindicato de base italiano envolvido na recente greve geral.

Fonte: https://usi-cit.org/firenze-solidarieta-al-si-cobas/

Tradução > Liberto

Agência de notícias anarquistas-ana

Chuva de primavera —
Todas as coisas
Parecem mais bonitas.

Chiyo-jo