[EUA] Anarquistas cubanos sobre o contexto e a importância da recente onda de protestos

 

Neste episódio do podcast It’s going down, conversamos com um anarquista de Cuba e um anarquista cubano-americano, que vive em Miami, sobre a recente onda de protestos que tem sacudido a ilha nas últimas semanas. As manifestações pegaram a todos de surpresa e nossos convidados defendem que elas são históricas e que representam um terremoto de ódio da classe trabalhadora que se manifestou através de protestos, confrontos com a polícia e saques – atividade que não ocorria na ilha há décadas.

Um anarquista cubano escreveu em uma entrevista recente com a CrimethInc:

As manifestações foram uma explosão social, sem dúvida nenhuma. A crise e as tensões geradas pela precariedade e pelo colapso do sistema de saúde resultaram nisso. Mas, não foi uma explosão generalizada por todas as camadas sociais. Além das áreas onde porções significativas das cidades estavam envolvidas, os setores mais pobres da população carregaram a maior parte dos protestos. O viés classista com que o estado e seus defensores abordaram o problema é evidente na crítica dos manifestantes e da sua violência. A desigualdade social tem crescido em Cuba por décadas e o estado jogou com essa dinâmica para fazer alianças e assegurar lealdades. Neste caso, houve um confronto entre os setores de maior desvantagem e os mais privilegiados.

Os protestos começaram fora de Havana, em áreas afetadas pela escassez de bens, quarentenas excessivas e apagões de até 12 horas de duração. Soma-se a isto um descontentamento social acumulado da crise produzida pela intensificação do embargo pelos Estados Unidos e a ineficácia do governo, cujo auge foi a implementação de uma série de medidas no começo do ano que levaram a uma elevada inflação e ao crescimento do mercado negro. Isso fez com que em um município como San Antonio, centenas de pessoas se lançassem às ruas para expressar sua indignação. Depois do impacto que as manifestações causaram nas redes sociais, outros protestos ocorreram em áreas que sofrem com problemas similares. Por volta das quatro da manhã, as manifestações se espalharam nacionalmente.

Foi depois do comunicado de Díaz-Canel, no qual ele chamou pelos “revolucionários” para confrontar os manifestantes, que uma repressão dura começou contra marchas pacíficas, junto com fortes confrontos com a polícia.

Todas as marchas foram espontâneas e terminaram desorientadas e facilmente dispersas. O corte de internet também reduziu sua visibilidade, enquanto uma avalanche imediata de desinformação do estado proclamou que os protestos tinham terminado em diversos lugares. A comunicação sofreu um grande dano durante todo esse processo, já que as únicas coisas que estavam passando eram as notícias tendenciosas da mídia oficial e muitas fake news se espalharam pelos aplicativos de mensagem. Isso contribuiu significativamente para a redução das tensões, mas o retorno da internet e das publicações de testemunhas sobre a repressão não permitiram um retorno absoluto à normalidade. Nestes dias, a maioria dos espaços de organização está focado na luta para libertar os que foram presos – mais de 500 pessoas, de acordo com algumas listas.

Ao longo da nossa discussão, nós conversamos, no contexto da revolta: tanto em termos do embargo dos Estados Unidos, da crise econômica, dos desligamentos de energia, da pandemia de COVID-19, da maquiagem de classe e raça das manifestações, do impacto do ódio crescente acerca da brutalidade policial e da autoridade do estado, da divisão histórica entre o campo e as áreas urbanas, do papel, tamanho e escopo dos reacionários, das correntes pró-US e pró-intervenção dentro dos protestos, repressão dos manifestantes, incluindo anarquistas e outros anticapitalistas e da discussão sobre como a esquerda respondeu aos protestos aqui e nos Estados Unidos.

Nós encerramos falando sobre o pequeno, porém crescente, movimento anarquista em Cuba e como as pessoas podem apoiar projetos autônomos e de ajuda mútua por lá. Também falamos sobre a importância de recordar a história anarquista de Cuba.

Mais informação: Apoie programas de ajuda mútua aqui (instagram.com/cubanospalante/?hl=en); Apoie anarquistas cubanos aqui (facebook.com/TallerLibertarioAlfredoLopez); Entrevista da CrimethInc com anarquistas cubanos aqui (crimethinc.com/2021/07/22/cuban-anarchists-on-the-protests-of-july-11).

>> Escute o podcast aqui:

https://itsgoingdown.org/?powerpress_pinw=207369-podcast

Fonte: https://itsgoingdown.org/cuban-anarchists-on-context-and-importance-of-the-recent-wave-of-protests/

Tradução > Calinhs

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/21/cuba-o-fim-do-encantamento-social-da-revolucao/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/16/escrito-de-um-anarquista-cubano-depois-das-manifestacoes-em-cuba/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/15/eua-consideracoes-sobre-a-rebeliao-em-cuba/

agência de notícias anarquistas-ana

Borboleta azul
raspa este céu de mansinho
insegura e frágil.

Eolo Yberê Libera

Serviços especiais da Ucrânia ajudam o regime de Lukashenko a reprimir anarquistas na Bielorrússia

Os Serviços Especiais da Ucrânia e o Ministério de Assuntos Internos do país responderam ao pedido dos oficiais de segurança da Bielorrússia enviado pela Interpol e estão tentando deportar dois anarquistas bielorrussos: Alexei Bolenkov (conhecido como Max Belorus) e Artur Kondratovich.

Alexei Bolenkov veio à Ucrânia em 2013 para participar dos protestos de Euromaidan. Temendo a perseguição, resolveu ficar no país. Artur Kondratovich foi um participante ativo nas ações contra o Decreto n°3 (também conhecido como decreto “contra parasitas sociais”, que introduziu um imposto sobre pessoas sem um trabalho de tempo integral) na Bielorrússia em 2017. Devido à repressão, se mudou para a Ucrânia. Em 2020, durante a nova onda de protestos no país seguido das eleições, Bolenkov e Kondratovich participaram de inúmeras ações em solidariedade e assistência a refugiados políticos recém-chegados.

O Estado bielorrusso tentou extraditar Kondratovich da Ucrânia em 2019 mandando o pedido ao Interpol. Subsequentemente, o anarquista foi preso na capital da Ucrânia, Kiev, e lá passou cinco meses em detenção antes da suspensão do pedido em decorrência de seu processo em andamento para o exílio político. No entanto, durante seu aprisionamento, o passaporte de Artur Kondratovich desapareceu.

Uma nova fase da acusação começou em Abril de 2021, quando a polícia surgiu com mandatos de busca e apreensão para Kondratovich e Bolenkov, sob o pretexto de investigar casos criminais supostamente ligados a ataques de grupos anarquistas a instituições estatais.

Imediatamente após a busca, os oficiais de SBU (Serviços Especiais da Ucrânia) entraram no apartamento de Bolenkov, se recusaram a mostrar suas identidades e tentaram levá-lo à fronteira mais próxima, que é justamente a fronteira com a Bielorrússia. Se a operação tivesse obtido sucesso, Bolenkov teria sofrido a ameaça de encarceramento imediato em seu país de origem, onde ele poderia enfrentar o mesmo destino de outro anarquista, Nikolai Dedok, que foi torturado pela polícia bielorrussa. Uma ação de solidariedade organizada improvisadamente por amigos e advogados conseguiu impedir sua deportação.

De acordo com a SBU, Bolenkov seria uma ameaça à segurança nacional da Ucrânia e deveria ser forçado a sair do país em até 24h. Os advogados decidiram apelar a essa decisão, mas o juiz concordou com a narrativa do Serviço Especial. Na opinião dele, a segurança nacional do país estava ameaçada pelas visões anarquistas de Bolenkov; especialmente sua participação na ação contra a polícia, a organização de ações em solidariedade com o povo bielorrusso, e a distribuição de literatura anarquista. Para apoiar suas alegações, o SBU se utilizou de publicações de extrema direita e informações das forças de segurança bielorrussas que indicavam Bolenkov como suspeito em um processo criminal na Bielorrússia.

Além disso, em tentativa de incriminá-lo, oficiais de segurança também invadiram a casa de um jovem casal, Sergei e Ira Ruban. Os Ruban eram amigos próximos e camaradas de luta dos dois perseguidos políticos. Membros do Departamento de Segurança Interna do SBU conduziram a busca sem mandato e apreenderam celulares, laptops, tablets e pen drives. Após a invasão, ambos foram convocados para interrogatórios, quando foram questionados sobre suas conexões com Bolenkov. Depois, o investigador ainda os convocou para “conversas informais”. Imediatamente após os interrogatórios o casal foi chamado para questionamento acerca do incêndio culposo de carros da polícia em 27 de Julho de 2020, como testemunhas.

Agora Bolenkov interpôs um apelo, mas os advogados temem a perda do caso e a efetuação do processo de deportação por falta de atenção do público. Artur Kondratovich está também sob ameaça – pode ser a ele negado o exílio político sob pressão do SBU.

De 9 a 18 de Julho, anarquistas ucranianos organizaram uma campanha de solidariedade para Alexey, Artur, Iran e Sergey. Para mais informações e atualizações, siga:

• ABC Ukraine Facebook: facebook.com/blackcrossukraine

• ABC Ukraine Telegramchannel: t.me/abcukraine

• ABC Ukraine Instagram: instagram.com/abc_ukraine/

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2021/07/12/ukrainian-special-services-assist-lukashenkas-regime-to-repress-belarusian-anarchists/

Tradução > mari

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/23/bielorrussia-antifascista-detido-e-condenado-a-servir-18-meses-de-trabalho-forcado-por-uma-performance-de-rua/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/15/atualizacao-da-situacao-das-repressoes-na-bielorrussia-em-junho-de-2021/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/02/03/bielorrussia-ativistas-do-food-not-bombs-recebem-sentencas-de-prisao-por-doar-alimentos/

agência de notícias anarquistas-ana

pássaros cantando
no escuro
chuvoso amanhecer

Jack Kerouac

[Espanha] Condenados a sete anos de prisão por agressão a dois neonazistas que estavam “caçando” menores migrantes

O tribunal condenou três jovens migrantes a um ano e seis meses a mais do que o que a acusação pedia, sem levar em conta que momentos antes dos acontecimentos a polícia havia apreendido armas dos dois neonazistas, que admitiram aos policiais que tinham ido em busca de menores migrantes.

Por Ter García | 21/07/2021

O 26º Tribunal Penal de Madri condenou dois jovens migrantes a sete anos de prisão e ao pagamento de 4.100 euros de indenização por agressão a dois neonazistas que haviam saído “à caça” de menores estrangeiros não acompanhados, como eles mesmos declararam em seu depoimento à polícia. Os oficiais tinham apreendido armas dos extremistas de direita momentos antes.

Os eventos aconteceram em 14 de outubro de 2020 na área de San Blas. Segundo a declaração policial, à qual El Salto teve acesso, naquele dia as duas pessoas de ideologia de extrema direita tinham ido às proximidades da estação de metrô Las Rosas com o objetivo de localizar menores desacompanhados que, segundo eles, tinham agredido sexualmente uma menor de idade – o que foi negado pela polícia dias depois, que identificou o estuprador como um jovem espanhol, como o La Marea revelou na época.

De acordo com o relato que deram à polícia, naquele dia eles encontraram quatro menores de origem marroquina a quem perguntaram se eram menores desacompanhados e a quem empurraram e bateram com um capacete de motocicleta. Os quatro menores marroquinos fugiram, mas os dois neonazistas afirmam à polícia que, a certa altura, a perseguição mudou de direção e foram eles que foram perseguidos pelos menores estrangeiros. Os jovens marroquinos deixaram de persegui-los e pouco depois os dois neonazistas foram interceptados por uma patrulha policial. O mesmo relatório policial afirma que a polícia apreendeu uma faca e um bastão expansível dos dois neonazistas e os deixou ir. Mas a noite continuou e, no caminho de casa, eles encontraram outro grupo de menores migrantes que, de acordo com os nazistas, os espancaram com paus, pedras e pedras de paralelepípedos.

Segundo a sentença, que foi publicada no Twitter pelo advogado dos dois neonazistas, um deles sofreu uma fratura no nariz, hematomas e deslocou os incisivos superiores, pelo que foi hospitalizado por sete dias e um mês em licença médica, mas sem sequelas, e o outro teve hematomas e uma ferida pela qual recebeu pontos e esteve sob tratamento médico durante duas semanas, sem sequelas.

“Os dois jovens nazistas são conhecidos na vizinhança: Pepe e Luis e têm entre 19 e 23 anos de idade. Sabemos isso através das redes sociais. Agora eles se apresentam como vítimas, mas foram espancar os menores porque eram imigrantes. E se eles vierem para bater em você, ou você corre ou você se defende. E como eram quatro, eles se defenderam”, explicou Shay, um jovem ativista do coletivo San Blas-Canillejas en Lucha, que foi agredido várias vezes, ao El Salto. De acordo com o advogado dos dois neonazistas em sua conta no Twitter, ambos são membros da organização de extrema direita Bastión Frontal.

A briga foi seguida de manifestações de extrema direita que foram denunciadas por organizações como SOS Racismo por constituírem crimes de ódio e nas quais centenas de pessoas cantaram proclamações como “San Blas será o túmulo dos estrangeiros” ou “Nem um único estrangeiro em San Blas”. O protesto, organizado por organizações como Bastión Frontal e Defendam San Blas, chegou à porta do abrigo onde vivem vários menores migrantes.

Nessa mesma noite, e no dia seguinte, quatro jovens de origem norte-africana foram presos pelo incidente, sendo um deles menor de idade. Os três adultos, dois deles de 18 anos e outro de 19 anos, foram mantidos em custódia e agora foram condenados a um total de sete anos de prisão cada um – quatro anos pelos ferimentos infligidos a um dos neonazistas e três pelos infligidos ao outro – assim como 3.350 euros e 750 euros de indenização. Além disso, a sentença declara que quando os dois jovens tiverem cumprido dois terços de suas penas, serão expulsos do país e proibidos de retornar por dez anos.

Entretanto, a sentença, que impõe um ano e meio a mais aos três jovens migrantes do que a solicitada pela acusação, não leva em conta o fato de que pouco antes da agressão sofrida pelos dois neonazistas, eles tinham ido à caça de menores estrangeiros, como haviam confirmado à polícia e depois negado durante o julgamento, realizado no início deste mês. A “ideologia dos feridos ou o incidente anterior provocado por eles é irrelevante”, afirma a decisão do tribunal. “É verdade que os feridos não ofereceram uma versão coerente do que estavam fazendo no parque onde os eventos começaram e porque tinham as armas que foram apreendidas pela polícia, mas o fato é que estes fatos não são o objeto do presente processo e não têm relevância criminal”, continua a declaração do juiz sobre a caça aos menores que os dois neonazistas atacados tentaram realizar.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/nazis/condenados-siete-anos-prision-agredir-neonazis-caza-menores-migrantes

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

após a festa da aldeia
ficou ainda um crepe
a lua-cheia

Rogério Martins

[Portugal] Feira Anarquista do Livro Lisboa – 25 e 26 de Setembro 2021

Viva!

Desde este ponto geográfico cada vez mais perto da catástrofe total, fruto do terremoto turístico, do aparato fármaco-securitário e da normalização de tudo, voltamos a convidar-vos a todas e todos para um fim-de-semana de encontro entre resistentes, insubmissos e iconoclastas. Nos dias 25 e 26 de Setembro de 2021, a Feira Anarquista do Livro regressa a Lisboa, num “algures” a anunciar em breve. Se fazem parte de algum coletivo editorial ou de uma distribuidora, ou se individualmente se dedicam à edição e distribuição de papel impresso carregado de “vírus” rebeldes, escrevam-nos para: feiranarquistadolivro@riseup.net, e reservamo-vos um cantinho.

À violência continuada do processo pandêmico, que dissolveu laços sociais e hábitos de comunhão, respondemos com uma possibilidade de encontro.

Hoje como ontem, resistimos ao cerco do capital, da autoridade e do conformismo. A maioria resigna-se, nós não!

Saúde e Anarquia!

FB: https://www.facebook.com/feiranarquistadolivro/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/10/24/portugal-feira-anarquista-do-livro-2018-lisboa/

agência de notícias anarquistas-ana

Na poça d’água
o gato lambe
a gota de lua.

Yeda Prates Bernis

[Chile] Grupo de estudos Zorro Negro: conversando com Eduardo Godoy sobre a história do anarquismo no Chile – 27 julho

SESSÃO ABERTA: HISTÓRIA DO ANARQUISMO NO CHILE COM EDUARDO GODOY via Jitsi – transmissão ao vivo pelo youtube

Compas, lhes estendemos, com muito afeto e interesse, para que se juntem a este convite para uma sessão especial de nosso Grupo de Estudos Anarquistas, na qual estaremos em uma palestra com Eduardo Godoy, historiador e autor de obras como o artigo “Historia e historiografía del anarquismo en Chile” e o livro “Llamaradas de rebeldía“, da Editorial Eleuterio. A finalidade deste tipo de palestra é poder difundir a história do anarquismo em nosso território, para poder descobrir sua identidade, seus princípios, suas discussões, seu desenvolvimento, e os diversos acontecimentos que nos mantêm com a convicção no anarquismo até o dia de hoje.

É fundamental que possamos ver a história para compreender o que mantêm o presente, e dotá-lo de conteúdo desde diversos lugares.

Se tens interesse em participar, escreva para correio asamblealibertariacordillera@gmail.com, para receber o link de jitsi desde o qual acontecerá o evento na terça-feira, 27 de julho, às 18h00, horário do Chile. Esperamos que se motivem.

Saúde, ternura e anarqui(A)!

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/05/chile-07-04-apresentacao-do-livro-llamaradas-de-rebelion-breve-historia-del-anarquismo-en-chile-1890-2000/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/09/02/chile-a-cozinha-da-historia-dialogos-sobre-a-historia-do-anarquismo-latino-americano-audios/

agência de notícias anarquistas-ana

na cama de nuvens
o sol espreguiça-se
oblongo

Eugénia Tabosa

[Espanha] Lançamento: “El Ku Klux Klan”, de William Peirce Randel

A Ku Klux Klan fundou-se no sul dos Estados Unidos em 1865, ao terminar a guerra civil, com o propósito de defender a supremacia branca, que se viu interditada pela Reconstrução, um programa federal que outorgava certos direitos à população negra. Sua evolução posterior incluiu outras minorias: judeus, católicos ou estrangeiros (como não autenticamente americanos), diferente de brancos e protestantes (os únicos capazes de proteger o projeto nacional). Um século mais tarde, quando o historiador William Peirce Randel escrevia esta obra — convertida hoje num clássico —, o florescimento da Klan, que chegou a contar em algum momento com cinco milhões de membros e a quem nenhum governo dos Estados Unidos declarou “terrorista”, havia penetrado em amplos setores conservadores. Segundo sustenta Randel, o dramático foi como “o espírito da Klan” foi colorindo ideologicamente a uma parte da sociedade norte-americana. “Se revisamos sucintamente a história dos Estados Unidos, chegaremos à inevitável conclusão de que o que a Klan supõe é uma constante em nosso comportamento nacional. Às vezes permanece estático, calmo, mas não está morto, mas simplesmente latente entre erupção e erupção”. Hoje, mais de 150 anos depois de sua fundação, a Ku Klux Klan viu ampliada sua influência graças às redes sociais. A existência de organizações como Proud Boys ou a mais misteriosa QAnon bebem diretamente de seus ideais, pelo que não foi estranho que o final do governo do presidente Trump tenha se encerrado com um assalto, em boa medida imaginário, ao Capitólio, como símbolo desse “governo judeu” que obsessiona a Klan.

El Ku Klux Klan

William Peirce Randel

Los Libros de la Catarata, Colección Mayor, 842. Madrid 2021

288 págs. Rústica 22×14 cm

ISBN 9788413522555

18,50 €

catarata.org

agência de notícias anarquistas-ana

Sesta no jardim:
a borboleta me acorda.
Coça o meu nariz.

Anibal Beça

[França] Para os políticos, é um despertar difícil!

Desde as últimas eleições, políticos de todos os tipos têm tido uma grande ressaca. É preciso dizer que as sacrossantas eleições regionais e departamentais não entusiasmaram as multidões.

No total, durante os dois turnos, e apesar da procrastinação dos cães de guarda do sistema representativo, dois terços dos eleitores registrados abandonaram os postos de votação. Só podemos nos regozijar!

Não que esta abstenção maciça seja particularmente consciente, revolucionária ou anarquista, mas porque é pelo menos o sinal de uma generalização farta das mentiras, das falsas promessas e da arrogância daqueles que afirmam nos representar.

É um bom começo, e os resultados deste descontentamento generalizado são bastante impressionantes. Entre os partidos que disputam o poder político, é uma rotina.

Para simplificar, a esquerda, mesmo em coalizão, não convence mais muitas pessoas com seu “progressivismo” de papelão.

Por sua vez, a direita conservadora continua a fantasiar sobre a satisfação de seus constituintes.

A maioria presidencial está levando uma surra monumental.

A extrema-direita, por sua vez, está descobrindo com horror que tem apenas um pequeno, embora grande demais, círculo eleitoral de convicção e que não provém de nenhum movimento popular.

O destaque do programa é que a taxa de não participação nas eleições significa que os representantes eleitos, tanto nas regiões como nos departamentos, raramente são eleitos com mais de 20% dos votos dos inscritos.

Todos concordarão que isto revela claramente a ilegitimidade do poder que as instituições representativas republicanas exercem sobre todos nós.

No dia seguinte aos resultados, pudemos ver editorialistas, ideólogos e gerentes de todo este ferro-velho partidário se entusiasmando na TV e nas redes sociais com “uma democracia sem eleitores não é uma democracia” (Mélenchon), “fazer a abstenção ganhar é fazer a democracia perder” (Castex), ou “você deve votar” (Le Pen).

Esta é a prova da eficácia da abstenção que, num contexto de fragmentação do movimento social, faz com que nossos opressores reajam mais do que uma previsível “jornada de ação” realizado com pouco espaço de manobra e pouco apoio – participação – por parte das centrais sindicais.

Em outras palavras, sem nossos votos para alimentar a máquina que lhes dá todo o seu poder, eles não são nada.

Escusado será dizer que nós anarquistas convidamos todos os abstencionistas a repetir sua façanha nas eleições presidenciais e legislativas do próximo ano. Vamos além do simples protesto, amplifiquemos a greve de votação e semeemos os ideais emancipatórios em direção ao florescimento da anarquia.

Para nós, não vamos votar (incluindo votos em branco, porque o voto em branco é a utilização de um instrumento fictício deixado ao nosso alcance para nos enganar) é:

  • Lutar eficazmente contra a ameaça imediata do fascismo;
  • Minar a chamada legitimidade dos representantes eleitos e dos partidos que nos oprimem, nos reprimem e se enriquecem às nossas custas (note que isto não significa que eles recusariam o poder);
  • Rejeitar os temas hipócritas e nauseabundos da campanha que impedem a emancipação da humanidade;
  • Rejeitar o sistema representativo, ou seja, o regime político segundo o qual seríamos obrigados a nos dar senhores para governar nossas vidas em nosso lugar;
  • Ajudar a destruir os efeitos perversos e debilitantes do poder político em nossa sociedade;

É claro que a abstenção é apenas uma ferramenta simples que não pode fazer nada sozinha. Ela deve ser ampliada pela construção, de forma autônoma, horizontal, coletiva e consensual, de iniciativas e redes adaptadas às necessidades da humanidade e de seu meio ambiente. O Estado, o capitalismo e seus derivados não cairão sem uma amplificação e uma participação ativa e implacável nas lutas sociais.

É claro que primeiro devemos rejeitar as eleições a fim de quebrar nossas correntes: caso contrário, permaneceremos indefinidamente na posição insuportável do escravo que aceita o jugo que o oprime.

Portanto, sem concessões. Também não há culpabilidade.

Àqueles que, à direita e à esquerda, tentam criminalizar o ato de abstenção, respondamos alto e claro: “O criminoso é o eleitor” (Albert Libertad).

Abstenção! Autogestão! Revolução!

Viva a anarquia!

O Grupo Graine d’Anar, Lyon e arredores, membro da Federação Anarquista

Fonte: https://grainedanar.org/2021/07/13/pour-les-politicards-le-reveil-est-difficile/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/30/franca-eleicoes-que-todos-se-mandem/

agência de notícias anarquistas-ana

casca oca
a cigarra
cantou-se toda

Matsuo Bashô

[EUA] Charles Coughlin: o padre que apoiou e incentivou o nazismo

Na era digital, temos celebridades de várias esferas artísticas e produtores de conteúdo com milhares de seguidores em suas redes sociais, onde cada posicionamento e ideia que pregam têm o poder de impactar desde mentes muito jovens em construção até os mais velhos.

O quanto o discurso de ódio propagado como opinião nesse cenário pode endossar pensamentos e comportamentos de pessoas que compactuam com a mesma ideia, mas que só tem medo de demonstrar?

No que muda se essas palavras virem de figuras com peso secular, como padres ou presidentes?

A “voz do povo”

Apesar de o Alabama racialmente segregado nos Estados Unidos da década de 1950 ter abraçado a voz extremamente violenta e racista de Asa Earl Carter, nem mesmo os preconceituosos conseguiram aguentar a intensidade com que o homem pregava o antissemitismo.

Foi assim que também aconteceu em 1938, quando o padre Charles E. Coughlin, simpatizante do nazismo, usou de seu acesso irrestrito às rádios dos Estados Unidos para disseminar a palavra assassina de Adolf Hitler como uma “mensagem católica”.

Com sermões cada vez mais políticos e instrumentalizando a fé, Coughlin alimentou manifestações, campanhas de envio de cartas com causas direitistas e tentou jogar o presidente Franklin Roosevelt contra o povo, chamando-o de “mentiroso e traidor”. Só durante os domingos, mais de 30 milhões americanos paravam para ouvir o que o padre tinha a dizer.

Em 20 de novembro de 1938, ele falou que os judeus eram culpados por serem perseguidos pelos nazistas, que haviam sido tolerantes no surto de selvageria que foi a Noite dos Cristais. Ele usou sua voz para espalhar fake news sobre a extensão do caos que foi aquela noite em Berlim, minimizando os fatos e ainda reforçando que o alvo dos nazistas eram os comunistas, não os judeus.

Diante disso, uma estação de rádio de Nova York rompeu com o padre. “Sua transmissão de domingo foi calculada para incitar conflitos religiosos e raciais na América”, disse uma carta da rádio WMCA. Outras estações de rádio nas cidades de Chicago e Filadélfia também cancelaram o contrato com o homem. O presidente da National Association of Broadcasters (NAB), Neville Miller, disse que as rádios não poderiam tolerar “aquele tipo de abuso de liberdade de expressão”.

Rechaçado

Cínico, Coughlin alegou que foi “mal interpretado” e que tinha intenção apenas de “despertar simpatia pelos cristãos perseguidos por comunistas”. Por outro lado, a imprensa coordenada por Adolf Hitler celebrou o que considerava “hipocrisia americana”, ironizando o país livre e dizendo que os cidadãos não tinham permissão para ouvir a verdade. E foi por isso que turbas de seguidores fanáticos do padre protestaram em frente às estações de rádio.

Roosevelt declarou que, permitir que o rádio se tornasse um meio de propaganda egoísta de qualquer caráter, seria vergonhosamente injusto abusar de um grande agente do serviço público. Ele também ressaltou que a transmissão de rádio deveria ser mantida em uma igualdade de liberdade.

Para a jornalista Dorothy Thompson, Charles Coughlin representava “uma ameaça à democracia com suas falas” e que deveria ser retirado do ar.

A NAB atualizou seu código de conduta estabelecido em 1929 sobre a apresentação justa e imparcial de ambos os lados de questões polêmicas para conseguir lidar com a situação, impedindo que as estações de rádio vendessem tempo no ar para apresentações de pessoas como Charles Coughlin.

Obviamente, o padre alegou que seus direitos estavam sendo violados, embora ele mesmo estivesse violando direitos ao querer disseminar o ódio. No século XIX, os filósofos Karl Popper e John Rawls chamaram isso de “paradoxo da intolerância”, discutindo sobre em qual ponto a tolerância de uma sociedade não deve ameaçar sua própria sobrevivência.

O governo só conseguiu lidar com Coughlin quando os Estados Unidos entraram para a Segunda Guerra Mundial e o Departamento Federal de Investigação (FBI) prendeu 17 de seus seguidores em uma quadrilha envolvida com espiões nazistas. Em um instante, não havia mais espaço para os disparates do padre.

Fonte: https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/119435-charles-coughlin-o-padre-que-apoiou-e-incentivou-o-nazismo.htm

agência de notícias anarquistas-ana

A ponte é um pássaro
de certeiro vôo: sua sombra
perdura na lembrança.

Thiago de Mello

 

[Holanda] Garagem da Polícia é atacada por grupo anarquista

Militantes anarquistas da Holanda assumiram a autoria do ataque que aconteceu no 15 de julho contra uma garagem da polícia, na pequena cidade de Germent, na Holanda. A detonação do dispositivo explosivo-incendiário destruiu ao menos um carro e deixou outros dois seriamente danificados. Os veículos queimados foram encontrados por volta das 4 da madrugada.

O ataque foi assumido pelo grupo que se autodenomina Revolutionary Resistance (RR). Eles surgiram no começo do verão em Amsterdam, assumindo a detonação de outro artefato explosivo  no estacionamento de uma estação de polícia para imigrantes, em 2 de junho. O dispositivo usado foi “uma bomba relógio”. O ataque de Amsterdam foi descrito como uma “ação de solidariedade para devolver a violência ao Estado” e também que era “uma resposta à violência policial contra a classe trabalhadoras durante a pandemia do Covid-19.” De acordo com a declaração, esse é a terceira vez que a RR faz uso desse tipo de ação direta.

Lê-se na nota da RR sobre os ataques em Germent:

Em 5 de julho, por volta das 3h30, nós usamos uma bomba contra carros da polícia em Germent. Nós somos oprimidos, mas não nos vitimizamos, nós agimos, nós utilizamos nosso poder contra a repressão do Estado. Nesse mundo neoliberal, não existe segurança para o proletariado. Então vamos nos assegurar que também não exista lugar seguro para o Estado, nas grandes cidades, nas menores vilas.

Nós agimos em solidariedade com o proletariado sem documentação que está em greve de fome em Bruxelas, Bélgica. Como uma mão armada da classe trabalhadora, nós temos o dever de devolver a violência ao Estado. O proletariado em Bruxelas deve receber seus documentos. Nós chamamos nosso movimento á publicamente expressar mais solidariedade com eles.

O “proletariado sem documentos” mencionado anteriormente se refere aos mais de 200 imigrantes em greve de fome desde 23 de maio, protestando contra seus status de migração e a eminência de serem deportados. A greve de fome está acontecendo em uma igreja e dois prédios universitários. Alguns dos imigrantes vivem no país há mais de uma década, e o relatório especial das Nações Unidas sobre pobreza extrema e direitos humanos expressou sua preocupação com a situação.

Fonte: https://thewannabewonk.substack.com/p/police-motor-pool-firebombed-by-dutch

Tradução > 1984

agência de notícias anarquistas-ana

Agora é inverno
e no mundo uma só cor;
o som do vento.

Matsuo Bashô

[São Paulo-SP] Manifestantes incendeiam estátua de Borba Gato

Neste sábado (24/07), manifestantes incendiaram uma estátua do bandeirante Borba Gato, na Avenida Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. A ação foi assumida pelo grupo Revolução Periférica, que publicou um vídeo do ato nas redes sociais.

Bandeirantes como Borba Gato desbravaram territórios no interior do país e capturaram e escravizaram indígenas e negros. Segundo historiadores, muitos mataram índios em confrontos que acabaram por dizimar etnias. Também estupraram e traficaram mulheres indígenas, além de roubar minas de metais preciosos nos arredores das aldeias, conforme o livro “Vida e Morte do Bandeirante”, de Alcântara Machado.

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/30/colombia-manifestantes-derrubaram-estatua-de-cristovao-colombo-em-barranquilla/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/08/canada-estatua-de-criador-de-escolas-indigenas-e-derrubada-em-toronto/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/07/colombia-indigenas-misak-derrubam-estatua-de-gonzalo-jimenez-de-quesada-em-bogota/

agência de notícias anarquistas-ana

Com o vento frio percebo:
Semanas e semanas
Sem ouvir insetos.

Paulo Franchetti

[Irã] Soheil Arabi foi chamado novamente ao tribunal de Teerã

Por Hasse-Nima Golkar

Após um “novo” caso contra Soheil Arabi, o prisioneiro político anarquista na prisão de Rajaei Shahr em Karaj, a oeste de Teerã, ele é obrigado a se apresentar ao “Tribunal Revolucionário de Teerã” Seção 26 em 26 de julho de 2021. De acordo com sua sentença de prisão anterior, ele deveria ter sido libertado da prisão há dois anos. No entanto, as autoridades prisionais fascistas do Estado Islâmico no Irã não pretendem libertá-lo tão cedo. Porque toda vez que ele se aproxima do fim de sua pena de prisão, eles começam a lançar um “novo” caso inventado contra ele como um obstáculo para sua libertação.

As acusações contra ele em várias ocasiões foram as mesmas: “O insulto ao líder da República Islâmica, reunião e conluio para agir contra a segurança nacional, atividade de propaganda contra o sistema islâmico no ciberespaço por vários relatórios sobre a situação na Grande Prisão de Teerã, declaração de apoio ao levante de protesto popular em novembro de 2019, crítica ao tratamento dispensado aos prisioneiros da autoridade carcerária, em particular contra o dever de supervisão do procurador-adjunto, greve de fome para protestar contra a privação dos direitos dos presos políticos a tratamento médico” etc.

Soheil Arabi havia negado anteriormente todas essas alegações no tribunal. Lá ele havia dito que “não tenho oportunidade de ter acesso à internet aqui na prisão”!

Desde o dia de sua prisão, em 7 de novembro de 2013, ele está privado de folga, mesmo que seja por um único dia. Se outra pena de prisão não for adicionada ao seu caso, ele será libertado da prisão em junho de 2025.

Fonte: https://asranarshism.com/1400/04/27/soheil-arabi-has-been-summoned-again-to-the-court-of-tehran/

Tradução > abobrinha

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/05/08/ira-prisioneiro-anarquista-soheil-arabi-fortemente-espancado-por-guardas-prisionais/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/10/09/ira-preso-anarquista-soheil-arabi-abandona-greve-de-fome/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/10/07/ira-protesto-em-frente-ao-parlamento-do-regime-pela-libertacao-do-prisioneiro-politico-anarquista-soheil-arabi/

agência de notícias anarquistas-ana

passeio de madrugada
os meus sapatos
empapados de orvalho

Rogério Martins

“Caminhei um quarteirão com raiva”: A história de um estudante universitário que protestou em 11 de julho em Cuba

Escrito por Lucas Sansón em 21 de julho, 2021

Esta história começou em San Antonio de los Baños. No domingo 11 de julho, as ruas da cidade acordaram ao grito de “Libertad” (Liberdade). Dias de apagões seguidos foram a gota d’água para aqueles que saíram para protestar contra a situação precária do país.

Os vídeos das manifestações me fizeram saltar por toda a casa. Eu queria estar lá, eu queria experimentar algo assim. Os tremores secundários em Palma Soriano, Alquízar e tantas outras cidades do país me fizeram pensar que logo Havana também se levantaria.

Desta vez eu tinha que estar à altura da ocasião, não podia ficar em casa como no dia 27 de novembro. Eu não me perdoaria se o medo me vencesse de novo. “Nós não temos medo, não temos medo”. Eu me vi em cada uma das pessoas que saíram para protestar.

No exato momento em que tive a confirmação das mobilizações em Havana, me vesti e quis ir para lá, mas minha mãe estava lá para me impedir. Eu ainda me lembro dela chorando. “Sinto muito, mamãe”.

Um carro e em pouco tempo eu estava na Havana Velha. Nenhum dos meus amigos queria se juntar a mim: alguns tinham medo da repressão, outros não estavam dispostos a pagar o preço de fazer suas famílias sofrerem. Eu não os questiono, eu até os entendo. Eu também estava com medo na época e ainda estou.

No caminho para lá, vi caminhões cheios de tropas conhecidos como “boinas negras”. A cidade estava sob cerco. Eu não sabia para que lado caminhar, mas desci. Acabei indo parar no Hotel Packard. O Prado estava vazio. Uma avó gritava com seu neto para sair de lá, para ir para casa, que esses valentões só espancariam os mais jovens.

Quatro jovens passaram na direção oposta, sem dizer uma palavra, balançando uma bandeira M-26-7 pró-governamental. Eles eram tudo o que eu não esperava ver. Um deles eu conhecia, éramos colegas de classe na pré-universidade. Trocamos olhares por alguns segundos. Nunca pensei que o Paseo del Prado pudesse ficar assustador.

Naquele momento um amigo me ligou para me dizer que Díaz-Canel tinha ido à televisão nacional para chamar seus seguidores para enfrentar os protestos e que ele estava encorajando uma guerra civil. “Saia daí, vá para casa”, me disse.

Eu fumei um cigarro. Eu não podia acreditar que Havana não iria se mobilizar. Durante alguns minutos fiquei muito desapontado. Eu andei para trás ao longo de uma rua paralela. Peguei meu ritmo e encontrei uma mobilização impressionante de cubanos que, como em San Antonio de los Baños, estavam gritando “Libertad” (Liberdade).

Pela primeira vez na minha vida, senti-me livre. Também aqui eles gritavam que não tínhamos medo, agora eu poderia dizê-lo também. Há uma coisa que o 11 de julho deixou muito claro para mim: nunca mais quero sentir que não sou livre. Entretanto, escrevo isto usando um pseudônimo. O caminho para a liberdade é um caminho difícil.

A história deixa de ser idílica. Querendo chegar ao Malecón, acabamos engarrafados no Parque Máximo Gómez. Alguns queriam continuar ao longo do Túnel de la Bahía, outros ao longo do Malecón e alguns de volta ao Prado até o Capitólio. Nesta indecisão, a marcha deixou de ser um núcleo compacto. Muitos subiram até a fonte do parque, e até tomaram banho. O cordão policial estava começando a se aproximar. Eles estavam nos cercando. Continuei pensando que fomos tão longe quanto eles queriam que fôssemos. Estou convencido de que muitos policiais com roupas civis entraram em nossa mobilização. Sem perceber, eles nos levaram até esse ponto.

As tropas especiais começaram a nos atacar. Os manifestantes os enfrentaram e evitaram várias detenções, mas a violência estava aumentando. Há um grito que ficou na minha memória: “Levantem suas mãos, os violentos são eles”. Quase todos nós estávamos de mãos no ar. Eles não se importavam, ainda batiam e prendiam.

Quando a massa se dispersou, eu me vi sozinho no meio do parque entre a polícia, “vespas pretas” e homens com paus batendo no chão. O uniforme preto das tropas especiais sempre provocou em mim uma forte imagem visual.

Um capanga veio em minha direção. Eu comecei a correr. Quase colidi com uma boina preta, mas consegui evitá-la, apesar de ter uma boa pancada nas costelas. Estou muito orgulhoso de meu hematoma. Pouco me aconteceu em comparação com os outros que foram reprimidos.

Eu olhei em direção à fonte. As pessoas de lá não eram as mesmas. As Brigadas de Resposta Rápida tinham chegado. Em poucos minutos, e com golpes, eles tomaram a fonte. Ainda não entendo porque algo tão comum como uma fonte era um alvo estratégico para eles.

O parque de repente estava cheio de bandeirinhas. Nossa manifestação tinha se tornado um Primeiro de Maio, com os mesmos velhos slogans, os mesmos velhos gritos, as mesmas bandeiras de sempre.

Saí com meus amigos restantes. Distingui entre as pessoas violentas alguns dos meus colegas da faculdade e meu vizinho do outro lado da rua. Não é meu vizinho, não poderia ser. Na véspera tínhamos nos encontrado em nossas varandas e, enquanto fumávamos, tínhamos nos saudado com nosso afeto habitual. Eu olhei para ele e virei minha cabeça para longe. Eu jamais voltaria a olhar para ele.

Caminhei um quarteirão com raiva. Eu parei, respirei fundo e acendi um cigarro. Um homem, eu acho que um manifestante, me pediu um fósforo. Ele acendeu seu cigarro e me disse: “Viva Cuba libre, irmão”!

*O autor decidiu proteger sua identidade com um pseudônimo para evitar represálias na universidade.

Fonte: https://www.tremendanota.com/camine-una-cuadra-con-rabia-el-relato-de-un-estudiante-universitario-que-protesto-el-11-de-julio-en-cuba/?fbclid=IwAR1pNC3Vou2WP5xrxFXHq44Llo4rPz9GMe-Uq9NsDKpsuqD93rs1DKd-nxc

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/21/cuba-o-fim-do-encantamento-social-da-revolucao/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/16/escrito-de-um-anarquista-cubano-depois-das-manifestacoes-em-cuba/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/15/eua-consideracoes-sobre-a-rebeliao-em-cuba/

agência de notícias anarquistas-ana

cuco dá horas
mas não conta
porque demoras

Carlos Seabra

Político de extrema direita mata imigrante a tiros na Itália

Um político de extrema-direita da Itália foi preso, nesta quarta-feira (21/07), após matar um imigrante a tiros na cidade de Voghera, no norte do país. Massimo Adriatici, membro do partido ultranacionalista Liga e secretário municipal de Segurança, baleou um marroquino de 39 anos, Youns El Boussetaoui, durante uma briga na noite da última terça-feira (20/07).

Segundo as primeiras informações da polícia, a confusão ocorreu em frente a um bar de Voghera, e a vítima, atingida por um tiro no peito à queima-roupa, chegou a ser levada a um hospital, mas não resistiu e faleceu pouco depois. Adriatici foi preso preventivamente em regime domiciliar e responderá a um inquérito por “excesso culposo [quando não há intenção de cometer o crime] de legítima defesa”.

O político se afastou do cargo de secretário de Segurança e diz ter disparado “acidentalmente” após ter sido empurrado no chão pelo marroquino, que tinha antecedentes penais por ameaça, desobediência, evasão, tráfico e por dirigir embriagado e sem documentos.

As circunstâncias exatas do crime, no entanto, ainda estão sendo investigadas. Matteo Salvini, senador da República e secretário federal da Liga, saiu em defesa de Adriatici e disse que a hipótese é de “legítima defesa”. “Vamos esperar antes de condenar uma pessoa de bem que se viu agredida e teria reagido”, declarou Salvini, que frequentemente usa seu perfil no Twitter para acusar imigrantes de crimes ainda não apurados pela Justiça.

Já a deputada do partido antissistema M5S (Movimento 5 Estrelas) Valentina Barzotti afirmou que o incidente ocorrido em Voghera é “inquietante e provoca raiva”. “É inaceitável que um homem desarmado possa perder a vida por um tiro em praça pública, como se estivéssemos no faroeste”, afirmou.

Fonte: agências de notícias

agência de notícias anarquistas-ana

Fina chuva inútil
fundo musical
a flauta casual

Winston

[Itália] Carlo Giuliani

Há 20 anos, entre 19 e 22 de julho de 2001, os dias dramáticos do G8 em Gênova deixaram uma marca permanente na nossa memória com os confrontos e a devastação da cidade, o assassinato de Carlo Giuliani e o ataque na escola Diaz realizado pela polícia. No dia em que Giuliano morreu, eu fiz esta ilustração para “Il Messaggero” (foi distribuída pelo mundo inteiro também pela C&W Syndicate). Um desenho que foi utilizado mais tarde e serviu de inspiração para placas em vários eventos, mas também como uma ideia que foi amplamente apropriada por outros autores.

Art&text by Marco De Angelis

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/21/carlo-giuliani-presente/

agência de notícias anarquistas-ana

estrela cadente
ponto de exclamação
quente

Millôr Fernandes

[Turquia] Informações dos companheiros da DAF sobre os eventos em 20/07

Seis anos atrás, em 20 de julho, 33 revolucionários anarquistas e socialistas foram assassinados em Suruç em um atentado kamikaze do ISIS (Estado Islâmico) em colaboração com o Estado turco. Eles tiveram um sonho. Eles pretendiam reconstruir Kobane, que havia sido destruída pelo ISIS.

Ontem (20/07) estivemos nas ruas, como fazemos todos os anos em homenagem aos nossos 33 companheiros e amigos. O Estado também estava nas ruas com toda a sua força policial. O bairro de Kadıköy foi ocupado pela polícia, que atacou a manifestação. 65 rebeldes, incluindo 10 de nossos companheiros, foram brutalmente presos. A tortura continuou em veículos policiais, hospitais e delegacias. Os policiais jogaram um companheiro nosso da escada, dentro de um hospital.

Esses métodos não nos levarão ao silêncio! O Estado será responsabilizado por cada um de nossos companheiros que foram mortos, torturados e detidos.

Devrimci Anarşist Faaliyet (DAF)

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/07/28/turquia-anarquistas-detidos-em-ato-em-memoria-pelos-seus-companheiros-assassinados-em-suruc/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/07/24/turquia-quando-e-por-que-aconteceu-o-massacre-de-suruc/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/07/20/turquia-atentado-suicida-em-suruc-deixa-31-mortos-entre-eles-dois-anarquistas/

agência de notícias anarquistas-ana

Rosto no vidro
uma criança eterna
olha o vazio

Alphonse Piché

[Grécia] Vídeo | O renascimento da okupação Libertatia

A reconstrução da Libertatia é um grande desafio, não só para nós, mas para todas as pessoas em luta contra qualquer forma de fascismo e capitalismo. Acreditamos que esse processo em si mesmo e o seu êxito final será mais uma prova de que podemos viver e criar sem a interferência do Estado, do Capital e da Autoridade. É uma batalha que tem de ser ganha e será ganha.

>> Veja o vídeo (06:09) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=qjF9P8p_MX0&t=60s

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/22/grecia-tessalonica-ajude-a-reconstruir-a-okupa-libertatia/

agência de notícias anarquistas-ana

sombras pelo muro:
a borboleta passa
seguindo a anciã…

Rosa Clement