Programação da 2ª Feira do Livro Anarquista do ABC

Olá,

É com alegria que divulgamos a programação da 2ª Feira do Livro Anarquista do ABC!

Venha debater, “fanfarrear”, curtir um teatro, comer, fazer arte e zine e conhecer o que já foi lançado de livros, zines e materiais libertários, vai ser bem da hora!!!

A feira acontece no PMMR Projeto Meninos e Meninas de Rua dia 05/07, lugar histórico de resistência e luta do ABC. Com abertura às 11h e última atividade às 18h!

Espaço seguro para crianças!

Confira a programação e venha prestigiar!

P R O G R A M A Ç Ã O

Exposição itinerante: “Ilustrações Libertárias” (Josú Ferropoética)

11 – 12h – Abertura – Vivencia corporal: capoeira com Ju Dendê – Escola Mutungo de capoeira Angola

12h – 13h – Teatro Anônimos apresenta “Gatos Alados” – De Úrsula K. Le Guin

13 – 14h – Oficina 1: Fanzine para todos com Fanzineira Thina Curtis

14 – 15h30 – Oficina 2: Sticker livre com Willie77

15 – 17h – Debate: Existe Política Além do Voto (Anarquismo e as Eleições) com falas Carlão CCS, Júlio Guaitó COLIBRI, Kasa Invisível

16 – 17h – Oficina 3: Para crianças: Pintura Coletiva Josú Ferropoética

17 -17h30 – Apresentação do livro: LÊGERÍN – Caminhos entre Rojava e América Latina com Francis e Natalia Rojda

17 – 18h – Música com Fanfarra Clandestina

18 – 18h30 – ATIVIDADE FINAL – Música com Vicerassonoras

Estarão presentes nesta edição:

Thina Curtis – Willie77 – Arte Estampa – Ateliê Canudos – Nelca/Guarujá Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri – Anônimas – OSL – Organização Socialista Libertaria – Faísca Publicações Libertarias – CCS – Centro de Cultura Social – Biblioteca Terra Livre – Entremares – Rosanegra Ação Direta e Futebol – COLIBRI – Coletivo Libertário Resistência Indígena – UZINAGEM – Kasa Invisível – Disputa da História – MPL – Movimento Passe Livre – Pulsãodescrita – Veganoise – Comida Vegana – Fanfarra Clandestina – Rojda – Grafia História – Quilombo Invisível – Ferropoética – Teia dos Povos

PROJETO MENINOS E MENINAS DE RUA – Rua Jurubatuba, 1610 – São Bernardo do Campo (SP) – Parada Lauro Gomes do Trólebus

Organização : Mix e Carlão/CCS-SP/NELCA – Contato organização: flordeliberdade@gmail.com

agência de notícias anarquistas-ana

bambu quase quieto,
voltado para o poente,
filtrar a luz da tarde

Alaor Chaves

No livro, pesquisador revela memória da luta operária em Santos

Por Flávia Saad | 23/06/2026
 
O projeto que deu vida ao livro ‘Anarquismo & Sindicalismo Em Santos – Volume 1’ não ficou só na pesquisa em Bibliotecas ou Centros Acadêmicos. Membro do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA), Marcolino Jeremias passou mais de 20 anos rastreando documentos raros, cartas e relatos familiares para tentar montar um quadro mais completo possível. O método incluía bater na porta de parentes de antigos sindicalistas, procurando nomes em listas telefônicas. E, em dados simbólicos, frequentar cemitérios em busca de pistas sobre os protagonistas da história santista. Encontrei dados que, muitas vezes, encontrei de fora dos livros didáticos.
 
A publicação reúne, pela primeira vez, fotos que não fazem parte dos Arquivos Públicos e textos inéditos de figuras que ajudaram a construir o sindicalismo local. Além disso, personagens como o médico Dr. Silvério Fontes e seu filho, o poeta Martins Fontes, aparecem lado a lado com operários, líderes sindicais e figuras ligadas ao movimento abolicionista. O livro promete reaparecer discussões sobre a origem das lutas sociais e trabalhistas que marcaram não só o nosso território, mas também o país inteiro.
 
>> Leia o texto na íntegra aqui:
 
https://www.juicysantos.com.br/novo-na-regiao/em-livro-pesquisador-revela-memoria-da-luta-operaria-em-santos/  
 
Conteúdo relacionado:
 
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2026/02/02/lancamento-anarquismo-e-sindicalismo-em-santos-vol-1-de-marcolino-jeremias/  
 
agência de notícias anarquistas-ana
 
A bola baila
o gato nem olha
salta e dico
 
Eugénia Tabosa

Grita gol, engole a fome.

Por ICN – Fenikso Nigra

O estádio lota. A tela acesa. A cerveja — quando dá — esquenta na mesa. O narrador anuncia uma batalha. E milhões de corpos se preparam para viver, por noventa minutos, uma emoção que não é deles.

Grita. Chora. Xinga. Abraça um desconhecido. Sente que venceu. Depois da desliga a televisão e volta para a vida em que perdeu. Perdeu o salário para o aluguel. A comida pelo preço. O corpo para o patrão. As horas para o ônibus. A saúde na fila. O teto para a especulação. A dignidade para um boleto. Mas o tempo ganhou. E isso, aparentemente, deve bastar.

Viva o espetáculo. Viva a camisa. Viva o hino. Viva o patrocinador. Viva a casa de apostas que vende esperança em forma de raspadinha. Viva o banco que financia a transmissão. Viva a marca que vende pertencimento em doze parcelas. Viva o clube-empresa. Viva o milionário correndo no gramado enquanto o trabalhador que o idolatra calcula se comprar gás ou arroz — e descobre que não dá pra comprar os dois.

Gozemos. Gozemos vendo outros correrem. Outros vencerem. Outros levantarem taças que nunca tocarão nossas mãos. Gozemos — porque talvez seja mais suportável gozar com a vitória de um estranho do que enfrentar uma derrota conquistada da própria vida.

Não se trata de condenar o jogo. O problema não é uma bola rolando. O problema é o que faz com ela: uma máquina de capturar raiva e devolvê-la inofensiva, vaziada de direção, dirigida ao vizinho em vez do proprietário.

Você pode odiar o rival com uma intensidade que nunca dirige ao patrão. Pode decorar uma escalada, mas não saber quem é o dono do prédio que aumentou seu aluguel. Pode saber o salário do atacante, mas não o lucro da empresa que te pague uma miséria. Podemos discutir horas sobre impedimento e nunca perguntar por que existe comida destruída enquanto gente passa fome.

Não porque você seja idiota. Mas porque a máquina precisa que você esteja ocupado. O Estado e o capital não querem apenas o seu trabalho. Querem o seu cansaço. Querem a sua atenção. Querem a sua raiva — mas depositada em lugar seguro, num rival de camisa diferente, num bairro do outro lado da cidade, num estranho que tem a mesma conta de luz atrasada que você.

A rivalidade é útil. Ela divide quem deveria se considerar. Ela oferece ao explorado um inimigo lateral — para que ele não enxergue o inimigo que está acima. E acima há poucos. Poucos donos de muita coisa. Acumuladores de terras que não plantam, imóveis que não habitam, alimentos que não vêm, riqueza que não produzem. Parasitas sentadas sobre o trabalho de milhões. Eles não fizeram o pão, mas cobram por ele. Não construíram a casa, mas cobraram por ela. Não geraram a vida — mas decidimos que ela terá preço.

Depois disseram que não há recursos. Não há para acabar com a fome, mas há para salvar o banco. Não é para hospital, mas é para autorização fiscal. Não há para moradia, mas há para condomínio de luxo vazio. Não há para quem dorme na calçada, mas há para a especulação de que mantém a casa fechada por anos enquanto uma família dorme na rua do lado.

Não falta comida. Falta permissão para comer. Não falta teto. Falta permissão para morar. Não falta remédio. Falta dinheiro para pagar pelo direito de não morrer. E quem dá essa permissão? Ó proprietário. Ó banqueiro. A empresa. O Estado — sempre pronto para chamar de crime a necessidade de quem toma de volta aquilo que foi roubado.

A fome é violência. O desespero é violência. O salário que não sustenta uma vida é violência. Uma criança sem atendimento é violência. O corpo que morre na calçada diante de prédios vazios é violência.

Mas chamam de violência quando alguém quebra uma vitrine. A vitrine vale mais que a barriga vazia. A porta do banco vale mais que a família despejada. A propriedade vale mais que a vida — e essa é a religião do capital, pregada com cassete e lei.

Enquanto isso, a transmissão continua. “É emoção até o fim!”, gritou o narrador. Sim. Emoção até o fim do mês. Emoção até o corte de luz. Emoção até o desespero. Emoção até a ambulância não chegar. Emoção até o corpo não aguenta mais.

E então vem o próximo jogo. Mais uma chance de esquecer que uma vida foi transformada em fila, boleto, humilhação e medo. Mais uma chance de vestir a camisa de uma empresa rica e chamar aquilo de identidade. Mais uma chance de sentir que existe um nós — desde que esse nós não exija pão, terra, teto, saúde ou poder real sobre o próprio mundo.

Eles nos dão torcida porque têm medo de organização. Bandeiras do Dão porque têm medo de barricadas. Dão hinos porque têm medo de vozes que perguntam: por que alguns têm tanto enquanto tantos não têm nada?

Não precisamos destruir a alegria. Precisamos arrancá-la das mãos de quem a vende. Precisamos parar de aceitar que nossa única catarse seja gritar para uma tela enquanto a vida é abandonada do lado de fora.

Que haja jogo, se quisermos. Que haja festa, dança, esporte, encontro, paixão. Mas que ninguém tenha de escolher entre assistir a uma final e jantar. Que ninguém morra de fome enquanto um estádio serve banquetes em camarote. Que ninguém seja expulso de casa enquanto prédios apodrecem vazios. Que ninguém trabalhou até quebrar para financiar o luxo de quem chama exploração de mérito.

A autogestão não é utopia. É uma recusa de pedir permissão para existir. Se vamos gritar, que não seja apenas por um gol.

anarkio.net

agência de notícias anarquistas-ana

sob o último sol,
ave beija a face do lago;
o espelho trêmulo se arrepia.

Alaor Chaves

Abalahli BaseMjondolo: Dignidade, Justiça e Liberdade!

Movimentos libertários, horizontais e descentralizados não-europeus existem e existem por todo o mundo. O problema é que muitos pesquisadores e militantes libertárixs não deslocam o olhar para áreas periféricas, além das experiências tradicionais anarquistas europeias.

Abalahli BaseMjondolo é um movimento social sul africano surgido em 2005 que luta por terra, moradia, justiça e dignidade. Na língua zulu, Abalahli BaseMjondolo significa moradores de barracos . É formado por moradores de favelas e barracos de várias cidades da África do Sul.   O AB é um movimento descentralizado, democrático e independente. Não pertence a partidos ou ONG’s.   A sua organização parte dos de baixo para os de cima.

O espaço urbano da África do Sul ainda sofre as sequelas da necropolítica do Apartheid e da segregação urbana. Os moradores de barracos e de favelas vivem ainda em áreas precarizadas e abandonadas cuidados de saneamento básico, proteção, justiça e segurança. Além disso, enfrentam a ganância e a violência de especuladores imobiliários, partidos políticos e militares.

O AB é um dos maiores movimentos sociais nas áreas urbanas do mundo. São cerca de 170 mil membros em diversas cidades do sul da África. Mesmo com este verdadeiro exército popular, o movimento sofre constantes ataques, censuras, prisões, agressões e torturas por parte de inimigos políticos, partidos, empresários e militares. Desde 2005, cerca de 25 representantes do Abalahli BaseMjondolo foram executados. O caso de execução mais recente ocorreu em 29 de maio de 2026. Mokoena Letsie, ativista dos direitos humanos, líder comunitário e ativista pró-Palestina, foi executada em tiros perto da residência.  Além de Letsie foram mortos:

SENZO GUMEDE: Morto em 22 /12/ 2018. Gumede foi baleado e morto por homens armados desconhecidos após ter sido ameaçado anteriormente pelo vereador do distrito do ANC.

ODWA MBANA: Morreu em abril de 2019. Mbana foi morto a tiros após receber várias novidades de membros locais do ANC.

SANDILE DLAMINI: Morto em outubro de 2019. Ele foi agredido até a morte por homens desconhecidos.

XOLANI NDLOVU: Morto em 1º de novembro de 2019. Ndlovu foi morto a tiros por dois atiradores desconhecidos do lado de fora de sua casa em eKhenana.

BHEKI MDLULI : morto em fevereiro de 2020. Mdluli morreu após ser baleado no abdômen. Ele esteve na casa dos 30 anos na época de sua morte.

NKOSINATHI MNGOMEZULU: Faleceu em julho de 2021. Em setembro de 2013, Mngomezulu foi baleado enquanto resistia fisicamente à demolição ilegal de sua cabana. Ele foi baleado quatro vezes no estômago por um agente de segurança da unidade anti-invasão terrestre dos eThekwini. Ele morreu em 2021 devido a complicações médicas relacionadas aos ferimentos sofridos no tiroteio de 2013.

ZAMEKILE SHANGASE: Baleada e morta em frente à sua casa em uma operação ilegal da polícia em 29 de julho de 2021 em Asiyindawo, no assentamento de barracas Madlala perto de Lamontville. 

AYANDA NGILA: Morto em eKhenana em 8 de março de 2022, após ser baleado por um grupo de homens formados ligados à liderança local do ANC. Na época, Ngila era vice-presidente da filial de eKhenana.

SIYABONGA MANQELE: Morto na Ocupação de eNkanini em 12 de março de 2022. Manqele foi baleado na parte de trás da cabeça durante uma operação em eNkanini, na qual sua esposa, Thandeka Sithunsa, foi presa.

NOKUTHULA MABASO: Morto em eKhenana na noite de 5 de maio de 2022. Ela foi baleada sete vezes em frente à sua casa. Ela foi uma líder proeminente na Liga das Mulheres e desempenhou um papel central na defesa da ocupação contra despejos e na manutenção das diversas operações da comuna.

LINDOKUHLE MNGUNI: Morto em eKhenana em 20 de agosto de 2022. Ele foi baleado várias vezes em sua casa após passar meses escondidos. Seu parceiro, Sindiswa Ngcobo, também foi baleado, mas teve sorte de sobreviver. Mnguni escapou por pouco quando Ayanda Ngila foi morta.

JAYDON KHOZA: Morto em 29 de maio de 2017. O bebê Jaydon Khoza tinha duas semanas de idade quando morreu após inalar gás lacrimogêneo em sua casa na Foreman Road. A polícia respondeu a um bloqueio de estrada lançando gás lacrimogêneo no assentamento.

SAMUEL HLOELE : Morto em 13 de junho de 2017. Hloele foi assassinada a tiros em eKukhanyeni, Marinhill. Alega-se que os seus assassinos eram membros da Unidade Anti-Invasão de Terras do Município de eThekwini, que realizaram despejos e dispararam munição real.

SIBONELO: PATRICK MPEKU: Morto em 19 de novembro de 2017 após seu sequestro em 11 de novembro de 2017. Mpeku foi vítima de ameaças feitas por líderes proeminentes da ANC.

SOYISO NKQAYINI: Morto em 17 de dezembro de 2017. Nkqayini foi baleado por um membro desconhecido durante a ocupação de eNkanini em Cato Manor.

SANDILE BIYELA : Morto em 11 de janeiro de 2018. Biyela foi eletrocutada até a morte ao bater em fios elétricos enquanto fugia da polícia, que disparava munição real contra os manifestantes.

S’FISO NGCOBO : Morto em 22 de maio de 2018. Ngcobo foi morto a tiros em sua casa por homens desconhecidos e foi alvo de múltiplas ameaças de morte. S’fiso Ncgobo foi presidente da filial eKukhanyeni Abahlali baseMjondolo em Marianhill. Ele foi um membro altamente respeitado de sua comunidade e lembrado por fundar uma creche em eKukhayeni e por sua liderança.

CHEFE THULANI MJANYELWA : Morto em 26 de agosto de 2018. Ele foi morto por uma multidão que o matou a golpes do lado de fora de sua casa. Thulani Mjanyelwa era o Inkosi de Bizana em Mpondoland, no Cabo Oriental. 

MTHOKOZISI THABANI NDLOVU : Morto em 26 de setembro de 2009 durante a violência que se agita ao ataque ao nosso movimento e ao povo amaMpondo na Kennedy Road por uma música ligada ao ANC. Ele foi esfaqueado até a morte.

NDUMISO THOKOZANI MNGUNI: Morto em 26 de setembro de 2009 durante a violência que se agita ao ataque ao nosso movimento e ao povo amaMpondo na Kennedy Road por uma multidão ligada ao ANC. Ele foi esfaqueado até a morte.

THEMBINKOSI QUMBELO: Morto em 15 de março de 2013, após várias ameaças de morte feitas contra ele. Qumbelo foi baleado por um grupo de 4 homens desconhecidos.

NKULULEKO GWALA: Morto em 26 de junho de 2013 após receber múltiplas ameaças. Gwala foi baleado doze vezes fora de sua cabana em Cato Crest.

NQOBILE NZUZA: Morto em 30 de setembro de 2013 em um bloqueio rodoviário organizado por membros do Abahlali em Cato Crest. Nzuza foi baleado duas vezes pelas costas com munição real por um policial. Nqobile Nzuza era uma garota de 17 anos e apoiadora do Abahlali baseMjondolo.

THULI NDLOVU : Morta em 29 de setembro de 2014. Ndlovu foi baleada sete vezes em sua casa. Ndlovu foi ameaçado por expor corrupção em KwaNdengezi. Dois vereadores do ANC e um assassino de aluguel foram condenados pela morte de Ndlovu. Ela tinha 36 anos quando foi morta.

ISAAC MABIKA : Morto em 6 de fevereiro de 2016 após ser atacado com um machado por um homem desconhecido. Mabika era coordenadora de filial.

Apesar das constantes ameaças e execuções, o Abalahli BaseMjondolo não desiste e segue firme a luta por justiça, dignidade, terra e liberdade! De acordo com o próprio movimento: Honramos cada um de nossos camaradas caídos e nos comprometemos a levar sua luta futura para um mundo onde a dignidade de todos seja respeitada, e a terra, a riqueza e o poder sejam compartilhados de forma justa.

Foto: Nohuthula Mabaso, Thulile Ndlovu e Zamekile Shangase

Fonte: https://abahlali.org/in-memoriam/

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021) , sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025 ), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO ! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

agência de notícias anarquistas-ana

no filme mudo
uma ave que eu cria extinta
está cantando

LeRoy Gorman

Quem é o dono do futebol argentino?

Por 
Nicolás Campisi | 06/11/2026
 
A Copa do Mundo de 1978 é talvez o torneio mais controverso da história do futebol. A Argentina sediou e venceu, mesmo enquanto uma ditadura sangrenta torturava, assassinava e fazia desaparecer mais de 30.000 pessoas. Os críticos ainda questionam a legitimidade do torneio [1]. Quatro anos depois, a Argentina perdeu e perdeu a Guerra das Malvinas/Falklands contra o Reino Unido. E então, na Copa do Mundo de 1986, no México, o argentino Diego Armando Maradona marcou duas vezes contra a Inglaterra nas quartas de final: primeiro com um infame toque de mão que ele chamou de “a mão de Deus”, depois com o que ficou conhecido como “o gol do século”. Para muitos argentinos, uma vitória sobre a Inglaterra representou uma enorme vingança simbólica. O próprio Maradona, em entrevistas ao longo dos anos, falou sobre a vitória no futebol como uma retribuição simbólica pelos jovens recrutas que morreram nas ilhas [2].
 
Esses momentos icônicos revelam uma profunda influência mútua entre futebol e política na Argentina. A interação entre política e futebol é examinada em dois livros recentes, que exploram como o futebol argentino teve origem em associações cívicas e na ideologia anarquista. 
The Creation of Modern Buenos Aires: Football, Civic Associations, Barrios, and Politics, 1912-1943 , de Joel Horowitz, documenta como os bairros e as instituições cívicas da cidade desempenho espaços de comunidade e identidade entre os moradores de uma metrópole em rápido crescimento. 
Argentina, um conto de duas utopias: anarquismo, futebol, neoliberalismo , de Tomás Rothaus, alterna entre análise histórica e crônica pessoal, mostrando como o futebol se tornou inseparável do imaginário ideológico da Argentina moderna.
 
Esses dois livros nos ajudam a enfrentar uma questão fundamental: o que é um clube de futebol na Argentina? É um bem cívico comum enraizado no bairro ou uma marca de entretenimento comercial? Horowitz demonstra que os clubes emergiram como instituições de sociabilidade e ajuda mútua, ao mesmo tempo que mediaram o poder político na formação da Buenos Aires moderna. Rothaus revela as energias radicais que moldaram suas histórias, incluindo a resistência anarquista, a solidariedade imigrante e a organização antifascista. Juntos, esses livros mostram que o futebol nunca esteve separado da política argentina. Em vez disso, serviu como uma das principais arenas através das quais a nação escolheu para se definir.
 
Desde os seus primórdios, os clubes de futebol argentinos funcionaram como associações cívicas intrinsecamente ligadas à vida política. De fato, esse é um dos quatro tipos de associações cívicas que moldaram a cultura da capital argentina, como Horowitz documenta em A Criação da Buenos Aires Moderna. Além dos clubes de futebol, Horowitz examina as bibliotecas populares, as sociedades de fomento (sociedades de fomento que promoviam melhorias materiais nos bairros) e as universidades populares (universidades populares que educavam trabalhadores).
 
O livro se concentra no período entre 1912 e 1943. Em 1912, foi aprovada a lei de reforma eleitoral Sáenz Peña, que tornou o voto masculino secreto e obrigatório. Essa reforma forçou os políticos a cultivar o apoio dos diferentes bairros da cidade, marcando o período pós-1912 como o início da política argentina moderna. Políticos e associações civis formaram relações mutuamente benéficas: os políticos ofereciam recursos estatais para infraestrutura e financiamento em troca do apoio local necessário para construir coalizões políticas de massa. Em 1943, um golpe militar depôs o governo argentino, naquele que é amplamente considerado o ano de nascimento do peronismo, movimento liderado por Juan Domingo Perón. Horowitz encerra sua obra nesse ponto crucial porque a ascensão do peronismo inaugurou um Estado maior, que absorveria muitas das funções anteriormente desempenhadas pelas associações civis.
 
Durante esse período, a cidade expandiu-se devido à chegada de imigrantes. As pessoas desfrutavam de mais tempo livre, graças à codificação legal da jornada de trabalho de oito horas e do sábado de meio expediente. Os índices de alfabetização cresceram exponencialmente. E as associações cívicas proporcionavam o que Horowitz chama de “senso de pertencimento” aos diferentes bairros. Os bairros também abrangiam outros locais de convívio social, como cafés, cinemas e teatros. Horowitz desenterra canções de tango desse período que refletiam o senso de comunidade gerado pelos clubes de futebol, incluindo cerca de 25 tangos dedicados apenas ao Club Atlético San Lorenzo de Almagro.
 
Entre as instituições mais importantes que deram identidade aos bairros estavam os clubes de futebol. No relato de Horowitz, esse senso de pertencimento era tão forte em alguns bairros que os moradores que torciam para clubes rivais às vezes eram expulsos do bairro. Horowitz escolhe deliberadamente a palavra espanhola “barrio” em vez da palavra inglesa “neighborhood” (vizinhança) e usa “football” (futebol) em vez do equivalente americano, “soccer” (soccer).
 
Essa escolha ressalta a importância do bairro na criação do futebol moderno na Argentina, já que foi nos bairros de Buenos Aires que o esporte adquiriu sua identidade nacional peculiar. Como Eduardo Archetti demonstrou, o estilo moderno de futebol argentino — chamado la nuestra, ou “nosso estilo” — nasceu nos terrenos baldios da cidade em modernização: os chamados potreros, ou terrenos de terra batida, onde as crianças brincavam. Segundo Archetti, “o estilo de la nuestra [era] uma expressão de virtudes relacionadas à infância: inocência, criatividade, ternura e o picaresco” [3].
 
Nos últimos anos, clubes proliferaram pela cidade, criados principalmente por jovens que queriam representar seu bairro. Muitos desses clubes desapareceram; os que sobreviveram o fizeram graças a uma combinação de sucesso esportivo e capacidade organizacional. Na época, um dos seus maiores desafios era garantir terrenos para os jogos, uma luta exemplificada pela rivalidade entre dois clubes: Boca Juniors e River Plate. Ambos os clubes foram fundados no bairro portuário de La Boca, mas em 1906 o Ministério da Agricultura expulsou o River Plate por jogar em um terreno que não controlava. O que se seguiu foi uma migração que durou décadas pela cidade. O River primeiro se mudou para a divisa entre Recoleta e Palermo e, em 1934, comprou um terreno na divisa entre Belgrano e Núñez (local do atual Estádio Monumental, inaugurado em 1938). O estádio do River Plate está passando por reformas para ampliar sua capacidade para 101.000 lugares, tornando-se o segundo maior estádio de clubes do mundo.
 
O San Lorenzo de Almagro exemplifica a história turbulenta dos clubes argentinos e sua luta constante por um espaço estável para jogar. Segundo a tradição do clube, o padre salesiano Lorenzo Massa o fundou após presenciar crianças brincando na rua quase sendo atropeladas por um bonde; ele providenciou um campo e apoio contínuo para elas. O estádio original do clube, o Gasómetro, foi inaugurado em 1916 na Avenida La Plata. Em 1979, no entanto, a pressão municipal e a vulnerabilidade financeira durante a ditadura forçaram seu fechamento. O terreno foi reurbanizado para uso comercial, deslocando o clube para Bajo Flores, onde o Nuevo Gasómetro foi inaugurado em 1993. Duas décadas depois, o movimento de torcedores La Vuelta a Boedo pressionou com sucesso a Assembleia Legislativa da Cidade de Buenos Aires para aprovar a Lei de Restituição Histórica em 2012. Essa legislação permitiu que o clube negociasse a recuperação do terreno da Avenida La Plata com o Carrefour (a rede francesa de supermercados) e obtivesse as aprovações de rezoneamento para um novo estádio do Boedo em seu terreno histórico.
 
Como Horowitz demonstra, os clubes de futebol estavam envolvidos com a comunidade muito além do próprio futebol. Esses clubes proporcionavam espaços de convívio e fortalecimento da identidade local. Promoviam palestras com intelectuais importantes da época, organizavam bailes e acampamentos de verão e ofereciam aulas, incluindo aulas de culinária com Dona Petrona, autora do icônico livro de receitas argentino. A percepção crucial de Horowitz reside em enxergar os clubes de futebol como pertencentes ao que ele chama de “galáxia de instituições que melhoraram” a vida das pessoas durante esse período.
 
A politização dos clubes de futebol, como demonstra Horowitz, intensificou-se durante os anos de Perón e continua até hoje. Atualmente, carreiras políticas são lançadas a partir de clubes de futebol argentinos. O exemplo mais notório é o de Mauricio Macri, que transformou sua liderança no Boca Juniors em uma carreira política, atuando como prefeito de Buenos Aires (2007-2015) e, posteriormente, como presidente da Argentina (2015-2019).
 
Mas essa relação entre clubes e política é de mão dupla. Como o próximo livro demonstra, os clubes não apenas construíram o status quo. Simultaneamente, eles também serviram como bastiões de resistência ao poder dominante.
 
Ao narrar as origens imigrantes de muitos clubes de futebol e traçar seu desenvolvimento como clubes sociais e esportivos, o livro Argentina, a Tale of Two Utopias: Anarchism, Soccer, Neoliberalism, de Tomás Rothaus, ilumina uma conexão crucial entre anarquismo e futebol na Argentina. O anarquismo tem uma história sólida na Argentina. Apesar de sua marginalização na cultura contemporânea, um destino compartilhado por grande parte do mundo, o país ainda ostenta a publicação anarquista mais antiga do mundo, a revista La Protesta. Rothaus demonstra que a maioria dos clubes ainda existentes hoje foram fundados na primeira década do século XX, um período em que o anarquismo exercia maior influência na cultura e na política argentinas, com muitos desses clubes abraçando abertamente os princípios anarquistas tanto em suas estruturas organizacionais quanto em seu espírito.
 
Rothaus nos leva à província de Salta, onde o primeiro clube anarquista do país, o Club Atlético Libertad (Clube Atlético Libertad), foi fundado em 1901. O clube servia tanto como espaço esportivo quanto como ponto de encontro para sindicalização. Os clubes anarquistas são frequentemente reconhecidos por suas cores vermelha e preta. Exemplos incluem o Chacarita Juniors (nascido em 1906 em uma biblioteca anarquista) e o Defensores de Belgrano (localizado em frente à infame ESMA, a Escola Superior de Mecânica da Marinha, que serviu como centro de assassinatos e tortura durante a última ditadura militar).
 
Através de Rothaus, aprendemos que o autor do “gol do século”, Diego Armando Maradona, também tem ligações com o passado anarquista da Argentina. O primeiro clube de Maradona, Argentinos Juniors, foi formado pela fusão de dois clubes mais antigos, incluindo o Mártires de Chicago, cujo nome homenageava as vítimas do Massacre de Haymarket, o atentado a bomba contra uma manifestação trabalhista em 1886. O clube resultante da fusão escolheu um novo nome, Argentinos Juniors, para desviar a atenção de uma possível repressão. No entanto, Rothaus sugere que as iniciais do clube (AAAJ) podem ter contido uma mensagem subliminar: “Adelante Anarquistas Avancemos Juntos” (Avante, Anarquistas, Avancemos Juntos). Essa mensagem anarquista parece prefigurar o ativismo político posterior de Maradona.
 
Rothaus também documenta clubes forçados a mudar de nome sob pressão do governo, da polícia ou de empregadores. O Libertarios Unidos, por exemplo, foi obrigado a se tornar Club Atlético Colegiales depois que o Coronel Ramón Falcón, o notório chefe de polícia que perseguia e assassinava anarquistas, “sugeriu” que o clube o fizesse. Falcón foi posteriormente assassinado pelo anarquista Simón Radowitzky em vingança pelo massacre de trabalhadores pela polícia durante a Semana Vermelha de 1909. Em outro caso, o Club Atlético Germinal, cujo nome foi inspirado no romance de Émile Zola sobre uma greve de mineiros de carvão e fundado por trabalhadores de campos petrolíferos, enfrentou uma escolha difícil imposta pelo administrador do campo: mudar de nome ou se dissolver.
 
Tal repressão parecia coisa do passado em dezembro de 2001, quando as duas utopias anunciadas no título do livro de Rothaus se materializaram. A primeira era uma utopia política: a queda do governo do presidente argentino Fernando de la Rúa. Uma “revolução social” levou as pessoas às ruas para protestar contra o congelamento de suas contas bancárias e exigir justiça. A segunda era “a outra utopia”, a do futebol. O clube de infância de Rothaus, o Racing Club de Avellaneda, estava prestes a conquistar o campeonato argentino pela primeira vez em 35 anos. A partida final do campeonato foi disputada uma semana após os protestos massivos em todo o país que derrubaram o governo.
 
O livro, portanto, narra uma jornada dupla. A primeira é o despertar do autor para a ideologia anarquista. Essa jornada o levou a um dos espaços analisados ​​por Horowitz em seu livro: uma biblioteca popular. Na Biblioteca Popular José Ingenieros, ele encontrou uma comunidade unida que compartilhava seus valores anarquistas. Através da narrativa hábil de Rothaus, começamos a perceber o anarquismo permeando muitos elementos da cultura argentina. O sindicato anarquista dos padeiros dava nomes irreverentes aos produtos de panificação para zombar da polícia e das instituições religiosas. Mais importante para o livro de Rothaus, diversos clubes de futebol ainda existentes têm origens anarquistas.
 
A segunda jornada é a paixão de Rothaus pelo futebol, torcendo por dois clubes: o Racing Club de Avellaneda, clube pelo qual cresceu, e o Club Atlético Atlanta, clube do seu bairro, associado à comunidade judaica de Villa Crespo. É comum que os torcedores argentinos apoiem um clube da primeira divisão e tenham um segundo clube nas divisões inferiores, geralmente o do bairro onde cresceram. Rothaus se encaixa nesse padrão, embora sua relação com o segundo clube seja mais profunda do que a da maioria.
 
A história de Rothaus se destaca pela forma como a adversidade fortaleceu seu vínculo com o Club Atlético Atlanta, desde a falência do clube em 1991 até suas batalhas contra o antissemitismo por parte de torcedores rivais. Raanan Rein argumenta, em um livro dedicado ao Club Atlético Atlanta, que para muitos judeus que participavam da vida social do clube, Atlanta “confirmou uma identidade judaica significativa e os ajudou a obter integração e aceitação social”, embora observe que a percepção do clube como exclusivamente judaico geralmente é imposta por torcedores rivais [4]. Rothaus narra episódios em que presenciou bandeiras com suásticas e cânticos em louvor a Hitler durante jogos do Atlanta, e atribui à resposta do clube a esses episódios o aprendizado de “lições práticas de antifascismo”. A extensa coleção de fotografias do livro oferece uma jornada visual pelas duas paixões do autor, incluindo uma imagem particularmente impactante de jornal: a bota de um policial pressionada contra seu pescoço.
 
A década de 1990 foi turbulenta para os clubes de futebol argentinos, não se limitando apenas a Atlanta. O Racing, outro clube de Rothaus, enfrentou dificuldades financeiras que levaram seus administradores a declarar o encerramento das atividades e a sua colocação em leilão, em meio a suspeitas de que seu presidente, Daniel Lalín, desejava privatizá-lo e se tornar seu proprietário. A pressão popular dos torcedores obrigou o Congresso a aprovar uma lei que protegia clubes como o Racing da falência.
 
Esse episódio ainda estava fresco na memória dos torcedores do Racing Club quando o clube se sagrou campeão argentino em 2001. A coincidência de datas é notável: na mesma semana em que o Racing, clube que havia saído recentemente da falência, conquistou o campeonato argentino, o país inteiro entrou em colapso, com os governos provinciais emitindo diversas cuasimonedas (quase-moedas), títulos destinados a funcionar como dinheiro em espécie para combater a desvalorização do peso argentino.
 
A narrativa é emoldurada por dois dezembros — 2001 e 2022 — quando mobilizações em massa irromperam por toda a Argentina. A repressão começou na quinta-feira, 20 de dezembro de 2001, quando a polícia atacou manifestantes na Praça de Maio, uma data carregada de simbolismo: as quintas-feiras são os dias em que as Avós da Praça de Maio realizam sua tradicional marcha circular em busca de justiça pelo desaparecimento de seus familiares. Durante a revolta popular, Rothaus participou dos esforços para substituir a bandeira argentina na Casa Rosada (o palácio presidencial) pela bandeira vermelha e preta do movimento anarquista, acreditando que o fim da ordem neoliberal (e o fim da história) estava a apenas “uma faísca de distância”. Uma semana depois, Rothaus e torcedores do Racing Club retornaram à mesma praça para agitar a bandeira do clube, que compartilha as cores azul-celeste e branca da Argentina, criando um momento de alegria coletiva que parecia evocar os fantasmas da recente violência socioeconômica. O livro termina com Rothaus e mais de cinco milhões de pessoas tomando as ruas de Buenos Aires em 20 de dezembro de 2022, exatamente 21 anos após as manifestações massivas durante a crise socioeconômica do país, para celebrar o triunfo da Argentina na Copa do Mundo do Catar.
 
A celebração de 2022 cristaliza uma tensão que permeia todo o livro: o conflito entre duas utopias, a social e a futebolística. Os anarquistas do início do século XX acreditavam que o futebol e o carnaval (duas das paixões populares da Argentina) distraíam os trabalhadores do desenvolvimento da consciência de classe, e Rothaus identifica essa mesma tensão na Argentina contemporânea. O país é pioneiro em questões sociais como os direitos reprodutivos, mas não boicotou a Copa do Mundo do Catar, mesmo com a grande presença de argentinos no país.
 
A Copa do Mundo do Catar foi envolta em controvérsia. Houve ampla cobertura jornalística sobre o tratamento dado aos trabalhadores migrantes que construíram estádios e infraestrutura sob o sistema de patrocínio kafala. Os relatos documentaram condições inseguras, roubo de salários e mortes. As leis do Catar criminalizam as relações entre pessoas do mesmo sexo e impõem restrições mais amplas à expressão LGBTQ+. Acadêmicos e ONGs argumentaram que o Catar estava usando o evento para lavar sua imagem internacional por meio do que chamam de “sportswashing”.
 
Além disso, em dezembro de 2022, enquanto a Argentina conquistava a Copa do Mundo, o país vivenciava uma taxa de pobreza de 50% e hiperinflação. Era um paradoxo argentino familiar: a euforia coletiva pelo futebol em meio à devastação econômica. Rothaus está bem ciente das limitações dos torcedores que vão às ruas sem consciência de classe, e não simpatiza com os jogadores de sua seleção, a quem chama de “mercenários”. Mesmo assim, ele não resiste à tentação de viajar para o Catar com a família e participar das comemorações nas ruas de Buenos Aires.
 
As tensões entre suas simpatias anarquistas e futebolísticas podem encontrar reconciliação nas raízes do futebol nas associações cívicas do país. Para Rothaus, essa reconciliação se manifesta no senso de comunidade que ele sente ao assistir a jogos de futebol ou comemorar as vitórias de seu clube nas ruas, bem como em seu ativismo com organizações sociais, assembleias de bairro e grupos de ajuda mútua e solidariedade que se cruzam com as instituições do futebol até hoje.
 
No momento em que este texto foi escrito, o presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA), Claudio “Chiqui” Tapia, está envolvido em múltiplos escândalos. Tapia enfrenta acusações de sonegação fiscal por meio de uma empresa de patrocínio (Sur Finanzas), enquanto simultaneamente lida com a pressão do governo de Javier Milei para privatizar o futebol argentino: uma reforma que desmantelaria mais de um século de propriedade comunitária, personificada no modelo de associação civil. Além disso, há preocupações generalizadas sobre decisões de arbitragem que beneficiam desproporcionalmente equipes ligadas ao poder da AFA, especialmente o Barracas Central, clube do qual Tapia ainda é presidente.
 
Os livros de Horowitz e Rothaus esclarecem o que está em jogo nessas disputas, revelando o quão profundamente o futebol e o poder político local permanecem interligados. O caso de Tapia é instrutivo. Sua experiência como varredor de ruas lhe proporcionou acesso à Camioneros, o sindicato dos caminhoneiros argentinos, e à CEAMSE, a empresa estatal de gestão de resíduos. Ele ascendeu em ambas as instituições, construindo a base de poder que o impulsionou à liderança no futebol.
 
O modelo de filiação da AFA é baseado em associações civis sem fins lucrativos (clubes de sócios), mas esse status enfrenta crescente pressão de tecnocratas e políticos que buscam a privatização. Milei, o atual presidente argentino, argumenta que os clubes deveriam poder adotar uma forma corporativa com fins lucrativos (Sociedad Anónima Deportiva, ou SAD) para atrair capital privado e modernizar o que ele considera uma economia ineficiente no futebol. Para a AFA, no entanto, a exigência de admitir clubes SAD representa uma interferência excessiva do Estado na governança do futebol e no direito dos clubes à auto-organização.
 
Juntos, estes dois livros lançam luz sobre o futebol como uma das instituições cívicas mais duradouras da Argentina. Por mais de um século, o futebol personificou as contradições da vida urbana moderna, dividido entre as demandas conflitantes da comunidade e do comércio. À medida que o governo de Milei impulsiona a privatização, os clubes que anarquistas e imigrantes construíram há mais de um século enfrentam uma luta que redefinirá o significado do futebol na Argentina.
 
[1] Durante uma visita ao Museu do Futebol de São Paulo, alguns anos atrás, parei-me com uma exposição sobre a história da Copa do Mundo que descrevia a vitória da Argentina em 1986 como “o primeiro campeonato mundial legítimo” conquistado pelo país. Como argentino, interpretei isso como uma provocação velada de nossas maiores rivais no futebol, questionando implicitamente a legitimidade do torneio de 1978.
[2] Para a reformulação retrospectiva de Maradona dos significados simbólicos da partida, consulte Andrés Burgo, El partido: Argentina–Inglaterra 1986 (Tusquets Editores, 2016) e Diego Armando Maradona (com Daniel Arcucci e Ernesto Cherquis Bialo), Yo soy el Diego (Planeta, 2000).
[3] Eduardo P. Archetti, Masculinidades: Futebol, Polo e Tango na Argentina (Routledge, 2020), p. 173.
[4] Raanan Rein, Futebol, Judeus e a Formação da Argentina, trad. Martha Grenzeback (Stanford University Press, 2015), p. 9.
 
Fonte: 
https://blog.pmpress.org/2026/06/22/who-owns-argentine-football/
 
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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/04/23/argentina-argentinos-juniors-anarquistas-socialistas-e-solidarios/
 
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Vultos
Cegos da Cisco
No olho da rua.
 
André Vallias

[Grécia] A greve de fome de Aristótelis Chantzis e Suzon Doppagne terminou


“Consideramos a luta vitoriosa”, declara a Comunidade de Ocupação Prosfygika.

 
Após uma intervenção estratégica do prefeito de Atenas, Haris Doukas, para solicitar o início imediato do diálogo entre a região da Ática e a comunidade de refugiados (Ocupação Prosfygika), a greve de fome de Aristótelis Chantzis e Suzon Doppagne chegou ao fim.
 
Especificamente, a resolução em questão exige uma garantia de moradia para as 400 pessoas que residem em Prosfygika há muitos anos, recomendando também a restauração dos edifícios, preservando as suas características históricas.
 
Por sua vez, membros da Comunidade de Ocupação Prosfygika, durante o ato de solidariedade na Praça Syntagma, em Atenas, nesta quarta-feira (24/06) declararam que, após conversas com os grevistas de fome, foi decidido encerrar a greve e que a luta continuará por outros meios.
 
“Consideramos uma luta vitoriosa, uma onda de resistência popular que conseguiu formar uma frente ampla e abrangente contra a política da morte”, destacaram.
 
A resolução segura da Prefeitura de Atenas
 
Cabe destacar que a iniciativa do prefeito de Atenas, Haris Doukas, de solicitar o início imediato do diálogo entre a Região da Ática e a comunidade de refugiados desempenhou um papel decisivo. Nesse contexto, ele propôs uma emissão de uma resolução pela Prefeitura de Atenas, solicitando à Região a implementação do acordo programático e, ao mesmo tempo, apelando à comunidade de refugiados para que suspendesse uma greve de fome.
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Na casca amarela
se oferecer em vão a goiaba:
tantos bem-te-vis…
 
Aníbal Beça

O recrudescimento da barbárie

Enquanto o mundo assiste, estarrecido, aos recordes anuais de gastos militares – ultrapassando os 2,24 trilhões de dólares em 2022, segundo o SIPRI, com alto real de 3,7% –, o que vemos é a face mais crua do capital em sua fase terminal. Longe de qualquer necessidade de defesa legítima, essa escalada belicista, acelerada pela guerra na Ucrânia e pelas feitas no Oriente Médio, serve apenas para escorar um sistema em frangalhos. A militarização não é resposta a ameaças externas: é uma válvula de escape para crises de superacumulação. Tanques, drones e mísseis são a forma mais violenta de escoar o excesso de capital que não consegue mais se reproduzir na esfera produtiva, desviando a fúria da classe trabalhadora para inimigos imaginários – enquanto o verdadeiro inimigo, o Estado corporativo, segue armado até os dentes.

Por trás de cada contrato bilionário de blindados ou sistemas antiaéreos, há uma chávena de sangue e lucro: as gigantes da indústria bélica – Lockheed Martin, Raytheon, BAE Systems – tiveram os seus lucros aumentados em mais de 25% no último ano, ao mesmo tempo que cortaram impostos e investiram estatais. O Estado, longe de ser um julgado neutro, atua como o maior gestor de negócios da morte, garantindo que a “segurança nacional” seja um eufemismo para o assalto ao orçamento público. Enquanto os hospitais fecham, as moradias populares são sucateadas e a fome avança, o Banco Central Europeu e o Pentágono encontram palavras para porta-aviões e ogivas. Não é defesa: é a lógica do capital vampirizando cada centavo do trabalho social para perpetuar sua dominação através do terror institucionalizado.

Mas a militarização mundial não corrói apenas nossos bolsos – ela estupra a própria possibilidade de vida comunitária. Cada soldado treinado para matar é um companheiro arrancado de suas redes de afeto; cada base militar instalada é um território roubado da agricultura camponesa ou dos biomas, como vemos na expansão da OTAN sobre reservas naturais na Romênia e na Polônia. Os dados são estarrecedores: o setor militar é responsável por cerca de 5,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, mais que a aviação civil e o transporte marítimo somados. Exércitos não defendem o planeta: eles se preparam para a aniquilação. A chamada “paz armada” é a maior mentira do século XXI, pois sob o manto da dissuasão, o que se pratica é a normalização da violência como política – e a violência, como bem sabemos, sempre cai primeiro sobre os ombros dos mais pobres, negros, indígenas e periféricos.

Diante disso, a resposta anarquista não pode ser uma reforma tímida ou um apelo à “desmilitarização negociada” dentro das câmaras do poder. Uma alternativa é a desobediência radical: recusa ao serviço militar, sabotagem às cadeias logísticas da morte, ocupação de fábricas de armamentos e construção de redes horizontais de autodefesa popular. Não queremos mais orçamentos participativos para polícias – queremos a extinção de toda postura armada que se arvora em nos proteger. Que venham às assembleias de bairro, aos mutirões de cuidado mútuo, às milícias populares desarmadas e organizadas por cobertura. Enquanto o capital e o Estado dançam a valsa dos mísseis, nós cavaremos trincheiras na solidariedade – porque a única guerra justa é a que destruir, de uma vez por todas, a lógica de que a vida se mede pela capacidade de matar.

A., uma anarquista filiada à FACA.

Federação Anarquista Capixaba – FACA

federacaocapixaba.noblogs.org

fedca@riseup.net

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Nesta fria noite
Dorme no fundo do tan
A Lua encurvada.

Mary Leiko Fukai Terada

[Grécia] O estado de saúde de Aristóteles Chantzis piora ainda mais com complicações

Comunicado dos médicos do hospital que acompanham seu estado de saúde, 24/06/2026
 
O grevista de fome, membro e morador da Comunidade de Ocupação Prosfygika, está hospitalizado devido a uma encefalopatia de Wernicke aguda, com diplopia e marcha atáxica, apresentando também distúrbios eletrolíticos graves que predispõem a arritmias com risco de vida.
 
Seu estado de saúde permanece extremamente crítico, com episódios hipoglicêmicos muito graves e persistentes, e devido a um distúrbio de deglutição causado por fraqueza muscular, ele apresentou aspiração para o sistema respiratório e hipóxia.
 
A fraqueza muscular generalizada e grave também afetou os músculos respiratórios e os músculos da face e dos olhos.
 
Ele recebe broncodilatadores inalatórios e oxigênio por meio de cânula (cateter) nasal.
 
A condição é muito grave e está em constante agravamento, enquanto as complicações contínuas se tornam potencialmente fatais.
 
O cumprimento imediato da competência equivale a uma sentença de morte.
 
Argyris Stouras, Diretor de Patologia do Hospital G. Gennimatas
 
George Vatides, patologista intensivista especializado, da equipe de monitoramento regular do grevista de fome.
 
As reivindicações desta greve de fome são:
 
• CANCELAMENTO IMEDIATO DO CONTRATO PELA REGIÃO DE ÁTICA.
• TODOS OS MORADORES DE PROSFYGIKA DEVEM PERMANECER EM SUAS CASAS, NO LOCAL E NA ÁREA ONDE MORARAM E ONDE ESTABELECERAM VÍNCULOS SOCIAIS, CULTURAIS E ORGÂNICOS.
• GARANTIAS CONCRETAS PARA A RESTAURAÇÃO DE PROSFYGIKA PELA ONG DE DIREITO CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS “KATOIKOI KAI FILOI PROSFYGIKON L. ALEXANDRAS”, COM SEU PRÓPRIO FINANCIAMENTO! – NENHUM FUNDO PÚBLICO DEVE SER USADO PARA A “REABILITAÇÃO” DE PROSFYGIKA!
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
Broca no bambu
deixa furos de flauta.
O vento faz música.
 
Aníbal Beça

[Itália] Cantar histórias: Alessio Lega em concerto com Rocco Marchi

Sábado, 27 de junho

no Teatrofficina Refugio

às 21h30

Cantar histórias

Alessio Lega em concerto com Rocco Marchi

a partir das 20h, jantar

evento organizado pela

Federação Anarquista de Livorno

Uma noite com Alessio Lega para cantar histórias de amor e de anarquia, histórias que a história tentou esmagar, mas não conseguiu; histórias de personagens improváveis ​​que nunca desistiram; histórias que escapam ao controle; histórias de loucos e de migrantes; histórias daquelas que fogem das fronteiras dos Estados e dos gêneros. E, depois, a nossa história, coletiva, a das lutas às quais as canções anarquistas deram fôlego, a das revoluções firmemente em nossas mãos, como na Espanha, a de uma utopia que ainda se torna história.

colettivoanarchico.noblogs.org

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Não pude imaginar
Esse tigre invisível
Que vês em meu nariz

Jeanne Painchaud

[Espanha] Símbolo Anarquista: entre o irracional e o racional

Por Simón Royo Hernández

O anarquismo clássico do século XIX foi eminentemente racionalista e moderno. Na era da luta contra o Trono e o Altar, contra reis e Papas, contra a Igreja e o Estado em sua forma ainda medieval, os anarquistas adotaram o pensamento mais avançado e certeiro para combater tais abominações. A associação com liberais e socialistas para derrubar os aristocratas era, então, compreensível. Mas, após um século XX no qual, pela parte liberal, o capitalismo foi entronizado e, pela parte socialista, deu-se lugar ao socialismo autoritário, revelando-se durante o século XXI como os sonhos da razão criam monstros, o anarquismo contemporâneo acolhe tanto o racional quanto o irracional, a totalidade da experiência humana, como terreno a partir do qual lutar contra toda dominação.

Essa deriva do pensamento anárquico contemporâneo em direção a formas mistas de raciocínio intuitivo ao mesmo tempo que de pensamento conceitual e científico, impulsionada pela integração das críticas à Modernidade do pós-estruturalismo que vieram a ser denominadas pós-modernas, levou a que os nostálgicos do anarquismo clássico protestassem com veemência, querendo ancorar uma tradição e praticar uma forma de anarquia monolítica e própria dos séculos passados.

O pós-anarquismo, ou a ontologia anárquica, não pretende negar nada do pensamento de Bakunin, Kropotkin, Proudhon e outros clássicos que são tidos em conta em sua integridade, mas sim atualizá-los, vinculando-os a pensadores contemporâneos de talante anárquico que manifestaram e propuseram teses relevantes para a evolução, o desenvolvimento e a implementação prática do anarquismo.

Ir de Reiner Schürmann a David Graeber, passando por Giorgio Agamben ou Cornelius Castoriadis, por Jacques Rancière ou Gilles Deleuze, Michel Foucault ou Jacques Derrida, como fizeram pensadores contemporâneos como Catherine Malabou, Donatella Di Cesare, Andityas Matos, Miguel Abensour, Tomás Calvo, Jordi Carmona ou nós mesmos, somente pode enriquecer o anarquismo clássico, acrescentando uma virada anárquica ao pensamento contemporâneo que se conecte e favoreça o anarquismo político, anquilosado e sobrecarregado pelo passado.

A partir de um posicionamento filosófico anarquista contemporâneo, no entanto, o passado está cheio de anarquia a ser reivindicada, e uma história da filosofia anárquica torna-se indispensável, uma contra-história que impugna o relato da Modernidade e que nos faz ver a anarquia posta em prática em lugares e épocas nos quais havia sido silenciada.

Da mesma forma, está claro hoje em dia que o anarquismo e a anarquia não são mais algo tão específico do proletariado, classe social esmaecida pela crença de que grande parte das populações dos países chamados mais desenvolvidos seriam “classe média”, embora continuem sendo assalariados e força de trabalho, de modo que “proletariado” já não está claro a qual grupo social designa e, se designa os que trabalham com as mãos no campo e na indústria, essa denominação não integraria hoje em dia os milhões de trabalhadores do setor de serviços, quase inexistente na época de Bakunin, escriturários, técnicos, trabalhadores online e milhões de outros que também são força de trabalho.

A anarquia e o anarquismo atravessam todas as classes sociais diluídas e até pode-se encontrar, como fez Pessoa, se quisermos admitir o paradoxo de seu famoso relato, algum ou outro Banqueiro anarquista.

Obviamente, os paradoxos horrorizam o pensamento Moderno, mas nem tanto o pensamento contemporâneo, que admite o paradoxo e a contradição, que integra a totalidade do ser humano, com seus aspectos múltiplos, polimorfos, cambiantes e paradoxais, para realizar propostas anarquistas sem cometer os erros eurocêntricos, colonialistas, de racionalidade instrumental, tecnicização e cálculo, redutores da qualidade à quantidade.

Nesse sentido, o irracional, o inconsciente, o sentimento e a intuição são levados em conta pelo anarquismo contemporâneo e, dentre o que é tido por esotérico e desprezado como não científico e escassamente racional, também se podem extrair lições de anarquia, como fez Andityas Matos, ao se atrever a pensar e escrever de maneira diferente e outra a como é obrigado na academia científica, reivindicando mergulhar na alquimia, suposto precedente da química, para encontrar nela também a Anarquia:

“Primeira conclusão, portanto: as contrapolíticas alquímicas são an-árquicas, sem fundo, sem fundamento, sem ser separado, sem comando, sem destino, sem finalidade”¹

Também outro filósofo anárquico, Giorgio Agamben, recolheu ideias anárquicas da alquimia. Agamben equipara o ato de escrever e criar arte com o trabalho do alquimista da Idade Média; para ambos, o processo não consiste simplesmente em produzir um objeto externo — a pedra filosofal ou a obra — mas em transformar o próprio criador durante o processo, como expressou em “Opus Alchymicum”, um ensaio publicado em seu livro O fogo e o relato, onde demonstra que a transmutação poética e ontológica e a transmutação material estão indissoluvelmente unidas:

“O pintor, o poeta, o pensador — e, em geral, qualquer um que pratique uma ‘arte’ e uma atividade — não são os sujeitos soberanos titulares de uma operação criadora e de uma obra; são, antes, viventes anônimos que, contemplando e tornando sempre inoperantes as obras da linguagem, da visão e dos corpos, buscam ter a experiência de si mesmos e manter-se em relação com uma potência, isto é, constituir sua vida como forma-de-vida. Somente chegados a este ponto, obra e Grande Obra, o ouro metálico e o ouro dos filósofos, podem identificar-se completamente”

Ensaio que Andityas Matos comenta e ao qual acrescenta, após citar Agamben, que além disso: “o verdadeiro alquimista (…) cuidando-se, trabalhando sobre si mesmo, se autodestrói e se autorregenera”.³

A Anarquia é como esse alquimista que se autodestrói e se autorregenera, como esse fogo que Heráclito considerava como o elemento primordial, energia sempre fluente.

Nós, então, seguindo seus exemplos e mergulhando um pouco nas gravuras alquímicas, espécies de quadrinhos mágicos dos quais extrair ensinamentos, encontramos em uma delas o mais famoso Símbolo anarquista, que seguramente seja de ontem e de hoje, de amanhã e de sempre, pois provavelmente não terá origem, embora historicamente se queira atribuir-lhe uma data. Um A encerrado em um círculo já aparece e nos fala desde tempos remotos.⁴

E é que entre as gravuras alquímicas do século XVII do gravurista Raphael Custos encontramos já o Símbolo Anarquista no centro de uma das quatro lâminas que acompanham o Tratado intitulado: Cabala, Espelho da Arte e da Natureza, em Alquimia (de 1615), um enigmático tratado de alquimia e misticismo.

Esse Tratado é frequentemente atribuído ao editor de Augsburgo Stephan Michelspacher, mas, no entanto, a única parte do texto da Cabala reivindicada explicitamente por Michelspacher é um pedido de desculpas preliminar e adulador, referido ao médico Johannes Remmelin, onde pede perdão por ter pirateado seu livro anatômico de abas Catoptrum Microcosmicum (1613). O autor real da Cabala permanece um mistério e permanece anônimo.

Os quatro painéis são espelhos que servem como portais de magia gráfica, isto é, são uma série de portas para que os leitores alcancem a iluminação e descubram a pedra filosofal, que, embora remetesse aos ingredientes para converter chumbo em ouro, aqui está interpretada como transmutação dos conhecimentos em verdadeiro pensamento e em acesso à fonte da vida.

Do painel que nos interessa, na figura N° 1 indica-se o grau de calcinação, que se entende como regeneração e acumulação. O A ao ser encerrado em um círculo pode remeter ao conjunto da linguagem. O anônimo autor nos explica a relação entre a ontologia, o que as coisas são, e a arte: “a água viscosa é o primeiro ser. Como para vós, os brancos, são para ler através da arte. Nossa natureza nasceu com a tintura mais elevada, os Três Princípios: nela, nossa pedra é tripla: mineral, animal e vegetal”.

Um esotérico alquimista intui que o mineral, o animal e o vegetal não devem ser separados e que somos formados por eles, que um fluxo primigênio ao qual denomina água viscosa está na origem, e que, se essa é a Natureza, a Arte não é senão extrair esse mesmo fluxo do branco de uma tela.

O autor nos insta no prefácio a completar um círculo, mas há diversas maneiras de adentrá-lo: “Uma linha reta atravessa o círculo por toda parte. Assim, vá por um até o centro. Também fora do centro em três, através dos quatro no círculo completamente livre” (Entrada ao leitor desta arte).⁵

Cada lâmina compõe uma Gestalt (figura) cuja observação atenta pode nos levar a atravessá-la, como quem atravessa um espelho, o que nos é oferecido como um caminho da sabedoria.

Na gravura que nos interessa aparecem as quatro qualidades e os quatro elementos, que sucessivamente são: fogo, terra, água, ar, o quente, o seco, o frio e o úmido, fatores próprios da Natureza correspondentes com as quatro disciplinas primordiais, a Filosofia, a Astronomia, a Alquimia e as Virtudes, isto é, a Ética, próprias da Arte, onde para a Alquimia se centra em quatro dos espíritos químicos, sulfuro, antimônio, vitríolo e arsênico, mostrando como o universo inteiro é feito da mesma matéria primordial em diferentes estados de evolução.

Dois círculos, um do lado da Natureza, centrado pela palavra hebraica Zot, significa a Natureza toda como algo divino segundo o misticismo; outro círculo do lado da Arte, com um círculo central e um ponto em seu centro.

Vemos que o A rodeado de um círculo está na parte de cima da divisão em círculos supracitada, há outras letras que remetem ao alfabeto, mas a que nos interessa já tem o sentido de que o início, a primeira letra do alfabeto, contém a totalidade, o círculo, e significa tanto a Ordem das Ciências e das Artes quanto o Caos da Natureza primordial.

Como o significado último e o sentido deste espelho ou portal, assim como os outros três desta obra, resultam desconhecidos, liberamos a interpretação de toda historiografia cabalística e pensamos então que o A rodeado em um círculo, o símbolo anarquista, pôde ter já um de seus múltiplos e plurais origens em obras esotéricas como a que aqui mostramos.

“A alquimia é uma política, uma política da não separação e da mistura, da desordem, da beleza e do perigo, da transição, da dismorfia e da amorfia. Sua lógica é a da mistura; nada na alquimia é, mas tudo está continuamente sendo, não há posições fixas, objetos nem métodos prévios”.

Certamente estamos diante de uma linguagem diferente, cheia do que hoje denominaríamos erros científicos e interpretações arbitrárias, mas o A dentro de um círculo nos aparece, se mostra, desafiando nossa racionalidade desde uma obscura Idade Média que não pedia as mesmas explicações que se darão na era Moderna.

Um Símbolo é algo intermediário entre o racional e o irracional, também o símbolo anarquista que nos evoca a liberdade e nos remete ao comunismo libertário.

O anarquismo contemporâneo não despreza nada, absorve tudo o que pode se manifestar como anárquico e emprega tudo aquilo que possa potencializar a liberdade, a igualdade e a fraternidade em sua não falseada forma moderna, na maneira pós-moderna que o pensamento contemporâneo tem de operar sobre a realidade vigente e promover o desaparecimento de todas as dominações.

¹ Matos, Andityas, Contrapolíticas de la alquimia, Espanha, Ned Ediciones, 2024, pp. 95-96.
² Agamben, Giorgio, O fogo e o relato, Madri, Editorial Sexto Piso, 2016, p.108.
³ Matos, Andityas, Contrapolíticas de la alquimia, Espanha, Ned Ediciones, 2024, p. 83.
⁴ Veja-se, no entanto, o artigo: https://redeslibertarias.com/2024/04/09/origen-de-la-a-en-un-circulo-el-nacimiento-de-un-simbolo/
⁵ As quatro gravuras, painéis ou lâminas, podem ser vistas em: https://publicdomainreview.org/collection/cabala-spiegel/
⁶ Matos, Andityas, Contrapolíticas de la alquimia, Espanha, Ned Ediciones, 2024, p.28.

Fonte: https://redeslibertarias.com/2026/06/12/simbolo-anarquista-entre-lo-irracional-y-lo-racional/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Arrastar espantalhos pelo chão
é o que a tempestade
faz primeiro.

Kyoroku

[Grécia] Sobre o julgamento do recurso por uma ação de solidariedade durante a greve de fome de G. Michailidis

Os verões de 2022 e 2023 foram marcados por duas grandes lutas travadas de dentro da prisão por nosso companheiro anarquista Yannis Michailidis. Tendo como principal reivindicação sua libertação, que o Estado negou de forma vingativa apesar dos anos que ele já havia cumprido, G.M. intensificou seu protesto por meio de uma greve de fome, alcançando uma condição de saúde crítica em ambas as ocasiões. No 30º dia de sua segunda greve de fome, decidiu elevar ainda mais o nível de sua luta iniciando também uma greve de sede, o que acabou resultando na vitória de sua mobilização e em sua posterior libertação.

Nessa batalha, o movimento anarquista apoiou a luta do grevista convocando assembleias centrais várias vezes por semana, escrevendo textos e organizando ações em escala nacional. Em Atenas, o movimento de solidariedade, reunindo diferentes correntes de luta, fez tudo o que estava ao seu alcance para demonstrar apoio à luta de nosso companheiro. Foi nesse contexto que a “Assembleia de Solidariedade ao Grevista de Fome Anarquista Yiannis Michailidis” procurou trazer a questão para o centro do debate público, conscientizar a sociedade, destacar a postura vingativa do Estado em relação aos presos políticos e pressionar as autoridades para impedir o assassinato do companheiro.

Uma das intervenções da assembleia, realizada em 13 de junho de 2023, teve como objetivo destacar a responsabilidade das autoridades judiciais que tinham a vida do grevista em suas mãos. Especificamente, os juízes da cidade de Amfissa, que, em consonância com a estratégia estatal, vinham adiando por meses os procedimentos para sua libertação sem sequer analisar seu pedido. Com a saúde do grevista em estado crítico e já tendo iniciado a greve de sede, cinco companheiros da assembleia foram até Amfissa, onde realizamos uma ação denunciando o assassinato estatal e judicial de nosso companheiro, utilizando tinta spray nos muros do fórum local e distribuindo panfletos.

Após o término da intervenção, quando estávamos deixando o local, fomos presos pela polícia local. Algumas horas depois, fomos levados ao tribunal de Amfissa, onde comparecemos diante de uma promotora, explicando os motivos de nossa ação. Ela zombou do grevista de fome G. Michailidis e nos “preparou” para a condenação que viria. Na audiência que se seguiu, enfatizamos o estado crítico de saúde de nosso companheiro, a gravidade histórica que representaria sua possível morte e a responsabilidade assumida pelo Estado e, em particular, pelos juízes de Amfissa. Defendemos o grevista de fome e sua luta, conduzida por meio do uso do próprio corpo e da própria saúde para exigir sua libertação. Por fim, destacamos a importância da solidariedade aos presos políticos e nossa oposição geral à instituição prisional. Sem qualquer representação jurídica, fomos condenados por dano qualificado ao patrimônio e por desobediência, devido à recusa em fornecer impressões digitais.

Fomos sentenciados a 30 meses de prisão com suspensão da pena e a uma multa de € 3.600 para cada um. Tanto a severidade das penas quanto o alto valor da multa evidenciam o tratamento vingativo que recebemos por parte do tribunal.

Consideramos a solidariedade às lutas dos prisioneiros como parte integrante de nossas próprias lutas contra o Estado e a autoridade. Defenderemos nossas ideias e princípios no tribunal de apelação, que ocorrerá em 29 de setembro de 2026, em Lamia, buscando reduzir ao máximo o caráter claramente vingativo das sentenças de primeira instância.

Julgamento do recurso: Tribunal de Apelação de Lamia, 29 de setembro de 2026

NINGUÉM SOZINHO NAS MÃOS DO ESTADO

LUTA ATÉ QUE A ÚLTIMA PRISÃO SEJA DEMOLIDA

POR UM MUNDO DE LIBERDADE, IGUALDADE E SOLIDARIEDADE

Os presos pela intervenção de 13/06/2023 no tribunal de Amfissa.

>> Apoie aquihttps://www.firefund.net/amfissaintervention

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

o jornaleiro espantado
que eu queira comprar
o jornal de ontem

André Duhaime

[Chile] Sessão especial: Futebol, um negócio de poder?

Debate em torno do texto: “Mundo, mundial, mundializado”. Realizado por companheiros e companheiras da região dominada pelo Estado $Uruguaio$ por ocasião da Copa do Mundo de 2014 em território dominado pelo Estado Brasileiro, uma análise crítica do fanatismo populista e de suas instituições, e suas implicações na acessíveis da maquinaria capitalista-progressista e de sua dominação.
 
Leia/baixe o texto aqui : 
mundo mundial mundializado
 
A paixão exacerbada, a emoção acima do pensamento crítico.
 
Ditaduras-democracias, geopolítica, deslocamentos, instruções, distração das massas, negócios nos pontos cegos, limpeza social, xenofobia, fanatismo, liderança, tráfico de drogas, tráfico de pessoas, comércio sexual, colonialismo, racismo, patriarcado, devastação da terra, o sistema em sua máxima expressão.
 
” 
Não sou torcedor de nenhuma camisa, nem de nenhuma nação, não venero nenhuma instituição. “
 
Mais uma Copa do Mundo está em andamento, os olhos do mundo se voltam para o norte de Abya yala, a América para os colonos; mais uma vez, a atenção das massas é monopolizada e, ao comando do julgado que controla o jogo, a esperança distópica começa a rolar. Bandeiras de países tremulam com orgulho; o espetáculo bem montado começa assim que a bola, manchada de indiferença e morte, começa a rolar. O mundo dos negócios é um poder vigente. O Prêmio da Paz da FIFA é entregue ao presidente dos EUA, Trump. Investigações paralisadas; a FIFA sabe como jogar esse jogo para não ficar em impedimento.
 
Apostas milionárias enquanto a miséria rainha no planeta e a nova tecnologia militar miram seu novo alvo. A IA nos permite desfrutar de uma nova experiência da Copa do Mundo, enquanto os drones voam sobre nossas cabeças.
 
Nas ruas, fora dos estádios, nos protestos. Enquanto Claudia Sheinbaum, presidente do $México$, comemora os gols do capital, como a esquerda sempre fez.
 
Continua a perseguição aos migrantes, até mesmo aqueles que fazem parte do espetáculo encenado pela grande capital multinacional; tratamentos indignos apoiados apenas por quererem uma migalha do manjar que os poderosos devoram.
 
Repressão, controle social e a respectiva “limpeza” para que tudo continue igual. Os 6.500 trabalhadores mortos no Catar para a Copa do Mundo de 2022 já foram esquecidos. O mundo segue em frente, não espera e gira como uma bola chutada por algum subalterno do status quo. Que grande jogo do poder para continuar acrescentando elos à corrente! Gostaríamos de furar a bola para que surjam múltiplas revoltas selvagens, para que o jogo da vida não seja aniquilado.
 
Biblioteca Anárquica Nihil Sebastián Oversluij Seguel
biblioangryantiso@riseup.net / biblioangry.noblogs.org
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
nenhum pio
depois do trovão
apenas uma fragrância
 
Alonso Álvarez

Irmãos Azevedo: operários, professores e anarquistas negros!

Os irmãos negros Deoclécio Augusto de Azevedo e Antônio Augusto de Azevedo eram operários, libertários e professores da Escola Moderna da Liga da Construção Civil, em Niterói-RJna década de 1910 e na década de 1920. Notícias dos sindicatos, greves e da escola operária eram publicadas no Boletim da Liga Operária da Construção Civil.

Os dois foram operários da construção civil e representantes da classe em congressos e eventos operários de Niterói e do Rio de Janeiro. Em 1913, estando a frente do Sindicato dos Estucadores e Pedreiros de Niterói, os irmãos Azevedo representaram a classe no 2º Congresso Operário, realizado no Rio de Janeiro. Em 1918, os irmãos foram fundadores da Liga dos Operários da Construção Civil de Niterói. Como professores libertários, Deoclécio e Antônio Augusto de Azevedo defenderam a instrução libertária dos operários como uma das formas de emancipação dos trabalhadores. Os irmãos perceberam que o analfabetismo e o desconhecimento de direitos eram aliados dos patrões.

Em 1921, Deoclécio Augusto de Azevedo (1895-????) publicou no Boletim da Liga Operária da Construção Civil a seguinte afirmação: Uma das causas dessa situação miserável dos trabalhadores é, sem dúvida, a sua falta de instrução (…) obrigados desde a infância a ajudar ou substituir os pais nas obras, fábricas, campos e oficinas, ou pior ainda, forçados a vestirem uma farda que os transformará em cães de fila da burguesia, em defensores deste regi me legal e carrascos dos seus irmãos de sofrimento, nunca chegaram a compreender quais os seus direitos e deveres”. O libertário defendia que a instrução mostraria aos operários a condição de alienação e sofrimento em que estavam metidos, como também mostraria os métodos para a superação deste sofrimento até chegar ao estágio máximo de liberdade, o comunismo anárquico.

Antônio Augusto de Azevedo (1895-????) comungava com o irmão as mesmas ideias. De acordo com Antônio, a instrução seria a via mais importante de organização e emancipação social, e não a via eleitoral: Negue-se, portanto, o povo a votar, deixando assim de servir de comparsa na repugnante comédia eleitoral, mesmo porque, no Brasil o voto do povo nada influi no resultado das eleições, que são feitas unicamente para salvar as aparências e iludir os palpavos.

Os dois irmãos defendiam o sindicalismo revolucionário e o federalismo das associações de classes defendendo que seria: necessário que os trabalhadores se organizem em associações de classe, estas em federações que por sua vez se constituirão em confederações que atravessando as pátrias burguesas e demolindo os marcos que fazendo as fronteiras dividem os povos, vão unir-se aos explorados de todo o globo, formando assim a Internacional dos Trabalhadores, que há de amanhã implantar a verdadeira Liberdade, Igualdade e Fraternidade sobre a Terra!

Em janeiro de 1921, os associados da Liga Operária organizaram um evento operário com o intuito de arrecadar dinheiro para fundar uma escola operária. O evento foi realizado no dia 15 de janeiro e contou com a participação do anarquista José Oiticica, de Grupo Dramático Ismênia dos Santos e da orquestra do Grupo Artístico Renovação, de Santos. O objetivo do festival operário foi alcançado. A escola foi inaugurada em 1 de abril de 1921, na rua São João, N. 95, sob a diretoria do professor maranhense Ruy Gonçalves, seguidor do método racionalista de Ferrer. 

Na década de 1930, Antônio Augusto de Azevedo ingressou no PCB. Em março de 1932, ele foi preso discursando em uma praça de Niterói, num comício realizado pela iniciativa antifascista Frente Única e Antiguerreira. Já Deoclécio Augusto de Azevedo continuou anarquista e foi preso algumas vezes, durante o Estado Novo (1937-1945), suspeito de atividades subversivas.

REFERÊNCIAS:

Boletim da Liga Operária da Construção Civil, nº 3, p. 4, abr. de 1921.

Boletim da Liga Operária da Construção Civil, nº 3, abr. de 1921, p. 2.

KARLLOS, Jr. Brasil Negro Insurgente. Ed. Monstro dos Mares. 2026.

MACHADO, Antônio Felipe da Costa Monteiro. Forjas da Liberdade: Educação Operária, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário na Niterói da Primeira República. Rio de Janeiro.2017. UFERJ

RODRIGUES, Edgar. Novos Rumos, p. 214 215

RODRIGUES, Edgar. Alvorada Operária. p. 109 e 139.

CARLOS FERREIRA DE ARAUJO JUNIOR – Historiador formado pela UEPB. Publicou dois livros: Renego – Grito Punk (2021), sobre o punk na Paraíba, e Brasil Negro Insurgente (2025), sobre libertários e socialistas negros no Brasil. Desde 2012, possui um canal acervo punk no youtube: ÔKO DO MUNDO! O autor também escreveu os seguintes cordéis e zines libertários/decoloniais: OBREIROS DA BORBOREMA, BRADO BRUTO, EXU MOLOTOV, PLUMA NEGRA, ZINE AUTÔNOMO TEMPORÁRIO (ZAT).

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a cigarra… ouvi:
nada revela em seu canto
que ela vai morrer

Matsuo Bashô

Vídeo | Ação Direta Indígena

O agravamento das crises que ameaçam o mundo tem deixado muitas pessoas paralisadas e se sentindo impotentes frente a desafios que parecem insuperáveis. Mas entre os povos indígenas, muitas frentes vêm dando o exemplo, usando a ação direta para resistir à destruição causada pelos Estados e pelo capitalismo, e servindo de exemplo a todys nós.
 
>> Assista o vídeo aqui:
 
https://antimidia.org/acao-direta-indigena/
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
nas ondas cintila o luar.
longas algas,
verde cabelo do mar
 
Alaor Chaves

[Espanha] Mulheres que lutavam por um mundo novo

Quando se recorda a Revolução Social de 1936, ainda é comum que os relatos se concentrem em líderes, milicianos ou grandes organizações. No entanto, aquela história também foi protagonizada por milhares de mulheres que combateram o fascismo, impulsionaram projetos emancipadores e questionaram as relações de poder dentro de suas próprias organizações. Muitas de suas experiências ficaram relegadas a segundo plano ou diretamente excluídas da história oficial.

Lutavam por um mundo novo, de Yanira Hermida, nasce justamente da necessidade de recuperar essa memória silenciada. Através das trajetórias de Lucía Sánchez Saornil e Sara Berenguer Laosa, o livro reconstrói uma genealogia de mulheres libertárias que fizeram de sua vida uma forma de militância e da revolução uma ferramenta para conquistar espaços de liberdade que até então pareciam inalcançáveis.

A revolução também era uma questão de mulheres

A obra situa as experiências de Lucía e Sara em uma longa tradição de luta pela emancipação feminina dentro do movimento libertário. Muito antes de 1936, anarquistas como Teresa Claramunt já haviam denunciado a subordinação das mulheres e defendido a necessidade de que fossem elas mesmas a protagonizar sua própria libertação.

A chegada da República e a crescente participação feminina em sindicatos, ateneus e grupos libertários favoreceram o surgimento de novos debates sobre educação, sexualidade, trabalho e autonomia pessoal. Nesse contexto, surgiria Mujeres Libres, uma organização que entendia que a revolução social e a emancipação das mulheres deveriam avançar juntas.

Lucía Sánchez Saornil: conquistar um lugar próprio

Falar de Mujeres Libres é falar de Lucía Sánchez Saornil. Poeta, sindicalista, militante anarquista e uma das fundadoras da organização, Lucía encarnou uma forma de compromisso que questionava tanto a ordem capitalista quanto as inércias patriarcais presentes dentro do próprio movimento libertário.

Seus escritos insistiam em que a emancipação das mulheres não podia ficar subordinada a uma futura revolução, mas deveria ser construída no presente por meio da educação, da independência econômica e da participação ativa na vida social e política. Também defendeu uma visão avançada da liberdade sexual e viveu abertamente seu lesbianismo em uma época em que fazer isso representava um desafio radical às normas sociais.

Sara Berenguer Laosa: a revolução a partir da ação cotidiana

Se Lucía representa a elaboração teórica e organizativa do anarcofeminismo, Sara Berenguer Laosa encarna toda uma geração de jovens mulheres que se incorporaram à luta revolucionária a partir de julho de 1936. Sua passagem pelo Mujeres Libres a levou a tomar consciência das desigualdades que as mulheres sofriam mesmo dentro de espaços que se proclamavam igualitários.

Desde então, participou de atividades educativas, redes de solidariedade, tarefas de retaguarda e visitas à frente organizadas pela Solidariedade Internacional Antifascista. Como tantas outras militantes, conciliou a ação revolucionária com um intenso trabalho de apoio mútuo e organização coletiva.

Sua trajetória demonstra que a revolução não se construiu apenas nas barricadas ou nos comitês, mas também através do trabalho cotidiano de milhares de mulheres que sustentaram organizações, redes de cuidados e projetos de transformação social.

Recuperar uma história incompleta

Noventa anos depois, Lutavam por um mundo novo nos lembra que a Revolução de 1936 não pode ser compreendida sem as mulheres que a tornaram possível. As vidas de Lucía Sánchez Saornil e Sara Berenguer Laosa permitem aproximar-se de uma história de emancipação, compromisso e resistência que durante tempo demais permaneceu nas margens.

Recuperar suas vozes não significa acrescentar um capítulo esquecido à história da revolução. Significa compreender que essa história sempre esteve incompleta sem elas.

Fonte: https://descontrol.cat/mujeres-que-luchaban-por-un-mundo-nuevo

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Por entre a neblina
Subindo a Serra Vernal
Bisbilhota a Lua.

Mary Leiko Fukai Terada

[Itália] Lançamento: “Ode ao vinho e à anarquia”, de Luigi Veronelli

Esta incomum combinação de vinho e anarquia é um convite para sentar-se à mesa com Veronelli, para compartilhar não apenas suas ideias, mas também sua arte de saber aproveitar a vida. O restante do menu virá por si só.
 
Gozador, curioso e em constante busca por um prazer profundo e refinado – mas nunca elitista – Luigi Veronelli foi o fundador indiscutível da crítica enogastronômica italiana. No entanto, seu hedonismo nunca foi um fim em si mesmo. Ao contrário, como bem se evidencia nesta coletânea de escritos, foi sempre um hedonismo indissoluvelmente ligado à dimensão sociocultural e política. São, de fato, os produtos da terra que atuam como o meio cultural por meio do qual é possível compreender um território, sua história, as culturas que o habitam e as relações sociais que dele derivam. E o meio por excelência por meio do qual Veronelli construiu, por mais de meio século, seu discurso crítico é certamente o vinho: a valorização da figura do “viticultor”, o redescobrimento das pequenas vinhas (“pequena a propriedade, grande o vinho”), o absoluto respeito pelo ambiente, mas também as lutas ao lado de quem trabalha a terra e contra um sistema econômico que penaliza aqueles que realmente se esforçam. Tudo isso Veronelli vivenciou por meio de uma reivindicada anarquia aliada a uma linguagem inédita, feita de arcaísmos estudados, neologismos felizes e voos poéticos que, no entanto, de forma muito concreta, sempre remetem a “andar pela terra”.
 
Luigi Veronelli (Milão 1926 – Bérgamo 2004) foi um dos maiores especialistas italianos em cultura enológica e gastronômica, cultura que ele influenciou fortemente com seu peculiar hedonismo libertário.
 
Ode al vino e all’anarchia
Luigi Veronelli
eleuthera – Junho de 2026
144 pp.
Oferta: € 14,25
EAN 9788833023236
Prefácio de: Simonetta Lorigliola
www.eleuthera.it
 
Tradução > Liberto
 
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agência de notícias anarquistas-ana
 
A chuva cai
Fria e silenciosa
Outra tarde se vai.
 
Bruna Lahua – 11 anos