[Chile] Ante a sentença de 86 anos ao companheiro anarquista Francisco Solar

Após passar 3 anos em prisão preventiva, em julho de 2023, o companheiro anarquista Francisco Solar, junto a Mónica Caballero, enfrentou o julgamento contra ele, onde foi condenado a 86 anos de prisão pelo envio de pacotes bomba contra o ex ministro do Interior Hinzpeter, à 54ª delegacia e o duplo atentado explosivo contra o edifício Tánica no  bairro dos ricos. Esta sentença deve entender-se como parte da ofensiva estatal e se converte em uma das mais altas dos últimos tempos.

Na atual legislação chilena, um dos limites máximos de castigo é representado pela prisão perpétua simples, a prisão por toda a vida do condenado que só pode solicitar benefícios intrapenitenciários depois de cumprir 20 anos encarcerado. Também, aqueles condenados cujas penas somem mais de 40 anos de prisão, da mesma forma, só podem começar a solicitar benefícios intrapenitenciários depois de 20 anos.

Na prática, a condenação de 86 anos contra Francisco se comporta como uma prisão perpétua simples, já que o companheiro só pode começar a solicitar algum benefício depois de 20 anos. Considerando a extensão da condenação, isto se apresenta como algo sumamente difícil. Por outra parte, esta mesma extensão faz com que seja inatingível, transformando-se em uma prisão por toda a vida. A sentença contra Francisco não é outra coisa mais que uma prisão perpétua encoberta.

Nos enfrentamos a uma das condenações mais severas no Chile por ações políticas sem resultado de morte. Basta rastrear as condenações na ditadura e inclusive na década de 90 contra os grupos guerrilheiros que seguiam operando para observar facilmente a brutalidade com a que o poder golpeia hoje em dia.

Mas, por que a magnitude da sentença? Nesta ofensiva estatal, vemos uma condenação dirigida não só contra práticas e entornos revolucionários em geral, mas também especificamente contra o movimento anarquista e, mais precisamente, contra a tendência informal insurrecional. Efetivamente, o companheiro Francisco tem uma história de vida vinculada diretamente com o anarquismo de ação, e o passado colapso do Caso Bombas em 2010 é uma vergonha que o poder cobra com vingança. No entanto, o golpe assestado pelo Estado através de seus tribunais não é motivado unicamente por um desejo de aniquilação pessoal para o companheiro, mas principalmente pela tendência onde se situa Francisco, os contextos sociais nos quais se enquadraram as ações e a precisão dos ataques.

Esta sentença busca ser um golpe aniquilador ao amplo campo antagonista e negador deste mundo. Desta forma, o Estado chileno se converte no verdugo que impõe uma das condenações mais altas contra um anarquista em prisão em todo o mundo durante as últimas décadas.

Frente a esta realidade, se faz evidente a urgente necessidade e importância de compreender isto como um golpe aos entornos anárquicos, e, portanto, de responder a este ataque do poder com todas as formas e meios disponíveis, sem ficarmos atônitos nem impávidos. Não permitiremos que o poder aniquile impunemente o companheiro.

A combater contra a prisão perpétua encoberta ao companheiro anarquista Francisco Solar!

Solidariedade e cumplicidade com quem desafia os poderosos e repressores!

Alguns Anarquistas

Santiago território ocupado pelo estado chileno 20 dezembro de 2023.

Fonte: Buskando La Kalle

Tradução > Sol de Abril

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/12/21/chile-palavras-do-companheiro-anarquista-francisco-solar-durante-a-ultima-sessao-de-julgamento/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/12/12/chile-sentencas-contra-os-companheiros-monica-caballero-e-francisco-solar/

agência de notícias anarquistas-ana

janela que se abre
o gato não sabe
se vai ou voa

Alice Ruiz

[Nova Zelândia] O veganismo não é anti-indígena

Por Samah Seger | 8 de maio de 2023

Os povos indígenas representam por volta de 5% da população mundial. Ainda são menos os que seguem vivendo segundo seus costumes tradicionais, que podem incluir a matança de animais para sobreviver. Apesar do estranho que é isto, os argumentos contra o veganismo geralmente evocam os povos indígenas para apoiá-los.

Quantas vezes ouvistes: “Dirias a um indígena que se tornasse vegano?”. De fato, o argumento de que o veganismo é incompatível com a cultura indígena carece de fundamento. Os defensores dos seres humanos, dos animais e nossos ecossistemas são aliados naturais na luta contra as estruturas coloniais opressivas.

Como indígena, compreendo a necessidade de proteger nossos costumes para evitar que sigam sendo apagados. Como também sou imigrante, sei que este sentimento existe entre as pessoas que vivem fora de sua terra natal e que utilizam os alimentos para manter a sensação de lar. Mas a produção moderna de carne e outros sistemas de agricultura animal têm suas raízes no pastoreio, que é fundamental na tradição judaico-cristã ocidental, com seus pastores e pastoras piedosos. Os colonizadores puderam estender a agricultura animal por todo o mundo com a ajuda do cristianismo, uma ferramenta utilizada contra os povos indígenas.

O estereótipo do caçador indígena

O argumento de que o veganismo é anti-indígena comete o erro de equiparar indigenismo com caça. As representações dos povos indígenas que se centram nos aspectos violentos, primitivos ou retorcidos de nossas culturas reforçam as narrativas coloniais dos povos indígenas como selvagens, quando na realidade fomos durante muito tempo pensadores magistrais, jardineiros, coletores, narradores de histórias, construtores, curandeiros, navegantes, astrônomos, artistas, marinheiros e muito mais. A imagem superficial dos povos indígenas como caçadores nos pinta como congelados no tempo, ignorando nossa realidade vivida. Hoje em dia, a maioria de nós nos abastecemos nos supermercados e comemos alimentos que se parecem muito pouco a nossa dieta tradicional. O fato de que comamos de forma diferente – a base de plantas ou não – não nos faz menos indígenas.

Os lácteos como ferramenta de colonização

Antes de que os europeus introduzissem a pecuária leiteira, a maior parte do mundo não consumia leite de outras espécies. Um grande número de não europeus nunca se adaptaram ao consumo de lactose na idade adulta e inclusive experimentam taxas desproporcionais de enfermidades relacionadas com o consumo de lácteos. Muitas culturas indígenas tampouco criavam gado para obter leite. No entanto, o leite animal foi utilizado durante muito tempo como ferramenta de colonização. No artigo Colonialismo animal: O caso do leite, a autora Mathilde Cohen escreve que, como se pensava erroneamente que o leite animal era uma forma de impulsionar o crescimento da população, os governos impulsionaram a criação de gado leiteiro para satisfazer o “desejo de uma maior mão de obra e um exército de indígenas [e negros]”.

Se demonizou a lactância materna prolongada – uma forma tradicional de anticoncepção – e se fomentou agressivamente o leite animal.

Apesar do conhecimento generalizado de seus efeitos nocivos para mães e bebês, o “colonialismo da lactância materna” continua hoje em dia, e as empresas de preparados para lactantes utilizam tácticas de marketing “generalizadas, enganosas e agressivas”. Segundo as Nações Unidas, estas táticas se utilizam com pais vulneráveis de todo o mundo, criando uma “barreira substancial à lactância materna”.

A prática continua na infância. Hoje em dia, em Aotearoa (Nova Zelândia), as diretrizes do governo nos dizem que consumamos 2,5 rações de lácteos ao dia, e os oferecem nas escolas sem nenhuma alternativa, apesar de que ao redor de que 64% dos indígenas maoris são intolerantes à lactose.

O olhar branco do veganismo

O registro mais antigo de não violência para com os animais data de uns 3000 anos na antiga Índia. A não violência, ou ahimsa, se converteu em um elemento central do hinduísmo, do budismo e, sobretudo, do jainismo, que pede a seus seguidores que não escravizem nem façam dano a outros animais. Estas filosofias inspiraram inumeráveis pessoas e prepararam o caminho para os movimentos de resistência não violenta.

Desde então, ativistas decoloniais e antirracistas, ecologistas, defensores dos portadores de deficiências, anticapitalistas, feministas, anarquistas, filósofos e outros debateram a opressão dos animais desde numerosos e importantes pontos de vista.

Por exemplo, o ativista pelos direitos civis Dick Gregory disse uma vez em uma entrevista que “o mesmo que nós fazemos aos animais, o sistema está fazendo a nós”, crendo que “ao final se chegará a um mundo vegetariano ou a nenhum mundo”.

Mais recentemente, durante uma palestra na Universidade da California, Berkeley, a ativista política Angela Davis chamou a humanidade a “desenvolver relações compassivas com outras criaturas com as quais compartilhamos este planeta”, situando o veganismo como “parte de uma perspectiva revolucionária”. Apesar dos muitos, poderosos e diversos ativistas que lutam contra algumas das indústrias mais exploradoras do mundo, o veganismo se reduz geralmente nos meios de comunicação e no mundo acadêmico a uma mera moda para brancos privilegiados. Na realidade, os negros estadunidenses são o grupo demográfico vegano de mais rápido crescimento nos EUA, e também há um notável crescimento do veganismo entre os maoris.

Estes estereótipos sobre as culturas indígenas ignoram e apagam as muitas nações que dependeram durante muito tempo de alimentos básicos baratos e abundantes como as lentilhas, o milho, as batatas, as ervilhas e os grãos de bico, assim como os muitos veganos pobres das nações ricas.

Valores indígenas

Em contraste com a visão antropocêntrica moderna do mundo, que vê os humanos como seres separados e superiores dos demais animais, a maioria das tradições indígenas reconhecem que os humanos fazem parte da natureza. Sabíamos que os animais eram nossos parentes muito antes de que o dissesse Charles Darwin.

Por exemplo, o Deus mandeo (Hayyi ou “o vivente”) é a força vital do mundo natural e de todos os seus habitantes, uma perspectiva que vê o caráter sagrado de todos os seres vivos. Nossos ensinamentos dizem que todas as matanças e derramamentos de sangue são pecaminosos – e ainda que (talvez paradoxalmente) nos dá permissão para comer ovelhas macho, aves de presa e peixes com escamas, “a atitude para com a matança é sempre apologética”. Alguns dizem que nós, ou ao menos nossos sacerdotes, costumávamos ser vegetarianos.

Ainda que algumas culturas indígenas se mostram contrárias ao veganismo, suas histórias nos dizem que se preocupavam profundamente por seus irmãos animais. Em sua palestra Indigenous VeganismOs nativos feministas sim comem tofu, Margaret Robinson fala da visão Mi’kmaq de que toda a vida está relacionada, encapsulada pelo conceito de “M’sit No’maq”, que significa “todos meus parentes”. Devido a essa visão, explica, “a pesca comercial moderna, que geralmente se promove por oferecer segurança econômica às comunidades aborígenes, está ainda mais afastada de nossos valores mi’kmaq do que o estão as práticas veganas atuais”. Estas perspectivas oferecem vias para um veganismo compatível com os valores de nossos antepassados, e inclusive podem nos ajudar a viver de acordo com eles. Como disse Robinson, “o veganismo nos oferece um sentido de pertencimento a uma comunidade moral, cujos princípios e práticas refletem os valores de nossos antepassados, ainda que possam estar em desacordo com sua prática tradicional.”

O veganismo como ferramenta decolonial

Geralmente se acusa o veganismo de ser anti-indígena, mas na realidade é uma resposta aos sistemas anti-indígenas de hoje em dia. O veganismo oferece a oportunidade de perturbar a lógica colonial desafiando os pilares mais básicos do colonialismo, que reduzem todas as formas de vida a meros objetos para a exploração capitalista.

Nosso povo teve que adaptar-se para sobreviver, e agora devemos fazê-lo de novo.

Fonte: https://sentientmedia.org/veganism-is-not-anti-indigenous/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Quando me canso da paisagem
Do leste, viro a cadeira
Para oeste.

Paulo Franchetti

[Espanha] O Punk peninsular de uma perspectiva anarco-feminista

Quando descobri o punk, de repente, todo o resto ficou aquém (por mais contraditório que isso possa parecer). O punk está sempre lá para plantar uma semente de questionamento ou discordância; a provocação (à qual ele é geralmente associado) é a coisa menos importante em comparação com o que o desenvolvimento de sua consciência política por meio da música traz como pessoa.

Muitos acreditam que não é importante se posicionar, mas em um mundo onde a opressão nos atravessa holisticamente, politizar espaços de lazer, sociais ou artísticos é a ferramenta mais poderosa que nos resta para nos afirmarmos como dissidentes. Mas cuidado! A linha entre o “punk kalimotxero” e o movimento punk pode ser muito tênue. Há festivais como o Viña Rock, grupos e estrelas do punk como Evaristo Páramos, Non Servium ou Boikot, que usam discursos subversivos como recurso estético ou estratégia de marketing, fagocitando lutas e criando negócios a partir de algo muito sério. São grupos e eventos em que os homens vêm se apropriando de um discurso há anos, que, embora no início tenha sido útil e vingativo, agora está longe de ser um exemplo de luta.

O punk nasceu da necessidade de gritar e reclamar, mas, como qualquer outro estilo, ele também é dominado por homens cis. É triste que, mesmo hoje em dia, ainda tenhamos que nos esforçar para encontrar grupos com identidades dissidentes, especialmente no sul da Espanha. Vivenciamos isso de forma gritante quando formamos o Vulvassur (punk não misto de Sevilha, em 2018); durante os anos em que estivemos ativas, encontramos muitas dificuldades tanto para compartilhar uma formação com alguém que não fosse puramente homens cis quanto para manter o grupo não misto. Sempre temos que fazer um esforço duplo, pois somos duplamente julgadas e, portanto, é mais difícil nos sentirmos seguras ou representadas. Isso está mudando ao longo dos anos, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Analisando a Espanha, eu diria que a diferença entre o País Basco, Barcelona, Madri e Valência na cena punk em relação ao resto da península é abismal. É claro que isso tem a ver com uma questão cultural e histórica, já que esses são lugares geralmente mais “progressistas”, onde os movimentos sociais mantiveram o dedo no pulso do fascismo, um terreno perfeito para o punk germinar. Especificamente na Euskalherria (o berço do punk na Espanha), a existência de um gaztetxe em quase todas as cidades facilita as reuniões e a criação de eventos regularmente, nos quais, pela minha experiência pessoal, a maioria dos participantes são dissidentes que geram espaços seguros (Errekaleor, CSOA La Esquirla, La Kelo, Sastraka e grupos como Ternura, Aihotz, Lentejas, Brüma ou La Virgen). Em Barna, onde a resistência e a ocupação foram historicamente cultivadas, hoje há grupos (Polvo de Hadas, Pols) e espaços liberados mistos e não mistos (CSO La Ruina, El Kubo, Pisos Fantasmas, La Eskandalosa) com uma agenda que sempre fumega. Madri tem sofrido uma repressão policial e fascista mais extrema ultimamente, perdendo muitos espaços (CSOA Coko, Enrredadera, Quimera, Emboscada), mas grupos como Genderlexx, Bajo control, Troika ou Perra Vieja continuam sendo um exemplo de luta e referência. Da Cantábria à Galícia (berço do crust punk), o envelhecimento do punk é perceptível, mas felizmente há pessoas que continuam a trabalhar abnegadamente para nos tornar visíveis, como Maritxu Alonso (Oviedo), criador do selo autogerido Uterzine, uma comunidade que hospeda desde a autopublicação até oficinas e compilações de grupos dissidentes (No más punkis muertas), que você pode encontrar na web; ou os grupos Voces de Ultratumba, que surgiu nos anos 80 e foi reativado recentemente, Atorrak (Zaragoza), Partenogénesis (Almería), Er Pizu (Chiclana de la frontera) e Sharp Knives (Lisboa). Também podemos encontrar em Córdoba a associação cultural El Tugurio, dirigida pelos membros do grupo Who Cares!!!, que fazem verdadeiros esforços altruístas para trazer bandas de diferentes estilos; em Málaga, a CSA Las Vegas, onde Sopa Jervía organiza oficinas e concertos interessantes; em Múrcia, a CSO Kasablanka ou La Algarroba Negra, em Badajoz.

Um dos obstáculos que enfrentei nos últimos anos em Sevilha foi a falta de espaços livres para organizar eventos fora da lógica capitalista de um local alugado. Na ausência desses espaços, houve e ainda há coletivos como o Cloakas, que organizou eventos de rua autogestionados, politizando o lazer ou arrecadando fundos para causas antirrepressivas; o Andalucía Über Alles, que trouxe muitos grupos nacionais e internacionais para a Sala Hollander e a CSO Malatesta.

Gostaria de compartilhar algo que venho observando há alguns anos e que é inerente a todos os espaços. Como estamos cada vez mais aptos a apontar nossos agressores, todas as atitudes de merda que muitas pessoas ao nosso redor têm estão vindo à tona. Isso está nos afetando, gerando debates e diferenças, mas considero necessário passar por eles e, é claro, preferível a olhar para o outro lado. É triste ver como os vínculos são quebrados, mas é necessário ter uma visão crítica, empática e de apoio mútuo em conflitos como esse.

Nunca esqueçamos o espírito de autogestão que combina tão bem com a lógica DIY do punk e nunca permitamos que ele se torne estagnado e apropriado pela nobreza.

O punk não está à venda, vamos torná-lo um espaço seguro para todes!

Por Nurixx. Nascida em Ceuta, criada na Andaluzia e atualmente perambulando pelo norte ibérico em busca de autogestão.

Fonte: https://www.briega.org/es/opinion/punk-peninsular-desde-perspectiva-anarcofeminista

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

velho sapato
lembra das caminhadas
solto no mato

Carlos Seabra

As festas do solstício de inverno

A seguir publicamos o texto “As festas do solstício de inverno”, de autoria de Neno Vasco. O referido texto foi publicado em 31 de dezembro de 1919, no periódico lisboeta A Batalha, pertencente a Confederação Geral do Trabalho de Portugal. Fortemente impactado com o exemplo do processo revolucionário na Rússia que irrompera dois anos antes, o anarquista luso-brasileiro acreditava que era chegada a hora em que as  festas do sol se aliariam às festas do trabalho. Essa aliança, comunicada pelo autor de modo altamente lírico, une os revolucionários de ontem aos revolucionários de hoje na busca de uma nova era de igualdade e liberdade para todos os seres. A pesquisa e edição do texto é de Thiago Lemos Silva.

Por Neno Vasco

Quando os dias começam a crescer, o homem, criador dos Deuses, adora e festeja o Sol, pai da vida e Deus supremo.

O astrônomo alexandrino Sosígenes, encarregado por Júlio César de corrigir o velho calendário de Numa, dois meses atrasado, queria que o ano começasse no dia do solstício de inverno. O ditador, porém, para não contrariar, demasiadamente, os hábitos romanos, ordenou que principiasse no dia da lua nova imediata – que nesse ano caia oito dias depois do solstício.

Deste modo, o solstício ficou em 25 de Dezembro – e esta foi a data da festa natalícia do Deus Sol, isto é do Hórus egípcio, do Mitra persa, do Febo greco-romano.

E depois, foi a festa natal do menino Jesus, o novo Deus Solar dos cristãos, posto nos braços da Virgem Maria, como o menino Hórus, no natal egípicio, figura ao colo da Virgem Ísis. Os cristãos tendo triunfado no mundo conhecido e civilizado, todo situado no hemisfério setentrional, apropriaram-se das festas do solstício de nascimento do Sol e deram nomes novos aos mitos antigos.

Hoje, o solstício está deslocado três ou quatro dias para trás. E os reformadores do calendário pedem que o ano parta do equinócio da primavera, 21 de março – o qual viria a ser um dia independente e isolado para um festa fixa, a Páscoa, a festa primaveril da natureza. Os anos bissextos teriam outro dia independente, no equinócio do outono, entre o mês VI e o VII. Cada dia do mês cairia, pois, sempre no mesmo dia da semana.

Todos os reformadores tiveram que respeitar as poderosas tradições do culto solar: Numa, Júlio César, o cristianismo primitivo, o papa Gregório XIII, a ciência moderna.

Para os antigos, o ano deveria começar com o renascimento do Sol, pai supremo dos homens e dos Deuses. No solstício de inverno, o Deus luminoso começa a encarar as trevas, o dia principia e vence a noite, depois duma luta trágica, em que ele parece sucumbir. Depois, há ainda as dificuldades e perigos da infância  até o equinócio da primavera, que marca e soleniza a juventude florida e sorridente do Deus, a sua ressureição completa e triunfal.

No solstício de verão, é a vida com todo o seu esplendor, é o pleno triunfo da luz, até no equinócio do outono, quando a idade começa a declinar e a ameaça das trevas e da morte surge de novo apavorante, – para que de novo o Deus vital renasça e se liberte. A treva, o frio, a morte – tudo se dissipa enfim como um pesadelo horrível, ante a radiosa claridade triunfante do astro divino, que desentorpece a terra gélida com os seus raios cada vez mais perpendiculares e faz brotar o germe e faz irromper a vida.

A democracia burguesa enfeitou as festas solares e dionisíacas de vestes novas, consagrando uma à “família” – que a indústria moderna destruiu, explorando a mulher e a criança, – dedicando outra, com sombrio sarcasmo, à “fraternidade universal” – que as rapinas e rivalidades imperialistas enterraram em sangue e lodo.

A humanidade nova, prestes a tomar a posse dos seus destinos, a sacudir o jugo dos parasitas e dos opressores não precisa de contrariar as belas festas do Sol. As festas do Sol se aliarão às festas do trabalho, como ele fecundante, como ele renovador e embelezador da vida, como ele amante da terra generosa, nossa mãe comum.

Fonte: https://patosaesquerda.com.br/as-festas-do-solsticio-de-inverno/

agência de notícias anarquistas-ana

gente sem terra,
corrupção, desemprego:
mundo em guerra

Carlos Seabra

Instituto de Estudos Libertários entrevista Renato Canova

Quem é Renato Canova?

Filho de Virgínia e Iedo, ambos trabalhadores no setor do comércio, já aposentados. Moro desde sempre em um município localizado na região oeste de São Paulo. Estudante de escola pública na década de 1990, sou cria deste combo que atravessa do lixo ao luxo (a minha rasa referência que tenho de luxo). Atuei por muitos anos na cena cultural da cidade onde moro como DJ de Jazz-Rap, além de rasurar alguns discos em algumas casas noturnas de São Paulo. Desde 2008, sou professor bacharel desempregado e, por muito tempo venho no corre fazendo bicos. Sou um trabalhador freela (nome técnico: precarizado), que os liberais em conserva chamam de empreendedor, microempresário (risos).

Como e quando conheceu o anarquismo?

Meu primeiro contato se deu quando eu ia visitar meus avós maternos, cuja casa se localizava em um bairro operário da cidade. Meu falecido avô materno Anchise (Anschizie) guardava jornais e livros anarquistas em um velho baú, que ficava em um biombo de madeira, junto às ferramentas que tinha. Ainda criança, com meus 10, 11 anos, ia escondido no biombo para brincar com as ferramentas, junto aos bonecos que tinha e, vez por outra, lia os velhos jornais e livros que ele guardava. Tudo isso sem ninguém saber. O tal biombo era um lugar proibido da casa, onde eu e meus primos não podíamos ir. Posso dizer que meu primeiro contato com o anarquismo se deu ainda em minha fase lúdica, pois nem sabia do que se tratava, e tentávamos ler aqueles nomes russos e alemães impronunciáveis, que eu e meus primos ríamos a cada tentativa e erro, dada a quantidade de consoantes. Aos 16 anos de idade e precocemente adotado pela cena hip-hop / punk, tive acesso aos primeiros zines, onde minha memória do que vi já no extinto biombo de meu avô veio à tona. A partir de então, participei dos extintos coletivos pela libertação de Mumia Abu-Jamal e Leonard Peltier, além de grupos de estudos de formação política de base.

Você se identifica mais especificamente com alguma corrente histórica do anarquismo?

Não tenho um autor(a) ou movimento político-histórico em especial. Como já trampava, de forma itinerante, por alguns sebos em São Paulo, tive a chance de acessar muita coisa ainda na adolescência, o que me fez tentar buscar por livros que pertenciam ao meu avô, que foram vendidos por minha família para alguns sebos. Assim foi meu primeiro contato, como a maioria de nós, caíram em minhas mãos: Proudhon, Bakunin, Kropotkin e Malatesta. Isso mudou após meu ingresso acidental na faculdade de sociologia e meus primeiros passos à sociologia da arte, quando me deparei com ‘anartistas’ pouquíssimos(as) ou nada conhecidos(as) por aqui. São artistas e autores(as) que, mesmo entre poucas enciclopédias de história da arte sérias, são reverenciados(as), mas dado de muitos(as) serem anarquistas, são apagados. Me refiro à cena, ou se preferir, ao movimento anti-arte Dada (Dadaísmo). Então, respondendo a sua pergunta: hoje, me identifico com meu trabalho de pesquisa quase vocacional que está em mergulhar no movimento cuja experiência destrutivo-criativa foi a mais radical da história e o anarquismo teve um papel vital em tais processos. Para possíveis interessados(as) que quiserem saber mais sobre, basta se encaminharem para o Instagram: @palentete.

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

https://ielibertarios.wordpress.com/2023/12/19/instituto-de-estudos-libertarios-entrevista-renato-canova/

agência de notícias anarquistas-ana

tarde de chuva
ninguém na rua
guarda a chuva

Alonso Alvarez

[Grécia] Expropriação do supermercado Sklavenitis, em Ano Ilisia

No dia 16/12/2023 fomos às compras em Ano Ilisia no supermercado Sklavenitis [rede de supermercados grega], só que as nossas “compras” desta vez foram diferentes pois tinham 100% de desconto. Você pode se perguntar como isso acontece? É muito simples. Nós nos organizamos, entramos no supermercado, pegamos o que precisávamos e saímos sem deixar que nos roubassem mais uma vez. Veja bem, é uma questão de escolha.

Optamos, neste clima “festivo”, onde o discurso público está inundado de apelos à ajuda aos mais necessitados, mostrar a nossa solidariedade pegando o necessário a quem nos rouba todos os dias e partilhá-lo com estruturas de solidariedade que mais apoiam partes empobrecidas da sociedade. Decidimos oferecer essa solidariedade não com nossas economias inexistentes, mas pegando de volta daqueles que sempre ganham nas nossas costas.

Ninguém tem o direito de pisar em nossos pescoços e nos chantagear para que escolhamos se vamos pagar as malditas contas, o aluguel espúrio ou se vamos comer. Nossas necessidades não incluem “sim, mas”, nas cestas básicas e na paciência para dias melhores (que não virão). Os dias melhores somos nós que trazemos! Nós somos a vida e eles são os parasitas da morte. E não vamos nos enganar: somos mais numerosos e é apenas uma questão de escolha cortar ou não o pé que nos pisa e humilha.

Apelamos (também) à proliferação de ações semelhantes…

PS: Saudações combatentes aos companheiros que agiram de forma semelhante dias atrás em Byron e Patras.

Que os preços caiam, que os salários aumentem!

Ataquem os supermercados, recusem-se a pagar, lutem contra a guerra dos patrões!

Expropriamos porque não temos mais nada a perder a não ser as correntes… dos supermercados!

Tudo é nosso porque tudo é roubado…

Sindicato dos Trabalhadores Goblins…

…na Fábrica do Papai Noel

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1628246/

agência de notícias anarquistas-ana

tarde quente
penso em você
vestida de brisa

Alexandre Brito

[Rússia] O adolescente que enfrenta Vladimir Putin: “Não tenho mais medo”.

O DRAMA DA CAMPANHA “NÃO À GUERRA” NA RÚSSIA

O adolescente que enfrenta Vladimir Putin: “Não tenho mais medo”.

Ele tem 16 anos e pode ser condenado a uma década de prisão por protestar contra a guerra com a Ucrânia.

Ele esperou até as dez horas da noite. Para não causar vítimas, disse ele. Ele colocou fogo em um pano mergulhado em uma garrafa de líquido inflamável e o jogou com toda a força no prédio de recrutamento em Kirovsk (a uma hora de carro de São Petersburgo). Seu coquetel molotov foi logo extinto. Yegor Balazeykin, um russo de 16 anos, agachou-se novamente e segurou o isqueiro em outro trapo, mas não conseguiu acendê-lo. Em seguida, foi silenciosamente para o ônibus em direção ao local. Lá, foi visto por um carro de polícia. Eles lhe mostraram os restos do coquetel molotov que não funcionou. Você fez isso, perguntaram a ele. Sim, ele assentiu com a cabeça, reafirmando seu protesto.

Lá, ele foi detido por uma patrulha policial. Eles o levaram. Ele foi interrogado sem assistência jurídica e sem ter informado sua família. O menino admitiu ter atirado o coquetel molotov e reafirmou sua intenção de protestar contra a guerra da Rússia na Ucrânia, onde um de seus tios havia sido morto. “Quero que as pessoas parem de morrer na guerra”, disse ele. Yegor Balazeykin está preso desde 28 de fevereiro em uma cela da prisão preventiva nº 5 de São Petersburgo para jovens. Ele divide a cela com três jovens suspeitos de estupro.

Ele é acusado de duas tentativas de “ataques terroristas” e pode ser condenado a até dez anos de prisão. Fala-se até que ele teria que cumpri-los na fria cidade de Archangel, a mais de mil quilômetros de São Petersburgo. Nada disso parece intimidá-lo: desde o primeiro interrogatório, ele não fez nenhuma tentativa de esconder seus motivos e, em sua opinião, os dias de faixas e manifestações pacíficas – também proibidas pelo Kremlin – acabaram. Aqueles que se opõem ao horror e à injustiça da guerra na Ucrânia, diz ele, perderam a chance e só restam o desespero e as ações que o acompanham. Assim, Yegor se tornou um símbolo de “não à guerra” na Rússia.

Por sua luta e sua atitude em um país onde apenas segurar um pedaço de papel com palavras contra a guerra significa prisões e multas, ele recebe cartas de apoio e doações para pagar seus advogados. Ele precisa deles.

Na Rússia, há atualmente dezenas de detidos como ele. Seus pais – que foram informados de sua prisão no final da noite de 28 de fevereiro – dizem que, desde então, ele está cada vez mais convencido de sua posição. A imprensa local acrescenta: “Yegor não parece mais um adolescente”.

A pergunta é feita com frequência: ele não está com medo? Em 24 de março, Balazeikin postou no Telegram uma carta aberta escrita da prisão: “Não tenho medo, não. Eu costumava ter medo. Medo de acordar de manhã. Medo de ler as notícias, que eram sempre as mesmas, apenas com nomes diferentes de lugares e números diferentes de vítimas…. Agora não tenho mais medo”.

Ao ver que Balazeikin havia passado de uma acusação inicial de dano à propriedade pública para ser considerado autor de atos de suposto terrorismo, o advogado de direitos humanos de São Petersburgo, Leonid Krikun, expressou preocupação de que as autoridades – que impuseram longas sentenças de prisão simplesmente por publicações nas mídias sociais que criticavam a invasão maciça da Ucrânia – visassem o jovem para servir de exemplo para a sociedade russa sobre o que acontece com os oponentes.

Por ousar atacar um local ‘sagrado'”, disse Krikun, “é provável que ele seja punido em toda a extensão da lei. É assim que as autoridades assustam os suspeitos em tais casos para que admitam sua culpa, se arrependam e se apresentem à sociedade não mais como oponentes, mas como ovelhas que reconhecem seus erros”.

Seu futuro, uma preocupante incógnita

Quando criança, Yegor Balazeikin passou meses em hospitais buscando um diagnóstico para uma doença que estava devastando seu fígado. Por fim, foi determinado que ele estava sofrendo de hepatite autoimune, uma doença que pode ser fatal se não for tratada de forma consistente. Sua condição agora é considerada em remissão, mas ele precisa consultar especialistas a cada três meses e tomar medicamentos.

Quando sua mãe, Tatyana Balazeikina, pôde visitá-lo brevemente após sua prisão e antes que ele fosse completamente isolado, ela chegou a dar ao filho sua medicação, livros escolares e algumas roupas quentes, mas ela está muito preocupada com o fato de que as condições precárias e a falta de supervisão médica poderiam ser fatais para alguém com hepatite autoimune.

Sobre o ato que o levou à prisão, Yegor confessou à sua mãe, que revelou: “Se eu não tivesse feito isso, provavelmente teria me enforcado porque não conseguiria viver com o fardo da morte de todas essas pessoas”. Uma responsabilidade absolutamente dostoievskiana: “Todos nós somos responsáveis por tudo e todos diante de todos, e eu mais do que todos os outros”.

Fonte: https://www.lavozdegalicia.es/xlsemanal/personajes/yegor-balazeykin-protesta-guerra-ucrania-putin.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Por aqui passou
uma traça esfomeada:
livro de receitas.

Francisco Handa

[Chile] Palavras do companheiro anarquista Francisco Solar durante a última sessão de julgamento

Transcrição das palavras do companheiro anarquista Francisco Solar durante a última sessão de julgamento.

Em 6 de novembro de 2023 durante as últimas audiências do julgamento contra ele, o companheiro anarquista Francisco Solar decide tomar a palavra e dar suas últimas declarações no tribunal. Estas Palavras foram censuradas pela transmissão online, mas conseguiram ser difundidas dias mais tarde e agora transcritas. Finalmente o companheiro foi condenado a 86 anos de prisão, uma das condenações mais duras contra o anarquismo a nível internacional.

* * *

Bom dia, as ações pelas quais já assumi responsabilidade, pelas quais já reivindiquei politicamente e pelas quais serei condenado inserem-se todas elas dentro da longa tradição histórica especificamente anarquista referida a devolver em primeira pessoa e sem intermediários os golpes de poderosos e repressores. Porque se alguns pensavam que suas políticas do terror baseadas em imposições e restrições de todo tipo, assim como também em ondas repressivas, onde inclusive muitas vezes passaram por sua própria legalidade que tanto dizem defender e respeitar, iriam passar desapercebidas e não iriam encontrar respostas estavam muito equivocados.

Há muitos de nós que sabemos esperar o momento adequado para atuar, que entendemos a memória não como um baú onde se depositam as recordações para contemplá-las e lamentarmos, mas como um motor que impulsiona a ação vingativa como parte de nossa prática política permanente que se nutre de nossa história, com nossos acertos e desacertos, e foi esse exercício de memória o que sustentou as ações individuais que realizei no ano de 2019 e 2020. Ações individuais que não contemplaram o consenso nem o acordo grupal, mas que foram fruto da análise, da decisão e da vontade pessoal, ações que também fizeram parte e sem dúvida fortaleceram a guerrilha urbana anarquista, que não desaparece apesar dos constantes golpes repressivos, demostrando nos fatos a viabilidade e a efetividade das relações informais orientadas à ação revolucionária.

Demonstrando também que não faz falta uma grande estrutura organizacional para as ações contundentes. Neste sentido, é importante assinalar que as grandes organizações rígidas e estáveis logo se transformam em um fim em si mesmas, quer dizer, se organizam para fortalecer a organização mesma, diferente das organizações informais que sustentam suas relações no ataque outorgando-lhes esse dinamismo que impede a atrofia e o aparecimento de lógicas burocráticas.

As ações, junto com serem golpes diretos a representantes e símbolos do poder e junto com demonstrar que é possível realizar ditos ataques, constituem um meio para a propagação de ideias e mensagens, mensagens de rebeldia e liberdade, que serão recebidos e postos em prática por quem assim o deseje. Mensagens que só associadas a estas ações constituem o verdadeiro perigo para a ordem imposta. E falo de ordem imposta porque nesta sociedade não existe um contrato social onde as pessoas tenham delegado sua liberdade ao Estado em prol de bem estar e segurança, formulação que por certo assenta as bases dos Estados modernos, mas que pelo contrário o Estado se funda no despojo histórico das liberdades dos indivíduos submetendo-os e restringindo-os em cada vez mais aspectos de suas vidas, o que vai fortalecendo e perpetuando o domínio estatal. O Estado já não é só uma instituição, mas que se encontra em cada uma de nossas relações, complexando e estendendo ainda mais o domínio estatal, portanto ações contra o Estado não só são justificadas mas que são completamente necessárias.

E claro, “demos-lhe a oportunidade da palavra” como o disse o sr. Promotor em sua alegação de clausura, mas a palavra ligada à ação revolucionária, porque a palavra que pretenda construir novas relações distantes de toda autoridade deve necessariamente ir de mãos dadas com a ação revolucionária. É inegável o crescimento e a proliferação dos grupos anárquicos nos últimos tempos, levando a que discursos e práticas antiautoritárias estejam presentes em grande parte das mobilizações e revoltas da atualidade.

Entendendo a anarquia como uma tensão e não como um lugar de chegada, entendendo-a como uma luta permanente contra cada expressão da autoridade e não como uma sociedade perfeita ou um paraíso terreno como muitos assinalam, é que estas ações violentas individuais são parte imprescindível neste caminho de liberação, e quero deixar claro que neste caminho, ações como esta não são nem as primeiras nem tampouco vão ser as últimas, que como assinalei anteriormente são parte de um contínuo histórico que não vai desaparecer ainda que nos condenem a décadas de confinamento, inclusive ainda que nos matem. Sempre haverá indivíduos e grupos de indivíduos que estejam dispostos a responder à brutalidade do Estado e do capitalismo, isso é inevitável.

Por último quero aproveitar esta instância para enviar-lhes uma saudação cúmplice aos presos e presas anarquistas e subversivos que lutam nos cárceres deste país.

Viva a anarquia.

Fonte: https://informativoanarquista.noblogs.org/post/2023/12/14/chile-palabras-del-companero-anarquista-francisco-solar-durante-la-ultima-sesion-de-juicio/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/12/12/chile-sentencas-contra-os-companheiros-monica-caballero-e-francisco-solar/

agência de notícias anarquistas-ana

Sebe de bambu —
O sol da manhã ilumina
o orvalho na teia.

Hazel

[Espanha] As guerras são um bom negócio

Ao instar o Congresso a aprovar milhares de milhões em novos fundos para comprar bombas e outras armas e equipamento bélico para Ucrânia e Israel, o presidente Joe Biden e sua equipe empregaram, entre outros, um argumento que até agora foi um segredo aberto neste país: a dependência significativa da economia sobre as guerras.

Enviamos equipamento à Ucrânia que está em nossos arsenais. E quando usamos o dinheiro aprovado pelo Congresso, o usamos para reabastecer nossas próprias reservas, nossos arsenais, com novo equipamento. Equipamento que defende os Estados Unidos e é feito nos Estados Unidos”, declarou Biden recentemente. E detalhou: “mísseis Patriot para baterias antiaéreas feitos no Arizona; munições de artilharia fabricadas em 12 estados através do país [incluindo] Pensilvânia, Ohio, Texas”.

E não só é a guerra na Ucrânia. “Ações de defesa se beneficiam da guerra”, anunciava um titular do Wall Street Journal esta semana, informando que “ações de fabricantes de armas superaram o desempenho do S&P 500 desde o 7 de outubro”.

Jason Aiken, executivo financeiro e chefe da General Dynamics, uma das principais empresas de equipamento bélico, comentou ao principal rotativo financeiro do país que a guerra da Ucrânia já havia elevado a demanda pelos produtos da empresa. “Creio que a situação israelense só imporá ainda mais pressão para cima sobre essa demanda”, agregou.

Que as guerras são bom negócio para as indústrias militares (ou como preferem ser identificadas, “indústria de defesa”) não é notícia. “As principais cinco contratistas militares do país -Lockheed Martin, Raytheon, Boeing, General Dynamics e Northrop Grumman- não existiriam sem um fluxo constante de financiamento desde o Pentágono”, explicou William D. Hartung, investigador sênior e especialista no complexo industrial militar no Instituto Quincy em Washington em entrevista com La Jornada. “Estas não são empresas capitalistas no sentido tradicional” sublinhou, oferecendo o exemplo de Lockheed Martin que recebe 73 por cento de suas receitas de vendas através de contratos com o governo dos Estados Unidos.

Fonte: James Cason y David Brooks (Rebelión)

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Tormenta hibernal —
O rosto do passante,
Inchado e dolorido.

Bashô

“O primeiro passo no caminho deste dever é salvar a infância…”

A seguir publicamos o discurso escrito e lido por Lucía Sánchez Saornil durante a abertura Festival Artístico de Solidaridad Internacional Antifascista (SIA), que teve lugar no Teatro “Gran Liceo”, em Barcelona, por ocasião do segundo aniversário da Revolução Espanhola em 19 de julho de 1938. Pouco mais de 85 anos nos separam desse texto, que ainda permanece atual diante da barbárie que o mundo aparentemente civilizado continua a promover sob patrocínio neoliberal contra os “Condenados da Terra”, para usar aqui a expressão célebre de Frantz Fanon. Dentre suas vítimas preferenciais, estão as crianças árabes executadas pelo Estado de Israel na Faixa de Gaza (Palestina), as crianças yanomamis estupradas por garimpeiros ilegais em Roraima (Brasil), as crianças pretas vítimas da violência policial no Alabama (Estados Unidos), dentre tantas outras que estão nas periferias e nos centros do capitalismo. Almejam destruir as sementes da resistência antes que elas germinem e floresçam. Como nos lembra Lucía Sánchez Saornil, salvar as crianças da morte (física e espiritual) é garantir a possibilidade de um futuro livre e igualitário para toda a humanidade. A tradução do espanhol para o português é de Diego Silva.

Por Lucía Sánchez Saornil

Vocês se esquecerão, momentaneamente, que não muito longe daqui – os quilômetros já não são mais contados por centenas – as bocas dos fuzis não descansam. Talvez, neste exato momento, o ferro e o fogo inimigos chovem sobre alguma população indefesa, semeando a morte e o desespero.

Não vamos reprová-los por este esquecimento, mas temos que colocá-los em vigilância contra a sugestão de seu enfraquecimento. Para isso acreditamos que bastará passar antes aos seus olhos a imagem de uma criança. É estranho que com a silhueta infantil pretendamos incitar o espírito subtraindo-o de visões de paz para lançá-lo, em seguida, às inquietações turbulentas, não é mesmo?

Até ontem ainda, diante da visão das crianças, os seres humanos sentiam seus ódios fraquejarem e suas violências derreterem como a cera de seus corações. Diante da imagem da criança, os seres humanos sempre selavam seus compromissos de paz, mas hoje… a lembrança da criança é precisamente o que enche nossos dias de angústia e inunda de ódio o coração de todos os antifascistas espanhóis. Aqueles que, sem escrúpulos, romperam a negociação tradicional dos seres humanos diante da imagem infantil não podem ser perdoados.

Para esses, sangue de crianças, muito sangue de crianças tingiu o pavimento de nossas cidades; fossas profundas foram abertas para recolher especificamente os restos de crianças trituradas; os lábios apenas balbuciantes de nossos filhos já beberam rios de amargura; existem pezinhos débeis que conhecem as correias intermináveis das estradas e pescoços caídos que anseiam a proteção dos tenros braços maternos.

Aqui estão as razões do porque, a nosso pesar, a imagem da criança serve para incitar  nossos espíritos evitando que se deixem influenciar pela placidez de uma honesta distração. As horas, trágicas e heroicas, que vivemos exigem uma atenção permanente que nos dê garantias contra a astúcia e a traição contumaz com a qual o inimigo nos rodeia.

A guerra, camaradas, não se faz e nem se ganha apenas nas trincheiras; a guerra se faz e se ganha também nas cidades. No fronte se ganha destruindo; na retaguarda reconstruindo. Mas para reconstruir precisamos de um exército tão forte, tão poderoso e tão unido como aquele destinado ao combate militar; é preciso refazer constantemente; não somente coisas objetivas, coisas materiais, mas coisas incomensuráveis, mais elevadas e mais profundas: é preciso refazer lares, é preciso refazer vidas, é preciso refazer seres. É necessário revolver e escavar entre os escombros morais de um povo deixado em ruínas, para descobrir sua última palpitação vital e extraí-la e fecundá-la novamente. Para esta obra, repetimos, precisamos de um exército tão unido e tão forte como o da linha de fogo. Este exército, camaradas, já temos. Este exército é SIA.

Solidaridad Internacional Antifascista soma as vontades e valoriza a potencialidade criadora de nossa retaguarda. Por detrás das linhas de fogo, vão construindo vidas e seres humanos. Fortalecendo e elevando o que ameaça cair, aglutinando o que começa a se desagregar. O primeiro passo no caminho deste dever é salvar a infância, não apenas da morte física, mas de algo a mais, do aniquilamento espiritual. SIA já começou esta obra. Sua presença aqui assegura a ela sua confiança e seu apoio. Obrigada.

Fonte: https://patosaesquerda.com.br/o-primeiro-passo-no-caminho-deste-dever-e-salvar-a-infancia-nao-apenas-da-morte-fisica-mas-de-algo-a-mais-do-aniquilamento-espiritual/

agência de notícias anarquistas-ana

depois de horas
nenhum instante
como agora

Alexandre Brito

[Grécia] Com os punhos cerrados: Vídeo da re-ocupação da Ano-Kato Patission e o que se seguiu

A seguir, declaração sobre a re-ocupação da Steki Ano-Kato Patission:

Dissemos que não iremos embora e estamos falando sério.

Estamos felizes por hoje termos conseguido transformar nossas palavras em ações e por, com perseverança e confiança, termos recuperado um pedaço de nossas vidas. Recuperamos o jardim no qual crescemos e no qual aprendemos o que significa viver. Juntamente com dezenas de companheiros, amigos e pessoas solidárias, reocupamos esta casa. Estamos defendendo nosso lugar na cidade, recuperando esse espaço abandonado para nós e para as gerações futuras. Hoje, acendemos novamente nossos fornos a lenha e de cozimento e transformamos o fogo em um chamado à resistência para o movimento dos ocupantes. Com os punhos erguidos para o céu, subimos no terraço de nossa casa ocupada e enviamos nossas mais calorosas saudações a todos aqueles que, em todo o mundo, continuam lutando.

Rompemos o círculo vicioso do medo ao reivindicar o que é nosso por direito. Não apoiamos incondicionalmente os direitos civis concedidos pelo Estado, mas lutamos contra a lei para reivindicar o que nos pertence na cidade: as coisas que construímos com nossas mãos e nossas mentes, coisas que são consideradas mortas se não forem utilizadas, como as milhares de casas e edifícios vazios em Atenas. Optamos por dar vida a propriedades “mortas” e transformar espaços vazios em locais coletivos de resistência. Subvertemos o contexto social de forma criativa, reinterpretando o valor desses espaços: Não se trata de lucro, de agências imobiliárias, de ONGs, mas de atender às nossas necessidades e desejos coletivos e também de ir além deles. Vemos as ocupas como um laboratório onde podemos fazer experimentos com relações coletivas, militantes, solidárias e de cuidado – além da instituição da família, além da religião e do Estado. Esse é o lugar onde nossas ideias ganham vida, onde nos reunimos para imaginar novos mundos possíveis. Contra a normalização dos massacres e das fronteiras! Nem deus nem senhor!

Consideramos nosso espaço político no número 75 da rua Naxou e Krassa (Praça Koliatsou em Patissia) como um laboratório. Nos últimos 27 anos, essa tem sido a oficina onde expressamos nossas ideias e ações subversivas contra a exploração, a opressão e a injustiça. Foram 27 anos em que esse lugar esteve livre e aberto para a vizinhança; hospitaleiro para todos os sonhadores, proletários excluídos, punks, os condenados do mundo, criminosos, artistas clandestinos, músicos e poetas, aberrações, espíritos intransigentes, viciados e jovens. Nesses 27 anos, lutamos contra essa sociedade de merda, na qual racistas e policiais assassinam violentamente nosso povo, uma sociedade na qual feminicídios, empurrões e “naufrágios” nas fronteiras europeias são normalizados, na qual o afogamento de pessoas nos portos e o “colapso” da infraestrutura são o “estado normal” que nos é imposto. Nesses 27 anos, aprendemos o que significa viver coletivamente e descobrimos as possibilidades de luta contra a dominação.

Nesses 27 anos, zombamos do mundo da “propriedade privada” e ficaremos aqui o tempo que for necessário, mesmo que isso signifique fazer tudo de novo. Este é o nosso bairro, fomos à escola aqui, conhecemos nossos primeiros amigos aqui, moramos e trabalhamos neste bairro. Unimos forças com nossos vizinhos aqui e foi também neste bairro que aprendemos a odiar a violência perpetrada pelos ricos. Estamos lutando para recuperar tudo o que foi roubado de nós. Não permitiremos que a família Papaoikonomou, esses herdeiros ricos que moram nos subúrbios ao norte da cidade e possuem dezenas de propriedades em Patissia [bairro de Atenas] e em várias ilhas, simplesmente tirem nossa casa de nós. Dizemos claramente que eles não se livrarão de nós tão rapidamente. Nossa resistência é grande na vizinhança. Nós nos enrolamos em torno do grande cipreste da casa ocupada.

27 anos de ocupação

27 anos de Ano-Kato Patission

Estamos aqui para ficar.

NÃO FUGIREMOS

OS PÁSSAROS SEMPRE VOLTAM PARA SEUS NINHOS.

Αυτοδιαχειριζόμενο Στέκι Άνω Κάτω Πατησίων

Steki Ano-Kato Patission, Naxou 75, Atenas, Grécia

>> Veja o vídeo (08:27) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=ct_xPviWdJA

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/12/18/grecia-atenas-steki-ano-kato-patission-re-ocupada/

agência de notícias anarquistas-ana

o vento lambe teu corpo,
ainda morno o bebo:
parece vapor de licor

Alaor Chaves

[Reino Unido] Lançamento: “Anarchy in Action”, de Colin Ward

O entendimento popular do anarquismo como sendo apenas caos, não é como os próprios anarquistas vêem as coisas. A maioria destes luta por um mundo mais livre e igualitário, no qual a ganância e o ódio são substituídos pela cooperação e por um compromisso partilhado com o bem comum.

“Anarchy in Action” é uma introdução que tem como foco a nossa vida quotidiana, a forma como habitamos, nos educamos e nos organizamos. O argumento de Ward é que uma sociedade anarquista está sempre a existir, como uma semente debaixo da neve, enterrada sob o peso do Estado e de sua burocracia, do capitalismo que desperdiça sem parar, de seu privilégio e injustiças e das falsas divisões de nação ou religião.

As ideias anarquistas podem parecer muito estranhas e em desacordo com nossas experiências vividas para serem levadas a sério. Este texto clássico é uma tentativa de preencher a lacuna entre “o que é e o que poderia ser, de acordo com os anarquistas”.

Através de uma análise abrangente, Ward demonstra que as raízes da prática anarquista não são tão estranhas quanto parecem à primeira vista, mas residem precisamente nas formas como as pessoas sempre tenderam a se organizar, quando deixadas sozinhas para o fazer. O resultado é tanto uma introdução acessível para aqueles que estão conhecendo o anarquismo agora, quanto uma pausa para reflexão à aqueles que o descartam rápido demais.

Esta edição inclui uma nova introdução de Sophie Scott-Brown e notas de rodapé para atualizar este título clássico.

Anarchy in Action

Colin Ward

ISBN: 978-1-904491-45-3

198 páginas

£9.50

freedompress.org.uk

Tradução > meiocerto

agência de notícias anarquistas-ana

No olho das ruínas
as íris dos vaga-lumes
sob as tranças de ervas.

Alexei Bueno

[Itália] Ciao, Alfredo

Na última quarta-feira (06/12), Alfredo Bonanno faleceu aos 86 anos de idade.

Por mais de cinquenta anos, Alfredo deu uma grande contribuição ao anarquismo revolucionário, como editor, como teórico, como homem de ação, como experimentador de métodos organizacionais baseados na afinidade e na informalidade. O que o diferenciava radicalmente de qualquer intelectual não era apenas sua rejeição a todas as carreiras acadêmicas e à representação na mídia, mas o fato de que analisar o estado e o capitalismo não lhe servia para ir dormir com ideias mais claras, mas para tirar consequências precisas – éticas, práticas, organizacionais – na vida cotidiana. Dentro de certas invariantes do anarquismo – Bakunin, em primeiro lugar, que Alfredo não mumificou em manuais históricos eruditos, mas arrastou para as batalhas do presente – seu esforço constante era pensar e praticar um modelo insurrecional adequado à era da reestruturação tecnológica do capitalismo. Não a insurreição como espera pela hora “X”, mas como uma tentativa de atacar projetos específicos de poder aqui e agora com uma metodologia muito precisa: o grupo de afinidade como propulsor, a estrutura informal independente de partidos e sindicatos como proposta. Do indivíduo ao grupo e a partes mais ou menos substanciais da classe excluída, um conceito qualitativo de poder (e de vida) foi articulado por Alfredo na intervenção revolucionária anarquista.

Mas não é sobre sua contribuição teórica que queremos falar hoje, nem sobre sua determinação obstinada como editor, organizador, assaltante, prisioneiro, mas sobre o que significou para alguns de nós, companheiros muito jovens na época, conhecê-lo. E conhecê-lo não apenas nos debates e iniciativas da luta, mas em seu compromisso diário, no qual, juntamente com sua impressionante capacidade de trabalho, sua abertura para o confronto, sua superabundância de vida, seu vigoroso espírito de luta, sua capacidade de se envolver com o mundo, e quando surgia sua estrondosa risada. Hoje, nossos pensamentos não se voltam para os tomos, panfletos ou comícios, mas para o agnolotti (macarrão) que Alfredo preparava no meio da noite, depois que terminávamos de escrever, paginar e imprimir um semanário, para a roupa improvável – pijama, sapatos de couro, lenço e boné – com a qual ele se apresentava aos técnicos de imprensa ou aos agentes da Digos, para a maneira como ele sabia conciliar um ego sem dúvida pesado com uma inconfundível autoironia.

Dois aspectos de Alfredo realmente nos moldaram. A tensão em relação à consistência e o espírito de aventura na essência. Em contraste com a prolixidade de alguns de seus textos, algumas de suas fórmulas eram curtas e fortes como só as razões para viver podem ser.

Por que a consistência? Porque quando não reagimos à injustiça, nos sentimos uma merda, e não queremos viver nos sentindo uma merda. Preciso dizer mais?

E então a mais preciosa de suas sugestões, que ressoa conosco agora que estamos testemunhando um horror indescritível em sua amada Palestina: devemos nos conceber como se não tivéssemos limites, deixando que a realidade os esmague à nossa frente, algo que ele faz com muita generosidade, sem nunca antecipar.

Porque a qualidade de nossas vidas é mais forte do que tudo. Até mesmo a morte.

Obrigado, Alfredo.

Fonte: https://ilrovescio.info/2023/12/09/ciao-alfredo/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

De terninho preto
Lá se vai a andorinha —
Viajante dos trópicos

Tony Marques

Em breve pela coleção biografema da editora Humana. | “Giovanni Rossi”, de Cassio Brancaleone

Giovanni Rossi: Semeador de utopias (Pisa, Itália, 11 de janeiro de 1856 – Pisa, Itália, 9 de janeiro de 1943). Anarquista, agrônomo, médico veterinário, sociólogo em ato, literato, cientista e míope crônico. O italiano Giovanni Rossi dedicou quase duas décadas da fase mais ativa de sua vida ao Brasil. Principal idealizador e articulador da colônia Cecília, uma comunidade anarquista experimental de breve vida no interior do município de Palmeira, Paraná (1890-1894). Da sua militância libertária, nos legou valiosas reflexões sobre os impasses da construção de comunidades intencionais e alternativas como campo legítimo de transformação social, bem como considerações pioneiras sobre o amor livre, vínculos afetivos, sexuais e familiares. De sua atividade profissional, como agrônomo e veterinário, contribuiu para o desenvolvimento do ensino técnico e a criação de agências públicas de fomento e assessoria às atividades agropecuárias nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

www.humanasebolivraria.com.br

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/03/10/espanha-lancamento-utopias-concretas-el-anarquismo-trasatlantico-de-giovanni-rossi-de-juan-pro-e-matteo-parisi/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/03/28/inauguracao-do-memorial-anarquista-da-colonia-cecilia-e-nesta-quarta-feira/

agência de notícias anarquistas-ana

Possuí
tomei posse –
poções mágicas.

Jandira Mingarelli

Israelenses que fogem do serviço militar

A partir de 1º de dezembro o exército israelense reforçará as sanções para quem foge do serviço militar e não se reincorporem a sua unidade dois meses depois de que o 7 de outubro deflagrou a guerra em Gaza.

A sentença pode oscilar entre um e três dias de prisão por cada dia de ausência, em comparação com períodos de prisão mais curtos no passado.

No exército israelense na atualidade há 2.000 soldados que desertam, a maioria dos quais pertencem ao exército regular. Fugiram durante o período anterior a 7 de outubro e centenas de reservistas não se incorporaram ao serviço.

Um soldado da reserva que presta serviço no norte disse ao Canal 12 israelense: “Estamos sofrendo por falta de alimentos e equipamento. Dormimos em mantas e ambulâncias para combater o frio e sem doações estaríamos em uma situação muito difícil”.

Faz aproximadamente um mês, o Canal 12 informou que “a Força Aérea de Israel havia transferido a Israel centenas de soldados regulares e da reserva do exército de ocupação de toda Europa”.

No início da agressão contra Gaza o exército israelense anunciou a convocatória de 300.000 soldados da reserva, como parte da guerra que leva na Faixa de Gaza.

Os serviços de segurança estão estudando a possibilidade de reduzir o número de soldados da reserva e despedir alguns deles, devido ao dano causado ao mercado por sua ausência dos locais de trabalho e assentamentos.

Milhares de tropas de ocupação anunciaram anteriormente que não se uniriam ao serviço devido a sua oposição às reformas judiciais que o Primeiro Ministro Benjamín Netanyahu queria impor. Houve advertências generalizadas de que esta questão afetaria a dissuasão e a preparação militar dos soldados.

Fonte: https://mpr21.info/los-israelies-huyen-del-serviço-militar/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Fim do dia
O velho e a árvore
Trocam silêncios

Camila Jabur

Ativistas protestam contra Leilão do Fim do Mundo | “Precisamos deixar as florestas em pé, não explorar o chão e os mares”.

Organizações ambientais, lideranças indígenas, quilombolas e pescadores artesanais ocuparam a frente do Windsor Barra Hotel, no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (13/12), para protestar contra o 4º Ciclo da Oferta Permanente da ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustível).

Mais de 600 blocos foram ofertados, inclusive em áreas extremamente sensíveis do ponto de vista socioambiental, como regiões próximas ao arquipélago de Fernando de Noronha, Atol das Rocas e na Bacia do Amazonas.

Para denunciar as consequências do apelidado “Leilão do Fim do Mundo”, o Greenpeace Brasil realizou uma ação pacífica e criativa, com a simulação de um leilão do lado de fora do hotel onde acontecia o certame, em tom crítico e irônico.

Laila Zaid, ativista ambiental e atriz, representou o papel da leiloeira sedenta pelo avanço do petróleo.

“A gente brincou com esse leilão-sátira que é uma forma de ironizar o absurdo que está acontecendo, para ver se impactamos as pessoas pelo humor, pelo deboche, pela ironia. A arte traz isso. A arte consegue conversar de coração para coração”, disse ela.

A ação também jogou os holofotes na contradição do presidente Lula e de seu governo, que, apesar do agravamento da crise climática e de discursos eloquentes em defesa da Amazônia, seguem apoiando a expansão do petróleo em áreas sensíveis.

Para Marcelo Laterman, coordenador da frente de Oceanos do Greenpeace Brasil, a postura do governo brasileiro atenta contra qualquer legitimidade do país e do presidente Lula enquanto liderança climática.

“A realização do maior leilão de blocos de petróleo do país, logo após a COP28, acontece sem qualquer constrangimento do governo federal. Lula realizou eloquentes discursos durante a Conferência, mas suas políticas em relação ao petróleo vão no sentido oposto. Esse leilão é mais que uma contradição – é uma afronta à sociedade brasileira e aos esforços globais de combate à crise climática”, afirmou Laterman.

O porta-voz alertou ainda que “além de uma bomba de carbono, a ANP disponibilizou para o setor petrolífero patrimônios naturais, culturais e, o mais grave, territórios vitais para populações indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, que sequer tiveram o direito à consulta livre, prévia e informada respeitado”.

A mobilização também contou com a participação de organizações como o Instituto Arayara, Apib e Conaq, além de outros representantes indígenas, quilombolas e pescadores artesanais.

Direitos indígenas desrespeitados

O leilão incluiu 21 blocos na Bacia do Amazonas, coração da Amazônia. Mais da metade deles (12 blocos) está localizada em áreas de impacto direto de pelo menos 20 terras indígenas e zonas de amortecimento.

Um caso emblemático é o do bloco AM-T-132, que apresenta um enclave com quatro terras indígenas praticamente cercadas pelo bloco. São elas as TIs: Trincheira, São Pedro, Padre e Miguel/Josefa, respectivamente a 363 metros, 617 metros, 1.737 metros e apenas 72 metros de distância do bloco.

“Precisamos deixar as florestas em pé, não explorar o chão e os mares. Isso causa dano não só aos povos indígenas mas à toda a humanidade”, disse Kretã Kaingang, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Ameaça constante

Ainda que blocos em Fernando de Noronha e Atol das Rocas não tenham sido arrematados, seguem em oferta permanente, mesmo com as manifestações da sociedade civil e com possíveis impactos socioambientais.

Ao entrar nessa lista, que conta com quase mil blocos, as áreas podem ser incluídas na lista de leilão da ANP a partir de qualquer momento em que uma empresa demonstrar interesse.

Já a Bacia da Foz do Amazonas, que teve 21 blocos ofertados, não conseguiu se livrar do petróleo. Japiim, uma área de acumulação marginal no coração da floresta foi arrematado pela Eneva em parceria com a Atem, distribuidora de combustíveis que também adquiriu 4 blocos para exploração de petróleo e gás fóssil na região.

De acordo com monitoramento do Observatório do Clima, a Eneva opera o campo de gás fóssil de Azulão na Amazônia e vem sendo acusada de não respeitar os direitos dos povos indígenas atingidos pelo empreendimento.

“Não à toa dizemos que foi o pior leilão de petróleo e gás promovido pela ANP em todos os tempos. Todas as diretrizes ambientais e sociais levadas à agência reguladora antes de definir essa licitação não foram cumpridas, por isso, a nossa litigância continuará nos tribunais”, ressaltou Nicole Oliveira, diretora executiva do Arayara.

Fonte: https://www.greenpeace.org/brasil/blog/ativistas-protestam-contra-leilao-do-fim-do-mundo/

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/10/17/estatal-deve-perfurar-o-primeiro-poco-na-foz-do-amazonas-em-2024/?fbclid=IwAR0PWVgAaXeXSwa7QJMGUMvYWSOcdWi0BgJlMpnkFo4ArJkXFPCCp6UX1UI

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2023/10/16/lula-ecologista/

agência de notícias anarquistas-ana

Começo de chuva…
A tempestade faz festa,
no meio da rua.

Humberto del Maestro