[Espanha] Anarquistas como todo mundo

Carmen Calvo, ex-membro de vários governos socialistas, bem como doutora em direito, jurista e parlamentar, quebrou sua tradicional e proverbial discrição perante a mídia para fazer uma declaração que deixou metade do país sem palavras; a outra metade já está acostumada a este tipo de disputa entre políticos.

O fato é que dona Carmen fez uma declaração arriscada diante dos microfones da SER, uma estação de rádio nada suspeita de simpatia pela causa pró-anarquista, o que não parece apropriado para alguém que ainda detém responsabilidades parlamentares dentro do partido socialista. A ex-vice-presidente do governo progressista veio dizer: “Acredito que a Espanha não é republicana nem monarquista porque teve experiências muito ruins com ambas as formas, acredito que nós espanhóis somos fundamentalmente anarquistas, todos nós, anarquistas de esquerda, anarquistas de direita ou anarquistas de meia-pensão”. Direto e reto, a declaração concluiria que a classe dominante espanhola não tem uma abundância de profissionalismo e projetos estimulantes, o que em sua opinião justificaria o tradicional desinteresse das pessoas comuns com respeito a todos os tipos de governos.

Como era de se esperar, o raciocínio do antigo braço direito de Pedro Sánchez [presidente da Espanha] causou uma agitação na mídia e nas redes sociais, embora a maioria tenha tomado o lado frívolo e não tenha querido procurar as razões subjacentes que levaram a ainda deputada a destacar, de forma um tanto precipitada, a tradição anarquista de nosso país.

Habituado como o movimento libertário em geral, e o anarcossindicalismo em particular, é ter todos os seus eventos e comunicados sistematicamente ignorados pela grande mídia, os repórteres pulando o bloco vermelho-negro ao entrevistar pessoas carregando bandeiras em manifestações, e até mesmo suas bandeiras desaparecendo misteriosamente em fotos e reportagens, esta popularidade breve e súbita também não tem sido exatamente o momento para brincadeiras.

Que os partidos políticos desapontaram até mesmo seus seguidores menos exigentes é uma realidade que não exigiu a descoberta tardia de uma das profissionais de representação mais antigas, mas essa desconfiança pública é mérito exclusivo da casta governante em si, não da genética antipatriótica que Carmen Calvo atribui à generalidade dos espanhóis, sem distinção de classe.

É verdade que a Península Ibérica tem sido historicamente um bastião do anarquismo internacional, e a grande contribuição destas ideias para as lutas e conquistas dos trabalhadores, para os projetos revolucionários que têm sido lançados repetidamente, também é indiscutível. Esta presença ativa e proeminente do anarquismo em nossas cidades começou em meados do século XIX e continua, com suas fases de expansão e repressão, até os dias de hoje. Mas nestes tempos de ofensiva neoliberal e cortes generalizados, a grande maioria da população espanhola está muito distante da ideologia anarquista; por mais que a ex-ministra afirme o contrário.

Não vamos recorrer à futurologia, mas é mais do que provável que se o anarquismo fosse tão forte quanto era no passado, a implementação de leis de mordaça, reformas trabalhistas e cortes sociais não ficariam sem contestação. A Sra. Calvo e todos os seus colegas podem ter certeza deste compromisso libertário com as lutas por um mundo melhor. E tais especialistas em ciência política podem ter certeza de algo mais: embora não haja unanimidade na atribuição do anarquismo à esquerda, o que é claro é que não há anarquistas de direita.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/alkimia/anarquistas-como-todo-el-mundo

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.

Soares Feitosa

[Argentina] Lançamento: “Llamamiento al socialismo”, de Gustav Landauer

Amigas, amigos, companheiras e companheiros, temos o prazer de comunicar o lançamento de um novo título da coleção Utopía Libertaria:

“Llamamiento al socialismo”, um clássico de Gustav Landauer.

“A figura de Gustav Landauer, injustamente esquecida, tanto dentro do anarquismo como mais ainda dentro da esquerda em geral, representa um marco inevitável para a história do pensamento libertário. Duas razões, pelo menos, encontramos para avaliar positivamente a reedição desta obra. Primeiramente, consideramos que o pensamento de Landauer possui um peso específico próprio dentro da literatura anarquista e emancipatória em geral, que por si só justifica nossa aproximação de seus textos. Isto pode apreciar-se em sua defesa apaixonada do socialismo como a melhor, a mais justa e a mais frutífera das relações possíveis entre seres humanos; em seu veemente chamado a criar ilhas de utopia dentro do imenso mar da injustiça social, desde onde se forjaria o socialismo do futuro […] A segunda razão é de caráter conjuntural: o acentuado interesse que se observa na nova esquerda pelo pensamento de Walter Benjamin cremos que poderia e deveria estender-se a Gustav Landauer. O autor das chamadas “Teses de filosofia da história”, que conhecia a obra do anarquista alemão por intermédio de seu grande amigo Gershom Scholem, compartilha com nosso autor, além do rechaço à ideia de progresso que caracteriza o marxismo mais ortodoxo, tanto uma filosofia da história similar –que dá ênfase no sentido que damos à história e que poderíamos denominar como filosofia da memória, como assim também um messianismo judeu secularizado que cifra suas esperanças de salvação em uma revolução que reúne dialeticamente duas dimensões: uma restauradora, a outra utópica. A primeira se propõe como retorno a um passado ideal, a segunda aspira a um futuro radicalmente novo.” 

Do prólogo de Nicolás Torre Giménez.

“O intelectual alemão Gustav Landauer, uma das figuras mais lúcidas que o anarquismo já teve em toda a sua história, é –paradoxalmente– uma das menos conhecidas e valorizadas, inclusive no seio mesmo do movimento ácrata. Só nas esferas libertárias de tradição germânica e judia a figura de Landauer goza do prestígio devido. Sua exuberante e complexa obra, afastada dos moldes doutrinais, irredutível às classificações simplistas, ficou excluída do cânone anarquista clássico. Humanista e livrepensador, autodidata exemplar, escritor e orador extraordinário, Landauer possuía uma sagacidade intelectual e uma cultura erudita verdadeiramente extraordinárias, assim como uma intensa sensibilidade Sturm und Drang que fez dele uma das principais referências do neo-romanticismo alemão de finais do século XIX e princípios do XX”. Homem multifacetado em suas inquietudes, cultivou com igual fruição a filosofia e a germanística, a novelística e a dramaturgia, a crítica e a história da arte, assim como o jornalismo e a propaganda política. Foi, também, um prolífico tradutor e editor, um conferencista notável e um infatigável militante e propagandista do socialismo libertário”.

Do esboço biográfico de Federico Mare.

“Gustav Landauer foi uma figura de relevo na literatura alemã, podemos qualifica-lo como uma das mais brilhantes e mais puras personalidades da revolução. De uma rara inteligência, de uma vastíssima cultura, de um sentimento artístico privilegiado, era para ele socialismo mundial uma pedra angular extraordinariamente preciosa. Não era um repetidor, era um criador; não transmitia em sua propaganda ideias feitas, programas acabados, mas que elaborava novas concepções, apresentava novos complementos, abria novos horizontes à visão e à ação. Enamorado da associação livre, do trabalho alegre, da cooperação voluntária, da comunidade e da justiça, se levantou contra a civilização capitalista e contra o marxismo que quer perpetuá-la em nome de um dogma contraditório”. 

Da Advertência de Diego Abad de Santillán na primeira edição em espanhol da editorial Nervio.

Nosso profundo reconhecimento à Ediciones El Salmón e a Jesús García Rodríguez, tradutor e especialista em filologia alemã, por havernos permitido contar com a revisão da tradução original –realizada por Diego Abad de Santillán para a editorial Nervio– e pelas notas do revisor que a acompanham. Esclarecemos que todos os textos traduzidos aqui incluídos foram ligeiramente modificados para adaptá-los ao espanhol rio-platense.

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Tradução > Sol de Abril

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ao pé da janela
dormimos no chão
eu e o luar

Rogério Martins

[Espanha] Milhares de pessoas se reúnem em Madri em apoio às sindicalistas da Confeitaria Suiza condenadas à prisão

A manifestação convocada pelo sindicato CNT reuniu cerca de 10.000 pessoas na capital com o objetivo de “denunciar a criminalização da ação sindical” e exigir a “absolvição imediata” das seis sindicalistas condenadas à prisão na confeitaria Suiza em Xixón.

Em junho de 2021, seis sindicalistas – cinco mulheres e um homem – da CNT foram condenadas a três anos e meio de prisão por crimes de coação e obstrução à justiça, além do pagamento de 150.000 euros, depois de assistir aos comícios convocados pelo sindicato em frente à Confeitaria Suiza, em Gijón, com o objetivo de apontar um conflito trabalhista. Os protagonistas já definiram a frase para esta mídia como “injusta e desproporcional” e baseada “em uma história totalmente falsa e orquestrada”, e hoje milhares de pessoas em Madri os fizeram saber que não são os únicos que pensam assim.

Sob o lema “Fazer sindicalismo não é crime”, a CNT reuniu cerca de 10.000 pessoas, segundo suas estimativas, incluindo cidadãos, membros de sindicatos, associações e coletivos para “defender as ferramentas legítimas de protesto social e de defesa dos trabalhadores”, como comunicaram no balanço da mobilização, que começou esta manhã diante do Ministério da Justiça na Calle de San Bernardo para terminar diante da Glorieta de Carlos V, em Atocha.

Juan Javier Herrera, secretário geral da CNT Madrid, declarou durante a marcha que o apoio demonstrado pelo público neste caso “marca um ponto de viragem” na luta sindical. Jara, uma das condenadas à prisão, está satisfeita com o trabalho realizado e classifica o apoio que resultou deste chamado como “incrível”: “Ver tantas pessoas nos apoiando significa que quando suas forças enfraquecem, você ganha impulso e continua um pouco mais”.

Esta é precisamente a ideia que o sindicato CNT enfatizou durante o dia: “Nem o Estado nem os empregadores entendem que não estamos sozinhos. Solidariedade é o que costura a classe trabalhadora”, dizem, enfatizando a rejeição “de uma sentença que, de fato, torna impossível o exercício da ação sindical e restringe severamente os direitos civis, como a liberdade de expressão e manifestação”. A jornada foi massivamente apoiada por uma multidão de coletivos como o PAH ou o Bloco Combativo, sindicatos como a CGT e até mesmo partidos políticos como a Unidas Podemos.

A marcha, apoiada por pessoas que viajaram de toda a Espanha para protestar contra a repressão sindical e expressar seu apoio às mulheres condenadas, passou sem incidentes. A marcha terminou com discursos dos réus, que defenderam que o “senso de justiça e solidariedade” era o principal motivo das manifestações e asseguraram categoricamente que “faríamos isso novamente”.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/represion/miles-personas-concentran-madrid-apoyo-sindicalistas-cnt-pasteleria-suiza-xixon-gijon-condenadas-prision?&utm_medium=social&utm_campaign=web&utm_source=twitter

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

fino fio de fumaça
fere o espaço
com seu perfume

Eliakin Rufino

Parte II | Esquerda/Direita: A Era PT no Brasil

Vença Quem Vencer, As Ganhadoras Serão As Mesmas: Um Posicionamento Ácrata  Sobre As Eleições Presidenciais de 2022.

Por V4N0L1 | 28/09/2022

Esquerda/Direita: A Era PT no Brasil

A exposição anterior do relato sobre a experiência francesa sob o governo de François Hollande não é despropositada para as finalidades deste texto, destinado a lançar uma visão ácrata prospectiva sobre as perspectivas em torno de um próximo governo federal do Brasil, consagrado pelo ritual eleitoral de 2022 – neste caso, um possível governo de esquerda: é isto que pretendo evidenciar a partir deste momento, onde passo a resgatar em largas linhas alguns aspectos destacados da experiência recente de mais de uma década de governos do PT no Brasil, apontando, sobretudo, para um esclarecedor paralelismo significativo de certos processos políticos verificados nas experiências dos dois governos em pauta (o daqui e o de lá). O que almejo com isto é demonstrar como existe um comportamento inequivocamente “traiçoeiro” por parte da esquerda social democrata quando no poder, e isto tanto em nível local como também em nível internacional, o que nos enseja a proposição de que não se trata aí de uma “mera coincidência”.

Seguindo a linha da demonstração do paralelismo significativo existente entre o governo Hollande na França e os governos do PT no Brasil, lembremos que foi durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula que, assim como aconteceu na França durante o governo Hollande, também no Brasil a esquerda foi a responsável por implementar uma reforma previdenciária (a qual, vale lembrar, havia sido proposta anteriormente por um governo atacado pelo PT – então na oposição – sob a acusação de ter um cunho neoliberal, o governo FHC, o qual só não conseguiu implementá-la devido ao baixíssimo cacife político com que contava ao final do seu segundo mandato) que penalizou mais a classe trabalhadora, instaurando, p.ex., um mecanismo de taxação dos aposentados, até então inexistente. O ex-presidente Lula, aproveitando os altos índices de popularidade de que gozava no início de seu primeiro mandato, “passou o rolo compressor” para atacar esse direito histórico da classe trabalhadora.

Aqui vale lembrar que em nenhum momento de sua trajetória no poder os governos petistas fizeram algum esforço significativo para viabilizar a tão debatida instauração de um mecanismo de taxação das grandes fortunas.

Ainda na linha do paralelismo entre os governos Hollande na França e PT no Brasil, o tratamento dado ao fenômeno do crescimento da violência urbana  – caracterizada especialmente pela adesão de parcelas da juventude periférica a organizações criminosas impulsionadoras deste fenômeno: organizações terroristas na França e facções criminosas no Brasil – por ambos os governos dos “companheiros” de orientação política “progressista” foi bastante semelhante: a militarização da sociedade, sem nenhum tipo de política complementar efetiva de oferta de programas culturais consistentes às juventudes periféricas que pudesse oferecer-lhes alguma alternativa mais atraente para afastá-las da sedução da busca de “compensação” pela violência.

Se na França o governo Hollande lançou mão do “Estado de Urgência”, no Brasil o governo do PT empreendeu ocupações de forças militares sobre favelas, por ocasião da realização de mega eventos esportivos como a Copa da FIFA e as Olimpíadas, sob a justificativa de garantia da segurança destes eventos. Aqui vale lembrar que, assim como na França, também no Brasil não faltaram relatos de arbitrariedades cometidos pelas forças da “ordem” contra as populações das comunidades periféricas e, a este respeito, é significativo um incidente ocorrido em fins do ano de 2016, por ocasião do processo de impeachment movido contra a ex-presidenta (como ela preferia ser chamada) Dilma Rousseff: naquele momento, verificou-se uma clara tendência à “evasão” – por parte das populações periféricas – dos círculos de apoio à presidenta e o Rapper Mano Brown, engajado na defesa de Dilma, declarou durante um ato público que lamentava que a periferia tivesse abandonado a presidenta, ao que a líder do movimento Mães de Maio (uma organização criada por mães de jovens periféricos assassinados durante uma ação policial) rebateu publicamente, afirmando: “se a periferia abandonou o governo, é porque o governo abandonou a periferia antes.”

Também no que se refere a ações eco-sociocidas o governo do PT no Brasil guarda um paralelo com o govenro Hollande na França: se lá o governo “socialista” encampou o projeto escandaloso do mega aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, aqui os governos do PT (Lula e Dilma) ressuscitaram também um antigo projeto de uma mega obra questionável e questionada que havia sido concebida ainda no período da ditadura militar, mas que não tinha sido levada adiante nem mesmo pelos governos autocráticos das casernas, e que – também aqui, aproveitando-se dos altos índices de popularidade de que gozava no seu primeiro mandato, o ex-presidente Lula usou de sua influência para neutralizar todos os elementos que de saída representaram um impedimento à realização da obra, especificamente, garantindo um desprezo escandaloso (da parte dos órgãos responsáveis) por todos os laudos prévios que foram emitidos durante a fase de estudos de impactos da obra, pois absolutamente todos eles concluíram pela imprudência do projeto: o laudo ambiental apontou um impacto extremamente danoso para o eco-sistema, com repercussões tais como a extinção de espécies inteiras de peixes próprias do Rio Xingu; o laudo social apontou um impacto cruel de sociocídio das populações de comunidades tradicionais locais – indígenas, ribeirinhos -, pelo fato de, por serem grupos com economias estreitamente dependentes do meio em que viviam, fatalmente não conseguiriam retomar suas condições originais de sobrevivência após serem deslocadas de seu lugar original de habitação para que a obra fosse realizada; e até mesmo o laudo especificamente “técnico”, de engenharia, apontou uma relação custo/benefício contraproducente pois, devido ao ciclo das águas específico do lugar, o retorno que a usina poderia oferecer em termos de produção energética não compensaria os altíssimos custos de sua construção.

Assim como aconteceu no processo de Notre Dame des Landes, também em Belo Monte houve resistências da parte de grupos da sociedade civil (especificamente, indígenas, ribeirinhos e trabalhadores da construção empregados na obra) contra a implementação da mega obra eco-sociocida.

Inicialmente, tal resistência se deu na forma da negativa da parte das famílias locais de deixarem suas moradias, ante o que, foram constrangidas pelas empreiteiras integrantes do Consórcio Norte Energia (responsável pela construção) a abandonarem seus lares sob atos de incêndios criminosos cometidos contra suas casas, tendo seus líderes comunitários chegado inclusive a enviar relatos documentados das agressões compondo vários abaixo-assinados solicitando a suspensão da obra para o então presidente Lula – que engavetou os documentos – e, posteriormente, ido até ao Senado Federal expor a situação – o que não surtiu nenhum efeito.

Posteriormente, a resistência se desdobrou em eventos de ações diretas de grupos indígenas locais que tentaram barrar o andamento dos trabalhos em alguns canteiros de obras e foram duramente reprimidos por forças governamentais.

Num momento já avançado da obra, os conflitos em Belo Monte culminaram num evento de paralisação grevista independente dos trabalhadores de dois dos principais canteiros de obras, que denunciavam condições de trabalho infra legais e exigiam que fossem respeitados seus direitos a jornadas de trabalho de no máximo oito horas de duração, bem como a folgas e a licenças para visitarem suas famílias: essa paralisação foi cruelmente reprimida por forças governamentais de várias esferas administrativas, as quais fizeram um cerco sobre os trabalhadores grevistas em seus canteiros de obras e cortaram o fornecimento de energia, alimentação e água, submetendo-os a essa tortura durante vários dias, após o que invadiram os locais e demitiram sumariamente muitos trabalhadores (as forças de segurança!), tendo inclusive corrido a informação de que um dos trabalhadores teria sido sequestrado pelos agentes e, posteriormente, desaparecido.

Diferentemente do que aconteceu em Notre Dame des Landes, os conflitos em Belo Monte não foram muito visibilizados, e a mega construção eco-sociocida dos governos do PT foi conduzida até às últimas consequências: a obra foi concluída.

Não é necessário pensar muito para se responder à questão sobre a quem interessou a construção da mega hidrelétrica de Belo Monte (“follow the money“), e a resposta a essa pergunta nos fornece uma boa linha de raciocínio para responder também à questão de mesmo cunho colocada ao final da primeira parte deste texto, a respeito do projeto do mega aeroporto de Notre Dame des Landes, empreendido pelo então governo François Hollande, do Partido Socialista francês.

Continuará…

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agência de notícias anarquistas-ana

Saudades da amada —
Caem flores de cerejeira
às primeiras luzes.

Kaya Shirao

[Espanha] Desde Rohilat e Irã a todo o mundo, Mulheres, Vida e Liberdade!

As Mulheres, o povo curdo e milhares de pessoas em todo o Irã se levantaram pela liberdade, os direitos e a igualdade em um Estado onde protestar é pôr em risco a vida, especialmente, para as mulheres.

Dia após dia ardem as ruas em protesto pela morte da jovem curda Jina Mahsa Amini detida em Teerã pela polícia moral iraniana por não usar “corretamente” o hiyab. Depois que o grupo de mulheres com as quais foi detida protestaram, foi golpeada no furgão policial e depois torturada na delegacia. Morreu após dias em coma no hospital.

O sistema iraniano está construído sobre um patriarcado fundamentalista, a opressão e a negação de direitos à população, e especialmente às mulheres, ainda mais quando se trata de mulheres curdas, que sofrem uma dupla opressão, de gênero e como povo.

Na história do Irã, as mulheres tiveram um papel importante nas lutas revolucionárias e representaram também uma grande força nas revoluções de Rohilat (Curdistão do Este) antes de 1979 e nos levantes populares contra a atual ditadura. Além disso, as mulheres são também defensoras da língua, da cultura e da história. Por esta razão, as mulheres curdas são vistas como uma ameaça pelo regime. Mas não só as curdas, mas também as baluchas, azerbajanas e persas que enfrentam o sistema patriarcal, o regime iraniano.

Recentemente as mulheres organizadas estão se tornando mais fortes. Nos últimos tempos a repressão do hiyab e o aumento da brutalidade de polícia moral levaram a maiores respostas desde a auto-organização feminista das mulheres iranianas. No princípio deste ano, começaram a pôr em listas negras e a boicotar pessoas e negócios, como cafés, que fazem cumprir estritamente o hiyab. O movimento, descentralizado e autônomo, trata de criar espaços seguros para mulheres e pessoas da comunidade LGBTIQ+.

Sua força de resistência explodiu ante, uma vez mais, a manifestação extrema da violência patriarcal. Em resposta ao assassinato de Jina, as mulheres de Rojhilat, e de todo o Irã, voltaram a se rebelar gritando que estão fartas da ditadura e do regime islâmico. Saindo à rua, tirando o véu e queimando-o estão queimando os cimentos deste sistema.

Os protestos, que se estenderam às 31 províncias do Irã, e a mais de 130 cidades (entre elas as principais do país, como Teerã, Tabriz, Isfahan, Ahvazo Rasht), deixaram dezenas de pessoas assassinadas (ao menos 17, entre elas crianças e adolescentes), assim como centenas de feridas e detidas (quase 300 reconhecidas, ainda que muito provavelmente mais). As unem o rechaço à ditadura e à república islâmica, a um clero que atua como uma classe superior que define o sagrado e o tabu com violência e coerção, mas também se unem sob a bandeira que se escuta nos protestos das cidades curdas de Rohilat, e já em todo o país: “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulheres, Vida, Liberdade). É esta proclamação, que provêm do movimento de liberação curdo, a que talvez melhor reflita o espírito destes protestos; a Liberdade, a verdadeira democracia, só podem se construir desde a liberação das mulheres. Um marco que nos une à mulheres e à classe trabalhadora de todo o mundo ante as opressões do capitalismo, o fascismo, a teocracia e o colonialismo.

Desde o início o estado iraniano tentou esconder a verdade do ocorrido, ameaçando ao pessoal médico que atendeu a Jina e as mulheres que foram detidas com ela e testemunhos do ocorrido. Agora, tentando controlar estas mobilizações, censuraram o acesso à internet e a aplicativos móveis, e encorajam manifestações pró governamentais. Inclusive o exército ameaça com intervenção e aprofundar uma repressão impiedosa que já desde o início acontece com o uso de fogo real. No entanto, os protestos continuam, se anuncia greve geral e talvez o início de uma revolução que temos que apoiar desde todos os rincões do mundo.

Desde a CGT, desde a solidariedade internacionalista e feminista, mas, sobretudo desde uma luta comum, queremos apoiar a todas as pessoas e organizações que se levantaram em Rohilat, no Irã e em todo o mundo pela liberdade, os direitos e a dignidade. Pelas Mulheres, Vida, Liberdade!

 cgt.org.es

 Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Espere um pouquinho
Em respeito às flores
Antes de tocar o sino.

Matsue Shigeyori

Vídeo | Mulher, Vida, Liberdade: Uma mensagem do Irã

As chamas da revolta ardem mais uma vez no Irã. Mas desta vez, parece diferente.

Uma revolução está em curso, uma revolução feminista. As primeiras faíscas da revolução começaram em Saghez do Curdistão, a cidade natal de Mahsa Amini. Ela era uma jovem curda de 22 anos que foi espancada até a morte pela polícia por usar o Hijab, o véu, de forma imprópria, no dia 16 de setembro de 2022. Mahsa era mais conhecida como Zhina entre amigys e familiares. Na língua curda, Zhina significa vida. A República Islâmica do Irã extinguiu sua vida e inúmeras outras como sacrifícios aos altares do Patriarcado, da Religião, do Racismo e do Capitalismo.

As primeiras centelhas da rebelião iniciadas com os cantos “Jin, Jiyan, Azadi”, “Mulher, Vida, Liberdade” são agora uma revolução que se espalha por todas as 31 províncias e centenas de cidades. Mesmo os bastiões ideológicos do regime, Qom e Mashhad, se rebelaram. Pela primeira vez, a polícia é o alvo direto da ira do povo. Policiais foram expulsos, espancados e mortos. Viaturas da polícia foram viradas, queimadas e destruídas. Delegacias de polícia foram tomadas e incendiadas. As pessoas não têm mais medo deles. A revolução está dando frutos.

Oshnavieh é a primeira cidade libertada e sob controle total da população em 24 de setembro. Estamos a apenas um passo de derrubar o culto da morte que é a República Islâmica do Irã. Resta saber se daremos esse passo final. Mas, o povo do Irã já provou que não deve ser subestimado.

Vídeo produzido em colaboração com a Federation of Anarchism Era e subMedia.

>> Assista o vídeo (02:23) aqui:

https://antimidia.org/mulher-vida-liberdade-uma-mensagem-do-ira/

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agência de notícias anarquistas-ana

casca oca
a cigarra
cantou-se toda

Matsuo Bashô

[França] Um olhar crítico sobre a Internacional antiautoritária

Por René Berthier

A história da AIT, como a da Comuna de Paris, constitui uma questão estratégica política para as diferentes correntes de ideias que nela estavam presentes, e quiseram, todas, dar sua interpretação a respeito dos acontecimentos. Infelizmente, o movimento libertário em parte se moldou em torno dessa mitologia que não contribuiu para dar acerca deles uma visão racional. Valendo destacar que Bakunin, contemporâneo dos acontecimentos, tinha reconhecido o valor simbólico da insurreição, da mesma maneira que ele havia expressado reservas em relação à AIT. Os militantes libertários de hoje têm em mente um certo número de esquemas e ideias prontas que só puderam perdurar porque os herdeiros de Bakunin não examinaram realmente as coisas com atenção. A intenção deste trabalho é antes de mais nada tentar jogar luz sobre essas ideias prontas, e até, se possível, alterar os hábitos adquiridos.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://ielibertarios.wordpress.com/2022/09/22/texto-escrito-pelo-autor-especialmente-para-o-ccs-sp-nelca-btl-e-iel-em-funcao-da-comemoracao-dos-150-anos-do-congresso-de-saint-imier/

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agência de notícias anarquistas-ana

Caem no telhado
gotas de chuva ritmadas:
fresca batucada.

Ronaldo Bomfim

[Espanha] A CGT volta a defender o aborto livre, público, gratuito, seguro e universal como um direito fundamental das mulheres a decidir sobre seu próprio corpo

A organização ácrata considera que a nova proposta de lei que o Governo do PSOE-UP finalizou sobre este direito não descriminaliza o aborto nem o universaliza

A Confederação Geral do Trabalho (CGT), através de um manifesto difundido em razão do Dia Internacional de Ação Global pelo Acesso ao Aborto Legal e Seguro que se comemora esta quarta feira, 28 de setembro, volta a exigir como direito de todas as mulheres o aborto livre, público e gratuito.

A organização anarcossindicalista animou a toda a sociedade a participar e a respaldar as mobilizações previstas para esta jornada de luta, e influenciou na necessidade de conscientizar sobre as consequências que têm o fato de que uma mulher não possa decidir sobre sua própria gravidez. Neste sentido, a CGT considera que a maternidade não pode ser uma decisão forçada, mas algo planejado e desejado, uma decisão tomada pelas mulheres sem que existam pressões de nenhum tipo na mesma.

Além disso, como explicam os anarcossindicalistas, as maternidades forçadas precarizam, empobrecem e dificultam mais a vida das mulheres da classe trabalhadora. E neste sentido, desde a CGT afirmam que o aborto, que sempre existiu e foi praticado, segue sendo uma questão de classe social. Por isso, enquanto a burguesia e seus médicos podem custeá-lo economicamente, ou exercer a objeção de consciência na saúde pública, a classe trabalhadora põe em risco sua saúde e sua vida com abortos clandestinos e sem garantias em muitos lugares do planeta.

E é por isso, porque em muitos territórios do mundo o aborto segue sendo um delito, desde a CGT se solidarizaram com a luta de milhares de mulheres em todo o mundo, consistente na conquista do direito a decidir sobre seu próprio corpo, sua própria saúde e sua própria vida.

Por último, desde a CGT recordamos que todas as travas que continuam encontrando hoje as mulheres que lutam por este direito são utilizadas pela extrema direita, instalada em instituições políticas e religiosas, para continuar a sustentar a sociedade machista e patriarcal atual.

cgt.org.es

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

ipê amarelo
até a calçada
floresce

Ricardo Silvestrin

[Peru] Inauguração do “Centro Social Manuel González Prada”, em Lima

O Centro Social Manuel González Prada abriu as suas portas neste sábado, 17 de setembro.

Breve apresentação

Depois de muito trabalho, anunciamos a inauguração do “Centro Social Manuel González Prada”. Teremos uma biblioteca sobre questões sociais, uma hemeroteca, uma videoteca e uma livraria. Será também um espaço para a divulgação das ideias libertárias.

>> Mais infos (programação, contato…):

https://www.instagram.com/centrosocialgonzalezprada/

Anarquia e anarquismo significam o oposto do que seus detratores afirmam. O ideal anarquista pode ser resumido em duas linhas: liberdade ilimitada e o maior bem-estar possível do indivíduo, com a abolição do Estado e da propriedade individual. Se o anarquista deve ser censurado, é seu otimismo e sua confiança na bondade inata do homem. O anarquista, ampliando a ideia cristã, vê em cada homem um irmão; não, porém, um irmão inferior e indefeso a quem faz caridade, mas um irmão igual a quem deve justiça, proteção e defesa“. Manuel González Prada – “Pájinas libres” (1894)

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agência de notícias anarquistas-ana

Primavera. Chuva.
A moça de rosto molhado:
sombrinha furada.

Eunice Arruda

Belchior: “Por que temos de obedecer?”

Eu não faço música partidária. Eu sou a favor de um recrudescimento das qualidades individuais, diante de qualquer instituição e também da instituição política. Tem governo, eu sou contra. Tem partido, eu sou contra. Eu não quero pertencer a partido, igreja, escola, a nenhum grupo institucional. Se eu pertenço a algum é por estrita obrigação da qual eu não posso fugir. Nós os homens deste tempo, estamos humilhados pelas injunções do poder. Eu não quero poder nenhum. Ao contrário o poder é corruptor. Por natureza, o poder é avarento. Não é trocar um poder por outro. Eu quero diminuí-lo. Eu só pertenceria a um partido que não quisesse o poder. A arte deveria, ou deve, dizer às pessoas que o poder não é tão importante. Por que temos de obedecer? Por que nós devemos estar humilhados ou sujeitos à ideologia, política, pensamento, religião? Por quê? A minha arte quer propor uma liberdade de tudo. Eu como artista posso propor uma coisa muito maior do que qualquer partido político pode propor. Eu sei que não posso conseguir, porque não faz parte da arte a concepção desses resultados. Mas posso propor coisas muito mais abertas. Como artista posso propor muito mais liberdade do que qualquer partido político pode propor para mim. A minha função como artista é muito maior do que se eu fosse deputado, senador. O que eles podem propor, podem fazê-lo dentro de determinados limites e eu posso extrapolar esses limites.

Belchior

“Entrevista Revista Música” (1979)

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agência de notícias anarquistas-ana

alta madrugada,
vaga-lumes no jardim
brincam de ciranda

Zemaria Pinto

A extrema-direita não será derrotada pelas urnas e com conciliação de classes!

Vamos chegando ao final de 2022, e com isso, vivemos o período de mais um circo eleitoral, desta vez com ainda mais ares de espetáculo, em meio a um cenário ainda muito grave de fome, miséria e violência contra as classes oprimidas. Com a máquina a seu favor, Bolsonaro e Militares além de focar no jogo eleitoral, mantêm uma base de apoiadores mobilizada e violenta, como demonstraram os atos de 7 de setembro e episódios recentes.

Enquanto isso, uma frente política ampla encabeçada por Lula e Alckmin conclama uma conciliação de classes ainda mais recuada que nos últimos períodos. Esse movimento foi representado pelas cartas pró-democracia, articuladas pelas grandes entidades patronais, como Fiesp e Febraban, os setores mais aristocráticos ligados à USP e a outras entidades, e com amplo apoio das grandes empresas de mídia, que impuseram uma derrota ao golpismo de Bolsonaro e Militares, que se viram obrigados a recuar. Isso demonstrou que a maior parte da classe burguesa é contrária a qualquer tipo de ação que possa ameaçar a institucionalidade que os favorece. Essa direita mais tradicional, que em 2018 engrossou as fileiras bolsonaristas, no contexto atual está convencida de que deverá governar com Lula e Alckmin, para corrigir a rota do grande capital no próximo período.

Apesar desse diagnóstico imediato, não podemos minimizar os riscos que ainda se apresentam, com a extrema-direita crescendo entre policiais e militares, CACs, ruralistas, religiosos e setores da pequena burguesia, um cenário que pode se manifestar em ações violentas de pequenos grupos de indivíduos radicalizados, com seu projeto fascista. É urgente neste momento apostar na combatividade através da ação direta e na autodefesa, mas para boa parte da esquerda, o melhor é não subir o tom para não assustar os de cima durante as eleições. É por isso que não houve resposta aos atos bolsonaristas do 7 de setembro: o Grito dos Excluídos foi esvaziado, assim como os atos de 10 de setembro, que ganharam um tom muito mais de campanha eleitoral do que de protesto, sem sequer ter sido convocado pelas centrais sindicais, o que consequentemente não reuniu multidões.

Como anarquistas organizados, como revolucionários, reforçamos que a via eleitoral – seja enquanto voto crítico, antifascista ou qualquer argumentação de voto estratégico – não irá fazer as reais transformações que as classes oprimidas realmente precisam! Nessa conjuntura específica, tampouco vai conseguir derrotar a extrema-direita, que já se encontra impregnada no tecido social e vai seguir assim pelos próximos anos, se não houver um enfrentamento decidido e a construção de um campo que rompa com a estratégia hegemônica da esquerda brasileira nos últimos anos, a qual propõe a centralidade na conciliação de classes por meio da disputa interna das instituições burguesas. Sem que os movimentos populares façam luta de forma radical, em um contexto que o PT, caso vença, não terá uma situação econômica internacional favorável, não haverá qualquer avanço para as e os de baixo – e é bastante provável que a extrema-direita voltará a ganhar a simpatia de pessoas indignadas com a farsa do Estado Democrático de Direito, que mantém esse sistema de exploração e opressão. Lembramos que foram os enfrentamentos contra a direita nas ruas, em 2020, que colocaram o bolsonarismo nas cordas e permitiram alguns recuos no projeto autoritário de bozo e milicos.

Essas eleições são mais uma prova de que a centralidade nas urnas é um obstáculo para as lutas populares e a transformação da sociedade! É preciso apostar na ação direta cotidiana, e na construção de uma Frente de Classes Oprimidas que rompa com o reformismo e una as pautas dos movimentos sociais levando em conta suas necessidades e não o que é melhor para a eleição do político de turno, para avançarmos em mudanças profundas, que possam derrotar a burguesia e construir o Poder Popular!

Por vida digna, contra o sistema da fome e da morte!

Povo forte organizado em ação direta na luta pelo Poder Popular!

Organização Anarquista Socialismo Libertário – OASL

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Um ventilador
espalha o calor
e as notas da sinfonia

Winston

Anarquistas iranianos falam dos protestos em resposta ao assassinato de Mahsa Amini pela polícia

A Black Rose Anarchist Federation (Federação Anarquista Rosa Negra) dos EUA fala com os membros da Federação Anarquista Era, uma organização com membros tanto no Irã quanto no Afeganistão, sobre a recente revolta no Irã.

Em 13 de setembro de 2022, Mahsa Amini, de 22 anos, foi presa por uma “patrulha de orientação” iraniana (também conhecida como “polícia da moral”). Mahsa foi presa em Teerã por não respeitar as leis relacionadas com o vestuário. Três dias depois, em 16 de setembro, a polícia informou a família de Mahsa de que ela “tivera uma parada cardíaca” e tinha entrado em coma dois dias antes de morrer.

Relatos de testemunhas oculares, incluindo o do seu próprio irmão, mostram de forma clara que ela foi brutalmente espancada durante a prisão. Exames médicos divulgados indicam que ela sofreu uma hemorragia cerebral e um acidente vascular cerebral – lesões causadas por uma pancada que levaram à sua morte.

Desde que esta informação se tornou pública, protestos em massa eclodiram em todo o Irã para denunciar o assassinato de Mahsa pela polícia.

Para entender melhor essa situação em rápida mudança, realizamos uma breve entrevista com a Federação Anarquista Era, uma organização com seções no Irã e no Afeganistão.

Esta entrevista foi realizada entre os dias 20/09/22 e 23/09/22.

Entrevista

Black Rose / Rosa Negra (BRRN): Em primeiro lugar, poderiam apresentar-nos a Federação Anarquista Era?

FAE: A Federação Anarquista Era é uma federação anarquista regional ativa no chamado Irã, Afeganistão e mais além.

A nossa federação é baseada no Anarquismo de Síntese, aceitando todas as tendências anarquistas, exceto as tendências nacionalistas, religiosas, capitalistas e pacifistas. Os nossos muitos anos de experiência organizativa em ambientes extremamente opressivos como o Irã levaram-nos a desenvolver e a empregar táticas e filosofias organizativas insurrecionais.

Somos uma organização ateísta, vemos a religião como uma estrutura hierárquica que é mais antiga e duradoura do que quase todos os outros sistemas autoritários e muito semelhante ao capitalismo e outras estruturas sociais autoritárias que escravizam hoje a humanidade. A guerra de classes, do nosso ponto de vista, inclui a guerra contra o clero que nos rouba a liberdade e a autonomia, definindo o que é sagrado ou tabu, e impondo-os através da coerção e da violência.

BRRN: Quem foi Mahsa Amini? Quando, porque e como é que ela foi morta?

FAE: Mahsa Amini, a quem a sua família chama Zhina, era uma jovem curda comum de 22 anos, natural da cidade de Saghez (Saqez) no Curdistão.

Ela estava a viajar com sua família para Teerã para visitar familiares. Em 13 de setembro, enquanto estava com o seu irmão, Kiaresh Amini, a polícia da moralidade ou a chamada “Patrulha de Orientação” prendeu Mahsa por estar a usar “hijab impróprio”. O irmão dela tentou resistir à prisão, mas a polícia usou gás lacrimogêneo e também espancou Kiaresh.

Muitas outras mulheres presas testemunharam o que aconteceu na viatura da polícia. No caminho para a delegacia, houve uma discussão entre as mulheres detidas e os policias. Mahsa Amini foi uma das que protestaram contra a prisão. Ela disse que não era de Teerã e que deveria ser libertada.

A polícia usou a violência física para calar todas as detidas. Mahsa também foi espancada. De acordo com testemunhas oculares, a policia atingiu a cabeça de Mahsa fazendo-a bater com força na parte lateral da viatura em que seguiam..

Ela ainda estava consciente quando chegou à Agência de Segurança da Moral, mas as outras mulheres detidas notaram que ela não estava bem. A polícia mostrou-se completamente indiferente e acusou-a de ter protestado durante a viagem. As mulheres continuaram a fazer-se ouvir para que Mahsa pudesse ter os cuidados médicos de que necessitava. Os protestos foram recebidos com violência por parte da polícia. Mahsa Amini foi novamente espancada pela polícia e perdeu a consciência.

A polícia tentou reanimá-la bombeando ar com massagens no peito e levantando e massageando as suas pernas. Após essas tentativas frustradas, a polícia agrediu as outras mulheres confiscando todos os telefones portáteis e câmeras que pudessem ter gravado o incidente.

Depois de muita demora e depois de encontrarem as chaves perdidas da ambulância, Mahsa foi levada para o Hospital Kasra.

A clínica que recebeu Mahsa Amini disse num post no Instagram que Mahsa estava em morte cerebral quando foi internada. Este post do Instagram foi posteriormente apagado.

Em 14 de setembro, uma conta no Twitter de um amigo que trabalhava no Hospital Kasra relatou que a polícia ameaçou os médicos, enfermeiros e funcionários para não tirarem fotos ou fazerem vídeos e para mentirem aos pais de Mahsa sobre a causa da morte. O hospital, intimidado, obedeceu à polícia. Disseram aos pais que ela tinha sofrido um “acidente” e mantiveram-na em suporte de vida durante dois dias. Mahsa foi declarada morta em 16 de setembro. Exames médicos, divulgados por hacktivistas, revelam fraturas ósseas, hemorragia e edema cerebral.

BRRN: A identidade de Mahsa como curda desempenhou algum papel na sua prisão e na sua morte?

FAE: Sem dúvida, ser curdo em Teerã teve um papel importante na eventual morte de Mahsa. Mas, esta é uma realidade que todas as mulheres no Irã experimentam. Não precisamos ir muito longe para encontrar imagens de vídeos da polícia da moralidade a espancarem e forçarem mulheres a entrarem em viaturas, atirando mulheres para fora de um carro em movimento e assediando mulheres de hijab devido ao seu “hijab impróprio”. Esses vídeos mostram apenas uma pequena parte do inferno que as mulheres passam no Irã.

O fato de Mahsa estar com o irmão no dia da sua prisão não foi mero acaso. Na sociedade patriarcal do Irã, as mulheres devem ser acompanhadas por um familiar do sexo masculino, seja pai, marido, irmão ou primo, a fim de frustrar os modos da polícia e desencorajar indivíduos desagradáveis em público. Casais jovens não devem ser vistos muito próximos um do outro em público ou correm o risco de serem espancados e presos pela polícia da moralidade. Os familiares devem ter documentos como prova caso sejam questionados pela polícia. Prender mulheres por causa de batons e unhas pintadas era uma realidade que muitos de nós, mais velhos, nos lembramos vividamente no Irã.

A ameaça de ataques com ácido por “mau hijab” é outro pesadelo que as mulheres enfrentam no Irã.

O patriarcado e a autocracia religiosa afetam todas as mulheres.

BRRN: Como é que o povo iraniano soube da morte de Mahsa? Qual foi a resposta popular inicial?

FAE: Como dissemos anteriormente, havia muitas testemunhas oculares. Nenhuma ameaça poderia ter impedido que a história da morte de Mahsa fosse conhecida.

Vale a pena mencionar que o médico que atendeu Mahsa e o fotojornalista que documentou o estado de Mahsa e da sua família angustiada foram presos, e seu paradeiro atual é desconhecido.

A resposta inicial foi de indignação. As pessoas já estavam a partilhar a história de Mahsa desde o dia 14 de setembro. A indignação ainda não era suficientemente forte para provocar protestos e revoltas. As pessoas ainda pensavam que Mahsa estava em coma e havia esperança de que recuperasse. Em 16 de setembro é que foi declarada morta.

Primeiro, houve pequenos protestos no Hospital Kasra, que foram dispersos pela polícia. As faíscas da atual revolta foram acesas em Saghez, cidade natal de Mahsa.

BRRN: Qual a dimensão dos protestos atuais? Em que áreas do país se concentraram as manifestações?

FAE: A situação é muito dinâmica e está mudando excepcionalmente rápida. No momento em que escrevo estas linhas, as chamas da revolta incendiaram 29 das 31 províncias do Irã. Uma das características dessa revolta é que ela se espalhou rapidamente para as principais cidades do Irã, como Teerã, Tabriz, Isfahan, Ahvaz, Rasht e outras.

Qom e Mashhad, as fortalezas ideológicas do regime, juntaram-se à revolta. A ilha de Kish, o centro capitalista e comercial do regime, também se revoltou. Esta é a revolta mais diversificada que testemunhamos nos últimos anos.

Para 23 de setembro, os sindicalistas planejam uma greve geral em apoio aos protestos.

O regime marcou uma manifestação do Exército para o mesmo dia. Muita coisa está a acontecer.

BRRN: Como é que o estado iraniano respondeu a estas manifestações?

FAE: A resposta inicial do regime foi menos brutal do que já experimentamos antes. Uma razão é que eles foram pegos de surpresa. Não esperavam uma resposta tão forte. A razão mais importante é que Ibrahim Raisi está na ONU. A ausência de altos funcionários, a história divulgada de Mahsa e os protestos, e a pressão exercida sobre o governo sob o olhar atento da comunidade internacional pararam o massacre por enquanto.

Mas não nos enganemos. A polícia matou e feriu muitas pessoas desde o primeiro dia dos protestos. Alguns deles eram crianças de 10 anos e adolescentes de 15 anos. No entanto, antes tivemos o mês de novembro de 2019, quando o regime massacrou muitos milhares de pessoas em 3 dias.

Em todas as revoltas anteriores, a polícia não foi diretamente o alvo da raiva popular. Mas isso não aconteceu desta vez. Desta vez, eles são os bandidos e as pessoas querem o seu sangue. Isso os esgota física e mentalmente, o que consideramos uma boa notícia.

Neste momento, Saghez e Sanandaj estão a passar por uma repressão implacável. O regime trouxe tanques e veículos militares pesados​​para reprimir a revolta. Há muitos relatos de munição real a ser disparada contra os manifestantes.

Os protestos continuam. Muitos carros da polícia foram vandalizados. As delegacias de polícia foram atacadas e incendiadas. Só precisamos armar-nos e tomar o arsenal deles. Então, entraremos numa fase completamente diferente da revolta.

BRRN: É correto considerar estes protestos como feministas?

FAE: Sim, absolutamente. Como em todas as outras revoltas, houve desenvolvimentos e movimentações subterrâneas.

Pode-se dizer que a recente campanha de repressão ao hijab e o aumento da brutalidade da polícia da moralidade começaram em resposta à auto-organização espontânea, autônoma e feminista das mulheres iranianas. No início deste ano, as mulheres no Irã começaram a colocar na lista negra e a boicotar pessoas e empresas, como cafés, que aplicam estritamente o hijab. O movimento era descentralizado e sem liderança e tinha como objetivo criar espaços seguros para mulheres e membros da comunidade LGBTQ.

Essa opressão brutal culminou neste momento em que as mulheres estão na vanguarda em todos os lugares, queimando os seus lenços e enfrentando a polícia, já sem Hijab. O principal slogan do levantamento também é “Mulher, Vida, Liberdade”, um slogan de Rojava, uma sociedade cujas reivindicações são baseadas na ideologia anarquista, feminista e laica.

BRRN: Que elementos políticos (organizações, partidos, grupos) estão presentes nas manifestações, se existirem?

FAE: Em cada levantamento popular, muitas organizações, partidos e grupos tentam apropriar-se ou influenciar os protestos em seu benefício a cada levante.

A maioria deles deparou-se com um problema insolúvel durante esta revolta.

Primeiro, os monárquicos. Reza Pahlavi, o filho caloteiro do ex-xá do Irã, um indivíduo sustentado por dinheiro roubado e redes de mídia fora do Irã, pediu um dia de luto nacional. No meio da indignação pública e dos protestos iniciais, em vez de usar os seus recursos para ajudar a revolta. As pessoas finalmente viram o charlatão que ele é. A frase “Morte aos opressores, seja o Xá ou o Líder”, foi ouvida em todo o Irã.

Em seguida, MEK ou Mujahedin Kalq. O MEK tem um problema ideológico com esta revolta. É uma seita cujos membros femininos são forçados a usar lenços vermelhos. A sua origem está numa combinação das ideologias marxistas e islâmicas, dominada pelos marxistas-leninistas antes de 1979, e hoje uma seita ao serviço de estados capitalistas e imperialistas. No entanto, as mulheres no Irã estão a queimar os sues lenços e o Alcorão. Eles não têm voz neste clima político.

Depois, há os partidos comunistas que desprezam Rojava e que dela sempre falam mal. A sua análise de classe, desmascarada e enferrujada, não os ajuda a ganhar corações aqui.

Apesar de todos os discursos e propaganda na defesa do secularismo e do feminismo, não tinham sequer um slogan voltado para a libertação das mulheres. A sua ideologia impedia-os de gritarem “Mulheres, Vida, Liberdade”. Eles não tinham nada a dizer, por isso calaram-se. Graças a isso, a sua presença é muito mais fraca nos protestos atuais.

O movimento anarquista está crescendo no Irã. Essa revolta, sem liderança, feminista, antiautoritária e entoando slogans de Rojava, fez com que anarquistas, filiados e não filiados na federação, tivessem uma forte presença nesse levantamento. Infelizmente, muitos foram presos e feridos também.

Estamos trabalhando para perceber o potencial anticapitalista desse movimento. Porque a República Islâmica é um culto e uma religião de morte, sendo o patriarcado, o racismo e o capitalismo os seus pilares ideológicos. Para vivermos, precisamos ser livres; e isso não pode ser feito sem que a libertação das mulheres esteja na vanguarda.

BRRN: Em solidariedade. Obrigado pelo vosso tempo.

FAE: Solidariedade.

Não deixe de seguir a FAE no twitter (https://twitter.com/asranarshism) ou no telegram (https://t.me/joinchat/R7DGlUUVE6Pzt9kPM_jAuw).

Fonte: https://itsgoingdown.org/iranian-anarchists-on-protests-in-response-to-police-murder-of-mahsa-amini/

agência de notícias anarquistas-ana

o rio ondulando
a figueira frondosa
no espelho da água.

Alaor Chaves

[Espanha] Apoio maciço em Madri para as 6 sindicalistas condenadas de Xixón

A manifestação convocada pelo sindicato CNT reuniu 10.000 pessoas em Madri para denunciar a criminalização da ação sindical e exigir a absolvição imediata das seis sindicalistas condenadas à prisão em Xixón.

Sob o lema “Fazer sindicalismo não é crime”, a CNT reuniu uma multidão de pessoas, sindicatos, associações e coletivos para defender as ferramentas legítimas de protesto social e de defesa dos trabalhadores.

O sindicato CNT reuniu 10.000 pessoas em Madri para protestar contra a condenação das seis sindicalistas da CNT de Xixón que foram condenadas a três anos e meio de prisão e 150.000 euros de multa por participarem da campanha em apoio a uma trabalhadora da confeitaria La Suiza, em Xixón. Durante a manifestação, as expressões de apoio foram repetidas: “Não há direito porque somos acusadas por defender os direitos das mulheres no trabalho”. “Graças infinitas aqueles que encheram as ruas de Madri”. “Quando a força fraqueja, a solidariedade provou mais uma vez ser essencial”. Estes são alguns dos testemunhos ouvidos nesta jornada de luta em que a classe trabalhadora encheu as ruas da capital. Com apenas uma voz, apenas uma mensagem: “Nem o Estado nem os empresários entendem que não estamos sozinhas. A solidariedade é o que costura a classe trabalhadora”.

O trajeto da manifestação começou em frente ao Ministério da Justiça na Calle de San Bernardo e terminou em frente à Glorieta de Carlos V, em Atocha. A multidão avançou pelas ruas centrais de Callao, Preciados, Sol, Jacinto Benavente e Calle Atocha sem incidentes. A jornada anarcossindical foi dominada por uma atmosfera reivindicativa e festiva.

A passeata ocorreu sob o lema “Fazer sindicalismo não é crime”, diante de uma condenação que, de fato, impossibilita a ação sindical e restringe severamente os direitos civis, como a liberdade de expressão e manifestação. A jornada foi intensamente apoiada por uma série de coletivos, sindicatos e até mesmo partidos políticos. A Plataforma de Afectados por la Hipoteca, o sindicato CGT e partidos como Podemos e Izquierda Unida estiveram presentes na manifestação.

Outras organizações tomaram parte nos discursos de apoio. “Os juízes e um governo nada progressista estão deixando que isso aconteça”. Diziam desde a Plataforma de Afectados por la Hipoteca. Enquanto desde o Bloque Combativo diziam com força: “Nós mulheres não precisamos de flores, precisamos de gasolina. Somos militantes incendiárias que não cedem à repressão. Foram as companheiras de Xixón, mas poderia ter sido qualquer uma”.

Os discursos foram encerrados pelas companheiras acusadas. O momento mais emocionante e de protesto da manifestação veio com suas palavras cheias de sentimento e raiva: “Eles tentaram isolar um pequeno grupo de pessoas, mobilizações como estas mostram que não estamos sozinhas, isto afeta todas as pessoas boas deste país”.

E que não haja dúvidas, desde a CNT dizemos alto e claro: “Agimos por um senso de justiça e solidariedade, porque acreditamos no apoio mútuo. Que ninguém esqueça, nós o fizemos por compromisso e o faremos novamente”.

O ato terminou com a leitura de manifestos apelando à solidariedade e à luta contra a repressão sindical imposta pela Lei Mordaça. A manifestação terminou com uma apresentação do cantor Miguel Grimaldo.

>> Mais fotoshttps://www.cnt.es/noticias/apoyo-masivo-en-madrid-a-las-6-condenadas-de-xixon

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do orvalho
nunca esqueça
o branco gosto solitário

Matsuo Bashô

[Espanha] Uma multidão de pessoas em Madri abraça as condenadas de La Suiza na véspera da decisão da Suprema Corte

Uma marcha solidária atravessa o centro da capital sob o lema “Fazer sindicalismo não é crime”.

Entre dois e três meses. Esse é o tempo que pode levar até que as seis pessoas condenadas no caso La Suiza entrem na prisão. Condenadas a três anos e meio de prisão por crimes de coação grave e obstrução à justiça, seu caso está agora pendente perante a Suprema Corte, à qual as trabalhadoras, afiliadas à CNT, apelaram para evitar a prisão. A defesa sempre sustentou que as seis trabalhadoras foram condenadas por fazer sindicalismo através de concentrações em frente à confeitaria La Suiza de Gijón, que estava envolvida em uma disputa trabalhista na época, e elas negam ter feito ameaças ou coagido os proprietários do estabelecimento.

Neste sábado (24/09) em Madri, as condenadas puderam sentir o carinho de uma multidão de madrilenhos e madrilenhas, assim como de centenas de pessoas que chegaram à capital em 20 ônibus vindos de toda a Espanha. Os organizadores falaram de 10.000 pessoas na marcha, que contou com a presença do secretário geral da CGT, Miguel Fadrique, dos deputados madrilenhos do Unidas Podemos, Alejandra Jacinto e Agustín Moreno, do jornalista Antonio Maestre e Tino Brugos, da SUATEA.

Juan Javier Herrera, secretário geral da CNT, declarou durante a marcha que o apoio demonstrado pelo público neste caso “marca um ponto de inflexão” na luta sindical. Jara, uma das condenadas à prisão, está satisfeita com o trabalho realizado e classifica o apoio que resultou desta convocatória como “incrível”: “Ver tantas pessoas nos apoiando significa que quando suas forças enfraquecem, você ganha impulso e continua um pouco mais”.

O grito “Vocês não estão sozinhas” ressoou no comício final, no qual as mulheres condenadas tomaram a palavra, culminando uma marcha que, sob o lema “Fazer sindicalismo não é crime”, começou em frente ao Ministério da Justiça na Calle de San Bernardo e terminou em frente à Glorieta de Carlos V, em Atocha ao meio-dia.

As pessoas condenadas estão confiantes de que a Suprema Corte acabará enterrando um caso que elas denunciam ter sido uma montagem. O próximo passo é a convocatória para uma nova mobilização, desta vez em Xixón, com data e local ainda a serem determinados. Nesta sexta-feira, um manifesto foi apresentado pelo mundo da cultura em apoio as condenadas, com as assinaturas do músico Xune Elipe, do editor Daniel Álvarez Prendes, do ator Alberto San Juan, do sociólogo Juan Carlos Monedero, da colunista Cristina Fallarás, da filósofa Clara Serra, dos ensaístas Santiago Alba Rico, César Rendueles, Daniel Bernabé e Pablo Batalla, do artista Ánxel Nava, dos escritores Guillem Martínez e Paco Álvarez, dos historiadores Xavier Domènech e Francisco Erice, e dos jornalistas David Artime, Nuria Alabao e Xuán Candano, entre outras 100 pessoas.

Fonte: https://www.nortes.me/2022/09/24/una-multitud-arropa-en-madrid-a-los-condenados-de-la-suiza-en-visperas-de-que-el-tribunal-supremo-decida-si-entran-o-no-en-la-carcel/

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mostro o passaporte
minha sombra espera
depois da fronteira

George Swede

[Grécia] Solidariedade com os insurgentes no Irã

Religião! Como domina a mente do homem, como humilha e degrada sua alma. Deus é tudo, o homem é nada, diz a religião. Mas deste nada Deus criou um reino tão despótico, tão tirânico, tão cruel, tão terrivelmente exigente, que só a tristeza, as lágrimas e o sangue governaram o mundo desde que os deuses começaram. O anarquismo incita o homem a rebelar-se contra este monstro negro. Rompas vossos grilhões mentais, diz o Anarquismo ao homem, pois só pensando e julgando por vós mesmos podereis vos libertar do domínio das trevas, o maior obstáculo para todo progresso“. Emma Goldman

Faz uma semana, por causa do assassinato da iraniana Mahsa Amini, de 22 anos, nas mãos da polícia da moral de Teerã, milhares de mulheres iranianas têm se manifestado nas ruas contra a imposição do “hiyab”, a repressão e o regime ditatorial.

Amini foi detida pelos agentes que velavam pelo uso do “hiyab” enquanto visitava seus familiares em Teerã. Foi golpeada em um furgão quando a levavam ao centro de detenção de uma conhecida prisão da polícia da moral para uma “sessão informativa” de uma hora e, ao final de uns dias, acabou no hospital, sucumbindo aos ferimentos infligidos pelos agentes. Milhares de mulheres saíram à rua, queimando seus lenços em sinal de protesto e com o lema central, entre outras muitas bandeiras antigovernamentais, “Mulher, Vida, Liberdade” [jin, jiyan, azadi]. Nas manifestações que continuaram nos dias seguintes, a repressão imposta foi tão brutal que já se contam 31 mortos, por abrirem fogo contra os manifestantes e centenas de feridos e golpeados pelas forças repressivas.

A nível mundial, se evidencia um esforço universal para reestruturar o sistema de Estado capitalista, que luta por manter seu poder promovendo o conservadorismo e a disciplina em todos os níveis da vida social com o objetivo de voltar aos princípios básicos do sistema: a família nuclear e a homogeneidade nacional. Desde a proibição do aborto na Polônia e a anulação da doutrina ROEvsWADE nos EUA, até os feminicídios, violações e abusos diários, as redes de tráfico sexual que saem à luz constantemente (mas também as que não saem, que principalmente preocupam as mulheres imigrantes), o recrudescimento do ataque do sistema contra as mulheres é claro: intensifica a repressão.

O patriarcado e os papéis que impõem são parte integrante da organização hierárquica da sociedade por parte do Estado e do capital. Nas condições modernas também é parte do canibalismo social que promove com que os padrões políticos e econômicos sigam sendo os mesmos inesgotáveis: uma guerra de todos contra todos, na qual se promove a matança mútua dos pobres e ao mesmo tempo fascista. Constroem-se reservas nacionalistas e intolerantes do sistema, apontando a quem seja considerado “débil” na base da hierarquia social e de classe imposta. A religião, como outra forma de dominação, nunca pode ser um caminho de liberação para o corpo social. As religiões, apesar de tudo, sempre foram a conspiração da ignorância contra a racionalidade, da obscuridade contra a razão.

Nós, como mulheres anarquistas organizadas, nos solidarizamos com os insurgentes no Irã e percebemos a religião como outra tirania imposta especialmente às mulheres dentro do sistema autoritário patriarcal, nos negamos a entregar nossos corpos aos parlamentos de qualquer governo ou religião. Nos organizamos e coletivizamos contra tudo o que nos oprime, com o objetivo de difundir o questionamento dos limites do papel da mulher e as ideias dos que se opõem ao patriarcado e ao controle de nossos corpos, para impingir outro golpe ao mundo das mulheres. Poder, definindo nossas próprias vidas.

DO IRÃ AO MÉXICO – CONTRA A OBSCURIDADE RELIGIOSA

AS LUTAS DAS MULHERES PELA VIDA, A EDUCAÇÃO, A LIBERDADE

Reunião de microfones – terça-feira 27/09 às 19h00, Kamara, Tessalônica

Mulheres Livres, Coletivo pelo Anarquismo Social Negro e Vermelho, integrante da Organização Política Anarquista – Federação de Coletividades

Fonte: http://apo.squathost.com/eleftheres-ginekes-mavrokokkino-allilengii-stis-exegermenes-sto-iran-mikrofoniki-sigkentrosi/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

na blusa velha,
muitas borboletas –
ele adora tocá-las…

Rosa Clement

“Mesmo nas democracias, existe excesso de poder”

A seguir, trechos de uma entrevista que o cantor e compositor Belchior, “um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes“, concedeu “libertariamente” em junho de 1982 ao jornal O Pasquim. Belchior morreu no dia 30 de abril de 2017, aos 70 anos.

Ricky > Você participou do movimento estudantil de 68?

Belchior < Participava, mas de forma alternativa, achando que devia seguir outro rumo, pois era voltado à própria instituição, quando cabia ao universitário repensar todo o ato político brasileiro naquele momento. Por exemplo: eu achava que cabia aos estudantes pensar as alternativas para uma mobilização política que não fosse capitalista ou socialista. Queria uma experiência anarquista, no sentido mais rígido da palavra, uma experiência desordenadora. Imaginava que podíamos aproveitar a oportunidade do movimento estudantil pra ser algo mais que caudatário do movimento político institucional. Pretendia uma coisa mais concreta e inovadora que fazer passeatas de ‘abaixo o imperialismo’. Mas ao ultrapassar o movimento retórico fui vencido.

Ricky > O pessoal de 68 continuava agindo como nossos pais?

Belchior < Ah, minha música colocou isso de modo mais nítido e possível. Acho o seguinte: sem prática anarquista, não dá pra reformar ou transformar as sociedades. Mesmo nas democracias, existe excesso de poder. O Governo deve ser um organismo de serviço e não de autoridade. O critério de manutenção do poder deve ser a competência em prestar esse serviço. Devemos lançar fora esse negócio de carisma, de visão mística da autoridade, ligada a preconceitos religiosos antigos. A visão contemporânea do poder hoje é a Pax Mercatoria, a paz dos interesses.

agência de notícias anarquistas-ana

A chuva passou.
A noite um instante volta
A ser fim-de-tarde.

Paulo Franchetti