Ciclo de debates anarquistas

No Projeto Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo do Campo-SP

06/10 – Anarquismo e feminismo

07/10 – Práticas anarquistas

08/10 – Teatro anarquista

Horário: 19h00

Local: Rua Jurubatuba, 1610 – São Bernardo do Campo /SP

agência de notícias anarquistas-ana

durante o teu sonho
eu brinco com as nuvens
e tu não sabes de nada

Lisa Carducci

 

[Chile] Ataque incendiário contra 5 caminhões da empresa Aridos Baeza

Por volta das 21h00 do dia 1° de outubro de 2022, pessoas desconhecidas conseguiram entrar na empresa Aridos Baeza, localizada no Camino Internacional e Avenida Ejército Libertador, no distrito de Puente Alto.

Uma vez dentro, pulverizaram benzina e atearam fogo em cinco caminhões, reduzindo-os a cinzas, escapando sem serem detectados.

A própria empresa estimou as perdas em 380 milhões de pesos, enquanto a Confederação Nacional de Proprietários de Caminhões, escandalizada, declarou: “pela primeira vez, há um incêndio que afeta maciçamente os caminhões em Santiago”.

Pouco tempo depois, por meio de e-mails enviados aos meios de contra-informação, a “Célula Insurreccional por el Maipo”. Nueva Subversión” reivindicou a responsabilidade pelo ataque incendiário em defesa do Rio Maipo.

Da imprensa:

https://www.t13.cl/noticia/nacional/cinco-camiones-empresa-privada-terminan-quemados-puente-alto

https://www.chvnoticias.cl/casos-policiales/desconocidos-queman-camiones-estacionados-empresa-aridos-puente-alto_20221002/

agência de notícias anarquistas-ana

No pensamento
Um esqueleto abandonado –
Arrepios ao vento.

Bashô

Ativistas iranianos atacam jornal pró governamental Kayhan

Trata-se da sede do jornal ultraconservador Kayhan em Teerã, que desde que começaram os protestos qualifica as e os manifestantes no Irã de serem “mercenários do inimigo”.

O levante popular continuou no Curdistão Oriental e Irã desde 16 de setembro depois que a mulher curda Mahsa (Jina) Amini, de 22 anos, foi assassinada pela polícia da “moralidade” em Teerã por não cobrir a cabeça adequadamente.

A sede do jornal Kayhan, que designou as e os ativistas como “mercenários do inimigo”, foi atacada por manifestantes em Teerã.

“Os mercenários do inimigo tiraram as máscaras, não tenham piedade dos criminosos”, escreveu o  jornal Kayhan em 22 de setembro contra os protestos. O líder do Kahyan, o principal jornal conservador do Irã, foi designado pelo líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

O jornal informou que as e os ativistas jogaram coquetéis molotov em seu edifício principal e tentaram ingressar no interior, e acrescentou que algumas partes do edifício ficaram danificadas.

Enquanto que dezenas de manifestantes foram assassinados pelas forças estatais em todo o país, milhares mais foram detidos.

Dezenas de mortos, milhares de detidos

Segundo a agência de notícias Fars, as forças de segurança mataram 60 pessoas. A Organização de Direitos Humanos do Irã, com sede em Oslo, informou sobre ao menos 83 mortes, enquanto que o grupo de oposição iraniano People’s Mujahideen indicou que por volta de 300 manifestantes foram assassinados.

Segundo comunicados oficiais, mais de 1200 pessoas foram detidas. No entanto, outras fontes asseguram que são mais de 10 mil pessoas as presas.

No sábado realizaram-se manifestações em muitas universidades de todo o país.

As forças estatais atacaram violentamente os protestos na cidade de Zahidan na sexta-feira. Ao menos 58 pessoas morreram nesta cidade e mais de 200 ficaram feridas. Os protestos continuam na cidade.

No fim de semana passado, as pessoas saíram às ruas nas cidades do Curdistão Oriental como Sine, Urmiye, Kirmanşan, Seqız, Meriwan, Bokan, Mahabad, Degulan e Pewe.

Um ativista chamado Muhatar Ahmadi foi assassinado em Meriwan. Alguns manifestantes ficaram feridos. Também se informa que outras pessoas que protestavam ficaram feridas em Bokan.

No domingo, as forças iranianos interviram violentamente nos protestos em Zahidan, onde 58 pessoas morreram e 200 ficaram feridas durante os protestos da sexta feira passada.

Fonte: https://anfespanol.com/noticias/activistas-iranies-irrumpen-en-el-periodico-progubernamental-kayhan-38283

Tradução > Sol de Abril

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tempo
tem

Jandira Mingarelli

[Chile] Santiago, barricadas e panfletos no âmbito do Setembro Negro

A anarquia desde sua gênese tem sido ilegalista, oposta ao princípio de autoridade, relações hierárquicas e ao poder como um todo. A partir desse entendimento assumimo-la em nossa caminhada diária e, portanto, em momentos em que foi distorcida pelo circo eleitoral com participação e justificativas ridículas. Tornou-se essencial propagar o conflito antiestatal de várias maneiras, como tem sido o caso neste Setembro Negro que ainda não chegou ao fim.

Na noite de quarta-feira 21 deste mês [setembro], erguemos barricadas e propaganda com a convicção de que toda ação antagônica ao poder contribui para a extensão da luta antiautoritária.

Pela ação diária…

Claudia López e todos os nossos mortos, presentes!

Solidariedade ativa com os prisioneiros subversivos, anarquistas e mapuches!

A n a r q u i s t a s

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/09/08/chile-por-um-setembro-negro-e-combativo/

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Fim do nono mês –
A Península de Noto
tão longe se vê.

Katô Kyôtai

[Israel] Feira de Livros Anarquistas Jaffa Tel-Aviv, 21 a 22 de outubro de 2022

A Biblioteca Solidária está animada para trazer a você a primeira Feira de Livros Anarquista para a área de Jaffa – Tel Aviv.

21-22 de outubro de 2022

Casa da Solidariedade

9 Jaffa Rd.

Jaffa-Tel Aviv, Israel

A Feira de Livros Anarquistas é uma tradição da comunidade anarquista que começou nos anos 80 e agora é realizada todos os anos em todo o mundo. A feira é uma organização independente de grupos e comunidades anarquistas em todo o mundo que buscam dar uma plataforma para textos e publicações anarquistas radicais enquanto criam um espaço autônomo-colaborativo.

Nós, da ‘Biblioteca Solidária’, desejamos trazer essa tradição para Jaffa-Tel Aviv pela primeira vez por reconhecer a importância de eventos desse tipo para a comunidade político-radical ao nosso redor e por desejar expandir as ideias que promovemos ao longo do ano na biblioteca como um espaço comum e aberto para aprendizagem, pensamento e discussão sobre ideias e práticas antiautoritárias radicais.

Como ativistas políticos israelenses, criamos este evento a partir de uma compreensão e reconhecimento das injustiças políticas e sociais que ocorrem no espaço geopolítico em que vivemos e do desejo de mudá-lo.

Durante a feira, você pode encontrar editoras independentes com conteúdo político, livrarias locais, editoras de fanzines e movimentos populares. Durante esse tempo, as pessoas podem participar de uma palestra sobre diferentes aspectos do anarquismo e do ativismo em contextos locais; Workshops de faça-você-mesmo; Atividades para crianças e muito mais. Entrada aberta e gratuita durante o fim de semana.

Este é um espaço que serve como uma “ilha” onde nós podemos expressar com segurança ideias políticas que foram empurradas para fora do discurso público, social e político em Israel-Palestina. Esperamos com essa iniciativa que possamos criar alternativas sociais, políticas e econômicas que foram empurradas para as margens e que apelam para desafiar os arranjos e instituições que foram colocados diante de nós como um fato que anda de mãos dadas com a desigualdade, ocupação, sexismo, transfobia, exploração do racismo e opressão do meio ambiente, animais e muito mais.

A expansão do discurso político e do conteúdo radical requer a criação de um espaço seguro e acessível para todos – durante a feira, como na atividade geral da Biblioteca Solidária, não há lugar para racismo, capacitismo, assédio de qualquer tipo, sexismo, chauvinismo, transfobia. Este é um espaço aberto para famílias e amigos de todas as idades, a feira em si é 100% vegan e amigável aos animais.

Este é o nosso momento de nos encontrarmos, sermos inspirados, compartilharmos ideias, compartilharmos pensamentos e perguntas. Convidamos você a construir conosco na Biblioteca da Solidariedade e durante todo o fim de semana na primeira feira do livro anarquista em Yafa-Tel Aviv 2022.

FB: https://www.facebook.com/events/1028987527785768

Tradução > abobrinha

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tênue tecido alaranjado
passando em fundo preto
da noite à luz

Guimarães Rosa

[Uruguai] Cordón defende sua auto-organização! Nem um passo atrás!

|| Defender a auto-organização do Cordón, defender os projetos anárquicos. As 100 pessoas que recebem seu prato de comida na merenda e as “panelas populares”. As aulas livres e gratuitas. A praça ganha à especulação onde antes havia um lixão. O mercado popular e sua luta contra o lucro. As centenas de pessoas, suas assembleias autônomas, suas lutas… ||

As forças da propriedade privada virão desalojar um projeto, mas só encontrarão uma casa

As forças do Estado irão contra uma comunidade de luta auto-organizada em cinco anos, mas, spoiler, só ganharão uma casa. A panela popular, a merenda, as oficinas, as palestras, a biblioteca, tudo resistirá. A auto-organização baseada no apoio mútuo resistirá. Faz uns quinze anos uma casa no Cordón foi abandonada, jogada às traças, nós a resgatamos disso faz cinco anos e a pusemos à serviço das pessoas. Hoje os donos legais, como costumam fazer os capitalistas, lembraram os preços e esqueceram os valores.

Nosso projeto se trata de liberdade, uma liberdade que ganhamos, que sustentamos com nossas mãos e que já não poderão nos tirar. O que tem mais força bruta? E o quê? Não se trata de potência de choque, trata-se de ter um porquê e nós o temos. A grande diferença entre os que virão nos desalojar e nós é que nós sabemos o que defendemos. Nos acostumamos a ganhar nossa liberdade, não a mendigá-la e agora não há quem nos abaixe a cabeça…

Umas 300 pessoas passam semanalmente para se alimentar, para aprender e se organizar pelo local que será tomado para a especulação. Pessoas que aprendem que nada do que recebem é caridade, interesse ou engano político. Não há Estado ou igreja, só pessoas que decidem horizontalmente. Os que fazem boxe, os que fazem taekwondo, os que fazem yôga, os que vão a uma oficina de escrita, cantam murga ou dançam tango se cruzam com os que vão a almoçar ou merendar e se mesclam como irmãos. Somos parte dessa multidão, desses pobres que aprenderam a força de auto-organizar-se. Nada no Cordón Norte é grátis, mas bem livre, toda tentativa surge da solidariedade, do respeito verdadeiro e da aprendizagem contínua. Já ganhamos.

Não ao desalojo do Cordón Norte. Nem um passo atrás.

Jornal Anarquía

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Num vôo direto
o pássaro volta
procurando um teto

Eugénia Tabosa

P0rt0 Alegr3. Nossa resposta: a ação direta!

Diante do debate anarquista sobre o voto e as eleições, nossa resposta foi, é e será a ação direta contra toda autoridade. É urgente transcender do papel à ação.

Na madrugada do dia das eleições prendemos fogo em mais de 300 bandeiras eleitorais e panfletos que ascenderam os pneus de uma barricada no viaduto da Avenida Silva Só, área próxima do centro da cidade. Com essa ação cortou-se o fluxo da normalidade cidadã resignada ao voto como forma de vida.

Na faixa, e nos panfletos que acompanharam o fogo, estava escrito: “Contra todos os políticos, Contra toda autoridade, Viva a anarquia!”.

(agradecemos as imagens das redes sociais, vizinhos curiosos e mais…)

>> Link dum vídeo da ação no we transfer:

https://we.tl/t-1qasnxHsqx

>> Link da nota da imprensa:

https://gauchazh.clicrbs.com.br/porto-alegre/noticia/2022/10/queima-de-pneus-causa-bloqueio-na-avenida-silva-so-na-capital-cl8r5rimg0003014zkr2nmb6h.html

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Ameixeiras brancas —
Assim a alva rompe as trevas
deste dia em diante.

Busón

Parte III | Direita/Esquerda: O Governo Bolsonaro

Vença Quem Vencer, As Ganhadoras Serão As Mesmas: Um Posicionamento Ácrata Sobre As Eleições Presidenciais de 2022.

Por V4N0L1 | 29/09/2022

Direita/Esquerda: O Governo Bolsonaro

O governo Bolsonaro foi eleito na esteira do aceleramento do processo de perda de popularidade do Governo petista da presidenta Dilma Rousseff – lembremos que durante as manifestações populares nas assim chamadas Jornadas de Junho de 2013, o conjunto dos textos reivindicativos expostos pelos manifestantes através de cartazes expressava um leque de temas que abrangia praticamente todos os setores básicos da vida social constitucionalmente definidos como sendo direitos básicos do cidadão, sob a responsabilidade do Estado, nomeadamente, saúde, educação, segurança, transporte -, de sua destituição pelo Congresso, e do crescimento de uma tendência sócio-política antipetismo que teve seu ápice com a execução da prisão – em um quarto especial de dormitório da Polícia Federal – do ex-presidente Lula.

Aqui é importante lembrar que, a pretexto da campanha eleitoral para as eleições de 2018, Ciro Gomes – que concorreu por um partido considerado de esquerda (o PDT) – declarou que o então candidato pelo PT, Fernando Haddad (tutoriado diretamente por Lula, a partir da sua cela especial no dormitório da Polícia Federal em Curitiba), “bateu” muito mais nele (em Ciro, no caso) do que em Bolsonaro. O motivo? Ante o quadro desanimador das perspectivas para o PT naquele pleito – no que se referia às aspirações à presidência -, a estratégia adotada por aquele partido então lutando desesperadamente para se manter não apenas existindo, mas com chances de reverter o extremo desgaste público em que se encontrava, teria sido a de apostar na perspectiva do provável desgaste da direita pelo exercício do poder: em política há uma compreensão de que normalmente os governos tendem a cair em popularidade com o tempo, como consequência quase “natural” do exercício da governança: afinal, governar exige tomar medidas “impopulares” – ou, antipopulares -, mas, com um personagem tão chucro como Bolsonaro, não é necessário nem sequer ter a mínima noção de política para antever o desastre que um possível governo seu poderia configurar. E isso criaria o ambiente perfeito para lançar o povo no colo do PT novamente numa eleição posterior. Em suma: seguindo essa avaliação, o PT teria preferido um “inimigo” no poder do que um ex-aliado (Ciro Gomes), teria preferido a lógica de um projeto de poder à de um suposto projeto de nação.

Sem nenhuma surpresa, o governo Bolsonaro tem se configurado como um período de degringolação acentuada de políticas e instituições públicas voltadas para temas como os do meio ambiente e violência, alegando como justificativa para tal uma suposta necessidade de afrouxamento de regramentos ambientais para possibilitar um maior “progresso” econômico do país, porém – e aqui provocando alguma surpresa em boa parte dos militantes de esquerda com um conhecimento pífio sobre história política nacional e internacional e que, por isso, não sabem que políticas assistencialistas não são nenhuma marca de exclusividade dos chamados “progressistas” -, esse governo tem mantido vários programas sociais herdados da era dos governos PT, tendo inclusive chegado a ampliar a abrangência de público atendido e multiplicar os valores monetários concedidos nos casos de alguns deles (e isso, antes mesmo do período eleitoral).

Quanto às problemáticas orientações governamentais supracitadas relativas aos temas do meio ambiente e violência institucional, já vimos acima como, também nestes quesitos, as relações questionáveis por parte dos governos para com estes assuntos não são nenhum privilégio de nenhum dos lados limítrofes do leque político ideológico em questão.

O Centro

Há um “centro” no qual as orientações dos governos de direita e esquerda “social democrática” se encontram, e se este centro não é claramente “político-ideológico”, ele se configura como um tipo de ideologia de outra “dimensão”, qual seja, a ideologia do “desenvolvimentismo”, quer dizer, os “ideais” do “crescimento econômico” e da dinamização de processos produtivistas e consumistas: não por acaso, tanto governos de direita quanto de esquerda se demonstram dispostos a ultrapassarem todos os limites para promoverem grandes agentes econômicos, mesmo em detrimento do bem estar de várias parcelas de suas populações consideradas pelos frios raciocínios econômicos como sendo “desprezáveis”, “cartas fora do baralho”, conforme demonstram os exemplos das experiências governamentais que elencamos aqui.

Há Diferença?

Os temas dos grupos identitários e das “minorias” constituem-se como questões sobre as quais as abordagens políticas da esquerda social-democrata dita “progressista” e da direita conservadora parecem se distinguir claramente: aqui, o tratamento dado pelos governos de esquerda parece visar a redução das violências institucionais e interpessoais às quais estes grupos sociais estão submetidos historicamente, em sentido contrário às orientações políticas da direita. Entretanto, de uma perspectiva ácrata mais apurada, a análise exige uma maior complexificação.

As políticas dos governos social-democratas em relação aos temas em pauta caracterizam-se especialmente pela promoção de mecanismos de instauração de novas construções normativas – sociais e, em especial, estatais (currículos escolares, legislações judiciais, instituições especiais etc.) – orientadas por uma doutrina geral de “empoderamento” dos grupos sociais em questão o que, no limite, implica a possibilidade de uma provável geração de processos que, ao invés de promoverem uma equilibração nas relações sociais aí em jogo, poderão promover uma verdadeira inversão em algumas de suas dinâmicas específicas de poder – como de praxe, no que se refere aos paradigmas políticos da esquerda em geral. Em outras palavras: ao invés de equilibrar a balança, invertê-la. E, como as ácratas com maior clareza de compreensão sobre as perspectivas antiautoritárias sabem, toda relação de poder implica em alguma violência, independentemente se esta é sustentada por grupos tradicionalmente opressores ou por “minorias” históricas. A dinâmica de relacionamento conjugal revelada durante o recente e hiper midiatizado processo judicial por reparação de danos protagonizado pelo casal hoollywoodiano Amber Heard (militante LGBT e feminista) e Johnny Depp pode indicar a ponta de um possível iceberg de novos “habitus” sociais em formação, consequente ao avanço dos processos de instauração das novas construções normativas orientadas pelas doutrinas de (em)poder(amento) da esquerda.

É preciso lembrar: todas nós somos frutos de sociedades hierarquizadas e, portanto, todas somos autoritárias (no sentido ácrata do termo) também em alguma medida – inclusive, integrantes de “minorias”.

Ademais, qual contribuição para o avanço da luta pela emancipação humana das relações sociais de dominação/submissão pode trazer a emergência de governanantes negros tais como Obama, durante o governo do qual os índices de encarceramento da população negra nos EUA cresceram substancialmente e os investimentos daquele país em guerras contra países do Oriente Médio com populações de pele “escura” foram significativamente multiplicados; ou de estadistas mulheres tais como Cristina Kirchner, governante argentina apoiadora de regimes teocêntricos ditatoriais como o do Irã, onde mulheres são estupradas por agentes do governo como parte de suas políticas de repressão aos “crimes de costumes”; ou de presidentes indígenas tais como Evo Morales, que reprimiu duramente manifestações públicas de grupos ameríndios descontentes com o seu governo; ou de demagogos ex-operários?

Bem entendido, o paradigma antiautoritário de luta pela emancipação humana das relações sociais de dominação/submissão nunca se traduziu por equivocadas bandeiras de (em)poder(amento), mas, pelo contrário, pela construção de processos de POTENCIA(LIZ)AÇÃO das de baixo.

As Ganhadoras São as Mesmas: Bancos

Durante a era PT o endividamento da população brasileira com os bancos aumentou significativamente em consequência das políticas de criação de uma bolha de consumismo (o verdadeiro fenômeno ocorrido no processo que se convencionou denominar de “criação de uma nova classe média”, que foi favorecido, inclusive, pela coincidência de um ciclo econômico positivo do sistema globalizado durante o primeiro governo Lula – o que não será o caso em um eventual próximo governo do PT) através do atrelamento de programas sociais à oferta de créditos para aquisição de bens de consumo e, em contrapartida, os lucros dos bancos se multiplicaram enormemente, o que foi inclusive reconhecido publicamente de forma cínica por Lula ao proferir a frase “nunca antes na história desse país os bancos lucraram tanto como durante o meu governo”; do outro lado, o governo Bolsonaro impulsionou esse processo para um patamar mais escandaloso ainda, pela liberação do limite de juros a serem cobrados pelos bancos nos programas de créditos vinculados aos programas governamentais de auxílio financeiro.

Agronegócio

Durante a era PT o agronegócio ecogenocida teve espaço privilegiado, tanto, que um dos grandes pecuaristas do Brasil, José Carlos Bumlai, amigo pessoal de Lula, recebeu “a graça” de ter uma usina construída pelo governo em suas terras, e Dilma Rousseff colocou à frente do Ministério da Agricultura a pecuarista Kátia Abreu, alcunhada de “Miss Motossera” pelo Greenpeace por sua liderança em ações de desmatamento (foi durante a gestão de Kátia Abreu no ministério de Dilma que se perpetrou uma cruel repressão contra índios Guaranis Kaiowas no MS durante uma ação direta destes de retomada de terras ancestrais que já haviam inclusive sido reconhecidas pelo judiciário como sendo suas por direito); do outro lado, como é de conhecimento franco, o governo Bolsonaro fez de tudo para “fazer passar a boiada”.

Indústria Bélica

Durante a era PT o Brasil se tornou um dos maiores compradores de armas da indústria bélica israelense (vejam só: por um lado declaram apoio à causa palestina e por outro alimentam a indústria repressora israelense); do outro lado, como se sabe, o governo Bolsonaro fez o possível e o impossível para estimular e franquear o acesso a armas no Brasil.

Mega Empreiteiras (seria necessário falar algo sobre?)

E segue nessa linha.

Como se vê, seja com a esquerda social democrata ou com a direita no poder (não apenas no Brasil), as pautas neoliberais de retiradas de conquistas históricas das trabalhadoras, de promoção do avanço dos processos de espoliação e repressão das populações periféricas e de incremento das dinâmicas de devastação ambiental seguem sendo implementadas sem muitas alterações, em nome do “desenvolvimento” da nação, do crescimento econômico pelo incremento das dinâmicas produtivistas/consumistas, apenas com alguma diferença de “estilo criminoso”, a depender do grupo político/ideológico governante. Ou seja: as perdedoras são sempre as mesmas.

Por isso, o único lema de “campanha” coerente para o movimento ácrata, nesta ou em qualquer eleição, é este:

Vença quem vencer, as ganhadoras são as mesmas!

Não vote, organize-se!

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agência de notícias anarquistas-ana

tanto ao lado da chaminé,
como ao lado da porta –
o gato gelado

Jadran Zalokar

[Chile] Fórum / Conversatório “Anarquismo”, uma introdução educativa desde a Eskuela Libertaria del Sur

Em Santiago, no Vale Central, território dominado pelo Estado chileno.

Porque a constante acusação de falta de realismo das propostas anarquistas, antiautoritárias e libertárias não resiste ao menor contraste. É mais realista fingir que podemos chegar a uma sociedade solidária e sem privilégios desde o autoritarismo? Ou a uma sociedade igualitária desde as urnas?

Nesta segunda-feira, 3 de outubro, a partir das 18h00, convidamos você para uma jornada educativa de apresentação, debate, diálogo, reflexão, mas acima de tudo de aprendizado coletivo.

Teremos também uma feira libertária e alimentos veganos à venda.

Endereço do local via e-mail: eskuelalibertariadelsur@gmail.com

Contra o sistema escolar autoritário-patriarcal!

EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA

Autonomia e afinidade.

agência de notícias anarquistas-ana

Ao fim da fogueira
Apenas cinco cachorros
Dormindo ao redor.

Miyoko Namikata

[Espanha] Apresentação em Valladolid da HQ ‘Negras Tormentas, 1936-1939’

Na sexta-feira, 16 de setembro, aconteceu outra das sessões dedicadas aos quadrinhos que temos organizado a partir da CNT de Valladolid. Tivemos o prazer de ter entre nós novamente Rubén Uceda, um amigo desta casa, que nos apresentou a ‘Negras tormentas 1936-1939’. Neste trabalho Rubén culmina – junto com o cartunista Gabriel Cagliolo – o projeto que iniciou com ‘El corazón del sueño: verano y otoño de 1936’: usar a linguagem do romance gráfico para divulgar a história da revolução social que a classe trabalhadora empreendeu contra o avanço do fascismo na Espanha.

Foi um evento que reuniu pessoas de diferentes coletivos, o que enriqueceu muito o debate e demonstra a relevância dos temas abordados por Rubén em seus romances gráficos – apesar de toda a estratégia institucional e patronal para extinguir a memória comum deles, e que funciona como o combate eficaz de Rubén. Como escreveu um dos participantes, “estávamos compartilhando toda a alma e praxe da revolução libertária”. O coração do sonho e das negras tormentas é um compêndio tão belo e necessário, que nos fez vibrar com o passado dourado do anarquismo e o presente literário que o endossa”.

É assim que o próprio projeto explica o romance:

Este romance gráfico narra e recria a partir de uma perspectiva libertária o processo da guerra, a revolução social e a contrarrevolução, através das preocupações e vicissitudes de seus seis protagonistas, militantes anônimos e reconhecidos da CNT e Mujeres Libres. Protagonistas que experimentam amor e ódio, vitórias e derrotas, bem como as contradições de colocar os ideais em prática.

Ao longo de suas páginas se desdobra um apelo contra as guerras nas quais o povo sempre fornece os mortos. Ao mesmo tempo, reflete como um imenso número de pessoas soube se autogerir com base no apoio mútuo, na solidariedade e no federalismo.

É necessário contar estas histórias de revolução social, com suas possibilidades e seus fracassos, pois elas são parte essencial de uma memória coletiva que quase sempre foi coberta por capas de esquecimento e preconceito.

Este retorno ao passado que Negras Tormentas propõe não é um ato de nostalgia, mas um exercício de reconhecimento para conhecer a nós mesmos na história, para aprender e nos emocionar.

Rubén compartilhou conosco suas fontes nas biografias e testemunhos daqueles que estiveram envolvidos nesses eventos, e nos mostrou como a linguagem dos quadrinhos nos permite colocar em diálogo as perspectivas vividas a partir de lugares muito diferentes. Isto serviu como um estímulo para os presentes lerem e relerem.

O potencial das histórias em quadrinhos para explorar futuros alternativos, a situação da indústria de quadrinhos espanhola como espaço para promover projetos como este, foram dois dos muitos tópicos que surgiram em uma tarde de debate para recordar. Agradecemos a Rubén Uceda por nos oferecer esta oportunidade.

Fonte: https://www.cntvalladolid.es/presentacion-en-valladolid-del-comic-negras-tormentas-1936-1939/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Como que levada
pela brisa, a borboleta
vai de ramo em ramo.

Matsuo Bashô

[Porto Alegre-RS] 02/10 – Introdução ao Anarquismo

Em época de eleições sempre emerge a discussão sobre o voto nulo e, com ela, ressurge também o ideário anarquista. Mas, afinal, o que é Anarquismo?

Anarquismo é de Esquerda? Qual é a diferença entre anarquismo e comunismo? Anarquista pode votar?

Essas são algumas dúvidas comuns que, por vezes, ficam sem resposta. Inclusive entre anarquistas, que muitas vezes não têm uma formação adequada e se baseiam no pouco material disponível na internet.

Pensando nisso, o Espaço A convida a todes, anarquistas e simpatizantes, a participar de uma aula de introdução ao anarquismo no próximo domingo, às 18h, no Espaço, em Porto Alegre. Rua Castro Alves, 101.

>> Espaço é um Centro Social e Espaço de Cultura Libertária localizado em Porto Alegre, RS, nos territórios ocupados pelo Estado Brasileiro.

https://espaco.noblogs.org/

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velho caminho
sol estende seu tapete de luz
passos de passarinho

Alonso Alvarez

[Espanha] Anarquistas como todo mundo

Carmen Calvo, ex-membro de vários governos socialistas, bem como doutora em direito, jurista e parlamentar, quebrou sua tradicional e proverbial discrição perante a mídia para fazer uma declaração que deixou metade do país sem palavras; a outra metade já está acostumada a este tipo de disputa entre políticos.

O fato é que dona Carmen fez uma declaração arriscada diante dos microfones da SER, uma estação de rádio nada suspeita de simpatia pela causa pró-anarquista, o que não parece apropriado para alguém que ainda detém responsabilidades parlamentares dentro do partido socialista. A ex-vice-presidente do governo progressista veio dizer: “Acredito que a Espanha não é republicana nem monarquista porque teve experiências muito ruins com ambas as formas, acredito que nós espanhóis somos fundamentalmente anarquistas, todos nós, anarquistas de esquerda, anarquistas de direita ou anarquistas de meia-pensão”. Direto e reto, a declaração concluiria que a classe dominante espanhola não tem uma abundância de profissionalismo e projetos estimulantes, o que em sua opinião justificaria o tradicional desinteresse das pessoas comuns com respeito a todos os tipos de governos.

Como era de se esperar, o raciocínio do antigo braço direito de Pedro Sánchez [presidente da Espanha] causou uma agitação na mídia e nas redes sociais, embora a maioria tenha tomado o lado frívolo e não tenha querido procurar as razões subjacentes que levaram a ainda deputada a destacar, de forma um tanto precipitada, a tradição anarquista de nosso país.

Habituado como o movimento libertário em geral, e o anarcossindicalismo em particular, é ter todos os seus eventos e comunicados sistematicamente ignorados pela grande mídia, os repórteres pulando o bloco vermelho-negro ao entrevistar pessoas carregando bandeiras em manifestações, e até mesmo suas bandeiras desaparecendo misteriosamente em fotos e reportagens, esta popularidade breve e súbita também não tem sido exatamente o momento para brincadeiras.

Que os partidos políticos desapontaram até mesmo seus seguidores menos exigentes é uma realidade que não exigiu a descoberta tardia de uma das profissionais de representação mais antigas, mas essa desconfiança pública é mérito exclusivo da casta governante em si, não da genética antipatriótica que Carmen Calvo atribui à generalidade dos espanhóis, sem distinção de classe.

É verdade que a Península Ibérica tem sido historicamente um bastião do anarquismo internacional, e a grande contribuição destas ideias para as lutas e conquistas dos trabalhadores, para os projetos revolucionários que têm sido lançados repetidamente, também é indiscutível. Esta presença ativa e proeminente do anarquismo em nossas cidades começou em meados do século XIX e continua, com suas fases de expansão e repressão, até os dias de hoje. Mas nestes tempos de ofensiva neoliberal e cortes generalizados, a grande maioria da população espanhola está muito distante da ideologia anarquista; por mais que a ex-ministra afirme o contrário.

Não vamos recorrer à futurologia, mas é mais do que provável que se o anarquismo fosse tão forte quanto era no passado, a implementação de leis de mordaça, reformas trabalhistas e cortes sociais não ficariam sem contestação. A Sra. Calvo e todos os seus colegas podem ter certeza deste compromisso libertário com as lutas por um mundo melhor. E tais especialistas em ciência política podem ter certeza de algo mais: embora não haja unanimidade na atribuição do anarquismo à esquerda, o que é claro é que não há anarquistas de direita.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/alkimia/anarquistas-como-todo-el-mundo

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.

Soares Feitosa

[Argentina] Lançamento: “Llamamiento al socialismo”, de Gustav Landauer

Amigas, amigos, companheiras e companheiros, temos o prazer de comunicar o lançamento de um novo título da coleção Utopía Libertaria:

“Llamamiento al socialismo”, um clássico de Gustav Landauer.

“A figura de Gustav Landauer, injustamente esquecida, tanto dentro do anarquismo como mais ainda dentro da esquerda em geral, representa um marco inevitável para a história do pensamento libertário. Duas razões, pelo menos, encontramos para avaliar positivamente a reedição desta obra. Primeiramente, consideramos que o pensamento de Landauer possui um peso específico próprio dentro da literatura anarquista e emancipatória em geral, que por si só justifica nossa aproximação de seus textos. Isto pode apreciar-se em sua defesa apaixonada do socialismo como a melhor, a mais justa e a mais frutífera das relações possíveis entre seres humanos; em seu veemente chamado a criar ilhas de utopia dentro do imenso mar da injustiça social, desde onde se forjaria o socialismo do futuro […] A segunda razão é de caráter conjuntural: o acentuado interesse que se observa na nova esquerda pelo pensamento de Walter Benjamin cremos que poderia e deveria estender-se a Gustav Landauer. O autor das chamadas “Teses de filosofia da história”, que conhecia a obra do anarquista alemão por intermédio de seu grande amigo Gershom Scholem, compartilha com nosso autor, além do rechaço à ideia de progresso que caracteriza o marxismo mais ortodoxo, tanto uma filosofia da história similar –que dá ênfase no sentido que damos à história e que poderíamos denominar como filosofia da memória, como assim também um messianismo judeu secularizado que cifra suas esperanças de salvação em uma revolução que reúne dialeticamente duas dimensões: uma restauradora, a outra utópica. A primeira se propõe como retorno a um passado ideal, a segunda aspira a um futuro radicalmente novo.” 

Do prólogo de Nicolás Torre Giménez.

“O intelectual alemão Gustav Landauer, uma das figuras mais lúcidas que o anarquismo já teve em toda a sua história, é –paradoxalmente– uma das menos conhecidas e valorizadas, inclusive no seio mesmo do movimento ácrata. Só nas esferas libertárias de tradição germânica e judia a figura de Landauer goza do prestígio devido. Sua exuberante e complexa obra, afastada dos moldes doutrinais, irredutível às classificações simplistas, ficou excluída do cânone anarquista clássico. Humanista e livrepensador, autodidata exemplar, escritor e orador extraordinário, Landauer possuía uma sagacidade intelectual e uma cultura erudita verdadeiramente extraordinárias, assim como uma intensa sensibilidade Sturm und Drang que fez dele uma das principais referências do neo-romanticismo alemão de finais do século XIX e princípios do XX”. Homem multifacetado em suas inquietudes, cultivou com igual fruição a filosofia e a germanística, a novelística e a dramaturgia, a crítica e a história da arte, assim como o jornalismo e a propaganda política. Foi, também, um prolífico tradutor e editor, um conferencista notável e um infatigável militante e propagandista do socialismo libertário”.

Do esboço biográfico de Federico Mare.

“Gustav Landauer foi uma figura de relevo na literatura alemã, podemos qualifica-lo como uma das mais brilhantes e mais puras personalidades da revolução. De uma rara inteligência, de uma vastíssima cultura, de um sentimento artístico privilegiado, era para ele socialismo mundial uma pedra angular extraordinariamente preciosa. Não era um repetidor, era um criador; não transmitia em sua propaganda ideias feitas, programas acabados, mas que elaborava novas concepções, apresentava novos complementos, abria novos horizontes à visão e à ação. Enamorado da associação livre, do trabalho alegre, da cooperação voluntária, da comunidade e da justiça, se levantou contra a civilização capitalista e contra o marxismo que quer perpetuá-la em nome de um dogma contraditório”. 

Da Advertência de Diego Abad de Santillán na primeira edição em espanhol da editorial Nervio.

Nosso profundo reconhecimento à Ediciones El Salmón e a Jesús García Rodríguez, tradutor e especialista em filologia alemã, por havernos permitido contar com a revisão da tradução original –realizada por Diego Abad de Santillán para a editorial Nervio– e pelas notas do revisor que a acompanham. Esclarecemos que todos os textos traduzidos aqui incluídos foram ligeiramente modificados para adaptá-los ao espanhol rio-platense.

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Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/06/29/reino-unido-lembrando-a-gustav-landauer/

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ao pé da janela
dormimos no chão
eu e o luar

Rogério Martins

[Espanha] Milhares de pessoas se reúnem em Madri em apoio às sindicalistas da Confeitaria Suiza condenadas à prisão

A manifestação convocada pelo sindicato CNT reuniu cerca de 10.000 pessoas na capital com o objetivo de “denunciar a criminalização da ação sindical” e exigir a “absolvição imediata” das seis sindicalistas condenadas à prisão na confeitaria Suiza em Xixón.

Em junho de 2021, seis sindicalistas – cinco mulheres e um homem – da CNT foram condenadas a três anos e meio de prisão por crimes de coação e obstrução à justiça, além do pagamento de 150.000 euros, depois de assistir aos comícios convocados pelo sindicato em frente à Confeitaria Suiza, em Gijón, com o objetivo de apontar um conflito trabalhista. Os protagonistas já definiram a frase para esta mídia como “injusta e desproporcional” e baseada “em uma história totalmente falsa e orquestrada”, e hoje milhares de pessoas em Madri os fizeram saber que não são os únicos que pensam assim.

Sob o lema “Fazer sindicalismo não é crime”, a CNT reuniu cerca de 10.000 pessoas, segundo suas estimativas, incluindo cidadãos, membros de sindicatos, associações e coletivos para “defender as ferramentas legítimas de protesto social e de defesa dos trabalhadores”, como comunicaram no balanço da mobilização, que começou esta manhã diante do Ministério da Justiça na Calle de San Bernardo para terminar diante da Glorieta de Carlos V, em Atocha.

Juan Javier Herrera, secretário geral da CNT Madrid, declarou durante a marcha que o apoio demonstrado pelo público neste caso “marca um ponto de viragem” na luta sindical. Jara, uma das condenadas à prisão, está satisfeita com o trabalho realizado e classifica o apoio que resultou deste chamado como “incrível”: “Ver tantas pessoas nos apoiando significa que quando suas forças enfraquecem, você ganha impulso e continua um pouco mais”.

Esta é precisamente a ideia que o sindicato CNT enfatizou durante o dia: “Nem o Estado nem os empregadores entendem que não estamos sozinhos. Solidariedade é o que costura a classe trabalhadora”, dizem, enfatizando a rejeição “de uma sentença que, de fato, torna impossível o exercício da ação sindical e restringe severamente os direitos civis, como a liberdade de expressão e manifestação”. A jornada foi massivamente apoiada por uma multidão de coletivos como o PAH ou o Bloco Combativo, sindicatos como a CGT e até mesmo partidos políticos como a Unidas Podemos.

A marcha, apoiada por pessoas que viajaram de toda a Espanha para protestar contra a repressão sindical e expressar seu apoio às mulheres condenadas, passou sem incidentes. A marcha terminou com discursos dos réus, que defenderam que o “senso de justiça e solidariedade” era o principal motivo das manifestações e asseguraram categoricamente que “faríamos isso novamente”.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/represion/miles-personas-concentran-madrid-apoyo-sindicalistas-cnt-pasteleria-suiza-xixon-gijon-condenadas-prision?&utm_medium=social&utm_campaign=web&utm_source=twitter

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

fino fio de fumaça
fere o espaço
com seu perfume

Eliakin Rufino

Parte II | Esquerda/Direita: A Era PT no Brasil

Vença Quem Vencer, As Ganhadoras Serão As Mesmas: Um Posicionamento Ácrata  Sobre As Eleições Presidenciais de 2022.

Por V4N0L1 | 28/09/2022

Esquerda/Direita: A Era PT no Brasil

A exposição anterior do relato sobre a experiência francesa sob o governo de François Hollande não é despropositada para as finalidades deste texto, destinado a lançar uma visão ácrata prospectiva sobre as perspectivas em torno de um próximo governo federal do Brasil, consagrado pelo ritual eleitoral de 2022 – neste caso, um possível governo de esquerda: é isto que pretendo evidenciar a partir deste momento, onde passo a resgatar em largas linhas alguns aspectos destacados da experiência recente de mais de uma década de governos do PT no Brasil, apontando, sobretudo, para um esclarecedor paralelismo significativo de certos processos políticos verificados nas experiências dos dois governos em pauta (o daqui e o de lá). O que almejo com isto é demonstrar como existe um comportamento inequivocamente “traiçoeiro” por parte da esquerda social democrata quando no poder, e isto tanto em nível local como também em nível internacional, o que nos enseja a proposição de que não se trata aí de uma “mera coincidência”.

Seguindo a linha da demonstração do paralelismo significativo existente entre o governo Hollande na França e os governos do PT no Brasil, lembremos que foi durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula que, assim como aconteceu na França durante o governo Hollande, também no Brasil a esquerda foi a responsável por implementar uma reforma previdenciária (a qual, vale lembrar, havia sido proposta anteriormente por um governo atacado pelo PT – então na oposição – sob a acusação de ter um cunho neoliberal, o governo FHC, o qual só não conseguiu implementá-la devido ao baixíssimo cacife político com que contava ao final do seu segundo mandato) que penalizou mais a classe trabalhadora, instaurando, p.ex., um mecanismo de taxação dos aposentados, até então inexistente. O ex-presidente Lula, aproveitando os altos índices de popularidade de que gozava no início de seu primeiro mandato, “passou o rolo compressor” para atacar esse direito histórico da classe trabalhadora.

Aqui vale lembrar que em nenhum momento de sua trajetória no poder os governos petistas fizeram algum esforço significativo para viabilizar a tão debatida instauração de um mecanismo de taxação das grandes fortunas.

Ainda na linha do paralelismo entre os governos Hollande na França e PT no Brasil, o tratamento dado ao fenômeno do crescimento da violência urbana  – caracterizada especialmente pela adesão de parcelas da juventude periférica a organizações criminosas impulsionadoras deste fenômeno: organizações terroristas na França e facções criminosas no Brasil – por ambos os governos dos “companheiros” de orientação política “progressista” foi bastante semelhante: a militarização da sociedade, sem nenhum tipo de política complementar efetiva de oferta de programas culturais consistentes às juventudes periféricas que pudesse oferecer-lhes alguma alternativa mais atraente para afastá-las da sedução da busca de “compensação” pela violência.

Se na França o governo Hollande lançou mão do “Estado de Urgência”, no Brasil o governo do PT empreendeu ocupações de forças militares sobre favelas, por ocasião da realização de mega eventos esportivos como a Copa da FIFA e as Olimpíadas, sob a justificativa de garantia da segurança destes eventos. Aqui vale lembrar que, assim como na França, também no Brasil não faltaram relatos de arbitrariedades cometidos pelas forças da “ordem” contra as populações das comunidades periféricas e, a este respeito, é significativo um incidente ocorrido em fins do ano de 2016, por ocasião do processo de impeachment movido contra a ex-presidenta (como ela preferia ser chamada) Dilma Rousseff: naquele momento, verificou-se uma clara tendência à “evasão” – por parte das populações periféricas – dos círculos de apoio à presidenta e o Rapper Mano Brown, engajado na defesa de Dilma, declarou durante um ato público que lamentava que a periferia tivesse abandonado a presidenta, ao que a líder do movimento Mães de Maio (uma organização criada por mães de jovens periféricos assassinados durante uma ação policial) rebateu publicamente, afirmando: “se a periferia abandonou o governo, é porque o governo abandonou a periferia antes.”

Também no que se refere a ações eco-sociocidas o governo do PT no Brasil guarda um paralelo com o govenro Hollande na França: se lá o governo “socialista” encampou o projeto escandaloso do mega aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, aqui os governos do PT (Lula e Dilma) ressuscitaram também um antigo projeto de uma mega obra questionável e questionada que havia sido concebida ainda no período da ditadura militar, mas que não tinha sido levada adiante nem mesmo pelos governos autocráticos das casernas, e que – também aqui, aproveitando-se dos altos índices de popularidade de que gozava no seu primeiro mandato, o ex-presidente Lula usou de sua influência para neutralizar todos os elementos que de saída representaram um impedimento à realização da obra, especificamente, garantindo um desprezo escandaloso (da parte dos órgãos responsáveis) por todos os laudos prévios que foram emitidos durante a fase de estudos de impactos da obra, pois absolutamente todos eles concluíram pela imprudência do projeto: o laudo ambiental apontou um impacto extremamente danoso para o eco-sistema, com repercussões tais como a extinção de espécies inteiras de peixes próprias do Rio Xingu; o laudo social apontou um impacto cruel de sociocídio das populações de comunidades tradicionais locais – indígenas, ribeirinhos -, pelo fato de, por serem grupos com economias estreitamente dependentes do meio em que viviam, fatalmente não conseguiriam retomar suas condições originais de sobrevivência após serem deslocadas de seu lugar original de habitação para que a obra fosse realizada; e até mesmo o laudo especificamente “técnico”, de engenharia, apontou uma relação custo/benefício contraproducente pois, devido ao ciclo das águas específico do lugar, o retorno que a usina poderia oferecer em termos de produção energética não compensaria os altíssimos custos de sua construção.

Assim como aconteceu no processo de Notre Dame des Landes, também em Belo Monte houve resistências da parte de grupos da sociedade civil (especificamente, indígenas, ribeirinhos e trabalhadores da construção empregados na obra) contra a implementação da mega obra eco-sociocida.

Inicialmente, tal resistência se deu na forma da negativa da parte das famílias locais de deixarem suas moradias, ante o que, foram constrangidas pelas empreiteiras integrantes do Consórcio Norte Energia (responsável pela construção) a abandonarem seus lares sob atos de incêndios criminosos cometidos contra suas casas, tendo seus líderes comunitários chegado inclusive a enviar relatos documentados das agressões compondo vários abaixo-assinados solicitando a suspensão da obra para o então presidente Lula – que engavetou os documentos – e, posteriormente, ido até ao Senado Federal expor a situação – o que não surtiu nenhum efeito.

Posteriormente, a resistência se desdobrou em eventos de ações diretas de grupos indígenas locais que tentaram barrar o andamento dos trabalhos em alguns canteiros de obras e foram duramente reprimidos por forças governamentais.

Num momento já avançado da obra, os conflitos em Belo Monte culminaram num evento de paralisação grevista independente dos trabalhadores de dois dos principais canteiros de obras, que denunciavam condições de trabalho infra legais e exigiam que fossem respeitados seus direitos a jornadas de trabalho de no máximo oito horas de duração, bem como a folgas e a licenças para visitarem suas famílias: essa paralisação foi cruelmente reprimida por forças governamentais de várias esferas administrativas, as quais fizeram um cerco sobre os trabalhadores grevistas em seus canteiros de obras e cortaram o fornecimento de energia, alimentação e água, submetendo-os a essa tortura durante vários dias, após o que invadiram os locais e demitiram sumariamente muitos trabalhadores (as forças de segurança!), tendo inclusive corrido a informação de que um dos trabalhadores teria sido sequestrado pelos agentes e, posteriormente, desaparecido.

Diferentemente do que aconteceu em Notre Dame des Landes, os conflitos em Belo Monte não foram muito visibilizados, e a mega construção eco-sociocida dos governos do PT foi conduzida até às últimas consequências: a obra foi concluída.

Não é necessário pensar muito para se responder à questão sobre a quem interessou a construção da mega hidrelétrica de Belo Monte (“follow the money“), e a resposta a essa pergunta nos fornece uma boa linha de raciocínio para responder também à questão de mesmo cunho colocada ao final da primeira parte deste texto, a respeito do projeto do mega aeroporto de Notre Dame des Landes, empreendido pelo então governo François Hollande, do Partido Socialista francês.

Continuará…

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agência de notícias anarquistas-ana

Saudades da amada —
Caem flores de cerejeira
às primeiras luzes.

Kaya Shirao

[Espanha] Desde Rohilat e Irã a todo o mundo, Mulheres, Vida e Liberdade!

As Mulheres, o povo curdo e milhares de pessoas em todo o Irã se levantaram pela liberdade, os direitos e a igualdade em um Estado onde protestar é pôr em risco a vida, especialmente, para as mulheres.

Dia após dia ardem as ruas em protesto pela morte da jovem curda Jina Mahsa Amini detida em Teerã pela polícia moral iraniana por não usar “corretamente” o hiyab. Depois que o grupo de mulheres com as quais foi detida protestaram, foi golpeada no furgão policial e depois torturada na delegacia. Morreu após dias em coma no hospital.

O sistema iraniano está construído sobre um patriarcado fundamentalista, a opressão e a negação de direitos à população, e especialmente às mulheres, ainda mais quando se trata de mulheres curdas, que sofrem uma dupla opressão, de gênero e como povo.

Na história do Irã, as mulheres tiveram um papel importante nas lutas revolucionárias e representaram também uma grande força nas revoluções de Rohilat (Curdistão do Este) antes de 1979 e nos levantes populares contra a atual ditadura. Além disso, as mulheres são também defensoras da língua, da cultura e da história. Por esta razão, as mulheres curdas são vistas como uma ameaça pelo regime. Mas não só as curdas, mas também as baluchas, azerbajanas e persas que enfrentam o sistema patriarcal, o regime iraniano.

Recentemente as mulheres organizadas estão se tornando mais fortes. Nos últimos tempos a repressão do hiyab e o aumento da brutalidade de polícia moral levaram a maiores respostas desde a auto-organização feminista das mulheres iranianas. No princípio deste ano, começaram a pôr em listas negras e a boicotar pessoas e negócios, como cafés, que fazem cumprir estritamente o hiyab. O movimento, descentralizado e autônomo, trata de criar espaços seguros para mulheres e pessoas da comunidade LGBTIQ+.

Sua força de resistência explodiu ante, uma vez mais, a manifestação extrema da violência patriarcal. Em resposta ao assassinato de Jina, as mulheres de Rojhilat, e de todo o Irã, voltaram a se rebelar gritando que estão fartas da ditadura e do regime islâmico. Saindo à rua, tirando o véu e queimando-o estão queimando os cimentos deste sistema.

Os protestos, que se estenderam às 31 províncias do Irã, e a mais de 130 cidades (entre elas as principais do país, como Teerã, Tabriz, Isfahan, Ahvazo Rasht), deixaram dezenas de pessoas assassinadas (ao menos 17, entre elas crianças e adolescentes), assim como centenas de feridas e detidas (quase 300 reconhecidas, ainda que muito provavelmente mais). As unem o rechaço à ditadura e à república islâmica, a um clero que atua como uma classe superior que define o sagrado e o tabu com violência e coerção, mas também se unem sob a bandeira que se escuta nos protestos das cidades curdas de Rohilat, e já em todo o país: “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulheres, Vida, Liberdade). É esta proclamação, que provêm do movimento de liberação curdo, a que talvez melhor reflita o espírito destes protestos; a Liberdade, a verdadeira democracia, só podem se construir desde a liberação das mulheres. Um marco que nos une à mulheres e à classe trabalhadora de todo o mundo ante as opressões do capitalismo, o fascismo, a teocracia e o colonialismo.

Desde o início o estado iraniano tentou esconder a verdade do ocorrido, ameaçando ao pessoal médico que atendeu a Jina e as mulheres que foram detidas com ela e testemunhos do ocorrido. Agora, tentando controlar estas mobilizações, censuraram o acesso à internet e a aplicativos móveis, e encorajam manifestações pró governamentais. Inclusive o exército ameaça com intervenção e aprofundar uma repressão impiedosa que já desde o início acontece com o uso de fogo real. No entanto, os protestos continuam, se anuncia greve geral e talvez o início de uma revolução que temos que apoiar desde todos os rincões do mundo.

Desde a CGT, desde a solidariedade internacionalista e feminista, mas, sobretudo desde uma luta comum, queremos apoiar a todas as pessoas e organizações que se levantaram em Rohilat, no Irã e em todo o mundo pela liberdade, os direitos e a dignidade. Pelas Mulheres, Vida, Liberdade!

 cgt.org.es

 Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Espere um pouquinho
Em respeito às flores
Antes de tocar o sino.

Matsue Shigeyori