[Chile] Santiago: Reivindicação de ataque incendiário contra a arena de rodeio no distrito de Renca

Na noite de 12 de setembro, alguns dias antes do início das festividades patrióticas, atacamos as galerias e quinchas de uma arena de rodeio localizada no sopé do morro Renca, recintos que, por motivos “esportivos” e “crioulos”, nada mais fazem do que perpetuar os maus-tratos e a tortura da vida animal, assim como a indústria pecuária e pesqueira, os centros de caça e vivissecção.

Segundo a FEROCHI (Federación Deportiva del Rodeo Chile, fundada em 1961 e que, em 1962, por meio de um documento oficial do Conselho Nacional do Esporte e do Comitê Olímpico Chileno, reconhece o rodeio como uma “disciplina esportiva”), são realizados mais de 1.900 rodeios por ano, demonstrando a sistematização dessas práticas abusivas. A FEROCHI, a Federação de Criadores de Cavalos, os Clubes Huaso do Chile e Gil Letelier, entre outros, são todas organizações cúmplices na manutenção desses altos números. Pela mesma razão, não devemos esquecer a necessária projeção de ações anti-especistas que procuram pôr um fim a esta realidade.

Persistindo nas formas de ataque ao poder, unimos forças ofensivas apostando e expandindo a Nova Subversão, da mesma forma que propomos nossa máxima disposição com a ação autônoma que busca intensificar a negação ao mundo da ordem e da lei.

Em memória de Macarena Valdés, Sebastián Oversluij, Claudia López, Matías Catrileo e Mauricio Morales.

Multiplicar a ação autônoma.

Pela libertação animal, fogo ao capital e seu progresso.

Grupo anti-especista Emilia Bau – Nova Subversão.

Tradução > Liberto

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Olha o velho lago –
Após o salto da rã
O barulho da água.

Bashô

[Espanha] XX Encontro do Livro Anarquista de Madrid

Contra um mundo que propõe apenas o consumo rápido e contínuo de coisas e pessoas e nos transforma a todos em objetos descartáveis, o 20º aniversário do Encontro do Livro Anarquista de Madrid é um compromisso de manter projetos fortes que avançam em direção à transformação social.

Com a mesma intenção que nasceu há duas décadas, a de construir relações e ser um ponto de referência para o pensamento revolucionário, voltamos. E convidamos você a propor, debater, participar e, é claro, assistir.

Nós o encorajamos a fomentar coletivamente uma cultura que descubra cada canto do poder e todas as formas de acabar com ele.

Nos vemos entre os livros.

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/01/espanha-xviii-encontro-do-livro-anarquista-de-madrid/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/14/espanha-17o-encontro-do-livro-anarquista-de-madrid/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/12/26/espanha-entre-as-estantes-da-ideia-libertaria-cronica-da-xvi-edicao-do-encontro-do-livro-anarquista-de-madrid/

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Em morosa andança
Ao léu com meu ordenança —
Contemplação das flores.

Kitamura Kigin

Eleições salvam? Breve comentário a respeito da corrida eleitoral

A corrida pelos cargos das instituições burguesas teve início oficialmente. E os grandes veículos de TV já organizaram entrevistas e debates com alguns presidenciáveis.

Na primeira semana de campanha quatro candidatos à executar a máquina de exploração do Estado foram entrevistados, ao vivo, no jornal de TV mais assistido do país e na sequência houve o primeiro debate entre candidatos a este cargo maior. O que podemos avaliar destes momentos?

Bolsonaro reiterou que seu projeto é uma atualização do projeto fascista da década de 30 do século passado, permeado por ultraliberalismo, movimento ideológico conhecido também como alt-right, que se estrutura no ultranacionalismo, no patriarcado e na superioridade de alguns grupos em relação a outros. O Excrementíssimo não deixou dúvidas quanto a esse projeto.

Ciro, que muitas pessoas consideram o mais preparado para o cargo, mostrou apenas seu interesse num crescimento econômico estatístico que favoreceria as elites empresariais com uma esmola a mais para as camadas vulneráveis, viabilizada pela taxação das grandes fortunas das pessoas mais ricas da nação, promessa que o mesmo faz como mera bravata por saber de quão remota são suas chances de vitória. E apesar das críticas ao governo PTista seu projeto é exatamente o mesmo, se aliar às elites empresariais para uma conciliação de classes. Além de evidentes sinalizações favoráveis, ao longo da campanha, para com o agronegócio brasileiro — uma das atividades econômicas que mais contribuem para o desastre ambiental e humanitário no país.

Lula, o Messias redentor para a grande massa, povo este vulnerável a estas campanhas hipócritas devido a um sucateamento programático da educação e cultura a que o povo têm acesso, declarou de forma inegável o seu projeto conciliatório com o qual as elites não precisam se preocupar pois foi durante os governos PTistas que estas mais teriam lucrado e que pretende fazer um governo ainda “melhor” que seus últimos, via um crescimento do PIB representado pelo aumento do lucro empresarial e maior poder de compra do povo pobre, isto é, a sofisticação dos métodos de endividamento destas pessoas.

Tebet apresentou pura demagogia fraseológica vendendo um identitarismo liberal como modelo de contestação social. A questão da mulher abordada por seu mandato não passa de uma corrida em busca de angariar votos femininos, haja vista que a até então senadora aprovou enquanto parlamentar todas as medidas anti-povo, prejudicando trabalhadoras no geral. E se formos falar do aborto, sequer aborda tal assunto, o que de certa forma já era esperado, por estar num campo conservador, embora o aborto seja uma questão central para a pauta feminina.

Isto foi apresentado nas entrevistas do JN, no cara-a-cara estes candidatos não destoam em nada das entrevistas, e a única diferença foi a presença de dois outros candidatos, o candidato do NOVO e a candidata do União Brasil, que seguiram a mesma linha de colocar no setor empresarial e acordos políticos com o espectro do centro como modelos econômicos sensatos no qual a população pode confiar e conceder seu voto.

A ausência de candidatos de partidos que se declaram revolucionários não é à toa e prova que o alcance dessa propaganda ao grande público segue um plano editorial e de censura, por mais que estas ditas candidaturas não provem uma linha verdadeiramente revolucionária destes partidos, a presença dos candidatos da UP, PCB e PSTU, poderia ter feito a diferença nas questões que estes apresentariam e do consequente limite da Social Democracia e do liberalismo declarado para a seguridade social. Inegavelmente estas candidaturas geram um confucionismo para as pessoas, no tocante à verdadeira metodologia de organização social para superar a concentração de riquezas estruturante da Ditadura Totalitária da Mercadoria.

Percebemos que o processo eleitoral aliena as massas de suas capacidades coletivas e dispersam energias que deveriam está sendo aplicadas na organização combativa do povo oprimido, além de serem uma falsa vitória fundada numa falsa segurança institucional, que mais de uma vez não foi respeitada quando seu resultado desagradava as elites dominantes, inclusive no passado recente em 2016.

Cabe organizarmos a revolta popular e transformarmos o esvaziamento intuitivo do processo eleitoral, observado no aumento progressivo do número de votos brancos, nulos e abstenções (que é o gesto de não ir às urnas), numa postura política consciente e consequente, via a organização de grupos de base a partir dos locais de trabalho, moradia, estudo e compartilhamento social, para, num primeiro momento, respondermos ao acirramento dos ataques fascistas que ocorrerão com a provável derrota do Excrementíssimo nas urnas, e também para estarmos bem organizados para darmos respostas efetivas independentes das instituições burguesas e suas elites políticas, de esquerda ou de direita, aos ataques burocráticos que este irá praticar antes de abandonar o assento presidencial. Essa é nossa tarefa imediata nesses 30 dias antes do primeiro ritu de submissão à ordem burguesa.

Só o povo salva o povo.

Fonte: https://lutafobrn.wixsite.com/lutafobrn/post/elei%C3%A7%C3%B5es-salvam-breve-coment%C3%A1rio-a-respeito-da-corrida-eleitoral

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Ah, quanta inveja
Da maneira que termina
O namoro dos gatos.

Ochi Etsujin

 

Pré-lançamento: Nossas histórias contamo nóis memo

R$ 30,00 – Pré-venda com desconto até o dia 12/10/22, envios a partir do dia 17/10.

Um livro sobre educação libertária, comunicação midiática plural, em linhas gerais é um livro sobre direitos fundamentais e, acima de tudo, é um livro que pretende debater tudo isso inserido em um contexto específico: unidades de medida socioeducativa de internação para adolescentes no estado de São Paulo (conhecidas também como Fundação C.A.S.A.). Sem pretensas imparcialidades, este livro se planta em uma perspectiva abolicionista carcerária, considerando qualquer instituição que promova a privação de liberdade uma ferramenta de controle social cujo fim, longe de ser a segurança pública, é a contenção da população negra e periférica.

O resgate histórico que a obra faz contextualiza como o Estado brasileiro lida com sua juventude em conflito com a lei. Evidencia quem são os internos nas instituições de “recuperação”: negros e periféricos, à margem de políticas sociais e relegados a própria sorte, aos quais o próprio Estado se apresenta para privar sua liberdade e disciplinar seus corpos e mentes. Uma relação entre Estado e as juventudes deixadas à margem que permanece a mesma ao longo da história.

As lutas que resultaram na nova república de 88 trouxeram avanços importantes no reconhecimento de direitos, com conquistas sociais como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Entretanto, existe um abismo entre o reconhecimento formal e a aplicação na prática cotidiana destes direitos pelas instituições, ou mesmo a sua aceitação pela sociedade. Vivemos em uma dita democracia que funciona na base do “diga-me onde moras que eu te direi quais direitos tem”.

Neste aspecto, o papel da imprensa hegemônica capitalista cumpre um papel essencial para moldar o pensamento da população, realçando os crimes contra a vida cometidos por adolescentes em conflito com a lei. Esta narrativa martelada a décadas é contraposta com a ajuda da estatística, que mostra que a maioria dos crimes são cometidos contra a propriedade ou estão relacionados com a guerra às drogas. O problema é que este discurso já faz parte do senso comum em todas as esferas sociais, e atualmente serve para fortalecer a onda autoritária e fascista que ameaça com retrocessos até mesmo o arcabouço legal que foi construído com a atual constituição. A proposta de redução da maioridade penal é um destes retrocessos que paira há muitos anos sobre o país, e que se concretizado ampliará ainda mais o encarceramento em massa da população negra e periférica.

Neste cenário desalentador a autora e educadora encontra brechas, possíveis dentro do sistema para instigar a autonomia em quem vive do lado de dentro das grades. Em um espaço tão limitado e controlado por uma instituição, a experiência de que os próprios adolescentes possam produzir seus programas, escolhendo as temáticas sem censura e soltando o verbo com sua própria linguagem, é uma centelha de liberdade, ainda mais para pessoas cujos nomes se tornaram siglas perante uma sociedade que os olha com desdém.

Para quem viveu o movimento das rádios livres na primeira década dos anos 2000, o livro retoma a importância do rádio como uma ferramenta de comunicação, em uma época onde impera uma internet dominada por grandes corporações. Mas não só, também resgata o “fazer o rádio” como organização política de nossa autonomia, que através da construção coletiva suscita o debate, a criatividade e o afeto e nos coloca como sujeitos fazendo a nossa própria história, com toda a potência, prazer e responsabilidade que esse tipo de atividade reverbera em nossos corações.

Por um programador da Rádio Tarrafa,

antiga 104.7 FM livre (Desterro – SC).

Nossas histórias contamo nóis memo: A garantia de direitos universais a adolescentes privados de liberdade através da comunicação e da arte

Ana Maria Masson Furlan

Monstro dos Mares

ISBN: 978-65-86008-21-0

100 páginas

monstrodosmares.com.br

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a noite sorri
lua crescente
nos olhos do guri

Alonso Alvarez

Opinião | O anarquismo antivacina

Por B. | 14/09/2022

Em 17 de Novembro de 2021, a Agência de Notícias Anarquistas publicou um artigo chamado “A Cena Libertária Virou Um Campo de Cordeirinhas Vacinadas” [1]. O texto acusa feiras “anarquistas” e “punks” (entre aspas no texto original) que ocorreram durante a pandemia, como a XI Feira Anarquista de São Paulo (que ocorreu dias antes da publicação) de não colocarem em discussão as políticas de passaporte sanitário, que tinham como objetivo diminuir o alcance de contágio do vírus COVID. Viagens de longa distância são o principal vetor de contaminação de vírus desse tipo. Ainda assim, o artigo trata tais medidas como “mecanismos de controle do Estado” para redução da liberdade individual de opinião e de ir e vir, ignorando sua efetividade em salvar vidas. Não se trata de uma questão de opinião ou da liberdade de ir e vir, mas antes de tudo do valor da vida humana e do conhecimento científico. Embora possam negar, as pessoas que redigiram este artigo estavam reproduzindo argumentos criados por teóricos da conspiração, e foram muito pouco criticados por isso.

A COVID-19 causou mais de 600 mil mortes no Brasil até agora, e hoje sabemos que esse número poderia ser muito maior caso as medidas sanitárias tivessem sido ainda mais ignoradas. Ao invés de apontar alternativas que não envolvam colocar a vida de pessoas em risco desnecessário, as pessoas que redigiram o artigo escolheram um discurso sensacionalista, atacando pessoas e organizações anarquistas que defendem medidas sanitárias como usar máscaras e evitar aglomerações, dizendo que “não passam de cordeirinhas mansas”.

Podemos entender melhor o contexto ao comparar as escolhas de organização de dois eventos anarquistas que ocorreram em novembro de 2021 no Brasil: a XI Feira Anarquista de São Paulo e a X Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre. A feira ocorrida em São Paulo decidiu não promover encontros presenciais, enquanto na feira de Porto Alegre as pessoas responsáveis pela organização sequer usaram máscaras. Por mais que a ausência de uma feira presencial em São Paulo tenha prejudicado o repasse de material físico, é preciso compreender a gravidade da situação e a escolha de não realizar eventos presenciais. É importante notar também que em Porto Alegre, a feira anarquista foi organizada por um grupo de pessoas diferente das outras edições, e foi consideravelmente menor.

A acusação de que cancelar eventos presenciais seria “peleguismo” ou discurso “eleitoreiro” é desonesta e descabida. A suposta postura “realmente radicalmente questionadora e ameaçadora da dominação e exploração político-econômica do sistema” se aproxima na verdade de uma postura conservadora. Com o benefício do tempo, podemos julgar com melhor precisão que, apesar dos discursos sobre o “acirramento do avanço das táticas de dominação pelo biopoder” que vem de “grandes laboratórios de tecnologia farmacológica”, o texto reproduz discursos antivacina que foram usados por conservadores e liberais. Isso demonstra a necessidade de um debate sobre negacionismo científico no meio anarquista.

Essa preocupação não é exclusividade do Brasil. Ao redor do mundo, anarquistas publicaram textos com acusações semelhantes, assim como respostas criticando as ideias negacionistas, conspiracionistas e “anti-lockdown” dentro do movimento anarquista. Uma dessas respostas foi publicada na Montreal Counter-info [2]. Embora concordem que “A crise do Covid19 apresentou um desafio para anarquistas”, que políticos mentem sobre o vírus e que a indústria farmacêutica se aproveitou da pandemia, a concordância acaba por aí:

“No Reino Unido, fomos informados de que o vírus era apenas uma gripe e para continuar trabalhando como de costume (No momento em que escrevo, a contagem de mortes é superior a 125.000). E fomos informados da vacina de Oxford, uma vacina do povo sem patente ou fronteiras (uma máscara que rapidamente caiu quando o Estado voltou ao nacionalismo da vacina). Mas essas não são as mentiras que eles têm em mente. Em vez disso, eles argumentam que os políticos e a mídia exageraram astutamente a ameaça do vírus, em um plano astuto para impor bloqueios e obter lucros farmacêuticos. (Certamente as corporações de desinfetantes para as mãos também estão por trás disso…?) Os anarquistas, nos dizem, acreditaram nessa mentira poderosa.”

A crença sobre uma conspiração do governo e da indústria farmacêutica para enganar a população a aceitar as medidas sanitárias como uso de máscaras, bloqueios e vacinas é, podemos afirmar com mais segurança agora, uma teoria da conspiração muito mais preocupante. A necessidade dessas medidas foi comprovada, e elas seguiram APESAR de uma notável falta de colaboração tanto de governos autoritários quanto de empresários da indústria farmacêutica. Não houve um aprofundamento significativo do “biopoder”, como alguns temiam, por conta dessas medidas. Antes, o controle da pandemia contou com iniciativas de apoio mútuo, ação direta e cooperação comunitária.

A situação foi e continua sendo explorada pelo capitalismo e pelo Estado, porém é preciso lembrar que o capitalismo, assim como o fascismo, cria corpos descartáveis às margens do sistema produtivo: “corpos velhos, corpos menos ou improdutivos, corpos que não podem ‘trabalhar'”. O capitalismo e o Estado também têm interesse em políticas de eugenia, e a pandemia serve a esse propósito.

“Reconhecer a pandemia como uma ameaça existencial é onde ‘nossa conversa deve começar’. (…) É o anarquista que é sujeito-agente aqui [na crítica], sua liberdade de agir com ou sem eles (os ‘vulneráveis’) em mente. Apaga desde o início os anarquistas idosos e vulneráveis. Onde estão eles e suas liberdades nessa revolta imaginada? (…) Não encontraremos liberdade em necrotérios.”

Portanto, não se trata de um acovardamento do movimento anarquista, como o texto acusou, mas de uma questão de princípios antifascistas. O “perigo do avanço das práticas totalitárias” não foi ignorado nem deixado de lado nas decisões que levaram a seguir as medidas sanitárias. Não cabe falar de “liberdade de expressão” e censura “contra toda e qualquer informação que questiona o discurso autorizado sobre a pandemia” sem levar em consideração a ameaça real à vida das pessoas. Esse descaso com o valor da vida humana também está presente nos discursos tanto da direita quanto da esquerda, seja no campo conservador, no liberal ou social-democrata.

Como podemos comprovar agora, não houve censura aos antivacina. A própria existência dessa publicação na ANA é evidência disso. Mas o movimento anarquista precisa questionar a reprodução de discursos rasos e sensacionalistas como esse. Essa é uma tendência global, como se pode ver no texto publicado na Montreal Counter-info:

“Finalmente, nosso amigo ataca a tirania do confinamento, alegando que, como anarquistas, esse deve ser o nosso objetivo, e que, ao não fazê-lo, cedemos covardemente à extrema-direita. Mas seu alvo é abstrato e confuso. Eles usam os termos toque de recolher, bloqueio e fechamento de forma intercambiável (um de seus artigos citados até descreve o uso obrigatório de máscara como ‘draconiano’!) e argumentam que essas medidas devem ser atacadas ‘em princípio”, pois são impostas sem “consentimento’. Argumentamos que, como anarquistas, não há Estado com o qual se possa consentir, e que a própria noção de contrato social não tem nada a ver com a anarquia. Em vez de fazer declarações vagas pela liberdade no estilo do Tea Party, devemos localizar e atacar os instrumentos de poder e controle. (…) À medida que as pandemias se tornam mais prevalentes e os ecofascismos entram no mainstream, os anarquistas devem lutar para garantir que ninguém seja ‘deixado para trás’.”

Os fatos que ocorreram desde a publicação dessa análise na ANA em novembro do ano passado demonstraram o quanto a publicação “envelheceu mal”. Acusaram anarquistas de negociar com “o princípio da liberdade”, sem perceber que estavam negociando vidas humanas. Os regimes autoritários defenderam abertamente o discurso da ‘imunidade de rebanho’ sem vacina. Isso se mostrou benéfico à estratégia necropolítica, o que a crítica às “cordeirinhas vacinadas” ignorou por completo. Sem contar o conservadorismo disfarçado na figura de linguagem que compara anarquistas que tomaram vacina ao movimento da bunda de uma funkeira…

É preciso conhecer melhor o inimigo. “Liberdade de expressão” para reproduzir oposição cega a tudo que vem do Estado não é coragem, é tão estúpido quanto se juntar a qualquer protesto contra o governo, mesmo que seja, por exemplo, para aprovar uma reforma trabalhista que prejudica ainda mais as trabalhadoras pobres. Estamos num tempo em que reacionários também confrontam a polícia e neonazistas também marcham contra decisões do governo que contrariam as suas “liberdades individuais”.

No Brasil, a Revolta da Vacina, que ocorreu no Rio de Janeiro em novembro de 1904, foi um protesto contra a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola que acabou tomando uma proporção política inesperada. O populismo no Brasil se beneficia com essa associação simbólica entre revolta popular e ceticismo quanto à vacinação.

É preciso lembrar também que o discurso antivacina está historicamente relacionado ao antissemitismo. Temos como exemplo emblemático a história do francês Paul Rassinier, que após ser expulso da Internacional Socialista, nos anos 20, aproximou-se ao mesmo tempo dos anarquistas franceses e de “ex-nazistas” como Johann von Leers, que trabalhou com Goebbels no Ministério da Propaganda do III Reich e fundou um partido fascista na Argentina. O discurso anti-semita do pós-guerra procurou associar as oligarquias capitalistas ao sionismo. Hoje, o discurso antissemita é combinado ao anti-intelectualismo fascista, o que é visível no discurso conservador que demoniza George Soros, mas exalta Elon Musk.

Por outro lado, o famoso filósofo antifascista Giorgio Agamben [3] declarou que os bloqueios criados para conter a COVID “se pareciam muito com a Alemanha nazista”. Em “A invenção de uma epidemia”, ele chamou a reação ao vírus de “frenética, irracional e totalmente infundada”, acusa as autoridades de enganar intencionalmente o público sobre a ameaça do COVID-19 e também a comparou a uma gripe comum.

Este discurso fortaleceu a resistência às medidas sanitárias, tratando-as como se fossem apenas um plano para cercear as liberdades individuais. O que une o discurso de Agamben  ao discurso de certos fascistas é o seu antimarxismo exagerado. Se qualquer ação do estado, mesmo em emergências sanitárias, deve ser recusada por ser intrinsecamente opressiva, e nenhuma alternativa concreta é apontada, a tendência é que o discurso individualista neoliberal se fortaleça. O episódio demonstra como colocar qualquer coisa acima de todas as coisas se aproxima do fascismo, até mesmo a crítica ao estado.

“No caso de Agamben, a desconfiança excessiva de qualquer autoridade estatal o cegou para as maneiras pelas quais as abordagens individualistas da pandemia reforçaram o poder corporativo enquanto exacerbavam a pandemia. Os chamados trabalhadores essenciais, junto com tantos outros, foram reduzidos a uma vida nua descartável, não por intervenção direta do estado, mas por políticas que pretendem libertá-los.”

O movimento antivacina dos EUA [4] se tornou “fortemente associado ao pensamento conspiratório e à proteção das liberdades individuais, características que estão encontrando um lar entre os grupos de extrema-direita”. No Brasil [5], de modo muito semelhante, a Covid-19 aprofundou a disputa política entre discursos negacionistas e científicos. O discurso negacionista foi defendido por autoridades do governo federal, grandes empresários, lideranças religiosas, e pela nova mídia digital. “Este discurso minimiza ou não reconhece a amplitude e importância da pandemia. Privilegiando a sustentabilidade da economia, incentiva a volta ao trabalho e o fim das medidas restritivas de quarentena horizontal e de lockdown”.

O discurso científico foi defendido por pessoas da área da saúde e organizações internacionais, governadores estaduais (que são responsáveis pelos hospitais) e alguns governos estrangeiros. “Por sua vez, este discurso privilegia o cuidado da saúde e a sustentabilidade da vida, defendendo o isolamento social com a quarentena horizontal e até lockdown como melhor forma de garantir a vida e, também, o êxito futuro em termos de sustentabilidade econômica”.

De modo geral, apoiadores do governo no Brasil e nos EUA, assim como líderes evangélicos, culparam os “comunistas” por criarem uma preocupação desproporcional em relação à COVID, enquanto defendiam o direito individual de não se vacinar e não usar máscaras. O discurso de alguns grupos anarquistas pode se relacionar a esse discurso por duas vias: pelo anticomunismo herdado da experiência com o regime soviético e pelo individualismo exacerbado de algumas tendências anarquistas. Isso pode ser evidenciado na ideia de que o vírus é Chinês, o que associou a crítica às medidas sanitárias da OMS com a crítica às medidas restritivas adotadas pela República Popular da China, governada pelo Partido Comunista Chinês.

Em oposição às medidas da OMS, o discurso negacionista ganha contornos nacionalistas com a acusação de imperialismo sendo usada como justificação para o descaso com a vacina e medidas preventivas. O antagonismo com as mídias tradicionais fortalece “fluxos informacionais customizados, proprietários e diretos”, onde a autoridade científica reconhecida por pares é trocada pela autoridade descentralizada de pequenos influenciadores em suas redes sociais, o que facilita a reprodução de notícias falsas e desinformação. Segundo uma matéria do Jornal da USP [6]:

“A negligência no combate à pandemia, a negação das vacinas e a insistência na promoção de tratamentos comprovadamente ineficazes contra a covid-19 suscitaram um verdadeiro levante de pesquisadores e entidades científicas contra a praga da desinformação que se alastra com consequências cada vez mais nefastas pelas mídias digitais. Na ausência de uma campanha oficial de esclarecimento e incentivo à vacinação por parte das autoridades, diversas universidades, organizações e entidades médico-científicos lançaram campanhas próprias sobre o tema nesta semana — num embate semelhante ao que já vem sendo travado desde 2019 na área ambiental, frente à negação sistemática de dados científicos sobre desmatamento e queimadas por parte do governo federal”.

Anarquistas precisam questionar a quem a ciência hegemônica serve, mas também a quem interessa o discurso negacionista. Ao contrário do que se propagou, as vacinas são seguras e salvam vidas, e quem diz isso não é um oligopólio farmacêutico mas sim trabalhadoras e pesquisadoras da área de saúde, que não ganharam nada com isso e não podem ser tratadas como “ingênuas”.

O aumento do fluxo de informação possibilitado pela internet esconde um perigo maior que o poder da indústria farmacêutica. Segundo a educadora anarquista Rhiannon Firth [7]: “Enquanto as teorias da conspiração sobre o vírus são abundantes, os teóricos do capitalismo de desastres, o mais famoso Klein (2007), mostram como não precisamos pensar que os desastres são feitos pelo homem por meio de uma conspiração para entender que sociopatas poderosos mobilizarão o medo, o pânico e momentânea falta de escrutínio em seus próprios interesses”.

Como alternativa ao anarquismo antivacina, podemos citar a profusão de medidas de apoio mútuo que surgiram durante a pandemia, como a criação e fortalecimento de ocupações; o incentivo a greves de trabalho e de aluguéis; apoio a refugiados e diversas ações diretas.

Nathan Jun e Mark Lance [8] também apontaram para a importância de estratégias anarquistas no enfrentamento da pandemia:

“Anarquistas abraçam não apenas a liberdade negativa – uma ausência de coerção – mas um tipo rico e substantivo de liberdade positiva. (…) Diante de um desastre tão devastador e repentino, há desvantagens óbvias em deixar a resposta para a organização espontânea de redes de base local. Uma resposta governamental significativa teria uma capacidade muito maior de atender às necessidades humanas e controlar comportamentos anti-sociais perigosos – não apenas se reunir em desacordo com os conselhos de saúde pública, mas coisas como especulação, abandono dos economicamente mais vulneráveis etc. (…) Mas em termos de sua capacidade de construir capacidade e nos mostrar novas maneiras não individualistas e não competitivas de estar juntos, elas são muito superiores a um governo competente. (…) Essas ações nos ensinam novas maneiras de ser – maneiras que o capitalismo e o sistema de saúde capitalista escondem sistematicamente”.

Essa potencialidade transformadora é perdida em conflitos desnecessários dentro do movimento anarquista, onde acusações rasas tomam o lugar de debates honestos. Nós também precisamos de redes de formação e informação científica de qualidade, ou então ficaremos reféns de teorias da conspiração e discursos sem criticidade, o que necessariamente implica em perda de autonomia.

[1] https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/11/17/a-cena-libertaria-virou-um-campo-de-cordeirinhas-vacinadas/

[2] https://mtlcounterinfo.org/anarchy-lockdown-and-crypto-eugenics-a-critical-response-from-some-anarchists-in-wales-england/

[3] https://slate.com/human-interest/2022/02/giorgio-agamben-covid-holocaust-comparison-right-wing-protest.html

[4] https://www.mcgill.ca/oss/article/covid-19-pseudoscience/anti-vaccine-movement-2020

[5] https://diplomatique.org.br/uma-gripezinha-a-analise-politica-do-discurso-negacionista/

[6] https://jornal.usp.br/ciencias/a-ciencia-contra-o-negacionismo/

[7] https://theanarchistlibrary.org/library/rhiannon-firth-mutual-aid-anarchist-preparedness-and-covid-19

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Ameixeiras brancas —
Assim a alva rompe as trevas
deste dia em diante.

Hori Bakusui

 

[Espanha] Lançamento: “Anarquismos en perspectiva: Conjugar el pensamiento libertario para luchar el presente”, de Tomás Ibáñez

Aqueles que lerem este livro não devem esperar encontrar uma exposição dos princípios proclamados pelo discurso anarquista habitual, mas sim uma tentativa de refletir sobre alguns dos temas do pensamento e das práticas anarquistas que já não parecem responder suficientemente bem às exigências das lutas atuais e aos desafios do pensamento crítico contemporâneo.

“Não há anarquismo mais genuíno do que aquele que é capaz de dirigir para si mesmo o mais implacável dos olhares críticos”.

Anarquismos en perspectiva: Conjugar el pensamiento libertario para luchar el presente

Tomás Ibáñez

Collecció: Idees Negres

ISBN: 978-84-18283-41-3

Format: 14,5x21cm

Pàgines: 198

Preu: 15,00€

descontrol.cat

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/03/21/espanha-lancamento-anarquismos-a-contratiempo-de-tomas-ibanez/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2014/04/15/espanha-novo-livro-anarquismo-e-movimento-de-tomas-ibanez/

agência de notícias anarquistas-ana

Ameixeiras brancas —
Assim a alva rompe as trevas
deste dia em diante.

Buson

[Grécia] Vídeo | Milhares de pessoas participam de protesto em Exarchia contra a gentrificação

Na sexta-feira, 09 de setembro, uma grande manifestação aconteceu no bairro de Exarchia, em Atenas. Os moradores e muitas pessoas solidárias estão resistindo a um esforço constante do Estado grego para remodelar o bairro através de uma intensa gentrificação. Estima-se que cerca de 3 mil pessoas marcharam pelo bairro e acabaram entrando em combate com um grande contingente da polícia de choque que está permanentemente vigiando o bairro 24 horas por dia, 7 dias por semana.

>> Veja o vídeo (04:20) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=MOzMJaxQyOs

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Nuvem vaidosa
Pra se despedir do sol
Se vestiu de rosa.

Setsuko Geni Oyakawa

Lançamento do livro “Introdução ao pensamento anarquista na geografia: Piotr Kropotkin e Charles Perron

Conversa com o autor e companheiro Amir El Hakin, sábado, 17 de setembro, as 16h00, no Centro de Cultura Social (CCS), Rua General Jardim, 253, sala 22,  República, São Paulo (SP).

“Iniciamos essa caminhada com objetivos totalmente claros. Colocar os geógrafos anarquistas em condições de igualdade com qualquer outro legatário desta importante ciência. Queremos com este livro que as suas propostas sejam estudadas e principalmente disseminadas. Kropotkin e Perron demonstram a relevância de uma geografia mais plural, humana e onde a prática e a teoria trabalhem sempre em conjunto. Pensar e agir: essas são as palavras de ordem de dois geógrafos e anarquistas, ou melhor, geógrafos-anarquistas!”

FB: https://www.facebook.com/events/582467930108550?ref=newsfeed

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/08/05/lancamento-introducao-ao-pensamento-anarquista-na-geografia-piotr-kropotkin-e-charles-perron-de-amir-el-hakim-de-paula/

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Voa bem-te-vi,
enquanto o sol é promessa
e eu tenho as janelas.

Yberê Líbera

[Chile] A memória deve ser uma arma para continuar a luta contra o capitalismo, o Estado e todas as formas de opressão

Saudações a todos os companheiros e companheiras que saíram às ruas ontem (11/09) em todas as regiões do país, aos que foram às diversas marchas, aos que montaram barricadas e confrontos à noite, aos que participaram de eventos, vigílias e todo tipo de manifestações, grandes ou pequenas.

A memória é mantida viva apesar dos anos, mas não apenas qualquer memória, ela deve ser uma arma para continuar a luta contra o capitalismo, o Estado e todas as formas de opressão. Essa arma deve ser constantemente afiada e isso não é feito apenas recordando, não é feito apenas apelando para a vitimização ou uma vindicação acrítica de processos passados, é feito na própria luta, revisando, criticando e reinterpretando constantemente nossa história como uma classe oprimida.

Não devemos esquecer ou apenas recordar dos compas caídos, devemos mantê-los conosco em nossa luta, relacionar-nos com eles horizontalmente e sem idealizá-los, mesmo que eles não estejam fisicamente conosco e isto pode soar um pouco abstrato, não é assim, nos relacionamos com eles conhecendo suas histórias, conhecendo seus processos de luta e analisando e criticando o que consideramos serem seus sucessos ou fracassos, que é nossa forma de comemorá-los, estabelecendo uma conversa e não um passado escrito em pedra que não pode ser refletido.

La Rebelión del Matico

agência de notícias anarquistas-ana

O vento cortante
Assim chega ao seu destino –
Barulho do mar.

Ikenishi Gonsui

Ritmo do fogo

No último domingo, dia 11 de setembro, data marcada pelo golpe militar no Chile em 1973, anarquistas celebraram a memória de Claudia Lopés Benaiges, executada em uma manifestação no ano de 1998 com um tiro nas costas disparado por um policial no bairro de La Pincoya, na periferia norte da cidade de Santiago. Naquele ano, como de costume nesta data, eclodiram protestos, manifestações e rebeliões em diversas localidades do país. Claudia estava lá, naquele dia, presente na rua, na barricada, na luta. Ao lembrarem da morte da companheira e de sua existência libertária, anarquistas escreveram: “(…) sua memória continuará a dançar ao ritmo do fogo em cada barricada, em cada território, sua memória está mais viva do que nunca, sua morte junto com a de tantos jovens lutadores que promoveram e tentaram impulsionar a luta violenta e direta de rua contra a polícia, nos move ao âmago, nos encoraja a cada dia, sempre em nossa luta contra toda autoridade, pela libertação total”.

madrugada estrondosa

Na madrugada de domingo, 4 de setembro, na véspera do dia de eleições que procurava elucidar qual seria a constituição que governaria o Chile, revoltosxs incógnitxs decidiram ficar longe das urnas e perto da sabotagem. Um forte estrondo sacodiu a comuna de Hualqui, na região de Bío-Bío, perto da cidade de Concepción. Especificamente na rota que liga Hualqui com Quilacoya. Uma torre da companhia elétrica Transelec, foi completamente derrubada com cargas explosivas de dinamite. Ao amanhecer, quando a polícia chegou ao local, não encontrou apenas os destroços da infraestrutura da torre elétrica, mas também uma faixa deixada pelxs perpetradorxs do ataque. A faixa, assinada por Resistência Urbana Autônoma afirmava: “Ativar a sabotagem contra projetos extrativistas nos territórios. Quem se esquece dxs presxs, esquece a luta. Liberdade para Victor Llanquileo e para todxs presxs mapuches, anarquistas, subversivxs e da revolta”.

>> Para ler o Flecheira Libertária na íntegra, clique aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2022/09/flecheira688.pdf

Fonte: Flecheira Libertária, n. 688, 13 de setembro de 2022. Ano XVI.

agência de notícias anarquistas-ana

O ar tremeluz –
A areia sobre o rochedo
Vai caindo aos poucos.

Hattori Tohô

[México] Reivindicando a responsabilidade pelo ataque explosivo à delegacia de polícia “Ricardo Flores Magón”

Depois da meia-noite…

No dia 3 de setembro de 2022 colocamos um dispositivo explosivo feito com dinamite, pólvora, sulfato de amônio, nitratos, fosfatos e gás butano. Isto aconteceu aproximadamente à uma hora da manhã na delegacia Ricardo Flores Magón localizada nas ruas Jaime Torres Bodet e Ciprés na colônia Santa María La Ribera no território ocupado pela Cidade do México.

I

Nós somos anarquistas. Repudiamos que a polícia mexicana ouse usar o nome de Ricardo Flores Magón, que consideramos um importante referente da luta anarquista internacionalista e que detestou todo tipo de governo durante sua vida para nomear uma delegacia da polícia repressiva da Cidade do México. Advertimos que queimaremos a mesma estação uma e outra vez até que parem de manchar seu nome de forma tão ousada.

Também repudiamos o uso do governo mexicano de nosso companheiro Magón na tentativa de legitimar a imposição de seu governo militarizado.

NÃO TEMOS MEDO DELES! NÃO VAMOS PERMITIR QUE DISTORÇAM A HISTÓRIA DO ANARQUISMO PARA LEGITIMAR QUALQUER GOVERNO!

II

Nós somos mulheres. O governo mexicano reprime, aprisiona e disseca nossos corpos, impondo-nos uma vida cada vez mais vertical e de acordo com a reprodução da tríade do monstro de três cabeças do capital, do patriarcado e do colonialismo. O Estado quer transformar nossas mentes, emoções e corpos em campos de morte onde a colonização de valor nos é imposta. Eles querem nos convencer a aceitar que nos tornemos mercadorias dóceis à sua disposição, dando-nos em troca apenas fantasias vestidas com fetichismo legal.

NÃO O ACEITAREMOS: LUTAREMOS POR NOSSAS VIDAS!

A LEI É UM FETICHE! O REAL SÃO NOSSOS CORPOS MUTILADOS!

COMPANHEIROS: VAMOS LUTAR PARA RECUPERAR UMA VIDA QUE REALMENTE VALE A PENA VIVER!

UMA VIDA DE LIBERDADE, SEM GOVERNOS E SEM LEIS!

III

Nós somos antimilitaristas. Para os teóricos liberais, o governo mexicano está impondo um estado de exceção que nos trata como inimigos. Pensamos que cada estado é um estado de exceção, e que cada estado é nosso inimigo. Atacaremos suas fundações em todos os aspectos de nossas vidas. Faremos de cada milímetro de nossa pele a nossa própria pele. Arrancaremos nossas vidas de suas garras. E… vamos atacá-los. Nós os atacaremos sempre. Militares fora de nossas ruas!

Abaixo os muros da prisão! Prisioneiros anarquistas às ruas! Enviamos toda nossa solidariedade e saudações aos companheiros Mónica Caballero e Francisco Solar no território ocupado pelo Estado chileno. Um dia nos encontraremos, companheiros! E faremos nossas as ruas novamente, atacando! … porque nada acaba, tudo continua… e se as masmorras de todos os estados não ardem, quem iluminará nossa escuridão?

Pela célula de difusão do Grupo Insurrecional Anarca Feminista de Ação Antiautoritária,

LUPE A CAMELINA E A INESPERADA LAURA

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Em meio ao capim
de onde sopra o vendaval,
lua desta noite.

Miura Chora

[Chile] “Uma vida sem os parasitas que nos governam é inteiramente possível”

Hoje os setores progressistas e aprovadores desiludidos e irados exclamam que o povo é “estúpido e não quer mudanças” por não ter votado neles ontem e, por outro lado, os setores reacionários do Pinochetismo e da direita comemoram porque o povo os apoiou e acreditou em seus discursos infestados de patriotismo e hipocrisia doentia.

A verdade é que não é um nem o outro.

O amplo triunfo da rejeição (mesmo em comunas populares) representa um claro castigo ao governo servil e progressista de Boric que aborreceu o povo com sua esperança de mudanças que nunca virão e suas festas culturais lamuriantes, enquanto a maioria popular está passando por tempos de aumento dos custos de vida, insegurança e falta de controle do tráfico de drogas e máfias nos bairros que precisam de apoio e medidas urgentes.

Há oito meses, após o triunfo de Boric, a vitoriosa e arrogante esquerda progressista, acreditando ter o comando do campo popular, exclamou que “a esperança havia vencido o medo”, advertimos imediatamente que este governo e seu projeto de aprovação não seria nada mais que desilusão e o fortalecimento da direita e do Pinochetismo.

Quando recentemente a “Frente Ampla” exclamou nas telas para acalmar a ala direita que a nova constituição não ia realmente mudar nada, revela-se como o que é, a continuação da baixa política da concertação que acabou decepcionando uma e outra vez e essa é a mensagem que pouco a pouco o povo traduziu.

O processo constituinte e sua nova constituição que emergiu daquele pacto burguês em novembro de 2019 como forma de estrangular a mobilização popular jamais gerará as mudanças reais que a população necessita, nem porá um fim ao legado do tirano Pinochet, já que o modelo neoliberal implantado pela ditadura em sangue e fogo continuará intacto e com novos ares.

Nenhuma constituição ou governo irá mudar concretamente as más condições de vida da maioria assalariada e explorada, já que elas representam o poder político burguês que sustenta o capitalismo.

Neste contexto, os setores revolucionários, ainda adormecidos, dispersos e sem popularidade, presença e projeto político, ainda têm a oportunidade de emergir e influenciar efetivamente a cena política a fim de se posicionarem como uma força atual, a única oposição e alternativa à política dos poderosos.

Não nos sentimos derrotados por ontem porque esse processo nunca foi nosso e nossa rebelião diante dele é um avanço em coerência e prática. Não podemos nos projetar como revolucionários e anticapitalistas se nos recusarmos a participar de suas farsas manchadas de sangue.

Devemos continuar a luta e fortalecer a presença anarquista nas ruas, assim como coordenar e abandonar a dispersão e a espontaneidade. Somos povoadores e povoadoras, parte do povo e como tal sentimos constantemente a investida do capitalismo, queremos mudanças reais e queremos fazê-las nós mesmos aqui e agora, sem representantes, líderes ou vanguardistas. Através da autonomia, apoio mútuo, autogestão e ação direta, podemos pensar que uma vida sem os parasitas que nos governam é inteiramente possível.

Vamos lutar com tudo e lutar contra os inimigos do povo pobre.

Contra o progressismo e o fascismo que sustentam o capitalismo miserável, NEM UM PASSO ATRÁS.

Eles fizeram de nossas necessidades básicas o melhor de seus negócios.

O básico para todos não pode ser o privilégio de poucos.

Nem migalhas nem reformas, lutar e avançar!

Nem o Estado nem a democracia jamais se importaram com nossas vidas.

TOMAR AS RUAS EM 11 DE SETEMBRO PORQUE 49 ANOS DEPOIS O MODELO DE MISÉRIA E IMPUNIDADE PARA OS RICOS AINDA ESTÁ EM PLENO VIGOR E EFEITO.

SOLIDARIEDADE COM OS PRISIONEIROS SUBVERSIVOS, ANARQUISTAS E MAPUCHES

CLAUDIA LOPEZ E FLORA SANHUEZA PRESENTES EM CADA MULHER COMBATENTE.

Grupo de Propaganda Revolucionária – La Ruptura.

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Junco ressequido
dia após dia se quebra
para o rio levar

Takakuwa Rankô

 

[Reino Unido] Unidade da classe trabalhadora versus unidade nacional

A Rainha morreu depois de setenta anos no trono. Como afirmamos em artigos anteriores no site da ACG, a monarquia desempenha um papel fundamental na manutenção do status quo e como elemento aglutinador da preservação do Reino Unido e da Commonwealth¹. A rainha e sua família estão lá para manter o senso de unidade nacional que é essencial para a continuidade do Reino Unido e da Commonwealth, e para obscurecer as divisões de classe gritantes na sociedade britânica.

Sua morte vem em um momento de grande estresse para a sociedade britânica. Seu ato final pouco antes de morrer foi dar seu selo de aprovação ao governo Truss, cada vez mais impopular e determinado a atacar violentamente a classe trabalhadora. Ela supervisionou a transferência de poder entre 15 primeiros-ministros durante seu reinado, e supervisionou essas transições com pouca luta, o que em muitos outros países teria levado à desordem pública. Ela supervisionou o colapso do Império Britânico e atuou como chefe da Commonwealth que o substituiu. Não se esqueça que ela não era apenas Rainha da Grã-Bretanha, mas de catorze outros países, incluindo o Canadá e as Ilhas Salomão. Esse papel está sendo questionado, como já aconteceu com a decisão de sete estados do Caribe de removê-la como chefe de Estado.

Agora Charles se tornou rei. Ele é a pessoa mais velha a se tornar a cabeça coroada e tem pouca popularidade. Apesar da bajulação do establishment e de seus meios de comunicação, onde “Nós”, como em “Todos nós amamos a monarquia”, é usado regularmente para vender a ideia de uma nação, sem divisões de classe ou regionais, números crescentes se opõem à continuação da monarquia. Como dissemos após a morte do Príncipe Phillip, a cobertura de sua morte marcou o início de uma guerra ideológica contra qualquer sinal de rebelião ou dissidência. Testemunhe o horror do establishment na queda de estátuas no verão dos protestos Black Lives Matters de 2020. Ele responde com tentativas de controlar o currículo escolar ainda mais apertado, elogiando os “benefícios” do Império Britânico. Agora o Establishment preparou um desfile, a Operação London Bridge, obviamente planejado para celebrar e justificar esta instituição parasitária, a monarquia. Haverá manifestações repugnantes de elogios à família real, um anseio pelas “glórias” passadas do Império e um aumento do patriotismo barato.

Apesar da capacidade da rainha de disfarçar o privilégio e a riqueza da família real, seus filhos e netos fizeram o oposto, notadamente com os escândalos em que Andrew esteve envolvido, com sua conexão com o bilionário pedófilo Jeffrey Epstein, com o desfile abertamente público de privilégios e riquezas de pessoas como Harry e Meghan, e com a duvidosa arrecadação de fundos de Charles para suas instituições de caridade.

A classe dominante espera que o impopular Charles atue como um chefe de Estado por um curto período, antes de entregar o trono a William. Na verdade, esse pode muito bem ser o plano de jogo de Charles e William, pois eles tentam modernizar e reduzir a monarquia para mantê-la em andamento.

Tudo isso, é claro, vem em um momento de agitação industrial sem precedentes, com muitas seções da classe trabalhadora saindo em greve ou se preparando para isso. Tem sido um verão quente, e o outono e o inverno são igualmente tórridos em termos de ação industrial.

O Partido Trabalhista e os dirigentes sindicais como os bombeiros da conflagração social já vieram em socorro da classe dominante. Tanto o Sindicato dos Trabalhadores da Comunicação (CWU), que organiza os trabalhadores dos correios, quanto o Sindicato dos Transportes Ferroviários, Marítimos e Transportes (RMT), cancelaram as greves e o líder do RMT, Mick Lynch, afirmou que o “RMT se junta a toda a nação para prestar seus respeitos à Rainha Elizabeth”.

Quanto a Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista, ele confirmou e apoiou o papel que Elizabeth desempenhou na promoção da unidade nacional e no obscurecimento das diferenças de classe, dizendo que “quando nossa grande era Elisabetana chegar ao fim, honraremos a memória da falecida Rainha mantendo vivos os valores do serviço público que ela encarnou”. Quanto a esquerda do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn deu um passo à frente para elogiar a Rainha e sua família.

Da mesma forma, a liderança da Rebelião da Extinção (XR) adiou seu longo e planejado Festival da Resistência. O conselho tem enfatizado sistematicamente a urgência premente de uma ação imediata sobre as alterações climáticas. No entanto, quando chegou à crise, interrompeu as ações planejadas para a próxima semana durante os 12 dias da Operação London Bridge. Sabemos também que alguns grupos de ação da comunidade local suspenderam as atividades durante este período de luto projetado.

É cada vez mais imperativo que nós, na classe trabalhadora, desenvolvamos nossas próprias organizações independentes, livres dos líderes trabalhistas e sindicais, se quisermos travar uma luta bem-sucedida contra a classe patronal cada vez mais agressiva. A decisão dos líderes sindicais de chamar uma trégua na luta industrial, não significa que a classe dominante vai retribuir com uma trégua, como os ataques contra nós vai escalar, com o aumento dos preços de alimentos e energia, aumentos de renda, a inflação corroendo os salários, e o desmantelamento do sistema de saúde nacional.

Abolir a monarquia!

Romper com os Trabalhistas e os burocratas sindicais!

Pela revolução social e pela criação de uma nova sociedade livre e igualitária!

Anarchist Communist Group (ACG)

Tradução > abobrinha

Nota:

[1] Um grupo de 56 países nas Américas, África, Ásia, Europa e Pacífico formam o Commonnwealth, um conjunto de antigas colônias britânicas. Desses 56 países, 14 têm o líder da monarquia britânica como chefe de Estado.

Fonte: https://www.anarchistcommunism.org/2022/09/10/working-class-unity-versus-national-unity/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/19/reino-unido-a-monarquia-o-estado-e-a-bbc/

agência de notícias anarquistas-ana

flor amarela,
no vaso, vê o mundo
pela janela

Carlos Seabra

Opinião | Anarquismo e polêmicas eleitorais

Por Caminhando | 12/09/2022

Recentemente um conhecido me passou um texto¹ sobre anarquistas defendendo o voto em Lula nas eleições presidenciais deste ano. Até aí nada de muito estranho, não posso mentir que em toda eleição vejo um ou outro elemento que se identifica com o Anarquismo votando. O que me surpreendeu no caso em questão foi a linha argumentativa usada.

As pessoas que escreveram o texto preferiram não se identificarem, alegando “vestirem suas capuchas”, numa nítida referência à tática Black Bloc, onde se apresenta a primeira contradição, o uso do anonimato e homogeneidade estética da tática Black Bloc é para dificultar o processo de identificação por parte das forças repressoras que não admitem ações diretas, exceto uma outra greve desde que esta obedeça os regramentos do Estado. Além de quê a referida tática, como dito, é uma forma de ação direta e uma das mais radicais já surgidas nos Movimentos Sociais nas últimas décadas, o que é totalmente diferente da ação política eleitoral de caráter institucional burguês. Portanto os autores distorcem completamente a aplicabilidade do princípio do anonimato que resguarda as identidades daquelas pessoas dispostas à ações diretas que são o eixo tático do Movimento Libertário ao longo de sua história.

Estes anônimos alegam trazer uma abordagem inovadora, alinhada com a tarefa histórica que o momento nos impõe, que seria o combate ao fascismo e que eleger Lula seria um avanço tático em relação ao inimigo a ser combatido, e que caberia considerarmos as diferenças entre o grau de gravidade do inimigo em questão, a saber, a face mais atualizada do fascismo tropical que tem raízes históricas e bem estabelecidas por aqui. Os autores ainda defendem que qualquer outra forma de agir nos relegaria a um isolamento perigoso dentro do cenário político. Para reforçar seu argumento remetem à Revolução Espanhola e a uma campanha que a CNT (Confederación Nacional del Trabajo) teria puxado em defesa da candidatura da Frente Ampla dos partidos da esquerda institucional, e que este sindicato, de bases anarquistas e maior sindicato do país, teria saído em defesa da República e do direito ao voto.

Além do problema geral do tom desse texto, que denota uma possível superioridade tática e analítica dos autores do texto, há o problema das confusões que o mesmo trás e opera para “legitimar” seus argumentos. No Congresso Extraordinário de Zaragoza, em Maio de 1936, a CNT avaliou que a Frente Ampla teria chances de vitória eleitoral e que as elites burguesas, militares, agrárias e religiosas não aceitariam o resultado e aplicariam um golpe. Nesse cenário seria mais produtivo desencadear um processo revolucionário amplo e efetivo a partir da luta contra um governo golpista, feito pelas elites contra o povo e a legitimidade da escolha destes, o que se mostrou uma leitura muito acertada da CNT. Portanto, ao contrário do que o referido texto alega, nem os anarquistas fizeram campanha pela Frente Ampla (eles simplesmente se abstiveram do engajamento numa campanha pela greve de votos), nem muito menos pegaram em armas pelo direito de votar, mas sim, aproveitaram a desilusão acarretada pela insegurança das “garantias” das instituições burguesas, quando estas não agradam a estes, e executaram uma revolução social que suprimiu o sistema de salários e de exploração, seja política ou econômica.

“No hemos venido al frente a defender una República democrática burguesa. Si fuera para eso no valdría la pena derramar tanta sangre. No valdría la pena porque las democracias burguesas llevan en sí el germen fascista […] La época de las democracias burguesas ha pasado. Estamos en la época del proletariado. Entre el dolor de los caídos vamos forjando un mundo nuevo. Y es grotesco ver las guiñoladas de una sombra de parlamento diciendo tonterías, cuando en los campos de batalla son segadas muchas vidas proletarias […] Los que estamos en el frente, en todos los frentes, aplastaremos el fascismo, pero no consentiremos dar un paso hacia lo que murió el 18 de julio. Cuidado con la retaguardia!!” (AMORÓS, 2021, pág. 128).

Esse trecho do texto “Cuidado con la retaguardia” de Francisco Cueva, publicado em Fragua Social de 11 de outubro de 1936, dá plena noção de quais motivos levaram os anarquistas a pegarem em armas e a defesa do voto com certeza não era um desses. Esse não era um pensamento uniforme dentro da CNT, e já havia alguns anos que duas alas disputavam os rumos da Confederação, os revolucionários e os reformistas, estes últimos tinha em suas fileiras Serafín Aliaga que defendia uma postura “responsável” e que era preciso “por encima de ideas y doctrinas las necessidades del momento, los intereses de la lucha antifascista, las libertades democráticas de nuestro país” (AMORÓS, 2021, pág. 129), percebam que carrega um tom muito similar ao que os autores anônimos dão a sua defesa, o problema é que foi a postura defendida por Aliaga, de vencer primeiro o fascismo para depois fazer a revolução que acarretou na vitória do fascismo e no aniquilamento da revolução.

Um grupo de estudos Anarco-comunista dá uma resposta² a estas pessoas porém acusam os sindicalistas revolucionários e os anarcosindicalistas de terem sido os responsáveis pela linha equivocada da CNT, porém estas duas correntes, respectivamente, produziram os grupos Nosotros e os Amigos de Durruti, as duas colunas Anarquistas (mas nem de longe as únicas) mais bem preparadas e consequentes para com o processo revolucionário. É inegável que os elementos que estavam nos cargos executivos da CNT, independentemente da corrente libertária que dizia responder, degenerou num burocratismo programático que acabou por anular as iniciativas populares apoiadas pelos setores revolucionários da mesma, deixando estes isolados no cenário.

O que nos leva a um ponto importante do texto apelativo à eleição de Lula. Muitas vezes os setores libertários são isolados no cenário político por simplesmente apresentarem as críticas mais coesas e contundentes e daí passam a ser sabotados e implodidos por grupos afeitos às práticas bolcheviques. Porém a tarefa que o momento impõe ao campo libertário é a de superarmos cisões internas, estas muitas vezes fruto de vícios pequeno burgueses de egos, daí a prática de calúnia e mentiras usadas entre organizações, coletivos e, sem dúvidas com muito mais frequência, entre pessoas do movimento. Precisamos superar esse tipo de disputa que gira, no geral, em torno da autopromoção de organizações, coletivos ou mesmo pessoas para alcançarmos e atingirmos um processo organizacional mais orgânico com o povo, para estarmos preparados a apresentarmos respostas eficazes aos problemas sociais de modo a serem executadas pela auto-organização popular, e que consigamos dar consistência política ao avanço do abstencionismo eleitoral tão tradicional no Brasil.

Ainda penso ser pertinente citar Malatesta…

“Nosotros no queremos abatir el fascismo para sustituirlo por algo peor. Y peor que el fascismo sería la consolidación del Estado. Es preciso, por tanto, liquidar el fascismo, pero directamente, sin la ayuda del Estado, de manera que el Estado no sea reforzado, sino más desacreditado y debilitado. Querer suprimir el fascismo por medio del Gobierno, es como combatir el síntoma de una enfermedad agravando las causas que producen la enfermedad misma.” (MALATESTA em “Los Anarquistas”)

Inconsistência não é tomarmos nossa cerveja após um ato. O que é contraditório é sermos opressores com nossas companheiras afetivas, é faltarmos com a verdade para criarmos fatos políticos, é desviarmos recursos coletivos para interesses pessoais, estas são falhas graves para a prática anarquista e só por reivindicamos tal identidade não estamos isento delas, mas cabe a todas as pessoas, não apenas às anarquistas, reavaliarem e buscarem reparar com toda energia os danos causados por algum desses erros cometidos e não recorrermos a argumentos que naturalizam tais falhas como por exemplo “esse é o meu jeito de fazer as coisas”.

Ante tudo exposto aponto que votar nem me parece ser a maior das faltas da prática libertária, mas com certeza não é o avanço teórico, metodológico ou mesmo tático que os autores anônimos apresentaram. Importante o debate, porém precisamos superar determinadas posturas competitivas e também narrativas inconsistentes que têm por finalidade validar argumentos fracos.

Superemos as disputas pequenas entre nossas linhas programáticas e teóricas para nos apresentarmos como uma alternativa efetiva à conciliação de classes da Social Democracia.

[1] https://jacobin.com.br/2022/09/anarquistas-em-defesa-do-voto-em-lula/

[2] https://nucleoancom.wordpress.com/2022/09/08/anarquistas-contra-o-voto-em-qualquer-candidato-nao-vote/

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/08/29/video-o-voto-nao-vai-nos-salvar-do-fascismo-a-outra-campanha-2022/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/08/26/convite-acao-antieleitoral-2022-o-mundo-esta-em-chamas-e-voce-pensa-em-mudar-tudo-com-um-voto/

agência de notícias anarquistas-ana

Um trovão estronda –
e os trovõezinhos ecoam
na selva em redor.

Nenpuku Sato

Opinião | Anarquistas contra o voto em qualquer candidato, não vote!

Por André Tunes | 08/09/2022

Volte e meia, historicamente falando, alguns “anarquistas” em épocas eleitorais, tentam trazer a “utilidade do voto” nas circunstâncias democráticas atuais, como uma forma relevante de “luta”, muito(a)s, ao conceber o anarquismo de forma estereotipada, ou, as vezes desconhecer de fato o que é o anarquismo, suas práticas e teoria, favorecem a pejoração do próprio conceito, e, também, ostracizam o movimento a apenas uma figura alegre e momentâneo de rebeldia social.

Mas também, sabemos, que atenuantes ocorrem, e, a infiltração e inserção de “reformistas, conservadores, progressistas, autoritários” dentro do movimento é visível e muitas vezes explicita, assim, como o movimento anarquista NÃO POSSUI LIDERES ou AUTORIDADES, é um movimento estruturalmente descentralizado e autônomo – você leitor(a), ao conhecer um pouco sobre o que é o anarquismo e o que ele sustenta, pode livremente em sua comunidade, local de trabalho, de estudo criar um coletivo, ou, começar ativamente e de forma autônoma a fazer propaganda libertária, sem precisar passar por uma prova, ou, iniciação política. Assim, do ponto forte e extremamente eficiente que é o movimento anarquista, as suas fraquezas também acarretam desentendimento e infiltração.

A revista Jacobin, uma revista famosa da esquerda radical, trouxe um texto¹ de um “grupo anarquista autônomo formado por radicais de vários lugares”, que defende o voto ao candidato a presidência da república do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

O artigo começa com especificações e o apelo ao voto ao Lula, seguindo de uma perspectiva de anedota, onde dizem que: “Conhecemos amigas, amigos, companheiras, militantes, mais organizados ou não, que são anarquistas, e votarão em Lula. Alguns já o dizem abertamente. Outros votarão em segredo. Parece uma opção individual. Uma espécie de licença momentânea do anarquismo“, como se, essas “amigas”, “amigos”, “companheiras”, “militantes” não pudessem ser alvo de crítica, e até mesmo, desconhecerem de fato o que é anarquia. A pergunta que fazemos é simples, se realmente é uma “licença momentânea do anarquismo” e aqui, estamos falando de deixar de lado todos os fundamentos, preceitos, regras e normas que condizem com a prática libertária, porque votar no Lula? E não em uma Simone Tebet? Ciro Gomes? Meu deus, porque não no Bolsonaro? Como já colocado no texto, é uma “opção individual”, porque então essa opção tem que ser destinada ao Lula? Já que está votando (vai votar), é indiferente pra quem vai o voto.

A sua continuação, vai contra o seu apelo ao voto, ao dizerem: “O anarquismo é, sem dúvida, a nossa herança de luta. Uma luta incansável, ininterrupta, com os de baixo, contra o capitalismo, seus governos e todas as formas de opressão. Conhecemos a força que sustenta esta palavra, luta, nada menos do que a reinvenção da vida. Uma vida digna de ser vivida“. Como uma “herança de luta”, pode ocasionalmente ser deixado de lado em épocas eleitorais? É uma luta incansável e ininterrupta, mas que, nesses momentos de eleição, podemos tirar uma “licença momentânea do anarquismo”, para votar? Me parece então, que essa herança, essa luta incansável e ininterrupta, pode, substancialmente se tornar uma luta cansativa e com a possibilidade de interromper periodicamente. A “reinvenção da vida”, que infelizmente (ou felizmente) pede uma pausa, uma trégua, para conformar-se com o voto e com a esquerda no poder.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://nucleoancom.wordpress.com/2022/09/08/anarquistas-contra-o-voto-em-qualquer-candidato-nao-vote/?fbclid=IwAR3w8sZxdkJmWilLKCBN3E3nnEUDBg0PNQxuDoEA2l7nPCFqY2KyV7tQMRw

[1] https://jacobin.com.br/2022/09/anarquistas-em-defesa-do-voto-em-lula/

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/08/29/video-o-voto-nao-vai-nos-salvar-do-fascismo-a-outra-campanha-2022/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/08/26/convite-acao-antieleitoral-2022-o-mundo-esta-em-chamas-e-voce-pensa-em-mudar-tudo-com-um-voto/

agência de notícias anarquistas-ana

Vendaval. Nas nuvens,
veloz desfila o falcão:
um surfista no ar.

Ronaldo Bomfim

Calúnias socialistas | Albert Libertad

Era portanto este ano a feira municipal e os anarquistas responderam à propaganda a favor do voto com uma desenfreada propaganda abstencionista. Em todos os cantos da França travou-se luta, a fim de provar a mentira do sufrágio universal, o absurdo da política. Pelo cartaz, pela brochura, pela contradição ou pela conferência, os candidatos foram mantidos, ofegantes, num estado de incertezas e os eleitores foram acordados.

Os abstencionistas desenvolveram as suas teorias não sem dificuldades e sem riscos. Os seus adversários mais temíveis foram, sem contestação, os socialistas.

Na batalha eleitoral, todos os partidos, todos os candidatos usam meios detestáveis para diminuírem os seus adversários, mas nenhum vai tão longe como o partido e os candidatos socialistas.

A organização socialista tem a arte de contrafazer as reuniões públicas. De antemão, escolhe os membros da mesa, prepara listas de oradores, trapaceia uma ordem do dia, semeia pela sala assobiadores, urradores, aplaudidores, até mesmo salteadores.

A filosofia socialista, demasiado medíocre para formar indivíduos capazes de quererem ouvir ideias e discuti-las a seguir, é bastante forte para fabricar sectários que, não escutando nada porque nada podem compreender, estão prontos para espancarem quem quer que seja que não formule uma opinião estampilhada pelo comitê.

Os chefes socialistas mandam invadir as reuniões adversas por homens que não têm a consciência da ideia que defendem, não mais do que dos atos que cometem. Não vão a casa do “concorrente” para tentarem tomar a palavra, influenciar com melhores raciocínios a opinião dos auditores. Não têm outro fim que não seja impedir qualquer pensamento de formular-se, de “fechar o bico” aos oradores, com os seus gritos e urros. É preciso fazer encerrar a reunião na desordem, para que as publicações do Partido possam dizer no dia seguinte que “o candidato da reação foi apupado pelos eleitores”.

Tenho necessidade de citar exemplos? Deverei lembrar a atitude dos bandos de Weber-Allemane, este ano, no 11.º “arrondissement”, partindo vidros, escavacando bancos, a fim de reduzirem o adversário a não poder fazer mais reuniões públicas? Tinham-lhes recusado a palavra? Não. É como disse: eles não têm a preocupação de convencer, de levar as pessoas até às suas ideias, só querem fazer obstrução. Não querem e não podem fazer senão isso.

Como é que esses mesmos indivíduos, como é que aqueles que os guiam, agem assim que encontram, nas reuniões que organizam, contraditores? Uns impedem qualquer acesso à tribuna, outros formam uma tropa de guarda-costas prestes a espancar quem quer que ameace o seu candidato com alguma eloquência, com alguns argumentos.

Por vezes acontece-lhes terem azar… e apanharem pela frente homens que, depois de terem escutado em silêncio formularem-se as opiniões de outrem, querem formular a sua, porque têm uma. Não são obstrutores, são propagandistas. São os anarquistas.

Não há nenhuma “organização central anarquista”, por isso mesmo ele não pode preparar uma obstrução sistemática, delegar uma equipe de matulões, de atletas, para ir “partir o focinho” aos candidatos e aos que os apoiam. Há que, aqui ou acolá, manifestar a sua opinião, lá vai quem quer ou quem pode. E o camarada anarquista “orador” aí se encontra com o camarada anarquista “escritor” e também com o camarada anarquista que nunca na vida falou numa tribuna ou escreveu um artigo. Aqui não há equipes de espancadores, há sim homens conscientes e sinceros.

Ora é justamente o que os torna mais terríveis. Cada um desses homens tem uma convicção a defender, a sua. Tem uma opinião a formular. Não é mandado por ninguém, apenas por si próprio. Se se encontra com outros homens com pensamentos semelhantes ao seu, tanto melhor. Se está só, tanto pior. Mas quer ele esteja multiplicado por cem, não impedirá nenhum interlocutor de dizer o seu pensamento inteiro. E quer ele esteja só, não deixará por isso de fazer tudo o que é possível para erguer a sua ideia em face da maioria.

Se está só, completamente só, não terei sequer que falar da brutalidade dos socialistas, da cólera dos socialistas contra esse homem que se afirma. À exceção de alguns indivíduos, os “unificados”, os “cidadãos”, os “inscritos” quererão esmagá-lo. Há em tal gesto todo o ódio do socialismo, essa “filosofia” da turbamulta, contra o anarquismo, a filosofia do indivíduo. Se ele for multiplicado por dez, se for multiplicado por vinte, deverei falar de debandada, da covardia dessa espécie que faz logo a seguir apelo à polícia. Aí se reconhece bem todo o medo do rebanho diante do Homem.

Todos os partidos combatem o abstencionismo, mas nenhum como o partido socialista, o qual se apercebe que não mantém o povo sob a sua tutela, a não ser pela mentira do sufrágio universal. Nenhum emprega contra o anarquista calúnias mais baixas, meios mais atrozes.

Os pastores do rebanho que fugiu diante de dez pessoas, guarnecem as colunas das suas publicações com insinuações covardes e mentirosas, com efemérides exageradas e ridículas.

Pela parte que me cabe, sou um dos vadios estipendiados, um dos cadastrados de que fala o jornal L’Humanité de 22 de Maio, narrando a seu modo alguns incidentes de reuniões eleitorais em Levallois-Perret.

Éramos quinze, dos quais cinco ou seis mulheres, mal nos conhecíamos, unidos apenas por convicções semelhantes. Éramos quinze, eles eram quinhentos ou seiscentos… e “nós tomamos de assalto a tribuna, batemos ferozmente nas mulheres e nas crianças, semeamos o terror à nossa passagem, espancamos covardemente vários homens”.

Que faziam então o gado e os pastores socialistas, aquando desta luta homérica?

Na véspera do dia em que me encontrava nesta armadilha socialista, estava eu em Asnières, numa reunião organizada pelos anarquistas, a fim de nela desenvolvermos o porquê de sermos abstencionistas. Depois de cada camarada ter conversado, fazíamos apelo à contradição. Vários socialista vieram. Um saiu do tema, sem que se marcasse qualquer gesto de impaciência. A reunião terminou tranquilamente, sem que nenhuma “ordem do dia” viesse trazer qualquer sanção ao que tinha sido dito. É verdade que as pessoas que lá se reuniam não tinham a ideia de sacar um mandato para elas ou para os seus amigos, mas simplesmente de permitir que a verdade se manifestasse para o bem de todos.

Nenhum contraste me podia mostrar melhor as diferentes maneiras de proceder. Nada me podia dar uma melhor opinião sobre o valor do anarquismo do que o medo que se apossava de todos os pastores socialistas, nesse dia, ao pensamento de que íamos desenvolver as nossas ideias diante do seu gado, enquanto, pelo contrário, na véspera, nós tínhamos solicitado, encorajado a contradição.

Aconteceu com frequência os socialistas pretenderem que nós não podemos conversar nas reuniões eleitorais porque abstencionistas. Aí está um grave erro ou uma real velhacaria. Quando aqueles que escolhem amos os designarem para si sós, para seu uso exclusivo, veremos o que teremos para fazer. Mas enquanto os amos escolhidos nos ditarem a lei, nos derem ordens, nos roubarem, será absolutamente lógico que nos esforcemos por ensinar às multidões a prescindirem deles: quanto mais não fosse para nos libertarmos a nós próprios desses parasitas. Talvez seja um ato de “proselitismo”, mas sobretudo uma lição de higiene.

Um dos seus argumentos costumeiros é que só vimos manifestar a nossa opinião nas reuniões socialistas, que fazemos portanto o jogo da “reação”. Assim, no décimo-oitavo “arrondissement”, encontramo-nos nas salas de reunião de todos os candidatos radicais e nacionalistas; enquanto a associação da polícia e do comitê socialista formava tal barragem que não fomos a nenhuma das do candidato do partido Unificado. Noutros bairros, passou-se o contrário. Será sempre assim? Fazemos todos os nossos esforços para que não! Tratamos de estar por toda a parte onde os nossos argumentos podem tocar um cérebro que quer saber.

Não me servirei desta resposta, porque, pela minha parte, tendo que ir a duas reuniões eleitorais, uma nacionalista e outra socialista, é de preferência à última que eu iria. Calculo que muitos anarquistas pensam como eu.

Se nós fossemos às reuniões para fazermos obstrução sistemática, partir cabeças, etc., etc., talvez não hesitássemos em ir à dos primeiros, porque mais estranhos, mais afastados da nossa maneira de pensar. – Digo talvez, porque não estou inteiramente convencido do fato que acabo de adiantar. – Mas nós vamos até lá para espalharmos ideias que sinceramente cremos boas e não nos preocupamos senão em procurar o terreno mais favorável para semeá-las.

Numerosos pontos nos separam dos socialistas – até mesmo pontos “fundamentais” -, sobre muitos outros estamos ou parecemos estar de acordo. É outro tanto trabalho feito para nós. Um dos pontos que nos separam é justamente o que está em causa durante o período eleitoral. Pensamos, ao irmos para a esquerda, que não será necessário que nos demoremos no militarismo, no funcionalismo, na propriedade, etc., e que poderemos ir diretos aos pontos que nos separam, a fim de quebrarmos os laços que unem ao passado os auditores presentes.

Ainda por cima, estamos certos que os candidatos socialistas são os últimos obstáculos à revolução de que tanto falam. São os reacionários “modern-style” que canalizam a energia do povo, fazendo-a passar pelo esgoto do sufrágio universal, o controle do senhor Toda-a-gente. “Nós somos os melhores amos”, urram eles. Nós respondemos: “Bons amos, isso é coisa que não poderia existir”.

Temos portanto que ir até aos agrupamentos onde encontramos ou pensamos encontrar um meio já desembaraçado de muitos preconceitos sociais. Temos que ir demolir os argumentos dos pastores vermelhos, os quais, com as suas bajulações e as suas fanfarronadas, fazem tomar a nuvem por Juno à melhor parte do povo.

Confessá-lo-ei. Entra por vezes nos nossos gestos – não nos gabamos de ser perfeitos – um pouco de rancor. Os meios empregados pelos comitês socialistas são sempre tão ignóbeis, tão nojentos, tão caluniosos, quando é questão da manifestação da ideia anarquista – mesmo nas simples reuniões -, que uma pessoa não pode coibir-se de conservar uma certa cólera. Assim, muitos de nós decidiram ponderamente este ano não ir às reuniões dos Weber-Allemane, receando ser demasiado pessoais. Os socialistas foram batidos. Não teriam deixado de nos atirar com a culpa para as costas. Numa reunião em que se tinham mostrado atrozes, experimentei a necessidade de encontrar um Pinot de Levallois, que a presidia, para esmagar a sua cara de jesuíta vermelho, como se tem o desejo de esmagar uma víbora. Experimento esse sentimento por muitos chefes socialistas e digo-o francamente.

Diante das velhacarias que usam para conosco, da sua maneira de se conduzirem em relação a nós. A gente experimenta o sentimento de uma “traição” feita pelos da “própria família”, pelo amigo, pelo vizinho. Saberei confessar que não tenho razão. Os chefes socialistas não são nada mais que malandros ou imbecis na eterna conquista do prato da manteiga. A diferença, em relação aos seus concorrentes, é que eles lá chegam de uma maneira diferente.

Voltemos ao incidente e à sua narração pelo jornal L’Humanité que me leva a responder tão longamente:

Não nos faz mossa sermos “vadios”, cairmos sob a alçada da lei por porte de armas proibidas, sem receio das delações¹. Somos “cadastrados”, não por falcatruas eleitorais, cooperativas, sindicalistas ou financeiras, mas por termos afirmado as nossas ideias ou as nossas necessidades. No entanto, não nos agrada deixar dizer que somos “homens de quarenta cêntimos”, “estipendiados da reação”, pelos pastores e pelos membros dos comitês que mentem tanto mais grosseiramente quanto sabe, a verdade.

…Que eles não riam demasiado… saberemos nem sempre desempenhar o papel corajoso, mas demasiado doloroso de Girier-Lorion².

Albert Libertad, 28 de Maio de 1908

[1] Na quarta-feira, dia 22 de Maio, um socialista mandou prender e revistar pela polícia um jovem, sob o pretexto deste ter um revólver. Nada lhe foi encontrado.

[2] Le Matin informa-me, não sem me espantar, que à cabeça dum bando de anarquistas, eu invadia os locais de L’Humanité para os obrigar a retificarem, sem dúvida alguma, o relatório mentiroso de 22 de Maio. O artigo de hoje daria crédito à lenda. É preciso portanto que eu diga que não estava lá.

1.º Os anarquistas não têm necessidade de ninguém à sua cabeça para agirem; 2.º Vencido pelo esforço demasiado grande destes últimos meses, fui obrigado a ficar de cama ao ponto de nem mesmo poder fazer uma cavaqueira no nosso próprio local; 3.º Há camaradas melhores dotados do que eu para invadirem escritórios. Contudo confesso que, se tivesse estado de boa saúde e se me tivessem prevenido, seria com um real prazer que teria feito questão em flagelar essas faces de mentirosos.

Digamos tudo. Teria ficado pelo passeio. Os redatores tinham fugido por uma porta traseira; segundo o jornal Le Radical, os visitantes não encontraram ninguém, nem sequer “o pessoal de que fala Le Matin.

[Escrito retirado do livro “Textos de crítica da democracia”, de Albert Libertad – Livraria Editora Sotavento – Portugal]

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olhando para trás
meu traseiro cobria-se
de cerejeiras em flor

Allen Ginsberg