[Argentina] O ódio e a fantasia

Após a tentativa de assassinato da vice-presidente da nação por um suposto neonazista, algumas questões sobre como a realidade pode ser interpretada se tornam claras.

Para os democratas fanáticos, contestando seu próprio discurso, não é mais uma questão do “governo do povo”. A “Democracia” reside personificada nos mais altos cargos do governo. É claro quando, diante do assassinato de qualquer membro deste hipotético povo, “democracia” não está “em perigo”, não há muita tomada de posição pública. Mas há, é claro, quando ocorre uma tentativa de matar um de seus principais líderes, se assumirmos que se tratou de uma tentativa de assassinato.

Da mesma forma, um e outros fanáticos podem acreditar que matar um alto funcionário mudará o curso do país. Como se não se tratasse de relações sociais em um modo específico de produção, o capitalista, é claro.

A violência fracassada de caráter solto (ou quase solto) é mais assustadora do que o funcionamento do monopólio estatal da violência. Estranho.

Esta igualdade democrática igualitária, somente no discurso, assume que o aparelho repressivo do Estado é comparável a um fanático de direita sem plano ou aparato. A menos que se pense que existe uma “conspiração de ódio” e outros contos de conspiração. Contos semelhantes ao fato de que o ódio está sempre nos outros e não entre o próprio povo. Diante de tal teimosia, é inútil procurar no arquivo incitações de ódio de ambos os lados da divisão eleitoral.

E como o ódio é o outro, eles já estão pensando em leis para condenar o “discurso de ódio”. Naturalmente, será o Estado que decidirá o que é ódio e o que não é. Assim, se um jornalista proeminente dos monopólios de mídia, um candidato da oposição ou um grupo de proletários que protesta contra esta vida insuportável e assim alimenta o ódio de classe, pode ser considerado culpado… Adivinhe quem irá para a prisão?

Eles parecem querer nos dizer que vivemos em uma sociedade de igual para igual, sem classes sociais. Parte do “povo” é representada por um milionário que vive na Recoleta. É disso que se trata a democracia: considerar formalmente uma população socialmente desigual como igualitária. O bicho papão do neonazismo é mais assustador do que as mortes diárias evitáveis causadas pelo trabalho, fome, violência de gênero, doenças evitáveis, violência institucional.

De Correpi a Biondini concordam que este ato deve ser condenado e “salvar a democracia”. Para os democratas fanáticos, o discurso de ódio é mais preocupante do que a realidade da austeridade e dos cortes. O desprezo pela realidade é tal que os fãs da vice-presidente cantam “nós voltaremos”, enquanto a funcionária se dissocia do governo do qual ela é membro. Eles estão convencidos de que o “poder real” não está entre eles, mas do outro lado da rua.

Uma semana antes, o governo fez cortes na Saúde, Educação, Obras Públicas, Transporte e Produção, enquanto toda a atenção da mídia estava voltada para os protestos contra e a favor de Cristina Fernández de Kirchner. Greves e protestos foram desativados, e eles até disseram que as ruas não eram seguras dadas as condições. Exceto para apoiar o governo.

No contexto do “feriado de reflexão” decretado pelo presidente, há quem nas ruas e nas praças associou o ajuste com o direito: “O ajuste e o direito serão confrontados nas ruas”. A fantasia e o desrespeito pela realidade está chegando a níveis risíveis.

O chamado reiterado para “mobilizar pela democracia” diante das próximas eleições é dar um ar novo e renovado a um punhado de candidatos que vêm caindo em popularidade. O oportunismo de uma esquerda sem epopéia ou projeto alimenta nada mais e nada menos do que o crescimento de um setor do governo. Grabois e seu CTEP, assim como a Frente Pátria Grande, suspenderam sua saída da Frente de Todos, argumentando “a mudança qualitativa na situação política nacional” após a tentativa de assassinato da vice-presidente. A política representativa é a única coisa que move a agulha para os candidatos. É verdade que a “política nacional” mudou, mas a outra coisa também: a situação social só está piorando.

Unindo forças contra o bicho papão do fascismo, sabemos quem se beneficia, por mais bem-intencionados que sejamos: um setor burguês que por sua vez continuará a explorar e assassinar, mas sem “discursos de ódio”.

A democracia é a ditadura do capital, por mais liberdade e igualdade formal que tenhamos, não somos iguais. Esta é uma sociedade com explorados e exploradores, governantes e governados. Defender nossos algozes não pode ser o caminho para construir um mundo melhor. O verdadeiro campo de batalha não está na esfera da representação política, mas na esfera da produção e reprodução, nas relações de propriedade. Esta é uma luta de classe, não uma luta política de “bons” e “maus”. No primeiro não nos é permitido escolher lados, são as condições materiais de existência. No segundo, temos permissão para escolher. Nosso tempo procura esconder as imposições de classe por trás da liberdade de escolha.

O ataque não pode ser entendido como parte de uma “campanha de ódio dirigida aos setores populares organizados”. Não é uma expressão do avanço do fascismo, muito menos o início de um golpe de estado por parte da ultra-direita! A burguesia argentina está determinada a preservar a ordem democrática burguesa. Até agora, o atacante parece ser apenas um elemento bastante marginal e irrelevante. Não há nenhuma conspiração ou tentativa de golpe de estado.

O ataque não foi uma tentativa, mas um golpe preciso para a classe proletária na Argentina, empregada ou desempregada. Diante do agravamento das condições de vida no país, e em meio a cortes, greves e a raiva crescente, somos chamados a ficar atolados no terreno político, a nos agruparmos para defender o governo que promove ajustes e reprime. Porque, lembremo-nos: por mais que tentem fugir da realidade, eles estão defendendo a vice-presidente do governo da nação. Enquanto continuarmos a ignorar a realidade para os discursos políticos, esta tragicomédia continuará se repetindo uma e outra vez.

Fonte: http://boletinlaovejanegra.blogspot.com/2022/09/el-odio-y-la-fantasia.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

chuva lá fora –
os pássaros, molhados,
foram embora

Carlos Seabra

A fúria

Na última terça-feira, em Teerã, no Irã, a curda Mahsa Amini foi presa pela polícia da moralidade por não estar de hijab (véu islâmico). A jovem de 22 anos foi espancada e torturada pelos policiais. No mesmo dia, foi internada em um hospital, em coma. Na sexta-feira, Mahsa Amini morreu. Ela foi executada pela polícia, que inexiste sem moral e tortura. Apesar da falaciosa versão oficial, uma foto dela internada e desfigurada vazou. Manifestações eclodiram em Teerã e em Sanandaj, cidade em que Amini vivia. Sexta, sábado, domingo, os protestos não cessaram, mesmo com a usual violência do Estado e suas forças de segurança. Muitas mulheres, nas ruas, com seus cabelos soltos ao vento e os rostos expostos, mostraram os dentes, a fúria e o berro frente ao insuportável.

Religião e política

A Federação Anarquista Era, composta por libertárixs que vivem no Afeganistão e no Irã, divulga o que ocorre na região desde que a lenta execução de Mahsa Amini foi clandestinamente publicizada. Xs anarquistas contam que viaturas e outras propriedades da polícia estão em chamas, e afirmam que seguirão nas ruas: “é tempo de guerra e não de luto!”. Pois, desde a Revolução Iraniana, “milhões de mulheres foram torturadas, violadas e mortas sob a tirania religiosa e seu patriarcado. (…) É hora de ficar com raiva e rugir, não de ficar sentadx e caladx! É hora de agir e não mais reagir. (…) Nós, anarquistas, apoiamos a continuidade dos protestos e manifestações, e queremos sua expansão em atividades revolucionárias e anti-regime que ganhem maior amplitude e profundidade, para que este regime miserável seja, finalmente, derrubado”. Religião e política são inseparáveis.

>> Para ler o Flecheira Libertária na íntegra, clique aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2022/09/flecheira689.pdf

Fonte: Flecheira Libertária, n. 689, 20 de setembro de 2022. Ano XVI.

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Mundo de orvalho,
não mais que um mundo de orvalho.
Só que, apesar disso…

Issa

Encontro virtual | Cronologia insubmissa: 150 anos do congresso de Saint Imier e os 100 anos da refundação da AIT (1922)

Entre 2 e 7 de setembro de 1872, o V Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), realizado em Haia, decidiu expulsar de seus quadros Mikhail Bakunin e James Guillaume, militantes da Federação do Jura.

Em 15 de setembro de 1872, em Saint Imier,  realizou-se um Congresso Internacional que contestou as decisões de Haia e reafirmou os princípios de autonomia e de federalismo da AIT.

O congresso de Saint Imier, apesar de não ter sido um congresso anarquista, é considerado o marco zero do movimento anarquista organizado.

Cinco décadas depois de Saint Imier, no contexto da ofensiva da Internacional Sindical Vermelha, os sindicalistas revolucionários e anarquistas retomaram a construção da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) em um importante congresso em Berlim, entre 25 de dezembro de 1922 e 2 de janeiro de 1923. Um momento dos mais significativos para o que se convencionaria chamar anarcossindicalismo.

Pelas razões aqui expostas, em comemoração aos 150 anos do encontro de Saint Imier e os 100 anos da AIT (1922), a Biblioteca Terra Livre, o Centro de Cultura Social, o Instituto de Estudos Libertários e o Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri promovem um encontro virtual com Frank Mintz no próximo dia 23 de setembro, às 17 horas, que será transmitido ao vivo pelo canal do youtube do Centro de Cultura Social.

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longa conversa
um grilo termina
o outro começa

Ricardo Silvestrin

Chamado para a XII Feira Anarquista de São Paulo

Os coletivos Biblioteca Terra Livre, CCS-SP e Nelca organizam a XII Feira Anarquista de São Paulo, dando continuidade ao já tradicional encontro anual de anarquistas e simpatizantes do mundo inteiro.

Neste ano, a Feira volta a ocorrer de forma presencial e, com isso, pretende reunir coletivos e editoras anarquistas em sua tradicional mostra e venda de livros, jornais, revistas, fanzines e outros materiais libertários.

Paralelamente à mostra editorial, haverá palestras e debates, assim como diversas atividades culturais, como exposições, poesias, apresentações teatrais e outras atividades.

Grupos, coletivos, editoras e publicações anarquistas interessadas em participar e, ou, expor seus materiais ou que desejem realizar atividades pessoalmente:

Envie sua proposta até dia 30 de setembro através do formulário: https://forms.gle/4WDavCG1SkwiePDf7

Se você não puder comparecer, há maneiras de se envolver com a Feira:

Grupos e coletivos: podem enviar panfletos e, ou, painéis com informações sobre suas atividades para exposição das práticas anarquistas no mundo ou então enviar um vídeo explicando o projeto que desenvolvem e o histórico do grupo.

Editoras e publicações anarquistas: podem enviar seus materiais que nos encarregaremos da exposição e venda.

Artistas: (amadores ou profissionais) podem criar e enviar um cartaz para a divulgação da feira. Mais informações para o envio de cartazes em https://feiranarquistasp.wordpress.com/cartazes/

* * *

XII Feira Anarquista de São Paulo

Data: 13 de novembro de 2022, das 10h às 19h

Local: EMEF. Des. Amorim Lima

Rua Prof. Vicente Peixoto, 50 – Butantã, São Paulo

Organização: Biblioteca Terra Livre | Centro de Cultura Social | Nelca

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Janela fechada:
borboleta na vidraça
dá cor ao meu dia.

Anibal Beça

Assim Juana Rouco Buela começa a autobiografia, sabia…

Hoje o livro chega da gráfica, a autobiografia da Juana começa assim:

“Contarei um pouco da minha vida para que você possa conhecer a minha atuação iniciada ainda menina: sempre em busca da verdade, do amor e da igualdade social para todos os seres da Terra. Aqui excluirei a minha vida privada, tanto quanto possível, trazendo como principal minha atuação ideológica em diversos países onde estive e nos movimentos dos quais participei. Serei o mais fiel possível e destacarei aqueles eventos que, para mim, tiveram mais sobrepujança e significado nos movimentos anarquista e operário, nos quais ao longo de minha vida, em qualquer país, cidade ou província que tenha estado, formei parte.

O ideal anarquista foi e é, para mim, a única bússola certa para levar bem-estar aos povos e destruir a engrenagem social em que vivemos e a qual mantém as diferenças sociais entre os seres, provocando guerras, dores e a destruição de tudo o que existe. Compreendendo isso, dediquei toda a minha vida, com minhas ações, minha tinta e minha palavra, para conscientizar os homens e os povos da melhor maneira possível”.

Você já tinha ouvido falar de  Juana Rouco Buela?

Vem saber mais, tenho 1 convite:

>> O livro segue em pré-venda até o dia do lançamento: 22 de outubro. Mais infos aqui:

https://tendadelivros.org/loja/produto/pre-vendahistoria-de-um-ideal-vivido-por-uma-mulher-e-textos-escolhidos-de-juana-rouco-buela/?mc_cid=ffc9635713&mc_eid=8caea939b8&doing_wp_cron=1663593217.8225040435791015625000

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sombras pelo muro:
a borboleta passa
seguindo a anciã…

Rosa Clement

 

[Porto Alegre-RS] Enterro e despedida da companheira anarquista Maria Pinto

Hoje 18 de setembro de 2022, aos 93 anos de idade, Maria se despediu da vida que ela viveu rodeada de luta e afinidades rebeldes.

Ela foi editora do jornal anarquista O Protesto, jornal que fez parte da agitação dos anos 60, e começou a sair as ruas da cidade de Porto Alegre em outubro de 1967 até 1970 quando foi ilegalizado pela ditadura. Sendo seus participantes perseguidos.

A repressão bateu duro na casa de Maria e Manoel (Seu companheiro, exilado da Revolução Espanhola) sem encontrá-los, porém devastando a casa. Maria foi sequestrada a revelia enquanto abria a caixa postal do jornal no prédio central dos correios, na Praça da Alfândega, centro de Porto Alegre. Pedro Seelig delegado do DOPS “Fleury dos pampas” é quem a interroga e maltrata.

Saindo do cativeiro evadiu-se para Buenos Aires onde participou da Cooperativa de Encadernação El Faro, mantida pelos anarquistas, iniciativa que recebia os e as companheiras prófugos das ditaduras militares do Uruguai e do Brasil.

Ao longo da sua vida sempre se aproximou dos anarquistas e fez grande amizade com vários e várias anarcopunks. Até suas últimas conversas ela se manteve com aquela rebeldia característica dos ácratas.

Maria Pinto é a última dessa geração nesta região.

Nos despediremos dela segunda feira 19 de setembro, no cemitério São Miguel e Almas, das 7h às 14h.

Porto Alegre, setembro de 2022.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/03/12/porto-alegre-rs-o-protesto-um-jornal-anarquista-que-desafiou-a-lei-de-seguranca-nacional/

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uma folha salta
o velho lago
pisca o olho

Alonso Alvarez

O Anarquismo Além do Sudeste…

Resenha do e-book “Memórias Libertárias na Bahia (1970 – 2020)”

Por Renato Lauris Jr.

Entendendo a ação direta, no aspecto anarquista, como algo que não se limita as práticas grevistas, as manifestações e confrontos de rua, mas como uma ação que parte diretamente do indivíduo ou de um coletivo, o lançamento da obra “Memórias Libertárias da Bahia (1970 – 2020)” é uma evidência desta prática. E uma obra, que surge por iniciativa de militantes anarquistas que protagonizaram os eventos ali narrados, um importante documento que a priori nos apresenta duas contribuições: 1° Preenche uma lacuna na bibliografia sobre o anarquismo brasileiro, que hoje com várias dissertações e teses, sendo algumas publicadas em livros e outras armazenadas nas estantes das academias, que em sua maioria retratam o anarquismo das primeiras décadas do século XX e limitando-se, muitas vezes, a região sudeste do país, compreende-se este critério devido ao maior número de imigrantes europeus estarem registrados naquela região, e a posterior industrialização com destaque a São Paulo e Rio de Janeiro sendo a capital brasileira, sendo assim as principais referências econômica e política no Brasil; 2° O resgate da história e memória do anarquismo baiano pelos seus próprios protagonistas, “fugindo” desta maneira dos tradicionais métodos acadêmicos e sendo um potencializador para estudiosos e militantes para o resgate das várias regiões que os anarquistas tiveram sua atuação, colaboraram para a formação de um cenário de pensamento crítico e corpos combativos visando melhores condições de vida, ou como se dizia no começo do século XX, a criação de um mundo novo, que longe dos grandes centros acabam sendo “esquecidos”, desta forma, este resgate é considerado como ação direta, já que parte dos próprios militantes locais.

Vale mencionar, que o anarquismo baiano quando lembrado é mencionado o jornal O Inimigo do Rei, impresso de grande importância para os anarquistas brasileiros, já que em plena ditadura militar, quando os libertários eram vigiados pelos militares, tendo inclusive passado por momentos de represália, como a invasão do Centro de Estudos Professor José Oiticica, no Rio de Janeiro e ocorrendo até apreensão de alguns de seus membros, o que acaba levando ao fechamento do Centro de Cultura Social, em São Paulo, evitando passar por situação semelhante, na Bahia, jovens estudantes driblam dificuldades como ter um local para suas reuniões e onde e como imprimir este jornal, além dos olhares malquistos dos bolcheviques que atuavam no movimento estudantil, lançam este jornal que se converte no porta-voz dos ácratas brasileiros, iniciando sua circulação nas universidades e escolas de Salvador, e que logo amplia sua distribuição estendendo aos estados brasileiros, dialogando com vários militantes, além de divulgar os ideários ácratas para o leitor comum, assim como ter contato com libertários fora do país. A partir do Inimigo do Rei que tem início os relatos das memórias neste e-book.

São nove artigos. Antecedendo as memórias dois textos introdutórios, preparando o cenário para as leituras posteriores. Inicia com um texto reflexivo sobre o passado e presente anarquista, as lutas, reivindicações e os espaços conquistados, sendo algo que não permanece estático, está em constante mutação, e assim, os libertários vão ampliando os espaços de atuação e convivências libertárias possibilitando um futuro cada vez mais próximo do que almeja-se. Na sequência um resgate da história do anarquismo baiano, os primeiros indícios da termologia através da imprensa oficial local, como de praxe, de forma pejorativa, até a intervenção ácrata junto aos trabalhadores, destacando o Sindicato de Pedreiros e Carpinteiros e atuação dos militantes Agripino Nazareth e Eustáquio Marinho, ambos que estavam no Rio de Janeiro, e participaram do grupo que organizava uma insurreição naquele estado, e que na década de 1920 retornaram ao território baiano. Na sequência temos as narrativas dos protagonistas, aqueles que dão continuidade as lutas no princípio do século XX e prosseguem esta jornada, através da atuação impressa em diversos momentos e junto a atuações diversas: O Inimigo do Rei jornal que além das pautas anarquistas dialogava com temas que vinham sendo tratados pela contracultura, e assim sendo, abordam os temas com um viés libertário e mais crítico, temas como questão racial, o consumo de maconha, a questão sexual das mulheres e as homoafetivas, ou como definem num título de primeira página “Prática Sexual Ampla, Geral e Irrestrita”; a Revista Barbárie que além da publicação impressa teve uma atuação visando a inserção e a difusão do anarquismo social, com atuação em sindicatos e bairros periféricos com destaque a periferia de Valéria, local em que junto ao antigo anarquista Antônio Fernandes Mendes, realizaram uma intensa atividade naquela localidade junto com seus moradores, utilizando das metodologias da pedagogia libertária, da ecologia social junto a cultura popular, assim criaram O Instituto Socio Ambiental de Valéria e a Biblioteca José Oiticica;o boletim Bandeira Negra, aqui percebe-se o legado deixado pel’O Inimigo do Rei, e o aspecto federativo que criou junto a outros estados brasileiros, como um veículo de comunicação entre os militantes de todo Brasil, num formato reduzido, Bandeira Negra, seria um órgão de comunicação, interação e desenvolvimento organizacional, entre os militantes baianos localizados não apenas na capital Salvador, mas em outras cidades, como Alagoinha e Feira de Santana; a mobilização urbana dos anarcopunks, a conquista e construção de espaços de intervenção, reuniões e organizações, a aproximação destes junto aos libertários do movimento estudantil, outro legado d’O Inimigo do Rei, e a potencialização destas duas frentes rebeldes resultando em várias manifestações, destacando a conhecida Revolta do Buzu, que tempos depois influenciará o surgimento do Movimento Passe Livre e finaliza com o coletivo editorial e sua publicação A Inimiga da Rainha, não precisamos dizer o que inspirou o nome do jornal, um impresso com foco na interseccionalidade, o que chama atenção neste e a relação geracional, entre velhos e novos militantes, seja colaborativo, seja na convivência, na troca de experiências, seja na prática. Percebe-se, nestes relatos de memória, que a atuação e prática anarquista se adequa a cada época, revisitando o passado para atualizar sua prática visando não cometer os mesmos equívocos e buscando novas possibilidades.

Para finalizar, “Memórias Libertárias na Bahia (1970 – 2020)“, teve seu lançamento em formato e-book, sem gastos e sem custos, possibilitando que vários leitores, curiosos e militantes conheçam as histórias do anarquismo em território brasileiro além do sul-sudeste, em tempos digitais, uma ótima pedida.

Para finalizar, cito uma passagem de Carlo Baqueiro, que acredito está relacionado com a proposta desta obra:

“Deve existir alguma força que nos incite a acreditar nas possibilidades vindouras das ideias que defendemos. Do que escrevemos e divulgamos com o intuito de mudar o mundo. E mesmo que não mude o mundo, possibilita a mudança de alguma alma vagante da humanidade. Alguém que continue o trabalho anterior e possibilite a absorção daquele conhecimento por novos espíritos vagantes”.

>> Para ler-baixar o e-book “Memórias Libertárias na Bahia (1970 – 2020)“, clique aqui:

https://drive.google.com/file/d/1sQdlamxpc5IzZb0TT959pxEeVFT8Q98f/view?fbclid=IwAR3kDrCwc8jFzszWIMUfKyi_k2wxR3-Ep4rWWmnpEarpURBMRdCP26kUgsM

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O coração da aranha
se desfaz em geometria
de seda e mandala.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] A memória de Xosé Tarrío

No bairro de Lavapiés, em Madri, há uma praça com o nome de Xosé Tarrío; desta vez, o nome não foi escolhido pelo conselho local, mas pelo próprio povo, em oposição, como não poderia deixar de ser, àqueles que governam e decidem o projeto urbano. Para aqueles que não o conhecem, Tarrío, agora falecido, era um ativista antiprisão com ideias libertárias; suas origens eram muito humildes e conflituosas, em um bairro deprimido de La Coruña. Sérios problemas familiares e sociais o levaram a passar grande parte de sua infância e adolescência em internatos e reformatórios, dos quais frequentemente escapava. Em 1987, devido a um pequeno roubo que realizou por causa de seu vício em drogas, foi condenado a dois anos, quatro meses e um dia de prisão; sua condição rebelde levou a que a sentença fosse estendida a não menos de 71 anos, além de ter que cumprir mais cem anos e ser classificado como prisioneiro especial do FIES. Lembro-me de ter ficado impressionado anos atrás quando li o livro de Tarrío, Huye, hombre, huye (Foge cara, foge), onde ele descreve a condição deste regime como uma prisão ainda mais terrível dentro da prisão; muitos grupos e personalidades denunciaram esta situação como um castigo adicional e tortura para os prisioneiros, e apelaram para sua eliminação.

Xosé Tarrío, cuja memória foi recuperada em Madri em nível popular através do nome daquela praça constantemente assediada pela administração, fez um verdadeiro apelo antiprisão no qual, do ponto de vista pessoal, descreveu o submundo prisional e a condição dos prisioneiros mais desfavorecidos com constantes abusos e humilhações. Da mesma forma, ele refletiu em seu trabalho o desenraizamento dos prisioneiros, produto da política de dispersão, ainda hoje em vigor, que os distanciou de suas famílias e que foi realizada por Antoni Asunción, um suposto ministro do Interior socialista. Ele também denunciou os maus tratos e as condições desumanizantes, especialmente dos prisioneiros que sofrem de doenças graves. Pergunto-me como é possível, quando aceitamos a situação de que certas pessoas que são perigosas para outras devam ser privadas de liberdade física, que possamos aceitar estas situações subumanas em tantas prisões ao redor do mundo, algumas das quais podemos não estar muito distantes. Também recomendo o comovente filme Horas de luz, que conta a história de Juan José Garfía, um homem com um personagem problemático, com três assassinatos na consciência que ele mesmo não sabe por que cometeu, classificado como FIES e o filme torna-se uma denúncia dessa condição; apesar de uma profunda mudança nesse prisioneiro, graças em grande parte a encontrar o amor em uma trabalhadora sanitária, foi-lhe negada a liberdade até passar mais da metade de sua vida na prisão. Tarrío, amigo de Garfia em cativeiro, não teve tanta sorte e nunca foi capaz de reconstruir verdadeiramente sua vida; viveu com horror e brutalização atrás das grades, mas foi capaz de encontrar um contrapeso na leitura e no conhecimento durante os longos dias de confinamento solitário. Foi assim que ele abraçou as ideias anarquistas e se tornou um ativista antiprisão.

Tarrío passou 17 anos na prisão, 12 dos quais em solitária, e só foi libertado após um derrame mal diagnosticado na prisão; foi uma longa provação nos hospitais até sua morte em 2005, o que provocou inúmeras manifestações neste país indescritível chamado Espanha. No início de 2009, a família, amigos e outras pessoas que conheciam este homem decidiram inaugurar a praça Xosé Tarrío em Madri; eles não pretendiam exaltar sua figura, apenas fazer uma lembrança permanente para uma pessoa e para aquelas outras que também estavam presas e silenciadas. Desde então, como não poderia deixar de ser, a Prefeitura removeu a praça repetidas vezes, mas o nome de Tarrío foi novamente restaurado há algumas semanas e a praça tornou-se agora um espaço de vindicação. Foram sempre os anarquistas que questionaram radicalmente as prisões, apontaram a origem social da maioria dos crimes e defenderam a justiça e o tratamento fraterno para refrear os atos criminosos. Hoje, suas propostas são recebidas com um escárnio de desprezo ou são descartadas, com um escárnio, como uma utopia irrealista. Deve-se lembrar, em primeiro lugar, que os direitos humanos muitas vezes continuam sendo letra morta no mundo moderno. Em segundo lugar, sempre que foram feitas tentativas para construir uma sociedade livre, justa e solidária, a força autoritária da lei tem sido rápida em intervir de uma forma ou de outra.

Juan Cáspar

Fonte: http://acracia.org/la-memoria-de-xose-tarrio/

Tradução > Liberto

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“Chegou o estorninho”—
É assim que todos me chamam
e como faz frio!

Issa

[Belém-PA] A gente aprende a fazer, fazendo!

O movimento punk conduzido por princípios de coletividade e de sabotagem às relações autoritárias, acontece por meio do faça você mesma, do antivirtuosismo, do não lucro, da revolta e da resistência, não apenas pela música e pelo visual. O punk vai além das suas criações sonoras e visuais.

No movimento punk aprendemos que a resistência faz parte da criação de outro modo de viver que contraste com posicionamentos preconceituosos e com o desejo de fama. Não procuramos plateias, não desejamos aplausos.

Para nós as criações estéticas são meios de expressão de uma luta que ajuda as pessoas a se desviarem dos padrões esperados pelas sociedades hierarquizadas fundadoras de desigualdades. Nos recusamos a transformar em produtos e comercializar nossa cultura. As expressões estéticas punks não combinam com as tradições do rock, muito menos com ideologias que alastram preconceitos, hierarquizam e inferiorizam pessoas.

A nossa recusa é contra as injustiças e as desigualdades. É um exercício de resistência que fazemos no enfrentamento cotidiano numa busca constante por uma existência punk conduzida pela revolta e pela contestação aos modos de vida dos subordinados.

Somos ingovernáveis porque fazemos as coisas ao nosso modo!!!

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criado mudo
fica quieto
mas vê tudo

Carlos Seabra

[Espanha] Confeitaria La Suiza: Pedem para 6 militantes da CNT-Gijón 3 anos de prisão e 150.000 euros por exercerem o direito de protesto

Por CNT Ezkerraldea

O conflito começou em 2017 como resultado de denúncias feitas pelo sindicato devido ao não pagamento de horas extras pela empresa a uma trabalhadora, que foi submetida a condições de trabalho abusivas e assédio sexual.

Seis militantes da CNT em Xixon (Gijón), nas Astúrias, enfrentam 3 anos e meio de prisão e uma multa de mais de 150.000 euros por exercer o direito de protesto, uma ferramenta sindical básica que o capital está tentando criminalizar.

Durante as manifestações em torno da confeitaria, a polícia identificou e prendeu militantes, e foi aberto um processo judicial no qual eles tentaram acusar 30 militantes da CNT Xixon, que, graças à equipe jurídica do sindicato, acabou sendo reduzido para 6.

Diante desta situação repressiva, a CNT está convocando uma manifestação em 24 de setembro em Madrid para exigir a absolvição das 6 militantes e denunciar uma sentença que criminaliza uma ferramenta básica da luta de classes.

Desde CNT Ezkerraldea, consideramos que este é um ataque direto ao sindicalismo combativo e também um ataque às mulheres organizadas para se defenderem contra os patrões e contra todos os abusos sofridos pela classe trabalhadora, com o objetivo de desmobilizar e nos coagir através do medo e da repressão.

Consideramos essencial apoiar as companheiras de Xixon e demonstrar nossa solidariedade assistindo à manifestação a ser realizada no dia 24 de setembro em Madrid.

Esperamos que seja uma manifestação multitudinária, para a qual o sindicato fornecerá ônibus gratuitos, partindo de Barakaldo (ida e volta no mesmo dia).

A CNT apela a todos os cidadãos e ao tecido social, de bairro e sindical de todas as cidades e vilas da Espanha para que assumam a defesa de “Las Seis de La Suiza” como sua própria defesa.

Portanto, chamamos todos os cidadãos e grupos em Ezkerraldea que desejarem participar da manifestação para se inscreverem, enviando um e-mail para: organizacion@barakaldo.cnt.es ou ligando para 6231964.

Fazer sindicalismo não é crime: Pela absolvição imediata das Seis de La Suiza.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/09/08/espanha-fazer-sindicalismo-nao-e-um-crime-pela-absolvicao-imediata-das-seis-de-la-suiza/

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Até mesmo o céu
Embriagado pelas flores?
Nuvens cambaleantes.

Nonoguchi Ryûho

Opinião | Ô povo besta

Por V.C.C.O. | 16/09/2022

Na Inglaterra milhares de pessoas estão ficando em pé durante cerca de dez horas seguidas na fila para ver o corpo daquela que viveu praticamente um século parasitando as riquezas produzidas pelas trabalhadoras, enquanto o próprio filho dela ficou em casa e os netos estão passeando. Tem até populares passando mal na fila de tanto desgaste físico.

Como se vê, essa história de que é “só no Brasil” que o povo é besta não se sustenta: as milhares de imbecis que se matam aqui por Lula ou Bolsonaro (os quais gastam milhões do dinheiro público do fundo partidário em cada viagem de campanha que fazem) têm seus equivalentes em imbecilidade e masoquismo em populações de países considerados mais “desenvolvidos”.

O desabafo de Mikhail Bakunin em seu leito de morte, no final do Séc. XIX, infelizmente, continua válido: “como ter esperanças em uma emancipação da humanidade do jugo das dominadoras e exploradoras se os povos parecem não querer se libertar deste jugo.” (aliás, parece até amá-lo)?

A esperança (continuou Bakunin) é que esses grandes Estados e governos vão se entre-devorar em guerras atrozes por poder“, como, aliás, já estão fazendo agora (mais uma vez) na Europa.

Mas, infelizmente, até as ditas “anarcas” de hoje se deixam levar pela “vontade de submissão” (estão na onda da polarização política eleitoreira) e, por isso, provavelmente, essa autodestruição da “civilização” ocidental não ensejará o surgimento de nenhuma força social moralmente capaz de apontar rumos melhores para a reconstrução das sociedades em um sentido antiautoritário.

Chapéu de otária é marreta.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/09/13/reino-unido-unidade-da-classe-trabalhadora-versus-unidade-nacional/

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Na mesma noção de corpos em arte
nós somos um símbolo
Mistério de ser.

Manuela Amaral

[Chile] “Vindicador”, um vinho libertário

Em 2020 realizamos (como Coletivo Antonio Ramón Ramón¹), uma campanha econômica com o objetivo de levantar dinheiro para restaurar o monólito que foi destruído duas vezes (supomos por fervorosos defensores dos massacres dos trabalhadores pelo Estado chileno), durante 2019 e 2020.

Naquela ocasião, conseguimos arrecadar cerca de $700.000 (setecentos mil pesos), destinados a fazer um novo monólito em ferro e fixado (Metrô Rondizzoni), outra porcentagem da receita foi para financiar propaganda.

Há algum tempo estamos trabalhando para gerar espaços autônomos com a capacidade de se sustentar ao longo do tempo com independência econômica (um problema a ser resolvido com uma visão estratégica e não emocional).

Hoje também nos envolvemos em formas de trabalho cooperativo com camponeses da região do Maule e o resultado deste trabalho é a produção de um vinho, que chamamos VINDICADOR, pois é uma homenagem camponesa e proletária à figura e ação de Antonio Ramón Ramón, o vingador do povo.

Graças a todos aqueles que cooperaram com as diferentes iniciativas que realizamos nos últimos 5 anos.

Coletivo Antonio Ramón Ramón

[1] Antonio Ramón Ramón foi um anarquista espanhol. Ele nasceu na cidade de Molvizar, em Granada, Espanha. Ele é mais conhecido por ter executado com suas próprias mãos o general chileno Roberto Silva Renard em 14 de dezembro de 1914, para vingar seu meio-irmão Manuel Vaca, morto no Massacre Escolar de Santa Maria em Iquique, comandado pelo já mencionado oficial militar em 1907.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/08/31/franca-vinho-organico-libertario-feito-artesanalmente/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/11/30/franca-cuvee-elisee-vinho-tinto-para-os-anarcos/

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A quem me visita
o perfume da ameixeira
e a taça lascada.

Issa

[Espanha] Lançamento: “Ecofascismo – Uma Introdução”, de Carlos Taibo

Taibo considera que a mudança climática e a queda das matérias-primas está nos levando a uma nova forma de fascismo para preservar os recursos do mundo para uma minoria.

O ecofascismo é uma aposta em virtude da qual algumas das classes dirigentes do mundo – conscientes dos efeitos da mudança climática, do esgotamento das matérias-primas energéticas e do estabelecimento de uma série de crises paralelas – se empenharam na tarefa de preservar recursos visivelmente escassos para uma minoria seleta. E para marginalizar, na versão mais suave, e exterminar, na versão mais dura, o que se entende por populações excedentes em um planeta que rompeu visivelmente seus limites. Nesta perspectiva, o ecofascismo não seria um projeto negacionista ligado aos circuitos marginais da extrema-direita, mas sim que iria emergir de dentro das principais potências políticas e econômicas. Embora tivesse elites ocidentais em seu núcleo, a elas poderiam se juntar outras baseadas em diferentes espaços geográficos. O ecofascismo também teria suas raízes em muitas das manifestações do colonialismo e do imperialismo como sempre, o que doravante poderia ser tanto sobre o extermínio, já sugerido, daqueles considerados excedentes às exigências quanto sobre o uso de populações inteiras em um regime de exploração que lembra a escravidão de não muito tempo atrás. Em mais de um sentido, o ecofascismo seria, em suma, uma forma de colapso.

Carlos Taibo foi professor de Ciências Políticas na Universidade Autônoma de Madri há trinta anos. Seus livros incluem Colapso (2016), Ante el colapso (2019) e Decrecimiento: una propuesta razonada (2021).

Ecofascismo – Una introducción

Carlos Taibo

ISBN: 978-84-1352-531-0

Páginas: 144

Preço: 14,50 euros

www.catarata.org

Tradução > Liberto

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O vento é o tempo:
sopra varre levanta lambe
desfaz o que foi feito.

Thiago de Mello

[Portugal] Está aí a edição 35 do Jornal MAPA

Já circula o Jornal MAPA #35 (Setembro/Novembro). Nas suas páginas encontramo-nos com as lutas de comunidades que reclamam um poder decisório sobre onde habitar e como gerir os seus territórios. Nas lutas anti-mineração, como no Barroso, as gentes lançam redes e organizam o combate após um acampamento de resistência; no Alentejo, relata-se em Montemor-o-Novo mais um episódio de ameaça sobre a vida das populações e do ecossistema pelo olival super-intensivo. Em Fráguas, na vizinha Espanha, noticia-se a perseguição judicial a quem devolve vida a aldeias abandonadas. O “renascimento rural” ganha corpo. Reavivando a memória dos lugares e tecendo o futuro para além do capitalismo, prosseguimos com propostas de leitura pela memória atávica da produção da lã ou em chamadas de atenção a alguns importantes livros acabados de sair.

Na cidade insistimos em falar nas lutas pelo direito à habitação, num relato a partir de Gaia. E das periferias das cidades ecoa ainda o hip-hop de intervenção, reunido no terceiro volume de Música Sem Filtros, a mais recente compilação digital em que diferentes artistas e bandas se solidarizam com o MAPA. Apresentamo-la numa altura em que o jornal celebra os seus 10 anos – ilustrado em pôster nas páginas centrais desta edição. E por via das dificuldades de sustentabilidade do projeto, impostas pelo brutal aumento dos preços de impressão, discorremos ainda nestas páginas sobre a difícil relação com a indústria especulativa do papel.

Nesta edição não deixamos de falar da barbárie da guerra na Ucrânia, dando visibilidade às iniciativas de oposição à guerra que têm lugar na própria Rússia. E voltamos a dar voz a pessoas presas publicando cartas que atravessam muros. Por fim, destacamos o relato pessoal de um internacionalista em Rojava que percorre a história de uma década de resistência e que ilustra a situação que hoje ali se vive. Fechamos o jornal com uma breve entrevista à Biblioteca das Insurgentes, uma livraria itinerante lisboeta que se dedica à divulgação do(s) feminismo(s) na sua pluralidade.

Que sejam estes e outros os motivos e propostas para a leitura de mais um Jornal MAPA.

O apelo final – que sublinhamos face ao aumento de custos e porque não queremos abdicar de ser um jornal para ser folheado, lido e debatido – é feito para as vossas assinaturas, já que são elas que sustentam a nossa continuidade.

www.jornalmapa.pt

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galho partido
depois da tempestade
caminho de formigas

Alexandre Brito

[Chile] Recordando José e todas as vítimas do terrorismo de Estado

Já são 17 anos sem saber onde está José Huenante, detido e desaparecido em plena democracia, 17 anos de um pacto de silêncio que não deu sequer indícios de qual foi seu paradeiro.

São estes tipos de crimes os que nos confirmam que na democracia o Estado segue e pode seguir perpetuando sua faceta criminosa. Assim o demonstrou com José Huenante, com Manuel Gutiérrez, com as vítimas da revolta e tantos mais que engrossam a lista de vítimas do atuar estatal através de suas forças armadas. É ante estas e tantas outras razões pelas quais nos posicionamos contra toda forma de governo, Estado e organização hierárquica da sociedade, já que sua função é proteger a ordem atual de dominação e qualquer um que não se adapte a seu funcionamento pagará as consequências.

Evidencia-se assim quando atuou contra a classe oprimida, os povos ancestrais, as comunidades dissidentes e as comunidades migrantes. Desde o anarquismo nos posicionamos contra o Estado e o capital porque reconhecemos sua histórica faceta criminosa.

Recordando José e todas as vítimas do terrorismo de Estado seguimos avançando pela abolição do Estado e do capital!

Assembleia Libertária Santiago

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lua na neve
aqui a vida vai ser jogada
em breve

Kikaku

[Itália] Cartaz | Nós não votamos!

A vida, a dignidade e o futuro não podem ser delegados.

Nós não votamos!

Os governos mudam, exploração, opressão, caravanas, expulsões, guerra permanecem.

As eleições são uma procuração em branco para pessoas cujo único propósito é permanecer no poder, apoiando os interesses dos ricos e poderosos que as apoiam.

Vamos lutar todos os dias por um mundo de liberdade e igualdade, vamos construir assembleias populares em toda parte, vamos expulsar chefes e governantes!

Federação Anarquista de Turim – FAI

Nota:

As eleições na Itália acontecem no próximo 25 de setembro.

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Vultos
Ciscos cegos
No olho da rua.

André Vallias