Dentro das celas, contra as prisões I

Em carta escrita nas celas das prisões chilenas de San Miguel e Rancagua, presxs anarquistas apoiam as greves de fome levadas adiante por presos mapuche. À decisão pela greve, partilhada pelos peñi encarcerados no complexo de Angol, propagam a “solidariedade combativa com o levante mapuche autônomo, compreendendo-o nas diferenças de cada luta, mas insistindo em todas as razões e motivos que nos unem como rebeldes e insurrectxs”. Saudaram também a Yiannis Michailidis, que passou mais de 60 dias recusando alimentação na prisão: “Desde o território ocupado pelo Estado chileno até a região grega, direto ao coração do companheiro Yiannis Michailidis um abraço subversivo e anárquico com toda a irmandade internacionalista em revolta permanente, com toda a força da memória em resistência e do ataque ao mundo podre da normalidade capitalista”. Assinada coletivamente por Francisco Solar, Joaquín Chancks, Juan Aliste, Marcelo Villarroel e Mónica Caballero, a carta se encerra com a afirmação da anarquia e da vida livre. “Que a vitória em cada batalha de resistência cotidiana contra as prisões vá semeando o caminho para a liberação total de povos, indivíduos e comunidades que lutam, em todo o planeta, pela vida e contra o capital. Enquanto existir miséria, haverá rebelião! Morte ao Estado e viva a anarquia!”

Dentro das celas, contra as prisões II

Yiannis Michailidis está há mais de 8 anos encarcerado. Há 11 anos ele é perseguido pelo Estado. Primeiro, recebeu ordem de prisão durante uma operação contra a Conspiração das Células de Fogo. Michailidis foi detido por apoiar a liberdade de anarquistas presxs e, por “falta de provas”, deixou a cela, mas continuou sob processo judicial. Depois, enquanto fugia, foi acusado de roubar agências bancárias. As autoridades foram somando acusações contra ele. Por uma fuga durante a prisão preventiva, usando uma viatura policial, Michailidis foi acusado de tentativa de homicídio contra um agente de segurança. O anarquista traçou mais de um plano de fuga, porém foi recapturado todas as vezes. Enquanto isso, acrescentaram-lhe um processo por porte de armas e “terrorismo individual”. Em maio deste ano, depois de cumprir mais da metade de sua sentença mais longa, teve sua liberdade condicional negada. O Estado grego continua a sequestrá-lo. Assim, o libertário iniciou a longa greve de fome, encerrada há algumas semanas.

>> Para ler o Flecheira Libertária na íntegra, clique aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2022/08/flecheira685.pdf

Fonte: Flecheira Libertária, n. 685, 23 de agosto de 2022. Ano XVI.

agência de notícias anarquistas-ana

Madrugada fria.
A lua no fim da rua
vê nascer o dia.

Ronaldo Bomfim

Tradução | Ajuda | Colaboração

[México] Expedida nova ordem de prisão contra o anarquista Miguel Peralta Betanzos

Miguel Peralta Betanzos, ex-preso político e anarquista, está sob ameaça de nova prisão após ter sido libertado de sua condenação e ter sobrevivido à prisão por cerca de cinco anos.

Miguel Peralta é da comunidade de Eloxochitlán de Flores Magón, na Serra Oaxaquenha, México. Novamente Miguel é alvo da política repressiva dos representantes do Estado em sua região, que pretendem o retorno de Miguel à prisão, que foi forjada, e da qual Miguel saiu a poucos meses. Miguel, e outras trinta e quatro pessoas, das quais sete até hoje encontram-se presas (LINK), foi perseguido, processado e encarcerado em Oaxaca, sob a acusação de homicídio e tentativa de homicídio contra uma família de oligarcas de sua comunidade. Hoje em dia, esta família está envolvida com as altas esferas da política estadual e nacional, sendo que são membros ativos do partido político no poder.

Ao mesmo tempo em que a família escala ao poder, e depois de dois anos de ter conseguido sua liberdade, em março de 2022 uma nova audiência reabre o processo e expede nova ordem de prisão contra Miguel, desta vez com uma condenação a cinquenta anos de cadeia. Condenação que jurídica e politicamente foi desmontada, o que resultou na libertação de Miguel em outubro de 2019.

Com este ato, o partido que sustenta o poder no México, reafirma a perseguição política que se exerce contra Miguel e outros indígenas que defendem suas próprias formas de organização frente ao sistema de partidos políticos e de grupos de chefes de comunidades em Oaxaca, que têm a cumplicidade do sistema de justiça estadual e nacional, que já arrancaram quatro anos da vida de Miguel, e agora querem aprisioná-lo por mais cinquenta anos.

Cabe mencionar que Miguel, companheiro anarquista, depois de sair da prisão continuou denunciando a fabricação de crimes e a injusta prisão de seus sete companheiros presos de Eloxochitlán, e outros que ainda têm contra si ordens de prisão. Não ficou silenciado ante o sistema prisional, nem regressou para sua casa para ter uma vida tranquila e ignorar a situação que seus companheiros atravessam. Para nós, este é o claro motivo pelo qual o poder considera “necessário” e pedagógico que Miguel retorne para a cadeia.

Também devemos lembrar que é justamente o encarceramento prolongado uma estratégia dos Estados para combater aos seus inimigos. No caso do México, o encarceramento está claramente orientado para privar da liberdade e, portanto, de suas ações, aos defensores do território e do laço comunitário por uma parte e, por outra parte, as mulheres que lutam contra o Estado Patriarcal. A perseguição aos anarquistas é um cenário mundial, e se reflete nas elevadas condenações, como no caso dos companheiros anarquistas na Itália, que receberam uma condenação inexistente à prisão perpétua, ou o caso de Gabriel Pombo da Silva, que foi encarcerado por ter sido considerado não ter “cumprido” sua dívida com o estado Espanhol, para mencionarmos apenas alguns casos.

É por isso que fazemos o chamado à solidariedade que nos acompanha durante estes últimos anos para que se pronunciem contra a sentença de cinquenta de prisão e a perseguição contra Miguel Peralta por parte do partido no poder, e a possível nova prisão, bem como pela liberdade imediata dos sete presos políticos de Eloxochitlán e pelo fim das ordens de prisão contra as vítimas deste conflito.

Pedimos que estejam atentos e atentas a qualquer tentativa de prisão ou dano à integridade de Miguel, de sua família e dos seus advogados.

Diante do contexto de impunidade e criminalização que se vive em Oaxaca e no país como um todo, responsabilizamos a Elisa Zepeda Lagunas, ao seu pai Manuel Zepeda Cortés e ao seu grupo partidário, pela perseguição política e atos de violência e de repressão contra Miguel Peralta.  Esta condenação reflete a gana dos que perseguem aqueles que luta, mas também inflamam nossa raiva e coragem para não desistir!

Pelo fim da perseguição política!  

Pela destruição dos muros das prisões! 

Presos políticos nas ruas! #LivresJá  

Grupo de apoio em solidariedade com Miguel Peralta Betanzos. 

Fonte: http://www.anticarcelaria.org/2022/08/22/giran-nueva-orden-de-aprehension-contra-anarquista-miguel-peralta-betanzos/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/10/31/mexico-pronunciamento-de-miguel-angel-peralta-betanzos-pela-resolucao-de-sua-sentenca-de-50-anos-de-prisao/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/10/30/mexico-sentenca-de-50-anos-de-prisao-para-o-anarquista-e-indigena-oaxaquenho-miguel-angel-peralta/

agência de notícias anarquistas-ana

Na tarde chuvosa,
Sozinho, despreocupado,
Um pardal molhado

Edson Kenji Iura

[Chile] Sobre a atual situação intra-carcerária de nossa companheira Mónica Caballero

Desde o momento de sua detenção, em junho de 2020, Mónica se encontra no módulo de conotação pública do Cárcere Feminino de San Miguel. Dito módulo se caracteriza pelo controle direto que exerce a gendarmaria sobre as presas, sendo maiores e mais complexas as medidas de segurança que no resto do cárcere.

Junto com isto, o irrisório tempo que Mónica tem de pátio – 1 hora por dia – torna ainda mais opressivo o encarceramento ao ter que ficar confinada em espaços fechados praticamente todo o dia.

No entanto, há um fator que particularmente está dificultando sobremaneira a vida de nossa companheira no interior do cárcere; ser obrigada a compartilhar espaços com mulheres que agrediram, violaram e/ou assassinaram seus filhos. O contato de Mónica com essas pessoas é a todo o momento e a toda hora, situação que já se torna insustentável para nossa companheira. É importante assinalar que Mónica não é que esteja se baseando nas investigações e acusações da promotoria, mas que são elas mesmas que assumem abertamente suas aberrantes condutas, normalizando agressões e violações a seus filhos.

Neste sentido, somos claros em assinalar que isto representa uma estratégia do Poder para dobrar companheiros que devotaram suas vidas em fazer a guerra à autoridade, como evidentemente o fez Mónica. O Poder sabe que nossa ética revolucionária choca frontalmente com essas desprezíveis condutas e quem as perpetram, pelo que de maneira deliberada exerce esse tipo de provocações que representam, a todas as luzes, um castigo extra.

Não aceitaremos compartilhar espaços comuns com violadores, pelo que exigimos de maneira imediata a mudança de módulo de nossa companheira Mónica Caballero.

Junto com isto, a mudança de módulo implicaria também que nossa companheira deixe de estar ajustada a um regime excepcional de controle e vigilância, o que sem dúvida melhoraria sua situação no interior do cárcere.

FIM ÀS MEDIDAS EXCEPCIONAIS DE CONTROLE E CASTIGO SOBRE MÓNICA CABALLERO!!

ATÉ DESTRUIR O ÚLTIMO BASTIÃO DA SOCIEDADE CARCERÁRIA!!

PRISIONEIROS ANARQUISTAS, SUBVERSIVOS E MAPUCHE FORA DOS CÁRCERES AGORA!!

Francisco Solar.

Módulo 2. Cárcere La Gonzalina – Rancagua.

Mónica Caballero.

Módulo de connotación pública. CPF San Miguel.

Marcelo Villarroel.

Juan Aliste.

Joaquín García.

Módulo 1. Cárcere La Gonzalina – Rancagua.

Fins de Agosto 2022.

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

pote virado –
a terra e o gato bebem
o leite derramado

Milijan Despotovic

[Espanha] Jerez reconhece o anarcossindicalista Sebastián Oliva com uma rua no 86º aniversário de seu assassinato

Uma centena de pessoas não esqueceu o camponês e influente representante da CNT, que foi executado por aspirar a uma sociedade mais justa.

Por C. Casanova | 20/08/2022

Um dia depois do assassinato do poeta granadino Federico García Lorca, em 19 de agosto de 1936, foi assassinado – possivelmente nas imediações do Alcázar de Jerez – o militante camponês Sebastián Oliva Jiménez, o mais conhecido e influente representante do sindicalismo agrário da CNT na comarca de Jerez. Ambos os assassinatos não foram casuais, já que foram eliminados por seu compromisso e pelo que representavam: a aspiração a uma nova sociedade mais justa.

86 anos depois, uma centena de pessoas não esqueceu. E participaram nesta sexta à inauguração da rua em homenagem ao anarcossindicalista Sebastián Oliva, situada na zona de Pozoalbero.

O ato, convocado às sete da tarde, contou com a presença do Delegado de Cultura do Município de Jerez, Francisco Camas, e com porta-vozes do sindicato CNTe de associações pela Memória Democrática da comarca, e com descendentes do homenageado.

Em suas intervenções, os porta-vozes das diversas entidades celebraram que por fim se leve a cabo a nomeação de uma via pública dedicada a Oliva, fazendo justiça a uma reivindicação de mais de 6 anos, posto que o anarcossindicalista é uma figura de renome nacional e internacional que merecia um reconhecimento a sua luta pelos direitos coletivos, e em particular, dos direitos dos camponeses.

“Esta rua vem significar o reconhecimento desta Memória no espaço urbano, que é de todos. Uma via publica que a partir de agora deixará no catálogo de ruas um nome que vale a pena ser recordado, pelo que supõe de Reparação e por sua colaboração a nossa história coletiva”, afirmavam durante o discurso. “Se faz justiça a uma demanda de seis anos e meio, que sabemos que as coisas de palácio vão devagar, muito devagar, em matéria de Memória Histórica em nossa Jerez da alma”, acrescentam.

No ato participaram também membros do Ateneu Libertário, que contribuiu com música e contos para recordar a figura do sindicalista.

Fonte: https://www.lavozdelsur.es/ediciones/jerez/jerez-reconoce-anarcosindicalista-sebastian-oliva-con-calle-en-86-aniversario-su-asesinato

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Pra que respirar?
posso ouvi-la, fremindo,
maciez de noite.

Soares Feitosa

[França] Rougerie, “Eugène Varlin: As origens do movimento operário”

Esta é uma biografia muito estranha, pois o assunto é muito difícil. Como assinala Jacques Rougerie, a dificuldade reside na falta de fontes diretas e na brevidade da vida política de Eugène Varlin (1839-1871) de 1865 a 1871.

Nascido em uma família de camponeses, ele frequentou a escola até os treze anos de idade, depois ingressou na Société civile des ouvriers relieurs em Paris em 1852. Ele pertencia à aristocracia dos trabalhadores da arte parisiense, os trabalhadores alfabetizados. Jacques Rougerie insiste no fato de que a vida de Varlin só pode ser abordada com referência ao período histórico e social. Ele segue, portanto, os caminhos que marcam o início da história do movimento operário. Embora evitando mitologizá-lo, ele o torna um ator no surgimento do movimento cooperativo com a criação do Ménagère, no final de 1865.

Jacques Rougerie coloca Eugène Varlin em uma tradição Fourierista em vez de Proudhoniana, em referência a suas posições igualitárias sobre o trabalho das mulheres. Como não mencionar a ação de Varlin na Primeira Internacional, as questões do direito à greve, o direito à sindicalização, sua participação em reuniões públicas, sua ação dentro da Comuna como membro da Comissão de Finanças, depois a Comissão de Subsistência, e finalmente a Comissão Militar, onde foi nomeado Diretor Geral de Manuseio e Suprimentos Militares.

No final da Comuna, ele era um dos oponentes do Comitê de Segurança Pública. Ele acabou sendo vaiado pela multidão e executado em Montmartre.

Um livro a ser lido e relido que está cheio de informações sobre Eugène Varlin, mas também sobre o movimento dos trabalhadores que ele serviu. Um livro sobre o homem que Jules Vallès descreveu como “a personalidade mais notável da Comuna”.

Dominique Sureau (UCL Angers)

Jacques Rougerie, Eugène Varlin. Aux origines du mouvement ouvrier, éditions du Détour, 2019, 256 páginas, 19,90 euros.

Fonte: https://www.unioncommunistelibertaire.org/?Lire-Rougerie-Eugene-Varlin-Aux-origines-du-mouvement-ouvrier

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

folhas escuras
tremem na brisa
à contra-lua

Rogério Martins

Vídeo | O Voto Não Vai Nos Salvar do Fascismo – A Outra Campanha 2022

As eleições estão aí. É hora da corrida para saber quem vai ocupar os cargos que determinam como nossa vida vai ser. Bolsonaro precisa ir embora, mas, independente do resultado nas urnas, a ameaça fascista do bolsonarismo permanecerá nas ruas, nas forças de segurança, milícias e nas elites do capital queimando vidas e as florestas. Se você escolher votar ou não, isso pouco importa. O que importa é o que fazemos apesar disso! A Outra Campanha convoca indivíduos e movimentos a se organizarem para além do dia da eleição, por um outro (fim do) mundo possível.

Votando ou não, devemos ser invogernáveis!

Uma coprodução entre Antimídia e Facção Fictícia.

>> Veja o vídeo (12:19) aqui:

https://antimidia.org/o-voto-nao-vai-nos-salvar-do-fascismo-a-outra-campanha-2022/

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agência de notícias anarquistas-ana

um ponto vem do horizonte,
vira pássaro, desce e pousa;
a árvore o repousa.

Alaor Chaves

 

Convite ação antieleitoral 2022. O mundo está em chamas e você pensa em mudar tudo com um voto?

O mundo está em chamas e você pensa em mudar tudo com um voto?

Convite ação antieleitoral 2022.

Respondendo e amplificando o chamado que já está no ar Varredura Lixo Eleitoral, convidamos à remoção de propaganda eleitoral para combustível de fogueiras contra o Estado e todos os governos, iluminando o amanhecer do dia das eleições do 1° turno com o fogo da ação direta antiautoritária.

Governos, eleições, ditaduras e democracias nada tem feito pela Terra nem contra a dominação de uns poucos sobre a grande maioria.

Como anarquistas não acreditamos no mito eleitoral nem respeitamos seus rituais.

Junte suas afinidades e levantemos labaredas dos ingovernáveis por todos rincões do Brasil, registrando as intervenções e as fazendo circular para contagiar e expandir.

Não colabore com a dominação, sabote-a!

agência de notícias anarquistas-ana

Sou definitivamente
louca do haikai.
Ele, também.

Manuela Miga

[Chile] Diante das condenações solicitadas pelos perseguidores, solidariedade e cumplicidade com Mónica e Francisco!

Em 24 de julho de 2020 xs companheirxs Mónica e Francisco são detidxs em diferentes operações repressivas. O poder acusa Francisco de enviar pacotes explosivos contra o ex-ministro do interior Rodrigo Hinzpeter e contra a 54 delegacia de Huechuraba (ação ocorrida em 24 de julho de 2019, reivindicada por “Cúmplices Sediciosos/Facção para a Vingança”), enquanto que ambxs são acusadxs do duplo atentado explosivo contra o Edifício Tánica na comuna de Vitacura (ação realizada em plena revolta, no dia 27 de fevereiro de 2020, reivindicada por “Afinidades Armadas em Revolta”).

Durante estes mais de dois anos de prisão, Mónica permaneceu no módulo de “conotação pública” da cárcere de San Miguel enquanto que Francisco foi inicialmente encarcerado na seção de máxima segurança da Cárcere de Alta Segurança, mas logo foi transferido em junho de 2021, junto com outros companheiros, para a prisão La Gonzalina de Rancagua, onde se encontra atualmente.

É fundamental ressaltar que ambxs, neste tempo de confinamento, têm contribuído permanentemente com os debates anárquicos e da guerra social por meio de seus escritos, comunicados e artigos, dando conta que a prisão não é o fim de nada, mas sim outra trincheira de onde continuar a luta insurrecional, que seus muros, grades e jaulas não são suficientes para romper a solidariedade e a cumplicidade entre ácratas. É desse lugar também de onde devemos situar que Francisco assumiu os feitos que os acusam, dando assim validade e vigência a um anarquismo de ação ofensiva e à necessidade da continuidade de seus golpes.

Na prisão ambxs formaram, junto com outrxs companheirxs, um coletivo de presxs anarquistas e subversivos, como outro modo de continuar a luta desde a cárcere. Reflexo dessa articulação de vontades refratárias foi a greve de fome que sustentaram durante mais de 50 dias a partir de 22 de março de 2021, quando exigiram a anulação das modificações do decreto de lei 321 e a liberdade de Marcelo Villaroel.

No último 10 de agosto, mais de dois anos do início do processo e após uma série de ampliações nos prazos que a investigação foi encerrada, dando assim o andamento da acusação definitiva onde hoje a promotoria solicita 30 anos de prisão contra Mónica, acusando-a de dois delitos de colocação de artefatos explosivos. Contra Francisco os perseguidores solicitam 129 anos de prisão por dois envios de artefatos explosivos, 3 homicídios frustrados, lesões e danos, bem como a colocação de mais 2 bombas.

Fiscalía Metropolitana Sur, representada por Claudio Orellana, promotor especialista em bombas e processos contra antiautoritárixs, buscará levar mais de 166 testemunhas, 53 peritos e mais de 400 provas, numa tentativa de ajustar contas após a impossibilidade de conseguir condenar xs companheirxs em 2010 no Caso Bombas. No mesmo sentido, burlando seus próprios obstáculos legais, tenta qualificá-lxs como “reincidentes” pela condenação anterior na Espanha.

Para muitxs, as esmagadoras penas com as quais buscam sepultar xs companheirxs podem ser verdadeiramente paralisantes. Frente a uma aparente imparável maquinaria jurídica, pareceria que somente poderia se propagar uma sensação de impotência e frustração. Porém, é justamente a esse ponto que o poder busca nos levar. A solidariedade ácrata, por sua vez, sabe abrir caminho, repleta de vitalidade e criatividade, aposta em destruir as pretensões que os poderosos têm de aniquilar não somente nossxs companheirxs, se não a própria ideia de rebelião.

Um reconhecido ex-ministro que encabeçou a repressão; a delegacia de onde saíram os assassinos de Claudia López; o bairro dos ricos, blindado durante a revolta; ou a polícia mutiladora, foram os alvos daquelas ações. Suas motivações são as nossas e a de todxs nós que rechaçamos o mundo da autoridade e obediência. As ações pelas quais xs companheirxs enfrentaram o julgamento são completamente válidas e legítimas contra os poderosos e repressores.

Quem devolveu os golpes e acabou com a impunidade dos repressores se situa numa explícita e antiga tradição revolucionária, e particularmente anárquica, que busca, com as próprias mãos, destruir o monopólio da violência do Estado e a tranquilidade de quem, desde seus postos, tem comandado as mais brutais incursões repressivas. É dentro dessa mesma linha história que situamos o caso dxs companheirxs Mónica e Francisco.

O chamado é para multiplicar a solidariedade e agitação com xs companheirxs. Levantar desde já iniciativas descentralizadas frente ao julgamento e frear os anseios dos perseguidores que buscam encarcerar Mónica e Francisco por décadas.

Sem nenhum espaço para a indiferença: solidariedade e cumplicidade com quem ataca os poderosos e repressores!

Liberdade para Mónica e Francisco!

Fonte: https://edicoesinsurrectas.noblogs.org/post/2022/08/23/diante-das-condenacoes-solicitadas-pelos-perseguidores-solidariedade-e-cumplicidade-com-monica-e-francisco/

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Todos dormem.
Eu nado na noite que
entra pela janela.

Robert Melançon

[Chile] Sobre as peças processuais de recurso para a revisão do cálculo da sentença de Marcelo Villarroel

Ontem, 17 de agosto, ocorreram os pleitos de recurso que a defesa de Marcelo Villarroel apresentou perante o Tribunal de Recursos de Santiago, para rever a decisão do 7º Tribunal de Garantia de Santiago que indeferiu o pedido dos advogados para rever o cálculo da sentença, em 5 de julho.

Nos articulados, a defesa de Marcelo reiterou ao Tribunal a ilegalidade da ação da Gendarmería de aumentar em 21 anos o tempo mínimo de sua sentença efetiva para ser elegível à liberdade condicional, que, antes desta modificação, ele poderia ter solicitado a liberdade condicional em dezembro de 2019. Esta ação, baseada na modificação do DL 321 pela lei 21.124 em dezembro de 2019, viola uma série de garantias fundamentais, especialmente a não retroatividade do direito penal e o princípio de in dubio pro reo, estabelecido na Constituição (art. 19 n3), no Código Penal (art. 18) e em uma série de tratados internacionais de direitos humanos ratificados e em vigor no Chile.

A defesa também argumentou com base no princípio constitucional da inexcusabilidade do juiz, já que ao declarar a incompetência da Corte, Marcelo está sendo negado o direito de apelação, de ação e de que um juiz examine seu caso e determine se há ou não violações, que são direitos processuais básicos do sistema de justiça.

O Ministério Público também esteve presente, representado pelo Procurador Joaquín Blake Benítez, que argumentou, mais uma vez, que Marcelo ainda deve cumprir sentenças por um período muito superior a 30 anos, dadas as sentenças proferidas pelo Ministério Público Militar, e que este pedido da defesa já havia sido rejeitado pelo Tribunal em várias ocasiões, razão pela qual deveria ser rejeitado (apesar de esta ser a primeira ação para o cálculo de sentenças).

Finalmente, após ouvir os argumentos, o Tribunal, composto pelos ministros Antonio Ulloa Márquez, Ana María Osorio Astorga e o advogado Cristian Lepin Molina, deixou a decisão “em suspenso”, sem tomar ainda uma decisão, e deve adotá-la e emitir uma sentença dentro dos próximos dias ou semanas.

Como equipe jurídica, estamos esperando que o Tribunal emita esta sentença, esperando que os fortes argumentos que apresentamos possam ser levados em consideração, e que nossa ação seja aceita.

Equipe Jurídica para a Liberdade de Marcelo Villarroel.

Santiago do Chile, 18 de agosto de 2022.

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/07/11/chile-sobre-a-audiencia-de-revisao-de-calculo-da-pena-de-marcelo-villarroel/

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pássaro pousado
no espantalho
aposentado

Millôr Fernandes

[Colômbia] Comunicado à opinião pública

A crise que as Instituições de Ensino Superior (IES) do país estão atravessando é o resultado da desfinanciação histórica promovida pelo Estado e por aqueles que as administraram. Esta situação não está longe da atual crise na Universidade Surcolombiana, que se reflete na falta de professores, infraestrutura, contratação tardia de professores e prestação de serviços, entre outros problemas, que se tornaram uma constante por vários anos.

Diante desta situação, nós do Sindicato de Ofícios Vários de Neiva e da União Libertária Estudantil e do Trabalho – AIT, queremos expressar nossa solidariedade com os estudantes da USCO, cujo acesso a uma educação integral com condições dignas para seu processo de formação acadêmica está sendo violado. Também rejeitamos o tratamento desta crise pela atual administração, chefiada pela Reitora Nidia Guzmán, pois tende a aprofundar os problemas e está praticamente sacrificando o bem-estar de estudantes, trabalhadores e professores.

Hoje, é claro que o Estado deve saldar a dívida financeira histórica que tem com as IES. O pessoal docente deve ser aumentado, os contratos de prestação de serviços aos quais muitos professores estão sujeitos devem ser eliminados e os recursos alocados ao bem-estar universitário devem ser aumentados, entre outras necessidades que devem ser combatidas nas ruas, organizadas e por meio de ação coletiva. Ao mesmo tempo, estão sendo feitos progressos na autonomia universitária e estão sendo propostos cenários para que os estudantes possam participar diretamente na distribuição dos recursos disponíveis.

Portanto, conclamamos as organizações estudantis, coletivos, agrupamentos e indivíduos conscientes a consolidar o Movimento Estudantil, a construir um nível de unidade, de ação consensual, que nos permita desenhar a disputa estratégica do Movimento Estudantil Sul-Colombiano, que supere a situação atual.

Organizar-nos na pluralidade de ideias, a partir da vontade política em favor de uma educação transformadora, com bandeiras claras e o horizonte da universidade que queremos, crítica, investigativa, universal, livre e autônoma.

Que o público se torne comum!

EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA          .

Povo oprimido, adiante!

Revolução!

Sindicato de Vários Ofícios Neiva

Federação Regional Huíla ULET-AIT

Fonte: https://www.uletsindical.org/comunicado-a-la-opinion-publica/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

nos dias quotidianos
é que se passam
os anos

Millôr Fernandes

[Itália] Eleições políticas: quando o samaritano Malatesta estava em toda parte: memória eleitoral para os jovens

Memórias eleitorais. Relendo as crônicas de agosto de 1922 pelo anarquista Armando Borghi.

Para referência futura (para 25 de setembro de 2022?), lembre-se do mês de agosto de cem anos atrás.

Era o verão de 1922. No jornal Umanità Nova, em 11 de agosto, os anarquistas escreveram: “Não foi o fascismo que venceu, foi o Estado. Se os carabinieri e os guardas reais não tivessem se unido numa frente unida com os bandidos de camisa preta, o fascismo teria sido esmagado”.

Mais do que um artigo, era um epitáfio. O fracasso da greve geral de 1° de agosto havia destruído as últimas esperanças de resistência.

Armando Borghi (1882-1968), uma bela figura libertária, lembra em Mezzo secolo d’anarchia (Meio século de Anarquia), um livro encomendado por Gaetano Salvemini, que “a decisão de entrar em greve geral foi tomada cerca de uma semana antes da data estabelecida que conhecemos: 1° de agosto. Compromisso em manter o sigilo”.

“Somente na manhã de 1º de agosto é que a imprensa foi informada. O 1º de agosto foi segunda-feira.

No domingo, 31 de julho, os trabalhadores de Gênova transbordaram. Anunciar no domingo, um dia de descanso, uma greve que iria acontecer inesperadamente na segunda-feira, era para desvendar tudo.

Com a rapidez tática à disposição dos fascistas, aquele aviso prévio de vinte e quatro horas foi tão precioso para os outros quanto fatal para nós”.

Apesar de tudo, Borghi relata, “havia centros que lutavam heroicamente”. Parma se defendeu acima de todas as probabilidades.

Houve batalhas ferozes em Turim, Sestri Ponente, Pavia, Pádua, Milão. Ancona foi atacada por terra e mar: para trazer confusão e medo a um clímax, os fascistas foram armados pelas autoridades militares não só com bombas verdadeiras, mas também com bombas de efeito moral, e atiraram tantas centenas quanto teriam arrasado a cidade inteira, dando verdadeiramente a impressão do fim do mundo”.

Em Roma, “o distrito de Porta Trionfale, um dos mais vermelhos, foi dominado pelo rumor corrente de que uma invasão por gangues fascistas era iminente”. Houve uma verdadeira mobilização da população, que permaneceu em vigília por duas noites, armada com o que estivesse à mão”.

A poetisa libertária Virgilia D’Andrea, continua Borghi, “estava naqueles dias precisamente naquele bairro onde Malatesta vivia.

“Mais tarde aprendi com ela que Errico tinha ficado com as pessoas comuns todos aqueles dias, tirando algumas horas de sono. Virgilia ficou ao lado do velhote.

Ela era uma mulher capaz de tirar de sua natureza frágil uma enorme força de resistência, tal era a sugestão que a ideia de lutar e se sacrificar exercia sobre ela. Os fascistas não apareceram”.

Entretanto, apesar do “terreno minado por quase dois anos de terror, as energias morais ainda permaneceram. E se elas tivessem sido usadas no momento certo, e com a determinação necessária, talvez a ciência de mais tarde contaria uma história muito diferente.

Entretanto, os episódios locais não mudaram e não puderam mudar a situação geral. Fomos espancados em todos os âmbitos. Cada última reserva de energia no espectro da esquerda estava esgotada”.

Os fascistas, conclui Armando Borghi, “não tinham apenas que agir; eles tinham que alcançar dois objetivos acima de tudo: dar-se o crédito por terem domado a greve, e privar o governo que não a havia domado”. Eles conseguiram um e o outro”.

Fonte: https://www.teleradio-news.it/2022/08/15/elezioni-politiche-quando-il-sammaritano-malatesta-era-presente-in-ogni-dove-pro-memoria-elettorale-per-giovani/

Tradução > Liberto

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coisa rara:
teu espelho
tem minha cara

Millôr Fernandes

 

[Uruguai] Atividade em solidariedade com os presxs anarquistas na feira de Tristán Narvaja

Nesta semana de solidariedade internacionalista com os presos e as presas anarquistas, de 23 a 30 de agosto, nos autoconvocamos na feira de Tristán Narvaja no domingo 28/08 às 10h00.

Haverá um posto para divulgar e atualizar a situação dxs presxs anarquistas de todo o mundo.

Abraçamos suas lutas e incentivamos a difusão da solidariedade multiforme, combativa e revolucionária, a fim de transpassar os muros e enviar um gesto de cumplicidade aos companheirxs e uma mensagem clara aos inimigos.

Nada e ninguém é esquecido!

Abaixo os muros das prisões!

Que viva a Anarquia!

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/08/10/semana-internacional-de-solidariedade-com-os-prisioneiros-anarquistas-de-23-a-30-de-agosto-de-2022/

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A orquídea –
a cada instante
o silêncio é outro.

Constantin Abaluta

[Espanha] VIII Encontro do Livro Anarquista das Astúrias

Nos dias 1, 2 e 3 de setembro, na casa da vila de Xixón (C\ LLanes 11), ocorrerá o Encontro do Livro Anarquista .

Mais um ano onde se procura dar voz a diferentes projetos que não têm espaço na mídia do sistema.

Uma lufada de ar fresco necessária para levantar a cabeça.

Desistir nunca é uma opção.

Onde houver poder haverá resistência, onde houver opressão haverá rebeldia, onde houver quem quiser silêncio haverá gente disposta a gritar.

Aqui o programa completo:

https://asturies.noblogs.org/post/2022/08/16/viii-alcuentrul-llibru-anarquista-dasturies/?fbclid=IwAR1rfK4LxUWiSCImaHMhqCxd1ziu5moLnG7Y_pRYaTqHkEVSTvJ2c4450Jk

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Mesmo molhado
Resplandece ao pôr-do-sol
O campo de algodão.

Paulo Franchetti

Lançamento do Livro Paternagem Punk em Salvador (BA)

No dia 3 de setembro será lançado em Salvador o livro Paternagem Punk: Ensaios sobre criação em três acordes. Publicado pela Revelia Livros, Edições Analógicas e Estopim, trata-se de uma coletânea de textos de pais com envolvimento na cena hardcore / punk nacional relatando um pouco de suas experiências com a paternagem/paternidade.

Para o lançamento a ser realizado na Casa Preta, no dia 03/09/2022, já confirmaram presença os autores Rodrigo Gagliano, Eduardo Lima, Thiago Reis, assim como Fabiano Passos e João Bittencourt, organizadores e autores, que irão falar um pouco sobre o livro em uma roda de conversa. Para além disso, como via de inserção das pessoas presentes no universo da subcultura hardcore / punk, irão se apresentar as bandas Lasso e Macumba Love.

Serviço:

Lançamento do livro Paternagem Punk em Salvador

+ Bate-papo com autores

+ Venda de Livros

+ Shows com as bandas Lasso e Macumba Love

Data- 03/09/22

Horário- Das 14 às 18h

Local- Casa Preta (Rua Areal de Cima N,° 40- 2 de Julho- Salvador-Bahia)

Evento Gratuito

Maiores informações: www.instagram.com/paternagempunk

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/06/06/lancamento-paternagem-punk-e

nsaios-sobre-criacao-em-tres-acordes/

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no inverno, o vento
dança com as folhas
a seu contento

Eugénia Tabosa

[Bulgária] “As cinco etapas do colapso”, por Dmitry Orlov

Recentemente, foi publicado na Bulgária um livro que descreve em detalhes e de forma bastante colorida vários estágios diferentes da desintegração da sociedade moderna. Descrevendo a desintegração da sociedade que os anarquistas basicamente combatem, decidimos fazer uma breve análise do livro a partir de posições anarquistas.

Brevemente sobre o autor. Dmitry Orlov nasceu em 1962 em Leningrado (hoje São Petersburgo), URSS. Ele emigrou para os Estados Unidos com seus pais aos 12 anos de idade, onde obteve um bacharelado em engenharia da computação e um mestrado em linguística aplicada. No final dos anos 80 e meados dos anos 90, ele fez várias visitas à sua terra natal, o que lhe permitiu observar o colapso e as mudanças sociais na ex-URSS e na Federação Russa de hoje. Por volta de 2005, ele começou a escrever pequenos ensaios sobre o problema do esgotamento dos combustíveis fósseis e seus efeitos na sociedade. Em 2007, a família de Orlov vendeu seu apartamento em Boston e comprou um iate equipado para uma residência de longa duração e viveu nele. Em 2008 ele publicou seu primeiro livro, Redescobrindo o colapso: O exemplo soviético e a perspectiva americana.

Como o título sugere, Orlov descreve cinco estágios diferentes da desintegração do sistema social e, de acordo com o autor, eles ocorrem nesta ordem. Além da descrição de cada etapa, há um exemplo da história humana de uma sociedade que passou por tal colapso. Os problemas são descritos em linguagem acessível através do estilo peculiar e ligeiramente humorístico do autor, que pode agradar muitos leitores. Apesar do estilo, tenta-se uma análise aprofundada dos fenômenos descritos, apoiada por uma quantidade substancial de fatos. O autor também tenta dar conselhos sobre como o leitor pode reduzir as consequências negativas dos processos descritos.

Relacionaremos as cinco partes principais do livro na ordem dada pelo autor.

1) Colapso financeiro. A crença de que tudo segue “como sempre”. O futuro não se assemelha mais ao passado o suficiente para ser previsível e, portanto, os ativos financeiros não podem ser garantidos. As instituições financeiras falham, a poupança desaparece junto com o acesso ao capital.

Orlov descreve em detalhes o atual sistema monetário baseado em papel, juntamente com todas as suas deficiências. Para os leitores não familiarizados com o estado real do sistema financeiro global, este capítulo contém muitas informações úteis apresentadas de forma divertida e de fácil digestão. Depois de descrever os riscos que fazem parte do próprio sistema, o autor dá alguns conselhos sobre como se pode organizar seus assuntos pessoais para sobreviver mais facilmente ao eventual (e até mesmo inevitável) colapso financeiro).

Exemplo: Islândia. A crise financeira de 2008-2009 e a forma como a Islândia lidou com ela é considerada um exemplo histórico de colapso financeiro e suas consequências. Segundo o autor, a razão pela qual o colapso afetou este estado em miniatura em menor grau é sua longa tradição de democracia representativa, assim como sua população muito pequena (cerca de 800.000 pessoas). Do ponto de vista anarquista, a questão de quão boa é a democracia representativa, mesmo em condições ideais, ainda não foi respondida, mesmo depois de ter permitido que o colapso financeiro ocorresse e não se preocupou em tornar tal cenário impossível no futuro. Uma análise mais detalhada dos movimentos políticos do governo islandês torna fácil ver que o sistema fez o que era necessário para se preservar sem mudanças fundamentais.

2) Colapso comercial. A crença de que o mercado fornecerá tudo está perdida. O dinheiro se desvaloriza ou não está indisponível, começa a estocagem, as importações e a distribuição caem. A escassez de bens de primeira necessidade está se tornando comum. Os leitores mais antigos podem se lembrar da situação na Bulgária nos anos 90 com hiperinflação, enormes aumentos salariais e escassez de bens de primeira necessidade, quando funcionários do governo e até mesmo o aparelho repressivo pararam de aparentemente manter a lei e a ordem na economia e se voltaram para a rápida acumulação de capital pessoal, usando as posições que ocupam no aparelho estatal.

Exemplo: A máfia russa. Orlov descreve o crime organizado tradicional russo conhecido como ladrões (criminosos). Esta organização lembra muito a máfia siciliana em estrutura e modo de operação. A organização conseguiu sobreviver à repressão de Stalin e ressuscitou imediatamente após o colapso da União Soviética para preencher rapidamente o vácuo de poder quando os antigos governantes saquearam tudo em que podiam levar em suas mãos. Entretanto, a organização não resiste à competição por este poder contra os grupos recém-organizados, que na Bulgária chamamos de mutri. Os recém-chegados são significativamente mais brutais e inescrupulosos do que os bandidos “antiquados”. Imediatamente após a pilhagem de todos os bens do estado, aqueles que se apropriaram deles tornaram-se os senhores de fato do estado. Nem os bandidos nem os mutri conseguiram resistir à máquina estatal. As unidades conseguem se juntar à nova elite, poucos se tornam chefes mesquinhos, a maioria se tornam guardas de segurança no agora legítimo negócio privado. Tudo isso é bem conhecido do leitor búlgaro.

3) O colapso político. A crença de que “o governo cuidará de você” está perdida. Quando os meios básicos de subsistência não estão mais disponíveis da maneira usual, as pessoas começam a procurar alternativas. Há um “mercado negro”, uma economia de troca, empregos alternativos, as pessoas em geral estão começando a se adaptar às novas condições. O que todas essas coisas têm em comum é que elas não são controladas pelo Estado. De acordo com Orlov, neste ponto o aparato estatal pode tentar reter o poder, ainda que brevemente, interferindo com toda sua brutalidade nestas novas relações sociais, ou retirar-se mantendo funções puramente representativas, o que é preferível. Aqui o autor descreve as ideias básicas do anarquismo, citando principalmente as obras de Peter Kropotkin – como uma alternativa ao poder centralizado. Orlov acredita que as sociedades anarquicamente organizadas são o único caminho para a existência humana normal, e que as sociedades hierarquicamente organizadas estão condenadas ao colapso tão logo a energia barata (combustíveis fósseis) não esteja mais disponível.

Exemplo: Pashtuns. Os pashtuns são um grupo étnico que vive na área ao redor da fronteira Afeganistão-Paquistão. Sua sociedade é uma estrutura tribal sem líderes e uma hierarquia unida apenas por tradições comuns. Os Pashtuns utilizam algo como uma assembleia geral, na qual todos têm o direito de participar e falar, para resolver todos os problemas graves entre si. Esta assembleia substitui as leis escritas, os tribunais, as prisões, o aparelho repressivo e, em geral, todo o aparelho estatal. Se alguém se recusa a obedecer à decisão tomada nesta reunião, ele perde o apoio dos outros membros da sociedade, o que geralmente torna impossível sua existência, o que é claramente contrário à filosofia Hobbesiana subjacente ao sistema capitalista. As tribos individuais têm anciãos, personalidades com grande autoridade, mas quase nenhum poder. Esta organização social torna sua sociedade praticamente impossível de conquistar de um Estado hierarquicamente organizado. Mesmo que um dos anciãos seja subornado por uma autoridade estrangeira com promessas de alto cargo ou riqueza, ele perde quase imediatamente o apoio dos outros Pashtuns, e qualquer contrato assinado por ele é considerado papel sem valor. Até agora, os Pashtuns não foram conquistados nesta ordem: o Império Britânico, a URSS e os EUA.

4) O colapso social. A crença de que “seu povo cuidará de você” está perdida. Todas as instituições sociais, caritativas ou não, deixam de funcionar devido à falta de recursos ou conflitos internos. Orlov explica que a maioria das pessoas nos países desenvolvidos depende de vários auxílios estatais e/ou serviços para sua existência. As pessoas não conhecem a pessoa que produz os alimentos que compram, que costura suas roupas, e assim por diante. Portanto, quando a estrutura social existente deixa de funcionar, a maioria das pessoas não sabe como se abastecer com os meios mínimos de subsistência. Neste sentido, as pessoas que vivem muito mais pobres têm a vantagem de já terem estabelecido vínculos com outros membros da sociedade, produzindo o que não podem pagar. Isto os torna muito mais resistentes ao colapso social.

Exemplo: Ciganos. Orlov descreve uma sociedade extremamente fechada, que rejeita qualquer interação com o Estado e fornece internamente todas as estruturas sociais necessárias. Segundo o autor, a descrição é baseada em pesquisas sobre a sociedade cigana, mas ele não menciona nenhuma pesquisa específica. Entretanto, a sociedade descrita não parece totalmente implausível e demonstra uma certa organização social, que lembra muito os Pashtuns, mas que, ao contrário deles, existe inteiramente em uma sociedade organizada diferente. Embora a sociedade cigana esteja longe de ser ideal, observações interessantes podem ser feitas a partir de sua descrição.

5) O colapso cultural. A crença no “bem da humanidade” está perdida. As pessoas perdem sua capacidade de serem cordiais, generosas, atenciosas, honestas, hospitaleiras, compassivas e caridosas. Mesmo quando as famílias se desfazem, todos começam a poupar para si mesmos e a lutar pelos poucos recursos restantes, movidos apenas pelo interesse próprio e negligenciando os interesses dos outros. O autor embarca em uma longa análise dos fatores que tornam uma pessoa humana. O que é interessante sobre esta parte do livro é que ele descreve realmente a sociedade capitalista ideal, onde cada um se preocupa apenas com seus próprios interesses. De acordo com os principais ideólogos do “verdadeiro” capitalismo, esta organização social deveria trazer prosperidade a todos os seus membros. O mais valioso sobre esta parte é que Orlov encontrou um exemplo real de tal sociedade e, em nossa opinião, qualquer um que continue a se iludir pensando que o capitalismo pode ser melhorado deve se familiarizar com a descrição desta sociedade.

Exemplo: A tribo Ik. Esta tribo vive em um pequeno pedaço de território montanhoso na fronteira entre Uganda, Quênia e Sudão. Sua organização pública é descrita no livro “Mountain People” (Pessoas das Montanha) pelo antropólogo britânico Colin Turnbull. Omitiremos a descrição detalhada da tribo Ik e sua sociedade, porque a maioria dos leitores provavelmente não acreditará na história. Na verdade, a sociedade capitalista ideal excede até mesmo as expectativas de todos os críticos do capitalismo que conheço.

Em conclusão. Os pontos de vista de Dmitry Orlov sobre a ordem social são os mais próximos da corrente do anarquismo, que defende a organização tribal. Ao longo do livro, o autor argumenta que um pequeno grupo de pessoas ligadas através da família e amigos próximos está mais bem preparado para sobreviver às fases iminentes do colapso. Os principais argumentos para a inevitabilidade do colapso do capitalismo e da ordem social atual são o esgotamento dos combustíveis fósseis prontamente disponíveis no mundo inteiro. Segundo o autor, as enormes estruturas de poder centralizadas conhecidas como estados e impérios são tão ineficientes que não poderiam existir sem energia quase livre. O autor não explica como um tal grupo sobreviverá na sociedade capitalista existente e porque não há exemplos de grupos existentes. De alguma forma, presume-se que uma vez que todos os países do mundo se desintegrarem devido ao esgotamento dos recursos naturais, seu lugar não será ocupado por pequenos senhores feudais locais ou corporações internacionais, liderando seus exércitos privados.

Embora as opiniões de Orlov não coincidam completamente com as dos anarco-comunistas, recomendaríamos seu livro a qualquer um que queira aprender muitos fatos sobre o sistema político e econômico atual. Estes fatos não são apenas coletados pelo autor, mas apresentados de forma compreensível e interessante, com um bom senso de humor e muita ironia.

CM

Fonte: https://www.anarchy.bg/articles/петте-стадия-на-колапса-от-дмитрий/

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De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume…

Matsuo Bashô