Talvez você seja anarquista e não saiba

Por Emersom Karma Konchog | 21/08/2022

O estado não violento ideal será uma anarquia ordenada“. Gandhi

Permita que sua vida seja um atrito contra a máquina“. Henry David Thoreau

A crise na imaginação também tem um efeito devastador sobre a vida. Há uma pobreza no modo como pensamos coletivamente que tipo de sociedade queremos. Mas não é um problema de capacidade. Há todo um consenso fabricado sobre o que é permitido pensar.

Por exemplo, a solução padrão sugerida para lidarmos com o colapso ambiental é a mera adoção em massa de energia “limpa”. Supostamente, haveria aí um ganha-ganha: a indústria seguiria com seus negócios de sempre e consumidores agora teriam produtos cuja produção não destrói o ambiente. Soa melhor até do que o Papai Noel.

Um dos problemas aí é que a extração em massa dos minerais dos painéis solares e baterias, por exemplo, já prenuncia outro desastre socioambiental, como sumariza esta palestra do TED.

Ou então poderíamos acabar com a devastação da Amazônia com um novo modelo de negócios, mais ecológico etc. Claro que essas medidas pontualmente ajudariam. No entanto, um cancro segue imune: a máquina de exploração e enriquecimento continua sendo a mesma, ganhando apenas um novo visual, pintado de verde.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/mente-natural/2022/08/21/talvez-voce-seja-anarquista-e-nao-saiba.htm

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Quando a chuva pára
Por uma fresta nas nuvens
Surge a lua cheia.

Paulo Franchetti

[País Basco] Paremos a guerra, aticemos a luta de classes

No passado 4 de agosto militantes de um grupo anarquista de Gasteiz fizemos um mural em solidariedade com os povos que sofrem às mãos das guerras imperialistas. A decisão de fazê-lo veio em resposta à petição de solidariedade vinda do Curdistão frente à recente ameaça militar vinda da Turquia. Assim mesmo queremos expressar o nosso desagrado aos conflitos bélicos na Ucrânia e em qualquer parte do mundo. Como anarquistas cremos necessário evidenciar que todas as guerras entre Estados respondem aos interesses das suas burguesias nacionais, as que se organizam entre elas com tratados e alianças de acordo com os seus interesses políticos e econômicos.

Estamos contra qualquer guerra entre povos (ou contra eles) e demonstramos a nossa solidariedade a quem as sofre, a quem as resiste, a quem as denunciam, as boicotam e as sabotam. Perante suas guerras milionárias que desagregam os povos, é necessário ter redes de solidariedade internacionalista que resistam aos conflitos propiciados pelas elites, que construam uma autodefesa real e popular e que ataquem os mecanismos do Estado que suportam as guerras. Nenhum Estado nos parece legitimo, uma vez que são todos fruto do monopólio político e da violência das classes dominantes e todos representam a autoridade em termos capitalistas.

A única guerra que consideramos legítima é a guerra contra as classes dominantes em favor de uma emancipação social. Com este mural queremos enviar uma humilde mensagem de solidariedade e apoio a quem constrói outro modelo de sociedade baseado em estruturas horizontais e antiestatais. Morte aos Estados.

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Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.

Matsuo Bashô

O voto é uma das armas do vampirismo social

O voto secreto? – A confissão pública da covardia, a confissão pública da incapacidade de ostentar a espinha dorsal em linha reta, a confissão pública do servilismo e da fidelidade aviltante de uns, do dominismo das mediocracias legalmente organizados.

Democracia? – Ferrero a definiu: “este animal cujo ventre é imenso e a cabeça insignificante”…

O voto não é a necessidade natural da espécie humana: é uma das armas do vampirismo social. Se tivéssemos os olhos abertos, chegaríamos a compreender que o rebanho humano vive a balar a sua inconsciência, aplaudindo à minoria parasitaria que inventou a e representa a “tournée” da teatralidade dos governos, da política, das forças armadas, da burocracia de afiliados – para complicar a vida cegando aos incautos, afim de explorar a todo o gênero humano em proveito de interesses mascarados nos ídolos do patriotismo, das bandeiras, da defesa sagrada dos nacionalismo e das fronteiras, da honra e da dignidade dos povos…

Depois, a rotina, a tradição, a escola, o patriotismo cultivado, carinhosamente, para que a carneirada louve, em uníssono, o cutelo bem afiado dos senhores. A religião, a família se encarrega do que falta para desfibrar o indivíduo.

O voto, a legislação interesseira e mesquinha dos pais da Pátria, Parlamentos, Senados, Consulados, Ditaduras, Impérios, Reinos, Repúblicas, Exércitos, Embaixadores, Mussolini – “escultores de montanhas”, símbolos da cegueira do rebanho humano, ídolos que substituem e se equivalem, brinquedos perversos de crianças grandes, sonhos transformados em “verdades mortas”, infância, atavismo de paranoicos…

A política é um trapézio.

Direito do povo, sufrágio universal… Palavras. Dentro do demagogo há uma alma de tirano. Caída a máscara que atraiu o rebanho humano, o ditador salta no picadeiro da política, as duas mãos ocupadas: em uma, o “manganelo”; na outra, o óleo de rícino…

Tem razão Aristóteles: “O meio de chegar à tirania é ganhar confiança da multidão: o tirano começa sempre por ser demagogo. Assim fizeram Pisistrate em Athenas, Téagéne em Mégara, Denys em Syracusa.”

Assim fez Mussolini.

Maria Lacerda de Moura (16/05/1887 — 20/03/1945)

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folhas escuras
tremem na brisa
à contra-lua

Rogério Martins

[Chile] Santiago: lançamento de “Vidas Subversivas”. El anarquismo frente a las maquinaciones del poder en chile de 1920″

Na próxima quarta-feira (07/09) seremos parte de uma cerimônia emocionante de lançamento do livro “Vidas Subversivas”. El anarquismo frente a las maquinaciones del poder en el Chile de 1920″, que aborda um tema repetido na história da república, como a criminalização do protesto social, as montagens, os estados de sítio e a prisão de todos aqueles que tiveram a audácia de desafiar o poder. Essas vidas subversivas dos lutadores e lutadoras do mundo obreiro certamente desenvolveram um trabalho que foi muito além da luta no nível das reivindicações e da economia, para se estabelecer fundamentalmente no nível cultural, buscando acima de tudo uma mudança mental que permitisse a ascensão do sujeito verdadeiramente revolucionário.

Esperamos vê-lo na próxima quarta-feira no Centro Social y Librería Proyección a partir das 18h30.

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a lua se foi
meu rouxinol se calou
acabou-se a noi-

Issa

[Chile] Santiago: Feira do livro libertária

Companheiros, companheiras

Os deixamos cordialmente convidados à jornada de venda, difusão e debate de ideias ácratas, a se realizar no sábado 22 de outubro de 2022, entre as 11 e as 19 horas, tentativamente no espaço Ceibo, situado em Maipú.

A ideia é convocar a diversas organizações e individualidades afins para reativar este tipo de iniciativas com o objetivo de fomentar e dinamizar a difusão, venda e debate fraterno entre os que compartilham ideias radicais de transformação social.

A convocatória é de todas formas aberta. Ainda estamos em etapa de planejamento da feira, mas organizações e editoras são bem vindas a inscrever-se de antemão. De qualquer forma, qualquer mudança na informação será avisada com antecedência.

Para o desenvolvimento da atividade, e dar conta dos gastos associados ao espaço, temos pensado uma colaboração de uns $2,000 por posto. Agradeceríamos que organizações e editorias que queiram participar, seja mediante postos de venda ou exposições, preencham o formulário de solicitação em https://asamblealibertariastgo.wordpress.com/feria-del para coordenar na melhor medida o evento. Selecionaremos 5 exposições por ordem de inscrição.

Qualquer consulta favor escrever a asamblealibertariasantiago@gmail.com

Saudações

Tradução > Sol de Abril

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no parque vazio
duas árvores abraçam-se
em prantos de chuva

Eugénia Tabosa

[Itália] Contra o 41bis. Solidariedade com o companheiro anarquista Alfredo Cospito

ALFREDO FORA DO 41 BIS. QUE FECHE O 41 BIS.
LIBERDADE PARA TODOS E TODAS.

Estamos frente à tentativa, por parte do Estado, de aniquilar nosso companheiro Alfredo Cospito, enterrando-o no infame regime penitenciário do 41bis, para vingar-se de suas ações e impedir que continue a difundir suas ideias ao exterior.

Por isso, os e as anarquistas cremos que seja necessário empreender, começando desde agora mesmo, uma mobilização generalizada até a requalificação de sua condição carcerária.

Cremos necessário pôr em campo um leque de práticas, cada um segundo suas forças, para obrigar o Estado a tirar o companheiro revolucionário Alfredo Cospito do 41bis.

Somos conscientes da natureza parcial desta luta, mas a pressão repressiva é tão firme que cremos necessário nos opormos a isso com todas as nossas energias, porque nisso vemos a tentativa, por parte do Estado, de prejudicar a possibilidade de nos enfrentarmos com este sistema para todos e todas.

Temos a convicção de ter que defender as escolhas do companheiro e as práticas pelas quais está condenado, práticas que pertencem ao anarquismo desde sempre.

O 41bis é um regime de tortura, estabelecido para calar, isolar e obrigar à colaboração com as instituições: é necessário derrubá-lo junto com todos os cárceres.

Enquanto o Estado tenta acabar conosco, somos conscientes de que a melhor defesa é o ataque.

MORTE AO ESTADO
QUE VIVA A ANARQUIA

Anarquistas

Tradução > Sol de Abril

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As nuvens do céu –
o céu do infinito
eu de nenhum lugar

Stefan Theodoru

[França] Atualização sobre o preso anarquista Ivan Alocco

A seguir, notícias sobre a situação de Ivan, o companheiro anarquista detido em 11 de junho próximo a Paris por incêndio provocado e atualmente em prisão preventiva no cárcere de Villepinte.

Ele se encontra bem. Depois de duas semanas sozinho em uma cela, entre finais de julho e princípios de agosto, volta a estar em uma cela com outro detido.

Enquanto Ivan estava detido, a SDAT (Sous-Direction Anti-Terroriste de la Dirección – Central da polícia judicial francesa) interrogou sua companheira. Umas semanas depois, também citaram sua filha (de 12 anos) e sua mãe para interroga-las. Os policiais queriam interrogar a menina, mas a mãe se negou a deixá-la só.

O companheiro ainda não teve acesso aos expedientes da investigação. O magistrado que substitui o juiz encarregado da investigação explicou a negativa pelo fato de que Ivan não disse nada durante os interrogatórios. O advogado recorrerá desta decisão.

Desde 19 de julho, o companheiro já não recebe correio (só houve uma exceção). Talvez porque o juiz está de férias? Assim que não se surpreendam se suas cartas ficam, pelo momento, sem resposta. Em qualquer caso, Ivan sempre respondeu a todas as cartas que recebeu.

Seguimos escrevendo-lhe e mostrando nossa solidariedade, pelos meios que sejam necessários.

Viva o fogo, viva o ataque!

O endereço do companheiro

Ivan Alocco
n. d’écrou: 46355
M. A. de Villepinte
40, avenue Vauban
93420 – Villepinte
França

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inútil, inútil
a forte chuva
mergulha no mar

Jack Kerouac

[Rússia] Yakutsk: Um punk siberiano pode ser encarcerado por agitação antimilitarista

Aikhal Ammosov, de 30 anos, é membro do grupo local de punk rock Crispy Newspaper. Por supostamente “desacreditar o exército russo”, esta pessoa está ameaçada com 3 anos de prisão. O motivo do caso foi que ele e sua namorada tentaram pendurar uma faixa “Punk yakutiano contra a guerra” no centro de Yakutsk antes da visita do primeiro ministro Mishustin. Foi em 26 de agosto, depois do qual Ammosov foi enviado a um centro de detenção preventiva durante 15 dias.

O verdadeiro nome de Aikhal é Igor Ivanov. Este ano, o tribunal da cidade de Yakutsk, a capital da República de Sakha, já o tinha multado com 30.000 rublos em virtude de um artigo administrativo contra a guerra em 3 ocasiões. Assim, no final de abril, o músico montou uma manifestação próxima do serviço funerário, saindo para ela com um cartaz de “Chegou o namorado”. No monumento militar, acendeu uma vela na placa comemorativa “Hero City Kiev”. Também pintou com spray em um edifício público “Yakutia será livre”, e espalhou mais de 100 folhetos pela cidade, todos diferentes.

A banda punk na qual toca Aikhal conseguiu, nos últimos anos, arrastar produtores de selos independentes, turistas intrépidos e repórteres de revistas estrangeiras a este lugar remoto da Sibéria. Mas a guerra, está claro, muda tudo. “Até agora, a minha geração não lhe interessava nada. Muita gente bebe, alguns vão caçar, outros são simplesmente passivos. Estive esperando que alguém apresente publicamente meus pensamentos e os pensamentos de meus companheiros. O fato é que hoje nenhum político parece digno de ser chamado “homem” ou “mulher”. Assim que decidi fazer tudo eu mesmo”, disse na entrevista da primavera para a Rolling Stone.

As ações de Ammosov foram extremadamente notáveis. Não só em Yakutsk, com uma população de 341 mil, mas em toda Rússia. Então começaram os problemas: foi detido em 25 de abril, e durante 5 dias permaneceu sob custódia dos serviços especiais e da polícia.

“Ao tomar esta decisão, era muito consciente de que podia enfrentar as consequências desagradáveis. Deixei meu trabalho. Cortei a comunicação com meus amigos. Não quero que outros se envolvam. No entanto, creio que a liberdade de meus concidadãos depende de minha história e, em primeiro lugar, de milhares de jovens de Yakutsk. Se me condenaram, sua existência também seria menos segura”.

Ammosov afirma pertencer aos “partisanos e patriotas” que lutaram pela independência do povo de Sakha faz 100 anos, e hoje utiliza a arte como forma de luta. “Cresci em uma família pobre. De menino, era consciente das grandes diferenças que existem em nossa sociedade. Hoje em dia, alguns poderiam pensar que sou um punk anormal porque não bebo nem fumo. Mas aqui temos nossa própria forma de entender as coisas. Em primeiro lugar está o conhecimento e a inteligência. Isto é o que chamamos sakha-punk”.

Logo, contou mais detalhes interessantes em uma entrevista de junho da Sadwave:

“Estou contra qualquer guerra. É estranho estar a favor. Qualquer pessoa consciente que pense com sua própria cabeça será contra os conflitos armados. Todos vimos filmes de guerra. Vimos filmes soviéticos. A guerra sempre é má. A guerra não traz nada bom. Só morte, fome e pobreza. São coisas elementares que até uma criança sabe! Mas as pessoas são tão estúpidas que dizem que há que lutar. Diz que a guerra é boa. Que cedo ou tarde acontecerá. As guerras há que preveni-las, não fomentá-las. E não contribuir com seu desenvolvimento. Não sou hippie e nunca fui uma pessoa amante da paz. Não fui pacifista. Mas nunca estive a favor da guerra. Li muitos livros sobre guerras como a Grande Guerra Patriótica, sobre o Afeganistão, sobre a Chechênia… Sempre estarei contra as guerras.

O sentimento contra a guerra é muito forte entre os jovens de Yakutsk e a região. Nossa juventude é inteligente, pensante, consciente, creio nela. Provavelmente 95% está contra a guerra. Só apoiam alguns poucos. Talvez pela propaganda e os pais? Há mais partidários entre a geração anterior. Mas inclusive eles começam a entender o que é. E eles também estão de nosso lado. As pessoas estão confusas. Foram enganadas. As pessoas não entendem o que estão fazendo. Por que necessitam esta guerra? Todos querem viver em paz. Mas lhes dizem que é necessário. Que é forçoso. Que não havia outra maneira.

Parece que minha história está sendo conduzida a um caso criminal. Simplesmente não querem ir porque tem medo. Dizem que eu levantarei o povo. Já há muita gente atrás de mim. Trabalhadores ordinários, carregadores, taxistas. Juventude. Intelectualidade. Marginais. Moradores de uluses.

Meu apoio é muito forte. Me escrevem constantemente, veio gente na rua, me comunico. Me escrevem desde Buriatia, Tuva. Os meninos de Petersburgo escrevem, ajudam com a arrecadação de fundos. Recentemente enviaram 10.000 para pagar a multa. Os jovens saíram às ruas, disseram palavras de agradecimento, disseram que me apoiam, que seguem meus assuntos, se tiraram fotos como recordação. Perguntam muito, lhes interessa a política, perguntam que acontecerá no futuro quando termine a guerra. Há muitos jovens em Yakutsk que me apoiam. Vou a reuniões, falo com eles, escuto seus pensamentos. Querem falar, mas ninguém os escuta. Aqui só os velhos manejam tudo, e nada se dá aos jovens. Os jovens saem da república ou do país em busca de uma vida melhor e um trabalho digno, porque aqui não se dão as condições normais. Os anciãos estão em todas as partes. Gostaria de mudar isto. Para que venham os jovens. Para que os jovens, enérgicos e ousados, prontos para a ação e a mudança, trabalhem em todas as partes. Temos estagnação e regressão aqui. Vivemos como em uma lata.

Há muitos jovens em Yakutia. E não lhes permitem fazer nada. Simplesmente estão desperdiçando sua preciosa energia. Eles caminham. Lutam. Dormem todo o dia. E seria possível utilizar esta energia para o bem. Mudaríamos muito. Yakutsk é uma cidade de jovens, mas esta cidade é dirigida por velhos conservadores oxidados. Somos a nova geração. Geração de Novos Românticos. Inconformistas e personalidades apaixonadas. Agora é nosso momento. Este é nosso ano. Agora estamos escrevendo a história.

Antes já ia a reuniões, participava nos assuntos públicos da república. Fiz muitas coisas diferentes, mas nem fui brilhante nem audaz. Eu era reservado. Agora trato de fazer tudo para que se veja: quando a gente vê, deixa de ter medo, se inspira, eles mesmos começam a atuar. De certo modo, aplainei o caminho. E digo que todo o mundo pode segui-lo, está comprovado. Atuar de forma encoberta e anônima é inteligente. Mas atuar para o espetáculo é valente e audaz. E paga pela valentia, talvez estarei no cárcere.

Toquei em diferentes bandas, mas todas se desmoronaram. Viveram no máximo um ano ou dois. Quase toda minha vida estive escrevendo textos politizados sobre as realidades de Yakutsk. Ridicularizei os que estavam no poder. Escrevi poesia satírica. Mas realmente não me foquei em ninguém, só fiz intuitivamente o que queria fazer (…) Inventar nosso próprio punk rock desde o zero. Não esperamos nenhum estímulo, nem elogio, nem glória. Só jogamos para nós e nossos amigos. Yakutsk é a Seattle dos anos 90. Yakutsk é a Londres dos anos 70. Mas fazemos o que temos que fazer. Com grande devoção e fanatismo. Só o punk rock nos dá um sopro de liberdade. queremos viver. Queremos liberdade. Queremos fazer história”.

Fonte: http://alasbarricadas.org/noticias/node/49509

Tradução > Sol de Abril

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Voa bem-te-vi,
enquanto o sol é promessa
e eu tenho as janelas.

Yberê Líbera

[Espanha] V Encontro d’Escritos Libertários

|| De 12 a 18 de setembro, palestras, apresentações, rota teatralizada pelas Greves e Manifestações de León e muitas mais coisas para alimentar a raiva contra o sistema que nos destrói ||

Aqui estamos, outro ano mais voltamos com os escritos libertários. Apesar da situação de bloqueio e desmobilização sabemos que as aspirações libertárias são mais fortes que o peso da cotidianidade capitalista.

Temos toda uma semana de atividades programadas nas quais exploraremos o passado do movimento libertário no estado espanhol e na comarca sanabresa, nos aproximaremos da figura de Ricardo Flores Magón no centenário de seu desaparecimento; nos impregnaremos do vigor surrealista e visitaremos a cena fanzineira local, essas publicações impregnadas pelo frenesi criativo e a diversidade temática.

Em um momento no qual a necropolítica fronteiriça da UE nos recorda que a livre circulação está instaurada para os capitais e não para as pessoas, nos aproximaremos da luta do povo saharaui frente à podre política colonial espanhola.

Da mesma forma, frente aos cantos de sereia eleitoralistas que vem outro ano mais nos seria de ajuda recordar que já em 1893 na vila de Sahagún se realizou o primeiro boicote eleitoral do estado e como há outros métodos de luta. Na rota pelas mobilizações da província até 1939 encontramos alguns deles: desde as revoltas jornaleiras [agricultores] de terra de campos que terminavam com o incêndio das caixas de pão dos patrões até os mineiros faberenses proclamando o comunismo libertário em 1933 após a greve geral revolucionária.

A gestão do colapso pelas atuais elites está se convertendo em toda uma série de medidas encaminhadas a que as classes populares “apertem o cinto”; enquanto que a economia atual continua arruinando a vida da maioria e espolia os recursos naturais para seguir gerando lucros a uma minoria. Por isso seguimos reivindicando outro modelo econômico que priorize a gestão comunal e respeitosa com a Natureza, voltando a pôr em relevo o local, onde os conselhos foram e são a melhor expressão de democracia direta, como veremos na oficina sobre conselhos e juntas vicinais.

Definitivamente, uma semana de atividades libertárias para enfrentar um sistema onde a única liberdade que está garantida é a liberdade de consumo.

Saúde e liberdade!

>> Confira a programação aqui:

https://alcuentrullibertariollion.wordpress.com/calendario-alcuentru-2022/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

nenhuma flor resta
os troncos abatidos
nenhuma floresta

Núbia Parente

[Reino Unido] Contra o Anarco-Liberalismo e a maldição da política identitária

A política identitária tem infectado os espaços anarquistas e faz parte da sociedade que queremos destruir, porque é estreita, exclusiva e divisiva, um instrumento da classe média que explora o medo, as inseguranças e a culpa – e está alimentando a extrema-direita.

Por Anarquistas Despertos (UK)

O anarquismo no Reino Unido é uma piada. Tendo uma vez simbolizado as lutas pela liberdade, a palavra foi despida de sentido para dar lugar a políticas de identidade de espírito estreito, separatista e odioso por parte dos ativistas da classe média interessados em proteger os seus próprios privilégios. Escrevemos este folheto para recuperar o anarquismo destes políticos identitários.

Escrevemos como pessoas que se identificam como anarquistas que vemos as nossas raízes nas lutas políticas do passado. Somos antifascistas, antirracistas, feministas. Queremos pôr um fim a todas as opressões, e tomamos parte ativa nessas lutas. Mas o nosso ponto de partida não é a linguagem densa dos acadêmicos liberais esquerdizantes, mas o anarquismo e os seus princípios: liberdade, cooperação, ajuda mútua, solidariedade e igualdade para todos, independentemente de tudo. Hierarquias de poder, em qualquer forma que se manifestem, são nossas inimigas.

A política identitária faz parte da sociedade que queremos destruir. 

A política identitária não é libertadora, mas reformista. Não é mais do que um terreno fértil para os aspirantes a políticos identitários de classe média. A sua visão a longo prazo é a plena incorporação de grupos tradicionalmente oprimidos no sistema social hierárquico e competitivo que é o capitalismo, e não a destruição desse sistema. O resultado final é o Capitalismo Arco-íris – uma forma mais eficiente e sofisticada de controle social onde todos têm a oportunidade de desempenhar um papel! Confinados ao “espaço seguro” de pessoas como eles, os políticos identitários tornam-se cada vez mais desligados do mundo real.

Um bom exemplo é a “teoria queer“, e como ela se vendeu a mestres corporativos. O conceito de queer era, não há muito tempo, algo subversivo, sugerindo uma sexualidade indefinível, um desejo de escapar às tentativas da sociedade de definir e estudar e diagnosticar tudo, desde a nossa saúde mental até a nossa sexualidade. No entanto, com poucas críticas de classe, o conceito foi prontamente apropriado por políticos e acadêmicos identitários para criar mais um rótulo exclusivo para um grupúsculo frio que é, ironicamente, tudo menos libertador. Cada vez mais, o queer é um bonito distintivo adotado por alguns para fingir que também eles são oprimidos, e evitar serem chamados à sua política burguesa de merda.

Não queremos ouvir falar sobre o próximo evento “autogerido”, noite queer ou festa em squat que exclui todos, excepto aqueles que têm a linguagem, o código de vestuário, ou os círculos sociais certos… Volte quando tiver algo genuinamente significativo, subversivo e perigoso para o status quo.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://passapalavra.info/2022/08/145474/

agência de notícias anarquistas-ana

na ordem alfabética
conseguir captar
a desordem poética

Jandira Mingarelli

O arquivista

Max Nettlau foi um historiador dos anarquismos que viveu parte de sua vida na Alemanha. No final do século XIX, encantou-se com os inúmeros escritos libertários que circulavam em jornais e periódicos. Resolveu montar um arquivo e, com o dinheiro de uma herança, passou a guardar os materiais para que não fossem esquecidos ou perdidos. Dedicou-se também a estudar e escrever sobre a vida de algunxs anarquistas, entre suas obras, talvez a mais conhecida seja a biografia de Mikhail Bakunin. Ao final da I Guerra Mundial, Nettlau perdeu tudo o que tinha e acabou vendendo o seu acervo para o International Institute of Social History (IISH), na Holanda. Com a ascensão do nazismo, teve de fugir de Berlim e passou a viver em Amsterdam, onde continuou a catalogar os materiais anarquistas no IISH até ser acometido por um câncer que o matou em 1944. A atenção de Nettlau à produção anarquista foi vital para que muitos documentos sobrevivessem às perseguições e continuassem a atiçar libertárixs atentxs pelo planeta.

e seu arquivo

Na internet circulam dados de pessoas, mercadorias, dinheiro, textos, sonhos, desejos entre tantas outras coisas. Em meio ao cruzamento infinito de dados para construção de perfis, recentemente, os arquivos coletados por Nettlau sobre a América Latina foram disponibilizados digitalmente (https://archive.org/details/anarquis-molatino?tab=about). São inúmeros periódicos que carregam as histórias, registros de festas e de vidas, invenções, desentendimentos, vitalidades e lutas libertárias. Em meio a monitoramentos, compartilhamentos, inteligência artificial, big data, bancos de dados, coins e likes, os periódicos anarquistas passam despercebidos a esses fluxos. Em qualquer canto do planeta, podem ser encontrados por quem tiver interesse. E que continuem a atiçar novas lutas por aí. Saúde!

>> Para ler o Flecheira Libertária na íntegra, clique aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2022/08/flecheira686.pdf

Fonte: Flecheira Libertária, n. 686, 30 de agosto de 2022. Ano XVI.

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/08/15/mexico-sem-deus-nem-patria-nem-amo-jornais-anarquistas-da-america-latina-digitalizados-e-de-acesso-livre/

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uma pétala de rosa
no vento
ah, uma borboleta

Rogério Martins

Opinião | Sobre Eleições e “Anarquistas” EleitoreirEs

Pelo ínfimo contingente numérico que caracteriza o movimento atualmente, a única influência que quem se diz anarquista pode (e deveria) ter sobre a sociedade seria a de representar um projeto social completamente oposto aos projetos hierárquicos, e esses imbecis colocam a perder completamente a “representatividade” ácrata original com essa obtusidade de que as anarquistas podem fazer alguma diferença numérica nos rituais estatísticos eleitoreiros.

A peça de manipulação discursiva sofista que criaram – “votando ou não, sejamos ingovernáveis” -, para promoverem suas taras hierarquizantes é uma verdadeira piada para quem tem mais de dois neurônios (ou seja, para quem não se deixou capturar pela polarização estreita eleitoreira): ora, é evidente que quem vota está declarando que quer um governo sobre si. Anarquista que sabe o que o anarquismo realmente combate, compreende que “vença quem vencer, as ganhadoras serão as mesmas: bancos, agronegócio, big farma, indústria bélica.”

Quando o governo desses imbecis estiver no poder e voltar a cometer atos ecogenocidas – pretensamente para promover o “desenvolvimento” da nação, eu vou apontar publicamente para eles acusando-os de genocidas também, e se por acaso tiverem a coragem de saírem às ruas para denunciar as arbitrariedades de seu governo de estimação (o que, obviamente, após terem se comprometido publicamente com a campanha eleitoral, não terão nenhuma moral para fazer) e forem duramente reprimidas, como aconteceu em 2013-2014, eu promoverei o slogan “‘anarquista’ que legitima governos merece ser presE em suas cadeias!”

Quem gosta de uma chibata governamental é qualquer outra coisa, menos anarquista: tirem suas bandeiras tintas de sangue do meio das nossas negras  de luto pelas mortes de inúmeros ácratas verdadeiramente insubmissos nas mãos dos governos de todas as cores!

V.C.C.O.

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velho jornal
levado pelo vento
prevê temporal

Carlos Seabra

[Espanha] A CGT não pagará as multas impostas pela Polícia Nacional no passado 1º de Maio em Valência

Os agentes do CNP asseguraram, ao identificar a várias anarcossindicalistas, que não sancionariam ninguém, no entanto terminaram aplicando a Lei Mordaza

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) emitiu um comunicado no qual manifesta seu total rechaço às multas de vários companheiros do território valenciano que foram sancionados no contexto da manifestação pacífica convocada para o 1º de Maio, Dia Internacional da Classe Trabalhadora.

Segundo a organização anarcossindicalista, estas companheiras portavam uns potes de fumaça, com as cores da bandeira anarcossindicalista (vermelho e negro), que incendiaram durante a manifestação na manhã do Primeiro de Maio. Na rua de la Paz, alguns agentes da Polícia Nacional comunicaram que este tipo de objetos não podiam ser usados e que por “segurança” deviam identificar a quem os portavam, ainda que assegurassem que não sancionariam nenhuma destas pessoas por isso.

Ao cabo de três meses, e segundo a organização anarcossindicalista, as multas após as identificações daquela manhã foram recebidas por vários companheiros e companheiras. A quantia de cada uma delas ascende a 601 euros, e são o resultado da aplicação da Lei de Proteção da Segurança Cidadã (Lei Mordaza).

A CGT manifestou que não pagará nem um euro destas sanções, entre outras coisas porque estas identificações se deram em um contexto pacífico, a pessoas que não estavam fazendo outra coisa que exercer seus direitos fundamentais no Dia Internacional da Classe Trabalhadora. Ademais, os potes de fumaça costumam ser utilizados em muito diferentes eventos e atos, entre eles as concentrações ou manifestações reivindicativas como a do Primeiro de Maio.

A CGT também enfatizou que estas circunstâncias vem a corroborar a quem e para que serve a Lei Mordaza. Os e as anarcossindicalistas consideram que esta lei, desde que foi aprovada pelo PP em 2015, só serviu para reprimir as pessoas que lutam organizadamente por seus direitos e liberdades. Uma lei, segundo a CGT, que prometeram revogar as formações políticas que estão no Governo espanhol na atualidade, mas que também lhes serve agora para conter as mobilizações.

cgt.org.es

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

Zemaria Pinto

[Galícia] 1ª Feira do Livro Anarquista de A Coruña (FLAC)

Aos coletivos e editoras anarquistas

Estimados companheiros,

Através deste comunicado, os informamos que desde o coletivo Refugios da Memoria e as editoras Bastiana e Ardora, estamos organizando a primeira Feira do Livro Anarquista de A Coruña (FLAC), que acontecerá no fim de semana de 10 e 11 de setembro de 2022, na cidade de A Coruña, em um espaço ainda não determinado.

Pensamos que este evento pode ser uma boa oportunidade para nos reunirmos e conhecer a todos aqueles grupos e coletivos da Galícia e Portugal interessados na cultura libertária.

Claro, também será uma boa oportunidade para divulgar, intercambiar e vender nossas publicações.

Se queres participar na FLAC 2022, só deves enviar um correio eletrônico a memorial@refuxiosdamemoria.org confirmando tua presença nos dias 10 e 11 de setembro no mercado de livros e revistas, e indicando o espaço aproximado que necessitas para exibir tuas publicações e materiais. O espaço será completamente gratuito.

Além disto, estamos organizando uma agenda de conferências e apresentações, com o livro anarquista como eixo principal, mas também aberta a outros temas e formatos relacionados com a cultura e a história libertárias. Se tens alguma proposta ou sugestão, ou queres apresentar alguma de tuas publicações, comuniquem no e-mail, e tentaremos encaixá-la na agenda.

Estamos em processo de preparar a logística do evento, pelo que lhe agradecemos confirmar sua presença o antes possível, para que possamos medir as necessidades coletivas, assim como escolher o espaço mais adequado para levar a cabo a FLAC 2022.

Saudações e abraços.

FLAC 2022

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

tênue tecido alaranjado
passando em fundo preto
da noite à luz

Guimarães Rosa

[Internacional] Anarcossindicalistas pedem doações às vítimas das chuvas no Paquistão

A região do Paquistão está devastada pelas inundações. Mais de 1000 pessoas morreram, há centenas de desaparecidas e milhões de deslocadas.

O governo fracassou em proporcionar qualquer tipo de ajuda e está muito ocupado em suas lutas internas.

Nossas compas anarcossindicalistas da WSF-AIT (Workers Solidarity Federation), inclusive tendo perdido suas moradias algumas delas, saíram à rua para distribuir ajuda, roupa, alimentos… e iniciaram uma campanha internacional de doações com a qual podes colaborar.

Clica no seguinte link para acessar a campanha solidária.

https://www.paypal.com/pools/c/8MCuGLE0xR

agência de notícias anarquistas-ana

os fantasmas de cogumelos
viraram tinta:
pés nus no frio

Rod Willmot

O criminoso | Albert Libertad, Proclamação do jornal “L´anarchie”, Março de 1906

És tu o criminoso, ó Povo, já que és tu o Soberano. És, é verdade, o criminoso inconsciente e ingênuo. Votas e não vês que és vítima de ti mesmo.

Contudo, não reparaste ainda por experiência própria que os deputados, que prometem defender-te, como todos os governos do mundo presente e passado, são mentirosos e impotentes?

Sabê-lo e queixas-te disso! Sabê-lo e nomeia-los! Os governantes, quaisquer que sejam, trabalharam, trabalham e trabalharão pelos seus interesses, pelos das suas castas e das suas súcias.

Onde foi e como poderia ser de maneira diferente? Os governados são subalternos e explorados: conheces algum que o não seja?

Enquanto não tiveres compreendido que só a ti cabe produzir e viver à tua maneira, enquanto suportares – por medo – e fabricares – por crença na autoridade necessária – chefes e diretores, fica também a sabê-lo, os teus delegados e os teus amos viverão do teu labor e da tua patetice. Queixas-te de tudo! Mas não és tu o autor das mil chagas que te devoram?

Queixas-te da polícia, do exército, da justiça, das casernas, das prisões, das administrações, das leis, dos ministros, do governo, dos financeiros, dos especuladores, dos funcionários, dos patrões, dos padres, dos proprietários, dos salários, dos desempregados, do parlamento, dos impostos, dos fiscais da alfândega, dos possuidores de rendimentos, da carestia dos víveres, das rendas dos prédios rústicos e urbanos, dos longos dias de trabalho na oficina e na fábrica, da magra ração, das privações sem conta e da massa infinita das iniquidades sociais.

Queixas-te, mas queres a manutenção do sistema em que vegetas. Revoltas-te, por vezes, mas para recomeçar sempre no mesmo. És tu que produzes tudo, que lavras e semeias, que forjas e teces, que amassas e transformas, que constróis e fabricas, que alimentas e fecundas!

Porque não consomes até à saciedade? Porque és tu o mal vestido, o mal alimentado, o mal abrigado? Sim, porque és o Zé Ninguém sem pão, sem sapatos, sem morada? Porque não és o senhor de ti mesmo? Porque te curvas, obedeces, serves? Porque és tu o inferior, o humilhado, o ofendido, o servidor, o escravo?

Elaboras tudo e nada possuis? Tudo é por ti e tu nada és.

Engano-me. És o eleitor, o maníaco do voto, o que aceita o que é; o que, pelo boletim de voto, sanciona todas as misérias; o que, ao votar, consagra todas as suas servidões.

És o criado voluntário, o doméstico amável, o lacaio, o serviçal, o cão que lambe o chicote, que rasteja diante do pulso teso do dono. És o chui, o carcereiro e o bufo. És o bom soldado, o guardaportão modelo, o locatário benévolo. És o empregado fiel, o servidor dedicado, o camponês sóbrio, o operário resignado com a sua própria escravatura. És o carrasco de ti mesmo. De que te queixas?

És um perigo para nós, homens livres, para nós, anarquistas. És um perigo de igual modo que os tiranos, os senhores que crias para ti próprio, que nomeias, que apoias, que alimentas, que proteges com as tuas baionetas, que defendes com a tua força de bruto, que exaltas com a tua ignorância, que legalizas com os teus boletins de voto – e que nos impõem com a tua imbecilidade.

És bem o Soberano que bajulam e levam à certa. Os discursos lisonjeiam-te. Os cartazes prendem-te a atenção; gostas das parvoíces e que te façam a corte: satisfaz-te, enquanto aguardas que te fuzilem nas colônias, te massacrem nas fronteiras, à sombra ensanguentada da tua bandeira.

Se línguas interesseiras lambem à volta da tua real bosta, ó Soberano!; se candidatos sedentos de posições de chefia e atafulhados de banalidades escovam o espinhaço e a garupa da tua autocracia de papel; se te embriagas com as lisonjas e as promessas que te vertem os que sempre te traíram, te enganam e vender-te-ão amanhã: é porque te pareces com eles. É porque não vales mais que a horda dos teus famélicos aduladores. É porque, não tendo podido elevares-te à consciência da tua individualidade e da tua independência, és incapaz de te emancipar por ti mesmo. Não queres, portanto, não podes ser livre.

Vamos, vota bem! Tem confiança nos teus mandatários, acredita nos teus eleitos.

Mas deixa de te queixar. Os jugos que suportas, és tu mesmo que tos impões. Os crimes de que padeces, és tu que os cometes. És o senhor, és o criminoso e, ó ironia!, és o escravo, és a vítima.

Nós, saturados da opressão dos amos que nos dás, saturados de suportar a sua arrogância, saturados de suportar a tua passividade, vimos chamar-te à reflexão, à ação.

Vamos, tem um bom movimento: despe o hábito estreito da legislação, lava o teu corpo rudemente, a fim de que rebentem os parasitas e a bicharia que te devoram. Só então poderás viver plenamente.

O CRIMINOSO É O ELEITOR!

Albert Libertad, Proclamação do jornal “L´anarchie”, Março de 1906

agência de notícias anarquistas-ana

um ponto vem do horizonte,
vira pássaro, desce e pousa;
a árvore o repousa.

Alaor Chaves