[Portugal] RIC, Revista de Ideias e Cultura

Ágora impressa

O século XX encontrou nas revistas a modalidade apropriada à criação, circulação e discussão de ideias e de cultura da sua época.

Os homens de letras e das artes novecentistas converteram os quinzenários e os mensários que fundaram nos órgãos dos movimentos de doutrina, sensibilidade e intervenção cívica que moldaram a história cultural e política do seu século.

Os títulos mais representativos distinguiram-se por agregarem autores reputados em torno de programas próprios, ao mesmo tempo que formaram públicos fiéis e estabeleceram os termos dos debates de opinião e de gosto.

Supor, porém, que a convergência entre a atualidade das publicações periódicas e um pensamento que se desejava comprometido com a sua circunstância se saldou por resultados efêmeros é um engano.

As revistas teceram tanto o trânsito histórico quanto acumularam um legado cultural vultuoso, pois o que releva nas páginas dos seus títulos significativos é o desígnio de unir a reflexão e a criação idôneas à vida e à comunidade, o que lhes confere um alcance simultaneamente universal e próximo.

Os muitos livros que coligiram peças literárias, ensaios, artigos e manifestações plásticas inicialmente publicados em revistas, editados e reeditados década após década, testemunham-no de forma inequívoca.

Quando as fontes são o obstáculo

As publicações periódicas que serviram de verbo consciente e retórico ao devir contemporâneo mostram-se objetos de estudo particularmente ingratos: os títulos são numerosos, as coleções das suas edições, por vezes, extensíssimas, as autorias, os conteúdos e os registros muito variados, os percursos editoriais incertos e atreitos a metamorfoses.

Entre o reconhecimento da importância das revistas como fontes primordiais da história cultural e política do século XX e a abordagem metódica do seu teor ergue-se um dos obstáculos epistemológicos maiores da historiografia contemporânea.

Se a reedição singela destes periódicos confirma a atenção que justificadamente têm granjeado, o mérito de tornar as suas coleções acessíveis só responde a uma parte, a seu modo preliminar, do problema que, em si mesmos, encerram.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

http://ric.slhi.pt/agora_impressa

agência de notícias anarquistas-ana

um gato perdido
olha pela janela
da casa vazia

Jeanette Stace

[França] A rádio sem deus, sem mestres e sem publicidade há mais de quarenta anos

História da Radio Libertaire, a voz da Federação Anarquista

Uma rádio anarquista nas ondas de FM? A aposta poderia ter parecido um desafio… E ainda é! Em 1º de setembro de 1981, Radio Libertaire, a rádio da Federação Anarquista (FA), pela primeira vez emitiu sua voz em Paris e nos subúrbios.

Fiel aos seus compromissos originais, Radio Libertaire nunca deixou de lutar pela liberdade das ondas, reivindicando sua autonomia em relação ao Estado e recusando-se a entrar no sistema de rádios comerciais, de rádios-endinheiradas.

Graças à ajuda de seus ouvintes, ela conseguiu permanecer uma verdadeira rádio livre “sem deus, sem mestres e sem publicidade”.

Nada, no entanto, foi ganho com antecedência, e a Radio Libertaire terá que conquistar seu direito de emitir em meio a milhares de dificuldades e apesar da repressão e manobras do Estado.

Foi o Congresso da Federação Anarquista que, em maio de 1981, assinou a ata de nascimento da Radio Libertaire. Depois de longos e contraditórios debates, este congresso aceitou, unanimemente, a ideia de lançar uma rádio que seria o órgão da FA. Esta rádio ainda não tinha um nome, nenhum indicativo de chamada, nenhum projeto real, nenhum host e, para seu lançamento, um orçamento de 15.000 F! Nenhum congressista, neste momento, poderia ter previsto a sequência de eventos, exceto que, no início, a anarquia estaria novamente no ar. Como em 1921, quando os insurgentes de Kronstadt lançaram mensagens de rádio; como em 1936, na Espanha, com a Rádio CNT-FAI, ou quando da participação dos anarquistas no movimento rádios livres na França no final dos anos 70, incluindo Rádio Trottoir (Toulon) e Rádio Alarme cujos animadores eram membros da Federação Anarquista.

Foi no dia 1º de setembro de 1981, às 18 horas, em um porão úmido no elevado de Montmartre que a aventura radiofônica começou. E de uma forma muito rudimentar, em condições precárias, desafiando as leis do rádio: um estúdio de 12 m², com uma parafernália de equipamentos de recuperação, uma mini-equipe de seis pessoas. Primeiras chamadas de ouvintes, cartas dos primeiros ouvintes… e a primeira interferência!

Enquanto isso, muitos ex-prisioneiros da rádio livre estavam montando estúdios de alto alcance para conquistar o futuro bolo das ondas de FM. O espírito das rádios livres já começaram a agonizar, vítima do apetite financeiro de alguns responsáveis de rádios ex-piratas. Em agosto de 1983, os socialistas puseram fim à “anarquia das ondas”, confiscando muitos transmissores, inclusive da Radio Libertaire. Em 28 de agosto, às 5h40, a CRS (Companhias Republicanas de Segurança) apareceu em frente às instalações da Radio Libertaire. Eles arrombaram a porta, pegaram todo o material. Os animadores foram interpelados e presos, o cabo da antena e o pilar foram cortados. Nem a porta blindada, nem os numerosos ouvintes presentes, poderiam impedir a tomada da nossa rádio. Os socialistas, então no poder com seus aliados do PCF (Partido Comunista Francês), certamente não avaliaram com justeza a nossa determinação, muito menos a solidariedade que milhares de ouvintes nos mostraram nos últimos dois anos. Dois anos em que foram construídos, dia após dia, elos amigáveis e sólidos entre a Radio Libertaire e seu público. A resposta foi imediata. E impressionante. Seu aspecto mais importante foi, em 3 de setembro de 1983, uma manifestação de 5.000 pessoas e a re-emissão da Radio Libertaire.

Os momentos intensos e calorosos eram tão numerosos, as torções tão frequentes que é impossível relatar em um artigo: as galas, os congestionamentos das ‘rádios-endinheiradas’, os problemas com o poder, obter a derrogação, as manifestações… pode-se desenhar, através destes eventos, a cronologia das datas importantes da história da Radio Libertaire. O mais importante, na verdade, não pode ser escrito. Esta é a história diária e coletiva da Radio Libertaire, que todos nós temos, ouvintes e animadores, das parcelas. São essas dezenas de milhares de horas de transmissão, de comunicações telefônicas, que suscitaram correspondências, trocas e reuniões. A Radio Libertaire foi construída ao longo do tempo. Todos trouxeram sua pedra: sua voz, seu conhecimento, sua competência, sua energia. Radio Libertaire, é também esse ouvinte que traz um microfone (pode lhes ser útil); este outro que deixa seu cartão de visitas (eu sou eletricista, se você precisar…); este aposentado (eu estou doente, e você sabe que minha aposentadoria é magra… mas venha comer um dia.); este cego que, graças aos anúncios de apoio mútuo, consegue andar de tandem (bicicleta de dois lugares) no campo com uma jovem… e traz de volta flores para a sede da rádio; Todas essas cartas chegam à 145, rua Amelot, para apoiar, fazer uma pergunta, encorajar, sugerir, informar, criticar. Quando uma revista, uma associação, um indivíduo, um sindicato, a Federação Anarquista, esses telefones são trocados, os encontros que se marcam, essas redes são criadas e reforçadas.

A identidade cultural da estação foi construída ao longo do tempo. Os primeiros animadores trouxeram seus discos para o estúdio e deram a conhecer a milhares de pessoas, artistas como Debronckart Fanon, Servat, Gribouille, Jonas, Utgé-Royo, Aurenche Capart e muitos outros. Em 1982 veio tão naturalmente em nossas ondas uma outra música que ouvimos nos squats, à margem do sistema: o rock alternativo. Então outras músicas naturalmente encontraram seu lugar na Radio Libertaire: jazz, blues, folk, música industrial, rap, reggae. Obviamente, outros artistas se encontraram com a rádio que abriu para muitas formas de expressão: quadrinhos, artes visuais, teatro, literatura, cinema…

Rádio da Federação Anarquista, Radio Libertaire, no entanto, abriu os seus microfones aos seus amigos: anarcossindicalistas da CNT ou de outros sindicatos, Livres Pensadores, União Pacifista, Esperantistas, Liga dos Direitos Humanos. E mais uma vez, é na vida diária, nas lutas e nos encontros, que se constrói toda a abertura natural da Radio Libertaire ao movimento social: trabalhadores em greve, desempregados, os sem abrigo, ocupas, antirracistas, ecólogos, refratários, exilados, ex-condenados… Apreensões da crise ocorrem, e o trabalho diário da Radio Libertaire é perturbado pela exigência do momento. É o movimento estudantil de 1986, e a Radio Libertaire se torna a rádio do movimento: reportagens nas ruas, mesas redondas no estúdio, antena aberta para testemunhar a violência policial, agit-proppermanente. Explode a Guerra do Golfo, e a Radio Libertaire torna-se a rádio dos “anti-guerra” ecoando todos a RL, que, hora a hora, anuncia manifestações, comícios, reuniões dos comitês de bairro, enquanto propõem debates e análises. Assim como naturalmente, são nestes momentos quentes que a Radio Libertaire encontra a sua verdadeira dimensão de rádio de luta. Na Radio Libertaire, também são mil as razões para os ouvintes incomodarem, atacarem, protestarem contra as imperfeições técnicas ou comentários que considerem incongruentes, provocadores, reformistas demais ou radicais demais. Mas é especialmente, nós esperamos, razões para descobrir o prazer do debate, da luta e das ideias libertárias. Disputas… Fascínios… E isso é bom! Em um mundo mercantilizado, desumanizado, espetacularizado, onde o capitalismo triunfante esmaga homens e mulheres, ou o pensamento, como a economia é padronizada e globalizada, Radio Libertaire, com seus pontos fortes e fracos, seus defeitos e qualidades não aparece para o que é: humana… simplesmente humana?

Radio Libertaire – 89.4 MHz FM

radio-libertaire.org

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agência de notícias anarquistas-ana

um atrás do outro
cactus florescem
enquanto a lua não vem

Nenpuku Sato

[Grécia] Apoie a Comunidade Okupa Prosfygika em Atenas

Enquadramento Histórico, Social e Espacial da Comunidade Okupa Prosfygika

O complexo de edifícios de Prosfygika foi construído em 1933 para abrigar os refugiados da Ásia Menor. Devido a essas condições, surgiu um bairro operário vivo com características comunais. Os partidários antifascistas de 1944 usaram Prosfygika como abrigo contra os exércitos estatais britânicos e gregos, os danos pelos projéteis ainda são visíveis nas fachadas dos edifícios enquanto o monumento dos guerrilheiros localizado na vanguarda do bairro nos lembra todos os dias. Hoje, Prosfygika é um dos maiores complexos de construção no centro de Atenas, que ainda não foi gentrificado e explorado pelos grandes fundos ou pelo Estado. É um local com um significado estratégico porque está localizado entre os dois ‘pilares’ da autoridade – o Supremo Tribunal por um lado e o Quartel-General da Polícia por outro. Dentro desse quadro sócio espacial, alguns militantes que já viviam no bairro, como okupas, resolveram se organizar. Em 2010, eles iniciaram a Comunidade de Okupação Prosfygika, tendo como órgão político central decisório SY.KA.PRO, a Assembleia de Okupação Prosfygika. Um corpo comunitário para a vida cotidiana e a luta política.

10 anos depois, o projeto tem como resultado um bairro politicamente unificado, inúmeros apartamentos okupados, estruturas comunitárias autônomas que atendem às necessidades de dezenas de pessoas, uma participação constante nas lutas locais e internacionais e uma grande perspectiva revolucionária.

Estamos lançando esta campanha de financiamento colaborativo para todas as necessidades de um projeto como esse.

As necessidades da luta, as necessidades das estruturas e as necessidades das infraestruturas.

As necessidades da luta

Como SY.KA.PRO, estamos participando das lutas locais dos anarquistas e do movimento radical mais amplo dentro do território grego. Nos últimos anos, participamos de várias lutas pelos presos, como a greve de fome de Dimitris Koufontinas, na qual, juntamente com dezenas de outros camaradas, nossos membros foram presos em intervenções massivas. Defendemos o movimento estudantil radical que busca constantemente reivindicar espaços de luta dentro das universidades tendo como cerne a participação na ocupação da Universidade Politécnica – símbolo de resistência à ditadura. Estivemos envolvidos em esforços anti-repressão por solidariedade a outras okupações e camaradas e defendemos ativamente o bairro de Exarchia da repressão e gentrificação.

Além disso, nossos camaradas viajaram para apoiar através de uma perspectiva internacionalista a revolução social do Movimento de Liberdade Curdo conhecido como “Rojava” contando com um mártir Haukur Hilmarsson “Spark”. Ao mesmo tempo, nossa perspectiva e solidariedade internacionalista inclui o acolhimento de organizações revolucionárias turcas e curdas e seus refugiados políticos nas estruturas da comunidade. Além disso, camaradas de todo o mundo estão visitando ou se organizando em nossa comunidade. É claro que essas relações incluem a solidariedade a projetos no exterior tendo como um dos exemplos mais proeminentes o Rigaer94 em Berlim.

Para nossos eventos e ações informativas, para nossa luta nas ruas e conflitos estamos pedindo recursos financeiros para poder continuar criando e compartilhando cartazes, textos, faixas, para nos equiparmos com ferramentas de resistência como máscaras de gás, capacetes, paus, materiais para barricar os edifícios e outros materiais de defesa, mas também para despesas judiciais.

As necessidades das estruturas

Percebemos nossas estruturas entre as grandes conquistas das comunidades, por isso estamos pedindo apoio econômico.

Café das Mulheres

As feminilidades de nossa comunidade têm uma organização autônoma com procedimentos e espaços próprios. Seus alvos são: lutar contra o patriarcado na sociedade, mas também dentro do nosso bairro, conscientizar as pessoas da comunidade sobre a questão de gênero, organizar e apoiar as feminilidades da comunidade.

Dos trâmites legais – julgamentos e documentos – das feminilidades às lutas de rua e eventos informativos, o Café das Mulheres exige apoio econômico para todo tipo de necessidade.

Casa de crianças e estrutura de autoeducação

A casa infantil e estrutura de autoeducação é uma estrutura autônoma que cuida da educação e entretenimento das crianças da comunidade – e não apenas – cobrindo até mesmo as necessidades delas para sua educação escolar formal. Livros didáticos, materiais de escrita, jogos, alimentos e materiais de construção para a modernização do local onde a casa das crianças está hospedada são algumas das necessidades regulares.

A estrutura da Padaria Coletiva

A estrutura da Padaria Coletiva está produzindo pão e lahmajun (pizza turca) semanalmente para a comunidade, mas também para outras pessoas, mercados abertos auto-organizados e lojas cooperativas, a fim de receber alguma renda mínima. Estamos em processo de modernização de nossa estrutura de panificação, reformando a infraestrutura e seus equipamentos para aumentar nossa produção e atualizar sua funcionalidade.

O Centro Social

No bloco da frente, localizado na Avenida Alexandra, nossa comunidade opera um centro social recém-formado com o objetivo de aumentar a visibilidade e acessibilidade ao público. Além disso, estimamos que este edifício será o primeiro alvo da repressão estatal. O centro social é uma estrutura aberta na qual grupos, coletivos e projetos podem se co-organizar com a comunidade.

Paralelamente, está acolhendo as nossas assembleias, vários eventos e as reuniões de vários coletivos com quem estamos colaborando, como um grupo de psicólogos conhecido por Iniciativa Ψ e um grupo de arquitetos. No centro social há uma estrutura de biblioteca pública com livros de movimentos editores. Nosso objetivo é reunir livros em vários idiomas falados no bairro como árabe, farsi, búlgaro, turco entre outros e modernizar as instalações do centro social.

Estrutura de saúde

Resolver problemas de saúde é uma tarefa comum em nossa comunidade, devido aos múltiplos grupos sociais frágeis que habitam nosso bairro. Por esta razão, estamos conectados com centros médico-sociais. Além de encontrar e coletar medicamentos e suprimentos médicos básicos para usar e distribuir gratuitamente, estamos tentando cobrir as despesas médicas. Nosso objetivo em longo prazo é criar nosso próprio centro de saúde e uma estrutura para produzir medicina natural.

Cozinha Social e a logística alimentar

Nosso bairro é composto principalmente por pessoas que não estão em condições de trabalhar, seja por serem muito idosos, seja por não terem a documentação correta, então há uma grande necessidade de ganho de comida gratuita. Essa necessidade é atendida de várias maneiras. Nossa fonte central é a comida gratuita que nos é dada nos mercados de rua locais. Além da distribuição aos moradores, parte da comida é destinada à cozinha social que acontece semanalmente. Mas isto não é o suficiente. O mercado livre está fornecendo vegetais e frutas à comunidade, mas as necessidades das pessoas vão muito além. Produtos como óleo, massas, arroz, legumes devem ser encontrados de outras formas, com responsabilidade da estrutura logística de alimentos e claro que qualquer recurso de produto ou apoio financeiro são úteis.

Internet comum

O acesso à internet é muito importante para o nosso povo se informar e usar as ferramentas digitais. Ultimamente, conseguimos estabelecer internet em quase todos os blocos de construção da comunidade. Nossa meta é que todas as casas tenham acesso à internet.

As necessidades dos edifícios

89 anos após a sua construção, os edifícios de Prosfygika enfrentam problemas de degradação. Muitas casas estão abandonadas há anos e precisam de grandes reformas, incluindo novas instalações de esgoto, água e eletricidade. Em alguns casos, os problemas de construção dizem respeito a um edifício inteiro ou a um bloco inteiro de apartamentos. Um dos principais problemas de grande escala que queremos resolver no próximo período é a ausência de aterramento elétrico na maioria dos blocos. Além disso, as paredes externas e principalmente as varandas estão em mau estado e estão caindo aos pedaços e a maioria dos telhados precisa de impermeabilização e isolamento. O último grande projeto que concluímos foi a aquisição de um maquinário para a limpeza da antiga e problemática estrutura de esgoto. Conseguimos isso através de uma campanha de solidariedade estabelecida por nossos companheiros de Rigaer94. Além disso, ainda temos muitas obras para implementar e a conservação também é uma necessidade diária. Estas são as maiores e mais caras necessidades às quais nos dirigimos para obter apoio de fontes solidárias. Como comunidade, estamos diante de uma grande aposta. Nossa independência do Estado e das empresas. Não é, porém, dependendo de pessoas e projetos fora da nossa comunidade, que sua solidariedade nos ajudou a chegar ao nível da comunidade que temos agora, mais de dez anos desde que começou. E agora, mais uma vez, chamamos pessoas do movimento internacional, pessoas com ideias progressistas, para nos apoiar financeiramente ou de qualquer outra forma, inclusive, é claro, visitando-nos para conhecer nosso projeto e se for possível oferecer conhecimento técnico e trabalho.

Por último, mas não menos importante

Nosso bairro e seus edifícios estão no topo da lista de alvos das empresas de gentrificação e da prefeitura de Atenas. Mas, esses prédios são nosso chão e o abrigo de nossa comunidade de vida e luta. Contra todas as probabilidades, tomamos a decisão de ficar e defender nosso território e nossa comunidade de todas as formas possíveis, quando a repressão chegar não será a primeira vez que o faremos.

Em 2016 nosso bairro estava sob constante cerco de fascistas e policiais. Quase semanalmente, o Aurora Dourada, o maior partido fascista da Grécia, teve um processo na Suprema Corte adjacente. Muitos fascistas e policiais de choque estavam se reunindo ao redor e dentro do nosso bairro. Nosso objetivo naquela época era romper o cerco, o que praticamente significava deslocar a entrada do fascista na corte, bem como o local de encontro de seus apoiadores. No dia 31 de outubro ocorreu uma invasão organizada de fascistas e policiais dentro do nosso bairro que teve como resultado o espancamento e prisão de dois camaradas. Respondemos a isso com muitas horas de conflitos contra as unidades antimotim, com brigas de contato físico e alguns ferimentos de policiais. Os conflitos continuaram no dia seguinte em menor escala. Depois disso, o Estado decidiu enviar os nazistas para o lado oposto das Cortes Supremas rompendo assim o cerco. Nossa conquista tornou-se nosso farol e um exemplo de forma de defesa de okupações e bairros. Sempre que for necessário, teremos a mesma postura e estamos convocando as pessoas para apoiar essa luta.

Resistência da Comunidade de Prosfygika Okupada em 2016 – Contra policiais e fascistas

 – Resistência é Vida

 – Nos Bairros Okupados estamos criando as Comunidades do Futuro.

>> Para apoiar financeiramente, clique aqui:

https://www.firefund.net/prosfygika

Tradução > GTR@Leibowitz_

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agência de notícias anarquistas-ana

na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua

Millôr Fernandes

[Chile] Santiago: Recordando Emilia Bau, presente na ação

Um ano se passou desde o assassinato da companheira Emilia Bau, que foi morta por assassinos contratados enviados pelos donos do condomínio de Riñimapu para proteger seus miseráveis interesses. Embora, por um lado, o condomínio tenha tentado justificar o assassinato, apontando que ela fazia parte de uma “máfia” violenta e, por outro, a imprensa cobriu o evento com um manto pré-fabricado de mistério, sabemos que Emilia Bau estava lá acompanhando um processo de recuperação territorial.

Não podemos, nem estamos interessados em ficar indiferentes ao fato de que a companheira se levantou em rebelião contra múltiplas formas de controle, o que a levou a se envolver materialmente em diferentes iniciativas de seu coração anárquico. E assim como as resistências de Bau eram muitas, como antiautoritários queremos nos juntar de nossas trincheiras no primeiro aniversário de sua morte com um evento noturno: Recordando Emilia Bau, presente na ação, ao qual convidamos abertamente a se encontrar em torno da memória da companheira.

Teremos música ao vivo, a apresentação do livro “Acendendo a Chama do Ambientalismo Revolucionário”, exibições, pastelaria vegana e infusões e, como sempre, uma mesa de propaganda antiautoritária (traga a sua!).

Quarta-feira, 16 de fevereiro, a partir das 19:00 hrs.

Companheira Emilia Bau Presente.

Nossa memória é negra, nosso coração também.

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Brilho da lua se move para oeste
a sombra das flores
caminha para leste.

Buson

[Portugal] Duas Feministas Libertárias na Revista Pedagógica

Entre 1909 e 1915, publicou-se, em Ponta Delgada, a “Revista Pedagógica”, que se apresentava como órgão do professorado oficial açoriano, iniciativa da professora primária e feminista Maria Evelina de Sousa, companheira inseparável de Alice Moderno, também esta professora do ensino particular e feminista.

Com distribuição a nível nacional, a “Revista Pedagógica”, que esteve ao serviço dos professores e da educação, contou na sua redação com colaboradores como Alice Moderno, Aires Jácome Correia (Marquês de Jácome Correia), Luís Leitão, José Fontana da Silveira e Ulisses Machado.

De entre os colaboradores da revista, encontramos duas feministas que perfilhavam ideias libertárias: Ermelinda Rodrigues da Silveira e Lucinda Tavares, ambas também professoras primárias.

Lucinda Tavares, que foi casada com o médico Afonso Manaças, frequentou a Escola Normal do Calvário e foi membro do Grupo “Nova Crença”, tendo mais tarde abandonado o movimento libertário e passado a colaborar com os socialistas reformistas.

Defensora da educação racional, num texto escrito no nº 2 da revista “Amanhã”, de 15 de junho de 1909, de que eram proprietários e diretores Grácio Ramos e Pinto Quartim, Lucinda Tavares, discordou de Gustave Le Bon que afirmou que “a aquisição de conhecimentos é a melhor maneira de fazer revoltados” e explicou o seu ponto de vista do seguinte modo:

” A instrução é, sem dúvida, um fator importante, uma alavanca poderosíssima para levantar no espírito do homem a ideia de revolta, mas é preciso que essa instrução não lhe seja imposta como um dogma; é preciso que se deixe raciocinar livremente desde criança; que se habitue a acreditar ou deixar de acreditar, a seu bel-prazer, sem sugestões ou imposições de espécie alguma; é preciso, enfim, que uma educação racional venha auxiliar essa instrução, que muitas vezes mal dirigida, se converte num elemento de retrógrada reação.”

 

No número 179 da Revista Pedagógica, publicada a 29 de junho de 1911, num texto intitulado “A mulher portuguesa na Jovem República”, depois de saudar a implantação da República defendeu a necessidade de educar as mulheres para que as mesmas possam “educar os seus filhos em princípios de Liberdade e Solidariedade, de forma a poderem fazer da República portuguesa uma república rasgadamente liberal e progressiva … uma sociedade sem preconceitos, sem fanatismos e sem padres…uma sociedade perfeita, de Amor, de Abundância, de Paz e de Fraternidade Universal.”

Ermelinda Rodrigues da Silveira, que casou com o escritor José Fontana da Silveira, também colaborador assíduo da Revista Pedagógica, militou na Associação de Propaganda Feminista e integrou a Loja Carolina Ângelo do Grande Oriente Lusitano Unificado.

Na Revista Pedagógica, Ermelinda da Silveira publicou dez textos, entre 12 de fevereiro de 1914 e 25 de março de 1915, com os seguintes títulos: Generalidades, Bases de Orientação Pedagógica, Crianças normais, Crianças anormais, Anormais intelecto-físico-morais, A infância criminosa, Pais e educadores, Pedologia, Tarados físico-intelectuais e A emancipação da mulher virá da sua educação moral e intelectual.

No último texto referido, publicado no nº 311 da Revista Pedagógica, Ermelinda da Silveira escreve que a situação da mulher, ” a escrava do homem, o autômato que ele maneja a seu belo prazer, um ente a quem a mais pequena contrariedade, o mais pequeno escolho desanima, uma vítima da própria família que a impede de agir e pensar, consoante o seu critério”, se deve à educação que recebe numa “escola dogmatizada pelos compêndios e programas, feitos para tudo menos para a educação.”

Para Ermelinda da Silveira a solução dos problemas com que se defronta a mulher está no “campo do feminismo”. Assim, segundo ela, não descurando “por completo os cuidados ao “Eu físico” e “conseguida que seja a nossa emancipação moral, bem depressa advirá a emancipação social, porque os homens vendo-nos mais sensatas e menos fúteis…levados pela força da Razão, que nós poderemos ser, e somos, tão sensatas, refletidas e inteligentes como eles, e, portanto, tão bem como eles poderemos, sem auxílio, desempenhar qualquer papel na sociedade. E isto é, creio eu, o único fim das aspirações feministas.”

Teófilo Braga

(Correio dos Açores, 32648, 2 de fevereiro de 2022, p.15)

Fonte: http://poisaleva.blogspot.com/2022/02/duas-feministas-libertarias-na-revista.html

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minha sombra
com pernas mais longas
não me afasta

André Duhaime

[Grécia] Mensagem do companheiro Dimitris Chatzivasileiadis em resposta às manifestações nas prisões de Domokos e Larissa

Olá camaradas,

A questão mais importante do julgamento marcado para 9 de fevereiro é a libertação do companheiro Vangelis Stathopoulos, contra quem a solidariedade social na linha de frente da luta revolucionária é brutalmente atacada. Eu, que defendo a luta revolucionária, a guerrilha e a resistência social armada generalizada, há muito tempo estou comprometido com a causa da solidariedade social, liberdade e igualdade. Hoje estou em uma posição de contra-ataque político contra o terrorismo contrarrevolucionário, baseado nos programas políticos atuais e na estratégia de movimento da Organização para a Autodefesa Revolucionária, por uma autogestão social confederal direta.

Mas a solidariedade política não pode ser limitada a indivíduos e casos de processos judiciais. Temos diante de nós toda a gama de manifestações de repressão política. As características políticas muito particulares do julgamento sublinham nosso dever de colocar todos os nossos esforços na defesa de nosso camarada Dimitris Koufontinas, cuja libertação será reexaminada pelo Estado nos próximos dias em termos mais agressivos do que aqueles formulados no ano passado em sua tentativa de exterminá-lo.

Força para todos os combatentes capturados no território grego e em todos os lugares.

Que a luta continue

ABAIXO TODOS OS ESTADOS

LONGA VIDA À ANARQUIA

Dimitris Chatzivasileiadis

>> Endereço para enviar cartas ao camarada Dimitris Chatzivasileiadis:

Dikastiki Filaki Domokou

D’ASA (ΠΤΕΡΥΓΑ’Δ)

T.K. 35010

Domokos

fthiotidas

Grécia

Fonte: https://anarquia.info/grecia-mensaje-del-companero-preso-dimitris-chatzivasileiadis-en-respuesta-a-las-manifestaciones-de-ayer-30-1-21en-las-carceles-de-domokos-y-larissa/

Tradução > Liberto

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Casal de patos.
Mas o tanque é velho e a doninha
os vigia.

Buson

[Espanha] Missão cumprida de Martín Arnal: o enterro digno de 26 sindicalistas assassinados em 1937

O famoso guerrilheiro antifranquista, que promoveu a exumação, morreu pouco antes de seu centésimo aniversário.

Por Natalia Junquera | 07/02/2022

Em janeiro de 1937, no meio da Guerra Civil, 26 residentes de Angüés (Huesca) foram assassinados por pertencerem a CNT. Eles foram retirados da prisão provincial e executados sem julgamento ou sentença. O mais jovem tinha 19 anos, o mais velho 55. Entre eles havia cinco grupos de irmãos. Neste domingo, seus familiares puderam enterrá-los em um lugar digno, com seus nomes e sobrenomes, no cemitério de Huesca graças à associação ARICO, que, junto com o Círculo Republicano Manolín Abad de Huesca, promoveu a exumação das sete valas comuns em que foram sepultados e, sobretudo, graças à vontade de Martín Arnal, guerrilheiro antifranquista, referência histórica do anarcossindicalismo aragonês e o primeiro a solicitar a abertura destes locais de sepultamento clandestinos. “Ele morreu há alguns meses, à beira de completar 100 anos de idade”, explica Javier Ruiz, arqueólogo. “Ele nos acompanhou durante todo o processo de exumação. Ele conhecia todas as vítimas, queria encontrá-las para que todas pudessem ser enterradas com dignidade, e tê-lo lá enquanto abrimos a cova contando-nos como elas eram impressionante. É uma pena que ele tenha perdido o evento de hoje”.

Arnal, como muitos outros parentes das vítimas, foi para o exílio na França até a morte de Franco. Neste domingo, sua filha e neta estiveram presentes à homenagem, na qual lembraram que ainda há muitas sepulturas a serem abertas. Román, um dos irmãos de Martín, estava em um dos sete que foram exumados graças a uma doação da Diputación de Huesca. Outro de seus irmãos, José, também foi assassinado em agosto de 1936, mas seus restos mortais ainda não foram recuperados.

Ao lado da pedra tumular foi erguida uma escultura com 26 perfurações, uma para cada uma das vítimas que foram atingidas por balas em janeiro de 1937. A cerimônia contou com a presença de representantes de todos os níveis de governo: o conselho provincial, as prefeituras de Huesca e Angüés e o Ministério da Presidência. Diego Blázquez, Diretor Geral da Memória Democrática, lembrou que a busca, localização e identificação daqueles que desapareceram durante a Guerra Civil e a ditadura “representa uma dívida urgente” que a Espanha deve resolver “por razões de humanidade e coexistência”. Blázquez elogiou a dedicação e a generosidade das associações memoriais na promoção de exumações e fechamento de feridas, e lamentou que Martín Arnal tenha morrido antes de ver os resultados de seus esforços. “Infelizmente, em casos como este, estamos muito atrasados”. O diretor geral da memória democrática encerrou seu discurso recordando María Domínguez, “a primeira prefeita democrática, uma ilustre aragonesa que também perdeu sua vida e seu nome enterrado sob a terra anônima” e cuja memória foi reabilitada recentemente pelo Governo de Aragão.

“Foi um evento muito emotivo”, resume Javier Ruiz, vice-presidente da Arico. “A primeira vez que começamos a falar sobre isto foi em 2017. Estávamos muito interessados em entregar os restos mortais a seus parentes para que eles pudessem encerrar seu luto”.

Fonte: https://elpais.com/espana/2022-02-07/la-mision-cumplida-de-martin-arnal-el-entierro-digno-de-26-sindicalistas-asesinados-en-1937.html?ssm=TW_CC&fbclid=IwAR2Ug1NCcwnmT6uzzn8g_DtiwkpfmXVaj3Lj43jwtJqMfF5azWPTTumMtQY

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

folia na sala
no vaso com flores
três borboletas

Alonso Alvarez

[Espanha] Sobre o anarquismo

Como filosofia social, a anarquia nunca significou ‘caos’. De fato, os anarquistas se distinguem por crer numa sociedade altamente organizada. Só que organizada de forma democrática, de baixo para cima“.

Se considerarmos o poder, a originalidade, o alcance e a influência de seu pensamento, Noam Chomsky é, claramente, o intelectual mais importante de nossa época“.

The New York Times

No fim dos anos 70, The New York Times descrevia Noam Chomsky como “o intelectual vivo mais importante da atualidade”. Mais de 40 anos depois, aos 93 anos, o linguista continua sendo para muitos uma voz de referência, e o mais importante dos pensadores contemporâneos.

Conhecido por sua brilhante análise da política exterior estadunidense, do capitalismo de Estado e dos meios de comunicação dominantes, Chomsky segue sendo um crítico formidável, sem remorsos, da autoridade estabelecida e, talvez, o anarquista mais famoso do mundo.

Adepto de um socialismo libertário, em “Sobre o anarquismo” Chomsky compila sua linha de pensamento através de ensaios e entrevistas em que disseca sua visão particular sobre o anarquismo, uma visão particularmente otimista: “a luta interminável pela liberdade e justiça social, às vezes desalentadora, mas jamais perdida”.

Refutando a noção do anarquismo como uma ideia fixa, Chomsky sugere que se trata de uma tradição viva e em evolução. Disputando as tradicionais linhas divisórias entre anarquismo e socialismo, ressalta o poder da ação coletiva, em vez da individualista, e oferece uma magnífica explicação em profundidade sobre o que significa ser anarquista. Com o espectro da anarquia invocado pela direita para semear o medo, nunca foi mais urgente uma explicação convincente desta filosofia política.

Chomsky se interessou cedo por política, estimulado pelas leituras nas livrarias dos migrantes anarquistas exilados em Nova York. Aos 11 anos publicou seu primeiro artigo sobre a queda de Barcelona e a expansão do fascismo na Europa. “Lembro-me do que se tratava porque era um tema que me causou forte impacto. Barcelona acabava de cair, as forças fascistas haviam tomado a cidade e, na prática, significava o fim da Guerra Civil”.

À Guerra dedica um capítulo inteiro neste volume, “O caso espanhol”, no qual estuda o conflito pondo em foco “a revolução popular que transformou boa parte da sociedade espanhola”. Nos meses seguintes ao verão de 1936 na Espanha, interessa ao filósofo “a revolução popular predominantemente anarquista e a grande transformação social que ela deu origem, permitindo que massas de trabalhadores sociais e urbanos empreendessem uma transformação radical nas condições sociais e econômicas”.

Sobre o anarquismo“, por sua vez, lança luz sobre os fundamentos do pensamento do ativista, especificamente seu constante questionamento da legitimidade do poder estabelecido. “O princípio fundamental que gostaria de transmitir é o de que é preciso demonstrar a legitimidade de toda a forma de autoridade, domínio ou hierarquia, de toda a estrutura autoritária: nenhuma se justifica de antemão”.

O livro reúne, além disso, conversações em que o linguista recupera as heranças convergentes do anarcossindicalismo, do socialismo libertário e do marxismo autoritário para delinear as características de um programa baseado em anseios coletivos que não reduzam os direitos individuais. Chomsky resgata o legado anarquista da utopia para colocá-lo no centro do debate, conduzindo-o com rigor e lucidez ao novo campo de batalha.

De forma breve e acessível, o pensador elabora uma proposta para a transformação social, despojada de purismos ideológicos, num texto sábio, mas humilde. Profundamente relevante para nosso tempo, este livro desafia, provoca e inspira, atuando como referente para os ativistas políticos e qualquer pessoa interessada em aprofundar sua compreensão acerca do anarquismo ou do pensamento de Chomsky em particular. Uma leitura para aqueles que, para além de entender o mundo, desejam transformá-lo.

Fonte: https://culturamas.es/2022/01/03/sobre-el-anarquismo/

Tradução > Erico Liberatti

agência de notícias anarquistas-ana

Quando a chuva pára
Por uma fresta nas nuvens
Surge a lua cheia.

Paulo Franchetti

15 anos na luta – fim do Food Not Bombs na Bielorrússia

Ativistas da iniciativa Food Not Bombs decidiram hoje suspender temporariamente seu ativismo devido à repressão em curso no país. A iniciativa foi engajada em solidariedade com os desabrigados e pessoas com problemas econômicos durante 2020 e 2021. No auge da repressão, apesar das ameaças de violência por parte dos punidores, todos os fins de semana havia um lugar no centro de Minsk onde se podia conseguir uma porção gratuita de comida e roupas quentes.

A iniciativa Food Not Bombs começou na Bielorrússia em 2006 como um protesto contra o militarismo do estado bielorrusso, que estava disposto a gastar enormes somas de dinheiro em militares e Ministério do Interior, mas não foi capaz de suprir as necessidades básicas da sociedade. Durante sua existência, centenas de pessoas participaram da iniciativa, e o número de pessoas que foram apoiadas é de milhares.

A necessidade do FNB ainda existe, mas o sucesso da destruição das iniciativas de base torna a solidariedade extremamente perigosa e difícil. Durante o protesto, os ativistas da iniciativa já foram detidos e encarcerados por detenções de curto prazo. O compromisso de muitos ativistas com os pontos de vista anarquistas não poderia deixar de ser ignorado pelas estruturas punitivas.

Queremos apenas desejar boa sorte aos membros do coletivo e agradecer a todos que estiveram envolvidos na luta contra a pobreza durante todos estes anos! Estamos orgulhosos de vocês!

A alimentação é um direito, não um privilégio!

Fonte: https://pramen.io/en/2022/01/15-years-in-the-fight-end-of-food-not-bombs-in-belarus/

Tradução > dezorta

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agência de notícias anarquistas-ana

a lua se foi
meu rouxinol se calou
acabou-se a noi-

Issa

[Itália] Saiu o livro Terra de Amor e Liberdade – Segunda Edição

Dois dias de editoria anarquista na Calábria com foco no internacionalismo e continuidade revolucionária.

ANAIS DA CONFERÊNCIA ANARQUISTA / Grisolia 23/24 de agosto de 2021 / Arquivos de documentação “Franco Di Gioia” – Cosenza / Biblioteca do Espaço Anarquista “Lunanera” – Cosenza / Edições Monte Bove Coleção Negra (4) – Spoleto / Impresso em janeiro de 2022

Do prefácio:

Esta publicação é a transcrição de algumas intervenções orais e escritas coletadas durante a segunda conferência anarquista realizada em Grisolia, em agosto de 2021.

O que é reproduzido aqui no papel respeita a dimensão da oralidade na qual as discussões amadureceram. Os trabalhos que se seguiram não afetaram a espontaneidade dos discursos, mas apenas tentaram tornar mais fluente, para o leitor, a abordagem do texto.

A iniciativa, que ocorreu nos dias 23 e 24 de agosto de 2021, foi intitulada Terra d’amore e libertà. Os dois dias jornada anarquista na Calábria focalizaram o internacionalismo e a continuidade revolucionária e aconteceram na praça central de Grisolia com um microfone aberto. Valiosa, como sempre, foi a contribuição logística dos camaradas presentes no local para a organização dos dois dias. Os temas discutidos foram: a publicação anarquista e sua dimensão revolucionária na história e no presente, o internacionalismo e suas práticas, nossa saúde e as medidas dos patrões e governantes, as propostas dos anarquistas contra a unidade nacional.

Tudo no texto é compartilhado por cada orador.

Durante a redação deste livro, alguns dos camaradas que deram vida à iniciativa Grisolia foram presos, investigados e revistados sob acusações de associação subversiva para fins de terrorismo e subversão da ordem democrática e de incitamento ao crime com o agravante do propósito do terrorismo, após a operação Sibilla, iniciada pelo Ministério Público de Perugia. Alguns dos materiais e livros aqui apresentados foram apreendidos em toda a Itália. É ainda mais urgente, portanto, relatar suas palavras, juntamente com as motivações, práticas e tensões que elas trazem consigo.

A imprensa anarquista não para. Nossa propaganda e nossas lutas continuam.

Este livro é uma demonstração disso.

Saúde e anarquia.

Janeiro 2022

Da contracapa:

Para nós, a ação tem precisamente esta capacidade intrínseca de abrir brechas, de fazer as pessoas pensarem, de gerar novos pensamentos, novos insights, novas ideias. Elementos que ainda têm uma inversão na prática. Como anarquistas, acreditamos que somente mergulhando sem hesitação no campo do confronto podemos nos levantar contra o Estado, contra toda autoridade. É precisamente a partir deste choque sem hesitação que poderemos refinar nossas ideias.

Índice:

Prefácio / Introdução ao debate / Apresentação e discussão com base no livro A Guerra de Classes na Espanha: 1973 – Gangsteres ou Revolucionários? / Apresentação e discussão com base no livro Qual Internacional? de Alfredo Cospito e muitos outros / Uma intervenção escrita de Alfredo Cospito / Outras intervenções… / Nossa saúde e as medidas dos patrões e governantes / Nosso internacionalismo contra a unidade nacional. Falando de anarquia / 96 páginas, custo 5 euros.

Para pedidos:

lunanera@mortemale.org

edizionimontebove@riseup.net

Fonte: https://sardegnaanarchica.wordpress.com/2022/02/08/e-uscito-il-libro-terra-damore-e-liberta-seconda-edizione/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Rio seco
silêncio sob a ponte
apenas o vento.

Rodrigo de Almeida Siqueira

[Portugal] Ações contra a mineração numa dúzia de localidades de Norte a Sul

Por Guilhotina.info

Ontem (30/01), último dia da campanha eleitoral, a luta anti-mineração tomou as ruas em mais de uma dezena de pontos do território. Em cidades, vilas e aldeias de Norte a Sul, ecoaram vozes de resistência contra o plano de esburacar ¼ do território português para extrair 30 minerais, com mensagens espalhadas pelas ruas e montes, pinturas de faixas e ações de protesto e sensibilização.

Os partidos, apostando as suas últimas cartadas em disputar os votos do litoral, ignoraram mais uma vez a questão da mineração. A comunicação social, atarefada com a cobertura do último dia de campanha dos partidos, também ignorou esta mobilização descentralizada que deixou uma mensagem a todas as forças partidárias: “não importa quem ganhe o teatro eleitoral de dia 30, continuaremos a lutar pela vida!”

Abaixo deixamos uma compilação das ações realizadas em Seia, Coimbra, Lisboa, Barroso, Guimarães, Porto, Oliveira do Hospital, Sátão, Caldas da Rainha, Montemor-o-Novo, Remelhe, e Viana do Castelo, e também as mensagens que chegaram do estrangeiro em solidariedade com as lutas anti-mineração.

Seia

A primeira ação de rua aconteceu em Seia, convocada pelo Movimento Contra Mineração Beira Serra, que há mais de dois anos resiste “contra os pedidos de prospecção e contra a futura exploração de lítio ou outros minerais no Centro de Portugal”.

Coimbra

Ao final da tarde, dezenas de pessoas juntaram-se na baixa de Coimbra, num ambiente contrastante com o frenesi das ações de campanha que passaram pelo mesmo local. Foi lido um comunicado a denunciar que o rio Mondego está, «numa extensão de mais de 30km entre Celorico da Beira e Nelas, sob aviso de prospecção e pesquisa, tanto pelo concurso internacional do Programa de Prospecção e Pesquisa de Lítio (PPP-L), como por pedidos da australiana Fortescue para prospecções de ouro, prata, chumbo, zinco, cobre, lítio, volfrâmio e estanho» e que, a 35km da cidade de Coimbra, existe um pedido da SINERGEO, Soluções Aplicadas em Geologia, Hidrogeologia e Ambiente, para prospecção e pesquisa de ouro, prata e cobre numa área de 11 mil hectares cujo limite sul fica muito próximo das nascentes que dão origem à ribeira de Mortágua.

>> Para ler o texto na íntegra, mais fotos, clique aqui:

https://guilhotina.info/2022/01/30/protestos-minas-28j/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/11/11/portugal-uma-perspectiva-libertaria-sobre-a-luta-contra-a-mineracao/

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a chuva no charco
traça círculos
sem compasso

Eugénia Tabosa

[EUA] Anarquistas Constroem Aquecedores Feitos em Casa para Pessoas Desabrigadas

Por Eslla Fassler | 31/01/22

Projetos de fonte aberta inspiram ativistas a distribuir aquecedores seguros para barracas que podem ser feitos por apenas $7.

À medida que as temperaturas caem acentuadamente e o número de desabrigados aumenta nos Estados Unidos, anarquistas formam uma rede descentralizada que constrói e distribui aquecedores seguros para barracas, à base de álcool, para pessoas desabrigadas.

“O projeto não é algo novo, foi desenvolvido ao longo dos anos, de muitas formas diferentes”, escrevem os membros do HeaterBloc, um coletivo de base em Portland que lançou o guia de código aberto para a construção dos aquecedores, em uma mensagem à Motherboard. “Começa com uma ideia, então se constrói em cima dela. Ela evolui, espalha-se, toma vida própria. Este ano, tivemos apenas sorte o suficiente para decidir por um design seguro e eficiente em termos de custo-benefício”.

As unidades custam cerca de sete dólares cada quando seus componentes são comprados no atacado, e eles podem ser usados para cozinhar e aquecer pequenos ambientes por horas. Se o aquecedor cai, a chama automaticamente se apaga e, com a ventilação apropriada, o risco de intoxicação por monóxido de carbono é mínimo porque alcoóis isopropilos entram em combustão de forma limpa.

O guia de instruções foi traduzido para diversos idiomas e grupos que constroem e distribuem os aquecedores artesanais apareceram em áreas rurais e cidades grandes pelos Estados Unidos, incluindo em Pittsburg, Filadélfia, Nova Iorque, San Diego, Atlanta, Tacoma, Kansas City, Dallas, Kalamazoo, Elm Fork, Texas e Spokane, em Washington. Alguns grupos estão começando a explorar a adaptação do design para uso em campos de refugiados, em áreas que passaram por faltas severas de energia como no Texas e para o número crescente de pessoas nos Estados Unidos que não têm acesso a utilidades.

De acordo com princípios anarquistas, a rede opera sem hierarquias e cooperativamente. “Ver a comunidade que surgiu em torno dessa necessidade e ver as pessoas tomarem atitudes reais para ajudar comunidades desabrigadas com a questão do aquecimento por todo o país é incrível porque isso está literalmente salvando vidas”, escreve o coletivo. “Isso é tudo que realmente importa”.

Entre 2000 e 2019, aproximadamente 5 milhões de pessoas morreram no mundo inteiro por questões relacionadas ao frio. Nos Estados Unidos, algo entre 580,000 a 1.5 milhões de pessoas ficaram desabrigadas antes da pandemia, e a falta de suporte financeiro durante a crise exacerbou o problema. Em muitos lugares, o governo local e a polícia responderam a isso destruindo comunidades de tendas com escavadoras e tentando forçar as pessoas a abrigos que são geralmente lotados e que não são seguros — quando abrigos são ofertados.

“É difícil expressar ao cidadão médio como é estar desabrigado no inverno”, escrevem os membros do HeaterBloc em sua declaração. “Um frio inescapável que enche seus pulmões com gelo e faz com que não sinta suas extremidades. Um frio úmido que leva seu corpo à exaustão e que você faria qualquer coisa para escapar dele”.

Meadows*, um membro que já foi desabrigada de um grupo de apoio mútuo com base em Seattle que está construindo os aquecedores, conta à Motherboard que o projeto reduz os danos em variados níveis. Pessoas desabrigadas com frequência são forçadas a queimar lixo em suas barracas para se aquecer, o que as coloca em risco de intoxicação por monóxido de carbono e danos cerebrais. Aquecedores também preservam a autonomia das pessoas e sua segurança ao permiti-las rejeitar ter que dormir com estranhos pela sobrevivência e reduzem o uso de drogas.

“Há uma porcentagem muito grande de pessoas desabrigadas que não usa drogas, e a razão pela qual estão em condição de rua não tem a ver com drogas”, diz Meadows, que pediu para ser identificada com o pseudônimo porque grupos de apoio mútuo são alvos frequentes da polícia e de agitadores de direita. “Contudo, as drogas fazem você sentir mais calor, além de ajudarem a passar o tempo, e fazem a situação ‘luta ou vaza’ mais suportável. Quando grupos de apoio mútuo são realmente capazes de fornecer mais aquecedores às pessoas, vimos realmente uma redução no uso de drogas e um aumento no número de sorrisos”.

Meadows diz que observou as pessoas se tornando mais alertas quando recebiam os aquecedores. “Toda semana, durante o inverno, eles já estavam à beira da hipotermia”, afirma. “Então voltamos para a manutenção dos aquecedores, eles estavam completamente diferentes. Estavam ativos e presentes. E, estavam tipo, ‘uau, esses aquecedores são incríveis'”.

Mas, na realidade, todas as pessoas merecem moradias aquecidas reais, dizem os grupos de apoio mútuo. O projeto suplementa a organização dos moradores, defesa contra despejos e tomada de prédios vazios, os quais pretendem assegurar que todos tenham um teto.

“Quando você é pobre, não tem voz. Quando está desabrigado, não é tratado como ser humano. Nosso desejo é que o HeaterBloc não fosse mais necessário”, escreve o HeaterBloc. “Que a sociedade aceitasse e cuidasse de todos os seus membros, reconhecendo que a moradia é um direito humano ao invés de um luxo”.

Fonte: https://www.vice.com/en/article/n7nd5x/anarchists-are-building-diy-heaters-to-keep-unhoused-people-warm

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

pinga torneira
tic tac do relógio
luz com poeira

Carlos Seabra

[Espanha] Lançamento: “A polícia. Uma análise crítica”

“A polícia. Uma análise crítica” é o décimo-quarto título em nossa coleção principal. Este texto visa contribuir para preencher uma curiosa lacuna: o estudo das forças policiais. É verdade que a cultura audiovisual, especialmente através do cinema e das séries de televisão, transformou a polícia em uma instituição com uma enorme presença na cultura que consumimos. Por outro lado, a escassa produção de estudos científicos sociais sobre esta instituição é impressionante: não há interesse no estudo dos órgãos de aplicação da lei, é seu hermetismo a razão desta escassez de estudos, ou é possível que eles sejam um objeto de estudo incômodo por causa de seu poder? É difícil saber se estas ou outras razões foram decisivas nesta seca acadêmica. No entanto, o Coletivo La Plebe se propôs a fazer sua parte para nos oferecer uma abordagem que combina simplicidade e seriedade. Porque quanto mais poder uma instituição acumula, mais necessário é colocar sobre ela a lupa da crítica para expor a realidade:

Se tivéssemos que escolher um adjetivo para definir este século em que nos coube viver, seria cínico. Poucas pessoas parecem acreditar, com um mínimo de sinceridade, nas grandes instituições históricas como a Igreja, os partidos políticos, o poder judiciário, etc. O descrédito não se restringe a estas referências, mas tem minado o prestígio de muitos campos profissionais que antes pareciam gozar de um certo respeito, como o jornalismo, a profissão jurídica, o ensino, etc. Como resultado, todos podem olhar para a polícia, que conseguiu uma imagem que outras agências gostariam de ter. Mas o que aconteceu para que uma organização que tem exercido tanta violência contra as camadas mais fracas da sociedade ao longo de sua história tenha melhorado consideravelmente sua reputação? As páginas do livro que você está segurando em suas mãos analisam com rigor e amenidade as ferramentas culturais que operaram nas últimas décadas para provocar esta mudança. Ao mesmo tempo, você encontrará uma descrição crítica das características da realidade policial, sua visão de justiça, sua percepção de si mesmos, etc. Não se trata apenas de entender a função social da polícia, mas também de entender alguns dos mecanismos que operam no que chamamos de democracia e que nos impedem de avançar em direção a um mundo onde a combinação de igualdade e liberdade abre novos horizontes de justiça social.

La policía. Un análisis crítico

Por Coletivo La Plebe

Páginas/Cobertura: 168 pp. Hardback

Tamanho: 18×14 cm.

€ 7

www.laneurosis.net

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Infância no campo
brincava nas plantações.
Bonecas de milho.

Leila Míccolis

[Reino Unido] Parte 3 | Freedom e o Novo Milênio

Mais amplamente, essa divisão continuaria a caracterizar duas alas distintas, meio antagônicas e meio cooperativas do movimento anarquista ao longo dos anos 1970-90, que reprisou a divisão entre anarquistas “pacifistas intelectuais” e “luta de classes” que marcou os anos 1940. Na verdade, ao criar sua revista rival em 1970, Meltzer observou:

Quando em uma manifestação, um policial foi acusado de ter se ferido ao cair do cavalo em que estava dispersando a multidão e foi sugerido na Freedom que os anarquistas fizessem uma coleta para ele, o limite foi atingido. O grupo do ex-Cuddon se constituiu em um coletivo Black Flag.

No entanto, a mudança foi considerada um sucesso e o edifício foi configurado com uma impressora no andar térreo, oficina no primeiro andar, armazém e tipografia escritório no segundo e no terceiro um arquivo de papéis, livros e panfletos acumulados – mais tarde se tornaria a loja e o escritório da A Distribution.

Com a chegada dos anos 70, no entanto, um tempo de vacas magras começou para a imprensa, especialmente no meio da década com Vero tendo se aposentado temporariamente e um grupo esqueleto trabalhando para publicar o jornal. Escrevendo em Freedom / A Hundred Years, o ex-editor Dave Peers descreve suas lembranças:

Do lado de fora, a Freedom parecia um estabelecimento sólido. Mudei-me para Londres em 1976 para ajudar a dobrar e despachar o jornal. A rotina semanal ajudava estranhos a fazer contato, algo que desde então se perdeu. Fui encorajado a contribuir e tive algumas informações privilegiadas sobre um evento atual (a tentativa de nacionalizar a indústria da construção naval). Produzi uma peça extensa e desconexa (um hábito que se tornaria repetitivo). Na semana seguinte, fiquei surpreso ao encontrá-lo na primeira página. Encorajado, apresentei algo para a próxima edição, apareci para a sessão de dobramento de quinta-feira e entrei no que era então chamado de “atmosfera pesada”.

A maior parte do coletivo havia entrado em uma disputa sobre responsabilidades, tomada de decisões e poder estabelecido. (Uma lição que deveríamos repetir. Em seguida, eles lançaram o Zero, que foi vítima, entre outras coisas, de erros semelhantes).

Fui atraído para o santuário interno para ajudar a retaguarda com a próxima edição. Assim, jovens inocentes são enredados.

O próximo período foi frenético. O coletivo de produção caiu para três. Estávamos produzindo uma seção semanal (oito páginas A4, talvez 8.000 palavras), colocando-a nós mesmos em máquinas de escrever IBM surradas, cujas únicas concessões à modernidade eram a energia elétrica e o espaçamento proporcional. Nós então contamos com os pacotes do Estado, BR Red Star, para entregar a arte finalizada ao nosso velho amigo Ian, o impressor (RIP) em Margate e trazer o papel de volta. Gillian Fleming fez a maior parte da digitação, Francis Wright da maior parte da colagem e eu corri entre eles, fazendo um pouco de cada um, escrevendo preenchimentos de última hora e agindo como intermediário. Mary Canipa ainda trabalhava na livraria e ajudava na digitação. Havia muita pressão para se preocupar com muitas disputas ideológicas, e o suficiente para dar algumas disputas pessoais.

A pressão diminuiu conforme mais pessoas se juntaram, incluindo Steve Sorba, agora com Aldgate Press, e Philip Sansom, voltando ao que ele chamou de “seu primeiro amor”. A Freedom ainda dava uma impressão de solidariedade impenetrável. O Hastings Group, produtor de um dos primeiros da onda de boas-vindas da publicação local compareceu a uma reunião de leitores para nos criticar e mostrar o erro de nossos métodos, e ficou surpreso ao descobrir que o monólito, o ‘Estabelecimento’ do anarquismo britânico, era meia dúzia de pessoas se esforçando ao máximo pelo melhor, muito como eles.

No final da década de 1970, éramos um grupo de mais de uma dúzia. O grande problema da época era o caso “Pessoas Desconhecidas” e alguns de nós trabalhamos com o grupo de apoio. Nosso problema era a falta de uma estrutura clara. Tínhamos crescido ao acaso, enfrentando o que podíamos, e as coisas ainda estavam conduzidas.

Em 1982 as coisas começaram a desmoronar novamente com argumentos internos, mas duas mudanças importantes viram Vero transferir a propriedade do edifício Freedom para a empresa inativa Friends of Freedom Press Limited, que continua a manter o edifício em confiança para o movimento hoje, e a fundação da Aldgate Press, que ainda imprime Freedom. A década de 1980 também viu a publicação do jornal trimestral The Raven, apresentando trabalhos únicos e reimpressos de todo o movimento anarquista.

À medida que os anos 90 avançavam, o movimento anarquista estava ativo na luta contra o fascismo por botas de cano alto nos cantos do leste de Londres e como um dos poucos pontos fixos do movimento, a Freedom foi fortemente alvo de represálias. A livraria foi repetidamente atacada na década de 1990 por fascistas, incluindo o Combat 18. O pior desses incidentes foi um ataque de fim de semana por paramilitares neonazistas encapuzados segurando porretes de madeira, descritos à World in Action pelo então editor Charles Crute:

Tudo aconteceu muito rapidamente, dentro de dois ou três minutos eles destruíram qualquer coisa relacionada com a composição e então imediatamente, isto foi definitivamente feito com precisão militar. Eles sabiam o que estavam fazendo e deixaram seu cartão de visita na porta, borrifando “C18”.

A campanha acabou se transformando em uma bomba incendiária em março de 1993. O prédio ainda apresenta alguns danos visíveis dos ataques no andar térreo, e trancas de metal foram instalados nas janelas e portas, com o objetivo de proteger contra qualquer violência futura.

Em 1995, Vero se aposentou, mas continuou a dirigir a livraria por carta e a realização de seus desejos coube principalmente a quatro camaradas, Donald Rooum, Sylvie Edwards, Charles Crute e ao gerente da livraria Kevin McFaul (os dois últimos sendo pagos), levando a um período de lentidão que persistiu após sua morte em 2001, embora escritores importantes continuassem se engajando nas páginas do jornal, incluindo Ward e o autor China Miéville.

Freedom e o Novo Milênio (2001-Atualmente)

Falando em uma entrevista de 2016, Donald Rooum lembrou:

Depois da morte de Vero, continuamos e eu não fiquei muito feliz com a atitude dos camaradas que comandavam a coisa, porque Vero brigou com Albert Meltzer, que conseguiu colocar a maioria dos anarquistas de Londres para seu lado e se opôs à Freedom Press. Vero contrariou isso em 1996 com um artigo sobre a morte de Meltzer intitulado “Em vez de um obituário”, que foi muito rude, e eu escrevi um artigo sobre o funeral de Albert que foi rejeitado por considerar que ele tem muitos seguidores. Eu teria gostado de fazer aberturas para o resto do movimento depois que [Vero faleceu], mas Charlie foi especialmente contra o resto do movimento, o que eu achei inapropriado. Então, estávamos apenas avançando…

Mais tarde naquele ano, uma grande agitação ocorreu após a entrada de um novo voluntário, Toby Crowe. Um jovem grande e enérgico que recentemente abandonou o navio do Partido Socialista da Grã-Bretanha, Crowe “simplesmente entrou sem convite algum” para um grupo que consistia de dois membros pagos, voluntários que mal bastavam para funcionar e uma conta bancária se esgotando rapidamente e trabalhando quase em tempo integral, imediatamente começou a fazer mudanças importantes que levaram à demissão primeiro do gerente da loja e, em seguida, do editor. Vindo de uma formação orientada para a luta de classes como ex-ativista do PSGB, Crowe pretendia convidar as correntes anarco-comunistas e anarco-sindicalistas do movimento, irritando apoiadores que se lembraram bem dos argumentos amargos do passado.

Rooum, no entanto, cuja duração de associação com a Freedom já ultrapassava até mesmo a de Lilian Wolfe, durando do final dos anos 1940 até 2017, apoiou a visão de Crowe de que a imprensa, que acumulou uma reputação de sectarismo, precisava ir além de sua base estabelecida e abraçar a cooperação com outros grupos anarquistas.

O mandato de Crowe, no entanto, durou apenas três anos, e ele posteriormente deixou para se tornar um padre da Igreja da Inglaterra. Durante e depois de sua partida, uma sucessão de novos editores, todos na casa dos 20 anos, foi trazida a bordo, incluindo membros do que viria a ser o coletivo de bibliotecas Libcom. Mas uma relativa falta de transferência e uma queda na base de apoio mais antiga da Freedom afetaram fortemente sua produção – entre 2004 e 2008, mesmo o editor do jornal não morava em Londres – e as vendas, que a essa altura haviam caído para algumas centenas, permanecer teimosamente baixa. O prédio em si também estava sofrendo com anos de abandono. O ex-editor da Freedom, Rob Ray, escreve:

Quando cheguei pela primeira vez em 2004, a Freedom já estava em declínio bastante óbvio. Há muito que a Aldgate Press havia se mudado para uma unidade de depósito do outro lado do pátio, a sala do andar térreo estava cheia de caixas quase até o teto, tão altas que era difícil ver o que todas eram, mesmo quando as luzes estavam acesas. Para chegar à parede de trás, você tinha que escalar pilhas de Ravens não vendidas, pilhas coloridas de Wildcat e livros que não podiam ser vendidos desde sabe-se lá quando. No canto direito da sala havia uma porta que conduzia a um alpendre, que estava totalmente cheio de lixo – antes era uma sala escura para revelar fotos, mas agora fedia a umidade e excremento de rato.

A caminhada até o primeiro andar foi revoltante, subindo escadas cobertas por um tapete que não devia ser limpo há anos, que grudava nos pés. No primeiro andar havia um “Hacklab” mal definido compreendendo um terminal de computador frágil, e na outra sala a loja, onde o linóleo estava gasto até a madeira e as janelas cobertas de poeira deixavam um pouco de luz em um espaço sombrio recheado de livros, o que amortecia os sons da vida lá fora em um chiado distante. Mais acima nas escadas, um projeto de remoção de tinta semiacabado deixara painéis de madeira em bruto e corrimões manchados com uma pátina de tinta vermelha brilhante e amarelo desinteressante das decorações anteriores.

O segundo andar, onde uma redação e o (geralmente vazio) Clube de Autonomia estavam instalados, era um pouco melhor, embora pilhas de papelada bizantina cobrissem a maioria das superfícies das mesas, enquanto no último andar havia um pequeno escritório trancado onde a Distribuição A mantinha seus estoques e um espaço de sótão, no qual milhares e milhares de cópias de Freedom estavam paradas, não vendidas e não distribuídas.

O lugar estava uma bagunça.

O edifício foi mantido aberto durante este período em grande parte por meio de uma série de legados nos testamentos de ex-apoiadores, mas havia pouca energia no coletivo e em meio a um declínio no movimento em meados dos anos 2000, aumento das taxas de negócios, custos salariais contínuos não correspondidos por receita e uma série de tiragens em grande escala que não conseguiram vender, esse dinheiro foi drenado lentamente, apesar de trazer grupos como o Serviço de Consultoria para Ocupantes para ajudar a dividir os custos e uma mudança muito necessária da loja no andar de baixo até, ironicamente, o advento de outro ataque fascista forçou uma reavaliação da imprensa e de sua função moderna.

O incidente, que resultou em uma invasão e tentativa de incêndio criminoso nas primeiras horas de 1º de fevereiro de 2013, causou danos significativos no andar térreo e a destruição de centenas de livros e panfletos – bem como a queima parcial dos arquivos do jornal Freedom (danos de fogo podem ser vistos em muitas das varreduras em nosso projeto de digitalização).

Uma enxurrada de doações permitiu que a imprensa sobrevivesse, mas uma revisão do jornal descobriu que as perdas ocorridas e os esforços despendidos em falar para uma audiência de poucas centenas estavam prejudicando a capacidade de funcionamento do Coletivo, forçando o fechamento da Freedom como uma publicação mensal em 2014 – embora continuem a ser produzidas versões gratuitas do jornal e seu site de notícias atualizado regularmente.

A estratégia de publicação da Freedom também foi reformulada e, atualmente, é especializada em tiragens mais curtas e flexíveis de títulos clássicos e novos. Uma reavaliação das salas do edifício, entretanto, fez com que outros seis grupos partilhassem o espaço e revitalizassem a sua utilização, ficando a própria livraria, cinco décadas após a sua compra original, um primeiro porto de escala em Londres para anarquistas e anarco-curiosos de todo o mundo.

Em 2017, a Freedom lançou formalmente um arquivo digital do jornal cobrindo edições de 1886 até hoje, que desde então cresceu para mais de 1.100 edições. Em 2018, Freedom tornou-se um participante importante no Mitting Inquiry, após a revelação de que o espião Roger Pearce se infiltrou no jornal na década de 1980.

Referências

  • Heiner Becker, Nicolas Walter, Philip Sansom, and Vernon Richards (1986) Freedom / a Hundred Years
  • Heiner Becker, (1986) ‘Notes on Freedom and the Freedom Press 1886-1928’ The Raven (1) vol 1
  • Mark Bevir (1996) Fabianism, Permeation and Independent Labour
  • Richard Boston ‘Anarchy among the Anarchists’ The Guardian 16 November 1996, reprinted as ‘Mere Anarchy’ in Starkness at Noon Five Leaves Publications 1997;
  • Charles Crute (1995) Combat 18 investigation, World in Action
  • David Goodway (2014) ‘Freedom, an Obituary’, History Workshop
  • Editors (Oct 25 1969) ‘The Cost of Being Anarchists’, Freedom
  • Harry Kelly (May 1913) ‘An Anarchist Evolution’, Mother Earth 8, no. 3
  • Vernon Richards (anonymously) (1986) Friends of Freedom Press Ltd.
  • Albert Meltzer (1976) The Anarchists in London 1935-1955
  • Albert Meltzer (1986) ‘Liars and Liberals’ Black Flag Supplement no. 3;
  • Albert Meltzer (1996) I Couldn’t Paint Golden Angels
  • John Quail (1978) The Slow Burning Fuse
  • Donald Rooum (2008) Information for Social Change Number 27
  • Nicolas Walter (2007) The anarchist past and other essays edited by David Goodway, Five Leaves Publications 2007.
  • freedomnews.org.uk

Tradução > GTR@Leibowitz__

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agência de notícias anarquistas-ana

espuma do mar
adensa o voo das
gaivotas no ar

Carlos Seabra

[Itália] A censura da correspondência ao camarada anarquista Alfredo Cospito foi renovada (janeiro de 2022)

Gostaríamos de informar que em janeiro foi renovada a censura de correspondência ao companheiro anarquista Alfredo Cospito, atualmente preso por uma pena de 20 anos no julgamento “Scripta Manent”. Deve-se notar que a censura também foi ordenada anteriormente entre setembro e dezembro de 2021. Alfredo foi recentemente objeto de um mandado de prisão no contexto da operação “Sibilla” de 11 de novembro, pois foi acusado de incitação à prática de um crime com a circunstância agravante do terrorismo, em conexão com a publicação do jornal anarquista “Vetriolo”.

A ordem de prisão foi posteriormente anulada pelo Tribunal de Reexame de Perugia em 16 de dezembro, enquanto que a investigação contra todos os camaradas investigados permanece em aberto.

Solidariedade revolucionária com os anarquistas presos.

Endereço do camarada:

Alfredo Cospito

Casa prisional Terni

Strada delle Campore 32

05100 Terni

Fonte: https://malacoda.noblogs.org/post/2022/01/11/e-stata-rinnovata-la-censura-sulla-corrispondenza-al-compagno-anarchico-alfredo-cospito-gennaio-2022/

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/07/30/italia-atualizacoes-sobre-a-saude-e-prisao-do-companheiro-anarquista-alfredo-cospito-24-07-19/

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Fina chuva inútil
fundo musical
a flauta casual

Winston

Declaração anarquista internacional sobre a pandemia da Covid-19: Ninguém está seguro até que todas e todos estejamos seguros!

A pandemia da COVID-19 tem afetado todos os aspectos da vida humana. Tem tido um efeito devastador sobre a saúde física e mental das pessoas, sobre as relações sociais e sobre as comunidades, sobre nossos meios de subsistência e liberdade de movimento. Também reduziu significativamente nossa capacidade de organizar protestos políticos efetivos e fortaleceu o Estado.

A situação deixou claros os problemas fundamentais do capitalismo global e sua necessidade de crescimento e de lucros contínuos. O apoio do Estado a esses objetivos tem estado por trás da origem, da propagação e das trágicas consequências da doença. A necessidade de uma revolução nunca foi tão evidente.

No entanto, à medida que lutamos contra isso, também se revelaram as fraquezas do movimento das e dos trabalhadores. Temos visto um número crescente de mortes, serviços de saúde sobrecarregados, trabalhadoras/es essenciais tratadas/os como dispensáveis e custos econômicos suportados por aqueles menos capazes de pagar, porém a resistência tem sido insignificante. Apesar disso, a pandemia também gerou ações e sensibilidades chave para a transformação social: solidariedade, ajuda mútua, auto-organização e internacionalismo.

Os coronavírus e outras doenças biológicas que surgiram nas últimas décadas são causadas pela expansão do capitalismo global. À medida que o capitalismo assume cada vez mais terras para extração de madeira, mineração e agronegócios, os animais selvagens estão perdendo seu habitat e entrando em contato com os seres humanos, criando o potencial de propagação de doenças de outras espécies para os seres humanos. Esta situação é exacerbada pela demanda de carne animal exótica por parte das classes média e alta em crescimento em todo o mundo.

Resposta dos empregadores e do Estado

Embora alguns países tenham seguido uma estratégia “Covid Zero”, a maioria optou pela mitigação em vez da eliminação. Isto se deu em grande parte porque eles queriam manter a economia funcionando o máximo de tempo possível, colocando os lucros à frente da saúde das pessoas. O resultado tem sido que a pandemia durou muito mais tempo do que o necessário. O trabalho considerado essencial, que já estava entre os mais mal pagos, foi super-explorado, pois suportou o peso da crise. A falta de sistemas de saúde bem financiados causou inúmeras mortes e muitas trabalhadoras e trabalhadores foram forçadas/os a trabalhar devido a um subsídio por doença insuficiente. Enquanto isso, muitas empresas obtiveram lucros recorde e a distância entre ricos e pobres aumentou.

Para alguns governos, a vacinação tem sido a parte principal de sua estratégia para derrotar a Covid. Embora a vacina seja uma parte fundamental do combate à Covid, as medidas básicas de saúde pública também são vitais. Entretanto, os governos não consideraram nenhuma medida estrutural (como o fortalecimento da saúde ou do transporte, por exemplo), limitando-se quase exclusivamente à estratégia de vacinação. Preferiram contar com a vacina porque ela proporciona lucros enormes para as empresas farmacêuticas e, ao eliminar todas as medidas de saúde pública, mantém as pessoas trabalhando e consumindo.

O lançamento da vacina também trouxe à luz a desigualdade global. A maioria das vacinas foi enviada para os países mais ricos que podem pagá-las. Pedidos de renúncia aos direitos de patente para que mais vacinas possam ser produzidas foram ignorados, demonstrando que para os governos os lucros das empresas farmacêuticas são mais importantes. Cada país seguiu seu próprio caminho com pouca coordenação ou solidariedade internacional.

Resposta do Anarquismo Organizado

Nossas organizações têm se envolvido em diversas lutas: por locais de trabalho e de estudos seguros, por ajuda mútua e solidariedade nas comunidades, e resistindo a ataques a trabalhadoras e trabalhadores enquanto patrões e governos procuram recuperar o dinheiro que tiveram que gastar.

O confinamento foi um momento difícil para nós, pois nossa atividade política habitual não foi possível. No entanto, não aderimos ao movimento anti-confinamento. O anarquismo organizado acredita na auto-organização. A imposição autoritária de medidas sanitárias de contenção por parte dos governos às vezes se revela ineficaz. A implementação de tais medidas através de canais compartilhados e participativos em todos os aspectos poderia ter alcançado maior aceitação e, portanto, maior eficácia.

Eles não vêm da experiência das pessoas na comunidade e no local de trabalho, mas são desenvolvidos com outras agendas em mente. Isto levou a mensagens confusas e contraditórias e criou uma desordem geral, resultando que as diretrizes foram largamente ignoradas, seja por indivíduos, em locais de trabalho ou em outras instituições.

Nossas ideias se baseiam nos princípios básicos do anarquismo organizado de auto-organização, solidariedade e ajuda mútua. Não precisamos que o governo nos diga o que fazer, nem temos que ir contra nosso próprio bom senso só porque o governo quer manter a economia funcionando. É claro que é difícil fazer o que é melhor quando estamos em condições precárias de trabalho. É por isso que a organização e a luta de classes são um elemento vital em qualquer estratégia.

Criando um movimento revolucionário

O anarquismo organizado acredita que, sem uma sociedade completamente nova, uma sociedade sem capitalismo, Estado e hierarquias, a humanidade lutará para sobreviver. Antes de mais nada, esta pandemia não será a única. Outras seguirão, dada a relação de exploração da humanidade com os animais e o mundo natural. O capitalismo trouxe à tona os perigos potenciais subjacentes. As mudanças climática e a desastrosa perda da biodiversidade e dos habitats minam a própria presença humana na Terra. Mais uma vez, o capitalismo e a economia do crescimento aceleraram este processo, pilhando a terra para todos os recursos disponíveis. Pensou-se, e muitas pessoas o fizeram no início, que a experiência da pandemia inspiraria um novo modo de vida, com maior ajuda mútua, solidariedade e respeito ao meio ambiente. Mas este otimismo foi perdido muito rapidamente. Logo voltamos à “normalidade” com os governos ansiosos para fazer as pessoas consumirem novamente. A promoção das viagens aéreas é um excelente exemplo de total desrespeito às mudanças climáticas. A exploração de combustível fóssil, a exploração madeireira e o desmatamento continuaram durante toda a pandemia. No desespero de recuperar os lucros corporativos, as mudanças climáticas ficarão para trás por algum tempo.

No próximo período, as pessoas se concentrarão principalmente em fazer frente aos ataques do governo e dos patrões, enquanto procuram fazer a classe trabalhadora pagar o custo da Covid. Muito do nosso tempo será gasto travando essas batalhas econômicas. Precisamos ter certeza de que a classe trabalhadora está unida para que possamos nos apoiar uns aos outros e garantir que as pessoas mais oprimidas sejam plenamente apoiadas. Precisamos de solidariedade e ajuda mútua, em vez de todos lutarem sozinhos em seu local de trabalho, sindicato ou grupo social oprimido.

Nossa tarefa histórica é continuar a levantar a necessidade de uma revolução. Não podemos continuar nos concentrando apenas nos problemas imediatos que enfrentamos, procurando simplesmente evitar o pior dos ataques e reclamar algumas migalhas. Precisamos desafiar todo o sistema. Uma estratégia será baseada em um determinado lugar – uma comunidade, um local de trabalho – mas deve estar firmemente enraizada em uma perspectiva internacional. Podemos aprender com nossa experiência da pandemia, que obrigou muitas pessoas a restringir suas vidas ao seu ambiente imediato: sua casa, vizinhos, comunidade e espaços verdes. É em um lugar específico, em torno de questões que podemos experimentar por nós mesmos, que são criados movimentos para mudanças muito maiores.

Entretanto, é essencial ter uma perspectiva mais ampla, pois as mudanças necessárias são enormes e interdependentes. As razões pelas quais existem problemas em um determinado lugar são devidas a decisões tomadas em salas de diretorias corporativas ou ao resultado de forças de mercado que garantem que o lucro seja o principal critério que configura os locais.

Embora as mudanças climáticas também sejam um problema global, a pandemia foi muito mais imediata e pessoal. Ninguém pôde negar o fato de que estamos interligadas/os. Isso significa que existe o potencial para desenvolver movimentos mais focalizados em nível internacional. O slogan “não estamos seguros até que todos estejamos seguros” passou a fazer parte da maneira de pensar de muitas pessoas. O futuro depende da medida em que possamos construir sobre os aspectos positivos da resposta popular e criar um movimento que vá além das preocupações e exigências imediatas para uma ruptura fundamental com o capitalismo e em direção a uma sociedade anarquista.

cabanarquista.org

agência de notícias anarquistas-ana

ipê florido
as abelhas zunem
folhas caídas

Rubens Jardim