[Bélgica-Alemanha] Todas e todos implicados

Na primeira luz do amanhecer, um caminhão de 40 toneladas começa a se mover sob uma ligeira chuva. Mas não é um dos milhares de caminhões que transportam mercadorias por estrada, e sua missão é muito menos trivial. Com seus faróis acesos, o caminhão passa pelos subúrbios da capital bávara, Munique (Alemanha). Ao passar, aparece a silhueta sombria de um guindaste, aparentemente pronto para afundar suas garras mecanizadas em alguma presa. É um verdadeiro comboio: o caminhão é escoltado por carros da polícia com as luzes apagadas. Quando chegam ao seu destino, os policiais saltam de seus veículos, arrombam uma porta e correm para os quartos. A operação não se trata de descobrir algo, eles estão lá para apreender. Ao contrário do que se poderia imaginar, eles não colocam suas mãos em nenhum suspeito. Tampouco encontram latas explosivas herméticas ou armas bem escondidas, cuja ausência não é de modo algum prova de uma inocência que não é de modo algum louvável neste mundo mortal. Nem mesmo um galão de gasolina espalhado por aí. Não era isso que a polícia estava procurando de qualquer forma. Eles tinham vindo para pegar uma arma completamente diferente, uma arma que aguça a mente e fortalece o espírito. Em Munique, em 22 de abril de 2022, a polícia veio confiscar… uma prensa de impressão dedicada a escritos anarquistas.

De acordo com relatórios posteriores dos camaradas de lá, os policiais tiraram toda a prensa de impressão: “Do Risograph (uma máquina de impressão) com os tambores correspondentes à guilhotina, da empaginadora à máquina de colagem, e até mesmo uma prensa de impressão histórica com seus conjuntos de chumbo, tudo acabou na sala de provas da polícia”. Dezenas de milhares de folhas de papel em branco, litros de tinta e outros consumíveis de impressão, assim como milhares de livros, panfletos e jornais também foram apreendidos. Um transporte de grande porte, o que explica a presença do caminhão e da grua neste detestável comboio matinal.

Em outros lugares da cidade, outras equipes policiais coordenadas pelo Serviço de Proteção do Estado (Seção K43, “Crimes motivados politicamente”) arrombaram as portas de quatro andares, revistaram vários sótãos e a biblioteca anarquista Frevel. O pretexto judicial para toda a operação não é muito original: é o §129, a seção do código penal alemão que processa “a criação de uma organização criminosa”. Desde tempos imemoriais, os anarquistas, os fora-da-lei por excelência – pelo menos na ideia (pois suas fileiras não estão livres da doença do legalismo e do medo paralisante ou calculado de qualquer transgressão da lei) – têm sido perseguidos pelos Estados que utilizam tais artigos do código penal. Hoje, vemos como os Estados recorrem a esses instrumentos legais para reprimir grupos anarquistas, para atacar a informalidade organizacional e as constelações de afinidade que fogem dos esquemas demasiado rígidos de uma organização capitalizada, para limitar a margem sempre precária das iniciativas públicas e dos espaços de encontro e de divulgação, para dissuadir aqueles que escrevem e distribuem escritos anarquistas, como o semanário anarquista Zundlumpen, que está na mira da polícia bávara e que parece ser um dos suportes em que a polícia pretende pendurar outros elementos de sua investigação.

Ao contrário de certa retórica, infelizmente ainda em voga entre camaradas, que parece ser mais uma terapia de auto-conforto, não pensamos que o Estado esteja atacando nossos espaços, publicações e impressoras porque tem medo do discurso anarquista, ou se sente ameaçado por nossa distribuição de livros e jornais. É simplesmente, para ele, uma daquelas coisas que se tornaram tão fáceis de fazer. O “movimento” anarquista e antiautoritário de hoje não é capaz de trazer milhares de pessoas para as ruas quando uma de suas prensas de impressão é apreendida (embora o tenha feito em momentos ocasionais da história), nem é capaz de se levantar quando suas iniciativas públicas são asfixiadas pelo excesso de policiais. E isto tem a ver não apenas com uma redução quantitativa – e muito importante – das fileiras anarquistas, mas também com a profunda transformação das relações sociais nas últimas décadas. A reestruturação tecnológica da exploração capitalista, a inclusão de quase todas as esferas da vida na gestão estatal e na esfera capitalista, a erradicação de qualquer outra comunidade que não aquela (múltipla, é verdade) produzida pela hidra tecnológica, sem mencionar o atroz ataque à linguagem, seu terrível empobrecimento e substituição pelas imagens transmitidas nas telas onipresentes, ou o abismo de inconsciência e brutalização no qual uma boa parte da humanidade está sendo jogada (ou empurrada, no final, não importa): tudo isso não está isento de consequências para a ação e disseminação de ideias anarquistas. Na mesma linha, os anarquistas também não permanecem incólumes: eles também são afetados, mesmo absorvidos, pela avalanche de novas tecnologias, pela comunicação mediada instantânea, pela dificuldade de projetar-se para além do amanhã, ou pela incapacidade de distinguir entre o que seria importante publicar e difundir hoje, e o que é apenas um triste testemunho do vazio existencial que está se apoderando deles e de seus contemporâneos.

Em resumo, o fato de o Estado atacar regularmente e com cada vez mais descuido os poucos espaços anarquistas que ainda são visíveis não é um testemunho de nossa força, mas de nossa fraqueza. Francamente, tudo o mais parece ser mera verborreia que não faz avançar a reflexão necessária, um jogo retórico para evitar ter que enfrentar a pergunta que se torna inescapável a cada apreensão de um jornal, a cada perseguição aos anarquistas sob o pretexto pobre de organização ilícita (com a variante de “criminoso”, “terrorista”, “subversivo”, “ilegal”…): Como continuar agindo nesta era de escuridão tecnológica na qual a consciência se extingue e nossas florestas mentais são arrasadas?

Com que metodologia, com que formas de organização, com que intentos de cometer os mesmos erros? Se só podemos compartilhar a orgulhosa afirmação de que nos recusaremos a adaptar nossas ideias até o fim, que resistiremos à subjugação, mesmo que isso signifique se tornar o último dos moicanos a defender a ideia de liberdade total, acreditamos que devemos apreender as condições em que agimos e não ignorá-las.

Uma operação tão grosseiramente totalitária quanto a apreensão de prensas de impressão (lembremos que na era da censura sistemática das publicações anarquistas, o Estado se limitou acima de tudo a atravessar passagens consideradas demasiado virulentas ou indo além da “liberdade de expressão” para se tornar “incitação ao crime”) e, nos casos mais extremos à apreensão de material impresso – não ferramentas de impressão) é algo que diz respeito a todos os anarquistas, independentemente das atividades em que eles se envolvem ou dos caminhos que escolhem seguir. Não porque oferece provas de que o discurso anarquista permanece uma ameaça à estabilidade do Estado, nem porque atualiza a velha crença que imagina o advento da revolução como resultado do despertar das consciências adormecidas graças aos esforços incansáveis dos propagandistas anarquistas que nunca dormem. Não, diz respeito a todos nós porque é indicativo do estado do mundo, do estado das relações sociais e do futuro próximo no qual seremos obrigados a agir – ou desistir. Sem se juntar ao coro da indignação legalista, pode-se dizer que a apreensão de prensas de impressão, o fechamento de locais públicos, a dissolução de grupos relativamente abertos, nos transportam para outra dimensão que não a da repressão, em última análise “normal” ou “lógica”, que visa colocar fora de jogo aqueles que atacam fisicamente as estruturas e as pessoas da dominação. Embora estas duas dimensões vão sempre juntas e não sejam tão separadas como alguns gostariam de acreditar, trazer um caminhão de 40 toneladas para apreender uma guilhotina e uma prensa de impressão de chumbo é bastante reminiscente das medidas tão usuais em outros regimes. E nesta era de uma corrida industrial e tecnológica abertamente pluralista, mas profundamente totalitária, uma prática que parecia obsoleta poderia nos surpreender novamente, especialmente porque a melhor maneira de desarmar qualquer perigo possível da disseminação de textos anarquistas é, naturalmente, sua contínua virtualização, sua desrealização tecnológica. Mas nada desaparece para sempre e tudo permanece potencialmente presente.

A generalização do trabalho assalariado não aboliu definitivamente a escravidão, a criação de usinas nucleares não fez desaparecer as minas de carvão, a racionalização da produção não enviou as minas artesanais para o caixote do lixo da história. Este mito de progresso agora parece estar sofrendo os reveses da realidade, que está rasgando o véu da desrealização. Muitas das coisas que este mito havia relegado a um passado que jamais voltaria agora tomam seu lugar em uma realidade da qual, afinal de contas, nunca haviam desaparecido completamente. A guerra irrompe novamente no continente europeu, a escassez é visível até mesmo nas prateleiras dos supermercados, a ameaça de aniquilação nuclear se soma às práticas genocidas que acompanham o conflito, a mudança climática eleva o espectro da fome e do extermínio para cada vez mais habitantes deste planeta moribundo. Neste cenário, a apreensão de uma prensa anarquista não deve ser uma surpresa. O tempo em que as prensas de impressão tinham que ser escondidas, quando era preciso obter estoques discretos de papel, quando as notícias da luta e do aprofundamento do pensamento tinham que ser organizadas clandestinamente e através de uma rede capilar, não desapareceu definitivamente do cenário da história. As condições para tais cenários, mesmo à sombra das democracias ocidentais tolerantes, são cada vez mais comuns e se tornarão mais pronunciadas à medida que as pressões sociais aumentarem e os desequilíbrios se disseminarem.

É por isso que a apreensão de uma impressora anarquista em Munique é uma questão que nos preocupa a todos.

Avis de Tempetes, n. 53, maio de 2022

Fonte: https://avisdetempetes.noblogs.org/post/2022/05/15/avis-de-tempetes-53/

Tradução > Liberto

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Vento refrescante
que se contorcendo todo
chega até aqui.

Issa

[Tailândia] Jovens anarquistas combatem a polícia com fogos de artifício

Esta semana estouraram enfrentamentos em Bangkok entre a polícia e jovens anarquistas que protestavam contra o regime autoritário do primeiro ministro Prayut Chan-o-cha. Esta imagem procede da zona de Din Daeng de Bangkok, onde os jovens anarquistas responderam à polícia com fogos de artifício e petardos. Em 2020, os jovens tailandeses desencadearam a maior onda de protestos antigovernamentais desde o golpe militar de 2014.

Ao que parece, os protestos foram lideradas pelo grupo anarquista “Thalugas” (que se traduz aproximadamente com o “romper com o gás lacrimogênio”), que teve um papel muito ativo em anteriores protestos antigovernamentais. No passado se produziram muitos protestos similares em Bangkok, já que a juventude tailandesa está muito frustrada com o Estado.

Os manifestantes do Thalugas são principalmente jovens de classe trabalhadora e pobres. Desde 2021 empreenderam ações militantes contra a injustiça da ditadura militar e a monarquia tailandesa.

No fundo, os protestos se dirigem contra um sistema econômico e político estabelecido desde décadas e que conta com três grupos privilegiados de participantes. O primeiro é uma fina camada de 1% da população, que possui dois terços de todos os ativos tailandeses, segundo a Fundação Heinrich Böll, com sede na Alemanha. O segundo é o exército, que também está dotado de muitos privilégios financeiros e está entrelaçado com as empresas estatais. E em terceiro lugar está a monarquia mais rica do mundo, que segue exercendo uma forte influência política.

O golpe militar de 2014 consolidou ainda mais este sistema. Os militares se veem a si mesmos como os guardiões da monarquia, e não estão sujeitos ao controle civil.

A ditadura militar de direita da Tailândia também manteve uma estreita relação com os Estados Unidos, participando em um exercício militar anual chamado Cobra Gold com mais de 10.000 soldados estadunidenses em fevereiro e março de 2022. Estes exercícios militares são significativos para as ambições imperialistas dos Estados Unidos na Ásia, que tentam contrapor o rápido declive da hegemonia estadunidense e o ascenso da China como superpotência econômica mundial.

Fonte: https://abolitionmedia.noblogs.org/post/2022/06/15/anarchist-youth-fight-police-with-fireworks-in-thailand/

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

vento muda
ares de chuva
tua chegada

Camila Jabur

[Grécia] Rodes: Spray em solidariedade com o prisioneiro em greve de fome Yinnis Michalidis

Na terça-feira 14/6 foram realizados diversos grafites para divulgar a greve de fome do companheiro Yinnis Michalidis em um ponto turístico da cidade, bem como outros grafites em outras partes da cidade. Embora a parede escolhida tivesse sido abandonada durante anos e pichada com vários slogans, ela nunca havia incomodado ninguém, mas o grafite que fizemos foi apagado apenas algumas horas depois, no mesmo dia. Aparentemente, temendo que isso estragaria a imagem do verão grego aos olhos das centenas de turistas que se aglomeravam no local, eles correram para apagá-lo. Outros grafites foram feitos nas partes centrais da cidade que tiveram o mesmo destino. Mas não importa o quanto eles tentem nos silenciar, a solidariedade entre nós romperá todas as barreiras.

VITÓRIA NA GREVE DE FOME DO COMPANHEIRO YANNIS MICHALIDIS.

A PAIXÃO PELA LIBERDADE É MAIS FORTE DO QUE QUALQUER PRISÃO!

Anarquistas

NOTA:

Rodes é uma das ilhas gregas mais visitadas por turistas, famosa por seus resorts, praias e ruínas importantes.

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Pelo pé se sabe –
Primeira manhã de outono
Na varanda limpa.

Matsue Shigeyori

[Grécia] Pireu: Faixas de solidariedade ao anarquista em greve de fome Y. Michalidis e ao antifascista perseguido Nikos A.

Faixas de solidariedade com o anarquista em greve de fome Yinnis Michalidis e o antifascista perseguido Nikos A., que foram colocadas em áreas de Keratsini e Drapetsona pelo Espaço Auto-Organizado de Solidariedade e Ruptura Resalto e a Assembleia da Praça Keratsini-Drapetsona.

LIBERDADE JÁ PARA O ANARQUISTA EM GREVE DE FOME DESDE 23/05 YINNIS MICHALIDIS

TIREM AS MÃOS DO ANTIFASCISTA NIKOS A.

>> Mais fotos: https://athens.indymedia.org/post/1619324/

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manhã
me ilumino
de imensidão

Giuseppe Ungaretti

[Grécia] Ações de solidariedade com o grevista de fome Yannis Michaelides | Iniciativa Anarquista de Agioi Anargyroi – Kamateros

Durante os últimos dias, ações de consciência social e solidariedade com o grevista de fome Yinnis Michalidis foram realizadas em bairros dos subúrbios do oeste de Atenas, com faixas e cartazes.

É claro que 25 dias após o início da greve de fome, a luta de Yinnis Michalidis está entrando em uma fase crítica e cada dia que passa sem uma resposta do Estado à sua demanda óbvia por liberação é particularmente perigosa para sua saúde. Portanto, as ações de contrainformação, embora imprescindíveis, não são suficientes para exercer a pressão necessária. É fundamental que todos nós nos lancemos na luta, usando qualquer meio necessário.

Imediata libertação do anarquista em greve de fome Yinnis Michalidis

Apoiamos a manifestação de sexta-feira, 24 de junho, às 18h00, na Propylaea, Atenas

Iniciativa Anarquista de Agioi Anargyroi – Kamateros

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Tudo levou o fogo –
Mas pelo menos as flores
Já haviam caído.

Tachibana Hokushi

[Grécia] Assumindo a responsabilidade pela sabotagem de caixas eletrônicos

O companheiro Yinnis Michalidis já cumpriu 02/03 da sentença que lhe foi imposta. Em fevereiro, seu primeiro pedido de libertação da prisão foi rejeitado e em maio também foi anunciada uma declaração negativa do promotor. Alguns dias depois, em 23/05, o companheiro Yinnis Michalidis inicia uma greve de fome.

Por nossa vez, decidimos sabotar 4 caixas eletrônicos nas áreas de Petralona, Pagrati e Agia Paraskevi como um sinal mínimo de solidariedade com o grevista da fome Yinnis Michalidis.

SOLIDARIEDADE AO COMPANHEIRO Y. MICHALIDIS

SOLIDARIEDADE COM OS PRISIONEIROS DO ESTADO

Anarquistas

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Nuvem de mosquitos –
As flores da jujubeira
se espalham à volta.

Katô Kyôtai

[Grécia] Ações de solidariedade com o anarquista em greve de fome Yinnis Michalidis em Lárissa

O prisioneiro político anarquista Yinnis Michalidis, grevista de fome desde 23/05, após 8,5 anos de prisão permanece encarcerado, pois de acordo com o lixo do sistema de justiça burguês ele não preenche as condições “essenciais” para sua libertação. É evidente toda a violência repressiva do Estado contra aqueles que lutam e contra qualquer forma de ação anarquista, neste caso contra Yinnis Michalidis. O companheiro, diante de seu tratamento vingativo por parte do Estado, está em greve de fome, colocando sua vida e saúde em risco, reivindicando assim sua óbvia exigência de libertação.

Nós, de nossa parte, como parte da luta de nosso companheiro Yinnis Michalidis, como parte ativa do espaço antiautoritário, espalhamos a luta pela liberdade, resistência e dignidade em todos os cantos da cidade.

NENHUM REGIME EXCEPCIONAL PARA PRESOS POLÍTICOS, NINGUÉM SOZINHO NAS MÃOS DO ESTADO

ATÉ A DESTRUIÇÃO DE CADA PRISÃO

SOLIDARIEDADE COM O ANARQUISTA EM GREVE DE FOME DESDE 23/05 YINNIS MICHALIDIS

>> Mais fotos: https://athens.indymedia.org/post/1619320/

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Em meio ao capim
de onde sopra o vendaval,
lua desta noite.

Miura Chora

[Grécia] Sinais de revolta desde Tessalônica

Noite de 28 de maio. Estão sendo finalizados os planos da Polícia Nacional para os próximos distúrbios que há dias se anunciam através dos meios de comunicação que acontecerão no interior da Universidade Aristóteles de Tessalônica (AUTH) por causa dos acontecimento contra a presença policial [no campi]. “Fortalecer a AUTH”, “O cordão ao redor da AUTH está sendo preparado”, são algumas das frases que se escutam ultimamente em um esforço de caráter comunicativo, cujo objetivo é intimidar e em seguida evitar os enfrentamentos. A polícia antidistúrbios, as motocicletas e os antidistúrbios foram colocados ao redor do perímetro da universidade. No interior, os pelotões estão postos nas faculdades de Ciências Sociais e de Biologia, enquanto que os guardas de segurança tomaram posições “estratégicas” para traçar um mapa das pessoas que provocarão os incidentes. “Posições estratégicas” que pudemos localizar e algumas delas foram perseguidas com exagerada facilidade, sem poder captura-las, já que só a ideia do que somos capazes lhes faz fugir.

O Estado tenta agora projetar a imagem de um mecanismo policial “perfeito” sem vulnerabilidades com um planejamento operativo “perfeito”. Um planejamento operativo “perfeito” que não parece sê-lo na prática. Surpreendemos os pelotões que custodiavam o risco biológico durante as 24 horas queimando-os já desde o primeiro ataque. Durante nossa reconstituição detectamos uma tentativa de represália por parte da equipe de detenção, que não chegou a acontecer, já que nos chamou a atenção e os atacamos com grande ferocidade, detendo-os. Quando os antidistúrbios viram que não podiam controlar a situação, começaram a retirar-se e ocultar-se detrás do carro lança águas. Cabe destacar que o carro lança águas não jogou água, já que nunca tentou aproximar-se de nós. O único movimento que o vimos fazer foi de 1 metro para adiante e 10 metros para trás. Os enfrentamentos duraram no total uns 45 minutos e foram protagonizados por 70 pessoas.

Chegados a este ponto, queremos assinalar algumas coisas sobre a violência estatal. O uso da força policial excessiva sempre foi uma ferramenta utilizada em circunstâncias nas quais o poder perdia terreno. Por muito que tentem convencer-nos da suave caricia do poder, nunca esqueceremos os assassinatos, as surras, as torturas nos centros de detenção. Nunca esqueceremos os disparos diretos desde uma distância de poucos metros e a ameaça de um policial antidistúrbios quando nos apontou com sua arma regulamentar durante um assalto ao consulado turco. E tudo isto é a ponta de um iceberg que às vezes é mais visível e outras menos. Estes acontecimentos nos fazem refletir sobre o planejamento operativo da polícia. Pensamentos que nos sussurram que os círculos dentro das forças policiais estão buscando sangue. Pensamentos que nos sussurram que querem morrer.

Enviamos um sinal de agressão desde Tessalônica à Atenas e a todas as demais cidades e anunciamos um novo ciclo de ataques. Nos alegramos dos atentados que aconteceram em Tessalônica, em Exarchia e em outras zonas nas últimas semanas, tanto os que se tornaram públicos como os que nunca se ouviram. Nos dão valor para o futuro. Com inteligência, valor e paciência, seguimos lutando. Com cérebro, coragem e sem paciência esperamos a polícia universitária para recebê-los com os braços abertos e flores.

PS: Liberação imediata do companheiro e grevista de fome Yiannis Michalidis.

Anarquistas

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1619268/

Tradução > Sol de Abril

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Oh rã pequenina,
oh não se deixe vencer!
Issa está aqui.

Issa

[EUA] Florida: Clínica Anti-Aborto em Hollywood é coberta de pichações em apoio a Autonomia dos Corpos

Uma célula do grupo de anarquistas insurgentes pró-aborto, Janes Revenge, atacou uma clínica anti-aborto em Hollywood, chamada Respect Life, marcando as paredes do estabelecimento com pichações em apoio a autonomia dos corpos e outras mensagens políticas similares.

Janes Revenge é uma rede de anarquistas insurgentes dedicadas a defender os direitos reprodutivos e a autonomia dos corpos, seu nome vem do Jene Collective dos anos 1970, que fornecia aborto seguro para mulheres em Chicago, numa época em que a prática era ilegal. Janes Revenge veio a publico pela primeira vez com o ataque incendiário de uma clínica anti-aborto em Madison, Wisconsis, em 7 de maio de 2022.

Tradução > 1984

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sobre os vidros
traços de nariz e dedos
olham ainda a chuva

André Duhaime

Memória | A voz feminina da revolução

Por Marcolino Jeremias

Elvira Fernandes (foto), costureira, nascida em Portugal, mas que militou no Rio de Janeiro. Escreveu para a imprensa operária e oficial. Discursou em comícios do Primeiro de Maio ao lado de militantes como Orlando Correa, Caralampio Trillas, Edgard Leuenroth (quando esteve no Rio de Janeiro, representando o jornal A Lanterna), Domingos Passos e outros.

Dedicou intensa atividade para organizar associações de mulheres operárias. Participou da União das Costureiras e Classes Anexas do Rio de Janeiro. Escreveu em solidariedade quando o anarquista José Romero foi preso injustamente. O mesmo deu-se quando a repressão invadiu e depredou as organizações operárias do Recife (PE), espancando e prendendo muitos trabalhadores: “Nós, um núcleo de mulheres anarquistas animadas pelas mesmas ideias, aliamo-nos a este protesto até onde as necessidades do meio de ação nos permitir. Se as grandes canalhices do Brasil, requerem os grandes gestos, podem esperar os perseguidores de nossos companheiros que não nos excluiremos, pois é tempo da mulher brasileira entregar-se à luta! Trabalhadores e mulheres proletárias: Se os atos selvagens exercidos contra os trabalhadores de Pernambuco pelos exploradores dali eletrizam o vosso íntimo e vos estimulam à revolta, vinde conosco, gritar bem alto: Basta de tiranias!“.

A intrépida costureira Elvira Fernandes defendia um projeto arrojado para que as mulheres operárias e a classe trabalhadora alcançasse a sua completa emancipação social: “Nada de política, nada de religiões, sejamos unidos contra todas essas mentiras em que nos tem mantido as classes dirigentes; não sirvamos de degraus para os nossos inimigos, que eles lá em cima não toleram a nossa propaganda pela nossa emancipação, para levarmos ao termo final de formarmos sobre as ruínas do presente, a verdadeira sociedade em que reine a solidariedade, o amor e a justiça. Caminhemos!“.

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Nuvens brancas
passam rapidamente —
Noitinha de outono.

Carlos Bueno

 

[Grécia] Volos: Informações sobre a mobilização em memória do anarquista Vasilios Mangos

Na terça-feira 13/6, 150 pessoas se reuniram no centro da cidade. Já se passaram dois anos desde a tortura e morte do companheiro Vasilios Mangos pelos bastardos uniformizados. A marcha atravessou o centro e terminou na casa de Vasilios, onde foram gritados slogans e espalhados folhetos.

NÓS NÃO ESQUECEMOS – NÓS NÃO PERDOAMOS!

CONTRA OS ASSASSINATOS DO ESTADO E O MECANISMO SISTEMÁTICO QUE OS PROTEGE.

MESMO QUE NUNCA GANHEMOS, SEMPRE LUTAREMOS. VASILIOS MANGOS SEMPRE PRESENTE, SEMPRE NA LUTA!

Okupação Mangos, Volos

>> Mais fotoshttps://athens.indymedia.org/post/1619299/

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Vento cortante –
Se esconde em meio ao bambu
E desaparece.

Bashô

[Espanha] Atualizações sobre os companheiros anarquistas detidos em 27F

A luta continua até que caiam todos os muros. Liberdade para Pablo e Beppe!

QUE TREMAM OS PODEROSOS E OS INIMIGOS DA LIBERDADE

É com imensa alegria que anunciamos a libertação condicional e prévio abono da espantosa fiança de 35 mil euros, de Albo e Danilo.

Hoje, 07 de junho de 2022, às 19h30, sob os infames muros do cárcere/empresa de Brians 1, pudemos abraça-los depois de mais de 500 dias de cativeiro.

Nossos companheiros, em esplêndida forma se reintegram nas fileiras da luta social, ansiosos de recomeçar onde o deixaram.

É para nós um dia de festa ainda que ofuscado pela consciência de que a luta está longe de ser ganha.

Nosso pensamento vai para Pablo ainda preso no cárcere de Lleida e Beppe no de Brians 1, este último separado por 20 mil euros de fiança da liberdade.

Conseguir esta soma de dinheiro é nosso próximo objetivo, estamos ainda nas mãos da solidariedade.

Sabemos no caso de Beppe que o Estado está sendo particularmente vingativo e que além da “normal” privação da liberdade lhe impedem as comunicações por cartas e pessoais, sem justificar as razões.

O advogado recorreu destas medidas especiais, enquanto isso cabe a todos nós levar estas reivindicações à rua.

Em espera de ulteriores desenvolvimentos dos fatos, os convidamos a se manterem agitados.

Até que da última prisão não fique nem uma só pedra, 27F todos os dias.

Pablo livre.
Beppe livre.
Todos livres!

Assembleia 27F

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No beiral da casa
o entra e sai do passarinho –
Pardal no ninho.

Benedita de Azevedo

[Chile] “Chem Ka Rakiduam”: O pensamento e a ação da CAM em um livro, apresentado por suas próprias porta-vozes

Por Susanna de Guio

A primeira apresentação do livro Chem Ka Rakiduam aconteceu no dia 10 de junho em um salão muito cheio do centro cultural recuperado de Hermida, silencioso por causa da escuta atenta. Entre pães quentes e mate, os presentes escutaram atentamente as palavras de Hector Llaitul, porta-voz histórico da CAM, sobre o processo desta organização política do povo mapuche, atualmente sob os holofotes da grande mídia, juntamente com os nomes do lof Peleco Pidenko, Orfelina Alcamán, e do vencedor do prêmio nacional de história Jorge Pinto.

O livro, que aborda o pensamento e a ação da Coordenadora Arauco Malleco, foi lançado pela primeira vez em 2019, mas agora volta com uma edição nova e atualizada. Ela contém os fundamentos políticos e ideológicos do movimento de libertação nacional mapuche, tecidos juntamente com testemunhos, experiências de recuperação territorial e organização, e as práticas de luta que a CAM vem desenvolvendo há quase um quarto de século.

“Queremos que você possa lê-lo, esperançosamente estudá-lo, compreendê-lo e aproximar-se da causa mapuche”, começa Héctor Llaitul com o livro em suas mãos, explicando que se trata de uma história coletiva. O chamado para aprender sobre a CAM com sua própria voz, e compartilhar seu processo emancipatório para a autonomia do movimento mapuche, é ainda mais significativo na atual situação política, onde o novo governo progressista de Gabriel Boric continua a chamar para o diálogo com as comunidades mapuches, mas enquanto isso, em 18 de maio decretou um estado de emergência constitucional na macrozona sul, e o Subsecretário do Interior Monsalve já anunciou que solicitará sua prorrogação. “Como eles querem que dialoguemos com uma arma sobre a mesa”, continua Llaitul, que tem uma ação judicial pendente contra ele movida pela Renovación Nacional por ter declarado publicamente que a resistência armada será organizada em face do estado de emergência.

Entretanto, isto não é novidade, a CAM vem desenvolvendo há anos diferentes ferramentas para enfrentar a violência dos grupos florestais e empresariais que defendem seus interesses e destroem a natureza ancestral usurpada do povo mapuche, reproduzindo a opressão de um povo que historicamente conheceu o racismo, a despossessão e a segregação.

O livro Chem Ka Rakiduam é uma dessas ferramentas que a CAM construiu, onde explica porque a luta mapuche deve ser anticapitalista e seu horizonte é autonomia e território, duas palavras que o governo Bóric não pronuncia em seus discursos. Ela conta a história da origem dos Órgãos de Resistência Territorial (ORT), após o assassinato de Matías Catrileo, e explica porque a política de compra de terras pelo CONADI (que o atual governo retoma como se fosse a solução) se presta ao clientelismo e à especulação. As páginas do livro também contêm experiências como a do lof Pidenko, onde – Orfelina Alcamán conta com orgulho – o controle territorial tem sido exercido desde 2016, onde as raízes dos pinheiros deixados pela empresa florestal Arauco foram removidas uma a uma, e mais de 100 hectares estão atualmente plantados com trigo e aveia, que são capazes de alimentar toda a comunidade de Lumaco durante um ano inteiro.

Mais uma vez, nas últimas semanas, vimos a mídia e o Estado instalarem furiosamente uma narrativa que criminaliza a CAM por ser um ator político que enfrenta diretamente os interesses do grande capital, e que não se compromete com as regras do neoliberalismo. A ofensiva é evidente se considerarmos que em 31 de maio passado, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de resolução declarando a CAM como uma associação ilegal e terrorista, juntamente com outras organizações mapuches. Mas aqueles que participam deste projeto político armado nunca mataram uma única pessoa; por outro lado, entre suas fileiras, vários weychafe foram assassinados.

Na nova versão do livro há um espaço dedicado à morte em combate de Toño, o jovem Pablo Marchant Gutiérrez, que foi baleado na cabeça por um carabineiro no dia 9 de julho do ano passado. “Este evento marca um marco em nossa história como organização” se lê na análise do novo ciclo de dominação que se abre no Wallmapu, é um ponto de viragem “porque seu assassinato representa uma nova forma de operar por parte dos agentes do Estado criminoso e do paramilitarismo, ligados às empresas florestais instaladas no território ancestral em disputa”.

Dos setores organizados e mobilizados, que diariamente praticam a luta territorial e política no Wallmapu, fica claro que o atual governo não será uma contribuição no caminho para alcançar a autonomia do povo mapuche-nacional. Tampouco, deixam claro, é o caminho para um estado plurinacional ou intercultural, pois a questão em pauta não é a integração ou o reconhecimento cultural do povo mapuche, é a luta de um sujeito político por sua própria libertação e autonomia integral, o que não é compatível com o extrativismo, nem com a acumulação capitalista, nem com as instituições do Estado chileno a serviço dos interesses econômicos transnacionais. É por isso que a batalha é longa, os sinais da situação atual não são pacíficos e não indicam a resolução do conflito, é por isso que é hora de ouvir a mensagem da CAM, e ler seu livro.

Disponível diretamente na página de facebook do livro para solicitar cópias e envios para regiões em LIBRO CHEM KA RAKIDUAN (https://www.facebook.com/Libro-Chem-ka-Rakiduam-Pensamiento-y-acci%C3%B3n-de-la-CAM-376820529903010)

Amulepe taiñ weichan!

Fonte: https://radiokurruf.org/2022/06/11/chem-ka-rakiduam-el-pensamiento-y-accion-de-la-cam-en-un-libro-presentado-por-sus-propias-vocerias/#

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Ameixeiras brancas —
Assim a alva rompe as trevas
deste dia em diante.

Buson

[Espanha] Lançamento: “Negro como la tinta, rojo como el amor. Moral, cultura y sociabilidad ácrata en la España de los años 30”, de Alejandro Lora Medina.

Negro como la tinta, rojo como el amor... é uma compilação de textos que abordam vários aspectos-chave da cultura e sociabilidade libertárias no período anterior a 1939. A vivência do ideal anarquista pela militância da CNT, o papel que a leitura desempenhou no potencial emancipatório do movimento operário de inspiração anarquista e o rico debate em torno da sexualidade e das relações sentimentais são as principais linhas deste trabalho de pesquisa que nos permite abordar o imaginário coletivo e o rico universo cultural do anarquismo ibérico durante os anos 30 do século passado.

Alejandro Lora Medina (Sevilla, 1987). Graduado em História pela Universidade de Sevilha (US), local onde também fez sua tese de doutorado sobre a importância da cultura no anarquismo espanhol. Atualmente é professor de História Contemporânea na Universidade Pablo de Olavide (UPO). A partir da perspectiva da história cultural da sociedade e da política, sua obra aborda o papel das memórias na construção de identidades coletivas. Especificamente, sua pesquisa se concentra na análise da cultura, mentalidade e sociabilidade do anarquismo espanhol durante as primeiras décadas do século XX, especialmente na década de 1930. É autor de diversos artigos publicados em revistas como BrocarHispania NovaHispaniaPasado y MemoriaDynamisHistoria Contemporánea o Ayer.

Negro como la tinta, rojo como el amor. Moral, cultura y sociabilidad ácrata en la España de los años 30

Alejandro Lora Medina

Editora: Piedra Papel Libros

ISBN: 978-84-123840-5-5

Páginas: 180

Tamanho do livro: 210mm x 130mm

Preço: 16€

Site: https://piedrapapellibros.com/

Tradução > Mauricio Knup

agência de notícias anarquistas-ana

A chuva engrossa
Sem ter com que se preocupar
O gato só se coça

Alvaro Posselt

“Domesticados, conformados e conformistas”

lembranças infinitas

Escritores da contracultura (lembram-se dela?, sabem o que foi?) diziam que entre ser jovem ou de esquerda, preferiam ser jovens. Isso repercutiu no punk, no final dos anos 1970: não há futuro!. Vinha da nova emergência anarquista desde 68, supostamente enterrada pela esquerda, direita e democratas desde a tentativa de extermínio na Revolução Espanhola. Ser jovem era colocar em risco as formas de governo (não só de Estado, mas da família, da propriedade, das regiões, de si próprixs). Ser jovem estava para além de direitos e das transgressões consentidas. Entornaram os vasilhames, assustaram a família enclausurada e morta-viva e suas seguranças; transbordaram em sexo livre e solto, gozo com a natureza. Sabiam que eram gente constitutiva desta natureza com suas animalidades e razões para fazer presente sua experimentação libertária, uma heterotopia com revolta permanente. Naquela época vivia-se a ameaça contínua de soviéticos ou estadunidenses atirarem bombas sobre nós. Segunda parte da II Guerra Mundial (finalizada com bombas atômicas), conhecida como Guerra Fria. Se tudo estava por um fio, então era o momento de acontecerem reviravoltas.

para ultrapassar…

Hoje, domesticados, conformados e conformistas, não faltam jovens que sonham ser bilionários e não o serão. Vivem para restaurar a mesmice no presente; desprezam práticas e pensamentos livres; satisfazem-se como democratas de shopping e redes sociais digitais ou como autocratas de shopping e redes sociais digitais. Tomam anestésicos, estimulantes, antidepressivos, vestem grifes e identidades, choram por qualquer coisa (são emotivos, ecumênicos e sufocam a gula com dietas e direitos). Não estão entre os que morrem de fome, mas também estão entre os que morrem de fome (viram polícia, corpo de traficantes, estão prontos para matar e morrer, ser delator(a), infiltrado(a), tudo por uma grana, sicário(a), milícia). Estão nos condomínios e nos regulamentos. Têm adoração por proibir, punir, condenar, negociar, empreender; veneram celebridades, influencers, pastores. Não escolheram a política (são carne ralada para os/as políticos), nem ser jovem. É o exército da chamada transparência com fones nos ouvidos, dedos e olhos nas telas, inflacionando opiniões.

>> Para ler o Flecheira Libertária na íntegra, clique aqui:

https://www.nu-sol.org/wp-content/uploads/2022/06/flecheira675.pdf

Fonte: Flecheira Libertária, n. 675, 14 de junho de 2022. Ano XVI.

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Bem que me agasalho.
Galhos sem folhas lá fora
parecem ter frio.

Anibal Beça

[Uruguai] A ilusão estéril da mudança por cima

Por Raúl Zibechi | 07/06/2022

Colômbia, Equador e Chile nos mostram processos recentes relativamente similares. Governos de direita neoliberais confrontados com grandes e duradouras revoltas populares, que abriram brechas no domínio e colocaram a governabilidade em xeque. O sistema político respondeu canalizando a disputa para a arena institucional, com a aprovação e o entusiasmo da esquerda.

Durante as revoltas, as organizações de base foram fortalecidas e novas organizações foram criadas. Só no Chile, mais de 200 assembleias territoriais e mais de 500 cozinhas comunitárias em Santiago quando a pandemia foi declarada. No Equador, o Parlamento dos Movimentos Indígenas e Sociais, com mais de 200 organizações. Na Colômbia, dezenas de pontos de resistência, territórios livres onde as pessoas criam novas relações entre si.

Os resultados da opção institucional muitas vezes se tornam visíveis algum tempo depois, quando o poder das revoltas começa a se desvanecer e quase não há mais organizações de base. O parlamento indígena equatoriano não funciona mais. As assembleias chilenas enfraqueceram em número e participação. O mesmo está acontecendo na Colômbia.

O caso do Chile é o mais dramático, pois o poder total da revolta foi logo neutralizado com a assinatura de um acordo para uma nova constituição, embora saibamos que o objetivo final era tirar a população das ruas, pois é a principal ameaça ao domínio das elites econômicas e políticas.

O Chile é o único desses três países onde o processo eleitoral coroou alguém que afirmou representar a revolta, o atual presidente Gabriel Boric. O que mais se poderia pedir? Um jovem que foi ativo no protesto estudantil e que faz parte da nova esquerda agrupada em torno do Apruebo Dignidad (Aprovo Dignidade).

É a maior decepção imaginável, para aqueles que estavam apostando em uma mudança gerenciada de cima para baixo quando da ocorrência dos protestos. Foi Boric quem assinou o pacto com a direita e o centro, com a classe política elitista, para convocar a assembleia constituinte. Foi ele quem disse repetidamente que as coisas mudariam com seu governo e prometeu desmilitarizar o território mapuche, o Wall Mapu.

Dois meses após assumir a presidência, ele decidiu estabelecer um estado de emergência naquelas terras. Assim como Sebastián Piñera, o presidente de direita odiado pela metade do Chile. Assim como todos os governos anteriores, incluindo, é claro, o regime Pinochet.

O estado de emergência é dirigido contra o ativismo mapuche que recupera terras e sabota as empresas extrativistas que destroem a mãe terra. Em particular, ela visa a Resistência Mapuche Lavkenche (RML), a Coordenação Arauco-Malleco (CAM) e a Libertação Nacional Mapuche (LNM), bem como organizações autônomas de resistência territorial.

A ocupação militar da Araucanía responde às exigências dos caminhoneiros e proprietários de terras. Para Héctor Llaitul, líder do CAM, é a expressão plena da ditadura militar que nós, os mapuches, sempre sofremos; enquanto a RML considera que Boric deixou as novas políticas repressivas nas mãos do Partido Socialista, com o apoio do crime organizado.

Vale apenas acrescentar que a área econômica foi entregue a um dos mais proeminentes defensores do neoliberalismo e da ortodoxia econômica, Mario Marcel. Não haverá mudanças. Apenas maquiagem. A popularidade de Boric caiu: 57% desaprovam-no, apenas dois meses depois de tomar posse.

O Chile não é a exceção, mas a regra. Algo semelhante está acontecendo no Equador, embora a presidência tenha sido conquistada pelo direitista Guillermo Lasso. Na Colômbia, infelizmente, o movimento social foi apanhado nas urnas pela desorganização de seus próprios territórios urbanos. Algumas reflexões.

Primeiro: a política eleitoral depende muito mais do marketing do que de programas e propostas. Assim como o consumismo é uma mutação antropológica (Pasolini), o marketing eleitoral reformula os mapas políticos e o comportamento de cima para baixo.

Dois: o poder, o poder real, não nasce das urnas, nem nos parlamentos ou governos, mas está longe da visibilidade pública, no capital financeiro ultra-concentrado, no invisível 1% que controla a mídia, as forças armadas e a polícia, os governos em todos os níveis e, sobretudo, os grupos narco-paramilitares ilegais que remodelam o mundo.

Três: os governos eleitos não podem – no caso hipotético que eles tentam – tocar os interesses dos poderes reais e dos poderosos. Eles estão protegidos por trás de vários exércitos, estatais e privados, um sistema judicial opaco e os principais meios de comunicação.

Quatro: é uma questão de tomar outros caminhos, não insistir naqueles que já sabemos que só levam à re-legitimação do existente e ao enfraquecimento dos outros mundos que estão nascendo. Não se trata de disputar seu poder (nem sua saúde, nem seus meios, nem sua educação). Criar o nosso. E defendê-lo.

Raúl Zibechi é jornalista, escritor e ativista-pensador uruguaio, dedicado a trabalhar com movimentos sociais na América Latina.

Fonte: https://redlatinasinfronteras.wordpress.com/2022/06/07/raul-zibechi-la-esteril-ilusion-del-cambio-por-arriba/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

O vento cortante
Assim chega ao seu destino –
Barulho do mar.

Ikenishi Gonsui