[Espanha] Jornadas contra o extrativismo e seu mundo

O extrativismo não é uma forma de gestionar o capital, mas é o próprio capital com sua máquina da morte se espalhando como uma doença. Neste sentido, sua infraestrutura, sua dimensão material, é inerente a sua lógica de devastação. Não há capital sem extrativismo, assim como não há produção ou consumo sem a devastação da natureza, sem a opressão de todos os seres vivos, incluindo os humanos…

O mundo que o sustenta expande a miséria, a exploração, a servidão e o controle. O que eles chamam de desequilíbrio dos ecossistemas nada mais é do que a invasão do poder transformando a natureza em uma mercadoria, onde a gestão do capital sacrifica territórios, habitats e comunidades para seu benefício antropocêntrico.

Os povos ancestrais continuam a resistir contra a colonização chamada capitalismo, seu saque e despojo, sua ideologia e seus aparatos repressivos. Para nós, lutar e apontar o extrativismo é resistir e ansiar por outras formas de vida fora da lógica da civilização, da indústria e do capital, seus valores e sua nocividade.

Estas jornadas nascem da necessidade de levantar, desde diferentes perspectivas e experiências, lutas e reflexões contra a nocividade do extrativismo e do mundo que o sustenta. O objetivo é aprofundar os discursos e práticas contra o capital e o estado em todas as suas esferas, e procurar lugares de análise que busquem o desmantelamento e destruição da sociedade do poder e todo o lixo ideológico que ela carrega em seu rastro. Levantar perspectivas anárquicas e antiautoritárias contra a devastação é apontar uma das faces do inimigo em toda sua infraestrutura e monopólio.

Até eliminar o último bastião do capital e o mundo que o sustenta!

Solidariedade com a luta dos povos ancestrais!

Extrativismo é colonialismo e autoritarismo!

Anarquistas contra a devastação da terra

malclima.blackblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

As águas silentes
E a névoa sobre o capim —
Entardece agora.

Buson

[Chile] Comunicado desde a prisão de Santiago 1

“Cumprindo mais de um mês sequestrado pelo Estado, depois de ser condenado a 90 dias de prisão preventiva sob a causa de lançamento de artefato incendiário em 1° de Outubro, na Plaza Dignidad [Praça Dignidade], só me resta dizer e expressar o mais nítido sentimento por nossa luta social, que conforma e faz parte de cada pessoa favelada, estudante e trabalhadora. Não podemos nos esquecer da forma em que vivemos o dia a dia, e como nos relacionamos diante da injustiça e da exploração que cria este Estado fascista junto ao sistema neoliberal.

Temos consciência de todo o tempo em que nos prenderam, e que nos têm separado de nossas famílias e de nosso tempo para viver com saúde, nos deixando presxs nas masmorras depois de sair para lutar por dignidade e enfrentar aos lacaios assassinos.

Neste tempo de prisão preventiva que está castigando tantas pessoas companheiras aqui dentro, as ideias são nítidas: Não podemos ficar só com o conformismo, não estamos neste mundo só para sobreviver e ficar aguentando as condições impostas que não te deixam surgir. As ruas devem ser recuperadas pelo povo que combate e exige liberdade, justiça e reparação.

Não é possível permitir a impunidade diante dos atos de violação de Direitos Humanos. Todo assassinato, mutilação, tortura e encarceramento deve ser respondido! Desde Santiago 1, um abraço e saudação fraterna para cada pessoa consciente, revolucionária e subversiva que se levanta e luta por seu povo e ideias”.

Enzx lukas preso político

via @coordinadora18octubre

Tradução > Caninana

agência de notícias anarquistas-ana

O velho lago …
O ruído do salto
Da rã na água.

Bashô

[Portugal] A vida de Emma Goldman está de volta

Por Filipe Nunes | 12/11/2021

“Viver a Minha Vida”, a autobiografia de Emma Goldman, acaba de sair pela Antígona. O jornal MAPA falou com o tradutor Luís Leitão à volta da cativante vida e obra desta incontornável anarquista, numa conversa conjunta com Pedro Morais, tradutor do “Anarquismo e Outros Ensaios” (Letra Livre e A Batalha, 2020) e Laure Batie a tradutora francesa da autobiografia que agora finalmente se encontra disponível em língua portuguesa.

Emma Goldman é um nome que evoca as extraordinárias convulsões sociais de há cerca de um século, período em que os ideais do anarquismo mais acerrimamente enfrentaram a exploração capitalista. Porém, é um nome que ainda motiva reflexões sobre o feminismo e o papel transformador das mulheres em prol de uma revolução social que vá além de meras questões de gênero.

Emma Goldman (1869-1940) foi uma das mais importantes agitadoras do final do século XIX e princípio do século XX, principalmente nos Estados Unidos, onde, emigrada da sua matushka Rússia, se tornará uma das mais influentes anarquistas de toda a história. A autobiografia da que foi considerada a “mulher mais perigosa da América”, a publicar em 2021 em tradução portuguesa com o título Viver a Minha Vida, pela editora Antígona, é um empolgante testemunho das lutas sociais que ocorreram durante o período de vida de Emma Goldman. Mas, no decorrer deste ano, podemos já contar com o essencial da sua obra ensaística em Anarquismo e Outros Ensaios, pela primeira vez editado em Portugal, oitenta anos após a sua morte, numa recente co-edição da editora e livraria Letra Livre e do jornal e editora A Batalha.

Juntamos para uma troca de ideias Pedro Morais, tradutor de Anarquismo e Outros Ensaios, Luís Leitão, tradutor de Viver a Minha Vida e ainda Laure Batier, que em finais de 2018 traduziu a autobiografia de Emma Goldman para francês, em conjunto com Jacqueline Reuss (Editions L’Echappée).

Da vida e escritos de Emma Goldman, muitos são os pontos de partida para uma conversa. E há um que surge de imediato: Emma Goldman, feminista. O sublinhar desta adjetivação, que emergiu pela década de 1970, coloca-nos perante uma questão prévia: de que feminismo falamos quando falamos de Emma Goldman?

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.jornalmapa.pt/2021/11/12/emma-goldman/?fbclid=IwAR3y1mn1G90F8uKHaqGjyE-Mr2C_0ja2HAt_j8P-DA8f6-iHakgzg8a5BLs

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/11/01/portugal-lancamento-viver-a-minha-vida-de-emma-goldman/

agência de notícias anarquistas-ana

chuva constante
o guarda-roupa mudou
agora é varal

Eder Fogaça

Elites secundárias

O capitalismo sustentável, com suas idas e vindas, realiza a grande prática de governo das condutas produzida pela racionalidade neoliberal: a dos direitos de minorias.

As minorias são compreendidas compostas por ativistas, protagonistas, cotistas, vulneráveis, empoderados. As minorias configuram as elites secundárias e definem as suas presenças como portadoras de direitos inacabados.

Trata-se de uma elite secundária porque seus integrantes estão sujeitados e assujeitados às elites principais, às minorias numéricas que governam e exercitam a soberania no Estado moderno e nas organizações internacionais.

Nos tempos atuais, são governo e são governadas por meio da gestão compartilhada.

Em política, gestão compartilhada se traduz em convocação à participação moderada dos grupos subalternos organizados.

Em economia é sinônimo de gestão compartilhada entre capital e capital humano pela cooperação na produtividade.

Em ambos, e nas demais relações culturais, sociais e ambientais são intérpretes ou forças tidas como democráticas, pluralistas, tolerantes…

São partidários e/ou apartidários, segundo a ocasião. Não formam um bloco homogêneo. Em seu interior estão as mais variadas conformações políticas partidárias ou não, que vão de socialistas a fascistas. Todos e todas se autodeclaram democráticos/democráticas. São vetores do politicamente correto financiados por fundações empresariais, institutos público-privados, nichos de mercado, publicidade engajada.

São a cara e a expressão da sociedade civil organizada em sintonia com o Estado e seus poderes, o que por vezes é chamados também de nova política, à direita e à esquerda. Portanto, não têm cumplicidade explícita com governos do Estado, nem vínculo imediato. As elites secundárias são capazes de metamorfoses e de oscilação dicotômica entre as forças que mandam.

É recomendado que todos(as) se esforcem pela pacificação, pela cultura de paz.

Todos devem crer no Estado e na punição.

Todos passam a crer em medidas sustentáveis para melhorar a situação das futuras gerações. Eles e elas imaginam-se condutores, parceiros das elites, que governam a si e aos demais súditos como pastores de variadas paróquias.

As elites secundárias funcionam para a restauração, a renovação, a revalidação do capitalismo sustentável como realidade e utopia.

As elites secundárias pretendem funcionar como hegemônicas no controle ambiental, de monitoramentos, de cares, e sobre os imbróglios a respeito de procedimentos democráticos, científicos, verdadeiros e fakes. A sua grande meta é o empreendedorismo como modo de vida.

As elites secundárias disputam, pela somatória de várias minorias numéricas, a melhor maneira de governar como maioria, tomando a representação pelo significado compensatório de direitos inacabados. Esta é a sua senha: não dar nada como concluído. Esta foi a chave e é a senha dos burocratas.

As elites secundárias pedem mais políticas públicas compensatórias, mais paulatinos reconhecimentos de cada minoria (pelo Estado e pelo Mercado), mais aceitação, e se comunicam estabelecendo um quadro geral de funcionamento jurídico e punitivista.

As elites secundárias prestam um limpo serviço à elite principal exercendo a racionalidade neoliberal, definindo as condutas criminalizáveis em função de punir mais e melhor.

Chegam ao ponto de imaginar a substituição da polícia pela ampliação das atividades de denúncia do cidadão-polícia /cidadã-polícia, a pleno vapor com os monitoramentos eletrônicos ou não. É o novo pastorado!

As elites secundárias foram formadas pelas minorias potentes que foram absorvidas como minorias numéricas por capitalistas, políticos, burocratas, ativistas e intelectuais desde o acontecimento 68.

Elas são as responsáveis por confundir, propositalmente, resistências com resiliência.

As elites secundárias apresentam as condições para a conduta moderada no âmbito e no ambiente de uma suposta sustentabilidade descolonizada.

As elites secundárias atualizam o governo dos súditos pelos súditos. Sua presença a serviço da elite principal repercute nas artes plásticas, na literatura, nas humanidades. Todos e todas necessitam participar para se sentirem mais que mortos-vivos.

Pronto: haverá capitalismo sob qualquer regime político e suas forças sempre contarão com os assujeitados. Em cada época ele mostra isso e depois escancara seu ardil.

Fonte: https://www.nu-sol.org/blog/hypomnemata-251/?fbclid=IwAR0myRQ05fDb9WZtasZj6H-kDcoQrdqGxtw8fQ8XZNPmsb-7cpEpfESw_KQ

agência de notícias anarquistas-ana

É tarde, escurece,
a lua se esforça
mas logo aparece.

Pedro Mutti

Qualquer Semelhança

Em uma época não muito futurística, em um mundo não muito estranho, houve uma onda global de um gás patógeno circulante que se transmitia de pessoa a pessoa, pela respiração, e que, apesar de ser letal apenas para duas a três em cada cem pessoas que entravam em contato com ele, matou um número de pessoas que saltou aos olhos da população pois, devido à sua alta transmissibilidade, muita gente entrou em contato com ele. A partir de então, mesmo o número dos que morriam de fome naquele mundo sendo muito maior do que o número dos que morriam do gás, não se falava mais em outra coisa.

Apesar de ser de conhecimento de especialistas em artefatos de guerra de que havia laboratórios de alta tecnologia em alguns países que se dedicavam à produção de gases daquele tipo para fins bélicos, a origem de tamanha situação foi atribuída oficialmente a um suposto e trivial incidente gastronômico: segundo as autoridades, um certo povo de hábitos alimentares “primitivos” teria gerado as condições para a assimilação do gás pelo aparelho respiratório humano (visto que o mesmo, até então, só era elaborado nos sistemas respiratórios de animais de outras espécies), pelo costume desse povo de compartilharem a mesa com animais oriundos de suas florestas.

O mais curioso, é que pouco antes da coisa toda estourar, um grupo de manda chuvas proprietários das grandes indústrias especializadas em produzirem antídotos para gases patógenos (indústrias estas, obviamente, que mantinham fortes conexões com os laboratórios produtores de gases patógenos: afinal, não se pode vender soluções sem que antes haja o problema) organizou um encontro entre eles para matutarem sobre como poderiam assegurar seus negócios caso o patógeno escapasse da esfera dos animais instintivos e “saltasse” repentinamente para a esfera dos animais manobrados por suas mídias. Mas é claro, segundo eles e suas gigantescas empresas de mídias contratadas, tudo não passou de uma mera coincidência. E os animais manobrados acreditaram.

Após um período de cerca de um ano de muitas mortes pelo gás patógeno, e de muitos investigadores independentes das grandes indústrias de antídotos que propuseram soluções não tão lucrativas para as indústrias terem tido, “casualmente”, suas reputações assassinadas pelos representantes da dogmática “Igreja da Sapiência” (segundo a qual a sapiência da palavra dos seus líderes da “investigação natural” é uma verdade única e indiscutível), instaurada neste período pelo poder de concertação social via mídia do grupo de manda chuvas proprietários das grandes indústrias de antídotos contra gases patógenos, estas apresentaram ao mundo alguns produtos experimentais supostamente neutralizadores dos efeitos do gás, produtos estes, obviamente, muito mais caros do que os que os investigadores independentes cujas reputações foram “casualmente” assassinadas já haviam experimentado na prática com razoável sucesso em vários lugares e, como “cereja do bolo”, exigiram aos governos do mundo, como condição indiscutível para a venda desses produtos, uma “blindagem” total contra quaisquer prováveis buscas por responsabilização de seus empreendimentos por parte dos clientes, ante os prováveis inúmeros casos de resultados indesejados que produtos ainda experimentais certamente iriam desencadear. A massa da população mundial, pensando não haver outra saída, posto que as alternativas apresentadas anteriormente pelos investigadores independentes haviam sido pretensamente “deslegitimadas” pela dominante “Igreja da Sapiência” à qual a maioria dos cidadãos que queriam parecer serem seres “iluminados” se vincularam imediatamente sem pensar duas vezes sequer, e com o horizonte cognitivo reduzido a quase nada pelo terror das mortes produzidas pelo gás, aderiu de forma tão irracional ao uso dos produtos experimentais, que passou inclusive a hostilizar e segregar a minoria mais alerta que passou a questionar se não seria algo irresponsável somar ao risco das mortes pelo gás também o risco de mortes e danos ainda desconhecidos possivelmente provocados pelos produtos experimentais.

Bem, o fato é que, menos de um ano após os produtos experimentais terem sido inseridos em uma grande massa populacional ao redor do mundo, e após um breve lapso de tempo em que o número de adoecimentos pelo gás reduziu de forma aparente, justamente nos lugares em que a maioria dos cidadãos já havia sido submetida ao experimento verificou-se um novo crescimento ainda mais assustador dos índices de adoecimento provocados pelo gás patógeno.

Porém, os manda chuvas proprietários das grandes indústrias de antídotos contra gases, após terem embolsado trilhões em dinheiro de impostos dos cidadãos com as vendas de seus “ouros de tolos”, puseram em ação os líderes mundiais da Igreja da Sapiência (da qual eram os maiores “contribuintes” para o seu “dízimo”) de modo que estes, associados aos governos compradores dos produtos experimentais (que haviam assinado os referidos contratos comerciais espúrios com isenção total de responsabilidades para os manda chuvas e, portanto, tornaram-se a partir daí cúmplices destes) passaram a atribuir as causas deste fenômeno (ou seja, a evidente ineficácia do experimento) a qualquer outra coisa que pudesse mobilizar o medo – e a consequente raiva, devido à frustração enorme – da população para longe dos verdadeiros (i)responsáveis por esta escandalosa situação, ou seja: atribuíram a culpa por toda esta lambança àqueles que, num exercício de suspeita saudável, decidiram não se submeterem irrefletidamente ao experimento. E a massa da população mundial engoliu essa história!

Então, os manda chuvas proprietários das grandes indústrias de antídotos contra gases, livres do risco de terem que enfrentar a ira do povo, visto que este foi facilmente manobrado para se dividir e lutar contra si mesmo, logo propuseram outra “solução” experimental para a situação: aumentar a quantidade de produtos experimentais inseridos na população (não se pode acusá-los de não terem senso de humor): afinal, nada melhor do que vender repetidas vezes o mesmo produto, para os mesmos clientes. E a massa populacional atordoada pelo medo aderiu à ideia sem pensar duas vezes (não se pode dizer que não foram avisados).

Moral da história: nesse mundo, e nessa época, é mais “crível” que um vírus “salte” repentinamente de uma espécie animal para outra, do que um “racional” supere seus primitivos instintos de rebanho seguidor irrefletido de “pastores autorizados”.

Ecce Homo.

Vantiê Clínio Carvalho de Oliveira

agência de notícias anarquistas-ana

Pelas vigas da ponte,
Os raios de sol
Na névoa da tarde.

Hokushi

Procura-se | Tradutoras | Tradutores

[Espanha] Anarquismo social ou anarquismo como “estilo de vida”

Anarquismo social ou Anarquismo pessoal. Um abismo insuperável é um livro da Vírus, que recupera um texto de Murray Bookchin de 1995. O ensaio foi escrito em uma época, como o autor vê, em que o anarquismo estava em um ponto de viragem em sua longa e conturbada história. Embora possamos discordar de alguns dos argumentos do Bookchin, concordaríamos em essência que as ideias anarquistas são, e devem ser, eminentemente sociais.

Assim, estamos surpresos com as tendências que surgiram, supostamente dentro do anarquismo, nas últimas décadas: “um individualismo decadente em nome da ‘autonomia’ pessoal, um misticismo desconfortável em nome do ‘intuicionismo’, e uma visão ilusória da história em nome do ‘primitivismo'”. Bookchin também denuncia a confusão do sistema capitalista com uma sociedade industrial supostamente abstrata, bem como a imputação de toda a opressão ao impacto da tecnologia e não às relações sociais subjacentes entre capital e trabalho. O foco crítico deve ser colocado, mais do que na civilização como um todo, no poder econômico (capital), no poder político (hierarquia), na mercantilização geral da vida e, em geral, nos paradigmas de exploração e ambição sem limites. Este anarquismo “pessoal” do título, que na realidade deveria ser melhor traduzido como anarquismo “como estilo de vida”, deixa de lado o compromisso social e a coerência intelectual; concentra seus objetivos na alimentação do ego mais do que em qualquer outra coisa, como mais uma parte da decadência cultural da sociedade burguesa.

O lamento de Bookchin é que muitos dos chamados libertários tenham negligenciado a luta pela revolução social, sem nunca negar que o anarquismo sempre abraçou qualquer tentativa de libertação pessoal. Na verdade, o anarquismo deve ser sempre analisado como um desenvolvimento entre duas tendências elementares: um compromisso pessoal com a autonomia pessoal e um compromisso coletivo com a liberdade social. Bookchin considera que estas duas tendências nunca foram harmonizadas dentro do movimento anarquista e simplesmente coexistiram dentro dele. Isto levou as diferentes escolas anarquistas, situadas entre estes dois extremos, com suas próprias propostas de organização social, a situar o anarquismo segundo Bookchin como um movimento pluralista que trabalhou mais para uma concepção negativa da liberdade (“liberdade de fazer”) do que para uma concepção positiva (“liberdade para fazer”); para o americano, a concepção de uma liberdade positiva é um desafio para o futuro no movimento anarquista. A aceitação destas duas tendências na história do anarquismo, o individualista (que poderíamos cautelosamente chamar de “liberal”) e o socialista, é admissível; o próprio desenvolvimento do anarquismo no século 20 levará a “formas revolucionárias de organização energética com programas coerentes e atraentes”, como Bookchin as define, e que ele sente falta hoje. Para reconstruir tal movimento, seria necessário deixar de lado o apetite pelo imediato (tão característico da sociedade burguesa) e optar pela reflexão matizada, pela racionalidade como um todo, pela análise histórica sólida e pelos aspectos mais louváveis da civilização (e não a crítica geral e infantil ao primitivismo e outras tendências que abundam em uma suposta “queda da autenticidade”). Bookchin recupera a tradição socialista e democrática dentro do anarquismo, assim como um vínculo com as origens da Primeira Internacional, posteriormente mantida pelos anarquistas-sindicalistas e comunistas libertários, o que se traduz na seguinte exigência: “Não mais deveres sem direitos, não mais direitos sem deveres”.

Esse programa socialista e revolucionário no anarquismo não nega, e nunca negou, a importância da realização pessoal e da satisfação do desejo; Bookchin não se esmorece em suas críticas àqueles que abundam em solipsismo, esteticismo, misticismo e êxtase, e o faz à maior indignação em nome de um suposto anarquismo. Às três tendências acima mencionadas, individualismo solipsista, misticismo da new age e primitivismo ingênuo e mistificador, devemos acrescentar algumas outras excrescências que periodicamente crescem em um movimento libertário que às vezes é teimoso em carregar muitos elementos em suas costas. O anarquismo, ao qual Bookchin considera que a denominação “social” deve agora ser acrescentada, é obviamente um herdeiro do Iluminismo, aceitando seus limites e imperfeições; ele defende a capacidade racional do ser humano sem de forma alguma negar a paixão, a imaginação, a arte ou o prazer, elementos que de fato sempre tentou integrar na vida cotidiana. A crítica feroz que pode ser feita à megamáquina, o conceito de Lewis Munford que alude à exploração e à burocratização do trabalho, não leva o anarquismo a não apoiar a tecnologia como elemento libertador (aliás, Munford nunca foi contra a tecnologia; pelo contrário, ele apoiou seus aspectos mais positivos e democráticos); a existência de um processo de institucionalização social não impede de ser contra o sistema de classes e a hierarquia, portanto pode muito bem ser libertário, enquanto que um programa político federal de democracia direta pode muito bem significar oposição ao parlamentarismo e ao Estado ao mesmo tempo. Este é o desejo de Bookchin, com o qual é possível discordar de algumas concepções, mas que na opinião do abaixo-assinado está dentro de uma tradição anarquista que não pode perder de vista seu horizonte socialmente emancipatório. A autonomia pessoal é uma quimera, ou na melhor das hipóteses, a preservação de uma elite de indivíduos isolados, se a liberdade social for renunciada; o indivíduo só pode se desenvolver plenamente dentro de uma sociedade plenamente desenvolvida. É necessário, portanto, que os anarquistas sempre se concentrem nos problemas sociais, dentro da época em que vivemos e sempre atualizando as propostas libertárias, fornecendo soluções e sem cair em místicas ou falsas idealizações. Tentar ser coerente em nossa vida diária e buscar o máximo desenvolvimento pessoal não implica renunciar à revolução social; pelo contrário, os dois se complementam.

Capi Vidal

Fonte: http://acracia.org/anarquismo-social-o-anarquismo-como-estilo-de-vida/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

enamoradas…
as nuvens cinzentas
apagam o sol…

Rodrigo de Souza Leão

[Chile] Lançamento: “Hasta que vivir valga la pena. Imágenes del estallido social”, de Sergio Sebastían

Fotografias e texto de @sebastian_1986_, 2021.

Mar y Tierra Ediciones / Colección Fotográfias

52 págs. 16,5 x 11,5 cms.

Importante registro fotográfico da revolta no epicentro do estalido, a Plaza Dignidad. Este pequeno livro, o primeiro de uma coleção fotográfica, contém imagens que retratam o estalido social de 18 de outubro de 2019 até mais de um ano depois… porque a revolta continua!

>> Veja-baixe o livro aqui:

https://lapeste.org/wp-content/uploads/2021/10/hqvvlp_web.pdf

agência de notícias anarquistas-ana

Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.

Rodrigo de Almeida Siqueira

[Argentina] Buenos Aires: Encontro de Bibliotecas Anárquicas

Convidamos você para o Encontro de Bibliotecas Anárquicas, que visa fortalecer as relações entre espaços e afins, e assim aguçar o movimento anárquico.

A jornada consistirá de duas palestras, na primeira faremos uma breve revisão da história e da atualidade das bibliotecas anárquicas do Rio de la Plata, e na segunda falaremos sobre a possível coordenação entre os espaços.

Também estamos preparando uma refeição coletiva e uma intervenção gráfica, na qual convidamos você a participar, trazendo stencils, serigrafia e qualquer outro tipo de material gráfico.

Todos estão convidados, não é necessário participar de alguma biblioteca.

Se você tem material para divulgação, traga-o!

Até sábado, 13 de novembro!

Saúde e anarquia.

agência de notícias anarquistas-ana

primavera
mergulho na ilha
bela

Sílvia Rocha

[Espanha] ‘La Novela Ideal’, contos cor-de-rosa da II República para ensinar anarquismo para as mulheres

O romance ‘Los colores del tiempo’ [As cores do tempo] de Ana Alonso conta a história de Adela, uma professora republicana do pós-guerra cuja vida mudou ao encontrar um destes livros cor-de-rosa.

Por Cristina Gómez| 14/10/2021

A arte e a literatura sempre foram meios de transmissão de ideias, sejam políticas, religiosas ou sociais. Da mesma forma, a propaganda foi difundida através de muitas técnicas e meios distintos. Durante a Segunda República, um destes meios foram os romances cor-de-rosa dirigidos a mulheres, que misturavam uma história romântica com uma mensagem política, fosse socialista, comunista ou, inclusive, anarquista. Ainda que tenham ficado no esquecimento, se tratavam de histórias muito bem recebidas pelas mulheres que sabiam ler, e centenas foram publicadas, com tiragens de mais de 50.000 exemplares (um fato importante naquela época).

Uma das mais lidas foi, sem dúvida, La Novela Ideal [O Romance Ideal], relatos que se publicavam em formato de revista e formavam parte da edição de La revista blanca (1923-1936), uma conhecida publicação editada pelas pessoas anarquistas Juan Montseny Carret e Teresa Mañé.

Quando Ana Alonso a descobriu, pareceu “uma história incrível”, e lhe deu a ideia de escrever Los colores del tiempo [As cores do tempo], da editora Espasa. Este romance de ficção é ambientado na Espanha do pós-guerra e conta a história de Adela, uma mulher republicana que era costureira e se tornou professora, a quem os relatos cor-de-rosa anarquistas mudaram a vida.

Tal e qual conta Alonso a MagasIN, a protagonista, uma viúva que deve criar sua filha sozinha, é uma mulher “que viveu a República e a guerra com uma militância anarquista e de repente se dá conta de que todo esse mundo se desmoronou. Tem que se reinventar e, como milhares de pessoas republicanas que ficaram na Espanha depois da guerra, encontrar a forma de manter sua dignidade sem renunciar a quem é realmente, aceitando a nova realidade”.

Um dia, Adela lê Una mancha de carmín e se dá conta de que é um daqueles livros anarquistas de que tanto gostavam, mas que foi modificado para passar pela censura do regime. A partir daí, sua vida dá um giro e entra em aventuras que nunca tinha imaginado. Deixou de dar aulas no pequeno povoado leonês de Pardesivil e passou a fazer parte de círculos culturais de Madrid, se aliando com mulheres muito diferentes, como Gloria Fuertes ou Federica Montseny.

O legado do romance cor-de-rosa

Esta última [Federica Montseny] era a filha, também anarquista, de Juan Montseny Carret e Teresa Mañé, e foi a primeira mulher a ocupar um cargo ministerial na Espanha durante a Segunda República. Além disso, escreveu mais de 60 títulos de A Novela Ideal. “Inventei Una mancha de carmín me inspirando em títulos reais que chegaram a minhas mãos”, explicou Ana Alonso.

“Eram livros cor-de-rosa, mas também instrumentos de propaganda, e há de se recordar que cada partido tinha sua coleção. Não destacaria nenhum em particular, porque era essa literatura popular que tinha essa função, sobretudo pedagógica. O curioso de todas elas é como uma típica história de amor pode ser contextualizada de maneira a transmitir uma mensagem com intenção de criar consciência social”.

Para a autora de Los colores del tiempo, estes livros são “mais uma curiosidade do que algo que há de ser resgatado desde o ponto de vista literário”, mas “não há de se desdenhar o trabalho pedagógico que realizaram”. “Como se conta no livro, também durante o pós-guerra, o romance cor-de-rosa foi, para muitas mulheres, a forma de sair desse ambiente opressivo em que se encontravam e descobrir outros mundos. Esse é o papel da literatura popular”.

Sua própria mãe, em quem também se inspirou para escrever o livro, tinha romances cor-de-rosa em casa, tanto da época franquista como La Novela Ideal. “É preciso pensar que as pessoas leitoras comuns, seguramente, não percebiam tanta mudança nas histórias desde a Segunda República ao franquismo. Quando comentei a minha mãe que queria escrever sobre La Novela Ideal, ela me disse que teve vários em sua casa. Tinha misturadas as novelas cor-de-rosa do pós-guerra com as anteriores, e nem percebia muita diferença”.

Além disso, em sua maioria eram escritas por mulheres, que muitas vezes não tinham oportunidade de se dedicar a outro tipo de literatura. “Muitas terminavam nesse mundo do romance cor-de-rosa porque outras portas não eram abertas com facilidade. Ao mesmo tempo, as mulheres tinham muitas leitoras, e inclusive se não tinham muita formação, a leitura formava parte de sua vida. Acredito que é algo que não nos devemos esquecer quando pensamos nas mulheres durante o pós-guerra”.

Cada trama destas novelas podia ser diferente, mas, no exemplo do caso das anarquistas, “quem simbolizava o heroísmo sempre refletia a luta de classes”. “É interessante porque sempre havia um contato como luta de classes. Talvez a jovem que era seduzida pelo proprietário de terras latifundiário, e logo vem um camponês consciente que cuida dela, quando ela fica grávida. Tinha baboseira, mas no ambiente dessa luta de classes”.

Fonte: https://www.elespanol.com/mujer/mujeres-historia/20211014/novela-ideal-cuentos-ii-republica-ensenar-anarquismo/619188442_0.html

Tradução > Caninana

agência de notícias anarquistas-ana

viagem de trem
entre as estações
a primavera

Joaquim Pedro

[Chile] Tokata e lançamento de “Musikarmadxs hasta los dientes Vol. 4”

Este sábado 13 de Novembro, atividade solidária com os presos subversivos de longa pena em 14 de Fama e lançamento do Kompilado Musikarmarmados hasta los dientes Vol. 4 (2021).

Kompilado de musika antikarcerária, bandas e vozes desde Itália, Argentina, Chile, Uruguai, Alemanha, Colômbia e muito mais.

“Assumimos a músika komo ferramenta de difusão de ideias antiautoritárias e não komo um veíkulo de fama e hedonismo funcional à subjetividade da dominação, e por isso temos uma presença permanente na luta kotidiana pela libertação de Marcelo e de todxs xs nossxs irmãos e irmãs subversivxs e anarquistas nas prisões do Estado”.

Pela revogação das emendas ao D.L 321!

Contra a perpetuidade das prisões!!!

Marcelo Villarroel para a rua!!!

Morte ao Estado e longa vida à anarkia!

Até destruir o último bastião da sociedade prisional!!!

Enquanto houver miséria, haverá rebelião!!!

agência de notícias anarquistas-ana

As campânulas
Se espalham pelo terreno —
Casa abandonada.

Shiki

[Portugal] Uma perspectiva libertária sobre a luta contra a mineração

Por Teófilo Fagundes

O “campo” que, da janela da cidade, se imagina vazio está, afinal, prenhe de gente combativa. Nos últimos tempos, muitas têm sido as lutas contra as minas, especialmente de lítio. Em que é que estas lutas seguem um percurso histórico? Que novidades trazem? Em que é que podem interessar a uma visão anti- -capitalista e anti-autoritária do mundo?

Desde há muito que as comunidades se organizam para tentar resolver os problemas que as afetam diretamente. Em entrevista ao Jornal MAPA, o historiador Paulo Guimarães defendia que “as lutas ambientais não são recentes, pode ser recente uma consciência ecológica, um discurso mais científico, mas havia uma consciência muito viva daquilo que eram as ameaças aos quadros de vida existentes.” Este “havia” remonta ao século XIX e trespassa até os tempos sombrios da ditadura. Uma consciência que se materializava muitas vezes em luta concreta. A par de ações de resistência individual e coletiva, de recurso às formas legais permitidas, através das petições e da ação parlamentar, houve lugar a formas ilegais, com destaque para a desobediência civil, o motim, a sabotagem e a destruição de propriedade.

A nota principal era a da organização local – não necessariamente baseada em classes ou outras divisões sociológicas ou econômicas tradicionais, uma vez que juntava pobres, agricultores, pastores, proprietários –, pessoas que, sem nunca terem ouvido falar de ecologia, tinham uma noção muito clara de que há agressões à natureza que destroem sistemas de vida humana. A esta espécie de semi-ignorância sobre questões ambientais gerais correspondia uma completa ignorância no seio das classes dirigentes: só em 1976 se consagra constitucionalmente o ambiente como direito e a respectiva lei de bases só viu a luz do dia onze anos mais tarde.

“As lutas ambientais não são recentes, pode ser recente uma consciência ecológica, um discurso mais científico, mas havia uma consciência muito viva daquilo que eram as ameaças aos quadros de vida existentes.”

Posteriormente, no início dos anos 90 do século XX, a palavra “ecologia” entrou no jargão público, a sua comercialização tornou-a inócua e o seu caráter global relegou-a para a especialização técnica, onde quem trata dos assuntos relevantes para a comunidade não é a própria comunidade, mas sim um corpo de especialistas, técnicos, gestores e porta-vozes. A progressiva desertificação do mundo rural deu o empurrão definitivo para que, ainda nas palavras de Paulo Guimarães, tudo se resuma a uma “militância levada a cabo por pessoas com maior ou menor consciência ecológica, que vão denunciando publicamente atuações que consideram lesivas sobre o território, mas que já não têm um vínculo a uma comunidade que depende diretamente dos serviços do ecossistema, como existia no passado”.

Já neste século, as coisas começaram a mudar um pouco. Ao tradicional espírito de quererem que a terra onde vivem lhes dê alimento e prazer, as populações foram acrescentando ao saber antigo o conhecimento a que foram tendo acesso e percebem agora bem os ciclos da natureza, a fragilidade do equilíbrio ecológico e as vantagens – muito para além da mera economia ou da pura sobrevivência – dum ambiente são. Para mais, muita gente acabou por se enjoar dos cantos da sereia urbana e tentou um regresso à terra. O interior, não estando livre – muito longe disso – de se despovoar, tem hoje uma população menos envelhecida, enriquecida com regressados, ou fugidos, da cidade.

Aqui chegados, chegou também um plano nacional de mineração, apresentado e defendido pelo atual governo como uma espécie de caminho para a prosperidade e um travão ao êxodo rural. Nas comunidades potencialmente afetadas, este caldo histórico entrou em ponto de fervura e transbordou. Há vários movimentos ativos, cada um com as suas características, e que em comum têm os ingredientes angariados: a consciência do que representa um perigo para o tipo de vida que escolheram, a organização numa base local e socialmente transversal, a noção exata daquilo que a indústria mineira provoca em termos de danos ambientais e sociais. E, claro, o espírito de ação direta, que parece ausente quando se vê todo o trabalho institucional que levam a cabo, mas que se manifesta no fato de não delegarem a luta em partidos ou poderes locais, encarando esse trabalho institucional como um meio e não como um fim, chegando a usar a abstenção como arma.

Há ainda uma característica fundamental que, salvo raras exceções, está também no âmago do pensamento mais profundo que orienta estes movimentos. A rejeição da mineração num momento em que a “descarbonização” se afigura realmente urgente é uma causa difícil se o modelo de organização social e econômico da humanidade se mantiver. Querer que não abram minas no monte atrás de minha casa e, ao mesmo tempo, desejar que os níveis de produção e consumo de energia se mantenham é, de fato, uma posição dum egoísmo indefensável. Os movimentos sabem-no. Reconhecem que o direito a não querer minas no seu território é tão válido em Trás-os-Montes, no Minho ou na Serra da Estrela como o é no Chile ou no Gabão, entendendo assim que, se não se pode continuar a viver como até agora – em regime de crescimento eterno – sem se esventrar o planeta à procura de substitutos para o petróleo e seus derivados, então tem de se começar a viver doutra forma.

É exatamente aqui que a discussão é colocada. E as respostas aventadas ecoam outras vozes, ainda há pouco tidas por antiquadas, parvas ou primitivistas. Vozes de regresso à terra, da água e do ar puro como bens maiores, de consumir menos e produzir mais perto. Ecoam outras vozes, ainda há pouco tidas como utópicas e revolucionárias. Vozes de poder ao povo, de direito de cada comunidade gerir a sua forma de viver, de organização dos afetados para resolverem os seus próprios problemas. E ecoam ainda outras, ainda hoje tidas como subversivas ou até terroristas. Vozes de desobediência no caso de as máquinas pretenderem realmente ir esburacar os montes.

Outras características animadoras são comuns a vários destes movimentos. Se é verdade que os planos de mineração são do governo português e que, nesse sentido, teria lógica fazer uma luta num quadro meramente “nacional”, o fato é que o nacionalismo envergonhado de palavras de ordem como “Portugal não está à venda”, que seria de esperar ver amiúde, está quase ausente do discurso dos movimentos organizados de contestação. Claro que há coisas como o “Portugal Unido pela Natureza”, que tende perigosamente para esses campos. Claro que os comentários nas redes sociais passam muito por aí. E claro que, quanto mais não seja pela inércia do hábito, os próprios movimentos podem acabar por derrapar para frases feitas de “nação valente”. Mas, por outro lado, e apenas para exemplificar, uma das primeiras ações de luta da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso foi a participação num encontro ibérico com vários outros coletivos do Estado espanhol; o Movimento SOS Serra d’Arga tem-se organizado com gente do outro lado do Rio Minho, da Galiza; e, no caso da Serra da Estrela, parte das pessoas ativas não nasceram em território português.

“Mais do que líderes, há porta-vozes. Mais do que organizações, há indivíduos organizados.”

Finalmente, vários dos movimentos recusam a hierarquia e a pessoalização. Alguns – menos – rejeitam até a institucionalização, preferindo a informalidade. Mais do que líderes, há porta-vozes. Mais do que organizações, há indivíduos organizados. Há também, como seria de esperar, gente que se pretende destacar para poder almejar a voos mais altos. Já se percebem algumas movimentações e isso tornar- se-á notório com o aproximar das eleições autárquicas de 2021. Eis um quadro idílico que apresenta parte da realidade. Uma outra, lógica mas não explicitada, é a de que um coletivo que junte gente que explora e gente que é explorada – e estes movimentos fazem-no – tem um limite a partir do qual os interesses são antagônicos e nunca poderá, portanto, ser o embrião de nada de radicalmente transformador. Mas, perante uma forma de luta popular, ainda que num conceito interclassista de povo, com características verdadeiramente interessantes, é fundamental contribuir para que se potenciem essas características, é fundamental apoiar o seu aprofundamento e é, sem dúvida, fundamental – quanto mais não seja por uma questão de sanidade mental – esperar que, daqui saiam faíscas para lutas ainda mais promissoras por um mundo onde, definitivamente, os conceitos da economia percam o lugar para as pessoas e o planeta.

Fonte: https://www.jornalmapa.pt/2021/04/02/uma-perspectiva-libertaria-sobre-a-luta-contra-a-mineracao/

agência de notícias anarquistas-ana

calor na nuca
sol lá fora me faz
sombra dentro

Alexander Pasqual

[Espanha] Semana de Ação Antiespecista

Chegou o dia internacional do veganismo, mas o veganismo capitalista que só enriquece o capital e o “El Pozo” com seus salames veganos.

É assim que o sistema funciona, ele absorve e se alimenta de tudo que serve para enriquece-lo. Muito longe dos verdadeiros valores da filosofia do veganismo.

Como antiespecistas e veganos radicais, nossa posição é contra toda dominação e uso de animais como recursos para os seres humanos.

Chamamos para uma agitação internacional pela Semana de Ação onde se mostre o verdadeiro caráter antiespecista e anticapitalista.

Para encerrar a Semana de Ação, é convocada uma manifestação:

Segunda-feira, 15 de novembro de 2021
18h00
Plaça Universitat, Barcelona

agência de notícias anarquistas-ana

barro já seco
por pegadas de sapato
passeiam formigas

Jorge B. Rodríguez

Campanha de arrecadação de materiais para mulheres e pessoas trans em situação de cárcere

Saudações Anárkicas!

A I Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre está chegando!

Para além das conversas, oficinas, trocas e bancas de materiais que vão rolar, estamos fazendo uma Campanha de Arrecadação de Materiais para Mulheres e Pessoas Trans em Situação de Cárcere no Estado do Rio Grande do Sul: sabonetes, pastas de dentes, absorventes, roupas íntimas, roupas de cama, entre outros – a lista completa pode ser acessada no link a seguir:

https://feiraanarquistafeminista.noblogs.org/campanha-de-arrecadacao-de-materiais-para-mulheres-e-pessoas-trans-em-situacao-de-carcere/

Os materiais serão recebidos nos dias da Feira presencial, e também em pontos de coleta na cidade de Porto Alegre – se você está em Porto Alegre ou região e quer ser um ponto de coleta de materiais, nos escreva para fafpoa[arroba]riseup.net.

Em breve divulgaremos a programação das atividades que vão acontecer presencialmente (4 e 5 de dezembro) e online via Kolektiva.media / Jitsi (11 e 12 de dezembro).

Se você está longe, apoie com a divulgação desse e-mail! Não usamos redes “sociais” das empresas dos monopólios colonialistas digitais, semeie a difusão por meios digitais livres e seguros!

SOLIDARIEDADE É AÇÃO!

Atenciosamente,

I Feira Anarquista Feminista de Porto Alegre 

feiraanarquistafeminista.noblogs.org

agência de notícias anarquistas-ana

Chove de mansinho,
na manhã de primavera:
Frio tropical.

Antonio Cabral Filho

[França] Sète: Georges Brassens faria cem anos, La Poste publica um selo em homenagem ao cantor

1921-1981: por ocasião do centenário de seu nascimento e do quadragésimo aniversário de sua morte, La Poste (Correios franceses) publica um selo dedicado a Georges Brassens, que será vendido a partir de 25 de outubro em toda a França e em pré-lançamento em Sète a partir de 22 de outubro.

Sète, a cidade onde nasceu em 22 de outubro de 1921, permanecerá sempre no coração de Georges Brassens… E em suas canções. “Les copains d’abord” (1964), seu pequeno barco, suas férias… Mesmo sendo famoso, o cantor permaneceu fiel a seus amigos e sua família em Sète. Ele está enterrado, não “na praia de Sète” (Suplicou para ser enterrado na praia de Sète – 1966), mas no túmulo familiar do cemitério municipal.

Pré-venda

Para celebrar tanto o centenário de seu nascimento quanto o quadragésimo aniversário de sua morte, La Poste lançou um selo especial, baseado em uma foto de Jean-Pierre Leloir e projetado por Valérie Besser. Os selos, cada um com um valor de 1,08 euros, serão vendidos em cartelas de 15, com uma tiragem de 495.000 exemplares.

Os selos serão colocados à venda em 25 de outubro em toda a França, mas estarão disponíveis em Sète, no Espace Brassens em uma prévia na sexta-feira, 22 de outubro, exatamente cem anos após o nascimento do cantor, e no sábado, 23 de outubro, a partir das 10h às 18 horas.

Uma carreira parisiense

Após alguns anos difíceis, Georges Brassens tornou-se famoso nos anos 50, cantando no cabaré de Patachou, no Butte de Montmartre, em Paris. Em seus 25 anos de carreira, ele escreveu mais de 250 canções. Com seu violão, seu cachimbo e seu bigode, seu ar áspero e seu verbo atrevido, seu gosto pela anarquia e pelas boas palavras, o cantor de Sète marcou várias gerações de intérpretes.

Georges Brassens morreu alguns dias após seu sexagésimo aniversário, em 29 de outubro de 1981.

Fonte: https://france3-regions.francetvinfo.fr/occitanie/herault/sete/sete-georges-brassens-aurait-eu-cent-ans-la-poste-edite-un-timbre-en-hommage-au-chanteur-2243929.html

agência de notícias anarquistas-ana

vento a derrubar
—bem antes da tempestade
cigarras avisam…

Haruko

[Reino Unido] Sophia Kropotkin (e uma viagem a Hartlepool)

Notas e um extrato sobre a vida de uma figura pouco estudada da Europa revolucionária.

Há muitos aspectos frustrantes na pesquisa das vidas de mulheres revolucionárias históricas. Embora muitos delas fossem pensadoras extraordinárias, geralmente eram relegadas a papéis secundários, muitas vezes por causa do sexismo flagrante dos criadores de gostos masculinos, os insidiosos “padrões culturais” da época que sistematicamente empurravam a família feminina dos Grandes Homens para segundo plano e assumiam papéis, por necessidade ou escolha, que favoreciam o apoio de outros em vez da colheita da glória pessoal. Sophia Kropotkin se enquadra em todas estas categorias.

Nascida Sophia Grigoreivna Ananieva-Rabinovich em 1856, ela era uma política poderosa por direito próprio. De uma família de classe média em Kiev, ela fazia parte de uma geração de jovens mulheres que se aproveitaram do radicalismo dos anos 1860 que varreu a Europa Oriental e o Império Russo e garantiu uma educação completa, especializando-se inicialmente como bióloga, embora com o tempo ela também contribuísse para o trabalho em química e geografia.

Em sua juventude, ela passou um tempo na Sibéria e interessou-se por atividades revolucionárias por volta de 1873, aos 17 anos de idade. Ela se mudou para a Suíça com a Primeira Internacional em pleno andamento, onde conheceu seu futuro marido, Peter Kropotkin, com quem se casou em 1878. Ela era claramente uma peso-pesado intelectual, ganhando seu Batchelor of Science em Genebra em 1881, e Kropotkin refere-se a ela como uma fonte primária de crítica e feedback, observando ainda em Memórias de um Revolucionário que no final dos anos 1880, enquanto ele estava na prisão, ela havia estudado com Charles Wurtz, um dos químicos mais eminentes da França, para seu doutorado em ciência. A mão de Sophie também trabalhou em segundo plano para Elisee Reclus e sua obra magna Geografia, além de ajudar a manter um olho em Le Revolte enquanto Peter estava preso.

Correspondente regular tanto em seu próprio crédito como no de Peter, ela escreveu fluentemente em inglês e francês, bem como seu russo nativo, produzindo um trabalho perspicaz sobre tudo, desde a agricultura na Flandres até o ensino superior feminino na Rússia.

Mas as biografias de Sophia são escassas, e a informação vem principalmente de seu trabalho em apoio a Peter. De fato, em sua própria autobiografia, embora claramente orgulhosa de suas realizações, o mais famoso Kropotkin não a menciona uma única vez pelo nome. O artigo que teve mais impacto para Sophia foi sobre sua experiência de apoiar Peter na prisão, A Esposa do No. 4.237. E o feito pelo qual ela é mais elogiada foi a criação de um arquivo em Moscou dedicado às suas obras (mais tarde fechado por Stalin) antes de sua morte em 1941.

As histórias dos eventos nos quais ela esteve diretamente envolvida são de particular interesse em tentar mostrar que tipo de pessoa uma mulher que passou mais de 40 anos como uma figura de confiança no coração da Europa revolucionária poderia ter sido. O seguinte trecho de Anarchism in North East England (Anarquismo no nordeste da Inglaterra), impresso com a gentil permissão da autora, oferece, portanto, uma breve visão do que de outra forma poderia ser negligenciado (embora, como sempre, os relatórios citados sejam filtrados através do olhar do jornalismo vitoriano):

Falando em Hartlepool

Um fato muitas vezes não relatado, ou pouco conhecido entre a imprensa anarquista, é que Sophia Kropotkin, a “esposa” de Peter Kropotkin, durante vários anos também fez uma turnê pelo país dando palestras sobre a “Liberdade Russa” e “A Vida na Sibéria” para plateias fascinadas. Assim, ela causou uma agitação intelectual no Nordeste com sua palestra sobre o atual estado da Rússia na Prefeitura de West Hartlepool em 6 de março de 1908.

“A plataforma da Prefeitura de West Hartlepool foi ocupada ontem à noite pela Princesa Kropotkin, que deu uma palestra sobre a “Rússia” diante de uma grande audiência. O marido da princesa Kropotkin foi preso por suas opiniões políticas. Ele escapou e desde então a Princesa compartilhou seu exílio na Suíça, na França e ultimamente na Inglaterra. Como a princesa salientou durante sua palestra, um traço especial da mulher russa é que ela segue seu marido em toda a angústia dele. O público, ao aplaudir a observação, não apenas expressou seu apreço por esta característica, mas prestou homenagem à própria Princesa, que nobremente fez sua parte, e sofreu a perda de riqueza, posição e amigos pela causa da liberdade russa”.

(Northern Daily Mail. Sexta-feira, 6 de março de 1908.)

A princesa muitas vezes deu conta da vida e das dificuldades, bem como do clima severo, entre o povo da Sibéria “Mas isto, acrescentou ela, não foi nada comparado com o que o povo teve que suportar de funcionários e comerciantes russos sem escrúpulos e corruptos”. Depois de descrever os belos aspectos do país, seus campos de trigo florescentes, férteis e ricos em minerais;

 Fonte: https://www.meneame.net/m/Lib%C3%A9rtame/sophia-kropotkin-viaje-hartlepool?fbclid=IwAR3BAkl8xrfL3CsVx3od9P12Q1Eni8H2hHSztOoBobn0ZSBk64bQ1pJJSOQ

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Flores no jardim,
Jabuticabas no quintal!
Eis a primavera.

Mailde Tripoli