[Chile] Revista anarquista internacional “Kalinov Most” #8

Uma nova edição de nossa revista foi lançada:

Kalinov Most. Publicação Anarquista Internacional #8/Outubro 2021.

• Editorial

• Sobre estratégias repressivas

• Algumas considerações sobre a ética e a prática do terrorismo

• O amanhecer de um novo mundo: a dominação tecnológica e digital

• Confrontando ou evitando a miséria? Algumas questões dentro de ambientes anárquicos.

• Contribuições externas

• Vivendo a anomalia

• Anarquistas contra as probabilidades no sul do Bra$il

www.kalinovmost.wordpress.com

kalinovmost@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

Ao deixar o portão
Do templo zen,
Uma noite estrelada!

Shiki

[França] Área de Saint-Etienne: Ataque

Na noite entre 2 e 3 de novembro de 2021, realizamos um ataque coordenado contra três repetidores, nas proximidades de Saint-Etienne, incendiando-os.

(Esta não foi apenas uma, como a mídia tentou fazer pensar que fosse)

Isto bloqueou as comunicações telefônicas e interrompeu temporariamente a dependência que o mundo tecnológico precisa suportar.

(Poderíamos tomar como exemplo a fábrica de armamento do grupo Thales, em um município vizinho, ou as 80.000 pessoas privadas de telefones por uma semana inteira, mas há muitas outras…)

Não queríamos apenas escolher um novo aspecto das tecnologias (5G), mas afirmar nossa hostilidade contra esta sociedade como um todo.

Viva a revolta.

Vida longa ao fogo.

E que vivam mais k-ways à prova d’água!

Alguns A.C.R.A.T.E.S.

(Associations Coordonnées pour la Révolte Anti-Tech et l’Eco-Sabotage)

[ACRATA/E – Associações Coordenadas para Revolta Anti-Tech e Eco-Sabotagem]

Fonte: https://ilrovescio.info/2021/11/15/zona-di-saint-etienne-francia-attacco/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Tormenta hibernal —
O rosto do passante,
Inchado e dolorido.

Bashô

[Itália] 5G: Rede da sociedade cybernetica, Silvia Guerini, Costantino Ragusa – Editora Asterios

Este pequeno ensaio busca destacar as profundas transformações sociais, ontológicas e antropológicas que derivarão da rede G5 e da sociedade que está se estruturando graças a ela.

A rede 5G não é a simples melhora das anteriores 2g, 3g, 4g é algo mais que maior velocidade na transmissão de dados: apesar de ser mais rápida, permite mais conexões ao mesmo tempo e a passagem simultânea de dados com praticamente zero delay. Características essenciais para o desenvolvimento e a voracidade da inteligência artificial, que progredirá graças aos montes de dados gerados no mundo digital. Dados que, antes de serem capturados por algoritmos, eram nossas vidas, nossos sentimentos, nosso corpo em carne e osso, agora produto e produtor de sua própria vigilância em grande escala.

As empresas de Big data processarão todos os dados e graças à rede G5 eles nos empurrarão para a explosão definitiva da internet das coisas, o chamado “planeta inteligente” da IBM: uma gigantesca rede TI em que tudo – humanos, outros animais, ambientes naturais, o mobiliário urbano, objetos, infraestruturas, serviços – vão ser interconectados e se comunicarão em um sistema integrado. Neste caminho uma cibernética e transhumanista visão se realizará totalmente. Todos os campos da existência estão sendo digitalizados para uma organização autômata de toda a sociedade e de toda a vida. Do nascimento a morte, a existência está sendo submetida à elaboração, controle e gestão algorítmica, monitoramento constante que se estenderá a gestos únicos até as emoções mais remotas. Os dispositivos acompanharão cada vez mais as pessoas no dia a dia com uma proximidade sussurrada onde as máquinas ‘cuidam delas’. Assim, um novo poder suave está tomando forma, que não tem uma face de coerção ou imposição, mas uma de livre escolha. Imbuídos de princípios transhumanistas da inadequação, imprecisão, falibilidade do ser humano. O imprevisto, o acaso, os limites não serão tolerados e o ser humano será concebido como inadequado e errado, para uma constante adaptação a um mundo de máquinas, para uma contínua superação de limites, onde é precisamente o corpo que é considerado um limite a ser superado, tornando-se objeto de desempenho constante e auto-otimização. Diante do anseio pela “singularidade” tecnológica o que está acontecendo é uma “singularidade ontológica”: a própria natureza do ser humano, sua existência biológica, sua finitude está sendo transformada, para uma implementação constante e modificação genética dos corpos. Uma transformação ontológica do ser humano para chegar à sua completa desumanização.

Um ser humano bio-medicalizado em uma sociedade onde tudo deve ser feito para se adequar aos critérios de perfeitabilidade contínua está cada vez mais corroído e esterilizado, também em sua capacidade de conscientização e resistência. Estamos nos acostumando a considerar a realidade que nos cerca através do aviso “nada será como antes”; certamente com a convergência das tecnociências aceleradas pela emergência sanitária será precisamente o ser humano que será transformado, esvaziado e cheio de medo, a confiança na nova sociedade tecnobiomédia que vemos avançando. Esta corrida louca está indo na velocidade do 5G, mas antes de atingir qualquer objetivo, nossa desumanização e lobotomia relacional terão tomado conta. Incapazes de perceber o abismo precisamente porque eles nos garantiram seu poder de nos salvar.

O tempo para entender o sentido e o que está em jogo nesses processos e nesta passagem de época é agora, o que vai mudar nos próximos meses e anos será para sempre e não haverá como voltar atrás.

Para outra visão do mundo. Permanecer humano significa resistir.

Traduzido de Act for freedom now!

Visite o blog: https://inkonstantedicoes.ga

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/09/13/franca-nancy-assumindo-ataque-incendiario-contra-um-repetidor-5g/

agência de notícias anarquistas-ana

As campânulas
Se espalham pelo terreno —
Casa abandonada.

Shiki

[Grécia] Em Atenas, milhares de pessoas protestam em memória da revolta estudantil de 1973 contra a junta militar

Milhares de pessoas manifestaram-se nesta quarta-feira (17/11) em Atenas, sob forte presença policial, para marcar o 48ª aniversário da revolta estudantil em 1973 que provocou dezenas de mortos e assinalou o princípio do fim da ditadura dos coronéis na Grécia. A marcha foi muito maciça. Especialmente maciço foi o “bloco negro”.

O governo mobilizou cerca de 7.000 polícias na capital, para assegurar a proteção de edifícios governamentais e efetuar controles preventivos, em particular na zona de Exarchia, bairro onde se situa a Universidade Politécnica de Atenas e palco de confrontos regulares entre grupos anarquistas e a polícia.

O tráfego foi bloqueado nas ruas próximas da universidade e fechadas algumas estações de metrô situadas no percurso da marcha até à embaixada dos EUA.

No início da noite anarquistas atacaram a polícia em Exarchia. Também foram verificados protestos de rua em outras cidades gregas nesta quarta.

Um pouco de história

Entre 14 e 17 de novembro de 1973 registrou-se uma rebelião estudantil na Universidade Politécnica de Atenas, incluindo com a transmissão de notícias via rádio à população, esmagada pela irrupção de tanques e forças policiais no recinto. No entanto, esta ação assinalou o início do fim da “Ditadura dos Coronéis”, que caiu em julho de 1974 após sete anos no poder.

Na lista de mortos na Politécnica de Atenas, elaborada após o fim da ditadura, incluem-se os nomes de 55 pessoas, apesar de o balanço oficial indicar 24 vítimas mortais.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/11/16/grecia-1973-2021-luta-contra-o-poder-e-a-exploracao/

agência de notícias anarquistas-ana

Lua cheia!
Por mais que caminhe,
O céu é de outro lugar.

Chiyo-jo

[Espanha] Ato de entrega de documentação dos anos 90 de “Mujeres Libres de Bilbao”

Na  sexta-feira, 19 de novembro, às 19 horas, os convidamos ao ato que acontecerá na sede da FAL (calle Peñuelas 41) onde será feita a entrega da documentação digitalizada do arquivo dos anos 90 da agrupação “Mujeres Libres de Bilbao”.

Tendo em conta que “Mujeres Libres” é uma das organizações anarcofeministas com trajetória própria e que depois de mais de 80 anos, segue vigente, se pretende que o conhecimento deste momento sirva para preservar essa parte da História e nos ajude a caminhar para o futuro.

A FAL tem entre seus objetivos a recuperação da Memória histórica do anarquismo, assim como a proteção, reunião e fomento do estudo das ideias libertárias e sua difusão. Portanto, é o organismo adequado para entregar os arquivos.

O ato será aberto com uma palestra sobre a organização “Mujeres Libres” e especialmente sobre este período, informando também sobre o processo ocorrido para a digitalização da documentação.

Os esperamos.

Quando? Sexta-feira, 19 de novembro.
Horário? 19 horas.
Onde? Sede da FAL em Madrid. Calle Peñuelas 41. Metrô Acacias ou Embajadores.

fal.cnt.es

agência de notícias anarquistas-ana

Ao perder as flores
Com o templo se confunde
A cerejeira.

Buson

[Chile] Memória: A 3 anos do covarde assassinato do weychafe Camilo Catrillanca

Em 14 de novembro de 2018, o weychafe¹ Camilo Catrillanca foi baleado covardemente pelas costas, pelo policial assassino Carlos Alarcón Molina.

O fato ocorreu durante a operação do “Comando Jungla”, grupo militarizado inserido em Wallmapu [Território ao sul do Chile]. Na operação, os policiais entraram na comunidade de Temucuicui, disparando rajadas em Camilo pelas costas, enquanto ele dirigia um trator e era acompanhado por um menor de idade.

Camilo, ao momento que foi assassinado, tinha uma filha de 6 anos e esperava sua segunda filha. A mídia, o governo e a polícia disfarçaram o covarde assassinato como um enfrentamento, inclusive escondendo evidências das câmeras.

Até o momento não existe reparação, justiça nem apontamento de responsabilidades políticas do Estado dos ricos pela morte do Weychafe Camilo.

Quem morre lutando vive para sempre!

[1] Weychafe: No idioma Mapudungun um dos significados da palavra Weychafe é “espírito guerreiro”.

Via Capucha Informativa

Tradução > Caninana

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/11/29/estado-chileno-assassina-indio-mapuche-camilo-catrillanca/

agência de notícias anarquistas-ana

Escorre o sol
Salgando meus lábios
Passo a passo

Rodrigo Vieira Ribeiro

Lançamento: “hypomnematas/nu-sol – abolicionismo penal libertário”

A hypomnemata é uma editoria coletiva do nu-sol, geralmente redigida por mais de um integrante, imprimindo nossas inquietações, coragens, acertos e quase equívocos no fogo dos acontecimentos.

Para este livro, o nu-sol escolheu as hypomnematas mais próximas ao abolicionismo penal libertário que praticamos, para expor e indicar que a prisão para jovens não passa de um absurdo, ou melhor, de desprezo por quem é pobre, preto e escolhido seletivamente pelo sistema penal sob a fachada de instituição educadora com suas medidas socioeducativas penais impressas no Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990.

> Para comprar o livro por R$80,00, clique aqui:

https://www.revan.com.br/produto/abolicionismo-penal-libertario-n-26-918

agência de notícias anarquistas-ana

o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

Zemaria Pinto

[Chile] Greve eleitoral | Sabote as urnas do poder

Como Assembleia Anarquista de Biobío, aderimos ao chamado de uma GREVE ELEITORAL, expressando nossa posição diante das próximas eleições na região chilena.

Também convidamos você a aprofundar a reflexão crítica sobre o processo eleitoral e a fortalecer os espaços de organização autônoma nos territórios.

Liberdade para xs presxs mapuches, políticxs, anarquistas, subversivxs e da Revolta.

Fim da militarização de Wallmapu e do terrorismo de Estado.

Assembleia Anarquista de Biobío

agência de notícias anarquistas-ana

Inebria a rua —
perfume de gardênia
É primavera

Elnite

[Itália] Passaporte sanitário?

A ideia de passaportes nos lembra fronteiras, controles, delegacias de polícia, burocracias e rejeições, proibições, discriminação. Como anarquistas, consideramos tudo isso inaceitável em princípio e lutamos contra isso, considerando-o o resultado da lógica autoritária e policial dos Estados, de seu patriotismo bruto que na história só produziu guerras e violência.

Agora o Estado italiano está tentando impor outro passaporte: o passaporte sanitário. Já havia o cartão de saúde, que havia se tornado uma espécie de passaporte indispensável para serviços médicos e até para compra de cigarros, mas era claramente insuficiente.

O passaporte sanitário, ou green pass, porque o inglês é usado para disfarçar melhor a substância das palavras, nada tem a ver com saúde, e é o resultado de uma operação requintadamente política para impor a vacinação contra o covid àqueles que não querem fazê-lo, e para estender o estado de exceção ao nível individual e de massa; nosso país é um laboratório no qual estamos tentando nos acostumar a nos submeter ao controle digital (delegado também aos gerentes de locais públicos, chamados a agir como policiais ou confidentes e espiões) nas profundezas da vida cotidiana. A exigência obrigatória que deve entrar em vigor em 15 de outubro, defendida pela Confindustria, é também uma arma nas mãos dos empregadores para discriminar e manter fora da produção os mais rebeldes, dissidentes e ferrenhos. Uma harmonia perfeita entre governo e empregadores.

Não há nada de sanitário neste passaporte, porque, paradoxalmente, uma pessoa não vacinada que entra num local público, com um esfregaço no dia anterior, oferece mais garantias de não ser infectada do que uma pessoa com um passe verde de alguns meses, que poderia ser contagiada e infectar outras. Isto não tem nada a ver com saúde, porque então eles deveriam nos explicar porque existem universidades, como a de Ferrara, onde, apesar do passe verde obrigatório para todos, as aulas continuam à distância. E por que as massas estão isentas, para dar alguns exemplos.

No exterior, onde esta medida é quase inexistente, com exceção da França, eles foram mais explícitos em sua interpretação da situação italiana: em 16 de setembro, o diário madrileno El País publicou o título: “A Itália se torna o primeiro país ocidental a impor a vacinação a todos os trabalhadores”. Sem palavras minuciosas ou hipocrisia, o passaporte sanitário lê-se como a imposição da vacinação obrigatória. O governo não quer impor a vacinação compulsória (tendo que assumir a responsabilidade pelas possíveis consequências para a saúde dos vacinados), e contorna a questão de forma mafiosa impondo o passe verde, sob pena de sanções, suspensões, perda de salários e restrições à vida social.

É evidente que as duas questões, vacinas e passe verde, estão ligadas, mas se a primeira deve ser apoiada pela liberdade de escolha, a segunda se torna 100% inaceitável: um instrumento de mero controle social que afeta não tanto a liberdade da burguesia, como alguns ainda insistem em declarar, mas a liberdade tout court do povo. Através da chantagem, as pessoas são forçadas a “cumprir” a lei, como uma medida de pseudo-emergência que será seguida por outras medidas cada vez mais rigorosas: reconhecimento facial, caça aos indivíduos, recompensas para os mais obedientes; elementos típicos de um estado policial.

Tudo isso não é um fim em si mesmo, mas preparatório para governar as crises dos próximos anos, que verão novos e mais fortes ataques às condições das classes média e trabalhadora para favorecer as multinacionais, grupos financeiros e as castas política e militar.

Não perceber isto, ou pior, cair na armadilha de que estas medidas estão sendo feitas para proteger a saúde das pessoas, é de fato um assunto sério. Igualmente grave é permitir que estas questões sejam exploradas por servos obscuros do sistema, como Salvini, Meloni e a turma de canalhas que zumbem ao seu redor, ou a multidão de conspiradores que ocupam a cena social, com disparates como a ditadura da saúde: é o modo capitalista de produção, é a ditadura do capital, que deve ser acusada.

Este é o modo capitalista de produção, a ditadura do capital, que deve ser denunciada. Estamos diante de um passo crucial no casamento entre estado, capital e alta tecnologia, a realização do sonho despótico de toda autoridade: ter controle total sobre os subordinados, a qualquer preço e por qualquer meio. Uma história que caracteriza a história da humanidade e o esforço dos oprimidos para se libertarem de exploradores de todos os tipos. Neste contexto, nosso lugar sempre esteve do lado dos oprimidos, contra os estados, deuses, senhores e suas ditaduras mais ou menos disfarçadas. E hoje está ao lado daqueles que se opõem a esta deriva totalitária, que nos afeta a todos.

Pippo Gurrieri

Fonte: http://www.sicilialibertaria.it/2021/10/08/passaporto-sanitario/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Soprando o vento do oeste,
Ajuntam-se a leste
As folhas caídas.

Buson

[Reino Unido] O Anarquismo Moldou David Graeber. E depois Ele Moldou o Anarquismo.

Ele soprou vida nova para dentro da ideologia.

Por Shane Little | 02/09/2021

A morte prematura de David Graeber em 3 de setembro de 2020 deixou um grande vazio no anarquismo contemporâneo. Sua teoria do anarquismo, construída através de sua participação na política anarquista e discutida em seus muitos livros e ensaios, deu vida nova à ideologia, moldando a política de toda uma geração e influenciando o discurso público de uma forma que pouquíssimos intelectuais anarquistas foram capazes de fazer.

Na tradição anarquista da “teoria informando a prática” e a “prática informando a teoria”, não só Graeber foi moldado pela ideologia, como ele também a moldou.

Rumo a uma política anarquista

Embora ele tenha sido criado em um ambiente familiar político – sua mãe era uma trabalhadora sindical e seu pai lutou na Guerra Civil Espanhola – e tenha começado a se identificar como um anarquista ainda durante a adolescência, o entendimento de Graeber sobre a ideologia só começou a amadurecer a partir de sua experiência na organização do movimento antiglobalização.

Graeber foi um participante ativo no Global Justice Movement (Movimento por Justiça  Global) nos anos 90, e nos protestos anti Livre-comércio na Cidade do Quebec e em Nova Iorque no início dos anos 2000. Durante esse período, ele estudou as tendências anarquistas dentro desses movimentos, e, inspirado pela eficácia deles, começou a desenvolver sua própria interpretação do anarquismo. Centrais para essa interpretação – e também para o movimento antiglobalização por si só – estavam dois conceitos: democracia direta e política pré-figurativa.

Democracia direta é um modelo de organização social no qual todo e cada cidadão vota em todas as decisões importantes. Segundo o próprio Graeber: “É sobre criar e implementar redes horizontais ao invés de estruturas de cima para baixo como Estados, partidos ou corporações; redes baseadas em princípios de democracia consensual, descentralizada e não hierárquica. Enquanto política pré-figurativa é o ato de se comportar de modo a refletir seus valores políticos”.

Se não agora, quando?

A política pré-figurativa estava no centro do anarquismo de Graeber – ele acreditava que ela era “algo que você faz, não uma identidade”. Sua política estava enraizada na prática; era sobre demonstrar a viabilidade dos princípios anarquistas não através da teoria, mas da vivência deles no seu cotidiano. Para Graeber, não havia um conjunto particular de condições sociais necessárias para a revolução social; nós deveríamos apenas começar e desafiar o Estado a nos impedir. Ao invés de lutar por um futuro anarquista longínquo, ele argumentou que deveríamos criar o tipo de espaço anarquista que queríamos ver no presente.

Talvez os melhores exemplos disso possam ser encontrados na participação e influência de Graeber no movimento Occupy Wall Street, no qual ele adotou uma série de modelos de organização sobre os quais ele havia escrito, incluindo a democracia direta e a política pré-figurativa. Spokescouncils¹, tomada de decisão por consenso e grupos de afinidade – todos meios anarquistas de organização – foram estruturas organizacionais chave no movimento; enquanto os próprios acampamentos, que Graeber ajudou a organizar, eram essencialmente espaços anarquistas estabelecidos e operados sem uma autoridade centralizada.

Essa defesa do anarquismo baseado na prática – que ele chamou de anarquismo com “A-minúsculo” – levou Graeber a criticar as tendências mais tradicionais dentro do movimento – o anarquismo “A-maiúsculo” – como o anarco-comunismo e o anarco-sindicalismo, mas, em particular, aquelas formas que aderiram a um programa fixo, como plataformismo. Na opinião de Graeber, tais leituras prescritas da ideologia eram muito rígidas e isoladas, tornando-as pouco atraentes para a participação em massa. Seu anarquismo, pelo contrário, era lúdico e inclusivo, criando espaço para os indivíduos moldarem o mundo de acordo com suas crenças e valores políticos.

Alguns discordaram do retrato pouco lisonjeiro de Graeber do anarquismo com A maiúsculo, causando fraturas no movimento que ainda reverberam hoje em dia. Apesar disso, Graeber teve uma influência extremamente positiva no anarquismo contemporâneo. Ele não apenas teorizou como viver sem um Estado; ele demonstrou como fazer. E mais, por meio de seu trabalho intelectual, ele apresentou todas as outras pessoas, do passado e do presente, que também estavam fazendo isso.

O valor da antropologia

Assim, da mesma maneira que o ativismo de Graeber foi vital para moldar seu anarquismo, também foi sua vida acadêmica. Professor de antropologia da Escola de Economia e Ciência Política de Londres (LSE), Graeber pegou o que aprendeu em sua pesquisa e usou para enriquecer o seu anarquismo, defendendo seu lugar na academia durante o processo.

Graeber só percebeu plenamente o valor político da antropologia sendo um estudante de graduação conduzindo um trabalho de campo em Madagascar. Enquanto estava lá, ele viu em primeira mão como várias tribos locais organizavam seus negócios sem a presença do Estado. Vindo do oeste estadunidense – onde a lógica do Estado parece axiomática – essa experiência alterou Graeber profundamente. A vivência de que outra forma de organizar a sociedade era possível, para além das restrições do Estado-nação, alargou radicalmente os seus horizontes políticos, em particular a sua crença na viabilidade do anarquismo. Como o próprio Graeber colocou: “Anarquismo e antropologia andam bem juntos porque os antropólogos sabem que uma sociedade sem um Estado é possível porque existem tantas”.

Tendo compreendido o quão factível o anarquismo como uma ideologia realmente é, ao retornar para a universidade, Graeber usou essa experiência para “anarquizar” seu campo de estudo.

Seu livro, Fragmentos de Uma Antropologia Anarquista, lançou as bases para uma escola de antropologia anarquista, argumentando que o assunto é “particularmente bem posicionado” como uma disciplina acadêmica para olhar para a gama de sociedades e organizações humanas, para estudar, analisar e catalogar estruturas sociais e econômicas alternativas em todo o mundo e, o mais importante, apresentar essas alternativas ao mundo. Enquanto seus livros Direct Action (Ação Direta) and Possabilities: Essays on Hierarchy, Rebellion, and Desire (“Possabilidades”: Ensaios sobre Hierarquia, Rebelião e Desejo) forneceram as ferramentas e recursos para uma nova geração de ativistas e acadêmicos estudarem os movimentos sociais não apenas a partir dos bastidores, mas como participantes ativos dentro deles.

Para Graeber, a relação entre política e academia era simbiótica. Sua pesquisa antropológica permitiu que ele percebesse as possibilidades do anarquismo; enquanto seu anarquismo deu à antropologia a estrutura necessária para canalizar seu potencial emancipatório e anti-autoritário.

Tornando o anarquismo mainstream

A escrita de Graeber foi uma forma de sintetizar seu ativismo e antropologia em uma teoria do anarquismo e compartilhá-la com o mundo. Embora seu trabalho ao longo dos anos 2000 tenha conquistado um número relativamente pequeno de seguidores fiéis, foi apenas na última década de sua vida, quando Graeber começou a escrever textos mais amplos e menos explicitamente antropológicos, que ele se tornou um intelectual público respeitado e influente.

Seu livro Dívida: os Primeiros 5.000 Anos, publicado em 2011, tornou-se um best-seller internacional, catapultando-o para o mainstream político. Enquanto isso, On the Phenomenon of Bullshit Jobs (Sobre o Fenômeno dos Empregos de Merda), o ensaio que ele escreveu para revista Strike!, uma pequena publicação anarquista, em 2013, que abordava a – até então – futilidade implícita de grande parte do trabalho contemporâneo, foi um inesperado sucesso viral, recebendo mais de um milhão de acessos e deixando Graeber inundado com centenas de e-mails de pessoas que reconheceram sua própria experiência no que ele descreveu. A peça não apenas cimentou seu lugar no mainstream político, como, talvez ainda mais importante, demonstrou sua capacidade de compreender intuitivamente e dar voz a pessoas comuns que enfrentam a exploração rotineira sob o capitalismo.

Ambos trabalhos mostraram a notável capacidade de Graeber de expor lúcida e claramente o absurdo dos mitos sociais comumente aceitos, enquanto casualmente oferecia a política anarquista como uma alternativa viável e de bom senso. Por exemplo, em Dívida, Graeber nos mostra a natureza ridícula da dívida como sistema financeiro, traçando seu papel ao longo da história e ilustrando os impactos negativos que teve na vida social. Em resposta, ele propõe que seja substituído por “comunismo cotidiano”, atos de ajuda mútua na vida humana cotidiana, que ele mais uma vez traça ao longo da história como evidência da propensão humana de se organizar em torno de princípios de cooperação ao invés de interesse próprio.

Essa rara habilidade de traduzir ideias políticas complexas em termos divertidos e fáceis de ler ajuda a explicar como um radical intransigente como Graeber conseguiu ganhar e manter o apelo popular. Sua origem na classe trabalhadora incutiu nele o ódio ao elitismo e, com ele, o desejo de que seu trabalho fosse apreciado fora da academia. Para ele, sua escrita era “uma extensão de sua política”, um ato de cuidado estendido ao seu leitor.

Assim como intelectuais publicamente anarquistas antes dele, como Paul Goodman, Noam Chomsky, Alex Comfort e Colin Ward, Graeber conseguiu fazer as pessoas pensarem como anarquistas, mesmo sem perceberem. Juntos, eles introduziram princípios anarquistas como ajuda mútua, associação voluntária e organização social liderada pela comunidade no discurso político dominante de uma forma que os fez parecer não apenas realistas, mas também de bom senso.

Se o ativismo de Graeber fez com que as pessoas se comportassem anarquicamente, suas críticas sociais fizeram com que as pessoas pensassem dessa forma. É uma conquista que apenas um punhado de anarquistas ao longo da história podem reivindicar – e que o tornou, sem dúvida, o anarquista mais prolífico do século 21. 

Um legado de esperança

Graeber nos deixou muito cedo. É uma tragédia pensar que ele não estará aqui para nos ajudar a entender os imensos desafios políticos que temos pela frente; como uma figura Chomskiana que ainda oferece esperança e roteiros para mudanças até os noventa anos.

Dito isso, o legado que ele nos presenteou é rico em ideias e exemplos práticos que nos permitirão dar continuidade ao seu projeto de construir um mundo melhor, mais justo e mais agradável.

A compreensão e as contribuições de Graeber para o anarquismo moderno revigoraram a ideologia e serão um ponto de referência para as gerações futuras. Sua participação no ativismo moldou os movimentos sociais contemporâneos e inspirou uma geração de ativistas. Enquanto sua capacidade de viver seus valores políticos, ao invés de confiná-los às páginas de seus livros, fez dele não apenas um acadêmico notável, mas um ser humano notável.

O anarquismo baseado na prática de Graeber era, em última análise, enraizado na esperança – na crença de que você pode refazer o mundo a qualquer momento. Ele confiava que, se fornecidas com as ferramentas e recursos certos, as pessoas teriam a capacidade de tomar suas próprias decisões sobre como devemos viver.

Por meio de seu anarquismo, Graeber nos mostrou não apenas que outro mundo é possível, mas que é possível agora. Ele vive em um daqueles momentos e movimentos que nos mostram até os menores vislumbres de tal mundo.

Shane Little é um anarquista e historiador na Universidade de Loughborough.

Fonte: https://novaramedia.com/2021/09/02/anarchism-shaped-david-graeber-then-he-shaped-anarchism/

[1] Nota de tradução: Spokescouncil é um método de estruturação de assembleias (council) onde os participantes são organizados em uma roda separada por raios (spokes) de maneira a permitir a participação de um grande grupo e a discussão em pequenos grupos para trabalhar em conjunto com o consenso. https://participedia.net/method/518

Tradução > A Estrela

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/01/eua-david-graeber-apos-a-pandemia-nao-podemos-dormir-novamente/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/22/eua-relembrar-david-graeber-pesquisador-desordeiro-e-amigo/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/16/eua-a-vida-de-david-graeber-comemorada-no-zuccotti-park/

agência de notícias anarquistas-ana

Chuva de primavera —
Uma criança
Ensina o gato a dançar.

Issa

[Espanha] Greve do metal na baía de Cádiz

A Confederação Nacional do Trabalho, membro da Associação Internacional dos Trabalhadores (CNT – AIT), considera muito positivo o segundo dia de greve no setor dos metais [metalúrgico] de pequeno e médio porte na província de Cádiz.

Para a Anarcossindical, e apesar de quem quer que pense, as mobilizações foram atendidas e seguidas por mais de 95% dos trabalhadores do setor.

Os trabalhadores e trabalhadoras das Auxiliares têm exigido maciçamente nas ruas o desbloqueio do Acordo Coletivo, pelos Empregadores, únicos responsáveis e culpados por esta situação, um Empregador que mantém os trabalhadores das empresas que compõem a força de trabalho em total precariedade trabalhista, violando constantemente os direitos adquiridos dos trabalhadores, reduzindo as condições de trabalho, resultando na perda cada vez mais acentuada do poder aquisitivo das famílias trabalhadoras. Mas em troca de grandes lucros e bons resultados para o empregador.

Os trabalhadores já disseram que já basta. Chega de insegurança no trabalho, chega de abusos. O coletivo exige de uma vez por todas um Acordo Coletivo decente e, ao mesmo tempo, se for alcançado um acordo satisfatório, que ele seja cumprido por todas as empresas sem exceção.

Está prevista uma greve por tempo indeterminado para 16 de novembro. Se os empregadores não mudarem sua atitude, se não for alcançado um acordo que satisfaça as exigências justas e razoáveis dos Metalúrgicos, a Confederação Nacional do Trabalho (AIT) continuará a apoiar as mobilizações, juntamente com os outros sindicatos que convocam a greve.

Pela aplicação de um Acordo Coletivo justo e digno para o Setor Metalúrgico. Não à perda dos direitos adquiridos e às melhorias trabalhistas e salariais alcançadas após tantos anos de luta.

Confederação Nacional do Trabalho

Associação Internacional dos Trabalhadores

Sindicato de Ofícios Vários de Chiclana de la Frontera

Sindicato de Ofícios Vários de Cádiz

Cádiz, 10 de novembro de 2021

Fonte: https://www.cnt-ait.org/huelga-del-metal-en-la-bahia-de-cadiz/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Mar de primavera —
O dia todo,
Ondula, ondula …

Buson

[México] Segunda Feira Libertária Infantil “Construindo a Anarquia”

Cansados do silêncio, nos organizamos, cinco sedes no mesmo projeto trabalhando simultaneamente: Cdmx | Puebla | Sonora | Michoacán | Estado de México.

Estamos nos bairros, nos canteiros de obras e nas escolas. Estamos prontos e informados, ocupados e zangados.

Estamos em todos os lugares!

Colaborar, apoiar e divulgar…

Para mais informações sobre os locais onde ocorrerá ou se você quiser colaborar escreva para ferialibertariamexico@riseup.net

POR UMA EDUCAÇÃO QUE NOS ENSINA A PENSAR E A NÃO OBEDECER…

– apoio mútuo – antiautoritarismo – autogestão – solidariedade – liberdade – equidade – horizontalidade… –

A Feira Libertária Infantil é uma proposta feita por um grupo de indivíduos organizados, que se preocupam em melhorar a educação emocional das crianças, promovendo o desenvolvimento pleno e livre do ser humano, através de atividades realizadas a partir de diferentes disciplinas e abordagens, que visam criar e reforçar laços sociais como empatia, solidariedade, apoio mútuo e autogestão em várias comunidades. Eles identificaram que a privação emocional na infância é um problema emergente na sociedade atual, pois traz consigo condições que podem obstruir o sentido da vida no ambiente de uma criança e afetar negativamente seu pleno desenvolvimento.

É de grande importância reconhecer que há uma tendência a uma educação que oferece às crianças pouca ou nenhuma troca de afeto, pouca interação social com os outros, falta de clareza no estabelecimento de limites, pais e/ou mães distraídos digitalmente ou ausentes, juntamente com ambientes sociais complexos, nos quais se manifestam diferentes condições que favorecem a violência e a perda de espaços comunitários que representam alternativas a estas situações.

É por esta razão que o coletivo vem trabalhando em uma proposta de defesa comunitária chamada “Feira Libertária Infantil”, cujo objetivo é criar um espaço no qual gerar e fortalecer laços sociais que fomentem o respeito mútuo e a autonomia comunitária.

Tudo isso, através de oficinas gratuitas e exposições artísticas destinadas a pais, mães, famílias e comunidade em geral, que de forma lúdica poderão identificar ferramentas e habilidades para melhorar a gestão das emoções, bem como um reconhecimento da importância da ligação com seu entorno.

A proposta é também uma busca para recuperar espaços comunitários, gerando segurança, que fortalecem o intercâmbio de laços de solidariedade entre os habitantes da localidade.

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

entre flores velhas
o som da abelha
treme flores novas…

Luiz Gustavo Pires

[Reino Unido] Comunicado da R-AT: Escola Central de Trespass

Uma ampla coalizão de ocupantes, anarquistas e ativistas se reuniu na recém ocupada Escola de Trespass em Farringdon, no norte de Londres, no fim de semana de 16/17 de outubro para protestar contra o Projeto de Lei de Polícia, Crime, Sentença e Tribunais que está atualmente passando pela Câmara dos Lordes e ameaça criminalizar e perseguir ainda mais os estilos de vida dos povos ciganos e viajantes aqui no Reino Unido, bem como tornar ilegais muitas formas de protesto. É a mais recente encarnação de um movimento de resistência vívido e turbulento formado sob a bandeira da Resistência Anti-Trespass que tem estado envolvido em uma campanha contínua de requisição criativa de propriedades desusadas para destacar a perseguição invasiva ameaçada pelo governo conservador desde 2010. Os conservadores criminalizaram com sucesso a ocupação de propriedades residenciais em 2012, um ano depois de despejar o maior terreno de viajantes da Europa na Fazenda Dale em 2011, e desde então têm se organizado para que o golpe de misericórdia proíba completamente todas as formas de ocupação, assim como muitos tipos de protesto. Outras ações este ano incluíram a ocupação de delegacias de polícia fora de uso pela Serious Annoyance, a tripulação da R-AT apreendendo uma pizzaria no Soho para comer pizza grátis, e a reabertura de uma sauna gay em Vauxhall para uso por membros da comunidade gay e trans, que uma vez foi excluída.

O R-AT é um dos muitos grupos atualmente ativos que se organizam para resistir à criminalização da ocupação de propriedade. De acordo com seu site, eles são “uma rede descentralizada de ocupantes e andarilhos que resistem à proposta e aplicação das novas medidas antipasse incluídas no próximo projeto de lei, anunciado pela primeira vez no manifesto Tory de 2019… Para combater este projeto de lei que põe em perigo nossos próprios modos de vida, estamos apelando para ações autônomas. Apoiamos uma diversidade de táticas. Vamos tomar medidas!” No final de semana da Resistência, eles se uniram aos membros do No Fixed Abode Travellers and Supporters, “um coletivo diversificado de pessoas que se uniram para destacar as questões atuais que afetam todos os Viajantes e o modo de vida nômade”, e apresentaram oficinas sobre ocupação na prática, resistência criativa, autodefesa feminista e muito mais, incluindo o uso de pé-de-cabra 101 e desafios de barricada. O evento ocorreu um ano a fio desde a primeira Intersquat de Londres em muitos anos. O fim de semana é o mais recente exemplo de um ressurgimento vibrante e animado no estado de ocupação em todo o Reino Unido, fortalecido pela resistência contínua no local anti-HS2 de Wendover, onde os oficiais de justiça continuam a tentar expulsar as pessoas que detêm uma extensa rede de túneis subterrâneos.

Recebemos o seguinte comunicado dos ocupantes da Escola Central de Trespass:

Obrigado a todos que se juntaram a nós nos dias 16 e 17 de outubro, pelo alegre final de semana da Resistência!

Um prédio ocupado foi utilizado para sediar palestras, oficinas, compartilhamento de alimentos e arte. Ao convidar as pessoas a ocupar conosco, queríamos mostrar o poder criativo da ocupação. Porque uma das características do projeto de lei PCSC é a maior criminalização da ocupação de propriedade. O alvo explícito do governo são as comunidades GRT que estão prontas para enfrentar o preconceito e a opressão. E quem mais pode dizer como esta legislação anti-trespass será aplicada e interpretada? Ocupação, sono pesado, caminhadas fora da pista batida, viver em uma van ou barco, organizar festas livres, todas estas práticas serão tornadas mais difíceis. Qualquer forma de protesto será reprimida com igual brutalidade e intolerância, outro alvo do Projeto de Lei.

Estamos olhando para um futuro sombrio. Mas ainda assim, aqui estamos nós, ocupando a Escola de Trespass, na zona 1, trazendo de volta a ocupação pro centro de Londres. E estamos usando este precioso espaço para nos encontrarmos e falar sobre resistência. O que temos?

Nós temos a alegria como uma forma de resistência. Dança, música, pintura, fotografia, filme, performance, cabaré, arte drag. Proprietários e policiais implacavelmente irritantes. Compartilhamento de roupas, refeições, cigarros e bebidas e lençóis uns com os outros. Rindo na cara da opressão.

Temos habilidades compartilhadas. O empoderamento vem com uma ampla gama de práticas, desde saber usar ferramentas ou cozinhar alimentos, até saber desarmar, parar batidas policiais e autodefesa feminista. Estas habilidades constroem a resiliência de nossa comunidade. Precisamos delas mais cedo do que tarde.

Por último, temos esse incêndio. Fúria ardente, no governo e sua todo-poderosa polícia, nos fascistas que colaboram com eles, nos proprietários e em todos aqueles que pensam que podem nos controlar e drenar o planeta pra seu próprio lucro. Fúria ardente contra sexistas e racistas, contra TERFS e transfóbicos, contra capacitistas e gordofóbicos. Fúria ardente contra a apatia dos punheteiros da classe média que se sentem confortáveis o suficiente para tolerar toda essa besteira. Temos esse fogo em nossos corações e jamais deixaremos de viver, explorar e desobedecer.

O inverno do descontentamento está chegando. E nós estamos prontos pra caralho.

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2021/11/01/communique-from-r-at-central-school-of-trespass/

Tradução > solan4s

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/22/reino-unido-squatter-take-camberwell-cop-shop-2-0-declaracao-completa/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/03/23/reino-unido-mate-o-projeto-de-lei/

agência de notícias anarquistas-ana

A lua da montanha
Gentilmente ilumina
O ladrão de flores.

Issa

A Cena Libertária Virou Um Campo de Cordeirinhas Vacinadas

Várias Feiras “Anarquistas” e “Punks” acontecendo pelo Brasil afora agora e nenhuma delas colocando em discussão o avanço das políticas de implementação do chamado “passaporte sanitário”, que recrudescem ainda mais os mecanismos de controles dos Estados sobre as vidas das cidadãs e tornam cada vez mais incipientes as já questionáveis “liberdades” individuais de opinião e de ir e vir das ditas “democracias”.

As anarcas de hoje não passam de cordeirinhas mansas que, a não ser os peleguismos de endossar os discursos polaroides eleitoreiros e posar de rebeldes e assim se projetarem nas mídias “alternativas” (ora, na feira de SP teve até uma “anarquista” que mora em Paris que defende a criação de um Estado!), não têm mais nenhuma postura realmente radicalmente questionadora e ameaçadora da dominação e exploração político-econômica do sistema, cuja ponta de lança neste momento de acirramento do avanço das táticas de dominação pelo biopoder está a cargo dos grandes laboratórios de tecnologia biofarmacológica.

Estão todas adotando a tática da avestruz, escondendo as cabeças na areia para fazer de conta que não estão vendo o perigo do avanço das práticas totalitárias não apenas sobre a já falaciosa “liberdade de expressão” – ou será que não sabem da censura que já se instaurou nas mídias mundiais em geral contra toda e qualquer informação que questiona o discurso autorizado sobre a pandemia? -, como também sobre o (tão falacioso quanto) “direito sobre o próprio corpo” (o que, teoricamente, distinguiria as sociedades capitalistas contemporâneas das sociedades escravagistas), e rezando para a pandemia passar (o que, pelo que está se verificando nos países com as populações mais “imunizadas” do mundo, provavelmente não vai acontecer, como a própria OMS já “profetizou”: a Covid irá se tornar endêmica no mundo), torcendo para que ninguém perceba sua covardia diante do momento mais crítico da história moderna no que concerne à ameaça de assujeitamento da humanidade a um novo tipo de totalitarismo de biogovernança. Mas eu estou vendo suas bundas de fora, bundões!

Negociam o princípio da liberdade, basilar para o anarquismo, em troca de uma falsa sensação de “segurança”.

Até um poeta vinculado à tradição autoritária do “socialismo” já advertiu há algum tempo sobre como se iniciam “timidamente” os processos de instauração de novas dominações e a partir daí avançam até à ultrapassagem de todos os limites, pois ao não enfrentarem resistências nos seus primeiros passos vão a partir daí se sentindo cada vez mais confiantes para avançarem em seu arbítrio (é o popular “eu vou colocar só a cabecinha”): “primeiro, eles invadem seu portão (ou seu corpo), e você não diz nada”.

Consta na obra de Edgar Rodrigues, grande historiador do anarquismo no Brasil, que na parede de uma cela do campo de concentração de Clevelândia, onde foram aprisionados militantes anarcossindicalistas durante o governo “republicano” de Artur Bernardes, foi escrita a seguinte frase: “espinha de anarquista é como vidro, quebra mas não dobra”. Pelo visto, no que se refere às anarcas de hoje, essa frase precisaria ser re-escrita, para traduzir melhor o “espírito” da cena libertária atual, da seguinte forma: “espinha de anarquista é como bunda de funkeira, balança de acordo com o batidão mais forte”.

Saibam, avestruzes: para o verdadeiro espírito ácrata, mais vale morrer de pé do que viver de joelhos (mostrando a bunda e rebolando segundo a batida do momento)!

“É nunca fazer, nada que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar!”

Vantiê Clínio Carvalho de Oliveira

agência de notícias anarquistas-ana

Ah, quanta saudade
De meu pai e minha mãe
Na voz do faisão.

Bashô

[Grécia] 1973-2021: Luta contra o poder e a exploração

Quarenta e oito anos depois da revolta da Escola Politécnica a realidade segue sendo o testemunho irrefutável de que não há nenhum direito, nenhuma liberdade, nenhuma prosperidade que possa existir para o conjunto da sociedade se ela não se livra da turba partidária dos atuais ou iminentes “salvadores”, se não desata as amarras da escravidão assalariada, se não sobrepõe o benefício do conjunto da sociedade ao interesse individual.

Para a Grécia da fome, da miséria, da extrema repressão, da submissão, da resignação e da depressão, a única solução é a insurreição generalizada imediata. Essa insurreição que, negando qualquer compromisso, derrotará a situação desumana que nos foi imposta, e colocará em marcha os processos revolucionários de organização espontânea da sociedade, para que ela atenda às suas necessidades, com base na igualdade, na liberdade e na solidariedade. Sem governantes e governados. Sem exploradores e explorados. Sem amos e submissos.

As batalhas para a criação de um mundo livre e justo nunca deixaram de ser parte da história da humanidade. Uma história cheia de pequenos e grandes esforços para romper as amarras que mantêm quase toda a sociedade espiritualmente infeliz e materialmente marginalizada. Algumas batalhas que ao longo dos anos conseguiram deter com sucesso a investida do obscurantismo, ou algumas batalhas que foram perdidas, afogadas no sangue, pela superioridade militar do inimigo, do medo ou da indiferença da sociedade complacente (passiva). Algumas batalhas travadas por algumas pessoas que, inspiradas por ideais elevados, estiveram na linha de frente da luta, não se importando com as consequências pessoais que teriam suas ações.

Estes ideais e essas pessoas que honramos hoje, participando da luta pela libertação social. A esses ideais e a essas pessoas prestamos homenagem hoje, superando o medo, atacando o que nos faz escravos modernos, espectadores impotentes de uma realidade que não tem o direito de ser chamada sociedade humana.

Prestamos tributo (homenagem) a todos aqueles que lutam pela liberdade e pela dignidade humana. Liberdade para os presos políticos.

agência de notícias anarquistas-ana

Vento de primavera —
Do outro lado do aterro,
O mugido da vaca.

Raizan

A República segregada

Por Vanney Neves

[15/11/2021, exatos cinco anos que o camarada Guilherme Irish foi assassino pelo pai opressor, em Goiânia-GO]

Em memória de Guilherme Irish!

Era um jovem como outros jovens de luta,

Forjados em pátios de Escolas,

Formados nos galpões da Universidade,

Sonhando acordados

Nas barracas de lona da Ocupação que não dorme

.

Um mancebo de poucas primaveras,

Uma rosa de vinte pétalas

Ceifada no cano da pistola carregada com ódio,

Recarregada com orgulho viril

.

A onda fascista não repousa mais nas redes virtuais,

Já invadiu as ruas e arrasa famílias pela discórdia,

Que divididas, subtraem-se violentamente

.

Estampidos de tiros na esquina

Proclamam a República segregada,

Olhares perplexos ao ápice da tragédia,

A intolerância alveja e furta a vida,

Faz vítima o único fruto de quem a pratica

.

A lira dos vinte anos de cadência juvenil

Coroada de sonhos e esperança ardil,

É despedaçada pelo varão da morte

.

O opressor cegamente persegue e mata,

E se suicida debruçado sobre a leveza de um cristal

Quebrado com todo o peso da sua ignorância

.

E o comprime com a largueza do seu peito frio,

Que mesmo na ânsia possessiva do remorso fatal,

Ainda ousa a escondê-lo de seus ideais

.

Como uma mortalha de pedra,

Esmaga a imagem ainda em tela,

Furada na calçada pelas baionetas da covardia,

Torna pálida a face corada de sua mocidade,

No corpo ainda febril pelo fervor libertário,

Condutor de um espírito que jamais descansará

Nos acampamentos da resistência!

.

> Vanney Neves é poeta condoreiro, compositor, cantor e professor. Nascido à margem do rio Araguaia, em 1982, na cidade de Torixoréu – Mato Grosso. Graduado em Letras, pelo Centro Universitário do Araguaia – CUA / UFMT e pós-graduado em Educação Interdisciplinar. O autor é ex – Agente Comunitário de Saúde e ex-vereador / presidente da Câmara Municipal de Torixoréu.

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/12/18/as-possibilidades-do-caos-sobre-o-assassinato-de-guilherme-irish/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/11/18/goiania-go-camarada-guilherme-irish-vai-estar-presente/

agência de notícias anarquistas-ana

Um gato sem dono
Dormindo sobre o telhado —
Chuva de primavera.

Taigi