[Itália] Desocupação e demolição do CSOA Molino em Lugano

Na noite entre sábado 29 e domingo 30 de maio de 2021, bulldozers [tratores] demoliram parte do Centro Social Okupado e Autogestionado “il Molino”, que havia sido evacuado algumas horas antes. A tarde de sábado havia visto uma manifestação participativa a favor da autogestão no antigo matadouro municipal, lar da autogestão desde 2002 – ameaçada de despejo desde março passado – começando no centro de Lugano e terminando com uma ação de ocupação temporária de um edifício em desuso por anos. Sob este pretexto, a Prefeitura decidiu a linha dura: registrar todos os participantes nesta nova ocupação temporária, evacuar o Molino e até mesmo demoli-lo à noite!

Aqueles que frequentaram o Molino, o único centro social autogerido na Suíça de língua italiana que teve três localidades desde 1996, sabem que ele sempre ofereceu, em um quarto de século, muitas atividades culturais, musicais, de solidariedade com lutas locais ou internacionais, aqueles “a baixo e a esquerda”, para emprestar suas palavras. Ofereceu tantas coisas, incluindo uma biblioteca e livraria, uma sala de conferências/cinema, uma cantina popular, um bar, uma sala de ensaios e uma grande e bela sala de concertos. O Molino deu hospitalidade a muitas experiências e coletivos, esteve sempre na vanguarda da organização de protestos contra o G8, o WEF e tudo o que nos une contra a dominação e a exploração. O grupo anarquista local encontrou ali mesmo um espaço para administrar como sede e onde muitas atividades foram organizadas, apresentações de livros, noites de arrecadação de fundos para o jornal Umanità Nova e o CIRA [centro de documentação anarquista] em Lausanne, para citar algumas.

Nestas décadas, o espaço foi atravessado, como dizemos hoje, por todas as instâncias do movimento libertário em geral, e muitos projetos tinham e ainda têm em andamento. Agora há ruínas e portas amuralhadas, mas os escombros não vão parar aqueles que estão animados pelas ideias de emancipação social e a ruptura do existente.

D.B.

Fonte: https://umanitanova.org/?p=14259&fbclid=IwAR08K5yxv97f9rurqLHxLUIWQCyZsLTRKxnbPSNzfAxO-zsJNuWaeLH1IUc

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Caminha a folha
morta,
pálio sobre formigas.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] Avaliação destes 15 dias de campanha pela liberdade de Gabriel Pombo da Silva

No sábado, 15 de maio, da CNT-AIT, tornamos público o início de uma campanha que visa alcançar a liberdade de Gabriel Pombo da Silva, um companheiro anarquista que está preso há mais de 30 anos. Sua história de prisão e sua atual situação penitenciária e legal deveriam ser uma fonte de vergonha para qualquer pessoa com um mínimo de decência. O que o aparelho estatal está fazendo com ele, mesmo de um ponto de vista estritamente legal, deveria fazer manchetes. Ciente desta situação e como resultado dos laços que os companheiros desta organização teceram com Gabriel anos atrás, a CNT-AIT assumiu um compromisso: apoiá-lo em tudo o que ele precisa e trabalhar para vê-lo de volta às ruas.

Decidimos iniciar a campanha com uma coletiva de imprensa porque consideramos, como bem aponta seu advogado, que a situação de Gabriel deve transcender como uma demonstração do que o Estado é capaz de fazer para silenciar e quebrar uma pessoa que teve que sofrer todos os abusos e torturas que vêm ocorrendo nas prisões espanholas há décadas. A documentação é abundante e convincente, e é exatamente isso que queríamos que a coletiva de imprensa mostrasse. Se você ainda não o fez, recomendamos vivamente que você o observe em sua totalidade, isso não deixará ninguém indiferente.

Desde que a coletiva de imprensa foi realizada e gravada, os dias têm sido agitados. Levando a campanha para as ruas, com toda a propaganda impressa, começando pela divulgação através de redes sociais e mensagens, transmitindo a coletiva de imprensa no YouTube para que todos pudessem vê-la, comunicando as ligações e eventos que tínhamos preparado para esta primeira semana da campanha e em geral, informando quem é Gabriel e em que situação ele se encontra. Tivemos até tempo para responder aos ataques que as contas da CNT-AIT sofreram nas redes sociais também durante a campanha de apoio ao companheiro preso. Sem palavras.

Assim, na quinta-feira 20 começamos um longo final de semana com a apresentação da campanha em Madrid, que contou com a presença de Elisa, companheira de Gabriel. No dia seguinte, os dois primeiros comícios aconteceram em Alicante e Granada, ambos em frente à subdelegação governamental dessas mesmas cidades.

No sábado de manhã foram os companheiros de Toledo que saíram para a Plaza de Zocodover para exigir a liberdade de Gabriel.

Encerramos esta primeira semana de divulgação com as chamadas em Barcelona e Madrid. O primeiro foi da Plaza Urquinaona diante do edifício da subdelegação governamental, enquanto o de Madrid foi realizado em frente às portas da Secretaria Geral das Instituições Penitenciárias.

Durante os primeiros dias da segunda semana, recuperamos o fôlego depois de um início atarefado e preparamos as próximas etapas da agenda da campanha. Entretanto, foram realizadas mais duas reuniões, uma delas fora desta campanha, mas que ficamos muito felizes em saber. Por um lado, os companheiros da CNT-AIT Albacete se reuniram em frente aos tribunais de sua cidade. A polícia, apesar do fato de o comício ter sido comunicado, tirou fotos e identificou todos, até mesmo pedindo seus números de telefone.

Nesse mesmo sábado 29, a Biblioteca Okupada Anarquista Carnaval y Barbarie, localizada em Vallekas (Madrid), organizou uma conversa-debate com a presença de Elisa.

Também queremos agradecer aos companheiros da Assemblea Popular d’Elda i Petrer, do Moviment ProAmnistia de Barcelona e da Plataforma Antirrepressiva de Granada por todo o apoio que nos deram nestes dias, espalhando a palavra e participando das reuniões. E, claro, estendemos nossa gratidão a todas as pessoas, coletivos e organizações que contribuíram com seu grão de areia durante estas semanas.

Mas isto só está começando. O objetivo dessas semanas era aumentar a conscientização da campanha e lançar alguma luz sobre a situação de Gabriel. É claro que ainda há muito a fazer a esse respeito, e temos que manter a pressão para que todos esses abusos sejam trazidos à tona e o Estado seja forçado a ceder e aplicar o que, de outra forma, são apenas suas próprias leis.

A única coisa que importa agora é recuperar a liberdade de Gabriel. É necessário que todos nós (tanto de fora como de dentro da organização) somemos, contribuamos com ideias, propostas e ações. E à mídia, ou pelo menos àqueles com um mínimo de decência, pedimos mais uma vez que divulguem a situação de Gabriel, que lembramos, está fora de qualquer legalidade e que envergonhem todos aqueles bons democratas que enchem a boca falando de “Estado de direito”.

O novo mundo que carregamos em nossos corações nasce da solidariedade e depende de nossa capacidade de defendê-lo unido.

Viva a anarquia!

Fonte: https://www.cnt-ait.org/valoracion-inicio-de-campana-pombo/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/14/espanha-pela-legitima-libertacao-de-nosso-companheiro-gabriel-pombo-da-silva/

agência de notícias anarquistas-ana

Muita brisa à noite.
Dos jasmineiros da rua,
perfumes e flores.

Humberto del Maestro

[Canadá] Estátua de criador de ‘escolas indígenas’ é derrubada em Toronto

Um grupo de manifestantes derrubou neste domingo (06/06) a estátua em homenagem a Egerton Ryerson, que estava localizada na Universidade Ryerson, em Toronto, por conta da revelação recente de 215 ossadas de crianças indígenas em um internato na Colúmbia Britânica.

Ryerson é considerado um dos idealizadores do projeto dos internatos que forçavam os menores de idade dos grupos originários do Canadá a se “integrarem” na sociedade, abandonando suas tradições e línguas, e aprendendo a se portar “como um canadense”.

A derrubada é só o ato final dos diversos protestos perante à obra que ocorrem desde a última semana. Ela já estava toda pintada de vermelho e danificada. Agora, os manifestantes cobram que a universidade mude de nome.

Em nota, a instituição de ensino afirmou que não vai repor a estátua e que, até setembro, deve dar uma resposta sobre o que fará sobre o assunto, não descartando a possibilidade de renomeação.

A vala comum foi encontrada através do uso de tecnologia em uma busca preliminar na Kamloops Indian Residential School e causou furor entre a população. Apesar de encontrar 215 restos mortais, os investigadores acreditam que há milhares de vítimas de maus tratos e mortes nessas instituições.

Neste domingo, o papa Francisco se disse “chocado” com a descoberta. Apesar de serem instituições de Estado, cerca de 70% das “escolas” foram geridas por instituições católicas.

Segundo dados oficiais, foram cerca de 130 internatos do tipo criados no país entre os anos de 1874 e 1996, sendo que a Kamloops era o maior deles.

Um relatório publicado em 2015 afirmou que essas entidades “praticavam o genocídio cultural” e destacou que qualquer autoridade canadense no período, seja do governo nacional, local ou religioso, sabia dos danos irreversíveis provocados por essas escolas.

Fonte: agências de notícias

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/01/mais-de-200-corpos-de-criancas-indigenas-sao-achados-em-escola-no-canada/

agência de notícias anarquistas-ana

à lareira
rom-rom do gato
ou da cafeteira?

Rogério Martins

Lançamento: “Sobre o movimento curdo e o pensamento de Öcalan”, de David Graeber

É com prazer que lançamos hoje o livro “Sobre o movimento curdo e o pensamento de Öcalan”, de David Graeber. Na obra, resultado de um estudo ainda não publicado, o antropólogo radical analisa a potência teórica e do pensamento de Abdullah Öcalan para a luta de libertação do povo curdo, assim como para as ciências humanas e sociais, ponderando sobre as limitações que a universidade atual impõe sobre seus docentes e discentes.

Graeber expõe ainda a batalha travada nas linhas escritas por Öcalan, que busca teoricamente dar suporte ao pensamento autônomo dos povos, ao passo em que encarna a chave para a paz nas regiões onde habitam os curdos, sendo reconhecidamente um líder político e teórico do movimento deste povo.

A obra, que conta com 40 páginas, pode ser adquirida pelo valor de R$15,00 com o frete grátis para todo o país. Em pré-venda, acompanhará o pôster “pela liberdade de Abdullah Öcalan”.

Acesse nossa loja em https://linktr.ee/tsa.editora

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2014/10/11/por-que-o-mundo-esta-ignorando-os-curdos-revolucionarios-na-siria/

agência de notícias anarquistas-ana

na ordem alfabética
conseguir captar
a desordem poética

Jandira Mingarelli

[Chile] A Batata Quente Muda de Mãos

Mas o Que a Vitória Eleitoral da Esquerda Significa Para os Movimentos Autônomos?

No fim de semana de 15 a 16 de maio de 2021, eleitores de todo o Chile escolheram delegados para participar da convenção que redigirá uma nova constituição para o país. A direita foi derrotada nessas eleições, mas nenhum partido institucional de esquerda obteve a maioria. A mídia corporativa está anunciando isso como uma vitória para a política “independente” – mas o que isso significará para os movimentos autônomos que deram impulso aos políticos de esquerda em primeiro lugar? Na análise a seguir, nosso correspondente no Chile explora a tensão irreconciliável entre a política de representação e a política de ação direta.

A vitória eleitoral da esquerda não institucional no Chile é o mais recente desdobramento de uma história que se arrasta há anos, desde a “Maré Rosa” que levou políticos de esquerda como Luiz Inácio Lula da Silva ao poder no Brasil até a vitória do Syriza na Grécia seguindo os movimentos de 2011. Em cada um desses casos, os fracassos da política de direita e de centro abriram caminho para essas vitórias eleitorais. Mas os partidos de esquerda têm tido dificuldade em cumprir suas promessas e ainda mais políticos de extrema direita os sucederam – Bolsonaro no Brasil, Nova Democracia na Grécia. Como os movimentos sociais horizontais podem navegar a situação decorrente das vitórias eleitorais de esquerda, de forma a garantir que suas perspectivas não estejam vinculadas ao destino dos partidos políticos e dos governos?

O Chile tem um histórico de ação direta antigovernamental de direita, o que complica ainda mais as coisas. Em uma época em que o poder do Estado é como uma batata quente que pode queimar quem o detém, mesmo nos momentos em que parece que a ordem governante foi derrotada, devemos olhar para o futuro e nos preparar para a próxima rodada.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://pt.crimethinc.com/2021/06/04/chile-a-batata-quente-muda-de-maos-mas-o-que-a-vitoria-eleitoral-da-esquerda-significa-para-os-movimentos-autonomos-1

agência de notícias anarquistas-ana

Ao longo da estrada:
“A próxima descida trará
Mais quaresmeiras em flor!”

Paulo Franchetti

Psicopatas!

[Grécia] Apoio a criação de um centro social em Tessalônica

A necessidade de um centro social

Historicamente, os centros sociais autônomos sempre foram ferramentas essenciais na caixa de ferramentas para o ativismo político dos movimentos sociais. Hoje, nosso esforço é inspirado por milhares de exemplos criados por vários movimentos sociais, desde os ateneus libertários (centros comunitários) em Barcelona durante a revolução espanhola e os centros sociais autogeridos na Itália durante os anos 80, aos ZAD na França e os okupas e centros anarquistas na Grécia, América Latina e por todo o mundo.

Levando em conta os desenvolvimentos recentes que temos vivido nos últimos meses na Grécia, seguido pelos despejos que várias okupas sofreram, colocaram-nos em uma posição cada vez mais difícil. Uma das dificuldades que tivemos que enfrentar resulta da falta de um espaço onde pudéssemos hospedar nossas atividades, procedimentos e assembleias, atividades necessárias para a continuação de nossa luta política. Junto da necessidade de um local de encontro, nós também consideramos que a criação de um centro social é um elemento vital para o crescimento do discurso do movimento anarquista à sociedade.

Quem nós somos?

Somos três grupos anarquistas de Tessalônica. O “Anarchist collective from the East” (“Coletivo Anarquista do Leste”), o “Anarchist collective Pueblo” (“Coletivo Anarquista Pueblo”) e o “Libertarian Initiative of Thessaloniki” (“Iniciativa Libertaria de Tessalônica”). Ao longo dos anos, participamos ativamente em diferentes campos da luta social e de classes e também da produção de um referencial teórico.

Qual é o nosso objetivo?

Criar um espaço autônomo que possa acomodar a necessidade de um centro político e social, situado diretamente no coração da cidade de Tessalônica.

Pretendemos criar um centro político, com espaços disponíveis para assembleias / reuniões políticas e eventos sociais de grupos anarquistas e outras formações sociais ou de classe similares que precisem de espaço para hospedar suas atividades. Ao mesmo tempo, queremos que esse espaço seja um centro social aberto que através de suas múltiplas funções ajude a desenvolver um contato estável com os oprimidos, que divulgue e discuta política anarquista no cotidiano e que forneça a infraestrutura para uma proposta cultural libertária alternativa contra as relações capitalistas por ser um ponto de encontro para grupos e indivíduos.

O que queremos criar neste centro social?

Nosso projeto inclui a construção de: um salão que possa receber reuniões / eventos culturais / projeções de filmes / assembleias, uma biblioteca / sala de leitura / livraria, um hacklab, um estúdio de rádio / podcast / gravação / web TV, uma cafeteria para reuniões diárias. Tanto quanto um espaço para outras atividades tais como cozinhas coletivas, estruturas de apoio mútuo, educação política e projetos autodidatas, etc.

O que precisamos?

A pandemia de Covid-19 nos privou de nossas formas tradicionais de autofinanciar nossos projetos. Então pedimos a vocês, nossos camaradas internacionais, que nos ajudem, da forma que possam e queiram, para financiar a abertura de nosso centro social. Nossas necessidades financeiras incluem alugar um espaço, comprar o equipamento necessário, atender algumas necessidades básicas (eletricidade, água, etc.) assim como cobrir o custo dos reparos necessários no prédio. Além do dinheiro que nossos grupos estão poupando nos últimos meses através de nossas próprias contribuições, nós estimamos que precisaremos de um montante adicional de 1500€.

Neste momento de crise pandêmica global, a solidariedade – de qualquer forma – é nossa arma para construir nossas comunidades e espaços sociais de encontro e troca. Qualquer forma de ajuda é importante para nossa luta contra o capitalismo e vocês são todos bem-vindos a participar conosco durante esse projeto.

>> Para colaborar com a vaquinha virtual, clique aqui:

https://www.firefund.net/tsc

Tradução > Brulego

agência de notícias anarquistas-ana

Tendo a ser, mas pouco:
resta ainda um tempo
que me espera e reclama.

Thiago de Mello

[Espanha] Lançamento: “Memorias de una anarquista. Vol 1. (1907-1936)”, de Cristòfol Pons Tortella

As memórias que o leitor tem entre suas mãos foram em seu dia resgatadas do fogo e, em consequência, do esquecimento. Representa, em partes iguais, a vontade premeditada de difundir uma experiência e, ao mesmo tempo, uma condensação de inquietudes que seu autor às vezes não pode controlar. Sua vigência, no entanto, explica o interesse desta edição em trazer à luz a vida de um incansável personagem de ação, um idealista, como ele mesmo chegou a se definir, cujo objetivo foi sempre a luta pela dignidade humana. Seu testemunho é incisivo e problemático, mas historicamente eloquente e relevante. Algumas vidas parecem ser concebidas para estar nos lugares chave nos momentos propícios, essa é a percepção que nos acompanhará ao longo de toda a leitura. Tòfol Pons encarna a figura do ilhéu que se desvinculou dos tópicos costumbristas e exóticos para converter-se em uma referência distinta que nos recorda que existiu também outra Ilha. Seu mundo foi como o nosso, um cenário suscetível de ser problematizado e desconstruído, sua experiência nos oferece a possibilidade de atualizar o passado e tencionar nossa história.

Memorias de una anarquista. Vol 1. (1907-1936)

Cristòfol PonsTortella

Calumnia Edicions, Collecció Tempus Ago, 9. Mallorca 2021

312 págs. Rústica 18×13 cm

ISBN 9788412329445

10,00 €

calumnia-edicions.net

agência de notícias anarquistas-ana

Com o vento frio percebo:
Semanas e semanas
Sem ouvir insetos.

Paulo Franchetti

[Espanha] A tese de ecologia social de M. Bookchin e os princípios de gestão de bens comuns de E. Olstrom são compatíveis?

Por José M. Domínguez D.

A ecologia social proposta pelo pensador americano Murray Bookchin é, como seu nome sugere, uma corrente que argumenta que a crise climática é, acima de tudo, uma crise social. “A mensagem mais fundamental que a ecologia social traz é que a própria ideia de dominar a natureza decorre da dominação do humano pelo humano” (Bookchin, 2009: 73). E, portanto, as soluções não podem passar pela tecnociência, nem pelo crescimento verde, mas somente por uma mudança estrutural do sistema socioeconômico. Trata-se, portanto, de modificar um sistema socioeconômico existente no qual alguns seres humanos exercem opressão sobre outros e veem a natureza como um território de conquista. É assim que o professor Alfredo Marcos o descreve, 2001:

Para a ecologia social e o eco-feminismo, as causas da crise ecológica são principalmente de natureza prática. Eles devem ser procurados mais em relações sociais incorretas do que em uma visão incorreta do mundo. São as relações de domínio que existem em nossas sociedades que geram problemas ambientais” (P. 141).

O ecologismo social buscaria uma solução para a terrível situação atual em que a natureza e a sociedade estariam reharmonizadas, alcançando uma eco-sociedade que é regida por uma série de princípios que também podemos encontrar na própria natureza: não-hierárquica, mutualismo, unidade na diversidade…. Princípios que significariam uma mudança total de perspectiva e uma verdadeira revolução que, como já dissemos, mudaria o atual sistema socioeconômico (cf. Bookchin, 2019: 33 e seg.).

A Ecologia Social é, portanto, uma filosofia holística com uma perspectiva interdisciplinar que traz em jogo o estudo da natureza e a implementação dos princípios que dela derivam. Não é, portanto, apenas uma proposta teórica acadêmica, mas, sobretudo, um apelo à ação que olha e coloca em diálogo o passado, o presente e o futuro para alcançar – dialeticamente – uma sociedade mais justa e reharmonizada com a natureza a que pertence, como apresentado pelo próprio Bookchin, 2019:

A ecologia, em termos gerais, é sobre o equilíbrio da natureza. Na medida em que a natureza inclui a humanidade, é a ciência que trata basicamente da harmonização entre natureza e humanidade” (P.11).

Um dos maiores problemas existentes hoje é que a relação entre sociedade e natureza é vista de forma hierárquica: sociedade acima e natureza dominada. E, do mesmo modo, alguns membros da sociedade se impõem sobre outros: homens dominando as mulheres, classes altas dominando as classes baixas, e assim por diante. A tal ponto que estas hierarquias são institucionalizadas e levadas ao extremo no atual sistema capitalista, a ecologia social, entretanto, realiza uma proposta dialética na qual a sociedade humana reharmoniza com a natureza, alcançando uma eco-sociedade e pondo um fim às dominações internas e externas existentes.

Princípios de ecologia social que servem como estrutura teórica para as teses da Ostrom.

Assim, Bookchin propõe uma série de princípios que ele descobre na natureza e que ele postula como princípios ético-políticos que devem governar uma nova sociedade. Não se trata de estabelecer uma teoria de direito natural como a que surgiu em outros momentos históricos, através de manipulações, para realizar o colonialismo ou para estabelecer um darwinismo social. Longe disso, a ecologia social está em uma postura dialética que descobre fatores positivos na natureza (Bookchin, 2019: 29-56):

 – Não hierarquia

 – Mutualismo

 – Evolução

 – A unidade dentro da diversidade

 – Espontaneidade

É precisamente estes princípios observados por Bookchin que acreditamos que podem ser colocados em relação aos princípios de Ostrom, e que servem como base teórica para eles:

 – Não hierarquia

Este princípio assume que na natureza avançamos por relações simbióticas: há uma interdependência total de alguns seres e outros, assim como uma eco-dependência. Além disso, na perspectiva de Bookchin, a hierarquia não pode sequer ser dada na natureza, pois ele entende por hierarquia um “termo estritamente social” (Bookchin, 1999: 45), aquele sistema institucionalizado de controle e ordem que, em última instância, faz uso da força coercitiva de forma física para obter obediência (Cfr. Bookchin, 1999: 44-46). Desta forma, descobrimos também que ela pode ser aplicada aos princípios de Ostrom, já que a organização coletiva da RUC [recursos de uso comum] é necessariamente não hierárquica: o estabelecimento de leis e seus arranjos ocorrem entre iguais e coletivamente.

– Mutualismo

Desta forma, as soluções para os problemas contemporâneos de governança dos bens comuns que encontramos na economista americana, além das ideias hierárquicas de privatização ou de estatização, podem passar por sistemas de apoio mútuo entre os apropriadores. Não se trata de um retorno ao primitivismo, mas de aplicar os princípios de apoio mútuo e não-hierarquia (reconhecendo a interdependência e a eco-dependência) que permitem evoluir, de forma criativa, sustentável e solidária (Cfr. Bookchin, 1999: 105). Além disso, ao contrário da concorrência, na “história da evolução da vida, a cooperação entre unidades menores deu origem ao surgimento de estruturas mais complexas”. Neste sentido, a cooperação é essencial para gerar estruturas mais complexas” (Nowak & Sigmund, 2000: 21).

 – Evolução

A natureza está constantemente mudando e evoluindo para sistemas mais complexos. Da mesma forma, as instituições dos RUC têm que rever constantemente suas leis a fim de melhorar as condições comuns de trabalho e as relações sociais dentro da comunidade.

– Unidade dentro da diversidade

Vemos como os organismos têm sua própria autonomia e funcionamento. Apesar de os componentes dos organismos serem tão diversos, eles dependem uns dos outros e evoluem juntos, autorregulando-se. Desta forma, as comunidades dos RUC, além do individualismo que querem impor-lhes a partir das visões da economia clássica, partem desse mutualismo que só pode acontecer se houver uma unidade dentro da diversidade dos apropriadores. Apesar de terem uma pluralidade de opiniões e modos de agir, os apropriadores se reúnem e decidem sobre um modus operandi comum que realizam de forma unificada. Da mesma forma, quando os RUCs fazem parte de sistemas maiores, Ostrom adverte que deve haver várias entidades escalonadas que têm suas próprias regras internas mas atuam em comum, como uma grande comunidade cooperativa (Ostrom, 2011: 163).

– Espontaneidade

Assim como a natureza não segue regras, mas cresce e se desenvolve imprevisivelmente, “a variedade surge espontaneamente” (Bookchin, 2019: 45); as instituições do povo não seguem padrões impostos por nenhum agente externo, mas suas leis internas surgem espontaneamente entre os apropriadores, e atendem às necessidades da localidade em que estão localizadas e às suas próprias potencialidades.

Em resumo, a questão que Bookchin propõe é avançar para sociedades onde estes princípios são implementados e servem como um ponto de orientação. A ecologia social é a criação de uma utopia, ou seja, um lugar aonde ir, um projeto coletivo.

A fim de colocá-lo em prática é necessário:

(a) Aumentar os grupos e movimentos sociais que protestam e conscientizam sobre o quão injusto e prejudicial é o sistema atual (Cfr. Bookchin, 2019: 221-281).

b) Criar alternativas ao sistema que reflitam os novos princípios: municípios colaborativos, cooperativas, bairros de apoio mútuo, grupos coletivos para administrar os bens comuns e os recursos naturais para uso comum, federação global dos bens comuns, etc. (Cfr. Bookchin, 2019: 139-156).

Muitas são as vias a serem exploradas diante de grandes mudanças socioeconômicas, e as propostas de Murray Bookchin, que podem servir de base filosófica para a teoria econômica de Ostrom, são urgentes dado o estado avançado da crise ambiental e social na qual estamos imersos.

Referências:

BOOKCHIN, M., 1999. Ecologia da liberdade. Madri: Nossa y Jara.

_____ 2019. Ecologia e pensamento revolucionário. Mallorca: Calúnias.

_____2019. A próxima revolução. Barcelona: Vírus.

MARCOS, A., 2001. Ética Ambiental. Valladolid: Ediciones Universidad de Valladolid.

OSTROM, E., 2011.El gobierno de los bienes comunes. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica.

Fonte: http://www.ridaa.es/ridaa/index.php/ridaa/article/viewFile/232/228

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/05/18/espanha-lancamento-ecologia-ou-catastrofe-a-vida-de-murray-bookchin-de-janet-biehl/

agência de notícias anarquistas-ana

Navalha de barba:
numa só noite enferruja,
ó esta chuva de maio!

Boncho

Escavações recuperam restos mortais de vítimas da Guerra Civil Espanhola

Uma missão arqueológica realizada em Ciudad Real tem como objetivo não só recuperar o passado, mas também trazer um pouco de dignidade e justiça a quem já tanto sofreu. Ao invés, porém, de escavar rumo à pré-história, a expedição pretende recuperar os restos mortais de 26 pessoas executadas durante parte do sangrento período da Guerra Civil Espanhola, entre 1939 e 1940. O propósito das escavações no cemitério civil de Almagro é encontrar, exumar e identificar os remanescentes dessas vítimas para oferecer às famílias o direito à despedida – e ao sepultamento.

A missão é tocada por antropólogos da Universidade Complutense de Madrid (UCM) junto a arqueólogos ingleses da Universidade de Cranfield, como parte do projeto Mapas da Memória, que nos últimos dez anos identificou 3.457 vítimas do exército nacionalista, liderado pelo general Francisco Franco – cerca de metade das mais de 7 mil vítimas recuperadas na Espanha desde o ano 2000. Segundo a equipe, a escavação Almagro é especialmente complexa, e se dará numa parte do cemitério fechada há décadas – onde 21 ossadas já foram encontrados com marcas de ferimento de bala na cabeça.

As escavações provavelmente seguirão até meados de junho, quando a missão iniciará a fase de análise de DNA, mapeamento das circunstâncias das mortes, comparação com amostras para, enfim, identificar cada vítima. Uma vez confirmada uma identidade, as famílias então são acionadas – caso a identidade não seja confirmada, os restos mortais voltarão ao cemitério. “Como profissionais da antropologia forense, temos a responsabilidade de colocar a nossa ciência ao serviço dos familiares que procuram seus entes queridos por tanto tempo”, afirmou Maria Benito Sanchez, diretora da equipe forense da missão.

Uma das mais violentas batalhas do século XX, a Guerra Civil Espanhola foi um conflito entre republicanos e nacionalistas em disputa pelo controle do país, e se tornou um dos grandes desastres do período. O conflito se deu entre 1936 e 1939, quando os nacionalistas tomaram o poder – de onde não saíram até a morte de Franco, em 1975, em uma das mais sanguinárias ditaduras da época. Os dados oficiais afirmam que 500 mil pessoas morreram durante a guerra, mas estimativas mais recentes sugerem números muito mais elevados.

Fonte: agências de notícias

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/04/06/espanha-meu-avo-ja-esta-enterrado-uma-sepultura-digna-para-duas-vitimas-do-franquismo-em-puerto-real-como-exemplo-do-fim-da-memoria/

agência de notícias anarquistas-ana

sem um novo dia
nem o cotidiano
existiria

Jandira Mingarelli

[Alemanha] Assembleia geral para intensificar nossas lutas

Convidamos suas estruturas e vocês para a Assembleia Geral (AG) no dia 06.06.21 em Mehringhof, para uma reflexão geral e discussão sobre nossas táticas nos meses passados, mas também, e mais importante, sobre como continuamos a luta por nossos espaços que estão sob constante ataque. Esses lugares são importantes para a nossa auto-organização, onde compartilhamos solidariedade e ajuda mútua. Além disso, alguns são também espaços de convivência que estão ameaçados por um processo de gentrificação que atinge toda a cidade e contribui para a marginalização e eliminação de algumas partes da sociedade. Por isso, não queremos focar apenas na estrutura da Interkiezionale, mas em todas as pessoas que se sentem conectadas com as lutas emancipatórias da cidade.

Aqui estão algumas perguntas que esperamos que nos permitam entrar em uma reflexão e estar prontos para debater na AG:

Como continuamos com nossa luta? Como vimos nos últimos meses, a nossa posição defensiva não impede a perda de espaços. Queremos continuar assim ou podemos mudar? Temos algumas propostas?

Porque há tão pouca convergência de lutas com as quais temos uma conexão ideal clara?Como devemos mudar nossa abordagem para outras estruturas? Como podemos criar redes de solidariedade mais fortes entre nós?

Queremos manter o foco em dias especiais (ex. Tag X) ou queremos uma mobilização mais ampla contra o ataque às nossas lutas?

R94 e Køpi Wagenplatz são os projetos [okupas] que estão ameaçados agora e enfrentam um possível despejo. Quais táticas devemos usar? Podemos romper com a dinâmica defensiva predominante e trabalhar em outras formas?

Propomos alguns workshops / exercícios por meio do compartilhamento de informações para impulsionar nossa cultura de demonstração após o VV.

Fonte: https://kontrapolis.info/3758/

Tradução > Da Vinci

agência de notícias anarquistas-ana

A orquídea –
a cada instante
o silêncio é outro.

Constantin Abaluta

[Colômbia] Com os fascistas não se dialoga!

Não é Europa, não é Estados Unidos, é COLÔMBIA. Puros mestiços adorando Hitler, puros racistas atacando os indígenas, afros e pessoas que não tenham a cor do cabelo loiro.

Os homens vão vestidos de negro, sua pele deve ser branca e devem raspar a cabeça. As mulheres devem ser magras, altas, com a cor do cabelo loiro e a que o tem de outra cor deve pintá-lo de loiro para que assim todos pareçam da “raça aria”.

Este movimento com outros movimentos nacionalistas vem crescendo em número e em apoio popular. Apesar de que não são muito conhecidos na sociedade, já manejam certo poder e controle em alguns bairros de Bogotá.

Com os fascistas não se dialoga!

J.A.

agência de notícias anarquistas-ana

Trégua de vidro:
o canto da cigarra
perfura rochas.

Matsuo Bashô

29M: O dia nacional de lutas e a hegemonia reformista

No dia 29 de maio ocorreram manifestações de rua em dezenas de cidades do país tendo como palavra de ordem central “fora Bolsonaro”. Também surgiram diversas reivindicações materiais por vacinação, contra a carestia de vida, contra os cortes na educação, contra as reformas neoliberais e privatizações, dentre outras. O primeiro fato importante do “dia nacional de lutas” é que um grande número de pessoas saiu às ruas. Foi um dos maiores dias de lutas desde o início do governo Bolsonaro/Mourão, com atos em 109 municípios e em 26 estados, segundo jornal El País, e 200 cidades, segundo Estadão.

O segundo fato importante é que a maioria dos protestos foram pacíficos, o que por si só não é um fato negativo, mas muitos tiveram como orientação hegemônica o legalismo e o pacifismo. Na capital federal, por exemplo, o caráter foi dos “passeios ordeiros” protagonizados em outros momentos tanto pela direita (MBL, Fora Dilma, etc.) quanto pela esquerda reformista (PT, CUT, UNE, etc). A organização do ato acatou sem resistência a ordem policial de fazer revista nas bolsas e mochilas para entrar no ato e proibiu mastros de bandeira.

A adequação a tal medida no DF é representativa e revela uma fraqueza política de quem diz querer combater um governo autoritário. Em locais como Recife (PE) e Dourados (MS), houve um recuo de parte dos organizadores frente as recomendações e ameaças do Ministério Público contra as aglomerações, o que também mostra uma falta de disposição de enfrentar o regime e que a prioridade é apostar na via eleitoral.

A única situação de conflito grave ocorreu em Recife (PE). Aí o ato, que seguia pacífico, foi duramente reprimido por iniciativa da PM que deixou dois trabalhadores parcialmente cegos com tiros de bala de borracha. Eram pessoas que estavam no local e sequer participavam do protesto. Curiosamente foi a PM comandada por um governo estadual de “esquerda”, de Paulo Câmara (PSB/PCdoB), que perseguiu e mutilou pessoas do dia nacional de lutas. Paulo Câmara buscou se eximir da responsabilidade, afastando os policiais envolvidos, sem negar que enviou a Tropa de Choque ao protesto.

Em localidades que os protestos foram mais cheios, como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, pudemos perceber uma composição mais proletarizada. Em outras cidades, como Goiânia, a composição girou entre categorias da educação (professores e estudantes) e servidorismo público. Apesar da indignação popular com as condições de vida estar aumentando, nos parece ainda que importantes setores da massa popular não se sentem a vontade com os movimentos “fora Bolsonaro” devido sua proximidade com o “volta Lula”. É preciso considerar que, apesar de Lula ter forte popularidade, sua rejeição é também grande entre a população.

As duas direções reformistas

Outro fato fundamental é que, apesar do 29M ter tomado um caráter de adesão e indignação relativamente espontâneas (seja pela maioria das pessoas não estarem organizadas desde a base, seja pelas principais burocracias sindicais e partidárias terem boicotado ou aderido timidamente) a política hegemônica nos atos foi a do campo reformista socialdemocrata. Essa política pode ser dividida hoje em duas vertentes:

  1. A política do reformismo degenerado, do lulismo e setores do social-liberalismo, cuja linha é desgastar Bolsonaro (pela CPI, com ações virtuais e simbólicas) para tirá-lo nas eleições de 2022, representado sobretudo pelas Frente Brasil Popular e Povo sem Medo (CUT, UNE, MST, MTST etc.);
  2. A política do reformismo “renovado” em ascensão, recentemente articulado a partir da UP/PCR, PCB e correntes do PSOL que estão construindo uma nova frente “Povo na Rua”, cuja política é tirar Bolsonaro via impeachment antes das eleições de 2022; essa política é tocada também pelo PSTU e alguns “independentes”, mas que não são bem aceitos nas instâncias desta nova “frente”.

Apesar de diferenças táticas, essa duas vertentes reformistas apontam como foco da estratégia a troca de governo pelas vias institucionais e a crença eleitoral. Pelo lado do reformismo “renovado”, as manifestações de rua devem reforçar a pressão institucional para a queda do presidente. Pretendem agir, assim, como mera força extra-parlamentar. Já para o campo do lulismo, as manifestações são vistas como negativas para a imagem de “moralidade e responsabilidade” e, portanto, negativas para a disputa eleitoral em 2022. Deputados do PT como Humberto Costa criticaram os atos, o presidente da CUT Sérgio Nobre problematizou os atos devido a pandemia e os dirigentes do MST tem postura contrária aos atos de massa até a vacinação geral.

O que há em comum com estes dois campos? Ambos reproduzem cabalmente o paradigma socialdemocrata/comunista. Defendem as reformas ou “revoluções” exclusivamente políticas, com as falsas soluções de cima para baixo. Mas, principalmente, veem a classe trabalhadora como incapaz de resistir e conquistar direitos pela ação direta sob o governo atual, já que na prática estão abdicando de assembleias das categorias, lutas e greves por necessidades materiais ou promovendo-as para priorizar a ascensão de um novo governo “democrático e competente” para a gerência do Estado burguês: “primeiramente, fora Bolsonaro…”.

Essa concepção reformista e estatista nos protestos “fora Bolsonaro” tem como consequência teórica negar a capacidade de luta e transformação direta da classe trabalhadora. A consequência política é o abafamento e secundarização das reivindicações sociais e econômicas das bases, dos trabalhadores e estudantes, taxadas como “impossíveis no governo atual” (mas atacadas como “direitistas” quando a social-democracia está no poder).

Outro ponto em comum entre os dois setores é sua subordinação à luta nos marcos legais e do sindicalismo de Estado. Se o campo do reformismo degenerado apresenta tipicamente esta posição, o campo reformista “renovado” cria algumas rupturas com entidades oficiais para criar suas próprias entidades, mantendo o corporativismo. É o exemplo do PCR/UP que rompeu com a UBES para criar a FENET, rompeu com o SINTRASEF (servidores federais do RJ) para criar um Sindicato de Servidores Federais de base municipal (portanto dentro da lei da unicidade sindical que estabelece um sindicato por município), rompendo com Sindicato dos Metalúrgicos para formar um Sindicato do Estaleiro em Niterói (modelo mais restrito por empresa) ou atuando em ocupações de forma assistencialista.

O campo bakuninista e sindicalista revolucionário

Rompendo de cima a baixo com a socialdemocracia, para os bakuninistas são as reivindicações materiais (por saúde, paz, pão, terra, educação, etc.) impulsionadas desde as bases que possuem um maior potencial transformador e antissistêmico. Um movimento sério de oposição sindical-popular ao governo Bolsonaro/Mourão deveria estar se organizando para derrotar diretamente a sua política de privatizações, de reformas neoliberais, de militarização, de genocídio nas favelas, de descaso com a saúde pública e com a crise sanitária, de arrocho salarial e carestia de vida, de intervenções nas instituições educacionais. Sem ilusões com trocas de governo, só confiança na própria força e mobilização popular em cada local de moradia, trabalho e estudo.

Assim, para nós trabalhadores revolucionários essa questão estratégica e programática é da maior importância, principalmente nesse momento de defensiva tática do proletariado. Os blocos sindicalistas revolucionários no 29M foram importantes trincheiras de combate, mas é preciso estabelecer uma distinção mais clara entre a nós e a estratégia reformista. Apesar da inflexão e animação que o 29M trouxe na perspectiva das lutas de rua, não estamos em um contexto de derrubada insurrecional do governo. A saída da nossa defensiva como classe precisará de mais do que alguns dias nacionais de luta, precisará ter consolidação organizativa de bases.

A tarefa é da reorganização mais elementar da nossa classe. Se souberem compreender isso, os revolucionários poderão cumprir um papel fundamental junto ao povo. Assim, uma distinção real com o reformismo não será feita com “slogans” e “estética radical”, isso é superficial e pode ser mesmo prejudicial, e é infelizmente a regra de seitas marxistas que atuam a reboque da social-democracia.

Uma alternativa sindicalistas revolucionária deve romper de cima a baixo com a estratégia e o programa reformistas: priorizar a retomada das assembleias (nas escolas, faculdades, locais de trabalho, comunidades) e movimentos sindicais-populares desde as bases, assim como priorizar as reivindicações concretas pela existência. E em todos as possibilidades disputar e propor uma direção autônoma, classista e combativa para essas lutas.

Devemos debater, resolver e se envolver nos problemas cotidianos do povo. Unificar e fortalecer essas experiências locais numa grande Federação Sindicalista Revolucionária. Esse é o caminho correto para construir pela base uma Greve Geral ou Dias Nacionais de Luta, sem ilusão ou “exigência” com as burocracias sindicais e partidárias, só a oposição implacável ao peleguismo e a organização autônoma das forças coletivas do povo.

RETOMAR ASSEMBLEIAS, GREVES E PROTESTOS: SÓ O POVO SALVA O POVO!

ABAIXO A POLÍTICAS ANTIPOVO E GENOCIDA DO GOVERNO BOLSONARO/MOURÃO!

RECONSTRUIR O SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO!

uniaoanarquista.wordpress.com

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/31/bloco-combativo-no-29m-em-sao-paulo/

agência de notícias anarquistas-ana

a borboleta
pousa sobre o sino do templo
adormecido

Buson

[França] Resumo da manifestação antifascista de 29 de maio em Lyon

Há alguns meses, relatamos um ataque fascista contra a livraria libertária La Plume Noir, em Lyon. Coletivos nazistas e fascistas da cidade vêm assediando a cena libertária e antifascista local há anos. Por esta razão, foram realizados comícios antifascistas em resposta a este ataque. Entretanto, o confinamento devido à pandemia impediu um desenvolvimento normal do ato e o protesto foi manchado e molestado pela polícia de choque desde o primeiro minuto. Mais tarde, os fascistas atacaram a livraria novamente com impunidade.

Como resultado, a Union Communiste Libertaire (União Comunista Libertária) convocou outra manifestação antifascista para 2 de abril. Entretanto, a prefeitura de Lyon proibiu expressamente esta manifestação, mais uma vez citando o “contexto sanitário”.

Em 29 de maio, os coletivos libertários voltaram à briga e convocaram outra manifestação antifascista. Acontece que a livraria Plume Noire fica no mesmo bairro que a CNT, a PCF, a Rádio Canut, o centro LGTBI e várias associações. Os ataques fascistas têm sido numerosos este ano e o movimento antifascista local lista os seguintes exemplos:

• 7 de março de 2021 : cerca de 40 fascistas armados, posicionaram-se provocatoriamente diante das instalações da Génération Identitaire com o objetivo de atacar a manifestação feminista de 8 de março.

• 20 de março de 2021 : cerca de 50 fascistas armados atacaram as janelas da “La Plume Noire” justamente quando uma coleta solidária de alimentos estava sendo realizada no distrito de Croix-Rousse.

• 24 de abril de 2021 : cerca de 60 fascistas armados atacaram e tentaram cancelar, sem sucesso, uma reunião de orgulho lésbico em frente ao Hôtel de Ville (prefeitura).

• 1º de maio: cerca de trinta fascistas tentaram entrar nas instalações da Rádio Canut, ao lado da Place Sathonay.

Podemos ver que a pressão contra todos os coletivos sociais e de esquerda é constante, submetendo-os a uma atmosfera de terror. Aqui (unioncommunistelibertaire.org) você pode ver o comunicado assinado por muitas entidades locais.

Assim, no dia 29 passado aconteceu a manifestação, que foi totalmente apoiada por todo o movimento, que chamou seus próprios blocos (como fez o movimento LGTBI).

A manifestação foi muito numerosa, como mostram os vídeos e fotos do protesto postados nas redes sociais.

A manifestação atravessou o bairro, parando nos pontos que sofreram os últimos ataques e terminou em frente à prefeitura.

Fonte: http://alasbarricadas.org/noticias/node/45885

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/07/franca-nacionalismo-frances-e-turco-em-lyon-impunidade-extrema/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/03/24/franca-comunicado-de-imprensa-da-ucl-de-lyon-apos-o-novo-ataque-a-livraria-la-plume-noire/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/03/23/franca-o-estado-dissolve-a-generation-identitaire-propagando-suas-ideias/

agência de notícias anarquistas-ana

Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.

Yeda Prates Bernis

Aumento na conta de luz. Na Espanha, protestos de rua à vista. No Brasil…

Junho começa com aumento de preço na conta de luz para os brasileiros. Na Espanha também. Mas lá, diferente de cá, individualidades, grupos e organizações se mobilizam e vão às ruas contra tal aumento (40%!) já neste sábado (ver cartazes em anexo). Cá, com conta de luz mais cara (carestia da vida nas alturas!), o que percebemos, a pouco mais de um ano da corrida presidencial de 2022, é o clima de campanha eleitoral já dominar as “rodinhas” virtuais ou não do país, com intensa movimentação das forças de direita e esquerda pautando (com apoio da grande mídia), principalmente, a disputa entre Bolsonaro e Lula.

Por outro lado, imaginar que, no Brasil, há um século, os anarquistas saiam às ruas contra o aumento de preços dos gêneros de primeira necessidade. Hoje, outros tempos, somos meia-dúzia de gatos pingados, sem poder de mobilização. Mas o que também percebemos atualmente, principalmente nas redes sociais, são “vários” anarquistas irem na rabeira-narrativa da esquerda institucional-tradicional-eleitoreira-psicopata por votos-privilegiada-rasteira engrossar o coro de “Fora Bolsonaro”, “Impeachment Já!”, “Defesa do Estado e das Instituições Democráticas!”, “Não Vai Ter Copa!”, “BláBláBlá”…

Nossas vidas, nosso dia-a-dia, se resumem a essa disputa eleitoral antecipada, dócil, domesticada, alienante, psicopata, insana, doentia?

Enfim. Nem mafiosos. Nem mártires. Foda-se as eleições. Organização. Lucidez. Rebeldia. Combate. Ação Direta.

Emma Goldmam

agência de notícias anarquistas-ana

Apesar do sol
Ardendo sem compaixão,
O vento de outono.

Bashô

[Espanha] Teresa Claramunt Creus, professora da vida

Por Laura Vicente | 04/06/2021

Hoje dia 4 de junho, faz 149 anos, nasceu Teresa Claramunt Creus. Escrevi muitas vezes sobre esta mulher: dois livros, muitos artigos, pequenos textos. Dei múltiplas conferências sobre ela, as vezes falando só de sua biografia pessoal e social, outras vezes como pioneira dentro da genealogia do feminismo anarquista e, em outras ocasiões, comparando sua trajetória com a de outras mulheres.

A biografia¹ que fiz sobre ela foi o início de um longo caminho em minha maneira de entender a investigação histórica que estou percorrendo desde então. Ainda que conheçamos muito poucos dados sobre sua vida pessoal, despontam alguns aspectos que gostaria de recordar neste aniversário.

Teresa Claramunt foi uma menina obreira que conheceu as oficinas e as fábricas têxteis desde os dez anos. Esses espaços de trabalho pouco higiênicos, esgotadores, cheios de ruído dos teares de lã que soltavam pó em suspensão irrespirável, se encarnaram, como não podia ser de outra forma, nela. Sempre integrou em seu corpo os sofrimentos, as dores, o cansaço e também, os saberes que germinaram em sua constituição de mulher rebelde.

Logo ficou consciente de que as mulheres sofriam uma exploração peculiar e diferenciada de seus companheiros e, ao mesmo tempo, que os homens não as consideravam relevantes na luta sindical, quando muito, obreiras subalternas que era melhor que permanecessem caladas. Por isso, desde muito jovem contribuiu para constituir espaços sindicais de cordialidade, não mistos, onde encontrar-se com outras obreiras para viver a experiência da luta igualitária em uma sociedade de classes e patriarcal desigual.

Desde seu incipiente anarquismo cresceu como oradora e propagandista pela mão de seu parceiro, Antonio Gurri. Sua popularidade cresceu no contexto dos 1º de Maio revolucionários com a referência dos Mártires de Chicago que a convenceram da pertinência de sua luta. Ela falava desde seu corpo de obreira, desde sua vida, desde sua existência e entre suas palavras encontrava outras mulheres e homens enamorados da ideia da emancipação humanitária.

Construiu uma “família” peculiar formada por amigas com as quais percorria os bairros falando de livre pensamento, da opressão das mulheres, da exploração de homens e mulheres, de anticlericalismo, de educação, de autonomia, da anarquia. Suas palavras voavam e se converteu em uma mulher perigosa: começaram as detenções, o cárcere, a tortura, Montjuïc, a expatriação, a exclusão de uma sociedade que não tinha lugar para mulheres como ela. E todo este caudal de experiências seguía sendo encarnado enquanto perdia seus filhos/as (até cinco) pela alimentação deficitária, os trabalhos mal pagos, as estadas no cárcere, a precariedade.

Foi uma entusiasta do amor libre e o praticou por consequência com seus sentimentos e suas ideias quando a maioria dos homens não entendia o que queria aquela mulher com seu eterno coque de tecelã ainda que já não pisasse as fábricas de teares.

Quando seu corpo vulnerável já não lhe permitia trabalhar, viveu em casa alheia (ainda que de companheiros/as de ideias) em troca de ajudar e educar seus filhos/as, ela que não era professora de ofício mas professora da vida.

Faz 159 anos de seu nascimento, no entanto estes traços de sua vida são tão atuais no século XXI que nos desconcertam. Deixemos que esta mulher nos desloque e nos faça pensar na necessidade de que mergulhemos em sua postura ante a vida que soube viver com consequência, quer dizer, assumindo também suas muitas contradições e seus erros.

[1] Laura Vicente Villanueva (2006): Teresa Claramunt (1862-1931). Pionera delfeminismo obrerista anarquista.Madrid, FAL.

Fonte: http://pensarenelmargen.blogspot.com/2021/06/teresa-claramunt-creus-maestra-de-la.html

Tradução > Sol de Abril

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/14/espanha-teresa-claramunt-uma-forma-de-contemplar-o-nosso-presente/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/06/18/espanha-duas-mulheres-um-destino-claramunt-e-torrents-na-barcelona-insurreta/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/03/espanha-anarcofeministas-nos-alvorecer-do-seculo-xx-la-revista-blanca/

agência de notícias anarquistas-ana

harmonia sem acorde
nota em contratempo
a dissonância morde

Gabriela Marcondes