[Espanha] O Rei está nu. A deriva autoritária do Estado

Por Embat, Organització Llibertària de Catalunya (Organização Catalã Libertária)

Depois da prisão do rapper Pablo Hasél por uma canção contra a monarquia, depois da repressão violenta dos protestos contra sua prisão, depois da manifestação totalmente impune dos neonazistas em Madri elogiando a Divisão Azul, depois da ação policial desencadeada em Linares, depois de meses de toque de recolher ao cair da noite, enquanto todas as manhãs vamos trabalhar duro, após meses de toque de recolher ao cair da noite, enquanto todas as manhãs vamos trabalhar duro ou mesmo após a pressa de colocar de volta na prisão os prisioneiros dos Procés após os maus resultados para o regime nas eleições catalãs, estamos vivendo uma nova virada dos acontecimentos no estado espanhol.

Todos os eventos acima, e mais outros eventos, estão relacionados à chamada “normalidade democrática”, ou melhor, à sua inexistência. Como o próprio vice-presidente do governo – o mesmo que encomendou a canção a Hasél e depois não quis saber nada sobre suas repercussões legais – a Espanha é uma democracia de baixa intensidade. Com tudo isso, estamos convergindo não com os países mais avançados do norte da Europa, mas sim com os países do leste.

Em menos de uma semana, as contradições do Estado espanhol foram reveladas. A maior de todas é que existe um governo que afirma ser de esquerda e progressista e todos os dias ouvimos notícias do contrário. Por exemplo, sua falta de decisão ou desejo de proteger os de baixo, enquanto os de cima os subjuga, ou seu cinismo em defender que nada acontece quando os manifestos franquistas são assinados no exército. Torna-se claro, repetidamente, que o governo não tem poder. Quem o tem então? É um estado profundo que controla os esgotos. E a partir daí controla todas as outras alavancas: o exército, o judiciário, a mídia, os grandes negócios, os políticos e a polícia. E, é claro, a monarquia.

O problema não é Hasel. É uma consequência do problema. O verdadeiro elefante na sala é que o estado espanhol está nas mãos desse estado profundo que é permeado pelas mesmas ideias reacionárias do franquismo. O Estado é o franquismo com um verniz democrático. E isto não pode mudar nem com o PSOE nem com o Podemos, não importa quanto governo eles tenham.

A ascensão da ultra-direita na Espanha significa que de alguma forma o rebanho ficou fora de controle e está na hora de chamar os cães para fora. A questão nacional catalã da última década provocou o surgimento gradual deste novo ator político que domina o país, a Justiça. Este ator está encarregado de legislar, dando sua opinião e definindo claramente a agenda política do Estado. E este ator se alimenta com o bombardeio da mídia com certos tópicos, para educar a população. Fazem isso, por exemplo, quando falam de olhos perdidos em vez de olhos mutilados, quando não falam da violência exercida pelo Estado através da polícia, ou quando desviam a atenção da raiz do problema colocando uma definição perversa de civilidade no centro do debate. As instituições também alimentam este bombardeio propondo como urgente uma reforma do código penal que poderia ter sido feita meses atrás, a revogação da Lei da Mordaça e um perdão para Hasel que, além de tardio, é apenas um auxílio de band-aid e não uma solução.

Toda esta questão ficou clara no outono de 2019, com a decisão do Referendo. E está se tornando claro agora. A justiça espanhola não se importa com a lei, se não para impor um modo de vida de acordo com seus princípios. O resto não tem lugar.

Não entender que para avançarmos é preciso descobrir tudo isso, é continuar jogando o jogo do estado pós-Franquista. A política catalã está nesta situação. Eles entendem como funciona o estado, mas depois pedem ordem. Eles não querem que o quartel deles arda. Protestos sim, mas pacíficos. Feminismo sim, mas sem perder privilégios. Raiva sim, mas contida. Quatro gritos e casa. Aqueles que seguem esta lógica não aspiram a mudar nada, mas a participar da gestão da situação atual. Não fazer nada, como desejariam políticos de esquerda ou nacionalistas catalães, é permitir que situações como estas se normalizem e continuem a crescer.

A raiva e a indignação aparecem como surtos isolados. Quando eles são compartilhados pela população não há necessidade de um manifesto. Basta um recipiente em chamas e milhares de pessoas – não apenas na Catalunha, mas em todo o país – recebem a mensagem. Os jovens compreendem que esta realidade deve ser enfrentada, as mulheres jovens não aceitam mais ficar na retaguarda. Não apenas para Pablo Hasel, mas para nosso futuro como pessoas livres.

Portanto, as mensagens que estão sendo dadas nestes dias têm que ser endereçadas, pois corroem a credibilidade do Estado. E a mensagem mais importante é a defesa das liberdades nas ruas por todos os meios necessários. O melhor de nosso povo está em jogo todas as noites. E é necessário que, como sociedade, lhes demos todo o nosso apoio nestes dias e naqueles que virão. É necessário que sejamos solidários com os presos e feridos.

Exigimos a liberdade de Pablo, e de todos os presos políticos, a libertação imediata de todos os detidos, a dissolução do BRIMO e a queda da monarquia e do estado fascista. Somente a partir daqui, podemos construir algo mais.

PabloHaselLlibertat #LlibertatPabloHasel #LibertatPabloHasel #FreedomPabloHasel #StopFoam

Fonte: https://embat.info/el-rei-esta-nu-la-deriva-autoritaria-de-lestat/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

fera ferida
nunca desiste –
luta pela vida

Carlos Seabra

Onda de protestos no Estado espanhol pelo encarceramento de Pablo Hasél

Quinta-feira, 18 de fevereiro

Durante esta semana estão acontecendo protestos em vários pontos do Estado, com dezenas de milhares de pessoas indo às ruas, como resposta ao encarceramento do rapper Pablo Hasél, condenado por enaltecimento do terrorismo e injúrias contra a Coroa.

O que em si mesmo pode parecer um mero protesto por direitos e liberdades democráticas, está servindo de catalisador da raiva e frustração acumulada durante todo este ano de pandemia. A situação repressiva mundial e concretamente, no Estado espanhol, com o estado de alerta, toques de recolher, aumento da violência policial, controle social, fome, desemprego, desalojos, despejos, está produzindo um aumento da revolta em todo o mundo como não se via desde 2019, antes de que este ciclo repressivo aproveitando a pandemia irrompesse.

Só no dia de ontem se produziram dezenas de pessoas feridas (em Barcelona uma pessoa perdeu o olho no dia anterior), meia centena de detidos e distúrbios de importante consideração em cidades da Catalunha como Lleida, Granada, Madrid, Barcelona, Valência (no dia anterior). Os incidentes ocorreram pelo segundo dia consecutivo, especialmente na Catalunha, onde em Vic, por exemplo, uma delegacia dos Mossos d’Esquadras [polícia catalã] foi arrebentada.

Os uniformizados receberam também o seu, apesar do desequilíbrio de forças, e ocorreram ataques e destroços em entidades capitalistas. A virulência dos protestos é especialmente forte na Catalunha e em menor medida na capital, mas também se estendeu a cidades como Valência, Granada e muitas mais cidades da península.

A imprensa e o Estado responderam cerrando fileiras em torno ao consenso democrático e os habituais rios de tintas (discursos) elogiando os corpos repressivos e exigindo a cabeça dos lutadores. Não se descartam detenções, especialmente na Catalunha, onde segundo a imprensa oficial, forças antiterroristas estão investigando fatos como o ataque à delegacia.

Este fim de semana se espera mais mobilizações.

Como anarquistas, somos alheios a questões como a liberdade de expressão, os direitos democráticos ou demais coisas do tipo, que pretendem envernizar a democracia como fórmula de governo estatal que nos submete e explora. Mas alentaremos a sair à rua e à luta contra o Estado, através da ação direta e da solidariedade, para aprofundar a guerra social, à margem e contra a política e a democracia. Temos que nos preparar, tanto para enfrentar o inimigo que temos adiante, que não é outro senão o Estado e seus corpos repressivos como garantia da ordem vigente, tanto como para os recuperadores e políticos que jogarão um papel recuperador e de recondução da raiva ao voto e a esperança na reforma de um edifício podre até as entranhas.

Contra toda autoridade.

Liberdade para Hasél, liberdade para todas!

Fonte: https://contramadriz.espivblogs.net/2021/02/18/oleada-de-protestas-en-el-estado-espanol-por-el-encarcelamiento-de-pablo-hasel/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

o lutador, na velhice,
conta à sua mulher o combate
que não devia ter perdido

Buson

[Espanha] 100 anos com Kropotkin. Kropotkin vivo

Este ano de 2021 marca o centenário do desaparecimento físico do cientista, pensador e revolucionário Pyotr Kropotkin (1842-1921). Se nos ativermos a falar de desaparecimento físico é porque seu legado ainda está vivo hoje. Numa época em que o darwinismo social ainda está na ordem do dia, seu estudo transcendental sobre apoio mútuo, a ideia de que é a cooperação entre indivíduos de uma ou diferentes espécies que explica sua sobrevivência, e não a competição, é uma referência indesculpável.

O apoio mútuo tem consequências que vão além do campo da evolução natural, pois coloca este instinto de solidariedade recíproca na gênese da ética. É por isso que Kropotkin não hesitou em identificá-lo como o pilar básico de qualquer sociedade humana harmoniosa. Como um compromisso de solidariedade, o apoio mútuo não só tornaria qualquer forma de Estado evitável, mas também contraproducente, pois limitaria o desenvolvimento natural dos indivíduos. Tal ineficácia implicaria, por sua vez, que não haveria propriedade privada a proteger, mas que, ao contrário, o trabalho em comum e a distribuição equitativa dos bens impediriam o individualismo e o utilitarismo, autênticos dissolventes sociais.

Mas o que realmente torna Kropotkin diferente de tantos sábios contemporâneos, verdadeiros ratos de biblioteca e laboratório, foi a coerência com a qual ele defendeu suas ideias, o que o levaria a renunciar a uma vida de luxo e conforto, e a sofrer a prisão e o exílio. Isto certamente não conseguiu desacelerar sua atividade intelectual. Estas dificuldades encorajaram diferentes reflexões sobre a natureza punitivista do Estado e seus meios para corromper física e moralmente os seres humanos.

Como não há dúvidas sobre a força das ideias de Kropotkin, surge a questão de como justificá-las da Confederação Nacional do Trabalho, uma organização sindical ancorada por definição e por necessidade na época em que vivemos. Esta é uma questão que transferimos para a militância enquanto recordamos outro clássico, que alertou para a importância de “raspar a barba de nossos veneráveis santos”, ou seja, reconhecer seu papel como pioneiros e adaptar seus ensinamentos. O desafio permanece.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/100-anos-con-kropotkin-kropotkin-vivo/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal

Carlos Seabra

[Eslovênia] Por uma cidade livre – por uma Ljubljana antifascista

Um chamado para enfrentar as ameaças de gangues fascistas juntos.

No ano passado, as várias gangues fascistas em Ljubljana estão agindo de formas cada vez mais ousadas. Eles espalham sua retórica violenta contra os imigrantes, contra aqueles que mantêm crenças diferentes das deles, contra artistas, antifascistas, contra a sociedade aberta e livre em geral. Sua lógica de exclusão não é limitada às redes sociais online. No esforço de melhorar seu perfil público, eles estão se tornando cada vez mais imorais, o que foi expresso também em sua recente visita com fotos tiradas dos chamados Yellow Wests a Metelkova, em seus apelos para a destruição de Metelkova e em contínuas campanhas de intimidação. Eles não escondem mais sua ideologia neonazi, suas tatuagens, símbolos e saudações – pois com certeza eles sabem muito bem que as autoridades oferecem segurança e legitimidade aos seus esforços e às suas ideias políticas mais nojentas.

A noite de segunda-feira trouxe um exemplo típico dessa sobreposição enquanto a força especial da polícia fortemente armada inundou as ruas próximas ao AKC Metelkova mesto – pouco tempo após o fim de uma procissão fúnebre pacífica no centro da cidade, dedicada à perda recente da [okupação] Fábrica Autônoma Rog – nosso espaço irmão. Mais de 40 policiais com equipamento da tropa de choque invadiram os pátios de Metelkova, tentaram entrar nas associações e em outros lugares, e intimidaram as pessoas que passavam. Eles não divulgaram formalmente as razões para sua intervenção, apesar de dizerem que eles vieram por causa do protesto que já tinha acabado e até sua explicação foi mais tarde alterada com a história de um “controle habitual de bares e restaurantes”. Devido ao número de policiais no local e a forma de mobilização, nós consideramos a intervenção da unidade especial da polícia nas instalações da zona autônoma Metelkova mesto uma intimidação inaceitável e um precursor de violência futura.

A responsabilidade por esse crescimento nas políticas de ódio e violência recai sobre aqueles nas posições de autoridade pública. Tanto naqueles que compartilham as ideias de intolerância quanto aqueles que gostariam de se apresentar como adversários políticos dos primeiros e socialmente sensíveis, mesmo tendo acabado de destruir a Fábrica Autônoma Rog. Gangues de rua já estão em busca de oportunidades para seguir o exemplo que o município de Ljubljana deu. É apenas uma questão de tempo até a atual violência simbólica das gangues fascistas dar lugar a ataques materiais e massacres contra as estruturas dos movimentos sociais e contra outros habitantes de Ljubljana.

Simplesmente ignorar, ridicularizar ou relativizar as ameaças que se dirigem a muitos lugares e indivíduos não as despachará para a lata de lixo da história no que constituiria uma repetição simbólica do que nossos ancestrais conseguiram realizar no meio do século passado e com amplo consenso social também. Suas ações certamente não irão parar nos alvos mais óbvios – AKC Metelkova mesto. Se nós queremos viver livremente, nós precisamos fazer mais como sociedade.

É por isso que a AKC Metelkova mesto apela para a solidariedade, para a resistência social geral e ação contra o crescimento da ameaça das gangues fascistas. Sua campanha e sua violência só pode ser parada juntas. É por isso que todos nós precisamos pensar – tanto em um nível individual quanto coletivo – sobre o que nós podemos fazer para mostrar claramente que Ljubjana permanece antifascista. Que a violência, os símbolos e o discurso fascista não tem lugar em nossas ruas. Vamos fazer tudo o que pudermos, para que nós ainda possamos caminhar sem preocupações nas ruas, para que nós possamos beijar livremente um ao outro, segurar as mãos, rir, criar, falar e viver nesta cidade. E seremos capazes de  fazê-lo como os indivíduos e as comunidades diversas que somos.

Ninguém irá lutar por nós. O perigo da violência fascista na rua não é coisa do futuro, de heróis abstratos ou de conceitos hipotéticos.

Está acontecendo aqui e agora. Vamos nos encontrar.

AKC Metelkova mesto

Ljubljana, 9 de fevereiro de 2021

Fonte: http://komunal.org/teksti/636-izjava-akc-metelkova-mesto-za-svobodno-mesto-za-antifasisticno-ljubljano

Tradução > Brulego

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agência de notícias anarquistas-ana

sussurro um ruído
(farfalhar de qualquer folha
ao pé de um ouvido)

Bith

[Mianmar] Apoie o Food Not Bombs Yangon

Um dia depois que os militares de Mianmar tomaram o poder na madrugada de 1º de fevereiro de 2021, um forte e impressionante movimento de desobediência civil apareceu. No início, liderado por trabalhadores da saúde, enfermeiras e médicos, esse movimento está crescendo mais rápido e mais forte a cada dia, sendo aderido por pessoas de todas as esferas da vida. Entre elas estão também professores, bancários, funcionários públicos e funcionários ligados a empresas militares. As pessoas começaram a bater panelas e frigideiras todas as noites às 20h em suas janelas e sacadas, no momento em que começa o novo toque de recolher instituído pelos militares. O barulho das panelas e frigideiras ficava mais alto a cada noite, em ponto às 20h, e durava mais a cada noite, para expulsar os espíritos malignos dos militares velas foram acesas e a música de protesto da Revolta de 88 “Kabar Makyay Bu”, que se traduz como “Não estaremos satisfeitos até o fim do mundo”, foi cantada ao som da melodia de “Dust in the wind” da banda Kansas.

Em 6 de fevereiro, às pessoas finalmente levaram seus protestos às ruas de todo o país. Estima-se que 100.000 pessoas participaram neste dia dos protestos em Yangon, a maior cidade de Mianmar. Os protestos estão acontecendo em várias cidades e regiões de todo o país todos os dias desde então. Eles são enormes, poderosos e diversos e todos os manifestantes concordam:

“Não podemos voltar à era das trevas da ditadura militar”.

Esses protestos são apoiados por várias organizações como sindicatos estudantis, sindicatos trabalhistas, partidos políticos e grupos de ativistas sociais. Um desses grupos de ativistas sociais é o grupo de Yangon do Food Not Bombs.

O Food Not Bombs Yangon foi fundado em 2013 por um grupo de punks locais. Eles são mais conhecidos por apoiar pessoas que vivem em condições precárias, especialmente crianças, na área urbana de Yangon. Em 2020, quando a pandemia atingiu o país, os punks do Food Not Bombs organizaram incansavelmente grandes quantidades de alimentos para apoiar as pessoas necessitadas. Entre outros, eles apoiaram os protestos dos trabalhadores das fábricas de roupas e sindicatos trabalhistas quando os trabalhadores foram privados de seu salário depois que as fábricas fecharam sem qualquer compensação.

Agora, esses punks também estão cumprindo seu papel como Food Not Bombs, apoiando os manifestantes com água, comida e equipamentos de segurança, como capacetes, óculos para proteção contra spray de pimenta e máscaras médicas.

Embora os protestos em Yangon tenham permanecido pacíficos até agora, em outras cidades e regiões, a polícia já começou a usar canhões de água, gás lacrimogêneo, balas de borracha e balas reais contra os manifestantes. Além disso, cada vez mais vídeos aparecem no Facebook mostrando civis em todo o país sendo arrastados para fora de suas casas à noite e presos pela polícia.

Os militares estão agora aumentando seu controle. Depois que cerca de 23.000 prisioneiros foram libertados em uma anistia em massa, durante a noite, mais e mais civis estão sendo arrastados para fora de suas casas e presos. Desde 14 de fevereiro, veículos blindados chegaram em várias cidades e o acesso à internet está sendo cortado durante a noite.

Esta arrecadação de fundos foi criada para apoiar o trabalho do Food Not Bombs Yangon durante esses protestos em andamento. O dinheiro será usado para apoiar ainda mais os manifestantes, o movimento de desobediência civil e as pessoas necessitadas. O Food Not Bombs Yangon também está se associando a outras organizações ativistas, como sindicatos trabalhistas e estudantis.

Antecedentes do golpe militar em Mianmar:

Depois que os militares tomaram o poder ilegitimamente em 1º de fevereiro, eles começaram a deter políticos oposicionistas, ativistas políticos, artistas críticos e jornalistas. O senador general Min Aung Hlaing, o qual comandou a intensificação da repressão à minoria étnica Rohingya no estado de Rakhine nos últimos anos pelos militares, declarou neste dia estado de emergência de um ano e assumiu todo o poder estatal durante esse período. Alegando que houve fraude nas eleições de novembro de 2020, vencidas pelo partido da Liga Nacional pela Democracia (NLD) em uma vitória esmagadora, os militares também detiveram membros do parlamento que deveriam prestar juramento ao cargo em 1º de fevereiro. Até hoje, Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e conselheira estadual, está detida e em prisão domiciliar. Bem como o presidente do estado Wint Mynt e outros políticos de alto escalão. De 9 de fevereiro até o momento, um total de 400 pessoas foram detidas e presas pelos militares. Mianmar foi uma ditadura militar de 1962 até 2011.

>> Colabore aqui:

https://www.gofundme.com/f/support-food-not-bombs-yangon?utm_source=customer&utm_medium=copy_link&utm_campaign=p_cf%20share-flow-1&fbclid=IwAR36fNeuc78jXDoki8u7qK-FQl7zObTQ0M7w0jtTb1Hn- TIndfMPzfV98yk

Tradução > A. Padalecki

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agência de notícias anarquistas-ana

notícias do sol –
os pássaros da manhã
cantam na varanda

Zemaria Pinto

[Espanha] Virus: 30 anos publicando e distribuindo livros

Muitos de nós, que compõem este jornal, crescemos com os livros publicados pela Virus. Eles editaram George Orwell, Mike Davis, Ursula K. Le Guin, Karl Polanyi, Murray Bookchin, David Graeber, Janet Biehl, Silvia Federici, Nerea Barjola, Nanni Ballestrini, Tomás Ibáñez, Jann-Marc Rouillan, Hans Magnus Enzensberger, Miquel Amorós, Ivan Illich, Pierre Clastres, Xavier Díez, Pedro García Olivo, Mumia Abu-Jamal, David Fernández, Barbara Biglia, César Lorenzo, Xavier Cañadas e Ramón J. Sender, entre muitos outros. Eles também deram voz a coletivos como o Punt 6, o Grupo Krisis e o Observatório Metropolitano de Madrid. Esta é provavelmente a editora cujos títulos revisamos com mais frequência em nossa seção de Recomendações. Suas obras fazem parte de nossa bagagem política e militante, elas foram e continuam sendo sustento e apoio em nosso caminho em direção a um mundo melhor.

Agora que já se passaram trinta anos desde que a Virus nasceu como um coletivo no bairro de El Raval (Barcelona), realizamos esta breve entrevista para comemorar este aniversário junto com eles.

Todo por Hacer (TxH): Para começar esta entrevista, gostaríamos de parabenizá-lo por seu trigésimo aniversário. Diga-nos, como e por que a Virus Editorial nasceu em 1991?

Virus: Muito obrigado, compas. A Virus nasceu em El Lokal, um lugar chave de encontro dos movimentos sociais de Barcelona e um lugar de divulgação da contracultura, ainda aberto, ativo e com sólidas raízes nas lutas do bairro Raval. Na época, o projeto Vírus era fornecer infraestrutura e meios a serviço do pensamento crítico e da memória libertária, promover o livro como ferramenta e gerar um espaço de distribuição que pudesse levar nossas ideias, práticas e propostas para além do circuito fechado em que muitas vezes são aprisionadas. Assim, a Virus nasceu praticamente ao mesmo tempo em que uma editora e distribuidora com grande esforço e grandes ambições com a publicação do livreto La lucha del movimiento libertario contra el franquismo, cuja venda serviria para financiar a publicação do livro Sabaté: Guerrilha urbana na Espanha, por nosso querido Antonio Téllez Solà.

TxH: Trinta anos é um caminho muito longo, vocês já atingiram seus objetivos iniciais? Sua vida cotidiana é muito diferente da ideia inicial com a qual o projeto nasceu? Voltando ao presente, gostariam de nos falar sobre algum projeto ou novidade com a qual vocês estejam particularmente entusiasmados?

Virus: Vem à mente o título do livro de Angela Davis, A Liberdade é uma batalha constante. Sim, é um longo caminho cheio de altos e baixos, obstáculos e contratempos. A verdade é que a Virus não parou de crescer ao longo dos anos, mas sempre foi sustentada nas costas das pessoas que fizeram parte do coletivo. Em tempos de crise, não tem havido outra saída senão continuar alimentando a fera com nosso suor. Às vezes brincamos sobre isso. Mas a satisfação de ver nascer novos projetos com os quais colaboramos, com os quais estabelecemos uma relação de apoio mútuo, a extensão de uma rede de livrarias e espaços de cultura de resistência dos quais fazemos parte, ou a publicação de textos que consideramos relevantes e necessários para enfrentar o mundo em que vivemos… tudo isso nos enche de entusiasmo e dá sentido ao nosso trabalho. Acreditamos que a Virus cumpre a função para a qual foi concebida, embora talvez seu objetivo final seja contribuir para uma transformação revolucionária da sociedade, e isso não está somente em nossas mãos.

Podemos falar-lhes de algumas de nossas próximas edições confirmadas: uma primeira tradução cuidadosa em catalão do Apoio Mútuo de Kropotkin, um trabalho intemporal (e fundamental) que é ao mesmo tempo uma crítica a teorias errôneas do passado, um apoio para confrontar nosso presente individualista e um projeto para um futuro comunitário.

Eu sou uma fronteira, um texto fascinante de Shahram Khosravi no qual ele narra sua jornada de exílio e migração do Irã para a Europa, analisando profundamente, por sua vez, a passagem das fronteiras, o racismo, a despossessão e a alienação sofrida, a lei desumanizante imposta pelo Estado e alimentada pelo Capital. Khosravi entrelaça sua experiência com a das pessoas com as quais ele faz seu caminho e com a de outras em todo o planeta que caminham por uma ilegalidade inevitável que os despoja de todos os direitos.

Outro de nossos projetos em andamento segue nossa linha de reivindicação de memória libertária e é a reedição do esgotado El eco de los pasos de Joan García Oliver. Uma polêmica mas inestimável memória para abordar os fatos da guerra civil, a revolução social de 1936 e os fatos do movimento anarquista ibérico.

Bem, e para não ficarmos atolados em muitos detalhes, gostaria de mencionar que também há edições muito poderosas sendo feitas (em nossa opinião) sobre feminismo descolonial, trabalho sexual, a configuração do capitalismo moderno na Europa contemporânea e muito mais.

TxH: Vocês comentam em seu site que entendem o livro como uma ferramenta dentro de uma comunidade de luta. A partir daqui, qual é sua relação com os movimentos sociais e com o espectro antiautoritário?

Vrus: Entendemos que esta relação é, como dissemos, de apoio mútuo, confiança e acompanhamento. Muitos coletivos tiveram acesso a material que teria sido muito difícil de obter sem a Víirus e, ao mesmo tempo, conseguiram fazer com que suas propostas chegassem a toda uma rede com a qual a Virus se conecta, mas também além de nossos espaços habituais. Para a Virus é importante estar presente onde não se espera de nós, e também provocar e agitar em todas as frentes possíveis. E acreditamos que o trabalho realizado nestes 30 anos deve nos ajudar a não começar sempre do zero. Deve ser uma experiência coletiva que traga solidez e capacidade ao movimento antiautoritário. Mesmo assim, não nos enganamos, sabemos que somos frágeis em um momento de grande potencial revolucionário, de instabilidade política e de ascensão de posições reacionárias. Portanto, como sempre, pedimos reflexão e ação conjunta. No final, a Virus trabalha em um espaço muito concreto e não somos a vanguarda de nada. Tentamos contribuir onde estamos localizados.

TxH: Seus livros cobrem uma enorme gama de temas, vocês lançam estes temas determinados pela dinâmica das lutas do momento? Vocês se veem capazes de colocar temas diferentes sobre a mesa, seja porque são menos atuais ou simplesmente pouco conhecidos? Que temas os motivam no momento? Uma confissão: com que assunto vocês sempre quiseram lidar, mas não foram capazes e por quê?

Virus: Totalmente. Gostamos de pensar que contribuímos com algo útil para o momento em que vivemos e esta é uma máxima na decisão sobre nossas edições. Queremos dar voz a visões críticas que empurram para uma transformação radical de nossas vidas. É por isso que somos influenciados por tudo o que nos rodeia, tanto quanto queremos influenciá-lo. Ao mesmo tempo, mantemos esta ideia de que não devemos ser sobrecarregados pelos acontecimentos atuais. Acreditamos que também há valor em textos históricos e certas reflexões que, apesar de terem sido elaboradas há algum tempo, mantêm grandes doses de verdade e lucidez e podem ser revistas, criticadas e atualizadas em nosso contexto.

Há algo que talvez não seja totalmente compreendido de fora do coletivo e que é que não podemos publicar tanto quanto gostaríamos. Por um lado porque nossa economia não nos permitiria fazer isso, mas por outro porque há um excesso global de edições que não pode ser absorvido e transformar o livro em um produto de curta duração. Nós nos opomos a isso. Não queremos participar deste circuito esmagador de consumo e descarte. Portanto, lidamos com tudo o que nos interessa, mas achamos horrivelmente difícil colocar cada edição em um calendário que seja equilibrado com nosso orçamento. Também confessamos que rejeitamos os livros, mesmo sabendo que seriam grandes sucessos (e foram, publicados por outras editoras).

TxH: Vocês estão comprometidos com a acessibilidade carregando uma grande parte de seus livros na web para download gratuito de PDF e, ao mesmo tempo, seu projeto serve para ganhar a vida, como se torna isso possível? Atrás de um livro há muito cuidado, tradução, layout, ilustração… é possível cuidar de todas essas pessoas e ao mesmo tempo oferecer o produto gratuitamente? Que contradições enfrentaram nesse aspecto?

Virus: Queremos que todos os textos que publicamos estejam disponíveis gratuitamente, embora isso nem sempre seja possível. Às vezes, existem direitos de publicação que nos impedem de fazê-lo. Por outro lado, há textos antigos que foram perdidos em um desastre informático e ainda não conseguimos recuperá-los. Dito isto, não há contradições. Tentamos chegar a um acordo com todas as pessoas envolvidas em um livro, que geralmente têm o mesmo desejo de tornar seu conteúdo acessível. E mostramos que isto é viável, que os livros ainda vendem porque as pessoas que os compram conhecem seu valor e decidem apoiar este projeto. Naturalmente, não enriquecemos com isso, nem visamos um público privilegiado, nem confiamos em patrocinadores ou subsídios. A Virus sobrevive graças a um esforço coletivo, muitas vezes invisível e silencioso, mas enorme e altruísta.

TxH: Não sabemos muito bem como funciona o mundo editorial e o mercado do livro, como vocês fizeram um nicho para si mesmos? Vocês trabalham no que poderíamos chamar de circuito comercial? Existe uma rede entre editoras e livrarias alternativas?

Vírus: Como distribuidor trabalhamos, assim como com a rede de livrarias alternativas, com todos os tipos, digamos, de livrarias convencionais. A diferença entre os dois tem mais a ver com afinidade e compromisso político do que com modelos operacionais claramente diferentes, e isso às vezes é subjetivo. Dentro da rede alternativa existem livrarias especializadas e cooperativas, assim como ateneus, sindicatos, projetos culturais sem fins lucrativos e uma grande variedade de coletivos políticos.

Entretanto, nossa vontade é levar as editoras que distribuímos a todos os lugares e entrar no circuito comercial, onde defendemos o valor dos livros de substância, que merecem estar disponíveis além da novidade. Aqui, retomando um ponto da pergunta anterior, pode ser dito que estamos navegando as contradições do mercado. A margem que um distribuidor como o nosso mantém em cada livro, apesar do que se acredita frequentemente, é baixa e o trabalho invisível envolvido pode ser muito desequilibrado e ingrato. Às vezes, aparecemos a estranhos como um intermediário vampiro entre a editora e a livraria, e a ganância dos grandes grupos logísticos é confundida com nossa tarefa humilde e quase militante. Felizmente, aqueles que nos conhecem apreciam a diferença.

Dizemos com um certo orgulho: a Virus, juntamente com os Traficantes de Sonhos e Cambalache, contribuímos para tecer esta rede de livrarias e editoras radicais, alternativas e refratárias… as nomeie como quiser. Às vezes nos entristece quando projetos semelhantes usam isso como um trampolim para acessar o mercado de livros mais agressivo e dar o salto para uma distribuição comercial adequada, entrando assim nos grandes supermercados e plataformas digitais de consumo rápido. Sabemos que a publicação é um trabalho duro, entendemos que nem sempre é economicamente sustentável e não ousamos julgar as motivações de cada um, mas é verdade que também perdemos o poder deste lado da barricada. Na Virus não nos concentramos tanto no crescimento isolado, mas no fortalecimento de nossa rede de apoio.

TxH: Em consonância com seu 30º aniversário, vocês apresentaram uma campanha “Hazte Vírico” (Se faça viral). Gostaríamos que aproveitassem este espaço para espalhá-lo um pouco mais. Qual é o seu objetivo? Como está indo?

Virus: Desculpe-nos por envelhecer, estes são tempos tempestuosos, como Rolando Alarcón costumava cantar. Bem, o fato é que precisamos um do outro para continuar construindo uma alternativa a este sistema destrutivo. A Virus existe nesta interdependência, para continuar nos formando, fornecendo-nos ferramentas intelectuais e disponibilizando conhecimento comum e reflexões profundas a todos. Nesta campanha apresentamos várias opções para dar apoio financeiro ao projeto, recebendo os livros que publicamos, bem como outros benefícios. Você pode contribuir entre 60 e 100 euros ou fazer uma doação desinteressada. Você pode se inscrever individualmente ou como grupo. Ou você pode simplesmente se inscrever sem pagar e fazer cinco compras anuais em nosso site. Em todos os casos, você receberá presentes e todo nosso amor, é claro, porque acredite ou não, nós somos pessoas legais.

>> Você tem mais informações aqui:

https://www.viruseditorial.net/es/editorial/socies

Fonte: https://www.todoporhacer.org/virus-editorial/

Tradução > Liberto

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Um susto matinal:
na caixa do correio,
duas mariposas!

Paulo Franchetti

[Chile] Sobre a necessária sintonia entre a rua e o cárcere. Comunicado de Mónica e Francisco na prisão.

Entender a solidariedade antiautoritária como uma relação que envolve como atores principais os presos e os entornos ativos na rua, é entender que é indispensável lutar dentro do cárcere, do contrário a prática solidária se transforma em assistencialismo e caridade, sendo o preso um mero receptor passivo dos apoios que possam chegar de fora não se incorporando nem colaborando com as iniciativas de confrontação. Resulta necessário que a bandeira “Com o cárcere nada termina” se leve à prática utilizando todos os meios que se disponham, os quais, ainda que sejam escassos, podem ser sumamente eficazes. Assim o demostraram as diversas lutas na longa e rica história da prisão política, caracterizadas pela disposição e a decisão dos presos de chegar até as últimas consequências para conquistar os propósitos traçados. Dentro do cárcere cada minuto de pátio, cada livro que entra, cada artigo que se permite ter na cela ou cada espaço de autonomia e desenvolvimento individual por mais mínimo que seja se conseguiu através da luta, nada é grátis, basta lembrar ou investigar de que maneira a gendarmeria acedeu, por exemplo, a mais horas de abertura no cárcere de segurança máxima ou a inexistência de locutórios no C.A.S, para dar-se conta disso.

A mobilização ativa no interior da prisão conseguiu também importantes triunfos no que respeita ao regresso dos presos à rua, driblando a lei, e conseguindo exercer uma pressão efetiva ao Estado, que em vários momentos se viu obrigado a sentar-se para conversar e dar solução às exigências.

Não obstante estes triunfos nunca teriam conseguido sem o apoio solidário, as demandas e exigências dos presos ficariam no interior dos altos muros, sem a constante mobilização que rompe ainda que seja momentaneamente com a normalidade. Imprescindível, portanto, é que exista uma sintonia real entre os diversos coletivos e individualidades solidárias, que se traduzam em uma comunicação e intercâmbio de visões orientadas à confrontação, o que inegavelmente fortalece a luta e os entornos comprometidos com ela. Desta maneira a solidariedade passa a ser uma prática combativa e ofensiva que toma a palavra e os momentos, que gera acontecimentos e rupturas.

Agora então, somos claros em assinalar que não entendemos a luta sem a confrontação. Ainda que muitas vezes não conquistemos o que nos propusemos, da mesma maneira insistimos no enfrentamento e o seguiremos fazendo porque simplesmente foi e é a maneira como decidimos levar nossa vida. Persistiremos na confrontação e se esta não se apresenta, a buscaremos e a provocaremos, já que só golpeando geraremos brechas na sociedade.

Contra a perpetuação das condenações!

Revogação da modificação ao DD.L 321!

Anistia para os presos da revolta!

Presos em guerra à rua!

Mónica Caballero Sepúlveda

Seção de conotação pública – Cárcere de San Miguel

Francisco Solar Domínguez

Seção de Segurança Máxima – Cárcere de Alta Seguridad

Fevereiro 2021

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sob a janela
o gato prepara o salto
como sempre faz

Fred Schofield

[Espanha] Uma mensagem dirigida para nossas irmãs e companheiros marroquinos

A primeira revolução deve ser contra a suprema tirania da teologia. Enquanto tivermos senhores no céu, permaneceremos escravos na terra“. Mikhail Bakunin.

Carta dirigida para nossas irmãs e companheiros marroquinos após a morte de vinte e oito trabalhadores eletrocutados em uma oficina ilegal em Tânger.

A impunidade com que os empregadores de ambos os lados do Mediterrâneo agem contra os interesses da classe trabalhadora sempre foi conhecida. Isto muitas vezes acontece ao custo de nossas próprias vidas. Muitas vozes se levantaram há anos em solidariedade com os trabalhadores têxteis e mineiros marroquinos, assim como com os trabalhadores diurnos em Cartagena ou lugares vizinhos como Almería.

Há apenas dois meses, os mineiros de Toussit, no Marrocos, entraram em ação direta, convocaram uma greve geral e ocuparam sua mina, exigindo respeito e dignidade. Hoje, acordamos com a notícia da morte de mais de 28 trabalhadores em Tânger, na oficina ilegal onde trabalhavam, eletrocutados após uma enchente. Já sabemos que não haverá justiça para eles, porque a justiça só olha para os poderosos, políticos ou empresários. Vemos isso na África, na Europa ou em qualquer lugar do mundo onde os direitos, a dignidade e a liberdade da classe trabalhadora são espezinhados diariamente.

A partir deste sindicato internacional, CNT-AIT, apelamos à unidade entre os povos e os trabalhadores, e apoiaremos todas as campanhas que visem a libertação dos trabalhadores marroquinos ou de qualquer canto do mundo.

Exigimos para nossas companheiras e companheiros na região marroquina:

– Salários decentes que lhes permitam ganhar a vida, para todos, qualquer que seja sua situação.

– Condições de trabalho decentes, de acordo com a segurança dos trabalhadores e do meio ambiente.

– Respeito à liberdade de associação nos sindicatos, liberdade de expressão, assim como o direito à greve.

Companheiras e companheiros solidários dos dois lados do Mediterrâneo: Devemos lutar juntos como uma sociedade global pela liberdade humana ou devemos permanecer passivos? Você decide.

A Assembleia da CNT-AIT Cartagena

A Assembleia da CNT-AIT Paris

Fonte: https://www.alasbarricadas.org/noticias/node/45449

Tradução > Liberto

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nenhuma flor resta
os troncos abatidos
nenhuma floresta

Núbia Parente

Justiça argentina condena oito repressores da ditadura por crimes contra mais de 800 vítimas

Tribunal estabeleceu penas de entre seis anos e prisão perpétua para os imputados por sequestros, torturas, homicídios e roubo de crianças, no quarto julgamento o megaprocesso da ESMA

O ex-oficial da Marinha argentina Carlos Mario Castellví escutou impassível pela internet sua condenação à prisão perpétua pelos crimes de lesa humanidade cometidos durante a última ditadura (1976-1983). O Tribunal Oral Federal 5 condenou também à pena máxima o ex-policial Raúl Armando Cabral e a Miguel Conde na sentença do quarto julgamento do megaprocesso da Escola Superior de Mecânica da Marinha (ESMA, na sigla em espanhol), relativo a crimes como sequestros, torturas, homicídios e roubo de crianças, num total de 816 vítimas.

Outros quatro réus receberam penas de 15 anos da prisão por serem considerados cúmplices secundários dos crimes: os cabos da Marinha Carlos Néstor Carrillo, José Ángel Iturri, Jorge Luis María Ocaranza e Ramón Torre Zanabria. Por último, o oficial do batalhão de infantaria de Marinha Claudio Vallejos foi condenado a seis anos.

Os condenados pertenceram ao Grupo de Tarefas 3.3.2, criado pelo então almirante Emilio Massera para desarticular organizações guerrilheiras, políticas e sociais através do sequestro e desaparecimento de militantes. Sua base operacional estava na ESMA, transformada pelo regime militar em um centro clandestino de detenção por onde passaram quase 5.000 pessoas.

Castellví integrou a área de Inteligência do Grupo de Tarefas 3.3.2 entre 1979 e 1980. Conde atuava como enlace na ESMA a partir de suas tarefas como funcionário civil da inteligência do Exército, e Cabral também agia como enlace na qualidade de agente da Polícia Federal argentina. Este último tinha sido beneficiado com a prisão domiciliar, mas em junho passado voltou à cadeia depois que sua ex-mulher e fiadora o denunciou por violência de gênero.

Até agora, nenhum deles tinha sido condenado por estes crimes. Ao comunicar a sentença deste julgamento iniciado em 2018, o tribunal formado pelos juízes Adriana Palliotti, Daniel Horacio Obligado e Gabriela López Iñíguez recordou que os crimes contra a humanidade não prescrevem, ou seja, podem ser julgados sem importar o tempo transcorrido. Ainda assim, os querelantes e familiares das vítimas se preocupam com a demora em alguns processos, devido à avançada idade de muitos dos acusados.

“Cada julgamento reafirma os compromissos fundamentais da democracia contra a impunidade e o valor dos direitos humanos na Argentina. Entretanto, os futuros processos devem avançar mais rapidamente. Nesta ação, dois réus morreram sem veredicto: Aníbal Roberto Colquhoun e Néstor Eduardo Tauro”, recordou o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) em um comunicado divulgado no meio do julgamento. Um terceiro imputado no início do processo, Horacio Luis Ferrari, ficou afastado do debate.

Entre os crimes pelos quais Castellví, Conde e Cabral foram condenados figuram os sequestros e desaparecimentos do grupo do bairro de Bajo Flores, na cidade de Buenos Aires, que incluía Mónica Mignone, filha de Emilio e Chela, fundadores do CELS.

Mais de mil condenados

A Argentina se tornou um exemplo mundial pelo julgamento dos repressores da última ditadura. Desde que esses julgamentos foram retomados, em 2006, 250 sentenças foram deitadas, condenando 1.013 pessoas, segundo o último relatório da Procuradoria de crimes contra a humanidade. A pandemia também afetou o avanço desses processos: em 2020, houve apenas 13 sentenças, quase a metade de um ano antes, e a cifra mais baixa desde 2009.

A quarentena obrigatória decretada pelo Governo de Alberto Fernández paralisou os julgamentos durante três meses, e depois eles foram retomados paulatinamente de forma virtual. Como ocorreu na leitura do veredicto desta quinta-feira, juízes, réus, advogados, vítimas e familiares não compareceram aos tribunais federais da avenida Comodoro Py, em Buenos Aires, conectando-se em vez disso das suas telas para participar das audiências.

O megaprocesso da ESMA é o maior de todos os que já julgaram crimes desse tipo, o que obrigou a dividi-lo em vários julgamentos. O primeiro, em 2007, tinha um réu que se suicidou antes de ouvir a condenação. O segundo terminou em 2011, com 16 condenados, e o terceiro em 2017, quando pela primeira vez houve duras condenações pelos chamados voos da morte.

Fonte: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-02-19/justica-argentina-condena-oito-repressores-da-ditadura-por-crimes-contra-mais-de-800-vitimas.html

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uiva à noiva nua
minguante e cheia
ri-se e flutua…

Goulart Gomes

[Chile] Terra e Liberdade: Declaração pública de Solidaridad Obrera

Novamente despertamos com uma notícia de morte e injustiça, e novamente é Panguipulli o lugar. Desta vez a arma homicida protegia à sacro santa propriedade privada de um condomínio que fechava o acesso ao Lago Riñihue, algo que os ricos do país tem como prática permanente não só com lagos, rios, mares e mananciais, mas com todo o território e suas águas que deveriam ser de uso público.

É nesta localidade, onde faz uns dias foi assassinado Francisco Martínez e faz poucos anos foi morta Macarena Valdés, é arrebatada a vida também da langnen Emilia, que se soma a milhares de assassinados nos últimos tempos por defender seu direito a existir livre no território que deve ser de todos e todas e que, ao contrário, uns privados vão a todos os caminhos de solução pacífica às demandas históricas do povo mapuche e do proletariado do território chileno em geral.

Novamente seremos testemunhos de como a justiça burguesa defenderá a quem aperta o gatilho, arma que é posta em sua mão por parte dos patrões. Com a mesma facilidade com que esta justiça continua deixando em liberdade a seus pistoleiros e aliados narcos que semeiam drogas em nossos territórios para tornar uma juventude dócil.

A única justiça para Emilia e para nossos caídos será a recuperação das terras, lagos, rios e mares para uso comunitário, que estejam nas mãos dos povos que formam este pedaço de território chamado Chile.

Saudamos aos Lof que estão em resistência recuperando terras e resistindo às variadas formas nas quais o capitalismo invade os territórios ancestrais.

Terra e liberdade para os mapuche e povo chileno consciente.

Levamos um mundo novo em nossos corações.

Solidaridad Obrera da Região Chilena

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/02/18/chile-assassinato-de-lamgnen-anarquica-no-territorio-mapuche-lof-llazcawe/

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Este álbum de fotos:
Também as traças se nutrem
De velhas lembranças

Edson Kenji Iura

[Espanha] Lançamento: “Decrecimiento. Una propuesta razonada”, de Carlos Taibo

Sinopse

Uma observação tão simples como a que recorda que se vivemos em um planeta com recursos limitados não parece que tenha muito sentido aspirar a seguir crescendo ilimitadamente, acompanhada da conclusão, bastante plausível, de que deixamos muito atrás as possibilidades meio ambientais e de recursos que aquele nos oferece, deveria bastar por si só para admitir, quando não apoiar, a perspectiva do decrescimento. E isso com um inevitável corolário que convida a recuperar a vida social que nos foi roubada, a desenvolver formas de ócio criativo, a repartir o trabalho, a reduzir as dimensões de muitas das infraestruturas que empregamos, a restaurar um habitat local devastado ou, no terreno individual, a apostar pela sobriedade e a simplicidade voluntária. Neste livro, partidário mas moderado, Carlos Taibo argumenta de forma pedagógica e completa em favor da perspectiva do decrescimento, ao mesmo tempo que aporta dados que a respaldam, fundamenta filosoficamente seu bom sentido e desfaz de passagem alguns mal entendidos a  respeito dela.

Decrecimiento. Una propuesta razonada

Carlos Taibo

Alianza Editorial, Colección de Bolsillo, 103. Madrid 2021

256 págs. Rústica il. 23×16 cm

ISBN 9788413621753

12,30 €

alianzaeditorial.es

Tradução > Sol de Abril

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/02/18/espanha-carlos-taibo-viver-melhor-com-menos-so-faz-sentido-se-antes-redistribuirmos-radicalmente-a-riqueza/

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O brilho do salto
do peixe na cascata,
lâmina de prata.

Luiz Bacellar

Vídeo | Para Barrar o Golpe Fascista!

Enquanto centenas de milhares de pessoas tombam vítimas da COVID-19 em todo território ocupado pelo Estado Brasileiro, Bolsonaro se prepara para assegurar seu controle do Estado: difundindo discursos de fraude eleitoral, armando seus apoiadores e buscando obter mais controle sobre as polícias. Como barrá-lo e impedir que sejamos controlades por um regime ainda mais autoritário e violento?

>> Assista o vídeo (12:26) aqui:

https://kolektiva.media/videos/watch/072934bd-7c7e-419d-8ee1-5d686be5fa61

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a cigarra anuncia
o incêndio de uma rosa
vermelhíssima

Dalton Trevisan

[Espanha] O Museu Kropotkin: uma aldeia anarquista no epicentro do comunismo

Em 8 de fevereiro de 1921 morreu Piotr Kropotkin, teórico anarquista e cientista. O afã por conservar seu legado intelectual levou à criação do Museu Kropotkin em Moscou. Esta é sua história.

Por Jordi Maíz, Historiador e editor | 08/02/2021

Depois de um dia gélido na localidade de Dmitrov, a noite se tornou silenciosa. Pouco a pouco foram chegando vizinhos e pessoas próximas à casa dos Kropotkin. Era 8 de fevereiro de 1921 e a notícia da morte de Piotr corria como a pólvora, fazia pouco mais de um mês que havia completado os 78 anos. A cidade, um pequeno enclave agrícola situado ao norte da populosa Moscou, logo se converteu em um fervilhar de idas e vindas, de caras novas e de caras conhecidas. Na manhã seguinte, seus vizinhos — majoritariamente camponeses — aguardavam sua vez frente à casa para despedir-se dele, — na medida do possível — dar alento à Sofía e Sasha, sua mulher e filha respectivamente.

Piotr Kropotkin, o ancião teórico anarquista, acabava de morrer deixando um legado cuja influência superava muito qualquer expectativa. O anarquista, além de teorizar sobre o anarco-comunismo, os cárceres, os Estados ou o apoio mútuo, era um grande cientista, um pensador e um homem muito respeitado por um imenso número de pessoas. Suas colaborações iam mais além de seu círculo, sendo até lido e considerado por seus adversários políticos. Inclusive o diário bolchevique Pravda lhe dedicou dois artigos em sua página principal.

Em muito poucas horas se estabeleceu uma comissão para organizar todos os atos que estavam por vir. Ali, em Dmitrov, ainda com a fatalidade da notícia, seus familiares e amigos mais próximos planejaram os preparativos. Emma Goldman, Aleksandr Berkman e — entre outros — o médico armênio Atabekian, haviam se deslocado rapidamente ao lugar para se despedir do velho companheiro. O corpo de Kropotkin foi transladado, entre uma multidão, desde sua casa até a estação de trem, onde tomou caminho para Moscou. Ali, na capital onde havia nascido, milhares de pessoas se aproximara para vê-lo pela última vez, muitos não haviam lido seus livros, mas mostravam respeito ante o teórico revolucionário caído. As mensagens e as condolências chegavam desde os lugares mais longínquos e inóspitos.

Depois de vários dias e não poucas polêmicas, seu corpo foi enterrado no cemitério de Novodévichi. Piotr Kropotkin tinha morrido, mas alguns poucos resistiam para que seu legado desaparecesse para sempre. Não eram momentos fáceis para o anarquismo nem para as organizações anarquistas, pois a recente guerra civil russa, o comunismo de guerra e a vigilância sobre as dissidências originavam todo tipo de dificuldades.

A comissão funerária de Dmitrov logo gerou a aparição de vários comitês em memória do velho anarquista. Os grupos mais ativos, os organizados em Petrogrado e Moscou, iniciaram tensas e longas gestões para dar com uma fórmula na qual todas as partes se sentiram à vontade.

As controvérsias foram muitas, pois eram vários os interesses, por um lado, um grupo de anarquistas russos que aspiravam a perpetuar a memória de Kropotkin baseando-se em suas abordagens ideológicas. Por outro, um coletivo importante também de colaboradoras e amigas, seguidoras de seu trabalho mais científico, que ansiavam reivindicar suas colaborações nos campos acadêmicos, especialmente na biologia e na geologia. Como se fosse pouco, tudo se complicava com a intervenção das autoridades russas, que vigiavam qualquer movimento, pois esperavam que com a morte do geógrafo ácrata se diluísse sua ideia pouco a pouco.

Os kropotkinianos, se é que podemos chamá-los assim, coincidiram na necessidade de que mais além de suas diferenças e posicionamentos, era necessário consolidar um espaço no qual se pudesse reunir todo o legado de Piotr. A tarefa era complexa e a fórmula a desenvolver convergia de comum acordo na criação de um museu-arquivo no epicentro do comunismo, Moscou. Assim que, mãos à obra, os diferentes grupos de trabalho iniciaram gestões e também solicitaram permissões — com as autoridades bolcheviques — para poder converter, na maior brevidade possível, uma das casas da família do cientista no futuro espaço museológico.

O autodenominado comitê Kropotkin definiu como tarefa fundamental a abertura desse enclave, pelo qual contactou com instituições científicas de todo tipo com a finalidade de obter apoios e fundos documentais ou econômicos com os quais poder dar forma ao projeto. A futura instituição, que seria presidida honorificamente por Sofía Kropotkin, contava com a presidência executiva da revolucionária russa Vera Figner e com delegados das diversas seções que deveriam compô-la. A presença de cientistas de grande prestígio foi também fundamental para dar o impulso inicial à ideia.

As suspeitas das autoridades russas eram lógicas, pois em torno à instituição se agruparam alguns dos anarquistas mais significativos daquela época em Moscou: Atabekian, Lebedev ou Borovoy, por exemplo. O Museu Kropotkin abriu definitivamente suas portas em dezembro de 1923, no número 26 da rua Shatniy Lane, enclave central no qual viveu durante seus primeiros anos de vida. As colaborações de quadros, livros, cartas e outros materiais chegavam a conta-gotas desde diferentes partes do mundo, com elas, pouco a pouco, foi se dotando o espaço. Em 1925 conseguiram incorporar ao museu a biblioteca pessoal de Kropokin que ainda se conservava, junto com boa parte de seu arquivo pessoal e correspondência, procedentes da Inglaterra.

Se prepararam palestras, explicações, boletins de notícias e até um guia para o visitante. Mas as dificuldades iam aumentando. Tanto internamente, como externamente, a gestão do legado de Kropotkin enfrentava grandes contratempos. Por um lado, no seio da instituição, continuava a disputa entre seus seguidores por fazer-se um vazio em seus órgãos de gestão. Um grupo de anarquistas havia conseguido utilizar o espaço para reunir-se e dar seguimento a suas conferências e debates, questão que levantou constantes problemas com as autoridades comunistas. A OGPU, a polícia secreta, vigiava seus atos, pois considerava que após o fechamento dos poucos jornais anarquistas que se mantinham em pé e o fechamento da imprensa libertária Golos Trudá, o Museu Kropotkin era pouco menos que o núcleo principal de propaganda anarquista de toda Rússia. Era de esperar que nesses primeiros anos do mandato de Stalin se fixassem detidamente nesse espaço e nas pessoas que o frequentavam.

Apesar dos esforços de alguns, separar Kropotkin de suas ideias era praticamente impossível, pelo que as autoridades se esforçaram em realizar informes sobre uns e outros, aos quais acusaram, com certa facilidade, de difundir atividades contrarrevolucionárias. Para cúmulo das autoridades, boa parte das colaboradoras do museu faziam preparativos para realizar uma exposição e um ato comemorativo para o cinquentenário da morte de Mijail Bakunin. A propaganda bakuninista em Moscou gerou um escândalo, pois nos atos que se organizaram se lançaram proclamas e críticas contra os bolcheviques e contra o que consideravam um derivado de seus princípios.

Alguns dos organizadores do museu saíram da instituição à medida que iam perdendo protagonismo, enquanto se aumentava a vigilância sobre as atividades que realizavam tanto dentro como fora do mesmo. Vários trabalhadores, incluídos seus bibliotecários, sofreram detenções e prisões.

Mas os problemas com as autoridades não eram os únicos aos quais deviam fazer frente, no final dos anos 20, enquanto cresciam os fundos do museu, os problemas de autonomia econômica do centro aumentavam e se tornavam estruturais. Manter o museu e suas atividades gerava um custo econômico difícil de assumir, se fazia à margem das autoridades. A instituição se manteve economicamente pelas colaborações que chegavam principalmente desde América do Norte. Os kropotkinianos dos Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha e de outros lugares, organizavam rifas e cerimônias para arrecadar dólares e rublos ao projeto. Mas sua realidade, a econômica, não era alheia a do resto, a crise econômica de 1929 e, por que não dizer, a perda de presença pública dos anarquistas, se fizeram notar. A dificuldade para abrir as portas era cada vez maior. Sofía Kropotkin reconhece em sua correspondência que ela já era anciã para gestionar esse gigante e advertia também da impossibilidade de manter sozinha os encargos do museu. O legado do anarquista russo pendia de um fio e a questão econômica não era mais que um item acrescido aos que deviam fazer frente. As notícias do museu deixavam de ter presença na imprensa libertária da época e as dificuldades para contactar com o exterior da União Soviética eram cada vez maiores.

O paradoxo era visível: enquanto se traduziam ao chinês, ao yiddish ou ao esperanto algumas das obras de Kropotkin e se imprimiam aos milhares seus libelos na Espanha, o fundo documental do autor desaparecia, pouco a pouco, da cena pública. Nos anos 30, o movimento obreiro internacional olhava para outro lado, uma nova geração tinha que fazer frente a ascensão do fascismo e dos totalitarismos. Muitas das colaboradoras do museu haviam morrido ou estavam nos anos finais de suas vidas.

Em 1939, na ante sala da catarse bélica, o Museu Kropotkin fechava suas portas definitivamente e a maior parte de seu enorme legado se guardava em caixas. Durante a contenda mundial, os fundos documentais se transferiram ao Museu da Revolução, também em Moscou, onde permaneceram muito tempo. Na atualidade, parte desse arquivo pode ser consultado em diversas instituições russas, enquanto que outra parte de seu conteúdo desapareceu para sempre. O antigo museu acolhe desde os anos 80 do século passado a embaixada da Organização para a Liberação da Palestina na Rússia. Kropotkin e sua obra se diluíram durante muito tempo em sua Rússia natal.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/historia/museo-kropotkin-aldea-anarquista-moscu-epicentro-comunismo

Tradução > Sol de Abril

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dente-de-leão!
voo à infância sem soprar
os paraquedinhas

Gustavo Terra

[Espanha] O anarquismo se conserva em Yuncler

A FAL: “A documentação que conservamos dá conta de uma história incômoda para o poder, a que nos conta que é possível organizar-se à margem do Estado e do Capital”

Por Laura López(Jornal CNT, Madrid)

O jornal da CNT visita o Arquivo Histórico da Fundação Anselmo Lorenzo (FAL), um esforço de documentação e de memória libertária que transcende mais além da atividade do sindicato.

Situado em Yuncler, um pequeno povoado de Toledo a pouco mais de 40 quilômetros de Madrid e com mais de 3.000 habitantes. Um lugar ao qual em 2015 o arquivo aterriza devido às necessidades específicas de conservação de grande parte do material e a falta de espaço em Madrid, onde ainda se encontra uma parte dos materiais guardados pela FAL. “O centro documental se divide entre as duas sedes. Em Madrid, está a sede de nossa biblioteca especializada e, em Yuncler, o resto de fundos documentais: hemeroteca, fundo audiovisual, cartazes, as diversas seções de arquivo, etc”. Quem ajuda a entender a importância deste espaço é Juan Cruz, um dos arquivistas da equipe que a FAL tem para conservar estes fundos, para encarregar-se da atividade editorial, de livraria e de difusão, tão importante.

“A difusão de nossa atividade em imprensa e alguns meios áudio visuais também favoreceu que as pessoas nos conheçam mais”, comenta Cruz, que indica que cada vez há mais gente de Yuncler e da província de Toledo que passa pela sede do arquivo, sobretudo em visitas guiadas. E isto não fez nada mais que começar, já que nos cinco anos de vida do espaço ainda resta muito por fazer. Não param de chegar legados e faltam mãos para catalogar em profundidade. “Tudo está arquivado, mas não há mais de 25% do acervo documental da FAL com um nível de descrição aceitável para as finalidades de um centro documental como o nosso”.

Caixas e caixas que seguem esperando que um arquivista descubra seus secretos, a vincule com outras muitas ou a que um investigador se fixe nela para puxar o fio da história. E é que até Yuncler chegaram no ano passado 347 consultas de arquivo, um arquivo que não para de crescer devido à maior visibilidade da Fundação, ao trabalho continuado de divulgação que fazem desde ali e a vontade de saber e conhecer da sociedade. “Algumas consultas se resolvem com um correio eletrônico, mas outras se fecham com um acompanhamento permanente do investigador e muitos encontros de consultas presenciais. Os peticionários são de perfil muito diverso, desde investigadores vinculados à universidade a familiares de antigos filiados. Também jornalistas, documentaristas e militantes do movimento libertário interessados em diversos temas”. Figuras que coincidem, em muitos casos, com os doadores deste material: sindicatos da CNT, coletivos libertários, investigadores afins, sócios da FAL e antigos militantes.

Espólio e memória

Um trabalho de formiguinhas que não foi fácil de levantar. O franquismo passou como um rolo compressor pelos restos do movimento libertário e suas marcas, algo que não foi aliado do todo uma vez que o ditador morreu. “São muitas as penalidades que teve que passar o movimento libertário desde a perda da Guerra Civil. O espólio e destruição de nosso patrimônio documental foi uma dessas consequências”, assente Cruz. A batalha para recuperar o que ao movimento libertário pertence chegaram com a Transição, quando em ‘democracia’ se poderia recorrer a batalhar pelo patrimônio histórico. “Muitos companheiros lutaram para que nossos fundos depositados no Instituto Internacional de História Social de Amsterdam seguissem sendo propriedade da CNT e puderam ser consultados na Espanha através de uma cópia microfilmada que é a que conservamos na FAL”. Sem dúvida, uma grande batalha que viu como se multiplicavam as frentes. Concretamente, o arquivista recorda a entrega à FAL dos fundos da CNT depositados na Fundação Pablo Iglesias. “Chegaram depois de que Narcís Serra, sendo Ministro de Defesa do PSOE, decidiu devolver a esta fundação boa parte da documentação das organizações obreiras roubadas pelo franquismo e arquivada no Arquivo Militar de Ávila”.

Uma vez que esses arquivos são depositados, chegam não só o objetivo de ter pessoal para documentá-los e arquivá-los, mas sua conservação e inclusive reparação se fosse necessário. “Temos que interiorizar que a documentação gerada pelo povo, pelos trabalhadores e trabalhadoras, tem que perdurar durante séculos para poder testemunhar suas lutas, suas realizações, seus acertos e erros”, reflete Cruz. Necessita-se muitos materiais, condições muito concretas e especialistas para uma correta conservação. “Por um lado tentamos melhorar os suportes de conservação da documentação quando se pode. É algo que fizemos, por exemplo, com parte de nossos fundos fotográficos. Por outro lado, aproveitamos as consultas de investigação para digitalizar os documentos em mal estado que nos solicitam para consulta, deste modo se evita sua manipulação posterior e se favorece sua conservação”.

Dentro destes fundos, os mais frágeis podem chegar a ser os mais importantes, como as publicações jornalísticas ou a correspondência. “A imprensa era fundamental em todo o movimento obreiro, também no movimento libertário. Servia como meio de propaganda, mas também como espaço para veicular debates, formar os leitores, polemizar com outros movimentos, coesionar a organização, etc”, comentam desde a FAL. O mesmo ocorria com os cartazes e os demais elementos gráficos. Ícones da luta obreira que chegaram a nossos dias graças a sua conservação.

Também está a correspondência, tão importante para os investigadores. “As séries de correspondência sempre são úteis para as investigações biográficas, mas também para “encarnar” a história com maiúsculas e os grandes processos. Essa humanização e subjetivização dos processos históricos sempre resulta interessante para pôr em questão certos relatos monolíticos. A correspondência aporta um valor de contraste que, em muitos casos, ajuda a complexificar ou relativizar o relato histórico. E isso sim contar com que, em algumas ocasiões, a documentação gerada no âmbito do privado nos permite impugnar a prevalência de certos valores hegemônicos na esfera pública. Por isso é importante, também, para a história das mentalidades”.

Redes internacionais, apoio mútuo pela memória

Todo este titânico esforço seria maior se a FAL não contasse com apoios de outros centros libertários ou arquivos históricos. É o caso da Federação Internacional de Centros de Estudos Libertários (a FICEDL, em suas siglas em inglês) ou a IALHI (uma rede internacional de centros documentais para a história do movimento obreiro, à qual pertence, por exemplo, o IISH de Amsterdam). “Também colaboramos com outros arquivos, tanto públicos como privados, para levar adiante iniciativas de divulgação e resolver consultas de investigação. Por outro lado, nos relacionamos de maneira habitual com as associações de memória, já que frequentemente recebemos consultas de familiares de antigos filiados à CNT ou nos pedem assessoramento específico relacionado com temas de história libertária”.

Qual seria o objetivo do Arquivo Histórico de Yuncler?: “Custodiar, estudar e divulgar o patrimônio documental do movimento libertário e de boa parte do movimento obreiro, especialmente o empreendido pelos homens e mulheres vinculados ao anarquismo e ao anarcossindicalismo”. Explica Juan Cruz: “A documentação que conservamos dá conta de uma história incômoda para o poder, a que nos conta que é possível organizar-se à margem do Estado e do Capital. Verifica que é possível uma sociedade de pessoas livres e autoemancipadas”, e recorda que “manter esse legado vivo é uma responsabilidade coletiva, que nos incumbe a todos e todas as militantes”.

Fonte: https://www.cnt.es/wp-content/uploads/2020/10/425-WEB-1.pdf

Tradução > Sol de Abril

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curta noite
perto de mim, junto ao travesseiro
um biombo de prata

Buson

[França] Políticas de memória e o direito à memória

Quer a memória seja “cívica” ou uma “cultura”, o problema é a incompatibilidade irredutível entre “políticas de memória” e o “direito à memória”.

O projeto de lei sobre “memória democrática”, apresentado pelo governo de “coalizão progressista” para “reparar e reconhecer a dignidade das vítimas”, abriu um interessante debate sobre o objetivo das “políticas públicas de memória democrática” no atual contexto político espanhol.

Uma questão controversa que levou os historiadores Jorge Marco e Fernando Hernández Holgado a se pronunciarem em dois artigos recentes: no primeiro para “uma nova memória cívica”(1) que dá “um novo significado” aos discursos do franquismo e os coloca “em um novo marco narrativo”, e no segundo para uma “cultura da memória”(2) que “não silencia ou instrumentaliza as memórias” e promove o “reconhecimento das vítimas”.

Bem, embora eu pudesse compartilhar estes dois pronunciamentos, o problema é que eu não só considero sua implementação institucional utópica no contexto da atual batalha política sobre as “políticas públicas de memória democrática” e o enraizamento na “batalha de narrativas”, mas também contraproducente esperar dessas “políticas” a implementação cidadã da “memória cívica” e da “cultura da memória”. Como esperá-lo num contexto em que os Pactos de Transição “amarrados e bem amarrados” ainda prevalecem, e em que os Poderes de fato que a Democracia herdou da Ditadura ainda estão tão presentes devido à falta de uma ruptura institucional com ela?

Naturalmente, o fato de não compartilhar estes pronunciamentos não é um obstáculo para considerar pertinente a argumentação que levou à sua formulação. E ainda mais quando compartilhamos com os autores a mesma “insatisfação” com os argumentos que estão sendo apresentados em relação a este projeto de lei e também concordamos com a necessidade de “reconhecer as complexidades do passado e as diferentes lógicas de violência que operaram na guerra espanhola”. Não apenas para dar aos discursos do franquismo “um novo significado e colocá-los em um novo quadro narrativo”, mas também para que a “memória cívica” e a “cultura da memória” não ignorem os “aspectos desconfortáveis do passado” e sejam a expressão de uma “memória verdadeiramente inclusiva” e “proativa na defesa do patrimônio democrático material e imaterial da luta contra a ditadura”.

Mas considerar a diferença entre as duas propostas como sendo relevantes e puramente semânticas não significa que compartilhamos seu propósito de apresentá-las como a base das “políticas públicas de memória democrática”. Um propósito – estabelecer o que deve ser feito hoje em “termos de políticas de memória” – que me parece contradizer a vontade e a necessidade de colocar o “direito à memória” na “esfera pública e cidadã, não na esfera institucional”. Vontade e necessidade que eu compartilho.

“Políticas de memória” e “o direito às memórias”

É por todas estas razões que considero necessário ir além da proposta de uma “política pública de memória”, que hoje se autodenomina “democrática”, para demonstrar a incompatibilidade irredutível entre as “políticas de memória” e o “direito à memória”. E que devemos fazê-lo porque é óbvio que o objetivo das atuais batalhas políticas entre a “direita social, midiática e política” e a “esquerda social, midiática e política” não é garantir o “direito à memória”, mas impor a narrativa memorialista de cada um a partir das instituições do Estado.

Além disso, não é sequer possível, em tal contexto e com o peso da Transição que impôs uma “reconciliação nacional” cheia de “silêncios, esquecimento e impunidade”, acordar uma “política de memória” que concilie as “duas memórias”: a de uma “apologia memoriale” das vítimas na zona republicana e a de uma “damnatio memoriae” das vítimas durante o regime de Franco. Como evidenciado pela reação da “direita social, midiática e política”, à apresentação do Projeto de Lei do Governo de “coalizão progressista”, e as medidas tomadas pelos governos regionais nas mãos de PP, VOX e Ciudadanos contra os símbolos memorialistas republicanos.

É, portanto, insensato pensar que a “direita” ou a “esquerda” – que são as únicas que podem impor “políticas de memória” – desistirão de impor sua própria narrativa e seus próprios interesses.  E ainda mais sabendo que as políticas de memória “dosam adequadamente o passado à maior glória daqueles que agora governam”, como reconhece o autor do artigo no qual é proposta uma “cultura da memória”.

Sob tais condições, como promover a “memória cívica” e a “cultura da memória” e pensar como “políticas de memória”?

Especialmente quando, apesar de defender – seguindo o filósofo Reyes Mate (3) – “a criação de uma ‘cultura da memória’, essencialmente cívica mas apoiada por uma ‘estratégia teórica e institucional'”, reconhece-se que o principal obstáculo para garantir o “direito à memória” e apoiar “as atividades dos coletivos memorialistas” é “a politização do debate sobre a memória na forma de uma ‘batalha cultural’ de uns contra os outros”. Uma batalha que só pode ser superada “na esfera pública e cidadã”, confrontando “as diferentes memórias das testemunhas da guerra e da ditadura” através da recuperação do passado por “associações memorialistas e grupos de cidadãos interessados na lembrança” e “através de um diálogo científico contínuo” entre essas “memórias”.

Naturalmente, pode-se desejar que “políticas públicas de memória democrática” coletem e canalizem “as aspirações da sociedade civil”, incentivem “a participação cidadã e a reflexão social” e reparem e reconheçam “a dignidade das vítimas de todas as formas de violência intolerante e fanática”; mas a realidade da política e o comportamento de todas as instâncias de poder, ao longo da história e da humanidade espanhola, mostram como é utópico tal desejo e nos lembram que as “políticas de memória” sempre responderão aos interesses daqueles que detêm o poder. Portanto, não há outra alternativa senão enfrentar todas as tentativas de impor uma “memória”, admitir a existência de “memórias” e defender o “direito à memória”.  Pois, além do fato de que “conflitos entre memórias não devem nos assustar”, o que deve nos importar não é vencer a “batalha das memórias”, mas contribuir para nos aproximar da verdade histórica desse passado, para que os cidadãos possam se apropriar dele de forma crítica e pró-ativa.

Octavio Alberola

Notas:

1.- https://ctxt.es/es/20201101/Firmas/34167/Jorge-Marco-memoria-guerra-civil-dictadura-franquismo-Transicion.htm

2.- https://ctxt.es/es/20210101/Firmas/34592/memoria-jorge-marco-memorial-madrid-almeida-largo-caballero-fernando-holgado.htm

3.- http://www.pensamientocritico.org/manrey0316.htm

Fonte: https://acracia.org/politicas-de-memoria-y-derecho-a-las-memorias/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

na ordem alfabética
conseguir captar
a desordem poética

Jandira Mingarelli

[Holanda] Amsterdam: O Corona é o vírus – O Capitalismo, a crise! – Manifestação em 20 de fevereiro de 2021

Amsterdam. Uma chamada para todos se unirem à nossa manifestação antifascista e anticapitalista em 20 de fevereiro de 2021.

O vírus já vem se espalhando pelo mundo há mais de um ano. Setores inteiros da vida pública foram paralisados. A capacidade do sistema de saúde holandês foi levada ao seu limite. Enquanto isso o dinheiro público está sendo usado para resgatar grandes corporações, o sistema de saúde está sendo subfinanciado e cada vez mais privatizado. Os planos de saúde são caros e os cuidados à saúde não são acessíveis para aqueles que não podem pagar. Pessoas de grupos marginalizados e vulneráveis não podem ser tratadas adequadamente ou simplesmente não são tratadas de forma alguma. Centenas de milhares de pessoas perderam seus empregos, suas casas e seus meios de subsistência. Muitas vidas foram perdidas por conta da pandemia e da má gestão do Estado, mas isso não precisava e não precisa ser assim. Não vamos acreditar nas mentiras deles, não estamos “todos juntos nisso”. Os ricos só ficaram ainda mais ricos por conta desta crise dentro da segurança de suas belas casas, enquanto os trabalhadores (da linha de frente), os pobres e os marginalizados carregam o maior fardo e são forçados a arriscarem suas vidas.

Não é apenas a pandemia, há problemas sistêmicos com o capitalismo e o Estado. Aqui, tentaremos abordar alguns deles:

A Violência policial / racismo sistêmico

Políticas de quarentena e a pandemia em geral não afetam todas as pessoas da mesma forma. O toque de recolher só se aplica aos pobres, pois os ricos podem pagar as multas. Pessoas com jardins ainda podem sair de casa. Mas se você não tem uma casa, você não pode se isolar. Aqueles de nós que vivem em bairros de classe trabalhadora e historicamente de imigrantes, têm que lidar com maior presença da polícia e policiamento agressivo do que aqueles em bairros de classe média e ricos. Como provado, entre outras coisas, pelo ‘incidente de Toeslaglem’ (escândalo sobre benefícios), este país é institucionalmente racista. Agora o Estado está utilizando esta crise para estender ainda mais os poderes da polícia e a repressão aos nossos direitos de protestar e existir em público. Dar mais poder aos policiais só aumentará a violência policial racista. Perseguição baseada em perfis étnicos, vigilância em massa e policiamento preventivo representam uma ameaça às nossas comunidades.

A polícia não nos protege, nós protegemos uns aos outros. Acabem com o racismo institucional e a polícia holandesa / estado de vigilância. Eles não estão aqui para nos ajudar, mas para proteger os ricos.

Moradia

Em uma das cidades mais caras da Europa, a situação de moradia piorou bastante durante a pandemia. A privatização do mercado imobiliário atingiu um ponto em que as moradias sociais estão sendo vendidas para o setor privado. Os preços habitacionais devem subir novamente este ano, as grandes empresas estão conseguindo cortes nos aluguéis enquanto nós lutamos para pagar os nossos. Até mesmo os subúrbios para os quais fomos empurrados estão sendo gentrificados e se tornando inacessíveis. Ao mesmo tempo, casas em todos os lugares da cidade são intencionalmente deixadas vazias para que os ricos especulem. Pessoas sem casa não têm garantia nenhuma e abrigos estão sendo fechados. Os espaços sociais que oferecem vagas às pessoas afetadas enfrentam graves problemas financeiros, estão sendo despejados e a solidariedade está sendo criminalizada. Por causa da quarentena, a violência doméstica está aumentando, assim como graves problemas de saúde mental. Queremos moradia adequada para todos.

Meio ambiente

Podemos pensar que, porque muitas pessoas pararam de viajar, as emissões de C02 estão diminuindo e que, pelo menos, isso é um desenvolvimento positivo para o meio ambiente. No entanto, as escolhas individuais de consumo de estilo de vida não são responsáveis pela crise climática. A crise é o capitalismo. O capitalismo é incrivelmente ineficiente. Por exemplo, os aviões continuam voando vazios, porque é mais barato fazer isso do que deixá-los parados nos hangares. Parece ridículo? – Porque é!

O sistema capitalista continuará drenando os recursos do planeta, com pandemia ou não. Tudo deve ceder a maximização do lucro. Regulamentações do governo não vão impedir nada disso. Grandes multinacionais estão trabalhando em conjunto com os Estados. Desta forma, não pode haver uma resposta efetiva à crise climática. Temos que nos livrar dessa ideia de crescimento infinito. Temos que nos livrar dos Estados e do capitalismo. Não pode haver crescimento infinito em um planeta finito.

Fronteiras europeias

Depois que o campo de refugiados superlotado de Moria na ilha grega de Lesbos pegou fogo no ano passado, a UE continua a ignorar intencionalmente o fato de que humanos morrem em suas fronteiras todos os dias. O que se vê é resistência da guarda costeira europeia da FRONTEX, condições desumanas nos campos de refugiados durante uma pandemia, afogamento de pessoas enquanto o salvamento marítimo e a solidariedade nas fronteiras são criminalizados, e a racista UE cooperando com Estados como a Turquia e a Líbia para impedir que as pessoas atravessem as fronteiras de qualquer forma. Desde o início da pandemia do Corona, a situação só piorou. A UE não vai mudar, temos de nos levantar para que as mudanças aconteçam.

Conspirações e nazistas

A extrema direita tenta aproveitar essa incerteza para mobilizar as pessoas em seu benefício. As teorias da conspiração não revelam o verdadeiro problema sistemático. O capitalismo não é uma conspiração, é completamente real e observável e pode ser abolido. Nazistas se mobilizando? – Não enquanto estivermos aqui!

Economia

Temos todos os motivos do mundo para estarmos zangados: embora a classe alta consiga ficar em casa, ainda temos que trabalhar em condições perigosas por um baixo salário – somos nós que trabalhamos ilegalmente, somos os operários industriais, os artesãos, os operários de varejo, entregadores, taxistas, enfermeiras. Somos nós que nos certificamos de que todos tenham saúde, de que a comida ainda chegue aos supermercados – somos as assistentes sociais, as educadoras, as equipes de limpeza e as profissionais do sexo. Mas também somos pessoas que não são holandesas nativas, que não são atendidas porque não temos os mesmos direitos ao trabalho ou acesso aos serviços sociais. Somos os que não têm o suficiente, nem dinheiro, para comprar um apartamento neste mercado imobiliário ridículo. Somos nós que não temos cidadania e, portanto, não temos direitos. Somos os alunos que lutam para pagar as altas mensalidades. E agora somos os trabalhadores desempregados lutando para sobreviver. Não criamos a crise, mas devemos agora arcar com as consequências? Devemos “apertar os cintos” porque agora estamos “todos no mesmo barco”? Sim, estamos agora todos nós no mesmo barco – mas os capitalistas, patrões, proprietários, políticos e administradores estão em outro.

Crise do Corona? Não às nossas custas!

Entre em ação – vamos fazer os ricos pagarem pelo Covid 19!

Outro mundo é possível!

20.02.2021 Amsterdam, Lugar a ser anunciado(Use máscaras e tente manter o distanciamento social)

Nossa conclusão: Moradia adequada para todos, apropriem-se dos ricos, proprietários ficam com o nosso aluguel! Mudem suas fechaduras, resistam aos despejos, resistência da comunidade; Parem agora com o estado de vigilância e a violência policial. Vamos nos defender e proteger uns aos outros. Teóricos da conspiração anti-semitas e QANON-ers são perigosos e não representam uma resposta para a crise. Racistas, anti-semitas, policiais e nazistas fora de nossas ruas! Destrua o capitalismo antes que ele destrua a terra. Façam os ricos pagarem pelo Covid-19

A assembleia da Ação Anticapitalista de Amsterdam

Fonte: https://acaamsterdam.noblogs.org/post/2021/02/09/corona-is-the-virus-capitalism-is-the-crisis/

Tradução > A. Padalecki

agência de notícias anarquistas-ana

À sombra, num banco,
folha cai suave
sobre meu cabelo branco

Winston