[Romênia] 14ª Feira do Livro Anarquista dos Bálcãs

Após dois anos de pausa por causa da pandemia, a 14ª edição da Feira do Livro Anarquista dos Balcãs acontecerá este ano em Cluj/Kolozsvár, Romênia, entre os dias 24 e 26 de junho de 2022.

O evento reúne anualmente grupos e indivíduos ativos na cena anarquista/autônomo/antiautoritário nos Bálcãs e camaradas de outras áreas.

O objetivo da feira não é apenas criar um espaço para divulgar informações escritas produzidas por coletivos editoriais autogestionados e outros grupos, mas também conectar diferentes iniciativas e incentivar debates sobre questões comuns que enfrentamos em nossos contextos locais.

Desde 2003, a BAB se realizou graças ao envolvimento de todos os participantes de uma forma auto-organizada.

Leia mais sobre as edições anteriores aqui: https://bab14.blackblogs.org/history/

Para nos ajudar a organizar a feira de livros e finalizar o programa a tempo, por favor, confirme sua participação respondendo aos pontos abaixo e nos envie suas sugestões até o final de maio, no bab14 [arroba] riseup [ponto] net.

  1. Quem é você / qual é o seu grupo, quantas pessoas irão participar?
  2. Como você gostaria de participar? Você quer organizar uma apresentação, uma discussão, uma oficina, um concerto ou alguma outra coisa?
  3. Você precisa de um estande / mesa para os materiais que você vai trazer? Qual o tamanho?

> Por favor, verifique mais informações sobre transporte e acomodação, aqui: https://bab14.blackblogs.org/logistics/

> Todos são bem-vindos para chegar um dia antes, no dia 23 de junho, e ficar mais tempo após o término da feira de livros.

> Se você não puder participar do evento e precisar de ajuda com a distribuição de suas coisas, entre em contato conosco.

> Ajude a promover a feira de livros compartilhando o blog BAB #14: https://bab14.blackblogs.org

Tradução > dezorta

agência de notícias anarquistas-ana

estrela cai na noite
conto as outras no céu:
não falta nenhuma

Alaor Chaves

“Feministas Libertárias: práticas contemporâneas de resistência”

O próximo encontro do Grupo de Estudos de Anarquismos, Feminismos e Masculinidades, do Centro de Cultura Social (CCS), será presencial, dia 02 de abril, sábado, das 16h às 18h. O texto base para a conversa será “Feministas Libertárias: práticas contemporâneas de resistência”. Para acessá-lo, entre em tinyurl.com/GE0422. Os encontros do grupo são gratuitos e abertos para todas as pessoas interessadas. Teremos intérpretes de Libras.

Em razão da vigência da epidemia de Covid-19, somente pessoas vacinadas podem participar do encontro. Pedimos que mantenha a máscara, traga sua garrafinha de água, e respeite o distanciamento e as orientações sanitárias de praxe. Estará disponível álcool em gel e pia para lavar as mãos.

Lembrando que nos orientamos pelos princípios anarquistas, tais como autogestão, apoio mútuo, internacionalismo, anticapitalismo e não partidarismo, não toleramos qualquer tipo de discriminação de raça, gênero ou sexualidade.

FB: https://www.facebook.com/events/319690953558533

agência de notícias anarquistas-ana

na barra sul do horizonte
estacionavam cúmulus
esfiapando sorvete de coco

Guimarães Rosa

 

[Suíça] “Resenha do filme ‘Unrest’: uma meditação sublimemente peculiar e divertida sobre anarquia e relojoaria na Suíça dos anos 1870”

O deleite intelectualmente delicado e formalmente desafiador de Cyril Schäublin o destaca como um novo e único talento cinematográfico.

Por Jessica Kiang | 15/02/2022

Em um vale no canto suíço de Bern, dominado pela indústria relojoeira local, o primeiro Congresso Internacional Anarquista aconteceu em 1872. E, dentro de um relógio mecânico tradicional como os que as fábricas de Bern produziam na época, há uma pequena roda espiral que equilibra o mecanismo chamado unrueh — a inquietação.

Essa coincidência delicada de terminologia ecoante no máximo pode causar um “huh” daqueles de nós que gostam de jogos de palavras e história social e contas do Twitter que postam exclusivamente imagens de máquinas em funcionamento. Mas, para o diretor suíço Cyril Schäublin, torna-se o cerne de “Unrest,” uma excentricidade lindamente leve brilhando com a ideologia, fotografia, cartografia, telegrafia, celebridade, solidariedade, o fluxo do capital, a rebeldia do tempo e a loucura um tanto que nobre de tentar domar um conceito tão pesado em algum pedaço de latão pequeno o suficiente para caber em um bolso de colete.

Pyotr Kropotkin era um polímata russo que se tornou uma figura central no movimento anarco-comunista do final do século XIX. Em “Unrest”, ele é obliquamente apresentado por um pequeno nó de damas russas usando renda e carregando sombrinhas brancas, e apertando chapéus floridos contra o vento em suas cabeças. Elas falam sobre “o coitado do Pyotr” — existiam rumores que ele tinha se apaixonado pela fotografia de uma mulher de Papua Nova Guiné que foi executada após ter cortado a garganta de um oficial inglês que tentou beijá-la — considerando que agora está visitando “algum vale na Suíça,” onde se tornou anarquista. A (não-)ação está então na Suíça, em que Pyotr (Alexei Evstratov) chega na cidade relojoeira de St. Imier ostensivamente para conduzir uma pesquisa para um mapeamento mais preciso da região.

St. Imier, em particular a indústria relojoeira, já é um foco do ativismo anarquista. Os trabalhadores e trabalhadoras, em sua maioria mulheres, têm um proto-sindicato que se alinha globalmente com outras organizações — enviando uma porção de seus montantes para ajudar com as greves dos trabalhadores ferroviários de Baltimore, entre outras causas. Isso não é um comportamento bem visto pelo diretor da fábrica, Roulet (Valentin Merz), que lança um édito afirmando que quaisquer trabalhadores afiliados devem ser dispensados. Entre aqueles que perdem assim seus empregos está a jovem e bela Josephine (Clara Gostynski). Ela conhece Pyotr. Eles vão caminhar. Assim como anarquistas são orgulhosamente antiautoritários, “Unrest” também se rebela lindamente contra a tirania das coisas que acontecem no filme.

Ao invés disso, temos uma grade loucamente complexa de detalhes e esboços que acontecem na cidade e ao seu redor. Há também um fotógrafo que vende fotos de figuras bem conhecidas, ajustando o preço à medida que consegue prender a atenção do freguês. Há um par de guardas afáveis encarregados de manter a paz no que talvez seja o lugar mais pacífico da Terra. E há a ironia ressonante de que dez anos antes estabeleceu-se o horário padrão, sendo que a plataforma relojoeira que é St. Imier funciona em quatro relógios diferentes: o da fábrica, o municipal, do telégrafo e da ferrovia. Pode-se chegar no trabalho mais cedo e, de alguma forma, ainda assim estar atrasado.

Esse é apenas o segundo filme do autor, diretor e editor Schäublin, após o incrível “Those Who Are Fine” de 2017, e ele já estabeleceu uma estética excêntrica única. Encenado por um elenco amador e, em sua maioria, local, esse filme de época tem uma modernidade casual, as personagens com frequência são enquadradas no limite extremo do brilhantismo de Silvan Hillmann, em imagens sarapintadas, em composições que são em sua maioria florestas ou céus, ou beirais de construções.

Uma grande porção do diálogo, como naquele primeiro filme, é pontualmente transacional e numérica: pessoas gritando listas de salários, ordenando quantidades e medidas de distância. Mas onde “Those Who Are Fine” usou números de série e códigos de banco como uma expressão excepcional de alienação da interação humana moderna, aqui o dispositivo funciona calorosa e caprichosamente. As ladainhas murmuradas de “Unrest,” reluzindo contra o panorama sônico de vento e da natureza do designer de som Miguel Cabral Moraes, são surpreendentemente relaxantes.

Contra a era volátil de fermento ideológico sendo investigada, o clima do filme é marcado por serenidade e silêncio perdido em pensamentos tão serenos que se pode ouvir as batidas de um relógio a cem passos de distância. Relatos de violência são recebidos com não mais do que uma piscadela ou uma sobrancelha levantada. Encontros políticos são mais propensos a culminar em uma música cantada por um coral de vozes puras do que em conflitos entre homens barbados em bares. No bar em si, um cliente não concorda que o “mapa anarquista” do vale seja pendurado na parede e o assunto é resolvido por uma votação rápida. O mapa fica. Os patronos voltam às suas bebidas. Pyotr e Josephine tornam o local uma lenda. E “Unrest” sai como entrou: habilmente equilibrado, embora, por pinças de precisão sob uma lupa, entre as ideias em sua mente e o brilho maquiavélico em seu coração.

Fonte: https://variety.com/2022/film/reviews/unrest-review-1235175382/

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Escurece rápido.
Insistente, a corruíra
cisca no quintal.

Jorge Fonseca Jr.

[Espanha] Documentário | Gulag, o inferno nas prisões de Putin

Documentário de 26 minutos, da série “Audiovisual, Directa”, produzida por Rojo & Negro da CGT, e escrita e dirigida pelo repórter de investigação Ferran Barber.

“O grande segredo de Putin é a tortura”, diz Vladimir Osechkin, ativista refugiado em Biarritz. Este russo foi comparado a Julian Assange porque ele teve a coragem de criar uma organização dedicada a expor a violência e a brutalidade que prevalece no sistema penitenciário russo e de Donetsk, bem como a corrupção endêmica entre os serviços de segurança do país. Ao concluir este documentário, alguém próximo ao Presidente da República Chechena colocou a cabeça dele a prêmio, oferecendo 100.000 euros a quem o matar.

Antes de se exilar na França, Vlad trabalhou porta com porta com o líder da oposição Aleksei Navalni e até interveio e denunciou a tortura nas prisões ante a própria duma, o parlamento russo. Osechkin é um dos principais nomes na Rússia no campo dos direitos humanos, uma das poucas pessoas que ousaram denunciar a podridão da ditadura de Putin até as últimas consequências.

Esta investigação fornece provas inquestionáveis de que estupro, tortura e assassinato são uma parte estrutural do sistema prisional, não apenas na Rússia, mas também nos territórios ocupados de Donetsk. Além dos testemunhos do mencionado Osechkin, há os de vários jovens anarquistas russos que tiveram que fugir de seu país e refugiar-se em Kiev para evitar cair nas redes do FSB [Serviço Federal de Segurança russo], o herdeiro direto da KGB.

Em meio à invasão russa, o documentário tenta mostrar a essência autoritária do governo dos agressores russos e a perseguição de Putin a qualquer forma de dissidência.

>> Para assistir o documentário (26:10), clique aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=AyeKb9uqsos

Fonte: https://cgt.org.es/gulag-infierno-en-las-carceles-de-putin-documental/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Noite fria, escura,
no asfalto negro da rua
late o cão vadio.

Fanny Dupré

[Internacional] Discos contra a invasão do Grupo de Solidariedade Musical da Cruz Negra Anarquista

Depois que as bombas começaram a cair nas cidades ucranianas para a invasão das tropas russas, músicos antiautoritários ao redor do mundo iniciaram uma colaboração com membros do coletivo Cruz Negra Anarquista para dar uma reposta. Agora, dois álbuns de coletâneas foram lançados para levantar dinheiro para anarquistas que estão lutando contra a invasão nas linhas de frente na Ucrânia, e atrás das linhas na Rússia:

https://abcmusicalsolidarity.bandcamp.com/

A invasão da Ucrânia pelos militares russos exige que Putin exerça uma violência nos dois lados do campo de batalha. Enquanto seus bombardeios e artilharia atingem as cidades ucranianas, e seus tanques rolam sobre os campos e atolam na lama da primavera, o estado russo mantém a disciplina da guerra em casa. A OMON [Unidade Móvel de Propósitos Especiais] e o FSB [Serviço Federal de Segurança] perseguem os manifestantes antiguerra. Quando conscritos se recusam a participar em sua guerra imperialista, recebem ameaças e punições dos seus oficiais.

Em Kiev e outras cidades, o movimento anarquista ucraniano – que inclui muitos camaradas exilados, russos e bielorrussos – pegou em armas. Eles estão lutando para defender suas comunidades, seus camaradas, e uma visão liberatória do futuro da Ucrânia, separados das aspirações da direita e do estado. Enquanto isso, ao redor da Rússia, nossos camaradas tomaram as ruas seja de dia em marchas massivas, ou à noite para espalhar a verdade sobre a guerra através de meios criativos, ou para fazer ações mais diretas. Um escritório de conscrição foi incendiado próximo a Moscou. Nas palavras daquele heróico incendiário, “Deixe [os oligarcas] saberem que seu próprio povo os odeia e vão extingui-los. Logo a terra começará a queimar sob seus pés. O que os aguarda em casa é o inferno.”

Apoiando a luta contra a invasão no front e atrás das linhas, nós esperamos nutrir as sementes do movimento que pode mudar o rumo dessa guerra entre nações em uma revolução contra a classe dominante – uma nova primavera de autonomia e solidariedade tomando a estepe.

O primeiro álbum, “The Deserter”, é para levantar fundos para a Cruz Negra Anarquista em Moscou. Assim apoiamos a defesa jurídica e a proteção geral daqueles dentro da Federação Russa que estão resistindo à guerra e lutando contra a opressão do estado russo. Apresentando uma papoula negra e um “Z” riscado do movimento antiguerra na capa, o disco trás músicas sobre prisioneiros políticos, inflação, mães de soldados, barricadas, e claro, deserção.

O segundo álbum, “Mother Anarchy”, está levantando fundos para a Cruz Negra Anarquista de Dresden (Alemanha), para ser dirigido ao seu trabalho de apoio ao Comitê de Resistência, uma unidade anarquista dentro das forças de Defesa Territoriais, formada por ativistas antiautoritários na Ucrânia. Começando com a música “Mother Anarchy” escrita por Nestor Makhno, o disco nos leva em uma jornada através do hip hop Sul Africano, lo-fi, punk alemão, ska, e versões makhnovistas de baladas cossacas.

A lineup inclui alguns nomes como Soundz of the South, Darryl Cherney, the Window Smashing Job Creatorsm Maske, Soho, e um coletivo folk formado para esse projeto, que atende pelo pseudônimo de Tchakanka.

Os discos estão sendo vendidos pelo Bandcam ABC Musical Solidarity por no mínimo 8$ cada, com a opção de pagar a mais para apoiar a causa.

Fonte: https://north-shore.info/2022/03/16/albums-against-the-invasion-from-anarchist-black-cross-musical-solidarity-group/

Tradução > 1984

agência de notícias anarquistas-ana

pote virado –
a terra e o gato bebem
o leite derramado

Milijan Despotovic

[República Tcheca] Polícia invade a ocupação Bublina em Praga

Na quarta-feira, 9 de março de 2022, a polícia fez uma batida na ocupação Bublina em Praga e conduziu uma busca. Quatro pessoas, um cachorro e um gato estavam no local e na área no momento da batida. A unidade armada da polícia arrombou várias portas, mas não feriu as pessoas e ninguém recebeu acusações. O mandado foi aprovado pelos tribunais sob a suspeita de que uma das pessoas presentes na ocupação tinha tomado ações violentas contra uma autoridade pública e também por danos a propriedade privada. A batida supostamente intencionava recolher provas seguras dessas ocorrências. Durante a busca, que levou muitas horas, computadores, celulares, documentos, uma pistola de gás e tintas em spray foram confiscadas. A polícia então se retirou do local e deixou a ocupação sem supervisão. Foi então reocupada.

As suspeitas levantadas no protocolo têm relação a vários protestos que aconteceram no ano passado. Os protestos foram contra a repressão policial brutal na qual Stanislav Tomáš faleceu após policiais forçaram-lhe ao chão e ajoelharam-se próximo ao seu pescoço por vários minutos.

O primeiro evento investigado foi a queima da barricada próxima a um encontro público em 26 de junho de 2021. O segundo evento foi uma explosão e incêndio nos arredores de Teplice (região norte mais pobre de Bohimia) em 12 de julho de 2021. O terceiro evento investigado foi o envio de um e-mail com ameaças sobre a suposta colocação de artefatos incendiários na delegacia de Teplice e na sede da Agrofert (empresa de Adrej Babiš que era um primeiro-ministro tcheco na época).

A polícia tcheca assediou muitas pessoas nos últimos anos e as acusaram de atividades similares. Por exemplo, os casos Phoenix I e Phoenix II. Esses casos não se sustentaram nos tribunais porque os investigadores geralmente não tinham evidências para provar suas acusações. Mesmo desta vez não basearam suas suspeitas em algo além de especulação. A “prova” é para ser, por exemplo, que o suspeito, como o perpetrador, usa as plataformas publicamente disponíveis riseup.net e noblogs.org. Uma outra “prova” é para ser uma correspondência de altura, ou duas letras similares em um cartaz pintado com spray na rua e uma tatuagem na perna de um dos suspeitos. O mais ridículo é que a maior pista é a presença do suspeito no encontro público de Teplice no dia 26 de junho, quando a barricada fora incendiada.

Parece que a falha dos últimos casos não ajudou a polícia tcheca a refletir sobre sua própria estupidez. Estão provavelmente seguindo a estratégia: da última vez tínhamos nada e não funcionou, mas, se desta vez tivermos ainda menos, com alguma esperança vai funcionar.

Se você quiser demonstrar seu apoio, escreva ao e-mail (bublina @ riseup.net).

bublina.noblogs.org

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/02/republica-tcheca-o-que-bublina-e-e-o-que-ela-nao-e/

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Sobre verde imenso
um ponto saltitante
pássaro cantante

Winston

[Reino Unido] Londres: Ataque ao Supermercado Automatizado

Desde o primeiro momento, a automação nunca foi ‘economia de trabalho’. Como as máquinas são mais rápidas, mais eficientes, mais automáticas, “mais inteligentes”, somos simplesmente forçados a trabalhar com a maior velocidade e intensidade que a máquina é capaz agora.

Os primeiros “supermercados totalmente automatizados” começaram a aparecer no Reino Unido. Como muitas outras invasões da paisagem urbana, que em Londres já é particularmente uma fortaleza sob constante vigilância, eles são recebidos com mais indiferença. A crise constante tem um efeito cansativo, cada nova incursão tem uma justificativa pronta, para mais ‘eficiências’, ‘monitoramento’, para uma ‘cidade mais inteligente’.

De fato, esses supermercados “sem caixas” são uma imagem clara do que está por vir, de uma reestruturação hipercontrolada e hiperexplorativa que estamos apenas na fase inicial. Estes lugares onde as pequenas ilegalidades – que se tornam cada vez mais necessárias como punição econômica e linha de ditar sob a forma de aumentos de preços em bens essenciais, bem como faltas normalizadas – são quase impossíveis de escapar.

Sua aparição no cenário urbano funciona para exibir inteligência superficial, reconhecimento facial e para CAPTURAR E HUMILHAR, tanto aqueles que fazem compras lá, quanto aqueles que ‘trabalham’ lá, agora em condições mais competitivas, e que estão sempre em filmagem, otimizando a ‘produtividade’: policiamento total tanto de ‘trabalhadores’ quanto de ‘consumidores’!

Na madrugada de segunda-feira, 28 de fevereiro, foi tomada a decisão de fazer um corte no espetáculo cintilante que estes laboratórios de controle social usam para se publicitar. Em Greenwich, um supermercado Aldi recém-inaugurado e totalmente automatizado, foi alvo de uma decisão. Com pedras, martelos e tinta, toda a fachada de vidro foi quebrada e deformada.

Espera-se que isto apresente uma abertura através da qual a próxima fase do governo por tecnologia possa ser revelada como algo a ser compreendido com ambas as mãos, com métodos facilmente reproduzíveis, em uma estrutura anarquista de ataque.

uns rebeldes noturnos x x

Fonte: https://actforfree.noblogs.org/post/2022/03/14/london-uk-attack-on-automated-supermarket/

Tradução > dezorta

agência de notícias anarquistas-ana

A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
a morte das cigarras

Matsuo Bashô

[Reino Unido] Todos da direita são oligarcas: Autonomous Winter Shelter celebra nova temporada de anarquia

Autonomous Winter Shelter (Abrigo Autônomo de Inverno) no centro de Londres está comemorando mais de 3 meses de ação direta auto-organizada que facilitou a permanência segura de dezenas de moradores de rua, o serviço de centenas de refeições quentes e a distribuição de roupas, remédios e produtos de higiene desde que um antigo albergue de St. Mungus foi ocupado por anarquistas em dezembro passado. Foi apreendido em resposta ao fracasso dos lacaios do Estado e do 3º setor que alimentam e sustentam a miséria daqueles que são reduzidos a vassalos e para mostrar o que é possível quando as pessoas tomam o poder nas próprias mãos. Foi organizado para provar o que é possível com ajuda mútua e respeito mútuo.

A St. Mungus faliu quando vendeu sua propriedade para os especuladores imobiliários OneHousing, quando trabalhavam com a agência de fronteira para deportar refugiados de outros países. A direita falhou quando destruíram os serviços de apoio social na última década. Todos os governos e entidades estruturadas verticalmente conseguem apenas reproduzir os valores podres do capitalismo, mantendo seu domínio e monopólio da violência. Ocupamos e desafiamos a lembrar aos políticos e aos famintos de poder que nós, o povo, sabemos que todos os conservadores são oligarcas e todos os políticos parasitas.

Hoje é o primeiro dia de uma nova temporada, a comunidade autônoma mais ampla e os residentes têm o prazer de anunciar a renomeação do abrigo de inverno como Autonomous Spring Shelter (Abrigo Autônomo de Primavera), ou A.S.S.! (TM/R/C todos os direitos reservados).

Desde a inauguração da A.S.S. em dezembro de 2021 como uma solução de curto prazo para uma crise habitacional de longo prazo, houve drama e festas, pão e circo, política e polícia, e ainda medidas iguais de esperança, boa vontade e prazer. Os iniciadores do projeto não esperavam que durasse 3 dias, mas 3 meses depois, ainda estamos aqui em Gray’s Inn Road, organizando e agitando contra a opressão e a anarquia, tentando resolver nossos próprios problemas através da autodeterminação e cooperação e cocriação. Tendo perdido no tribunal em janeiro, os moradores esperam sob barricadas para resistir ao despejo desde então, com o apoio de moradores locais irados e outros posseiros de todo o Reino Unido. A OneHousing afirmou apenas que não deseja se comunicar com os moradores e deseja apenas trabalhar com a polícia para garantir o despejo.

Como mostra a ação da semana passada dos makhnovistas de Londres contra os oligarcas, outro caminho é possível, além da dependência de instituições de caridade e governos, por meio da colaboração, coragem e desafio ousado do estado e da lógica da submissão. Em solidariedade com os povos oprimidos em todos os lugares, desafiamos a ideologia capitalista que reduz as pessoas a objetos, a serem refugiados em seu próprio país, a viver em um mundo que os ostensivamente responsáveis​​estão reduzindo a escombros, cinzas e ruínas enquanto mansões, bancos e apartamentos de luxo estão vazios.

Não pedimos, não exigimos, pegamos. Ocupamos e recuperamos uma fatia do que foi roubado de nossos povos. Nossa aposta valeu a pena, e a citamos como exemplo de apenas uma faceta do que é possível: ousar viver selvagemente, morrer livre.

A capital é fraca. Por toda parte, os povos estão se levantando, saqueando, ocupando e defendendo territórios liberados. O tempo nunca foi mais certo, mais urgente, mais necessário. Nunca antes tivemos tão pouco a perder e tanto a ganhar.

Junte-se a nós.

À medida que a guerra assola o mundo, as florestas queimam e o mar coagula, a hora de assumir o controle de nossas vidas e aspirar à libertação total está sobre nós.

Em solidariedade ao GRT e aos refugiados de todas as nações!

Para o povo da Ucrânia!

Por um verão de anarquia!

Todos de direita são oligarcas!

Putin e todos os políticos podem ir se f*der.

Máscaras emoji por @ombelinerat

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2022/03/21/all-tories-are-oligarchs-autonomous-winter-shelter-celebrates-new-season-of-anarchy/

Tradução > GTR@Leibowitz__

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/03/16/reino-unido-elite-russa-voce-ocupa-a-ucrania-nos-ocupamos-voce/

agência de notícias anarquistas-ana

Um saco de pães
Alguém remexendo
Primeiros ruídos da chuva

Satori Uso

[Itália] Roma: Contra as guerras dos patrões em todas as partes do mundo

No domingo 20 de março decidimos ir a manifestação “Juntos Pela Paz” na Piazza San Giovanni em Laterano.

Participamos, junto com a Rede Anti-Racista, com um estandarte, uma mega bandeira de paz e algumas outras bandeiras.

Como os organizadores, com um método autoritário, não nos deram espaço para um discurso, nós o tomamos sozinho, com um megafone, elogiando a deserção de qualquer um que lute as guerras dos patrões em todas as partes do mundo e denunciando a gestão Putinista de intervenções belicistas nos territórios.

Por isso, um companheiro de nosso grupo foi seguido e parado pelos policias da Digos [Divisão de Investigações Gerais e Operações Especiais] em seu caminho de casa (verificação de identidade e tentativa de intimidação com perguntas sobre sua família). Não nos curvamos à intimidação policial gritante, assim como não aceitamos o show daqueles que usam tragédias de guerra para fazer publicidade.

Grupo Mikhail Bakunin – FAI Roma & Lazio

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Sequência de clics –
Um turista japonês
Ao redor do ipê.

Teruko Oda

[Itália] Livorno: O antifascismo não vai a julgamento!

Ontem, sexta-feira, 4 de março, foi realizada a segunda audiência de um julgamento criminal envolvendo 40 pessoas no Tribunal de Livorno, acusadas de ter contestado Giorgia Meloni, expoente de Fratelli d’Italia, durante o dia 13 de fevereiro de 2018.

Naquele dia a praça se encheu de inúmeros habitantes da cidade, que sem qualquer consulta, manifestaram espontânea dissidência e desdém pela presença de um partido que remete à ditadura fascista, que ainda carrega em seu símbolo as flamas tricolores que saem da tumba de Mussolini, um partido responsável com os demais que governaram o país nos últimos 30 anos da involução autoritária da sociedade, precariedade, cortes nos gastos sociais, salários e pensões. Aqueles que se encontravam na praça naquele dia quiseram dar uma resposta clara e firme às provocações de um parlamentar que nos últimos dias havia divulgado graves declarações xenófobas após o ataque racista em Macerata por Luca Traini, um expoente da extrema direita da região de Marche que havia sido candidato à Liga e que havia tentado realizar um massacre, atirando em seis negros no centro, antes de se entregar à polícia, cumprimentando-os com os braços estendidos e com a bandeira italiana apertada ao redor do pescoço. Poucos dias depois de se gabar publicamente de que a culpa é da esquerda e procurar outras justificativas semelhantes para tal ataque, Giorgia Meloni escolheu a Piazza Garibaldi como teatro para sua visita a Livorno, o centro mais mestiço da cidade, contexto nem sempre pacificado, mas certamente vivo, vívido, densamente povoado e historicamente antifascista. Não sabemos o que ela esperava encontrar, mas lembramo-nos de vê-la atravessar a praça, balbuciando, com óbvia intenção zombeteira, ao som de Bella Ciao, que alguém havia iniciado de um alto-falante bluetooth ou talvez de uma das muitas varandas na praça, muitas delas enfeitadas com faixas de protesto. Do seu lado apenas sua escolta, talvez um punhado de simpatizantes reunidos com as cidades vizinhas e cerca de trinta agentes.

Seguido de trinta minutos de antifascismo popular, uma resposta ruidosa a uma presença fascista, identitária, racista e nacionalista que consideramos deletéria e nefasta e que, acreditamos, não deveria ter lugar no debate político, mas apenas disputa, pelo menos a partir da Resistência.

Depois de um ano e meio, em outubro de 2019, 40 condenações criminais e 4 despachos Daspo (prevenção italiana de crimes civis) foram cumpridos naquela meia hora, no valor de mais de € 200.000 em multas pecuniárias. O delito mais contestado é o Reunião Sediciosa, crime contido em decreto régio de 1930 emitido em pleno regime fascista e, portanto, funcional à manutenção de uma ordem autoritária que hoje contraria o princípio fundamental da liberdade de dissensão.

Todos os aspectos deste procedimento, desde o instrumento processual adotado até o tipo de crime contestado, são indicativos de uma reiterada e nostálgica vontade política de suprimir o exercício dos direitos fundamentais, sobretudo a liberdade de manifestação, perpetrada através da criminalização de todos os tipos de dissidência.

Por esta razão, os acusados ​​decidiram opor-se ao decreto criminal e ir a julgamento, para afirmar a liberdade de expressar sua dissidência e seu antifascismo. A presença naquela praça, naquele dia, foi necessária e importante, e contou com as mais variadas participações. Antifascismo também é isso: impedir a disseminação de ideias e práticas racistas, discriminatórias, de ódio e violência.

O antifascismo não vai a julgamento!

Livorno antifascista

05/03/22

>> Solidariedade concreta! Apoio para pagar os honorários advocatícios:

https://www.gofundme.com/f/effetto-refugio

Fonte: https://umanitanova.org/livorno-lantifascismo-non-si-processa/

Tradução > GTR@Leibowitz__

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite trevosa
eis, quando menos se espera,
teu semblante, lua!

Alexei Bueno

[Espanha] Primavera Libertária

“ESTA PRIMAVERA SERÁ LIBERTÁRIA”

Desde Acción Libertaria, um coletivo de perfil ácrata de aproximadamente um ano de vida, queremos convidá-los às jornadas que estamos organizando para os próximos meses: “PRIMAVERA LIBERTÁRIA”.

Através de palestras, apresentações de livros, mesas redondas e projeções queremos expor diversas teorias e criar debate em torno a diferentes temáticas que nos preocupam, nos interessam ou que consideramos que devem ser conhecidas, com a intenção de criar um espaço de reflexão e aprendizagem em torno do movimento libertário. Além disso, também haverá distribuidoras de material libertário, exposições e concertos. Estas jornadas acontecerão durante os fins de semana de 26 e 27 de março, 23 e 24 de abril e 28 e 29 de maio.

Assim, para ir divulgando, começaremos março com estas atividades no CSO Kike Mur: no sábado às 19h apresentação do livro “Pueblos sinEstado. Antropología y anarquismo“, a cargo de Alfredo Olmeda de La Neurosis o Las Barricadas Ed. seguido de um jantar popular vegano acompanhado de concerto a cargo do Colectivo Suricata (música de autor com rebeldia); no domingo começaremos às 12h com uma oficina de serigrafia, e em seguida a palestra “Explotación laboral y paro en un mundo deInteligencia Artificial y robots” a cargo de Negre i Verd, às 15h comedor popular, e às16h concerto de sobremesa por Crebazando Muros (canção de protesto).

Em abril mais atividades! Estejam atentos a vossas redes e murais, chega a primavera, e vai ser libertária!

Para mais info: accionlibertaria ARROBA riseup.net

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

folhinhas
linhas
zibelinas sozinhas

Maiakovski

Antes dos Caminhões – A Islamofobia como Veículo para o Fascismo

Esse é o primeiro, de uma série de artigos, que tem como intenção, analisar o cenário no território ocupado pelo Estado do Canadá, no contexto do “Comboio da Liberdade” (“Freedom Convoy”, na língua dos gringos), um evento massivo que gerou inúmeras interpretações (Levante fascista? Revolta popular legítima?). Antes de entrarmos de fato no tema, é interessante que a gente tenha noção das particularidades do pensamento supremacista branco nesse local, e antes que nada, desfaça alguns mitos.

Passado e Presente Colonialista

A ideia de que o Canadá é de alguma forma “mais desenvolvido e educado” que outros países é bastante recorrente. É comum que estadunidenses considerem o vizinho nortista como uma opção segura, seja para contornar o péssimo sistema de saúde dos EUA, seja para fugir das consequências do caos climático e da constante escalada do autoritarismo. A sensação geral de “excepcionalismo” afeta a própria sociedade canadense, e a impede de encarar seus problemas internos. A verdade, como veremos, é que não existe país perfeito, muito menos rota segura para se esconder dos avanços do fascismo.

O Primeiro Ministro, Justin Trudeau (no cargo desde 2015), é um liberal nato, do tipo que sabe transitar muito bem entre os ciclos de notícia, e faz o possível para sustentar a visão sanitizada que a comunidade internacional tem de seu gabinete, colecionando mais manchetes sobre suas meias do que sobre suas políticas.

Recentemente o país e suas instituições, se viram obrigados a encarar a inconveniente verdade sobre seu passado, fundado no massacre de populações indígenas.

Desde nosso contexto geográfico, é importante perceber que as mineradoras canadenses têm presença e influência praticamente invisível no Sul Global, entre pressão para mudança de regime na Venezuela, exploração ilegal no Brasil (tanto de ouro quanto potássio) e mesmo um caso de espionagem dentro do governo federal, nada parece abalar essa fachada do canadense cordial.

A Boa Diversidade é Não Conviver com o Diverso

Em uma pesquisa realizada em Novembro de 2017, 65% dos entrevistados responderam que “a diversidade é uma característica que define o Canadá”; 60% concordaram que essa diversidade traz benefícios financeiros. Quase 70% declararam que se orgulhar da reputação do país, como aberto e hospitaleiro; Mas também temos indicação que os canadenses sentem que estão sendo obrigados a se adaptarem mais do que gostariam, conforme a população se torna lar de outras culturas e etnias. 61% dizem que “muitas minorias estão buscando tratamento especial” e 59% que “muitos imigrantes não adotam ‘valores canadenses'”.

Quebec, 2017

A província de Quebec recebe muitos imigrantes fluentes em francês, por isso, é comum a presença de pessoas vindas de antigas colônias francesas, como Senegal, Síria e Líbano; muitos desta demografia são muçulmanos, e a maioria vive em Montreal. Estatisticamente, não é um local de crimes violentos (apenas dois casos de homicídio em 2015), mas a população de aproximadamente 10.000 muçulmanos é frequentemente alvo de leis racistas e agressões criminosas. Em 2017 os casos de violência contra a comunidade muçulmana, deram um salto assustador, crescendo três vezes em comparação ao ano anterior. Isso é explicado em igual medida, pela islamofobia que atravessa toda sociedade canadense, e pela intensa atividade de organizações de extrema direita.

Sei que é um clichê, mas é preciso que façamos um esforço pra lembrar a verdade dessa frase: A eleição de Donal Trump foi um pequeno abalo sísmico que agitou as massas reacionárias em todos os cantos do globo. No Canadá, não foi diferente.

Em 2017, o Centro Cultural Islâmico de Quebec reportou inúmeros incidentes, tendo sido vandalizado com pichações de suásticas, e durante o Ramadan, foi encontrada uma cabeça de porco embrulhada para presente, com uma nota escrita: “bon appétit”. Poucas semanas depois, nesse contexto de pura intolerância, um homem branco de 27 anos, invadiu armado a mesquita, no momento em que a comunidade se reunia para rezar.

O trecho a seguir foi retirado de um perfil do assassino, publicado originalmente em 23 de Abril de 2018, no Montreal Gazette.

“Ele parecia só outro cliente comprando uma bebida no Couche-Tard as 7h37  em 29 de Janeiro, 2017. Dezessete minutos depois, caminhou 500 metros até a mesquita e deu início a sua chacina. Filmagens do circuito interno o expõem agindo como um assassino de sangue frio, em alguns casos executando pessoas com disparo à queima-roupa na cabeça. Catorze minutos depois o ataque havia acabado, ele chorou ao ligar para o 911, alternando entre frases suicidas e medo de que a polícia o matasse. Ele também se pergunta em voz alta se teria realmente matado alguém. Durante um interrogatório de três horas, na manhã seguinte Bissonnette aparentava estar delirante, alegando ter atacado a mesquita por estar preocupado que refugiados viessem para Quebec e matassem sua família. Ele disse que vinha sofrendo de ansiedade e depressão por mais de dez anos; recentemente ele vinha tomando um novo antidepressivo pois o anterior não estava mais fazendo efeito.[…]

Oito meses após o ataque, Bissonnette parecia uma pessoa diferente, quando disse a uma assistente social que suas declarações anteriores não eram sinceras. Na verdade, não ouvia vozes, ele lembrava do que havia acontecido durante o ataque. Bissonnette confessou a assistente social que ele “queria glória” e se arrependia de “não ter matado mais pessoas”. Durante as duas semanas seguintes, na sua cela, o homem de 28 anos – vestindo roupas largas, cabelo desgrenhado – parece um adolescente triste, inofensivo, pálido. Raramente demonstra qualquer emoção.”

Ainda a mesma reportagem, agora sobre suas relações familiares.

“[…] Seu pai, certo dia lhe enviou uma longa mensagem sobre ‘a conversão ao islã, de várias pessoas que trabalham para a CIA.’ Um amigo próximo disse que o assassino era ‘bastante preocupado com o que sua família pensava dele.’ Quando uma testemunha declarou que seu pai havia “contribuído para a educação de um monstro”, Juíz Huot interviu, descrevendo seus pais como ‘vítimas colaterais’ do ataque. Perguntado se ele tinha namorada, o pai disse que não, que seu filho tinha dificuldade de conhecer pessoas e possuía baixa auto estima.”

“Um amigo declarou a polícia que a ideologia de Bissonnette era ‘bastante à direita’, que teria criticado muçulmanos quando passaram andando na frente da mesquita, e que era contra imigração pois imigrantes ‘mudavam a vizinhança’ e ‘aumentavam o desemprego’. Perguntado se seu filho era ligado a La Meute, um grupo de extrema direta anti-imigrantes de Quebec, ou a ideologias de esquerda ou direita, o pai do assassino responde: ‘Não, ele é ordeiro.’ Perguntado se seu filho era racista, ele respondeu: ‘Não, ele tinha amigos negros.'”

“Os conteúdos do computador de Bissonnettes indicaram que ele tinha um interesse considerável em imigrantes e muçulmanos, e que era fã de Donald Trump, lendo obsessivamente sobre o presidente dos EUA e a suspensão de viagens que ele impôs sobre sete países de maioria muçulmana, dois dias antes do ataque. Ele pesquisou por materiais relacionados a Trump 819 vezes durante o mês. Bissonnette disse a polícia que em 29 de Janeiro de 2017 ele surtou ao ler que o tuíte do Primeiro Ministro Justin Trudeau afirmando que iria aceitar os refugiados negligenciados pelos EUA. Segundo um relatório da polícia, não foi encontrado nenhum conteúdo criado pelo assassino que ‘poderia ligá-lo a supremacistas brancos ou ideologia neo-nazista’. De todo modo, seu consumo de material de extrema direita influenciou sua ‘opinião sobre imigração e a presença de muçulmanos em Quebec'”.

Nas semanas que se seguiram, os canais de mídia convencionais, ignoraram a ligação do assassino com conspirações e figuras da extrema direita, ao invés disso, tentaram colar a responsabilidade do ato, no tuíte do Primeiro Ministro (e por consequência, em sua intenção de receber os imigrantes).

A declaração de que o assassino não possuía ligação direta com grupos neonazistas, apenas prova que não é preciso relações íntimas com fascistas declarados, para que alguém seja radicalizado a ponto de matar por uma causa odiosa como a supremacia branca. Continuamos testemunhando teorias da conspiração fascistas sendo repercutidas diariamente, por apresentadores de televisão, políticos profissionais e outras figuras da mídia, sem que sejam responsabilizado. Em realidade, a “coragem” desses propagandistas oportunistas, não raramente os alçam ao estrelado. Essas palavras não podem ser aceitas passivamente, elas têm peso, influenciam na visão de mundo de milhares de pessoas. Quando um fascista fala em grandes canais de comunicação, todos nós perdemos.

Qual a cor do Terrorismo?

Em declarações da época, Justin Trudeau fez um discurso consternado, chamando o ataque a mesquita de terrorismo, apesar de na prática, o assassino não ter sido judicialmente acusado desse crime. De acordo com especialistas, seria muito complexo enquadrar as ações como terrorismo, já que o Código Penal Canadense define terrorismo como:

“Atos violentos se cometidos integral ou parcialmente, para propósitos políticos, religiosos ou ideológicos, com a intenção de intimidar o público ou segmento específico do público.”

Pense um segundo a respeito… Não te parece que o ataque foi causado por motivos ideológicos com intenção de intimidar um segmento específico do público? Em entrevista, o especialista em criminologia e psicologia forense e professor da Universidade de Montreal, Louis Morissette disse;

“Se ele não foi acusado de terrorismo é por que eles não tem evidências. Não significa que não virá.”

Nunca veio. Destaco esse ponto, sem a intenção defender a tipificação de “terrorista”, porém é nítido que, seja nos EUA ou Canadá, existem religiões, ideologias e tons de pele específicos, que podem ser considerados terroristas imediatamente, por qualquer crime, enquanto o criminoso da pele branca, sempre merece “uma observação mais técnica”.

Nenhuma Iniciativa será Tolerada

Após o crime a parlamentar Iqra Khalid propôs a “Motion 103”, uma moção não vinculante (uma medida sem peso de lei, na prática, é apenas uma sugestão) que chamava o governo canadense a formalmente “condenar a islamofobia em todas as suas formas de racismo sistêmico e discriminação religiosa”, e a “reconhecer a necessidade de combater o aumento do clima de ódio e medo”, além de requisitar coleta de dados sobre crimes de ódio para embasar esse esforço. Na mesma semana, Khalid recebeu 50.000 e-mails com intimidações e ameaças de morte. (Não, você não leu errado, foram cinquenta mil e-mails).

Imediatamente os especialistas da guerra cultural, entre políticos profissionais e grupos racistas, iniciaram uma campanha de desinformação e ultraje, alegando que a medida era “contra a liberdade de expressão” e acusando a comunidade muçulmana de “querer direitos especiais” dentro da sociedade. Em um evento em resistência a moção, organizado pela rede de direita Rebel Media [1], a apresentadora Faith Goldy [2] classificou a medida como “um embate de civilizações”, e o ex-ministro de imigração Chris Alexander declarou que teve “muitos problemas com uma moção que fala de ódio disso, fobia daquilo, e não menciona a ameaça número um no mundo, o terrorismo islâmico jihadista”.

Manifestações de rua foram chamadas por uma aliança entre o PEGIDA [3], Soldier of Odin [4], e La Meute [5], esse último trazendo o maior contingente de fascistas para as ruas, uns 150 em Montreal e outros 100 em Quebec. Essa foi a primeira vez que o grupo ousou pôr a cara na rua, até então, vinham se organizando apenas na internet, seus fundadores incluem vários veteranos do exército.

Até hoje, basicamente nenhuma medida sugerida na temida “Motion 103” foi implementada. Após uma justificada, mas breve comoção nacional, a maioria da população parece não ter aprendido nada. No aniversário de dois anos do massacre na mesquita, quando perguntado se a data não deveria ser formalizada como um feriado contra a islamofobia, o Premiê François Legault disse que “Não existe islamofobia em Quebec”. Legault, eleito em 2018, sob uma plataforma que prometia diminuir a entrada de imigrantes, em uma visita a França, declarou querer receber mais imigrantes franceses e europeus. É nítido que a imigração em si, não é a questão, e sim a cor e credo dos imigrantes.

É preciso salientar, que esse clima de alienação e hostilidade, não só fere emocional e psicologicamente a comunidade muçulmana, mas também facilita o trabalho de recrutamento de organizações terroristas como ISIS e Al Qaeda entre a juventude muçulmana, da mesma forma que a ostracismo da juventude branca os empurra para organização fascistas.

A trajetória desse crime brutal e a tentativa de buscar uma resposta razoável dentro das margens do Estado, seguida de uma reação violenta da extrema direita, nos ajuda a perceber como a identidade do conservadorismo canadense está intimamente ligada a sentimentos xenofóbicos. Por um lado o país tem orgulho de suas políticas de acolhimento a imigrantes, por outro, a resposta a convivência com o diverso, vem na forma de um anti-liberalismo torpe, onde a homofobia e racismo se tornam ferramentas dos “brancos oprimidos” contra uma população pacífica, que é retratada como uma ameça civilizacional.

Nos próximos artigos, iremos finalmente observar os eventos que aconteceram imediatamente antes e durante o chamado “Freedom Convoy”, que ocupou a cidade de Ottawa e gerou várias outras ações de desobediência civil pelo país.

NOTAS E REFERÊNCIAS

[1] Rebel Media – ARebel Media é o equivalente canadense do Breibart (EUA), ou Brasil Paralelo, inclusive repercute as mesmas “teorias” nojentas. Na visão da Rebel Media mesquitas, ongs e ações de solidariedade, tudo é um “front da irmandade islâmica” para avançar o “islamismo cultural”. Essa é a mesma retórica do livro “Communist Revolution in the Streets”, uma das bíblias do anti-comunismo estadunidense.

[2] Faith Goldy – Ex-repórter do Rebel Media, conseguiu a proeza de ser demitida por ser racista de mais. Ela deu duas entrevistas ao Daily Stormer, um dos sites neonazistas mais populares da internet.

[3] PEGIDA – A sucurssal canadense dos “Europeus Patriotas Contra a Islamificação do Ocidente”, grupo pan-europeu que usa o identitarismo como plataforma pro seu discurso fascista.

[4] Soldier of Odin – Uma organização fascista anti-imigrantes fundada na Finlândia em 2015. Usam estética de motoclubes, com coletes de couro. Em 2018, dissidências do Soldier of Odin fundaram duas outras organizações igualmente racistas, o Storm Alliance e o The Northern Guard.

[5] La Meute – Do francês “A Alcateia”, grupo fascista que cresceu bastante nesse período, em especial nos espaços digitais. São anti-imigração, e busca, “restaurar uma herança francesa” no território canadense. Nos últimos anos a organização sofreu vários rachas e ao menos uma situação de desvio de verbas, mas ainda parece se manter ativa, contrariando todas as expectativas.

Majlis podcast Quebec Shooting

https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy8zOWJlYjc2NC9wb2RjYXN0L3Jzcw/episode

Leis Islamofóbicas

https://en.wikipedia.org/wiki/Islamophobia_in_Canada#Bill_94_(Quebec)

https://rabble.ca/anti-racism/unfairness-bill-94-unveiled/

https://en.wikipedia.org/wiki/Somalia_Affair

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/03/08/canada-relatorio-da-mobilizacao-contra-o-comboio-em-montreal/

agência de notícias anarquistas-ana

Dentre os arvoredos
Apenas algumas réstias.
Sol aprisionado.

Franciela Silva

[Itália] É lançado o número 6 da “Folha Anarquista Aperiódica Dardi”

EDITORIAL

O que torna viável o projeto de uma sociedade verde digital?

Energia e extrativismo. Nada tão diferente daquilo que sempre dependeu toda a “revolução industrial” até hoje. A principal diferença está na lista dos materiais extraídos, que incluem os preciosos metais raros, indispensáveis para produzir baterias e circuitos eletrônicos. Nesse contexto, a Europa se encontra quase totalmente dependente do mercado internacional, o que poderia pôr em perigo a tão cobiçada transição ecológica, assim como a estabilidade das economias nacionais. Os contratempos do período da epidemia do Covid, ou pelos danos causados pela mudança climática, esgotaram a confiança de muitos setores, principalmente por conta da lentidão no fornecimento de materiais como semicondutores. Isso implica em tomadas de decisões estratégicas inadiáveis já que a espada de Damocles da obsolescência programada não garante muito tempo de manobra.

É necessário voltar a extrair esses materiais em solo europeu depois de anos de deslocamento do trabalho sujo a outros países, sobretudo a China. Como consequência, as minas serão reabertas na Europa, junto com suas respectivas plantas de processamento e enriquecimento dos materiais.

Nesse contexto, a Itália não fica para trás. Justo na península se encontram os maiores depósitos europeus de titânio, em Liguria e de antimônio em Toscana. Se para o primeiro é evidente o interesse demonstrado pela União Europeia pelo titânio, que em pouco tempo enviará seus técnicos para uma zona próxima ao monte Beigua, o segundo até então não parece tão cobiçado desde a recusa de extração por parte da canadense Adroit Resources. Quanto tempo até que mais alguém tente botar suas mãos nele? Provavelmente, pouco.

A Itália tem um recorde europeu quanto a certas atividades extrativistas, do mármore ao cimento, do saibro a areia. Pouco importa uma mina de gás a mais ou a menos, desde já, uma vez que o valor das apostas é espantoso (para quem as ganha, obviamente).

Mas, o que será desses lugares e dos que neles vivem, depois que os gigantes mecânicos começarem a triturar o solo? Montanhas estripadas, paisagens devastadas, água e solo contaminado, câncer e doenças provocadas pela contaminação.

Tudo isso é o suficiente para fazer de um determinado território o grande exemplo da sustentabilidade ambiental, mas e pra quem não faz nada com essa querida sustentabilidade? O que poderia fazer quem não encontra essa perspectiva?

Poderia revirar aqueles territórios hostis até que as raízes do tecno-mundo nos tenham colonizado por completo. Poderia entras nas obras em territórios isolados, usando as sombras como abrigo, como já aconteceu duas vezes nos últimos seis meses em que várias saibreiras perto de Munique (Baviera), onde o incêndio das máquinas, se estipula, tenha provocado, nos dois casos, mais de um milhão de euros em danos.

Poderia ser ocupada, junto com os transformadores que alimentam os processos de extração e processamento. Em resumo, pode haver muitas possibilidades de engasgar as engrenagens verdes da indústria de alta tecnologia – basta encontrar a imaginação e a convicção para colocá-las em prática.

>> Clique aqui para ler/baixar a publicação em italiano:

//infernourbano.altervista.org/e-uscito-dardi-n6-foglio-anarchico-aperiodico/

Tradução > 1984

agência de notícias anarquistas-ana

o crisântemo amarelo
sob a luz da lanterna de mão
perde sua cor

Buson

[Espanha] Boletim 174: Análise sindical-legal da nova reforma trabalhista

O objetivo deste boletim é proporcionar, do ponto de vista jurídico e sindical, reflexões sobre o Real Decreto-Lei 32/2021, de 28 de dezembro, sobre medidas urgentes para a reforma do trabalho, a garantia da estabilidade do emprego e a transformação do mercado de trabalho (doravante RDL 32/2021). Uma visão crítica que visa servir de substrato para um debate frutífero que acreditamos ser necessário para lidar com a deriva dos direitos trabalhistas.

Todo este trabalho refletido neste Boletim é o resultado de um trabalho coletivo realizado pelos companheiros do Gabinete Jurídico da Confederação, assim como outras contribuições de outros autores que são referências como o Professor Ignasi Beltrán de Heredia e o Professor Eduardo Rojo Torrecilla.

Na CGT, acreditamos que o conhecimento do conteúdo deste RDL 32/2021 é essencial para a ação sindical. Por este motivo, além deste Boletim, a CGT Confederal, juntamente com a Secretaria de Formação e o Escritório Jurídico Confederal, estão tentando alcançar todos os territórios com sessões de formação presencial com o objetivo de fornecer uma explicação de nossa posição como sindicato, fornecendo elementos para o conhecimento do texto e seus efeitos sobre as condições de trabalho e pessoais da classe trabalhadora.

A fim de abordar esta importante e complexa questão, decidimos começar explicando o ponto de partida e uma análise da exposição de motivos da RDL 32/2021. Posteriormente, são expostos os principais pontos da reforma que afetam as condições de trabalho, com o objetivo de explicar a situação atual em que a classe trabalhadora se encontra.

Fonte: https://cgt.org.es/boletin-174-analisis-juridico-sindical-de-la-nueva-reforma-laboral/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2022/02/07/espanha-a-cgt-usara-todas-as-suas-armas-para-conseguir-a-revogacao-das-reformas-trabalhistas/

agência de notícias anarquistas-ana

lua n’água
entre pétalas
alumbra o abismo

Alberto Marsicano

[Grécia] Anarquistas expropriam supermercado em Tessalônica

Em 03 de março, pela manhã, aconteceu uma expropriação de produtos de primeiras necessidades básicas do supermercado AB Vassilopoulos, na área de Agia Sofia, em Tessalônica, e a sua distribuição para a vizinhança do bairro. Folhetos foram distribuídos e espalhados no local. A seguir, o anúncio da ação direta:

Tudo nos pertence porque tudo é roubado.

Bloquear/eliminar o aumento do custo de vida que é o resultado da crise dos patrões que é transferido para as nossas costas.

No momento atual, todos nós na base da sociedade estamos vivendo um ataque sem precedentes por parte da elite econômica e política. O Estado e o capital procuram por todos os meios transferir o custo da profunda crise capitalista atual para os pobres, os desempregados, os empregados precários, os mal pagos, os pensionistas e os imigrantes. Um ataque que vem ocorrendo há anos com cortes nos salários, pensões e estruturas assistenciais, com o despedimento e esmagamento de trabalhadores, o desmantelamento da saúde pública, educação, transporte, a pilhagem da natureza para seu “desenvolvimento” e lucros. A crise sanitária da Covid-19 ampliou este ataque e agora se entende que a pandemia atinge principalmente as pessoas de nossa classe. Os ricos estão ficando mais ricos, os pobres e despossuídos estão gemendo sob o peso do desemprego, da insegurança no emprego, do terror dos patrões no local de trabalho e do aumento assustador do custo de vida.

Não temos ilusões. O aumento dos preços de bens de consumo básicos não é o resultado de um aumento de preços abstrato e inexplicável que surgiu do nada. Pelo contrário, é claramente a escolha do sistema capitalista de continuar a impor e assegurar seus lucros, transferindo o fardo da crise e suas perdas para nós. A situação atual está ligada aos memorandos e leis de implementação da última década, é uma parte do quebra-cabeça mais amplo da reestruturação capitalista que estamos vivendo, com privatizações e aumento dos custos dos bens públicos, educação, cuidados primários, habitação, transporte, vendas e destruição da natureza.

A isto acrescentemos que a única maneira de implementar o acima exposto sem resistência e de que o capitalismo continue a existir ininterruptamente como um sistema econômico-social-político é tentar formar uma sociedade sem vínculos coesos. Uma sociedade de canibalismo e automatismo social, sem consciência de classe, sem solidariedade, sem ajuda mútua e sem auto-organização. Eles nos querem assustados e atemorizados, de cabeça baixa, conformados com qualquer demanda, qualquer ação coletiva contra o poder, seja ela econômica ou política. Eles querem uma sociedade dócil e submissa aos seus ditames, uma sociedade em que uma pessoa pobre se volte contra seu vizinho, responsabilizando-o por sua miséria. Eles nos querem com as mãos abertas esperando por qualquer forma de caridade, em vez de com os punhos cerrados lutando contra o Estado e o poder.

Chegando à ação de hoje, devemos sublinhar e acrescentar que, especialmente na situação atual, os cartéis de proprietários de supermercados e grandes produtores obtiveram enormes lucros com os constantes aumentos de preços dos bens de consumo. A pandemia tem sido, na verdade, uma oportunidade para eles aumentarem seus lucros nas costas de seus trabalhadores, fazendo-os trabalhar sem medidas de proteção à saúde, com horas extras “pagas” com dias de folga (ver a lei anti-trabalhador Hatzidakis), mesmo aos domingos. O capitalismo não humaniza, a única coisa que o sistema existente nos garante é pobreza, tristeza, miséria, guerras, exploração e morte.

Diante de tudo isso, diante da pilhagem de nossas vidas e da natureza, temos apenas a nós mesmos. A solidariedade e a ajuda mútua entre os que estão na base é uma via de sentido único se quisermos enfrentar nossos senhores e lutar com dignidade contra nossos opressores e exploradores comuns. Auto-organização militante nos espaços de escravidão, de classe e de solidariedade social, e resistência coletiva em todas as áreas de exploração e opressão de nossas vidas pelo Estado e pelo capital.

Tomemos nossas vidas e toda a riqueza que produzimos em nossas próprias mãos.

Nossas necessidades sobre seus lucros!

Luta de classe, social, anti-estatal e anticapitalista, com expropriações em massa de bens, greves, estruturas de apoio mútuo, conflitos, ocupações.

Resistência – Auto-organização – Solidariedade – Apoio Mútuo.

Por um mundo de igualdade, solidariedade e liberdade.

 Anarquistas

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/08/30/grecia-video-expropriacao-do-supermercado-ok-em-exarchia-atenas/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/07/20/grecia-expropriacao-de-produtos-basicos-em-supermercado-de-tessalonica/

agência de notícias anarquistas-ana

ao vento de outono
a sineta de ferro
subitamente toca!

Dakotsu

[Ucrânia] Porque razão os militaristas russos e ucranianos se retratam mutuamente como nazis e fascistas?

Por Yurii Sheliazhenko

A crescente animosidade entre a Rússia e a Ucrânia torna cada dia mais difícil chegar a um acordo sobre um cessar-fogo.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, persiste na intervenção militar alegando que está libertando a Ucrânia de um regime que, como os fascistas, mata seu próprio povo (1).

O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelenskyy mobiliza toda a população para lutar contra a agressão e diz que os russos se comportam como nazistas quando matam civis.

A grande mídia ucraniana e russa usa propaganda militar para chamar o outro lado de nazistas ou fascistas, apontando para seus abusos militaristas e dos grupos de extrema-direita.

Argumentos deste tipo estão simplesmente defendendo que as ações bélicas que conduzem é uma “guerra justa”, demonizando os seus inimigos, entrincheirados numa cultura política arcaica.

Claro que sabemos que uma “guerra justa” é algo que, em princípio, não pode existir porque a primeira vítima da guerra é a verdade, e qualquer versão dessa justiça sem verdade não passa de um insulto.

A ideia de levar a cabo matanças e destruição em massa como forma de alcançar a justiça está para além da sanidade mental. Mas o conhecimento de modos de vida não violentos eficazes e a visão de um planeta futuro melhor, sem exércitos e fronteiras, fazem parte da cultura de paz. Contudo, este conhecimento e visão não se espalharam o suficiente mesmo nas sociedades mais desenvolvidas, e muito menos na Rússia e na Ucrânia, Estados que ainda têm “serviço militar obrigatório” e dão às crianças uma educação militar patriótica em vez de promoverem uma educação para a paz para a cidadania.

A cultura da paz, que tem tido tão pouco investimento e que tem sido tão pouco divulgada, luta para lidar com a cultura arcaica da violência, baseada em velhas ideias sangrentas de que o Poder está certo e a melhor política é sempre a de “dividir para reinar”.

Essas ideias da cultura da violência são provavelmente ainda mais antigas do que os fascios, o antigo símbolo romano de poder, representado por um feixe de varas com um machado no meio, instrumentos utilizados para o açoitamento e decapitação, e símbolo de força na unidade: a ideia é que podemos facilmente quebrar cada vara isoladamente mas não o conseguiremos fazer se elas estiverem juntas (2).

Num sentido extremo, os fascios são uma metáfora para reunir violentamente pessoas descartáveis, privando-as de individualidade. É o modelo de governança por pau. Não pela razão e por incentivos, como sucederia com a governança não-violenta numa cultura de paz.

Essa metáfora dos fascios está muito próxima do pensamento militar, da moral dos assassinos que derruba os mandamentos morais contra a matança. Quando somos recrutados para a guerra, devemos estar obcecados com a ilusão de que todos “nós” devemos lutar, e de que todos “eles” devem perecer.

É por isso que o regime de Putin elimina cruelmente qualquer oposição política à sua máquina de guerra, prendendo milhares de manifestantes antiguerra.

É por isso que a Rússia e os países da OTAN proibiram a mídia um do outro (3).

É por isso que os nacionalistas ucranianos tentaram arduamente proibir o uso público da língua russa (4).

É por isso que a propaganda ucraniana contará um conto de fadas sobre como toda a população se tornou um exército na guerra popular e ignorará silenciosamente milhões de refugiados, pessoas deslocadas internamente e homens entre 18 e 60 anos que se escondem do recrutamento militar obrigatório quando são proibidos de deixar o país.

É por isso que as pessoas que amam a paz, e não as elites que lucram com a guerra, sofrem mais de todos os lados como resultado de hostilidades, sanções econômicas e da histeria discriminatória.

A política militarista na Rússia, Ucrânia e países da OTAN têm algumas semelhanças tanto na ideologia quanto nas práticas com os regimes totalitários terrivelmente violentos de Mussolini e Hitler. É claro que tais semelhanças não são desculpa para qualquer guerra ou banalização dos crimes nazistas e fascistas.

Essas semelhanças são mais amplas do que a identidade manifestamente neonazista, apesar do fato de que algumas das unidades militares deste tipo lutaram tanto do lado ucraniano (Azov, Setor Direita) como do lado russo (Varyag, Unidade Nacional Russa).

No sentido mais amplo, a política fascista está tentando transformar todo o povo numa máquina de guerra. Aparecem assim as falsas massas monolíticas, supostamente unidas na pulsão vital para combater um inimigo comum, que todos os militaristas em todos os países do mundo estão tentando construir.

Para se comportar como fascistas, basta terem um exército e todas as coisas relacionadas ao exército: identidade compulsivamente unificada, única, um inimigo existencial, a preparação para a guerra inevitável. O inimigo não precisa necessariamente serem judeus, comunistas e pervertidos; pode ser qualquer pessoa real ou imaginária.

A sua beligerância monolítica não precisa ser inspirada necessariamente por um líder autoritário; pode ser uma mensagem de ódio e um apelo à guerra por inúmeras vozes autoritárias. E coisas como usar suásticas, marchar com tochas e outras encenações históricas são opcionais e dificilmente relevantes. Os Estados Unidos parecem um estado fascista porque há dois relevos escultóricos de fascies no Salão da Câmara dos Deputados? Claro que não; é apenas um artefato histórico.

Mas os Estados Unidos, a Rússia e a Ucrânia assemelham-se um pouco com os estados fascistas porque todos eles estão prontos para usar as suas forças militares para buscar a soberania absoluta, ou seja, para fazerem o que quiserem em seu território ou esfera de influência, como se o poder exercido pela força das armas estivesse certo.

Além disso, todos os três pretendem ser estados-nação, o que significa criar uma unidade monolítica do povo sob uma mesma cultura que vive sob um governo todo-poderoso dentro de fronteiras geográficas estritas e que, por isso, não pode ter conflitos armados internos ou externos. O estado-nação é provavelmente o modelo de paz mais idiota e irreal que alguém conseguiu imaginar, mas ainda é o modelo convencional.

Em vez de repensarmos criticamente os conceitos arcaicos da soberania vestfaliana e do estado-nação wilsoniano, cujas falhas foram reveladas pela política nazi e fascista, tomamos ainda hoje esses conceitos como indiscutíveis e colocamos toda a culpa da Segunda Guerra Mundial em dois ditadores mortos e no bando de seus seguidores.

Não é por acaso que sempre encontramos fascistas por perto e travamos guerras contra eles, comportando-nos como eles de acordo com as teorias políticas que eles também adotaram, mas tentando-nos convencer de que somos melhores do que eles.

Para resolver o atual conflito militar bipolar, Ocidente versus Oriente e Rússia versus Ucrânia, bem como parar qualquer guerra e evitar guerras no futuro, devemos usar técnicas de política não-violenta, desenvolver uma cultura de paz e fornecer acesso à educação para a paz às próximas gerações. Devemos parar de seguir a política de atirar e começar a falar para, em vez disso, dizer a verdade, entendermo-nos uns aos outros e agir pelo bem comum sem prejudicar ninguém. Justificações de violência contra qualquer povo, mesmo aqueles que se comportam como nazis ou fascistas, não ajudam a resolver os problemas. Será sempre melhor resistir a esse comportamento errado sem recorrer à violência e ajudar pessoas militaristas equivocadas a compreender os benefícios da não-violência organizada. Quando o conhecimento e as práticas efetivas de vida pacífica forem disseminados, e todas as formas de violência forem limitadas a um mínimo realista, as pessoas da Terra ficarão imunes à doença da guerra.

> Yurii Sheliazhenko é ucraniano e vive hoje em Kiev. É secretário executivo do Movimento Pacifista Ucraniano e membro do Secretariado Europeu dos Objectores de Consciência. Ele obteve um Mestrado em Mediação e Gestão de Conflitos em 2021 e um Mestrado em Direito em 2016 na Universidade KROK. Além de participar no movimento pela paz, é jornalista, bloguista defensor dos direitos humanos, jurista, autor de publicações acadêmicas e conferencista em teoria e história jurídicas.

(1) Putin refere-se à forma como o Estado ucraniano conduziu a repressão aos opositores e, em especial, os alinhados com o regime russófilo deposto, da chamada “revolução da dignidade” em 2014, que foi conduzida por neo-fascistas com apoio declarado dos EUA, acabando por conduzir a uma situação de guerra não-declarada desde então e à proclamação das repúblicas do Dombas (nota do tradutor).

(2) O fascio, símbolo usado na Roma antiga, foi adotado pelo Partido Nacional Fascista italiano (n.t.).

(3) E criminalizam, perseguem, prendem e torturam todos aqueles que, como o jornalista Julian Assange, apresenta ao público a verdade insofismável dos fatos através da divulgação de documentos oficiais e informações mantidas secretas pelos governos que assim se furtam do julgamento público dos seus atos e dos atos das oligarquias que defendem (n.t.).

(4) Esta proibição ficou estabelecida na lei.

Fonte: https://aideiablog.wordpress.com/2022/03/16/porque-razao-os-militaristas-russos-e-ucranianos-se-retratam-mutuamente-como-nazistas-e-fascistas/

agência de notícias anarquistas-ana

Grito da sineta
na última aula. Alegria.
Depois o silêncio.

Alexei Bueno