
“Não passarão” é um lema bastante difundido entre as pessoas anarquistas e demais setores antifascistas. A popularização dessa frase, que começa com a palavra não, foi bastante difundida durante a Revolução Espanhola, e junto com o punho fechado, foi uma forma de anunciar que o fascismo não passaria daquele episódio.
A origem dessa frase, segundo algumas fontes e a memória coletiva sobre esse período revolucionário, é creditada a uma mulher: Dolores Ibáurri, também conhecida como La Pasionaria, que foi uma liderança carismática da Revolução.
Lembramos que a Revolução Espanhola foi um processo em que as pessoas anarquistas tiveram uma ampla participação e experiência de resistência, e foi nesse período que o coletivo Mujeres Libres, que quer dizer mulheres livres, teve a adesão de milhares de mulheres anarquistas organizadas para enfrentar o regime autoritário fascista.
Diria, enquanto sudamericana após mais de 80 anos desse conflito, que essas mulheres livres enfrentaram não apenas o regime autoritário fascista, mas também os autoritarismos dos companheiros que também eram anarquistas e libertários, e eram contra o fascismo direitista do regime – e uma história mais completa sobre a trajetória dessas companheiras pode ser lido em Mujeres Libres – El anarquismo y la lucha por la emancipación de las mujeres, de Marta Ackelsberg.
Bem, nesse momento, você pessoa leitora, pode estar pensando no porquê desse breve resumo sobre algo que talvez já seja bastante conhecido para quem acessa este canal de informação. Pois bem, a resposta vem com mais uma pergunta: por que a misoginia ainda passa?
Recentemente, nesse canal de difusão de informações chamado Agência de Notícias Anarquistas, um texto muito bizarro foi publicado. A palavra bizarro pode ser sim um eufemismo, pois, na verdade, para mim e para todas as companheiras que leram esse texto, desde o título, é um texto misógino e machista que contém em si, um discurso de ódio que é naturalizado para muitos – e sim, escrevo muitos no sujeito masculino – que o recebem e o leem.
O texto em questão tem o título “A Cena Libertária Virou Um Campo de Cordeirinhas Vacinadas” e não vou fazer a análise dele pois não merece mais de meu tempo a leitura de um texto misógino, especista e negacionista científico que me causa asco. Está disponível nesse site, a quem quiser ler e, talvez, se indignar.
As mulheres podem ser consideradas, em muitos momentos ao longo da história e da cotidianidade, como “referenciais ausentes”. Isso não digo apenas eu, mas também Carol J. Adams, que há quase trinta anos escreveu A política sexual da carne (primeira publicação em 1994). Esse escrito pode ser interpretado como uma crítica ao machismo e ao especismo, pois a autora analisa uma série de representações sobre as mulheres na publicidade, e como essas representações coisificadas, ausentes respeito enquanto seres, de forma coisificada, sexualizada e subordinada aos homens cis, também é observada nas fêmeas dos animais que são destinados ao assassinato e consumo humano, bem como uma animalização pejorativa das mulheres humanas, quando associadas a alguns animais. Como já vimos, o autor do texto-desserviço também associa as mulheres, e nesse caso as mulheres anarquistas, a fêmeas de animais para representá-las de maneiras pejorativas.
E como os “referenciais ausentes” aparecem aí? Bom, aparecem desde modo amplo, como as representações do feminino idealizadas no imaginário social, até no próprio meio anarquista, que muitas vezes, como nesse caso da publicação desse texto, abarca pessoas que estão seguras de que os anarquistas, por terem essa identidade auto-atribuída, estão isentos de realizar auto-críticas a respeito da perspectiva patriarcal e misógina que carregam em si e em suas micro-relações e micro-políticas (para não deixar Foucault de fora da discussão). As mulheres anarquistas por vezes – mas nem sempre, já que os vazios e invisibilidade de uma História escrita no masculino são frequentes – idealizadas por representações de luta que podem remontar desde a communard Louise Michel, passando por Emma Goldman até chegar em Maria Lacerda de Moura e na própria Espertirina, não deixaram de existir passando os períodos em que essas notáveis companheiras viveram. Vivemos no hoje, e não somos/ estamos cristalizadas em uma representação do que pode ser esperado ou idealizado por homens cis que possuem uma perspectiva machista, especista e moralista, como o autor do texto.
Sobre o moralismo, realmente esse é um ponto que nos chama atenção naquele deplorável escrito de desserviço à causa anarquista/ anárquica. Quando o autor Vantiê Clínio se refere à “bunda de funkeira” que “balança de acordo com o batidão mais forte”, ele esbarra em uma fronteira bem sutil entre o moralismo e o racismo. Sabemos que o funk, e nesse caso seguramente é uma alusão ao que conhecemos como funk carioca, é uma música e um estilo de dança que nasceu em comunidades negras no Brasil, com a ancestralidade africana de muitos povos sequestrados pelos colonizadores brancos. Considerar a música e a dança funk como algo pejorativo, além de elitista e moralista, também pode conter, em si, um racismo velado por uma branquitude exercida sem nenhuma reflexão e autocrítica, como pode ser lido nesse artigo do Coletivo Enegrecer¹ e também nessa reportagem da revista AzMina². Além disso, povos originários de territórios como Angola e Zâmbia nos quais, até hoje, também falam a língua Mbunda (aqui encontramos uma referência³. Ou seja, mexer a bunda, ao som do funk ou do que lá for, não é nenhuma ofensa – aliás, pode ser ofensa para homens cis-gênero brancos que ficam ressentidos com a agência de anarcas que não estão seguindo a cartilha de ação que ele escreveu ou aprova.
Sendo assim, com esse texto, eu termino a minha reflexão como uma forma de não deixar passar batido um texto que, sob os véus da opinião, ofende a mim e a muitas pessoas. É uma resposta em forma de Não Passarão, já que dar palco a discursos machistas, misóginos e demais discursos de ódio pode também veiculá-los, e temos na presidência da república do território controlado pelo e$tado brasileiro um exemplo disso.
É lamentável a ausência de percepção e entendimento por parte do editorial da ANA de que o texto-desserviço é sim um texto de discurso de ódio, e que discurso de ódio não é uma simples opinião. Por isso dediquei um tempo de dança do meu funk matinal para escrever essas páginas. Infelizmente, nada de novo sob o sol, mas que me causa espanto nesse longo 2021.
Dedico essa resposta em respeito e com amor para as anarkas/anarkxs, cordeiras, lobas, gatas, cachorras e toda a dissidência de gênero e sexualidade que se identificam com muitas formas de entender e viver o anarquismo e a anarquia.
b4b1
[1] https://www.geledes.org.br/funk-racismo-e-periferia-fica-ligado-que-contagiante-nao-e-batida-mas-tambem-o-instrumento-de-luta/
[2] https://azmina.com.br/reportagens/funk-e-feminismo/
[3] https://diplomatique.org.br/o-que-ha-de-africa-no-brasil/
Foto: Cacá Bernardes/Bruta Flor Filmes
Conteúdo relacionado:
https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/11/17/a-cena-libertaria-virou-um-campo-de-cordeirinhas-vacinadas/#comment-19664
agência de notícias anarquistas-ana
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Esse caso do orelha me pegou demais. A barbárie é cada dia mais real. E a propósito, belo texto liberto!