[Chile] A 85 anos da Revolução Espanhola de 1936 gritamos: Comunismo Libertário, Revolução Social!

A 85 anos da revolução social no território espanhol queremos recordar as práticas que se originaram naquele processo revolucionário, sobretudo quando as pessoas escutam sobre anarquismo, costumam pensar que é origem do caos ou que as ideias que se promovem não podem se estabelecer como base para uma sociedade dada a visão homogênea que se tem da estrutura organizativa proveniente desde o Estado.

A implantação das ideias anarquistas nas diferentes seções obreiras de 1936 não se pode compreender sem antes mencionar, por exemplo, a chegada do anarquismo a Espanha através de Giuseppe Fanelli pelo ano 1868 e cuja missão era organizar uma seção na Espanha para a Primeira Internacional. Isto implicou em sentar as bases para a criação de um sindicato revolucionário. Assim como também, a Escola Moderna de Francisco Ferrer, a fundação da CNT em 1910 antecedidos pelos acontecimentos da Semana Trágica, sua ilegalidade em dois períodos 1911-1913 e 1923-1930 na ditadura de Primo de Rivera ou, os acordos dos diferentes congressos celebrados, 1919, 1931 ou 1936.

A revolução social espanhola de 1936 foi um processo revolucionário cuja base foi o anarcossindicalismo, associada principalmente a Confederação Nacional do Trabalho (CNT) a qual contava com aproximadamente 1.600.000 militantes e a Federação Anarquista Ibérica (FAI). O processo revolucionário se caracterizou pela horizontalidade como base organizativa, anticlerical, coletivização autogestionária (comunismo libertário).

O ponto de inflexão se enquadra no dia 17 de julho de 1936 quando se produz um Golpe Militar no lado Espanhol de Marrocos e que no dia seguinte havia se estendido por grande parte do território espanhol. No entanto, tanto nos povoados e cidades haviam se organizados os trabalhadores para fazer frente, o que resultou não só ser uma resistência ao Golpe Militar, mas que foi o princípio de todo um processo pela tentativa de mudar a sociedade e as relações tanto no social como no econômico.

Para o dia 19 de julho de 1936, tanto mulheres como homens pertencentes à CNT, FAI e as Juventudes Libertárias de Barcelona e toda Catalunha, os quais já estavam na rua desde o dia anterior defendendo-se dos fascistas, se levantam e proclamam o seguinte: “Chegou a hora de dar tudo, acabar com a reação e tudo o que representa, de que mude o estado das coisas e levar nosso sonho tão adorado, a revolução social que por fim nos libere de toda tirania. Já não haverá pobres nem ricos, nem privilegiados, será o povo que dirija seu próprio destino de maneira livre… Viva a CNT, Viva a FAI! Viva a Revolução!”.

Estes levantes foram se prologando por diferentes territórios de Espanha e tão logo os fascistas foram derrotados durante as primeiras semanas, se estabelece dois posicionamentos e a convivência por um lado de grupos revolucionários anarcossindicalistas entorno às finalidades do anarquismo clássico e outros grupos, os quais viam dentro do possível trabalhar com o regime da segunda república.

Posteriormente, surgem organizações à margem do Estado, que tem um caráter local cuja deliberação é em assembleias horizontais para tratar temas pontuais do território que as convoca e ao mesmo tempo, estas vão se federando a nível regional e nacional. As milícias libertárias assim que vão avançando na proteção de territórios, nas cidades e zonas rurais as fábricas foram ocupadas pelos obreiros, sob a influência principalmente da CNT e da FAI, a qual foi a implantação da coletivização e da prática do comunismo libertário.

Se desenvolveu a prática do comunismo libertário como a base da economia, onde o controle estava associado a trabalhadores organizados pelos sindicatos, principalmente em áreas anarquistas como Catalunha, se chegou a 75% do total da indústria. As áreas agrícolas chegaram a coletivizar-se e funcionaram como comunas libertárias. Em outros territórios, o dinheiro foi totalmente eliminado e os bens se encontravam a um custo muito menor do que tinha anteriormente e inclusive as indústrias produziam mais que antes de serem coletivizadas. Um dos maiores exemplos das indústrias coletivizadas foi a Cinematográfica, Madeira, Agrária, Hotelaria, Pesqueira, Transporte, Têxtil, etc.

Enquanto a ordem pública chegou a eliminar as forças de ordem pública clássicas (Polícia, Guarda Civil, tribunal e exército). Estas foram substituídas pelas Patrulhas de Controle formadas por voluntários, as milícias populares e as assembleias de bairro nas quais se pretendia resolver os problemas que pudessem surgir.

Na educação, aconteceram experiências importantes ao ser entendida como um pilar fundamental da construção da nova sociedade revolucionária com base no racionalismo e cuja prática é a pedagogia libertária. Por exemplo, os ateneus libertários que já tinham uma tradição dentro do anarquismo, chegou a expandir-se a tal ponto de transformarem-se em escolas primárias, secundárias, de ofícios, bibliotecas, atividades recreativas cuja participação ultrapassou as diferentes seções obreiras que não necessariamente tinham tradição de participar destes espaços ou da afinidade anarquista. Nas escolas de ofícios se formavam as pessoas a respeito de diferentes ofícios particulares.

A organização anarquista Mujeres Libres, a qual nasceu em abril de 1936 e que se preparava para publicar uma revista dedicada à cultura e documentação social, contou com cerca de 20.000 filiadas na revolução social e a qual propôs pela primeira vez na Espanha a problemática da mulher desde uma perspectiva de classe, quer dizer, a liberação feminina desde a perspectiva da emancipação obreira e cuja organização era a defesa das mulheres anarquistas frente às demais organizações feministas de diversas tendências políticas que surgiram na mesma época. Esta organização foi um precedente para o âmbito anarquista da região espanhola em tensionar e levantar campanhas sobre a mão de obra feminina nos diferentes ofícios ou inclusive nos trabalhos em torno ao processo revolucionário. Ademais, levantou discussões sobre a sexualidade, o lar, a pedagogia libertária para crianças e inclusive o mal entendimento dos companheiros de luta na questão dos postos de Trabalho.

Não obstante, o processo revolucionário tinha uma diversidade de agrupações com diferentes ideologias, além do anarquismo, estavam as correntes marxistas revolucionárias ou marxistas pró-estado estabelecidas desde a união soviética, grupos antifascistas, etc., por isso, os desenvolvimentos e avanços das práticas anarquistas eram constantemente assediadas e enfrentadas por estas outras correntes. Os anarquistas entendiam que a revolução era produzida por uma série de fatos prolongados através do tempo e que tinha sua relação na luta de classes, ainda quando se derrotara os fascistas e reestabelecia a república seguiria sendo um governo burguês e não deviam defender esse caminho. As agrupações marxistas e de esquerda especialmente o partido comunista espanhol (PCE) e o partido socialista espanhol (PSOE) relacionado ao Governo da frente popular não o viam assim, só queriam o restabelecimento da república.

Em consequência, ainda quando todos estavam combatendo o fascismo de Franco, em muitas situações as milícias anarquistas e coletivizações das indústrias, especialmente as fábricas rurais que praticavam o comunismo libertário, encontraram a traição no marxismo. O campesinato era assaltado, escolas libertárias eram tomadas por milícias do partido comunista, zonas agrárias liberadas e coletivizadas eram assaltadas e apropriadas em “nome da revolução” ou outros contrarrevolucionários, entregavam às milícias antifascistas, anarquistas ou anarcossindicalistas às milícias fascistas. O caso mais emblemático das traições por parte dos comunistas autoritários foi o POUM, organização declarada como marxista revolucionária foi traída por seus próprios “camaradas” de ideologia.

Entre estas situações levaram alguns anarquistas a tomar decisões muito ao contrário de sua postura ideológica, a qual também teve acaloradas discussões internas e enfrentavam a ideia de manterem-se firme à margem do Estado ou bem, participar dentro do Governo. Juan García Oliver, Juan López Sánchez, Federica Montseny e Juan Peiró participaram como ministros do segundo Governo da Vitória com a finalidade de que o Anarquismo fosse uma parte presente entre as decisões tomadas sob a estrutura do Governo Popular, a qual não se teve êxito. Durante esse mesmo mês, a coluna de ferro (milícia anarcossindicalista) decide tomar Valência em protesto pela escassez de provisões que lhe proporciona o Comitê Executivo Popular que naquela ocasião já estava sob a subordinação do Governo e este fato termina em enfrentamentos nas ruas entre milícias libertárias e grupos do partido comunista com mais de 30 mortos.

Esse mesmo mês, a Coluna Durruti chega a Madrid, depois de ceder ante a pressão dos possibilistas exigindo colaboração com o Estado e em 20 de novembro de 1936 Durruti morre em estranhas circunstâncias combatendo na batalha de Madrid.

Já ao finalizar o segundo Governo da Vitória, todas as milícias pertencentes à revolução haviam sido dissolvidas para que integrassem obrigatoriamente o Exército Popular, a qual estava estruturada e hierarquizada pelo Governo e o Estado.

Daqui em diante se desencadeiam uma série de fatos lamentáveis para a revolução. O partido comunista e os marxistas já fortemente posicionados no Governo (novembro de 1936) aplicaram muitas mudanças que foram apagando a revolução. Em dezembro desse mesmo ano, em Moscou publicavam que havia começado “a depuração” de anarcossindicalistas na Catalunha, já em janeiro de 37 o Governo sentencia a proibição do jornal da FAI e esta termina excluída dos tribunais populares. O governo lança um decreto que ilegaliza as coletivizações. Em agosto de 1937 se proíbe a crítica à URSS. A décima primeira divisão comunista autoritária arremete contra diversos comitês revolucionários e finalmente se suspende a publicação anarcossindicalista Solidaridad Obrera. Portanto, a revolução social, principalmente de base anarcossindicalista além de ter que lidar com os fascistas, tinha que lidar com os contrarrevolucionários da corrente comunista autoritária e do marxismo.

No entanto, frente a todas as adversidades a revolução social da Espanha pode desenvolver e pôr em prática os princípios e finalidades do anarquismo, as quais é sempre um marco recordar e estar em constante tensão as vivências de cada território onde nos posicionamos, abraçamos a organização e a luta.

Que viva a revolução espanhola como um símbolo de exemplo em nossa luta atual!

Saúde e Anarcossindicalismo!

Sindicato Ofícios Vários Santiago

Tradução > Sol de Abril

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/05/nova-zelandia-declaracao-da-awsm-sobre-o-aniversario-de-85-anos-da-revolucao-espanhola/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/02/pais-basco-o-comunismo-libertario-e-uma-verdadeira-alternativa-politica-a-qualquer-variedade-do-capitalismo/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/29/declaracao-de-solidariedade-internacionalista-pelos-85-anos-da-revolucao-espanhola/

agência de notícias anarquistas-ana

Flauta,
cascata de pássaros
entornando cantos úmidos.

Yeda Prates Bernis

[Uruguai] Montevidéu: Atividade em solidariedade com os presos em luta nos cárceres chilenos

Os convidamos a participar da Vigília Internacionalista Solidária com os presos em luta nos cárceres chilenos a realizar-se na sexta-feira, 13 de agosto.

Já que entendemos a luta social como um conjunto de práticas que implicam tanto a reflexão, projeção e ação ofensiva contra o sistema estatal-capitalista, como também a sustentação moral e econômica de nossos companheiros perseguidos pelo Estado e seu sistema carcerário de aniquilamento, cremos imprescindível interiorizar-nos com a situação dos companheiros presos e tomar parte ativa na solidariedade internacionalista.

Na vigília se realizará uma vídeo conferência com os companheiros da Rede Solidária com Mónica e Francisco para compreender de primeira mão a situação atual dos companheiros presos.

Compartilhar-se-á uma ceia vegana, se gerará um momento para escrever cartas aos presos, finalizando com música de resistência ao vivo.

Porque quem se esquece dos presos se esquece da luta.
O Silêncio é cumplicidade.
Até que caiam os muros de todos os cárceres.
Solidariedade e Ação.

Sexta-feira, 13 de agosto, 19h30.
Maldonado 1162 esq Gutierrez Ruiz

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/30/chile-contra-as-prisoes-o-estado-e-o-capital/

agência de notícias anarquistas-ana

sol poente
numa ruela
menino corre das sombras

Rod Willmot

[Itália] Por uma campanha antimilitarista. Fora com as tropas italianas da África! Não ao militarismo, não à guerra!

Face a uma presença crescente das tropas italianas na África não basta tomar uma posição, é necessário relançar a iniciativa antimilitarista, lutando pela retirada de todas as missões de guerra.

O governo decidiu recentemente lançar duas novas missões, uma na Somália e outra no Estreito de Hormuz, onde as tensões com o Irã e a China são muito altas. Outras 38 missões foram confirmadas, incluindo 17 no continente africano. Estas missões visam principalmente manter o controle de áreas para a extração e passagem de recursos estratégicos, bem como de áreas-chave dos movimentos migratórios. Tropas de ocupação na Líbia, bem como navios no Golfo da Guiné, defendem os locais de extração e a infraestrutura da ENI. No Sahel, onde a França está lutando em uma situação de guerra real, o estado italiano envia tanques, helicópteros e soldados com a Operação Takuba, enquanto no Níger uma base militar italiana está entrando em operação.

A dimensão do militarismo italiano, embora dependente do poder dos EUA e da estrutura da União Europeia, não deve ser subestimada. Tanto porque o esquema de alianças não é mais rigidamente estável como era há vinte anos, quanto porque o setor militar-industrial é o único setor que o governo italiano continua a apoiar. Este setor foi, de fato, transformado em um dos principais motores da economia nacional. É necessário, portanto, reativar a iniciativa contra as políticas militaristas e imperialistas do Estado italiano.

Enquanto anunciava durante anos a retirada do Iraque e do Afeganistão, o Estado italiano direciona sua projeção militar também para a África, despertando uma velha nostalgia colonial nunca erradicada. Novas missões de guerra para a “defesa dos interesses nacionais”, como agora é dito até mesmo na propaganda oficial e em atos institucionais. As missões militares não se justificam mais sequer com a fórmula hipócrita de “guerra humanitária” ou “pela democracia”, mesmo manto do direito internacional que permitiu chamar uma guerra de “intervenção de paz” caiu. O caráter neocolonial e imperialista dessas missões está diante dos olhos de todos.

Há vinte anos começou a invasão do Afeganistão, começou a “guerra ao terror”. Vinte anos de massacres, destruição e opressão para as populações locais. Mesmo diante do fracasso militar, os bolsos de uns poucos poderosos continuaram a se encher de bilhões, enquanto na Itália, como nos outros países da coalizão, para pagar o custo da guerra em termos de empobrecimento, repressão, militarização, restrição de liberdade e direitos era a classe trabalhadora, a população explorada e marginalizada.

Porque a guerra também está em casa, com a operação “estradas seguras” e com os militares que intervêm contra os grevistas, ou para reprimir os tumultos nas prisões, ou em Val di Susa contra o movimento No Tav. A guerra está aqui, com a militarização, as servidões militares e os polígonos. Com a produção da guerra, o tráfico de material militar perigoso nos portos, as grandes feiras de armas onde são vendidos os mais avançados instrumentos de morte. A guerra nos toca de perto com radares, aeroportos, bases militares, que destroem os territórios em que estão localizados, envenenando as pessoas que ali vivem. É aqui que começam as guerras. Nossas vidas são tocadas pela guerra, porque para alimentar o exército e a indústria de armas, os serviços essenciais são cortados, milhões de pessoas são excluídas do acesso à assistência médica, do acesso à educação, da possibilidade de viver em moradias adequadas. Nas ruas das cidades, a guerra é contra a população migrante e contra todos os explorados. A guerra pode ser vista na propaganda nacionalista e racista, no militarismo, na estrutura patriarcal, hierárquica e classista que governa nossa sociedade.

É hora de retomar uma ampla e abrangente intervenção antimilitarista. Contra toda guerra. Para a retirada das tropas italianas da África e de todas as missões militares no exterior. Contra a militarização de territórios, polígonos e bases. Contra a produção e o mercado de armamentos.

Propomos uma assembleia a ser realizada no segundo fim de semana de setembro para lançar uma campanha antimilitarista articulada, que pode reunir momentos de mobilização nacional com as lutas e movimentos ativos nos territórios, as iniciativas locais de 4 de novembro e a oposição à reunião Aeroespacial e de Defesa em Turim no final de novembro.

4 de julho de 2021

Grupo de trabalho de Antimilitaristas da F.A.I. (Federação Anarquista Italiana)

Fonte: https://umanitanova.org/?p=14501

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

O grito do grilo
serra ao meio
a manhã.

Yeda Prates Bernis

[Reino Unido] Sem piedade na corte: longas sentenças de prisão para manifestantes “Kill the Bill” em Bristol

O protesto contra sentenças de crimes policiais e contas do tribunal no dia 21 de março, em Bristol, resultou em uma das mais perversas campanhas de repressão contra manifestantes em toda a nossa longa experiência.

Nesta semana, as primeiras pessoas que se alegaram culpadas foram sentenciadas pelo juiz James Patrick na Bristol Crown Court. Uma pessoa pegou 3 anos e 11 meses, outra 3 anos e 6 meses e duas outras pessoas foram mandadas para cumprir 3 meses de prisão por rebelião. Outra recebeu 5 meses por ultrajar a decência pelo crime de urinar em público. Todos esses casos tiveram descontos máximos para aqueles que confessassem a culpa.

Agora essas sentenças estão acima de qualquer coisa que tenhamos visto por manifestação neste país durante muitos anos. Este é o ápice desde os 54 meses de prisão por um caso de J18 em 1999, ocasionado por lesão corporal grave. Excede também os 32 meses pela manifestação estudantil em 2009 por jogar um extintor de incêndio da torre Millbank.

O motivo pelo qual as sentenças estão tão altas é que os policiais conseguiram persuadir a CPS (serviço de acusação da coroa) a punir as pessoas por rebelião ao invés de desordens violentas. As diferenças legais são pequenas, mas a sentença máxima por rebelião é de dez anos, dobrados em caso de desordem violenta e as chances da pena ser suspensa são virtualmente zero.

Então agora qualquer um que seja acusado sabe o que esperar. Não haverá piedade nas cortes e o único jeito de evitar penas substanciosas de prisão é ir embora. Não é fácil convencer o júri de que os policiais estão errados depois de uma vida inteira de doutrinação e com todo o peso do sistema de justiça criminal contra você, mas é muito melhor do que esperar que o juiz tenha bebido muitas gins tônicas e sinta que os policiais foram meio brutos demais e que o que passou, passou.

É muito comum a polícia instigar problemas e aumentá-los e quando as pessoas tentam se defender, eles se fazem de tontos. Apesar das alegações de ferimentos graves terem sido desmentidas e de eles terem sido forçados a pedir desculpa para duas mulheres, erroneamente identificadas e brutalmente presas enquanto estavam nos seus dormitórios de faculdade, os policiais continuam sua busca por vingança. Na verdade, a polícia de Avon e Somerset é tão ruim que um comitê parlamentar lançou um relato que os acusava de “policiamento vingativo”. Sem brincadeira.

Até agora, 73 pessoas foram presas, mas somente 28 foram julgadas. Isso não significa que eles vão desistir dos casos, significa que eles têm um grande time de detetives pescando informações durante milhares de horas em circuitos de televisão e câmeras escondidas nas roupas para fazer as acusações colarem (nós precisamos do mesmo para nos defender). Há atualmente 39 fotos de “procurados” no site da A&S e os códigos de área usados sugerem que existem pelo menos 184 suspeitos no total. Isso significa que o pior ainda está por vir.

O que você pode fazer

Nós precisamos de uma campanha para expor as mentiras da polícia e a verdadeira história de um ataque planejado de antemão em um protesto legitimo contra uma legislação draconiana. Campanhas públicas e coletivas de defesa em uma tradição de TSDC contra acusações de Poll Tax Riot são os meios mais efetivos de libertar as pessoas. A campanha de segurança precisa de dinheiro. Você pode doar diretamente para o Bristol Defedant Solidarity/ Bristol ABC ou você pode pagar para um dos cofundadores.

O objetivo deles é arrecadar a maior quantidade possível para cobrir seus gastos semanais para aliviar seus amigos e familiares de terem que sustentá-los financeiramente. O alvo deles não é ambicioso o suficiente e suas sentenças estimadas e condenações são, provavelmente, muito conservadoras. No último grande sentenciamento por rebelião de 2001, em Bradford, 297 prisões resultaram em 200 sentenças de cadeia somando 604 anos de pena e a corte tem endurecido desde então.

Agora sabemos que há 729 apelos diferentes por “suporte legal de fundos” acontecendo ao mesmo tempo. Eles vão de arriscadores que te pedem para pagar a sua multa de covid para apoiar a “liberdade” de espalhar a praga até causas perfeitamente legítimas como os derrubadores de estátuas Coulson Four. Mas eles não estão encarando longas sentenças (ou qualquer período na prisão na verdade) e já existem muitos bem-feitores liberais se enfileirando para ajudar os “defensores gentis”. Então se estão te sobrando alguns trocados, dê para aqueles que estão na merda.

Se você precisa de ajuda, contate a BDS DEFENDANT SOLIDARITY | Bristol Anarchist Black Cross – Prisioner Support ou em qualquer lugar ACAB. (courtsupport@protonmail.com) e se você tem alguma urgência ligue para 07946541511, nós iremos passar para os detalhes de contato dos prisioneiros assim que eles pedirem.

Andy Meinke

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2021/08/01/no-mercy-from-the-courts-lengthy-prison-sentences-for-bristol-kill-the-bill-protestors/

Tradução > Calinhs

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/03/23/reino-unido-mate-o-projeto-de-lei/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/25/reino-unido-bristol-conselho-da-cidade-busca-processar-as-pessoas-que-derrubaram-a-estatua-do-comerciante-de-escravos/

agência de notícias anarquistas-ana

Urge a maritaca.
Desafia a paz do dia
a golpes de faca.

Flora Figueiredo

[Cuba] Diálogos com o “Taller Libertario Alfredo López”: o bloqueio externo do governo e o governo do bloqueio interno

Temos uma espécie de slogan: “Abaixo o bloqueio dos Estados (Unidos, ou não) ao povo de Cuba”, que obviamente reconhece que não só vivemos sob o efeito do bloqueio do governo dos Estados Unidos, mas que existe também o bloqueio do Estado cubano ao povo. Isto é parte de um pensamento anarquista geral, ao qual se pode buscar referências em figuras como Kropotkin, em termos da capacidade de autogestão, auto-organização e apoio mútuo que todas as pessoas têm. Tais capacidades também podem ser chamadas de “forças produtivas”, que é uma das manifestações dessa capacidade, e os estados restringem essas capacidades, assim como o sistema empresarial capitalista. Há autores marxistas que também trabalharam nestas questões, como John Holloway, analisando como esta força criativa pode ser constrangida pela ação das estruturas de poder, e como estas estruturas geram resistência. Há, portanto, uma visão – que compartilhamos – da liberação das forças produtivas além do sistema salarial.

A situação em Cuba hoje, há alguns anos, é que muitas figuras da oposição política ao regime promoveram a noção de “libertar as forças produtivas”. Muitos acadêmicos de economia também disseram isto, e agora até faz parte do discurso oficial: as pessoas do Partido Comunista Cubano (PCC) também falam sobre a libertação das forças produtivas. O que geralmente se entende por este termo é basicamente a promoção de um mercado interno com relações de produção baseadas em micro, pequenas e médias empresas (MipiyMEs), que utilizariam mão-de-obra assalariada. Em princípio, qualquer cidadão de Cuba pode ser empresário – desde que tenha dinheiro e recursos para fazê-lo -; geralmente, essas empresas são apoiadas do exterior através de remessas de parentes, amigos ou outros parceiros, ou como resultado das próprias atividades do empresário em um país estrangeiro. Essas remessas também são algo que afeta grande parte do bloqueio dos EUA.

Portanto, entende-se que em muitos casos tais empreendimentos serão baseados na lógica capitalista. Se dois ou três de nós quiserem criar uma empresa, é muito mais fácil ir até os escritórios municipais correspondentes para solicitar licenças e criar uma microempresa capitalista, onde haverá um “trabalhador autônomo titular” e pessoas contratadas. É enormemente mais fácil criar uma empresa privada que explora mão-de-obra assalariada do que uma cooperativa. Há uma série de regras que o governo tem que restringem o livre desenvolvimento do povo de Cuba, ou seja, não apenas redireciona a criatividade para o capitalismo, portanto, quando falamos em libertar forças, entendemos que ela deve ser libertada em uma direção cooperativa, socialista, equitativa, priorizando o apoio mútuo e não em uma relação hierárquica – mas também há muitas restrições, que vão desde a censura em certos campos artísticos, até restrições burocráticas às atividades, ou a vigilância administrativa, como a quase impossibilidade de criar organizações não governamentais, já que muitas propostas de novas associações são rejeitadas pelos órgãos judiciais.

Cuba é vista de fora como um espaço de coletivismo, mas quando se desembarca, e se fala com vizinhos, trabalhadores, donas de casa, “cubanos a pé” (segmentos humildes, que não dirigem carros) e “as pessoas da rua” (pessoas comuns, sem cargos oficiais), rapidamente se percebe que há muito ceticismo em relação a qualquer forma de organização (sejam sindicatos, associações de bairros, organizações comunitárias), porque as pessoas têm uma experiência de organizações formadas pelo governo e organizadas de cima para baixo, onde os níveis “inferiores” recebem ordens dos “superiores”, e é extremamente difícil canalizar qualquer iniciativa “de baixo” ou do nível local. Existem poucos projetos reais voluntários/comunitários, então quando você tenta falar com as pessoas para organizar algo e ter iniciativa em nível comunitário ou de trabalho, ou mesmo para ter uma iniciativa do tipo sindicalista livre, as pessoas imediatamente pensam que você os está manipulando, representando uma intenção imperialista, intenção dissidente ou pró-capitalista vinda do governo americano, ou que é um “oportunista”, que quer “tomar uma pessoa por suas próprias coisas”, ou seja, usar outras pessoas para seu ego, seus interesses, e provavelmente algum plano duvidoso que mais cedo ou mais tarde entrará em conflito com o Estado. Não é que as pessoas tenham medo permanente, mas quando se fala de algum esforço coletivo que não é “orientado de cima”, os sinais de alerta soam imediatamente: é a paranoia. Isto acontece porque a propaganda tem conseguido sistematicamente criar a imagem de que muito do chamado “ambiente independente” é instigado por programas do governo dos EUA, o que, na verdade, nem sempre é falso. Falamos desses bloqueios também porque não podemos ignorar a política dos Estados Unidos contra Cuba, a política do governo imperialista, de seus aliados “não governamentais” e, é claro, o bloqueio econômico e financeiro.

Dito isto, devemos ser claros sobre as críticas ao bloqueio. Nas críticas do governo cubano, há vários elementos com os quais não concordamos: por um lado, o bloqueio está em vigor desde 1962, quando foi legislado, mas na prática já está em vigor há alguns anos antes disso. Já passou tempo suficiente, e como povo, como país, temos que ser capazes de desviar essa realidade, para viver não rejeitando a injustiça, mas criando meios internos para quebrar o bloqueio: isso deve fazer parte de nossa independência como povo. É muito raro que um país que afirma ser socialista seja dependente de um bloqueio e das decisões de um governo capitalista. É como defender um socialismo que precisa das permissões de um governo para existir. Tal situação nunca estará realmente de acordo com as ideias do socialismo. Uma das garantias existenciais da validade de um projeto socialista autônomo livre é que este projeto existirá por um período de tempo, portanto, ele tem que aprender a viver lado a lado com o poder imperialista-capitalista. Portanto, o projeto tem que aprender a viver e a defender sua existência, também economicamente, porque seria raro se o capitalismo não estivesse assediando este socialismo. Portanto, é parte do projeto socialista como tal aprender a viver mesmo sob o assédio capitalista, e como um projeto independente do imperialismo. Enquanto falamos do bloqueio como um obstáculo sistêmico ao desenvolvimento, estamos reconhecendo que, como projeto socialista, precisamos do capitalismo para sobreviver. Este é um grande problema para que nos reconheçamos como socialistas. O bloqueio existe, dificulta a economia cubana e a convivência social em Cuba; coisas elementares como remessas são restritas. Mas a partir dessa realidade para reconhecer tudo isso como o único caminho que podemos desenvolver – há um longo caminho a percorrer, porque temos que ter uma política para lutar contra o bloqueio, e mesmo de uma perspectiva governamental tem havido tempo suficiente para implantá-lo cada vez mais, se houvesse um pensamento verdadeiramente estratégico na mente dos líderes.

É um bloqueio que afeta as pessoas e as relações comunitárias, mas o outro bloqueio, o bloqueio do governo cubano, também os afeta. Quanto a este segundo bloqueio, nossa visão difere da oposição, no sentido de que vemos a libertação das forças produtivas no âmbito do apoio mútuo, da auto-organização, da autogestão, da cooperação, e não no âmbito de uma livre iniciativa capitalista.

Também pensamos nesta cooperação como internacional, e consideramos que o bloqueio dos EUA rompe com esta cooperação internacional, que se baseia no apoio e não em um empreendimento baseado em um sistema de tipo salarial, ou seja, parte do sistema mundial capitalista. O bloqueio como bloqueio econômico afeta muitas empresas cubanas, deve ser dito, e é real, mas esse projeto socialista é espúrio que, por sua própria existência, deve depender da benevolência de um projeto capitalista e imperialista, de um governo capitalista e imperialista. Deixamos isso bem claro.

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/21/cuba-o-fim-do-encantamento-social-da-revolucao/

agência de notícias anarquistas-ana

As cores da noite
recamadas de silêncio
preparam o dia.

Eolo Yberê Libera

[Grécia] Carta de Giannis Dimitrakis

Uma carta do prisioneiro anarquista Giannis Dimitrakis. Em maio, ele foi atacado na prisão de Domokos e hospitalizado. Atualmente há uma arrecadação de fundos para ele por meio do Firefund.

Olá camaradas,

Fico muito feliz que a minha voz e o meu pensamento cruzem o Atlântico e cheguem até vocês, através de uma rádio gratuita e auto-organizada, pois era muito difícil para nós nos comunicarmos de perto. A prisão, os registros políticos e criminais “sujos” e o alistamento no movimento anarquista certamente tornam quase impossível para mim entrar oficialmente nos Estados Unidos com permissão e documentos da embaixada americana na Grécia.

Hoje, porém, por ocasião do Dia Internacional da Solidariedade com os Prisioneiros Anarquistas, é uma oportunidade de viajar e encontrar, além de fronteiras e restrições, valores e ideais comuns, caminhos e experiências semelhantes de pessoas que levantam o pesado fardo da responsabilidade de reverter o curso autodestrutivo do estado e do capital para a humanidade, a natureza e os animais.

É mais um momento na luta implacável contra o esquecimento para todos os lutadores que pagam o preço de sua escolha para usar qualquer forma de antiviolência social para resistir ou atacar o absurdo, a vulgaridade, a injustiça e a opressão do sistema explorador moderno.

Já tendo vivido 42 anos da minha vida, agora estou falando com você ao telefone da ala de uma prisão provincial localizada a cerca de 250 quilômetros de Atenas, de onde eu venho. Vinte e quatro anos após minha primeira leitura do livro “Deus e o Estado” de M. Bakunin, continuo incuravelmente encantado com as idéias do comunismo antiautoritário, a anarquia.

Seguindo constantemente meu desejo de todos esses anos, de lutar contra os aparentemente poderosos desta terra de todas as formas e meios, refutei coletivamente minhas negações por meio de ações conjuntas com camaradas do movimento anarquista na Grécia, onde, com nossas próprias propostas políticas, mergulhamos na grande panela de lutas sócio-econômicas-políticas de massa.

Esta é a segunda vez que estou atrás dos muros de uma prisão, pois fui preso junto com o camarada Kostas Sakkas, há 2 anos, por uma unidade de contraterrorismo que observava naquele momento cada movimento que fazíamos, infelizmente sem que percebêssemos, poucos segundos depois de termos retirado, sob ameaça armada dos agentes de segurança privada da empresa Group4S, o dinheiro que colocaram num multibanco na entrada de um hospital em Tessalônica.

Claro, não foi por acaso que estávamos em um círculo estreito de fileiras especiais da polícia. Eu, quase sete anos após minha libertação da prisão, continuava sendo o alvo dos policiais como um ex-prisioneiro e politicamente ativo dentro das linhas do movimento anarquista. Kostas, há apenas alguns meses, havia sido libertado de uma detenção de quatro anos por posse de armas e explosivos, tendo sido anteriormente absolvido de uma série de crimes por ter sido inicialmente acusado de ser membro da organização revolucionária Conspiração das Células de Fogo.

Pela primeira vez, estive preso por seis anos, em janeiro de 2006, quando tentei com três outras pessoas expropriar dinheiro de uma agência do Banco Nacional no centro de Atenas, terminando com minha prisão e ferimentos graves com tiros de policiais após um choque durante nossa fuga. Por ocasião deste acontecimento, três camaradas anarquistas, Simos Seisidis, Marios Seisidis e Grigoris Tsironis, foram à clandestinidade, quando foram considerados autores do roubo pelo Ministério Público e contra eles foram emitidos mandados de detenção.

Cinco anos depois, naquele dia, Simos foi preso após ser baleado nas costas por um policial durante uma perseguição que se seguiu à sua localização acidental e custou-lhe a amputação da perna direita. Ele foi então absolvido de todas as acusações, como Grigoris, que seria preso em 2015, e agora ambos estão em liberdade.

Marios foi preso em 2016 e atualmente permanece preso por quatro anos com pena longa e aguarda julgamento em segundo grau. Naquela época eu havia defendido meu ato com um texto público, mas também nos julgamentos, incluindo o assalto a banco como outra expressão de negação prática do trabalho assalariado, como minha própria resposta como anarquista ao dilema colocado pela grade capitalista e autoritária, explorador ou explorando.

Em setembro passado, os juízes que me condenaram a 11 anos e meio por roubo, que desempenhavam o papel de cobaia em um “laboratório” policial, decidido desde o início a fracassar na emboscada bem estabelecida dos policiais, falei da minha reação instintiva para resistir ao colapso econômico e psicológico que me conduziu matematicamente aos anos, conflitos ininterruptos e graves com o mecanismo repressivo do Estado.

Depois, durante o difícil esforço de sete anos para evitar uma nova prisão e ao mesmo tempo para curar as feridas do confinamento de seis anos que se abriram em meu ambiente familiar, percebi que a vingança do campo rival continuava em muitos níveis, estreitando de forma sufocante os limites do meu espaço de vida na sociedade fora dos muros.

Voltando ao dia de hoje, dia de recordação e solidariedade, devo dizer que o caloroso abraço de proteção que o apoio de meus companheiros generosamente me ofereceu durante todos esses 15 anos, a partir de 2006, é o que me guardou e guarda minha mente e minha alma intacta e ilesa desde os dias com o monstro do confinamento, a violência do Estado, a justiça da falsa democracia burguesa e como muitos outros tentam me prejudicar.

Aqui na Grécia, muitas vezes escrevemos nas paredes da cidade, nos nossos banners e nos nossos textos uma frase: “SOLIDARIEDADE É A NOSSA ARMA” e realmente que grande verdade ela contém!

Quando o movimento doméstico anti-autoritário / anarquista floresceu e cresceu rapidamente, passando por uma década explosiva que passou pelas chamas de dezembro de 2008, milhares de incêndios criminosos e ataques a bomba contra alvos estatais e capitalistas foram realizados por muitos deles aos companheiros encarcerados, os confrontos anti-memorando na Praça Syntagma no período 2010-2012, foi a solidariedade que se espalhou, fortaleceu as relações político-camaradas e formou o contrapeso necessário ao estado grego que havia superado sua estratégia inicial anti-anarquista ao aprisionar dezenas de anarquistas.

Foi o que se enraizou e empurrou e empurra muitos a arriscarem até a própria liberdade ou a vida, a fim de transformar a teoria em prática, saltando no fogo da luta. E era natural que os mecanismos repressivos fizessem do rompimento desses fortes laços de solidariedade uma prioridade de perseguições sucessivas, prisões e condenações severas, mas não foram bem-sucedidos.

Durante este período de tensão, durante o qual a disseminação de ideias e ações anarquistas ampliou e engrossou as linhas do movimento, enquanto, ao mesmo tempo, amados camaradas passavam pelas portas da prisão em uma taxa crescente, uma conexão de qualidade de dentro e fora das paredes foi alcançada. Por um lado, a atitude implacável dos presos-agora-anarquistas, que continuam a falar, escrever, defender suas ações através das celas, para participar de lutas comuns com a população mais ampla de presos sociais, inspirou aqueles de fora dos muros para criar aquela rede de solidariedade que vai perfurar as paredes e na prática dizer que nada acabou, tudo continua.

Apoio ético e político aos anarquistas cativos emoldurado por chamados de intervenções telefônicas em eventos, pela publicação de entrevistas e seus textos em cinema e rádio, pelo envio de livros, cartas, cartazes, publicações e, claro, por centenas de atos de agressão, contra vários alvos como o custo mínimo a ser pago por aqueles que têm uma parte da responsabilidade pela tomada de companheiros como reféns na prisão.

Nesse movimento nasceu a ideia do Fundo de Solidariedade para Presos, Perseguidos e Revolucionários, que se encarregava do apoio financeiro mensal, inicialmente dos anarquistas presos, ampliando ainda mais o conceito de solidariedade. De fato, nos anos seguintes, na medida do possível, o apoio do Fundo abriu seu quadro e incluiu presos políticos comunistas e presos sociais com atividade militante dentro das prisões ou que praticamente se solidarizaram com anarquistas perseguidos.

Sob esse guarda-chuva protetor estavam aqueles de nós que estávamos ou ainda estamos presos, evitando um curso solitário e destrutivo na chuva tóxica e corrosiva que encharca as células escuras e carnívoras, tentando – dependendo das forças -, tanto dentro quanto fora dos muros, dar feedback um para o outro.

Foi esse senso de valor da solidariedade, impressionado pela experiência que em meados de janeiro levou a mim e ao camarada Nikos Maziotis – um membro da organização armada anarquista Luta Revolucionária – a lançar uma greve de fome, apoiando efetivamente a luta que Dimitris Koufontinas já havia começado como grevista. Preso desde 2002, assumindo a responsabilidade pelas atividades da organização comunista armada em 17 de novembro, ele comprometeu sua vida e exigiu a implementação da lei aprovada pelo governo e ilegalmente aprovada, a fim de transferi-lo para uma prisão diferente da planejada.

Era impossível ficar inativo diante do espetáculo do violento sequestro do lutador emaciado e fisicamente fraco por policiais encapuzados, que se desenrolava diante de nossos olhos. Uma imagem nojenta que Nikos e eu tivemos a “sorte” de ver à medida que esta prisão provincial com os mais altos padrões de segurança, destinada em um futuro próximo a ser transformada em um inferno de condições especiais para prisioneiros políticos e casos de crimes graves, colocou a nós três na mesma ala e em celas adjacentes. Além disso, infelizmente, na próxima ala está o lixo fascista recentemente condenado do Aurora Dourada.

Com Dimitris Koufontinas como protagonista, procuramos enriquecer o conceito de solidariedade com Nikos com a nossa reação espontânea e a ação imediata de dois outros presos, Polykarpos Georgiadis e Vangelis Stathopoulou, que estavam detidos em outra prisão e ligados ao movimento radical mais amplo fora dos muros, que varreu proibições e bloqueios devido à pandemia e teimosa e pacientemente levou milhares de combatentes às ruas das principais cidades do país.

As manifestações de massa, as centenas de ações noturnas e dinâmicas que ocorreram contra bancos, escritórios políticos do governo e seus deputados, veículos da polícia, etc. na teia vazia e minada de policiais e patrulhas foi o resultado do feedback de qualidade produzido pela luta conjunta para justificar o pedido de Dimitris Koufontinas.

O fim desse conflito, que durou quase dois meses, não teve o resultado desejado. Mas acredito que esse ressurgimento, o renascimento das forças militantes sociais que desenvolveram e desafiaram as cidades ocupadas pelos militares por hordas de policiais enfurecidos, que perseguiam e espancavam qualquer um que participasse de movimentos de solidariedade pública, excede em muito seus valores.

A vitória do governo foi recebida com pesadas perdas, pois a recusa persistente a um pedido de transferência que levou o grevista à beira da morte condensou toda a natureza sádica, fria e desumana do poder estatal que incomodou, despertou e indignou sociedade. Que mantenham Dimitris neste cárcere, enquanto reconstruímos, a partir dos novos e de qualidade fomentados que foram conquistados, o fio condutor dos próximos jogos! A prisão é a arma mais afiada do poder estatal e do capital para manter os oprimidos no regime de exploração e liberdade que lhes é imposto, a fim de reproduzir perpetuamente riquezas e privilégios para uns poucos de seus cortesãos. Ele é o carrasco que espera tanto as classes sociais mais baixas que sofrem com a miséria quanto os militantes que realmente desafiam o domínio da falsa democracia burguesa.

É a espada de Dâmocles que paira sobre a sociedade oprimida e corta em cada indivíduo a expressão coletiva da raiva que se acumula com a violência, a injustiça que recebe diariamente do sistema explorador.

Depois de vários séculos, quando a humanidade substituiu a tortura, a mutilação, o enforcamento, a guilhotina e outras formas duras de punir os infratores com prisão e privação de liberdade, é certo que esse método é um fracasso. Ela não conseguiu nada mais do que reproduzir, inflar e reciclar a violência com combustível esmagando e desintegrando as almas humanas.

Em países de capitalismo selvagem que aplicam condições ainda mais rígidas de detenção para prisioneiros, não apenas eles falharam em resolver os problemas colocados pelas arenas capitalistas com fins lucrativos e canibais que eles criaram como uma condição social, mas, pelo contrário, levaram a uma situação geral ossificação.

Para mim, a crítica dos anarquistas à instituição da prisão é absolutamente adequada, o que por meio de análises acaba abolindo-as. Certamente os abortos “penitenciários”, os infernos desumanos, os depósitos de concreto das almas devem ser destruídos. No entanto, nós, que propomos o fim da privação de liberdade como forma de administrar justiça por danos e comportamentos prejudiciais de uns para com os outros, devemos propor as novas formas de aplicar a justiça das pessoas.

A invocação de uma futura revolução que, a partir do próximo dia de seu domínio, purificará todas as distorções mentais e psíquicas do comportamento humano, eliminará todas as causas que empurram o indivíduo para práticas canibais e anunciará que a nova sociedade santificada pode ir de mãos dadas com os sonhos e desejos que nos motivam a lutar e lutar pelos ideais do anarco-comunismo não são suficientes.

Na fecundação do ventre revolucionário, não deveríamos nós, como anarquistas, ter nossas próprias sementes, para que, se encontrassem terreno fértil, ou seja, a aceitação por amplos setores da sociedade, as ideias que temos para o mundo futuro possam ser desenvolvidas e testadas? Não devíamos estar atentos às experiências e instituições aplicadas pelas sociedades revolucionárias anteriores na tentativa de reaproximar o conceito de justiça, para que, nos erros ou exageros surgidos, possamos elaborar e imaginar, ainda que sementes, os novos caminhos que podem levar a condições de vida mais justas e livres?

Nossa luta pode ou não ter muitas peças para completar o quebra-cabeça e a imagem da revolução. Camaradas, não tenham dúvidas se esta terra, se este paraíso que se transforma em inferno espera ser salvo, então a solução está no caminho que leva à Avenida da Revolução. E porque o lado oposto, pelo menos por enquanto, não parece abrir mão de seus privilégios, poder e riqueza voluntariamente, infelizmente permanece – como solução o confronto violento e a derrubada do poder e do capital.

Sem coordenação e organização, sem a necessária substância coletiva entre ecologia, anti-racismo, anti-fascismo, anti-patriarcado, anti-nacionalismo, adoção da preferência sexual ou qualquer outra identidade individual, que nada mais é do que a rejeição do poder e capitalismo, seremos aqueles que em breve desaparecerão, passando o disputado ao eterno, num futuro cujas fronteiras se estreitam constantemente.

Se a revolução vier quando a Terra for transformada em paisagem como no filme Mad Max, então pode ser tarde demais e tudo, animais, pessoas, ambiente natural terão pago um preço tão alto que a vitória terá perdido seu espaço natural e vital para se desenvolver.

Para encerrar, gostaria de me dirigir em particular aos camaradas que estão lutando em um dos ambientes políticos mais difíceis, como o dos EUA, talvez a primeira e mais poderosa locomotiva capitalista imperialista do mundo. Não consigo imaginar como é difícil falar, pensar e agir de maneiras subversivas e conflitantes dentro de um complexo estadual onde a pena de morte está em vigor ou onde prisioneiros políticos, como membros dos Panteras Negras, ainda estão na prisão depois de muitas décadas.

Observando o nível de violência policial nos Estados Unidos nos últimos anos, e não apenas durante o período Trump, nossa preocupação era intensa, enquanto criava especulações sinistras sobre o futuro dos norte-americanos e especialmente das classes sociais mais fracas. No entanto, as reações que eclodiram por ocasião do assassinato de George Floyd, os meses de conflito, as manifestações de massa, o ressurgimento da antiviolência social como uma alavanca para retribuir a violência aceita pelos oprimidos, por muito tempo deu origem à esperança novamente.

Minha alegria pessoal foi grande ao ver que no berço do capitalismo as pessoas saíram às ruas em massa, multirracialmente determinadas a responder à violência do Estado. Tenho certeza de que os lutadores que participaram desse levante agora enfrentam as consequências da repressão com prisões e vigilância. Imagino que ninguém tenha permissão para atacar o “Sonho Americano”, a História de Sucesso que diz que neste país tudo é possível, ou seja, se você abaixar a cabeça, seguir as regras, trabalhar como um escravo e vender sua alma ao forte talvez encontre um lugar ao sol.

150 anos desde a sangrenta Comuna de Paris e um pouco menos do que quando em 1886 um dos lutadores da Batalha de Chicago e a introdução das oito horas, August Spies disse: “exploradores, o único argumento que pode ser eficaz: VIOLÊNCIA!”

Se nós, como militantes / revolucionários, temos uma dívida para conosco e depois para com os outros, então isso é reverter a cadeia de autodestruição liderada por Estados e capitalistas, para curar as feridas que a humanidade abriu na natureza, nos animais e para consigo mesma e para mapear um curso para a recriação de um paraíso terrestre onde a vida será o jogo mais mágico, do qual vale a pena participar até o seu último suspiro.

Hoje homenageamos os camaradas que suportaram, suportaram com dignidade, que não capitularam, não se ajoelharam diante do monstro da prisão, as pesadas e destrutivas sentenças que lhes foram impostas pelos governantes deste mundo.

Até a vitória, nada acaba, tudo continua.

Boa resistência a todos dentro e fora dos muros.

A solidariedade é a nossa arma!

Giannis Dimitrakis da prisão Domokos.

Fonte: https://june11.noblogs.org/post/2021/07/19/letter-from-giannis-dimitrakis/

Tradução > abobrinha

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/14/grecia-comunicado-sobre-o-ataque-mafioso-ao-compa-anarquista-giannis-dimitrakis-no-carcere-de-domokos/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/26/grecia-tessalonica-sentenca-final-para-os-anarquistas-giannis-dimitrakis-kostas-sakkas-e-dimitra-syrianou/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/09/04/grecia-arrecadacao-de-fundos-para-as-despesas-legais-dos-camaradas-anarquistas-g-dimitrakis-e-c-sakkas/

agência de notícias anarquistas-ana

casa na neve
odores vindos de longe
o céu como teto

Célyne Fortin

“Papo de Punk” | Zines, expressão e voz na luta antirracista e libertári

Dia 14 de agosto, sábado, temos encontro marcado com mais um “Papo de Punk”. Dessa vez receberemos Thina Curtis e Ivan Ribeiro. A mediação será feita por Antônio Carlos Oliveira (CCS-SP/ PSN-BR).

Thina Curtis foi atuante no movimento punk, se tornou fanzineira e grande entusiasta da produção e difusão dos fanzines, participa de inúmeros eventos de exposição e debates sobre fanzines.

Ivan Ribeiro foi um dos fundadores do ACR (Anarquistas Contra o Racismo), que teve núcleos em várias cidades e estados pelo Brasil, e que se desdobrou em várias outras iniciativas, também produziu zines.

Ambos estarão comentando um pouco de sua importante experiência em sua atuação dentro do movimento punk ou anarcopunk, na produção e difusão dos fanzines e na luta concreta a partir de suas lutas especificas contra o racismo, o machismo e o sexismo.

>> Acesse o link e se inscreva em nosso canal:

https://youtube.com/channel/UCZDgFbQp1tW0MVPOQpJAyJw

agência de notícias anarquistas-ana

Ao pôr-do-sol
O brilho humilde
Das folhas de capim.

Paulo Franchetti

[Espanha] Piquete CNT-AIT em Torrelavega na semana de luta contra Burger King

No contexto da “Semana de Luta contra Burger King Spain, de 2 a 8 de agosto” e assim como em outros pontos do estado, a CNT-AIT realizou um Piquete no Burger King de Torrelavega em 5 de agosto passado. Ao piquete se uniram companheiros do Banco Obreiro de Alimentos e individualidades.

Para conhecer mais sobre o conflito anarcossindicalista contra Burger King iniciado desde o Sindicato de Ofícios Vários de Albacete da CNT-AIT, podes ler suas próprias palavras em seguida.

Burger King Explora, despede e não respeita os direitos dos trabalhadores/as.

Desde o Sindicato de Ofícios Vários de Albacete da CNT-AIT se convoca uma Semana de Luta a nível nacional contra Burger King de 2 a 8 de agosto, pela violação sistemática pela empresa dos direitos de seu pessoal.

A política de não cumprimento das condições de trabalho e violação de direitos fundamentais se traduziu em várias denúncias apresentadas à Inspeção de Trabalho e Segurança Social por suas trabalhadoras e trabalhadores, que possibilitaram diversas sanções econômicas à empresa. Segundo a documentação da qual dispomos, a Inspeção de Trabalho sancionou a empresa em 14.000 euros somente em Albacete, por não cumprimento relacionado com irregularidades no registro horário do pessoal, violação de direito à informação dos trabalhadores e violação do direito à intimidade e à própria imagem.

A parte de algumas destas questões que também foram denunciadas pela CNT-AIT, nosso sindicato denuncia que a empresa durante 2020 não aplicou o aumento salarial que correspondia em relação ao Salário Mínimo Inter profissional, aumentando quantidades a todas as suas trabalhadoras e trabalhadores. Motivo pelo qual um companheiro de nosso sindicato apresentou uma demanda por demissão e uma reivindicação de quantidades contra a empresa.

Outro dos extremos de nossa denúncia é a contratação em fraude de lei que utiliza a empresa em seus estabelecimentos para abusar da contratação temporal e não gerar relações laborais indefinidas ou contratos em jornada completa. Atividade que em alguns centros de trabalho deveriam cobrir-se com contratos indefinidos fixos descontínuos ou diretamente indefinidos.

Ao mesmo tempo em que utilizam contratos de jornada em tempo parcial para superar os limites legais estabelecidos.

A empresa sendo conhecedora disto se encarregou desde Madrid de encobrir todas estas irregularidades com pagamentos falseados onde a empresa esconde horas extras ou horas complementares ilegais, sob o conceito de Plus de Produtividade, com o fim de maquiar a jornada em fraude de lei.

Concretamente e no caso de nosso companheiro, o julgamento será no próximo mês de setembro, aonde irá principalmente provar a contratação em fraude de lei e o abuso que a empresa aplica sobre os contratos temporários na maioria dos estabelecimentos da empresa, assim como a demissão de nosso companheiro e os não pagamentos salariais.

A defesa legal da empresa, com o fim de resolver o conflito, se dirigiu a nosso sindicato e nos propôs o reconhecimento de todas as quantidades devidas (diferenças salariais, não pagamento de plus), e melhora da indenização, o que reconheceria parcialmente o Fim de Contrato como uma demissão improcedente e não como uma extinção da relação laboral de caráter temporário. No entanto, nossa intenção é demostrar que a política de contratação de Burger King é a contratação em fraude de lei.

Desde as fileiras do anarcossindicalismo fazemos um chamado a todas e todos os trabalhadores de Burger King para que se organizem e defendam seus direitos frente à empresa, mediante a assembleia, o apoio mútuo e a ação direta, contra as Eleições Sindicais, os Comitês de Empresa, os liberados sindicais e as subvenções.

BURGER KING EXPLORA, DEMITE E NÃO RESPEITA OS DIREITOS DOS/AS TRABALHADORES/AS

Fonte: https://www.briega.org/es/noticias/piquete-cnt-ait-torrelavega-semana-lucha-contra-burger-king

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

um gato perdido
olha pela janela
da casa vazia

Jeanette Stace

[Espanha] Ale-Hop reprime três afiliadas da CNT por exigirem o cumprimento de Acordo Coletivo de Trabalho

Por CNT Barcelona

  • As mobilizações solidárias continuam em diferentes cidades da Espanha.
  • A seção sindical da CNT denuncia e obriga Ale-Hop a pagar o bônus voluntário de melhoria que havia sido retirado somente dos membros do sindicato.
  • O Departamento do Trabalho declara que as eleições sindicais realizadas em Barcelona constituem um elemento perturbador, pois são eleitos representantes que não vivem na província.

Após meses de incessantes demandas diante das lojas Ale Hop em Barcelona, depois que o representante de recursos humanos interrompeu o diálogo sobre diversas reclamações por descumprimento do acordo coletivo setorial da Catalunha, a empresa passou a sancionar três trabalhadores pertencentes à seção sindical da CNT com dois meses de suspensão de emprego e salário. Todas as sanções foram apeladas nos tribunais sociais pela equipe jurídica do sindicato.

Enquanto isso, a solidariedade está sendo demonstrada na forma de comícios e piquetes em frente às lojas Ale Hop em Zaragoza, Bilbao, Salamanca, Las Palmas, Burgos e Rota, informando aos clientes sobre o conflito sindical e as violações trabalhistas sofridas pelos trabalhadores.

Por outro lado, em 21 de julho, a Inspetoria do Trabalho e Previdência Social de Barcelona emitiu um relatório a favor das exigências da seção sindical, obrigando a empresa a pagar aos trabalhadores o bônus de melhoria voluntária que havia sido retirado quando eles se recusavam a trabalhar aos domingos voluntariamente e sem serem pagos corretamente.

A seção sindical pede ao pessoal que continue a se mobilizar e exigir que os direitos trabalhistas sejam respeitados. Eles denunciam a passividade e cumplicidade do conselho de trabalho da UGT, apontando que as últimas eleições sindicais foram contestadas devido a irregularidades na eleição dos cargos. Por esta razão, o Departamento do Trabalho declarou que a representatividade dos trabalhadores da empresa Clave Denia (Ale Hop) está claramente diminuída em eficácia e é um elemento perturbador que os representantes que nem sequer vivem na província para a qual serão eleitos participem da negociação coletiva.

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/ale-hop-sanciona-a-tres-afiliadas-a-cnt-por-reivindicar-que-se-cumpla-el-convenio-colectivo/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

gota no vidro
um rosto na janela
olhar perdido

Carlos Seabra

A Espanha vendeu mais de um milhão de euros em armas para o regime cubano em 2020

Enquanto Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol, evita descrever Havana como uma “ditadura” quando questionado sobre a repressão dos protestos na ilha, a Espanha exportou para Cuba um valor de 1.202.500 euros em material militar somente em 2020, segundo relatórios públicos do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo da nação ibérica.

Durante o ano passado, quando a economia da ilha caiu devido à pandemia, a interrupção da chegada de turistas, o declínio das remessas e o endurecimento das sanções pela Administração Trump, Havana pôde gastar 1,2 milhões de euros em “materiais energéticos e substâncias relacionadas” e outros 2.500 em “revólveres e pistolas automáticas”.

O maior valor de compra incluía, de acordo com os documentos, “propulsores, pirotecnia, combustíveis e substâncias relacionadas, percloratos, cloratos e cromatos, oxidantes, aglutinantes, aditivos e precursores”.

Enquanto isso, a compra de revólveres e pistolas automáticas se qualifica como uma compra de “armas de cano liso com calibre inferior a 20 mm e armas automáticas com calibre de 12,7 mm” e também inclui “rifles, revólveres, pistolas, metralhadoras, silenciadores, carregadores para estas armas, miras ópticas e supressores de flash”, de acordo com os documentos.

Os números de 2020 foram o dobro dos de 2019, quando as vendas de armas espanholas para a ilha totalizaram 612.300 euros. Estes números se tornam mais eloquentes após a explosão social ocorrida em Cuba no domingo 11 de julho, quando os cubanos na ilha viram um destacamento sem precedentes de tropas anti-motim, equipes de assalto e armas de alto calibre nas ruas das principais cidades, com muitos perguntando de onde vinham.

A Espanha é um grande exportador de armas e seus principais clientes incluem países como Arábia Saudita, Turquia, México, Reino Unido e Holanda, entre outros.

É também o terceiro maior parceiro comercial de Havana, atrás apenas da China e Venezuela, com exportações que em 2018 e 2019 excederam 900 milhões de euros, embora em 2020 tenham caído 35% ano a ano devido à pandemia, segundo dados do ICEX (Instituto de Comércio Exterior), ligado ao Ministério da Indústria.

Apesar de ser uma economia pequena, altamente centralizada e com baixo poder aquisitivo, Cuba é um mercado importante para a Espanha e foi seu sexto maior cliente na América Latina em 2020.

No total, a ICEX estima que cerca de 275 empresas espanholas estão estabelecidas na ilha. Várias delas estão trabalhando no desenvolvimento de grandes projetos imobiliários associados a campos de golfe e hotéis, tais como Globalia, Atlantic Group Investment e La Playa Golf and Resort.

Fonte: agências de notícias

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/09/a-esquerda-em-face-dos-protestos-em-cuba/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/05/declaracao-do-colectivo-cuba-liberacion-negra/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/04/cuba-declaracao-de-afrocubanas-la-revista/

agência de notícias anarquistas-ana

Silêncio:
cigarras escutam
o canto das rochas

Matsuo Bashô

Grécia em Chamas: a crise climática gerada pelo capitalismo resulta em um crescente número de refugiados climáticos

Estas são as imagens de Evia, na Grécia, onde centenas de lares foram queimados por um fogo furioso. Seus habitantes, agora refugiados climáticos, foram forçados a fugir para acampamentos improvisados e estádios. E não é somente na ilha, porque muitos outros lugares da Grécia têm sido tomados pelas chamas há quinze dias, incluindo florestas e assentamentos humanos. O que fica para trás é a completa destruição de ecossistemas e formas de vida.

Não é somente na Grécia: projeta-se que o número de refugiados climáticos ao redor do mundo ultrapassará um bilhão nas próximas décadas. O que está por trás destes desastres como queimadas, enchentes, secas, etc, é a mudança climática causada pelo capitalismo e as coisas só pioram com as décadas de reformas neoliberais e medidas de austeridade que deixaram nossas sociedades extremamente vulneráveis. Programas de saúde, departamentos de incêndio, redes de abastecimento de água e outros serviços públicos foram sistematicamente desmanchados para o rápido lucro de uns poucos poderosos, uma elite desproporcionalmente rica.

A única coisa que existe em abundância é a força policial para garantir que aqueles que perderam seus lares ficarão nos acampamentos recém criados para refugiados climáticos e que nenhuma onda de protestos populares se formará para ameaçar a crescente desigualdade de poderes nas nossas sociedades.

Um exemplo disso é que durante o incêndio na Grécia, menos de mil bombeiros foram enviados para a linha de frente de combate ao fogo. Enquanto isso, foram implantadas de 4.000 a 6.000 unidades de polícia em Atenas para demonstrações individuais. O caso mais notável foi em 6 de dezembro passado, quando foi celebrado o 12° aniversário da morte do adolescente Alexis Grigoropoulos, assassinado a sangue frio por um policial.

Em muitos lugares na Grécia, muito da resistência foi feita por locais auto-organizados e voluntários, já que não havia bombeiros o suficiente. A situação é parecida com a pandemia, durante a qual moradores urbanos organizaram redes de apoio para os mais vulneráveis, que são deixados de lado sem nenhum apoio por conta do sistemático desmanche neoliberal do sistema de saúde público.

Para todos aqueles que reclamam de não haver Estado, eu preciso dizer isso: há um Estado e ele só tem interesses que são diametralmente opostos aos interesses da vasta maioria da população.

Yavor Tarinski

Fonte: https://freedomnews.org.uk/2021/08/07/greece-in-flames-capitalist-made-climate-crisis-leaves-an-increasing-number-of-climate-refugees/

Tradução > Calinhs

agência de notícias anarquistas-ana

Nos bambus já escuros,
morcegos, daqui, dali,
também sem destinos.

Alexei Bueno

[Cuba] Liberdade para Yoan de la Cruz

Yoan de la Cruz é um jovem de 26 anos de idade, nascido e criado na pequena cidade de San Antonio de los Baños e entre seus pares, um amado e conhecido ativista da comunidade LGBTIQ em sua cidade. Ele é um trabalhador autônomo sério, sem explorar o trabalho de outras pessoas, associado com a empresa estatal ETECSA. Não há nada em sua formação que o ligue ao mercenarismo em favor de interesses contrários aos do Estado de seu país.

Uma de suas paixões é viver em seu bairro, sua vida cotidiana e sentir-se parte dele. Como parte deste impulso pessoal, ele se sentiu moralmente obrigado a contar a sua rede de amigos no facebook o que aconteceu e o que ele experimentou com seu povo em 11 de julho em sua cidade de San Antonio. Quase sem saber, Yoan seria uma das primeiras pessoas a dar a conhecer, diretamente, imagens do dia e do lugar que mudou a percepção do que estava acontecendo em San Antonio e, mais tarde, em muitas outras partes de Cuba.

Yoan apenas documentou uma realidade, ele não a produziu, nem a instigou. Pela ativação e conscientização de um mar de pessoas, não é possível responsabilizá-lo por isso. Uma delas é parte ou não do sentimento de decepção, raiva e desesperança de milhões de pessoas em nosso país.

Acusar Yoan de instigar os acontecimentos de 11 de julho em Cuba é como culpar uma pedra pelo transbordamento de um rio. É algo que só se encaixa na mentalidade de um opressor que não vê a vida, mas vidas como objetos controláveis.

A única responsabilidade de Yoan é amar seu povo, sentir-se parte dele e ter orgulho dele. Essa responsabilidade não merece nem requer nenhum processo criminal. E se assim fosse, as leis de nosso país estão erradas e não Yoan e centenas de jovens que se encontram na mesma situação em toda Cuba.

LIBERDADE PARA YOAN E TODXS XS OUTRXS IRMÃXS! CUBA BATE EM SEU POVO E NÃO EM SEUS REPRESSORES!

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/09/a-esquerda-em-face-dos-protestos-em-cuba/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/05/declaracao-do-colectivo-cuba-liberacion-negra/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/04/cuba-declaracao-de-afrocubanas-la-revista/

agência de notícias anarquistas-ana

Sob a lua
a sombra que se alonga
é uma só.

Jorge Luis Borges

A propósito de Cuba: Pelos Sonhos Quebrados

Por Montserrat Álvarez | 20/07/2021

Para a geração de meus anciãos, Cuba foi a mais bela revolução do século XX, a possibilidade de um sonho há muito acalentado em uma ilha que, apesar de ser dominada pela política externa dos Estados Unidos com seu jogo sujo de sanções e bloqueios – que soube enfrentar com coragem – demonstrou ao mundo que quebrar os limites de ferro impostos por Washington a qualquer tentativa de mudança social na América Latina não era impossível. Cuba foi uma alegria compartilhada, um símbolo brilhante, uma experiência da qual todos os povos oprimidos puderam aprender grandes lições, um exemplo para todo o continente. Tendo posto um fim à tirania de uma ditadura corrupta, Cuba foi a aurora da liberdade, a prova de que uma sociedade mais humana era possível, que as promessas de justiça social não eram enganosas quando apoiadas pela luta heroica da guerrilha. A revolução cubana não foi uma vulgar batalha pelo poder político, mas a luta por uma vida que vale a pena viver, por uma vida com saúde, com educação, com arte, com trabalho, por uma vida verdadeiramente humana, uma vida “com todos e para o bem de todos”, como José Martí teria desejado.

“Há um governo de homens jovens e honestos, o país tem fé neles, vai haver eleições”, anunciou Fidel ao entrar em Havana de madrugada em 1959. Mas muito cedo, as reformas da Constituição de Cuba de 1940 deram início a uma mudança no sentido da captura pessoal do Estado. Os destinos sinistros do ostracismo, da prisão e do paredão começaram a alcançar, tocar e agarrar os próprios revolucionários não-conformistas.

A domesticação continuou durante décadas com o controle da imprensa, censura dos intelectuais, “reeducação” de elementos dissidentes e “contrarrevolucionários”, e vigilância recíproca da população pela população. Quando a ajuda soviética entrou em cena para combater o embargo americano, a mudança para o populismo repressivo estava completa, com o exército e o Partido Comunista finalmente transformados em instrumentos da ditadura muito pessoal de Castro, e com a burguesia restaurada na própria burocracia de Castro, que se tornou o gerente do capitalismo de Estado.

Uma intervenção militar americana em Cuba não pode, de forma alguma, ser tolerada. Nem em nenhum outro lugar do mundo: basta olhar para a história recente para se opor a ela. Mas dizer que o que existe hoje em Cuba é o socialismo não faz nenhum favor ao socialismo. E mesmo que o partido – o único – que por mandato constitucional dirige o Estado e a sociedade em Cuba seja chamado de Partido Comunista, ele também não faz jus ao seu nome. Infelizmente, não se pode dizer que este seja ou tenha sido um caso isolado.

Questões deste tipo estão longe de ser patrimônio da direita; o oposto é verdadeiro. Gracchus Baboeuf apontou o estabelecimento de poderes ilimitados para “defender a revolução” como uma das causas fundamentais da degeneração do projeto da Revolução Francesa de 1789. A mesma objeção foi levantada por Rosa Luxemburgo a Lênin. Que o que acabou se impondo depois da Revolução Russa de 1917 não foi nada mais que capitalismo de Estado, escreveu Kropotkin.

Todas estas perguntas se aplicam a Cuba. Onde o autoritarismo do regime é um reflexo do capitalismo de Estado, porque o poder político repousa sobre o poder econômico. Onde os meios de produção são de propriedade da burguesia estatal, não dos trabalhadores. A quem os sindicatos, cooptados pelo Estado, não representam, mas, juntamente com a polícia e os Comitês de Defesa da Revolução (CDR), controlam. Eles controlam porque a economia capitalista – seja ela privada ou estatal – exige sua exploração.

Estas semanas, enquanto os oportunistas da direita aproveitam a onda de protestos contra o governo cubano que sacudiu as ruas de Havana, San Antonio de los Baños e várias outras cidades com as exigências de um povo farto da fome, das dificuldades e do desemprego, e enquanto a “esquerda” burguesa em todo o mundo defende esse governo e sua burocracia parasitária privilegiada, é agradável lembrar que na esquerda – sem aspas – existe uma tradição crítica – mesmo que não represente a “esquerda” oficial e majoritária e não seja bem conhecida – que nunca renunciou a pensar em seus próprios termos sobre as degenerações oligárquicas e capitalistas dos processos que outrora foram revolucionários, que enfrentou repetidamente, sem desviar os olhos, os despojos de sua própria história, e que sempre chamou de sonhos quebrados, as ilusões perdidas, as esperanças traídas por seu próprio nome.

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/09/a-esquerda-em-face-dos-protestos-em-cuba/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/05/declaracao-do-colectivo-cuba-liberacion-negra/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/04/cuba-declaracao-de-afrocubanas-la-revista/

agência de notícias anarquistas-ana

um atrás do outro
cactus florescem
enquanto a lua não vem

Nenpuku Sato

A arte e a revolta | Inscrições abertas para a oficina gratuita de tradução

Na virada do século XIX para o XX, Fernand Pelloutier já propunha questões pertinentes sobre as relações entre arte e vida.

A arte e a revolta é uma oficina de tradução coletiva gratuita de 9 horas para 20 pessoas. As inscrições são feitas via formulário. O objetivo é traduzir na íntegra a conferência “L’Art et la Révolte”, do anarquista Fernand Pelloutier, realizada em 30 de maio de 1896 e publicada pela Bibliothèque L’Art Social.

O opúsculo, inédito em português brasileiro, foi traduzido para o espanhol por J. Prat, impresso na Imprenta Geminal e publicado pela Biblioteca de Tierra y Libertad de Barcelona. O texto-fonte em francês e sua tradução em espanhol serão comparados a fim de realizar sua tradução para o português, que será publicada no segundo volume da Lucía – revista Feminista de Cultura Visual e Tradução (https://tendadelivros.org/lucia).

A oficina será ministrada por Maria Teresa Mhereb e Fernanda Grigolin nos dias 11, 18 e 25 de setembro de 2021 (sábados) das 14h às 17h.

>> Saiba mais e se inscreva aqui:

https://us16.list-manage.com/survey?u=ed0a99874a968bad7378d2c35&id=6f2e3fe23c&e=8caea939b8&mc_cid=0fa9915a69&mc_eid=8caea939b8

agência de notícias anarquistas-ana

Nesta noite
ninguém pode deitar-se:
lua cheia.

Matsuo Bashô

A esquerda em face dos protestos em Cuba

PorRonald León Núnez| 01/08/2021

“A realidade é que, desde os anos 90, o capitalismo foi restaurado pela própria liderança castrista, que agora se tornou a nova burguesia nacional”, diz o sociólogo e historiador Ronald León Núñez sobre a onda de protestos anti-governamentais em Cuba.

Em 11 de julho, Cuba foi abalada por uma onda de protestos populares que se espalhou de uma ponta à outra da ilha. Milhares de pessoas saíram às ruas para expressar seu descontentamento com a fome, o desemprego, a escassez, os apagões elétricos, a crise sanitária exacerbada pela pandemia e, com uma força social não vista em décadas no país caribenho, marcharam gritando “liberdade” e “abaixo a ditadura”.

O regime castrista respondeu com repressão. Pelo menos uma pessoa morreu e centenas foram presas. O presidente Miguel Díaz-Canel, líder máximo do Partido Comunista de Cuba (PCC, o único permitido), criminalizou o movimento com o mesmo tom usado anteriormente por personalidades como Lenín Moreno, Sebastián Piñera e Iván Duque. Ele acusou os manifestantes de serem “vermes”, “marginais”, supostamente “pagos pelos EUA”, bem como vândalos: “Ontem vimos delinquentes. Ontem a proposta não foi pacífica, houve vandalismo (…) eles jogaram pedras nas forças policiais, viraram carros. Comportamento totalmente vulgar, indecente, delinquente…” (1).

A maioria da esquerda, que geralmente denuncia a repressão dos movimentos sociais, agiu de forma diferente no caso de Cuba. O estalinismo – liderado pelos chamados partidos comunistas – e suas variantes rejeitaram categoricamente as manifestações populares, alegando que estavam defendendo “Cuba”, que para este setor é o mesmo que o governo castrista.

Esta é uma posição recorrente. Esta “esquerda” repete a mesma atitude que tinha para com os governos de Hugo Chávez, Nicolás Maduro, Daniel Ortega, Gaddafi, Bashar al-Assad, entre outros. Quando estas ditaduras burguesas – que consideram “progressistas” – são desafiadas pela mobilização popular, estes partidos tomam o lado dos ditadores, contra o povo. Isto, além de ser vergonhoso, tem consequências desastrosas para o progresso de uma verdadeira política socialista.

A análise stalinista apresenta os protestos como parte de uma conspiração imperialista contra o governo cubano. Parece que, com um estalar de dedos, os EUA tomaram a ilha com milhares de “contrarrevolucionários”, em uma espécie de re-encenação da invasão da Baía dos Porcos de 1961. Não tenho dúvidas de que a Casa Branca e a burguesia cubana exilada em Miami tentam influenciar os acontecimentos políticos em Cuba de acordo com seus interesses – como acontece em outros países – mas isso não anula a legitimidade das manifestações populares, que não exigem a “rendição de Cuba”, mas sim a alimentação, a medicina, o emprego, as liberdades democráticas.

A narrativa castrista não resiste ao teste dos fatos. Nada mais é do que uma cortina de fumaça para deslegitimar qualquer oposição política e assim tornar mais fácil a criminalização.

A propósito, a resposta do conhecido escritor cubano Leonardo Padura ao argumento de que “todos eles são mercenários” é interessante. Ele não nega a possibilidade de que tenha havido “…pessoas pagas e criminosos oportunistas, embora eu me recuse a acreditar que em meu país, neste momento, poderia haver tantas pessoas, tantas pessoas nascidas e educadas entre nós que se vendem ou cometem crimes”. Pois se existisse, seria o resultado da sociedade que os fomentou” (2). Há muitas reflexões desse tipo. Não é difícil encontrar, apesar das conhecidas restrições ao uso da internet, dezenas de artistas e ativistas cubanos que são contra o embargo comercial dos EUA e não repudiam o passado revolucionário em seu país, mas enfrentam a ditadura.

Estou entre aqueles que argumentam que o caráter das mobilizações de 11 de julho não foi retrógrada nem “pró-imperialista”. É um processo de luta justo e legítimo, baseado em um sentimento de cansaço com as mesmas dificuldades e exigências de outros povos latino-americanos. Consequentemente, a atitude daqueles de nós que reivindicam o socialismo não deve ser diferente.

Alguns elementos ajudam a entender melhor a força motriz por trás dos protestos. No final de 2020, o regime cubano elevou o salário mínimo de 17 para 87 dólares. Mas este aumento foi imediatamente corroído pelo “reordenamento monetário”, que eliminou a coexistência do peso cubano (CUP) e do peso conversível cubano (CUC), com o qual os dólares podiam ser comprados. Isto fez com que o valor do dólar disparasse, desvalorizando a moeda nacional reunificada em até 70 por cento. Oficialmente, um dólar deve custar 24 pesos cubanos. Mas na rua, o preço é de 60 ou mais. O governo também criou lojas que aceitam apenas dólares, euros ou outra moeda forte. Essas lojas são muito mais bem abastecidas com bens de primeira necessidade do que as lojas que aceitam pesos cubanos, a moeda em que os salários são pagos. Assim, não ter dólares é um problema sério, já que quase nada pode ser comprado com pesos cubanos (3).

Na prática, o governo dolarizou a economia e isto significa dificuldades desesperadas para os cubanos comuns. O salário real, ajustado pela inflação anual, em 2019 era de 64,3% de seu nível de 1989. A pensão real em 2019, de cerca de 15 dólares em média, era de apenas 47% do que valia há 30 anos. Estima-se que a inflação este ano esteja entre 270% e 474%, a maior depois do caso venezuelano (4).

Um tal plano econômico neoliberal, terrível para o povo pobre, seria certamente denunciado pela esquerda se acontecesse no Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai, em qualquer outro lugar… Por que o silêncio quando se trata de Cuba?

Aos ataques econômicos – que deterioram as condições de vida a tal ponto que os velhos flagelos sociais que a revolução havia eliminado, como a prostituição, reapareceram – deve ser acrescentada a inexistência de direitos à organização sindical e política. Em Cuba, nem mesmo durante o auge da revolução a classe trabalhadora gozou de liberdade de expressão, manifestação, direito à greve, sindicalização ou a criação de partidos políticos fora do regime. A Central de Trabajadores de Cuba (CTC), a única organização legalizada, é um apêndice do PCC e do Estado. Assim, a classe trabalhadora recebe golpes enquanto é amarrada, como acontece sob qualquer ditadura.

Com o passar dos dias, é possível avaliar mais claramente o caráter e a extensão da repressão contra aqueles que se manifestaram. As autoridades cubanas negam a existência de pessoas desaparecidas, mas os relatórios são abundantes. Várias iniciativas elaboraram uma lista muito detalhada de 702 pessoas detidas desde 11 de julho, das quais 38 estão desaparecidas e 161 foram libertadas (5). Estes números estão em constante mudança, pois as prisões não ocorreram somente durante os protestos (6). Houve caçadas de casa em casa em alguns municípios, depois que a polícia identificou alguns rostos através de vídeos postados nas redes (7). Entre os prisioneiros estão muitos menores. Em 27 de julho, de acordo com a lista citada acima, havia pelo menos 23 presos com 18 anos ou menos, já que 11 haviam sido libertados ou absolvidos. Em 22 de julho, Gabriela Zequeira, de 17 anos, foi condenada em um julgamento sumário a oito meses de prisão por ter participado dos protestos (8).

Um dia antes, dez detidos foram condenados a um ano de prisão em julgamentos sumários. Outros dois – os únicos dois que tinham advogados – cumprirão 10 meses. Entre eles está o artista audiovisual Anyelo Troya González, fotógrafo e um dos produtores do videoclipe “Patria y Vida”, que se tornou uma referência para muitos manifestantes cubanos. Troya foi preso enquanto tirava fotos dos protestos. Ele foi acusado pelo regime de promover “desordem pública” e condenado a um ano de prisão em um julgamento rápido, sem um advogado de defesa, sem a presença de sua família. Depois disso, nenhum membro da família teve acesso a uma cópia da sentença. Foi uma aberração legal típica dos piores regimes ditatoriais de que se tem conhecimento. Outros presos – principalmente jovens, fotógrafos, artistas, jornalistas independentes, etc. – são privados de sua liberdade sob acusações tão arbitrárias como “distúrbios” ou “crimes contra a segurança do Estado” (9).

O próprio presidente do Supremo Tribunal Popular de Cuba, Rubén Remigio Ferro, informou na sexta-feira 23 de julho que 59 manifestantes haviam sido criminalmente processados por cometerem “distúrbios”. O magistrado admitiu que o número de detentos “não é um número que está disponível” (10).

A repressão do regime castrista, com múltiplas violações dos direitos humanos e normas processuais elementares, despertou a solidariedade de importantes personalidades cubanas, que dificilmente poderiam ser acusadas de serem “gusanos” ou “mercenários”.

O cantor-compositor Silvio Rodríguez, ícone da música da ilha e defensor da revolução cubana, pediu anistia para todos os detentos: “Eles me pediram para chamar alguém e pedir anistia para todos os prisioneiros. Lembro-me da última vez que pedi anistia. Foi na Tribuna Anti-imperialista. Um segundo antes de subir uma autoridade me disse para não dizer nada. Se eu não digo isso, eu não digo nada, eu respondi. E eu consegui chegar ao microfone. E entre muitas outras coisas, pedi a liberdade das pessoas com as quais discordei. E algumas semanas depois (não por minha culpa) 70 vidas foram liberadas. Não sei quantos prisioneiros existem agora, dizem que são centenas. Peço o mesmo para aqueles que não foram violentos e mantenho minha palavra. Eles não têm nada para me dar porque eu não pedi nada…”, escreveu ele (11).

Padura também criticou a repressão da liderança castrista: “Para convencer e acalmar essas pessoas desesperadas, o método não pode ser as soluções de força e escuridão, como a imposição do apagão digital que cortou as comunicações durante dias para muitos, mas que não impediu as conexões daqueles que querem dizer algo, a favor ou contra. Muito menos uma resposta violenta pode ser usada como argumento convincente, especialmente contra os não-violentos. E é bem conhecido que a violência pode ser mais do que apenas física” (12).

Pablo Milanés, um dos mais renomados cantores-compositores do país, assumiu uma posição semelhante: “É irresponsável e absurdo culpar e reprimir um povo que se sacrificou e deu tudo de si durante décadas para apoiar um regime que, no final, os aprisiona. Há muito tempo, venho expressando as injustiças e erros na política e no governo de meu país. Em 1992, eu estava convencido de que o sistema cubano havia falhado definitivamente e o denunciei. Agora reitero minhas declarações e confio no povo cubano para buscar o melhor sistema possível de convivência e prosperidade, com plena liberdade, sem repressão e sem fome. Acredito nos jovens, que, com a ajuda de todos os cubanos, devem ser e serão a força motriz da mudança…” (13). (13).

René Pérez Joglar, o Residente, lançou um vídeo no dia 13 de julho. Ele se posicionou claramente contra qualquer interferência do imperialismo (“os EUA estão tentando interferir com outras intenções”), mas isso não o impediu de expressar solidariedade inequívoca com os protestos e denunciar a repressão do governo cubano: “Esta manifestação nasce de um povo cansado. Sabemos que aqueles que querem uma Cuba gringa aproveitam estas necessidades e formam sua propaganda nas redes sociais e meios alternativos, mas não foi o povo de Miramar que saiu às ruas sozinho, foi o povo da cidade que acordou” (14). Neste sentido, ele disse: “O governo cubano tem que decidir se vai agir com a mesma repressão que o governo colombiano agiu, onde eles mataram pessoas, desapareceram jovens, ameaçaram famílias, ou se eles vão mudar a história dos governos repressivos da América Latina para agir de forma diferente…”. Bem, acho que os mais de 700 prisioneiros e as farsas judiciais mostram qual foi a decisão do governo cubano…

Para Díaz-Canel, assim como para todo o coro internacional de defensores do regime ditatorial, torna-se cada vez mais difícil esconder tanto as justas demandas do povo quanto a repressão.

O papel desempenhado pelas organizações pró-Castristas, que boicotam a solidariedade com o povo cubano em tempos tão difíceis, com o argumento de que os protestos são parte de um plano imperialista para derrubar um governo e um Estado supostamente “socialista”, é desastroso. Estas correntes reduzem o problema à denúncia do embargo comercial americano (que deve ser rejeitado e derrotado como toda interferência imperialista, é claro), mas sem dizer uma palavra sobre as dificuldades do povo ou das vítimas da repressão. Para eles, todos os males em Cuba têm uma origem externa. O desejo de “proteger” o regime cubano de qualquer crítica transforma esta “esquerda” em cúmplice da repressão interna.

O amplo setor pró-Castrista, que se apresenta como “anti-imperialista” e defensor de um suposto “último bastião do socialismo”, na realidade mancha a causa do socialismo. A revolução cubana de 1959 teve um impacto no mundo e mostrou que, eliminando a propriedade capitalista e planejando a economia, era possível alcançar avanços materiais e culturais impressionantes. É por isso que entusiasmou várias gerações de revolucionários, especialmente na América Latina.

Mas a realidade é que, a partir dos anos 90, o capitalismo foi restaurado pela própria liderança castrista, que agora se tornou a nova burguesia nacional. O marxismo deve analisar a realidade tal como ela é. Não há socialização dos meios de produção, não há planejamento econômico e não há controle do comércio exterior. A economia cubana não responde a um plano que visa satisfazer as necessidades do povo, mas aos interesses do mercado. Por exemplo, a pandemia atingiu duramente o turismo, o setor mais dinâmico de Cuba. Em 2021, as chegadas de turistas caíram 94% em relação a 2020. No entanto, o governo cubano dedicou 45,5% de seus recursos para investir neste setor quase paralisado, enquanto a população sofreu escassez de alimentos, bens básicos, medicamentos e tudo o que era necessário para combater a covid-19. Entre janeiro e março de 2021, o investimento no turismo (principalmente a construção de novos hotéis de luxo) foi 19 vezes maior do que o investimento na agricultura (que poderia aliviar a insegurança alimentar); 5,2 vezes maior do que o investimento na indústria; e 84 vezes maior do que o investimento na ciência e na inovação tecnológica (15). De fato, segundo dados oficiais, entre 2015-2020 os investimentos no setor turístico cubano experimentaram um crescimento impressionante de 162,75% (16). Este não é um plano econômico socialista. É uma política econômica capitalista típica que, através de investimentos públicos e privados, fortalece o setor mais lucrativo, em detrimento da alimentação, saúde e educação da classe trabalhadora e do povo. É evidente que o embargo é perverso e prejudicial, mas não é a única explicação para os problemas em Cuba.

A definição acima é muito importante, pois significa que não se trata de um “país socialista”, mas de um Estado burguês que promove e defende uma economia regida pelas regras do mercado, com uma penetração escandalosa do imperialismo europeu e canadense em setores-chave, como o turismo e todos os tipos de empresas capitalistas na zona de livre comércio do porto de Mariel. Isto mostra que o “anti-imperialismo” da “esquerda” pró-Castrista é seletivo, uma vez que visa apenas os Estados Unidos e é omisso quanto às negociações do regime com outras potências mundiais.

O regime ditatorial desempenha o papel de amarrar uma classe trabalhadora que, sem liberdades mínimas, pode ser oferecida como mão-de-obra barata para as empresas imperialistas e o enorme complexo empresarial controlado pela liderança militar, o Grupo de Administração Empresarial SA (GAESA). Estima-se que este consórcio controla entre 30% e 40% da economia e 80% das operações financeiras e de câmbio. É presidida pelo General Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, ex-sogro de Raúl Castro. Desde abril, ele é membro do Bureau Político do Comitê Central do PCC, o centro nevrálgico do poder em Cuba (17).

É por isso que, quando a esquerda “progressista” aponta Cuba como um modelo de “socialismo”, ela só consegue alienar milhões de trabalhadores desta ideia. Ao se colocar do lado da ditadura capitalista cubana e da repressão, apesar de sua retórica “anti-imperialista”, este setor faz um enorme favor à campanha hipócrita do imperialismo norte-americano e a todos os expoentes da direita e ultra-direita tradicional, que enchem a boca com promessas de “liberdade” e “democracia” para o povo cubano, mas não têm outro interesse senão o de aprofundar a recolonização da ilha.

Ao não se oporem ao regime castrista nem denunciarem seus crimes, deixam nas mãos do imperialismo e da direita a justa defesa das liberdades democráticas para o povo cubano. Isto joga a favor não só da ditadura castrista, mas também do próprio imperialismo que dizem combater, já que deixam o campo livre para Biden e seus cúmplices influenciarem aqueles que, com boas razões, tomam as ruas para exigir dias melhores.

Em qualquer caso, independentemente das diferentes posições que existem entre as correntes de esquerda sobre o caráter do Estado cubano, seu regime, o papel do castrismo, etc., o mais importante neste momento é concretizar uma campanha internacional, junto com centenas de ativistas cubanos, para libertar todos os presos políticos.

A solidariedade para com os prisioneiros cubanos deve ser a mesma que expressamos no caso dos prisioneiros chilenos, argentinos, colombianos, etc. Todos os povos têm o direito de protestar e de se erguer contra a fome e as dificuldades do capitalismo. A defesa desse direito, não apenas pelos socialistas, mas por qualquer pessoa que reivindica os direitos humanos, não pode ser seletiva. A luta contra a ditadura castrista é um ponto de partida inelutável para uma nova revolução social em Cuba.

Notas

(1) Ver: https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-57882931.

(2) Ver: https://internacional.laurocampos.org.br/es/2021/07/un-alarido/.

(3) Ver: https://www.eleconomista.com.mx/internacionales/Sin-dolares-estas-jodido-la-nueva-realidad-en-Cuba-tras-la-reforma-financiera-de-Miguel-Diaz-Canel-20210202-0027.html.

(4) Estes e outros dados em: https://www.eldiplo.org/notas-web/por-que-estallaron-las-protestas-en-cuba/.

(5) Aqui está a lista (atualizada periodicamente): https://docs.google.com/spreadsheets/d/1-38omFpJdDiKTSBoUOg19tv2nJxtNRS3-2HfVUUwtSw/edit#gid=627497176. Dados a partir de 27/07/2021.

(6) Mais detalhes sobre como a lista de detentos foi compilada: https://www.facebook.com/periodismodebarrio/videos/630079334634121/.

(7) Ver: https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-57882931.

(8) Ver: https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-57952376.

(9) Este site cubano fornece detalhes sobre o resumo das provas: https://eltoque.com/juicios-por-protestas-en-cuba-sin-abogados-defensores.

(10) Ver: https://www.elpais.com.uy/mundo/procesan-cubanos-reclamo-libertad-participar-manifestaciones.html.

(11) Ver: https://twitter.com/mjorgec1994/status/1417983467036594177. Ver: https://www.infobae.com/america/america-latina/2021/07/21/silvio-rodriguez-pidio-una-amnistia-para-todos-los-manifestantes-cubanos-detenidos-por-la-dictadura-durante-las-masivas-protestas/.

(12) Ver: https://internacional.laurocampos.org.br/es/2021/07/un-alarido/.

(13) Ver: https://www.facebook.com/pmilanesoficial/posts/347865706793089.

(14) Ver: https://www.instagram.com/tv/CRRwE8Vjg_t/.

(15) Entre janeiro e março de 2021, “os serviços comerciais, a atividade imobiliária e de locação”, que inclui a atividade turística, foram responsáveis por 50,3% do investimento nacional. Ver: https://diariodecuba.com/economia/1621760755_31358.html.

(16) Ver: https://diariodecuba.com/economia/1622217681_31502.html.

(17) Ver: https://www.cubanet.org/destacados/lopez-calleja-pasa-a-integrar-buro-politico-cuba/.

Fonte: https://www.abc.com.py/edicion-impresa/suplementos/cultural/2021/08/01/la-izquierda-ante-las-protestas-en-cuba/

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/05/declaracao-do-colectivo-cuba-liberacion-negra/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/04/cuba-declaracao-de-afrocubanas-la-revista/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/04/a-revolucao-cubana-morreu/

agência de notícias anarquistas-ana

À sombra, num banco,
folha cai suave
sobre meu cabelo branco

Winston

[EUA] 15ª Feira do Livro Anarquista de Nova York será presencial e virtual

Neste ano, a Feira do Livro Anarquista de Nova York será realizada tanto presencialmente como virtualmente. Encontrem-nos pessoalmente no sábado, 2 de outubro, em um jardim comunitário, para uma incrível exibição de materiais culturais anarquistas e festividades, de filmes, livros e zines até arte, performances e bicicletas.

Juntem-se a nós on-line no dia seguinte, domingo, 3 de outubro, para workshops, apresentações e painéis de discussão com escritores anarquistas, ativistas e artistas. A feira virtual do livro é organizada pela Kuñangue Aty Guasu – Grande Assembleia das Mulheres Kaiowá e Guarani (www.kunangue.com), com tradução em inglês, espanhol e português, e apoio do Laboratório de Antropologia Multimídia da University College London (UCL MAL) (www.uclmal.com).

O mote principal dessa edição será “dinheiro zero = viva no apoio mútuo”.

Em 2021, a Feira do Livro Anarquista de Nova York está celebrando, especialmente, a vida dos anarquistas na prisão e na luta. Nossos painéis virtuais, workshops e apresentações são construídos em torno do conceito de “dinheiro zero = viva no apoio mútuo”.

Como funciona o dinheiro em uma perspectiva macroeconômica, e o que podemos fazer para destruí-lo? Como podemos imaginar um sistema monetário diferente quando o dinheiro é, quase sempre, uma ferramenta de coerção, competição e poder? Devemos destruir completamente as concepções de valor, quantificação ou dinheiro? Como podemos cultivar oportunidades para as comunidades experimentarem diferentes tipos de modos de cooperação econômica não hierárquicos, horizontais e descentralizados?

Como seria uma estrutura econômica anarquista e uma economia igualitária? Quais papéis o apoio mútuo, benefícios mútuos e medidas de bem-estar social desempenham em tal economia?

Sociedades igualitárias em todo o mundo se recusam a prestar contas de créditos, débitos, impostos ou quem deu e pegou o que e quando. Tal renúncia tem servido para impedir a comparação entre poderes e a redução das relações humanas a aspectos desumanos. Diferentes necessidades e desejos conduzem nossa espécie de maneiras diferentes e contraditórias. Segundo David Graeber: “No entanto, os humanos podem escolher para si quais propensões nos guiam em qual direção e, portanto, quais vontades humanas se tornarão a base da nossa humanidade e civilização”.

Chamada para painéis, workshops, apresentações

Nós convidamos vocês a propor painéis, workshops, apresentações, obras de arte e filmes que visem a um futuro de “dinheiro zero = viva no apoio mútuo”. Estamos abertos, principalmente, para receber propostas construídas em torno dos seguintes assuntos:

Redes comunais de atenção: alternativas ao policiamento; respostas comunitárias organizadas a indivíduos e grupos em crise; defesa organizada de pessoas trans, mulheres, pessoas racializadas, pessoas com deficiência e neurologicamente divergentes; atendimento às necessidades versus atos punitivistas; justiça restaurativa; trabalho antiviolência; necessidades das crianças; construção de moradia colaborativa.

Futuros decolonizados: movimentos indígenas e solidariedade nas Américas do Norte, Central, do Sul e além; abolição da polícia e das prisões; devolução de terras; escolas gratuitas; programa para a libertação indígena marrom e negra queer; movimento dos protetores da água (Water Protectors); trabalho dos movimentos contra as fronteiras (Free Borders).

Libertação negra: demolição de instituições racistas; histórias e atualidades do movimento; abolição do trabalho; justiça habitacional; educação e corpos negros; racismo nos movimentos de esquerda; mulheres negras, queer e empoderamento trans.

Medicina e cura antifarmacapitalista: auto-organização da assistência médica gratuita; abordagens decolonizadas para a medicina e cura; raízes do trauma na opressão sistêmica; ervas e fitoterapia; energia e trabalho corporal; trabalho sexual; alternativas farmacêuticas; médicos de rua; medicina comunitária; práticas e estratégias de primeiros socorros de protestos.

Autonomia alimentar: projetos existentes para o cultivo e partilha de alimentos; planos e práticas de apropriação de espaços para cultivo de alimentos; redistribuição de alimentos armazenados/lixo/privatizados; forrageamento e comunhão.

Economias de dinheiro zero: incluindo redes de apoio mútuo; sistemas de troca de crédito mútuo; coletivos autogeridos pelos trabalhadores; comunhão urbana fora da rede.

Organização da resistência: Vidas Negras Importam (BLM); greves gerais; greve de aluguéis; Massa Crítica; movimento de solidariedade dos trabalhadores (Worker Solidarity); movimento dos protetores da água (Water Protectors) e lutas contra a construção de oleodutos; direitos dos imigrantes e trabalho dos movimentos contra as fronteiras (Free Borders); IWW; antifa; abolição da polícia; abolição das prisões; movimento de prevenção à AIDS (ACT-UP); libertação queer/trans; justiça climática; movimento de defesa ambiental (Earth First); Zona Autônoma de Capitol Hill (CHAZ) e outras zonas autônomas.

Mídia anticapitalista: coletivos de mídia anarquista; plataformas e tecnologias de código aberto; hacktivismo; redes de internet alternativas; segurança digital.

Estamos nos perguntando: O que você acha que devemos abordar, ou é o que relevante para agora?

Nosso site já começou a receber materiais de vocês, livreiros, escritores, poetas, propostas de oficinas, performances de arte, filmes, música, mídia etc.

Todos os prazos de inscrição (workshops, cuidado, filme, arte, cadastro de vendedores) irão até o dia 15 de setembro.

Em solidariedade.

Mais infos: https://anarchistbookfair.net/

Tradução > Akemi

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/09/03/eua-14a-feira-do-livro-anarquista-virtual-de-nova-york-dias-25-26-e-27-de-setembro-de-2020-2/

agência de notícias anarquistas-ana

Disseram-me algo
a tarde e a montanha.
Já não lembro mais.

Jorge Luis Borges