[Escócia] Comida de bebê e leite em pó de graça na nova “despensa comunitária” no parque Queen

Ativistas do sul de Glasgow criaram uma despensa comunitária no parque Queen.

Por Carla Jenkins | 11/07/2021

O grupo Food Not Bombs é responsável pela organização e montou a geladeira perto da arena do parque Queen, no caminho principal pela entrada da rua Victoria Road.

A geladeira contém leite em pó, lanchinhos e outros itens essenciais, disponíveis para qualquer pessoa que precise deles.

O grupo usou as redes sociais para informar aos usuários de que há um caderno e uma caneta disponíveis dentro da geladeira para as pessoas anotarem seus pedidos, caso precisem de alguma coisa em especial.

A página de facebook do Food Not Bombs explica: “Tcharam! por favor, dêem as boas vindas ao mundo nossa mais nova despensa comunitária. Sem referências, sem teste de meios (teste aplicado para determinar se uma pessoa é elegível para receber um determinado benefício), sem preocupações!”

“Atualmente, a despensa está cheia de lanchinhos, leite em pó, massa, fraldas, molho de tomate, produtos de limpeza, água, geleia, feijão, pasta de dente, temperos, shampoo e lenços para bebês.”

“A despensa encontra-se ao lado da arena no parque Queen. Se você precisa de alguma coisa em especial, não hesite em pedir. Tem também um caderno e uma caneta dentro da geladeira para pedidos. Por favor, nos mande uma DM assim que possível quando encontrar algum problema.”

“Se você quer nos ajudar a encher a despensa (leite em pó é extremamente caro), por favor clique no link na bio para doar através do nosso Paypal.”

Usuários relataram sua felicidade acerca da iniciativa nos comentários, dizendo que trariam doações.

Mags Kikwood diz: “Isso me agrada e me machuca ao mesmo tempo. Nós não deveríamos nunca precisar de uma instalação como esta, mas vocês, pessoas maravilhosas, estão abraçando a iniciativa porque é necessária. Obrigada!”

Tradução > Calinhs

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velho caminho
sol estende seu tapete de luz
passos de passarinho

Alonso Alvarez

[Argentina] Buenos Aires: Consumir até que o deserto nos pegue. Pichações e bloqueio de fechaduras nas cafeterias Havana

Na madrugada “mais fria do ano”, visitamos várias cafeterias Havana e conseguimos intervir em seis de suas fachadas. Bloqueamos cadeados e fechaduras, pichamos suas vidraças para mostrar que não estamos inertes, temos a capacidade de agir e sabemos que o alfajor “tradicional” é vendido ali com um novo ingrediente em sua receita: o TRIGO TRANSGÊNICO.

O trigo é o alimento básico na região. Nem o milho, nem o arroz, nem a mandioca. O trigo é o pão, a tortilha, o macarrão que comemos todos os dias.

Não podemos permitir que empresários e políticos continuem avançando sobre nossos corpos e sobre a terra; assim como com suas MINAS, suas MONOCULTURAS, REPRESAS e AGRICULTURAS INDUSTRIAIS, eles também o fazem impondo OGMs em nossos alimentos.

Em uma ação fácil e de baixo risco procuramos romper a calma a este respeito, já que ativistas e jornalistas há muito tempo fizeram um pacto com o progresso ecocida e a mídia alternativa não sai da passividade cidadã que nos condena a um futuro de secas, incêndios e pandemias;

CONSUMIR até que o DESERTO nos pegue.

LEMBRANDO AQUELES QUE CAÍRAM DEFENDENDO A TERRA E SEUS PROTETORES

SANTIAGO LECHU MALDONADO

EMILIA BAUCIS HERRERA

E a todos os companheiros e companheiras que resistem nas recuperações e nas prisões, nós os temos presentes, vocês estão conosco em cada ação!

A NATUREZA EXIGE VINGANÇA!!!

Buenos Aires, Julho 2021

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inverno
agasalhar as crianças
ficar mais velho

Alexandre Brito

 

[Argentina] Santiago vive na luta pela Terra e contra o capital

A 4 anos do desaparecimento seguido de morte nas mãos do Estado argentino, recordamos o companheiro Santiago Maldonado com este texto:

Santiago vive na luta pela Terra e contra o capital

Cada 1º de agosto se atualizam as perguntas de como e por que recordar Santiago. Pensando nisto, nos parece importante não cair no martirismo do qual costuma se servir a esquerda e o reformismo burguês, esse martirismo que congela um momento concreto da luta contra o Estado e o capital e o converte em anedota, em peça morta de museu.

Os que detêm o poder estatal, assim como os que aspiram ao mesmo, pretendem converter esta luta histórica, na “A luta de Santiago”. Porque sabem que falsear seus ideais e suas práticas, delatando e isolando seus companheiros, é a melhor estratégia para neutralizar a vitalidade de sua luta e seus pensamentos. Esta separação sistematizada de atividades e potências humanas, assim como a limitação de seu conteúdo sob etiquetas identitárias, não faz mais do que limitar uma luta que necessariamente será total ou não será.

Santiago era um companheiro anarquista que foi assassinado e desaparecido enquanto participava em uma ação solidária com a autodeterminação do povo mapuche. Em seus raps e escritos atacou a igreja, o capitalismo, e a todos os SEUS representantes. Santiago pôs o corpo em suas palavras, nas barricadas de Chiloé junto aos pescadores, em Viedma ou Buenos Aires tatuando em atividades solidárias com presos anarquistas, em Mendoza ou 25 de maio fazendo murais, em Esquel destroçando os vidros do tribunal desde o qual saiu a ordem de captura para Jones Huala. Assim como é necessário proteger sua memória dos discursos de impotência que o querem transformar em um mártir, também devemos estar atentos em não converter esta data em um folclore ideológico, onde o único realmente importante seja deixar claro que Santiago era anarquista. Santiago era parte de um movimento pela superação desta vida de miséria, isso é o que nos irmana com ele e é nessa luta onde sua memória rebelde segue cobrando sentido.

Hoje escolhemos rememorar Santiago e seu desejo sincero de estar ali onde a luta acontece, pôr o corpo, compartilhar e aprender, fazendo de suas ideias uma forma de vincular-se com os outros e não uma linha divisória com o resto dos explorados.

Recordamos nosso companheiro continuando a luta que o antecede e da qual ele foi parte com compromisso e vontade.

Biblioteca La Caldera

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Gatinha meiga
ao passar da mão
seu corpo se ajeita

Eugénia Tabosa

[Equador] Outras Economias. Cinco Experiências de Autonomia e Autogestão

7 de agosto na Casa Mitomana. | Uma atividade sobre práticas de Autogestão e Autonomia. | Cinco Experiências que se aprofundam em uma metodologia específica de seu caminho coletivo em direção à Autogestão. | Convida Gatitxs en el Techo

Autogestão como conceito político e não como estratégia econômica!

• Podemos adotar a interpretação do capital e equiparar autofinanciamento com autogestão, ou podemos reconhecer a existência de experiências que conseguiram construir e dar vida aos processos coletivos em autonomia.

• A Red Agroecológica del Austro é uma organização camponesa do Equador, composta principalmente por mulheres que cultivam a terra usando métodos ancestrais.

Eles agora o chamam de orgânico e agroecológico é o conceito que o reivindica. É uma organização que possui mais de 50 fazendas familiares e que, em seus mais de 12 anos de existência, conseguiu botar sobre a mesa a questão da soberania alimentar e da liberdade de sementes.

Em aliança com Tatta Rodriguez, uma companheira que faz parte da rede e através de seu projeto Pukushka y la Chichería, dão vida a uma das feiras que acontecem na cidade de Cuenca-Equador. Uma de suas estratégias para sustentar pequenas economias que vêem e sentem a terra como companheira.

• La Kolmena, um projeto que começou como uma escola cooperativa de permacultura e durante a revolta social no Chile, começou a levantar panelas comuns em diferentes partes de Santiago.

Hoje eles estão abrindo o primeiro supermercado cooperativo no Cone Sul: Vegano, a Granel e com o Banco do Tempo.

Este último conceito faz parte do suporte metodológico que lhes permite estabelecer um sistema de intercâmbio comunitário, onde o conhecimento, produtos e serviços interagem sob uma estratégia de acesso ético e autogestivo.

• La Osa é um supermercado cooperativo e agroecológico na cidade de Madrid, uma experiência urbana e comunitária que visa criar um espaço participativo que permita àqueles que se sentem parecidos com o cooperativismo adquirir alimentos sustentáveis e acessíveis, priorizando outras relações éticas que não o mercado: práticas inclusivas e solidárias aos membros da cooperativa com deficiência ou situação de difícil acesso, por exemplo, ou apoiando os produtores locais com base no conceito de preços justos.

• Cecosesola é uma cooperativa de cooperativas com 54 anos de experiência, que realiza uma metodologia descentralizada horizontal e longe dos centros políticos de poder.

Com 1300 pessoas participando atualmente, eles começaram com uma coleta fúnebre e hoje têm um centro de saúde.

Na cidade de Barquisimeto, três gerações são criadas a partir da individualidade coletiva, diluindo as hierarquias.

• Komedor Vegetariano. Uma experiência de uma cooperativa de Apoio Mútuo na cidade de Valparaíso.

Um projeto de comedor, fanzinoteca e centro social.

Estratégias vinculativas para a resolução de conflitos e tomada de decisões. A democracia do voto transborda em face da prática horizontal.

FB: https://www.facebook.com/events/774298869912556/?notif_t=plan_user_invited&notif_id=1628283126019791

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Girassol na tarde
se curva em reverência:
o sol se vai.

Anibal Beça

Procura-se Tradutoras | Tradutores

[Austrália] Food Not Bombs Newcastle oferece refeições frescas e quentes nas noites de quarta-feira para todos

Por Alex Morris | 19/05/2021

Há dezoito meses, Quinn Ssquires de Islington se envolveu com muitas pessoas na criação de uma nova unidade da Food Not Bombs em Newcastle.

“Somos um coletivo anarquista de base voluntária e autônoma”, diz Quinn. “Nós não somos um grupo de caridade e sim uma comunidade ou um bando de locais. Chamar isso de organização é um pouco formal demais.”

Quinn, 23 anos, originalmente de Newcastle. Ele é membro essencial do Food Not Bombs Newcastle, para não dizer que é a face do grupo.

Não é a primeira iniciativa do Food Not Bombs em Newcastle. Isso não é nenhuma surpresa, já que a associação, inteiramente voluntária e dedicada à mudança social não violenta, tem estado na ativa por mais de 40 anos, contando com centenas de unidades pelo mundo inteiro.

O Food Not Bombs teve início nos anos 1980, nos Estados Unidos, e foi criado por ativistas anti-nucleares que queriam compartilhar comida vegetariana gratuitamente e protestar contra a guerra e a pobreza. De acordo com o site deles, o movimento apoiou ações para frear a globalização da economia, restrições aos movimentos de pessoas, para acabar com a exploração e com a destruição da terra e de todos os seres que habitam nela.

Os grupos recuperam comida que seria jogada fora e fazem dela refeições frescas e quentes, prontas para serem servidas em espaços públicos a qualquer um, sem restrição. A unidade de Newcastle conta com 50 a 80 voluntários, mas Quinn afirma que este número, normalmente, tende a ser de 20 pessoas por vez.

“Nossa associação é informal. Todos são bem vindos a se juntar a nós, independentemente das suas habilidades, histórico e experiências”, afirma Quinn.

“As pessoas podem vir ao parque e conversar com a gente. Nós temos reuniões semi-regulares e compartilhamos nossas habilidades de maneira informal.”

A unidade de Newcastle começou quando ativistas da comunidade organizaram uma reunião em novembro de 2019. Cerca de cinquenta pessoas estavam no primeiro encontro e deste grupo inicial, metade continuou indo. Eles começaram a reunir recursos e cozinhar toda quarta-feira à noite. As refeições são doadas no parque próximo à estação de trem Hamilton, das cinco às sete da manhã, toda quarta-feira.

“Nós sempre cozinhamos comida vegana e praticamente todas às vezes temos opções para dietas FODMAP e sem glúte”, afirma Quinn. “Na última quarta-feira, nós fizemos um molho vegano para macarrão de coco com proteína vegetal texturizada. Nós tentamos fazer o suficiente para servir de 40 a 50 porções, que é a quantidade aproximada de pessoas que vêm comer.”

A Hunter Organics e a Baked Uprising têm doado alimentos para eles desde o início e a Your Food Collective passou a participar há cerca de nove meses.

“Podemos confiar neles toda semana para termos produtos frescos e locais. Um dos nossos sucessos é que, enquanto uma rede anticapitalista, temos sido capazes de nos sustentar em uma economia de compartilhamento de comida e outros recursos, sem muito dinheiro”, diz Quinn.

Vez ou outra as pessoas se enganam achando que a Food Not Bombs é para quem vive nas ruas, mas muitas vezes eles se deparam com pessoas que estão vivendo inseguranças relacionadas a abrigo ou outros tipos de estresse. A Food Not Bombs acolhe absolutamente qualquer um e compartilha alimentos. Eles têm uma despensa gratuita no local onde armazenam as sobras para quem quiser pegar.

A Food Not Bombs também recomenda Hunter Homeless Conecct, Nova for women and children, Survivors Are Us e Hunter Community Alliance para todos que estão passando por dificuldades alimentares e domiciliares na região.

Procure no Facebook e no Instagram por Food Not Bombs Newcastle para saber mais e se envolver.

Fonte: https://www.newcastleherald.com.au/story/7259087/food-not-bombs-the-anarchist-collective-offering-a-free-feed/

Tradução > Calinhs

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agência de notícias anarquistas-ana

gota na água
faz um furinho como
prego na tábua

Carlos Seabra

[Chile] Atualização jurídica sobre xs companheirxs Mónica e Francisco

Na segunda-feira, 2 de agosto de 2021, o companheiro Francisco Solar, através de um julgamento simplificado, assume a responsabilidade pela pichação (“El MEGA apunta, la policia dispara”) na fachada do prédio do canal de televisão, no âmbito de um protesto convocado pela Coordenadora 18 de Outubro, pela libertação dxs prisioneirxs da revolta.

Recordar que naquela ocasião, quando ele foi preso, o pessoal do OS-9 [departamento de investigação de organizações criminais] tirou secretamente amostras de DNA de suas roupas, a fim de mais tarde montar o caso pelo qual ele foi preso junto com Mónica.

Ele foi finalmente condenado a pagar 400.000 pesos chilenos que terá que quitar quando estiver em “liberdade”.

Na segunda-feira, 9 de agosto de 2021, ambos companheirxs enfrentarão uma audiência, onde o Ministério Público do Sul solicitará a prorrogação do prazo de investigação, que já foi prorrogado por quase um ano.

Sedição contra o Estado policial.

Cumplicidade e solidariedade com Mónica e Francisco.

buscandolakalle.wordpress.com

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/30/chile-sobre-a-greve-de-fome-na-penitenciaria-de-rancagua-comunicado-da-companheira-anarquista-monica-caballero-sepulveda/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/03/08/contra-a-resignacao-entrevista-sobre-a-situacao-de-monica-caballero-e-francisco-solar/

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olhando para trás
meu traseiro cobria-se
de cerejeiras em flor

Allen Ginsberg

[Canadá] Anunciamos a Quarta Feira Anual do Livro Anarquista de Halifax

4 de setembro de 2021

|| Para anarquistas, e aos curiosos sobre o anarquismo ||

Gratuito em Kjipuktuk, território não concedido de Mi’kmaq

Não será um retorno ao “normal”. A pandemia apenas intensificou o controle social e a vigilância, o capitalismo e o colonialismo, com os detentores do poder enchendo seus bolsos com a extração industrial, preços de moradia altíssimos, e condições de trabalho intoleráveis. Enquanto os defensores do sistema colonial racista zelam por seus próprios interesses, nós sabemos que somos aqueles que devem zelar e cuidar uns dos outros. As raízes da destruição ecológica, pobreza, supremacia branca, colonialismo, violência policial, patriarcado, etc. estão na própria construção da autoridade. O anarquismo nos ajuda a entender as raízes desses sistemas de poder, a articular nossos desejos por autodeterminação e sonhar com um mundo onde todos sejam livres. É crucial nestes tempos em que nos encontramos, que criemos espaços para lembrar como a libertação pode ser, compartilhar nossa dor e raiva, e trazer energia coletiva para nossas lutas.

A feira do livro é para anarquistas, curiosos sobre anarquismo, amantes de livros, e qualquer um que simplesmente questione a autoridade. Estarão presentes editores e distribuidores de livros, vendedores, artistas e facilitadores de toda América de Norte / Turtle Island; o dia / fim de semana incluirá workshops, discussões, atividades infantis, exibições de arte, festas e muito mais!

No momento, estamos aceitando propostas. Por favor, entrar em contato com suas solicitações de mesa, dúvidas, necessidades de acessibilidade, ideias de colaboração e sonhos em:

halifaxanarchistbookfair@riseup.net

Propostas são aceitas até 4 de agosto de 2021

Por uma Halifax mais anárquica, e um mundo mais livre e alegre (A)

Tradução > Brulego

agência de notícias anarquistas-ana

vento apressado
por que não senta aqui
do meu lado

Alexandre Brito

[Grécia] E quanto às vacinações?

Enquanto o estado grego – como muitos outros estados europeus – está aumentando a pressão sobre sua população para obter a vacina contra a Covid-19, muitos parecem ter cedido a esta imposição de “fazer a escolha responsável”. Que fique claro que nós pensamos que os indivíduos podem ter razões legítimas para se vacinarem. Não temos um juízo moralista sobre se vacinar ou não. Mas continuamos relutantes. Pensamos que todo o discurso sobre ter responsabilidade na verdade visa dar maiores poderes ao Estado, criando uma sociedade dupla com privilégios para aqueles que cumprem e sanções para aqueles que não querem ou não podem cumprir. Isto significa um reforço do controle e das desigualdades.

Acredite nos líderes

Achamos que não temos que nos deter por tanto tempo. Temos sido forçados a usar máscaras enquanto caminhamos sozinhos em um parque. Temos sido multados por estarmos na rua à noite enquanto os metrôs estavam superlotados durante o dia. Temos sido insultados por nos sentarmos nas praças enquanto os ambientes fechados de trabalho estão funcionando na capacidade integral. E nós os vimos cinicamente calculando os custos para fornecer leitos hospitalares extras ao invés de fechar partes da economia. Nós temos visto eles optarem por contratar mais policiais enquanto a saúde das pessoas está em jogo. Vimo-los tentando abafar qualquer forma de protesto enquanto se empenham em políticas mais exploradoras e opressivas. Eles perderam toda a credibilidade e sabem disso, a única coisa que ainda podem fazer é torcer nossos braços e nos chantagear.

Acredite nos dados

Dizem-nos que os dados são claros, que se vacinar é a escolha (mais) segura. Mas mesmo se pudermos aceitar que os dados existentes sobre vacinação estão corretos, há uma grande quantidade de dados que (ainda) não temos. A primeira coisa que chama a atenção é que todas as vacinas são aprovadas temporariamente através de um processo de emergência. Nenhuma das vacinas da Covid-19 são totalmente aprovadas e não podem ser porque não temos nenhum dado sobre os efeitos a longo prazo. Podemos fazer suposições baseadas em outras vacinações similares no passado (embora as vacinas baseadas na nova tecnologia mRNA não tenham tal história), mas não há garantias quanto ao longo prazo. Todos que tomam a vacina devem estar totalmente cientes disso. E só por causa desse fato em si, qualquer obrigação ou pressão para tomar a vacina deve ser considerada eticamente errada.

Os dados que temos sobre as vacinas são principalmente de testes em laboratórios e ambientes controlados. Estes testes têm que ser estabelecidos em condições altamente controladas (mesmo que sejam testados em pessoas vivendo sua vida cotidiana) para se chegar a qualquer conclusão significativa sobre causa e efeito. É claro que a vida real tem muitas complicações, interferências, eventos imprevistos, etc. Assim, estes dados só podem prever o comportamento das vacinas de forma muito limitada. Na verdade, nós temos visto as recomendações sobre em quem não aplicar certas vacinas e as listas de possíveis efeitos colaterais sendo atualizadas enquanto as vacinas estão sendo administradas no mundo real e problemas imprevistos começam a acontecer. Nesta escala, os efeitos colaterais que só têm efeito sobre uma pequena porcentagem de pessoas vacinadas podem significar, na realidade, um dano colateral formado por milhares de pessoas. Mesmo no melhor dos tempos, a medicina moderna está longe de ter um histórico impecável quando se trata de respeitar a vida em toda a sua diversidade, nuances, complexidades e totalidade. Não se enganem, este é um experimento contínuo e em escala maciça.

Acredite na ciência

Dizem-nos que devemos confiar na ciência. Mas mesmo quando olhamos apenas para as recomendações científicas durante este ano e meio de pandemia de Covid-19, essa declaração é ingênua ou desonesta. No início da pandemia na Europa, o uso de máscaras era fortemente desaconselhado. A teoria era que o vírus se espalhava por contato e então desinfetar era a resposta certa (e havia falta de máscaras, então foram reservadas para os hospitais particulares). Meses depois esta opinião mudou e o consenso agora é que o vírus se espalha pelo ar e não por contato. De repente, as máscaras se tornaram a resposta para tudo. No entanto, também continuamos desinfetando tudo (em vez de ventilar – isso é chamado de teatro sanitário, onde a impressão de segurança é mais importante). Este é um exemplo que demonstra que a ciência pode errar e que a sociedade mais ampla pode demorar ainda mais tempo para perceber que estava errada.

Outro exemplo da pandemia sobre como não devemos confiar apenas na ciência é a confusão em torno da teoria do vazamento laboratorial. Logo no início da pandemia, um artigo co-assinado por muitos cientistas especialistas no assunto declarou a hipótese de que o vírus Covid-19 pudesse ter vindo de um laboratório como um total absurdo. Na época, este artigo tornou-se a base para que a grande mídia, redes sociais, políticos e especialistas pudessem rotular qualquer menção à hipótese de vazamento de laboratório como uma teoria da conspiração. Levou um ano inteiro, numa época em que este vírus estava todos os dias nas primeiras páginas, antes de alguns cientistas e jornalistas olharem mais criticamente para este artigo para concluir que a prova principal era irrelevante e que alguns dos autores tinham um interesse direto em manter o bom nome do (s métodos do) laboratório que seria o primeiro suspeito nessa hipótese de vazamento. Agora é amplamente aceito que um vazamento de laboratório é possível e merece ser investigado (para ficar claro nem a hipótese de vazamento de laboratório nem a hipótese zoonótica foi provada ou refutada, ambas são prováveis em um maior ou menor grau). Este é um exemplo que mostra que o método científico na realidade não é tão robusto e infalível como afirma ser. Consenso que se desloca devido a argumentos não científicos (oportunismo político, interesses financeiros, etc.), um pequeno círculo de cientistas altamente especializados que não querem ou não têm tempo para controlarem-se uns aos outros, etc. A filosofia e sociologia da ciência já demonstraram a lacuna entre a ideologia da ciência e sua realidade desde a segunda metade do século XX (ver, por exemplo, Paul Feyerabend e Pierre Thuillier). Ainda assim, as pessoas parecem manter uma concepção muito ingênua do que os cientistas fazem.

Acredite na imunidade de rebanho

Dizem-nos que devemos nos mobilizar para alcançar a imunidade grupal e “estar livres” novamente do vírus. Para isso é apresentado o objetivo de vacinar 70% da população. Mas, na verdade, este número data de antes do aparecimento de variantes (como a variante Delta) que são mais infecciosas e contra as quais as vacinas são menos eficazes. Lembremos também que as vacinas são projetadas para limitar a gravidade da doença, e a redução das infecções é apenas um efeito colateral (e a maioria das vacinas não-RNA parece não ser muito boa nisso). Dadas estas novas variantes, muitos especialistas acreditam agora que na verdade 80 a 90% da população deve ser vacinada para alcançar a imunidade de rebanho. Este número significaria que – se ainda o considerarmos antiéticos para dar às minorias uma nova e não totalmente compreendida vacinação e que algumas pessoas não podem ser vacinadas clinicamente, o resto da população precisaria de ser vacinada. Qualquer política pública que precise de 100% de conformidade para ter sucesso está fadada ao fracasso.

Outro fator é que a imunidade decresce com o tempo. Já se fala em doses de reforço após um período de 6 ou 9 meses (seria uma vez, ou deveria ser repetida a cada meio ano, ou a cada ano? Neste momento não sabemos), fazendo a oportunidade para o fracasso ainda maior.

Além disso, como se trata de uma pandemia global de um vírus muito transmissível, parece muito irrealista que um país ou região possa alcançar a imunidade de rebanho por si só. Grandes partes do mundo dificilmente têm suprimentos suficientes ou a infra-estrutura para vacinar uma pequena parte da população, quanto mais a grande maioria dela. Eles também dependem principalmente de vacinas que são menos eficazes para deter as infecções. As chances de erradicar este vírus são inexistentes. A esse ponto isso atingiu sua fase endêmica, o que significa que a Covid-19 começará a se comportar como outras variedades do corona com suas epidemias sazonais. A imunidade de grupo é a última cenoura que é pendurada na frente de nossos olhos, mais cedo ou mais tarde será substituída por outra coisa para nos fazer acreditar que podemos alcançar “liberdade” se apenas seguirmos.

Seja responsável

A questão da imunidade de grupo (ou pelo menos vacinar o maior número possível de pessoas) aponta para a questão de quem recebe as vacinas. Em muitas regiões, as pessoas que correm o risco de doença grave da Covid-19 não têm acesso aos cuidados de saúde e querem ser vacinadas, e não recebem nenhuma vacinação. Enquanto na Europa as pessoas que não têm sequer um grande risco de desenvolver sintomas leves e tem um risco infinitamente pequeno de doenças graves têm milhões de vacinas reservadas para elas. O acúmulo de vacinas aumentará novamente com a necessidade de impulsionadores. O fato de que a OMS não quer recomendar impulsionadores agora parece principalmente inspirado por esse tipo de preocupação. A escolha responsável ou a reprodução de desigualdades globais?

A construção da imunidade de grupo e a retórica de “guerra contra o inimigo invisível” entra na prática, juntamente com um rigoroso controle de acesso ao território e uma intensificada administração populacional. Parece que chegamos a uma situação em que o chamado lado progressista da sociedade é agora a favor de controles de movimento e fronteiras fechadas (é claro, eles mal irão se dão conta, pois possuem os documentos certos para circular “livremente”). A escolha responsável ou uma intensificação da vigilância e exclusão?

Se aprendemos alguma coisa das últimas décadas – o 11 de Setembro e a ameaça do terrorismo, o colapso financeiro e a ameaça de falência, austeridade e a ameaça de canibalismo social, barcos de refugiados e a ameaça das violências racistas, a mudança climática e a ameaça dos desastres ecológicos, etc. – é que uma posição que não se opõe radicalmente ao poder do Estado (não importa quem o controla) eventualmente só reforçará esse poder e assim abrirá caminho para o próximo ciclo de crises provocadas pelo Estado e pelo capitalismo e sua gestão pelo Estado e capitalismo.

Anarquistas

Atenas, metade de julho de 2021

Fonte: https://athens.indymedia.org/post/1613723/

Tradução > solan4s

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agência de notícias anarquistas-ana

tênue tecido alaranjado
passando em fundo preto
da noite à luz

Guimarães Rosa

[EUA] A Black Cat Community Press está publicando seu primeiro livro!

The Anarchist Poetry Project

A Black Cat Community Press está publicando seu primeiro livro!

Fomos fundados e geridos por anarquistas. Por isso, nada mais justo que a nossa primeira série de livros ser The Anarchist Poetry Project. O primeiro livro dessa coleção será intitulado:

The Anarchist Poetry Project vol. 1: Building Better Worlds

|| Envio de propostas para o volume 1: de 1º a 30 de agosto de 2021 ||

Se você é um anarquista que escreve poesia sobre anarquismo, queremos que nos mande seu trabalho!

Envie-nos sua poesia anarquista!

A temática do livro é “construindo mundos melhores”. Poemas que, de alguma forma, se relacionam com esse tema dentro do contexto do anarquismo terão mais chances de serem aceitos.

Em especial, nós amamos a literatura especulativa (ficção científica, fantasia, hopepunk e outros subgêneros “punk”, realismo mágico etc.). Mas, mesmo que seu poema não se enquadre nesses gêneros, ainda queremos que você o envie, contanto que você se identifique como anarquista, e seus poemas sejam, de certo modo, sobre ou relacionados ao anarquismo e à construção de mundos melhores.

Não há taxa de inscrição, mas doações de ajuda mútua são sempre bem-vindas. Fazer uma contribuição não influencia de nenhuma maneira nas suas chances de publicação.

Um projeto de financiamento coletivo no Kickstarter será lançado neste verão para custear a produção e a impressão do volume 1 do The Anarchist Poetry Project. Todos os rendimentos arrecadados no Kickstarter além dos custos de produção serão destinados para bancar o nosso jornal literário especulativo e anarquista Black Cat Magazine.

>> Mais infos: https://www.blackcatmagazine.com/the-anarchist-poetry-project

Tradução > Akemi

agência de notícias anarquistas-ana

sombra de árvore:
conto apenas a você
o que disse o vento

Claudio Daniel

[Espanha] A Necessidade de Caixas de Resistência: o exemplo da TUBACEX

Recentemente, os companheiros da Assembleia Laboral e da Caixa de Solidariedade Obreira Antirrepressiva puderam ver em primeira mão a luta exemplar dos trabalhadores da TUBACEX em Amurrio e Llodio (Alava).

Depois de mais de 150 dias de greve, os trabalhadores ainda estão lutando e unidos contra o plano de demissão, e estão mantendo sua greve indefinida, entre outras coisas, graças à unidade dos trabalhadores e seu fundo de resistência.

Recentemente, foi publicada a sentença que declara a demissão de 129 trabalhadores NULA.

Os tribunais declararam nulo e sem efeito o ERE de Tubacex, um dos mais controversos dos últimos tempos. O Tribunal Superior de Justiça do País Basco declara assim nulas e sem efeito as 129 demissões que a empresa pretendia fazer em suas fábricas de Llodio e Amurrio. Mas a luta continua. A Tubacex anunciou que irá recorrer das sentenças. E os trabalhadores permanecem em greve e em piquetes permanentes nos portões da fábrica.

Em Álava, a TUBACEX tem três fábricas, duas em Amurrio (frio e Aceralava) e outra em Llodio. O grupo TUBACEX se dedica à produção e venda de tubos sem solda em aço inoxidável e ligas de alto níquel. Também fabrica outros produtos longos em aço inoxidável. Além das fábricas em Alava, a TUBACEX tem suas próprias instalações industriais na Áustria, Estados Unidos, Itália, Índia, Tailândia, Noruega, Dubai e Arábia Saudita.

NOSSA VISITA

Companheiros da Assembleia Laboral e da Caixa de Solidariedade Obreira Antirrepressiva estavam na linha de piquete da Tubacex em Amurrio, dois dias após a demissão de 129 trabalhadores ter sido declarado NULA. A alegria sobre o “nulo” contrastou com a seriedade da consciência da luta que ainda está por fazer.

Fomos sempre tratados de forma excelente, muito bem recebidos, primeiro por um companheiro do Fundo de Resistência Tubacex que nos apresentou parte da linha de piquete e depois por todos que passaram por nós durante nossa estadia. O piquete foi dividido em duas partes, em cada lado da estrada que leva à fábrica, uma controlando a rotatória de chegada e a outra logo após o portão. Após 148 dias de greve, os trabalhadores tinham criado suas zonas de relacionamento, a infraestrutura era própria e/ou com a contribuição de coletivos como GrebaBatzorde (“comitê de greve” em basco, um comitê permanente que ajuda os conflitos trabalhistas com dinheiro e/ou material e infraestrutura, como nos disseram, algo semelhante à atividade que a Assembleia Trabalhista realiza aqui). O conselho municipal de Amurrio lhes deu um ponto de luz (você tem que entender o peso da empresa na área que também os obriga a fazer coisas como esta).

Na linha de piquete havia cerca de 30 pessoas no horário mais baixo (primeira hora), nós nos tornamos entre 90 e 100 pessoas em horários posteriores, como almoço, etc. Estivemos com eles durante toda a manhã até a hora do almoço.

Depois do almoço foi o momento mais emocionante, quando lhes demos a ajuda fornecida pelas caixas de Valladolid. Todos os companheiros presentes nos cercaram, e depois de colocar o dinheiro na caixa (uma caixa de ferro amarrada com correntes que simbolicamente eles têm na porta da fábrica e na qual este tipo de ajuda é entregue, então os companheiros recolhem o dinheiro, etc.) aplaudiram e gritaram slogans (em basco) como “viva a luta dos trabalhadores” (GORA LANGILEEN BORROKA) ou “firmes, até a vitória” (JO TA KE, IRABAZI ARTE).

O fundo de resistência Tubacex foi criado no calor da greve e está provando ser uma FERRAMENTA essencial para levar a luta adiante.

A quantidade de dinheiro que eles deram em ajuda é muito importante, mas mais importante é o significado da caixa em todos os sentidos, mas, sobretudo em dois aspectos: por um lado, ela evita desculpas, dúvidas, quedas… a unidade de todos os trabalhadores da TUBACEX tem sido exemplar em todos os momentos, ninguém entrou em nenhum dia, nenhum tubo, nenhuma peça fundida foi produzida. Por outro lado, a caixa está servindo para promover a unidade de classe acima das siglas – mesmo arrastando os sindicatos -, superando as diferenças entre os trabalhadores através da unidade e da solidariedade de classe. A extensão do conflito fora das fábricas é outra das grandes lições do passado que os trabalhadores da Tubacex conseguiram recuperar.

A experiência que os trabalhadores nos disseram é mais do que interessante: como cada um contribuiu com o que pôde ou soube fazer, como responderam aos apelos uns dos outros, como 100 trabalhadores se reuniram para parar um caminhão que tentou entrar na fábrica em um sábado à noite, como enfrentaram a repressão policial e, sobretudo a deturpação e a guerra da mídia, etc., etc., etc.

Ficamos com centenas de coisas: trouxemos conosco o calor e a coragem de sua luta. Devemos valorizar e aplaudir a luta dos trabalhadores da Tubacex, uma luta baseada em caixas de resistência, piquetes, assembleias e sindicatos de trabalhadores unidos – uma luta realizada com unidade, compromisso e constância.

A LUTA TUBACEX É NOSSA LUTA:

TUBACEX SALBA DEZAGUN!                        

Fonte: https://valladolorentodaspartes.blogspot.com/2021/07/necesidad-de-las-cajas-de-resistencia.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

tomando banho só
no riacho escondido –
cantos de bem-te-vis

Rosa Clement

Declaração do “Colectivo Cuba Liberación Negra”

Somos pessoas Negras queer cubanas que, desde uma perspectiva abolicionista e anti-imperialista, militamos dentro e fora de Cuba, algumas filiadas a grupos de liberação Negra e ao movimento Black Lives Matter nas cidades e países onde residem. Com o presente comunicado pretendemos denunciar a invizibilização das realidades das pessoas Negras cubanas, especialmente no contexto de crise econômica que se vive em Cuba, agravado pela pandemia de COVID-19, e após as manifestações sociais que aconteceram desde 11 de maio de 2019 até as mais recentes de 11 de julho de 2021.

Qualquer avaliação que se realize sobre a situação de direitos humanos da população afro-cubana deve partir do reconhecimento do racismo estrutural e a discriminação racial em todos os âmbitos da sociedade cubana. Frases como “a revolução tornou os Negros pessoas”, por exemplo, reforçam o mito de que o processo revolucionário acabou com a desigualdade e a discriminação racial e pretendem colocar as pessoas Negras em um lugar de subordinação e vulnerabilidade e eterno e acrítico agradecimento. Além disso, desconhece as conquistas e lutas das populações Negras em Cuba anteriores a 1959 e lhes desumaniza. Antes de 1959 já eram pessoas. Tanto as pessoas escravizadas em Cuba como seus descendentes participaram de maneira destacada das ações libertárias e no desenvolvimento econômico, cultural, político, científico e social da nação. Foram protagonistas da história e não simples espectadores que esperaram que os poderes brancos reivindicassem seus direitos. A revolução não foi só nem fundamentalmente branca.

O uso de expressões pejorativas como “coleiras”, “revolucionários confusos”, “vândalos”, “mercenários”, “delinquentes”, “malandros”, para tentar estigmatizar a quem diverge do governo, protestam ou tentam sobreviver em um contexto adverso, revela uma visão depreciativa do próprio povo cubano e, em particular, de seu lado afrodescendente. Encerram em si mesmas tanto o racismo como o classismo que reforçam o governo, as instituições e os meios de comunicação oficiais, ao mesmo tempo em que servem para criminalizar os que sofrem pobreza e desigualdade. Não podemos passar por alto que muitas das pessoas nas quais recaem essas etiquetas são afrodescendentes de comunidades cada vez mais marginalizadas pelas últimas reformas econômicas e vulneráveis aos abusos de poder.

E essa marginalização tem que ver com como a hegemonia branca delimitou os espaços de relações (sociais, econômicas, culturais) e os territórios. Fenômenos como a gentrificação em Cuba tomam características particulares quando o Estado desloca residentes de bairros nevrálgicos – como La Habana Vieja – para moradias na periferia da cidade, com o fim de construir hotéis. Do mesmo modo, dezenas de milhares de pessoas Negras vivem hoje em assentamentos onde não lhes satisfazem as necessidades básicas e em condições de “ilegalidade”.

Durante e depois dos acontecimentos de 11 de julho vimos inumeráveis fotos e vídeos nos quais pessoas Negras, especialmente jovens, são vítimas da brutalidade policial, das forças militares e paramilitares. Apesar de que a polícia cubana está formada em um número considerável por pessoas Negras, que em muitas ocasiões provêm de zonas orientais afetadas por pobreza extrema, em busca de salários medianamente altos, a hegemonia branca instrumentaliza as necessidades e aspirações das pessoas Negras e confronta umas contra outras. Este é talvez o exemplo mais rotundo de como funciona o racismo estrutural em Cuba.

Mas a brutalidade policial não implica unicamente a violência física, mas também outras formas de violência muito mais dissimuladas, mas igualmente condenáveis, que se exercem através da vigilância, o assedio, ameaças, citações extrajudiciais, interrogatórios, proibições de sair do país, cercos policiais fora das moradias ou nas ruas próximas, etc. É importante mencionar que pessoas ativistas antirracistas foram reprimidas por sua luta contra a discriminação racial. E seus parceiros, familiares e amigos também viveram situações de violência.

Ademais, queremos recordar que a polícia cubana costuma operar com um perfil racial. Muitas vezes os jovens negros são considerados e tratados como delinquentes em potencial só pela cor de sua pele. E isto nos leva a perguntarmos sobre a composição racial que predomina nos cárceres cubanos. Uma informação que provavelmente o governo possua, mas que até agora não é de acesso público. De fato, muitos dos dados recolhidos em censos e pesquisas não são processados, apresentados ou publicados tendo em conta a cor da pele.

A existência da figura legal conhecida como “estado de periculosidade”, que tem o fim de contribuir para o controle social e levado a prisões de pessoas consideradas pelas autoridades “propensas a cometer delitos” – entre elas trabalhadores sexuais e consumidores de drogas -, nos obriga também a perguntarmos se a cor da pele não estará sendo um elemento que se use, de maneira mais ou menos consciente, para determinar os que são “propensos a cometer delitos” e devem sofrer sanção penal. Lamentavelmente, nos faltam as estatísticas atualizadas para confirmar que a população negra é maioria no sistema judicial-carcerário cubano.

No entanto, sim, sabemos, por testemunhos de pessoas que estiveram encarceradas e seus familiares, que nas prisões cubanas há graves problemas de superlotação, precariedade alimentar, falta de condições higiênicas adequadas, restrição de visitas familiares, entre outros. Se a situação da generalidade da população e em especial dos que se encontram nos centros de isolamento como parte dos protocolos para enfrentar a COVID-19, é já extremamente difícil, podemos supor que nos cárceres deve ser ainda mais.

No caso das pessoas Negras queer, não binárias, agênero, trans, etc, a criminalização se relaciona com o controle e o policiamento de seus corpos, a forma de vestir, as expressões de gênero e da sexualidade. Estas pessoas são presas e encarceradas com mais frequência que outros grupos da sociedade e sofrem o binarismo e a violência de gênero que o sistema penitenciário reforça. O fato de não respeitar o nome segundo a identidade de gênero, tão comum nas detenções por parte da polícia, representa uma conduta repressiva que responde ao “cis-tema” sexo-gênero pelo qual vela a hegemonia branca.

O debate internacional sobre o punitivismo, a criminalidade, a função dos cárceres e a inoperância do poder judicial ainda não chega a Cuba com toda a força que chegou a outros países; em grande medida, graças a movimentos feministas e antirracistas. Dito debate se centra no questionamento da efetividade do castigo, da pertinência do sistema judicial, da invisibilização das pessoas Negras queer, não binárias, agênero, trans, etc, e da violência nas prisões.

Nossa proposta é pensar e desenvolver alternativas e estratégias contra os sistemas que nos oprimem e nos impedem de ter uma vida digna e emancipada. Isto implicaria garantir os direitos humanos das pessoas presas ao mesmo tempo em que trabalhamos para eliminar o uso da prisão como método de controle social.

Considerando todo o anterior, exigimos das autoridades cubanas:

  1. Reduzir drasticamente a população carcerária e pôr fim ao uso da prisão como método predeterminado de abordar as problemáticas sociais.
  2. Diminuir o investimento nos corpos policiais, setores repressivos, armamento, patrulhas, indumentária antimotins, etc.
  3. Impulsionar políticas e campanhas educativas contra o racismo e a discriminação racial.
  4. Deter a criminalização do exercício de liberdades civis e políticas.
  5. Garantir a participação da cidadania na vida política do país com autonomia do Estado e suas instituições.
  6. Deter a criminalização da população afrodescendente das pessoas em condições de vulnerabilidade social ou econômica.
  7. Eliminar a figura do “estado de periculosidade” do código penal cubano.
  8. Garantir o acesso público a informação atualizada e verificável sobre a realidade dos cárceres cubanos: número de cárceres, quantidade de pessoas que cumprem uma sanção penal e sua distribuição por idade, gênero, lugar de origem, cor da pele, delito que lhe imputam, etc. Publicação de dita informação em locais e meios de imprensa
    oficiais.
  9. Adotar medidas urgentes que permitam responder de maneira oportuna às problemáticas dos sistemas penitenciários que estariam sendo exacerbados no contexto da pandemia.
  10. Velar pelo cumprimento das garantias processuais em todos os julgamentos.
  11. Propiciar o debate sobre punitivismo e sistema carcerário em Cuba através dos meios de comunicação e do sistema educativo, que inclua abordar a problemática do uso do castigo para resolver problemas sociais.
  12. Garantir o acesso pleno e sem condições das pessoas privadas de liberdade a serviços de saúde, higiene, visitas de seus familiares e amigos, alimentação adequada, atividades recreativas, etc. Ditas medidas não devem ter como fim a criação de um sistema penal mais forte, mas sua abolição.
  13. Investir em recursos sociais que contribuam a uma verdadeira segurança pública baseada na justiça social e na equidade.
  14. Liberar as pessoas encarceradas por motivos políticos em Cuba.

Colectivo Cuba Liberación Negra

30 de julho de 2021

Fonte: https://medium.com/@cuba.liberacion.negra/declaraci%C3%B3n-del-colectivo-cuba-liberaci%C3%B3n-negra-d33a545375a7

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

O viajante
Chupa uma laranja
Pelo campo seco.

Shiki

[Mianmar] Das barricadas à guerrilha urbana: a resistência armada à Junta Militar birmana

Por Àngel Marrades | 07/06/2021

Durante três meses, desde fevereiro até abril, as principais cidades de Mianmar estiveram envoltas nas mobilizações massivas como forma de rechaço ao Golpe de Estado militar. À medida que a repressão foi aumentando para pôr ordem à vida econômica anterior ao golpe, e completar assim seu propósito, os manifestantes improvisaram armamentos, como rifles, estilingues, catapultas, escudos ou molotovs, e barricadas para se defender dos assaltos militares. Nas regiões industriais e bairros marginais da periferia foram onde a resistência foi mais dura, e onde o Tatmadaw (Forças Armadas de Mianmar) desatou vários massacres impondo pena de morte. No total, ao menos 800 manifestantes foram assassinados. Esta dura repressão infringiu um duro golpe à resistência, fazendo-a retroceder do espaço público, mas também a fez adaptar e avançar.

Durante o mês de maio, a estratégia da resistência mudou enormemente: quem ainda protesta o faz agora com protestos rápidos ou flash que buscam demonstrar que a oposição ao golpe ainda está presente. Porém, já não interrompem a via pública nem pressupõem uma ameaça às artérias econômicas do Estado. Apesar de que os militares conseguiram impor, mediante o terror, certa “volta à normalidade” e reclamar o espaço público, em seu lugar uma rede clandestina de células começou uma guerrilha urbana no centro do país. Isto pressupôs, também, uma mudança no comportamento e das mensagens de resistência, que agora não apela à organismos internacionais, à comunidade internacional ou à ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático), cujas bandeiras queimam, mas que reivindicam à luta armada das Organizações Armadas Étnicas e do Governo da Unidade Nacional.

Desta maneira, a bacia de Irrawaddy, que constitui o coração geopolítico da construção nacional birmana ao redor da etnia majoritária Bamar, está seriamente ameaçada pela primeira vez nos 70 anos do conflito civil interno. Com a guerrilha urbana principalmente em Rangún, capital econômica do país, mas também cidades como Mandalay, Bago, Naypytaw ou Magway, a junta Militar viu seriamente contestados seu controle do território e sua capacidade de proporcionar uma segurança interna que permita reativar a economia do país. Dois são os planos dos militares neste sentido em junho: o início do ano escolar e a reabertura do setor industrial, especialmente o têxtil.

Sobre a abertura das escolas, o Movimento de Desobediência Civil conseguiu organizar um extenso boicote, no qual se calculou que 90% dos estudantes participaram, segundo cifras da federação de professores. O Tatmadaw só deu cifras de Rangún, nas quais assegurou que 40% dos estudantes foram às aulas. O único lugar onde realmente pode se dizer que o boicote “fracassou” foi no Estado de Rakhine, onde não houve boicote. Isto se deve não à capacidade da própria Junta, mas ao projeto nacional arakanês que se negou a apoiar desde um início ao Movimento de Desobediência Civil, e onde não houve nenhuma manifestação contra o golpe. Em Rakhine, pelo contrário, está se construindo um movimento nacional próprio que, ainda que não apoia o golpe busca tomar maior autonomia do projeto nacional birmano.

Junto ao boicote escolar, estas novas células que organizam uma guerrilha urbana estão tentando alterar e sabotar os planos de Tatmadaw. Durante o mês de maio, realizaram mais de 100 ataques documentados, desde bombas a assassinatos seletivos. Por outro lado, a Rádio Free Asia informou mais de 300 atentados com bombas contra escritórios governamentais, escolas, universidades ou postos de gasolina. A experiência de Ko Min Wai, um manifestante que se uniu a esta resistência clandestina e a quem Frontier Mianmar fez uma entrevista, nos serve de exemplo da evolução do apoio aos protestos pacíficos à revolução armada: “Não podemos protestar na rua porque o exército e as forças de segurança nos disparam com balas. Mas devemos nos rebelar contra a Junta, então escolhemos a revolução armada”. Min Wai, como muitos outros, abandonou a cidade para receber instrução militar da resistência longe das cidades, em acampamentos estabelecidos por desertores do exército, do Governo de Unidade Nacional (NUG), guerrilhas criadas na periferia ou as Organizações Armadas Étnicas (EAOs). Depois de ter um treinamento básico em manipulação de explosivos e outras táticas insurgentes, voltou a Rangún para formar parte desta guerrilha urbana.

Outro exemplo que nos serve é a entrevista à Thurain, um dos membros de um grupo de resistência clandestino, que descrevia sua rede como um grupo de 50 membros que colabora com outras oito células na área de Rangún. Esta estrutura tinha um propósito imediato e outro a longo prazo. O primeiro consistia em fortalecer a própria organização, para isso o primeiro e mais importante era garantir a segurança da própria resistência, sua clandestinidade. Este propósito tinha duas tarefas:

“Sua principal missão neste momento é evitar que os militares e a polícia tomem o controle dos escritórios de administração dos distritos, estes escritórios mantém listas ativas dos civis que vivem dentro de suas jurisdições, órgãos de governo locais que tem uma enorme influência nas vizinhanças que supervisionam. Segundo as leis birmanas, estes escritórios mantém listas ativas dos civis que vivem dentro de suas jurisdições, realizam um rastreio de suas residências e mantém uma ampla informação demográfica de cada pessoa e casa. Estas informações revelam quem vive e onde, digamos, um apartamento em particular é a casa de uma mãe, um pai e três filhos. A informação inclui as idades, a origem étnica e a religião de cada pessoa na casa. (…) se os militares e a polícia tem acesso a esta informação, podem rastrear e monitorar a população e frustrar e perseguir de maneira mais efetiva aos membros da oposição política e a resistência (…). Vários escritórios foram incendiados para evitar que tenham acesso aos registros”.

A tarefa seguinte como parte deste esforço foi de caçar os colaboracionistas. Acabar com os informantes do exército é essencial para assegurar a liberdade de movimento da guerrilha e sua capacidade para fazer outro tipo de ataques, como atentados à bomba contra postos da polícia, postos militares ou o assassinato de outras figuras relevantes. Mas estas tarefas ajudam também ao segundo objetivo a longo prazo das células, a preparação para um conflito armado aberto em que deverão instigar um levantamento civil contra a Junta Militar. Para este propósito, já começaram a armazenar armamento em lugares seguros das cidades mediante contrabando, com a ideia de que o Governo de Unidade Nacional consiga conformar um Exército Federal com a força para enfrentar o Tatmadaw nas ranhuras centrais e do delta de Irrawaddy. Mas para uma tarefa dessas dimensões a resistência necessita de armamento e veículos que permitam uma guerra de movimentos, e não de guerrilhas, ou conseguir abrir uma brecha o suficiente profunda dentro do próprio Tatmadaw.

O primeiro obstáculo hoje é que o Governo da Unidade Nacional (NUG) não tem sequer controle militar sobre suas próprias guerrilhas, as Forças de Defesa Popular (PDF), nem tampouco conseguiu criar uma coordenação política e militar robusta com as Organizações Armadas Étnicas (EAOs). Isto ilustra o The Frontier Mianmar, a quem o porta-voz da União Nacional Karen disse que havia advertido ao NUG que os grupos não afiliados podem se converter em uma responsabilidade: “Aceitamos que o povo tenha respondido com uma revolução armada para se opor à injustiça, e que tem direito à autodefesa. Mas muitos grupos que não estejam sob um mando unificado será um problema de longo prazo”. Este mesmo meio na entrevista da Min Wai informou sobre ao menos 10 grupos guerrilheiros urbanos operando nas principais cidades do país. E apesar de que muitas destas guerrilhas, tanto urbanas como da periferia (as PDF), se aderiram nominalmente ao mando político do NUG e aceitaram que seu código de conduta militar tem total independência para decidir, em último termo, tanto objetivos como táticas Min Wai dizia: “O exército estendeu forças nas escolas e universidades, e abriu fogo desde esses lugares”, e agregou que seu grupo estava seguindo as regras que aprendeu quando estava sendo treinado.

À espera de uma futura insurreição, as guerrilhas urbanas deverão navegar entre o Movimento de Desobediência Civil, a política sindical e a coordenação política com o resto de grupos armados. Enquanto a Junta Militar deverá lidar com a continuação de manifestações esporádicas, as greves, os atentados e ataques guerrilheiros, e o forte desgaste social em uma economia esgotada com uma crescente pressão financeira.

Fonte: https://www.descifrandolaguerra.es/de-las-barricadas-a-la-guerrilla-urbana-la-resistencia-armada-a-la-junta-militar-birmana/

Tradução > Caninana

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agência de notícias anarquistas-ana

Noite na cabana —
Um grilo na prateleira
Procura por algo.

Issa

[Chile] Comunicado de Mónica e Francisco sobre a luta nas prisões – 27 de julho 2021

Frente ao que vemos como interpelações diretas a nós, surge a necessidade de escrever este texto para explicitar certas questões.

Como já escrevemos em várias ocasiões tanto individual quanto coletivamente, entendemos a anarquia não como uma realização ou lugar de chegada, mas como uma tensão, uma permanente confrontação que se faz em primeira pessoa, colocando no centro a busca da liberdade individual.

Para nós, esta luta constante tem sido real, a levamos a cabo de maneira ininterrupta, motivo pelo qual hoje nos encontramos atrás das grades. Situação pontual e circunstancial que não nos impediu continuar levantando e participando da luta tanto dentro como fora das prisões.

Definitivamente, a anarquia é pra nós uma ética e uma prática permanente contra a autoridade, prática na qual nos encontramos com outrxs (não necessariamente “anarquistas”), enriquecendo e potencializando nossas visões e capacidades, assim como forjando estreitas relações de cumplicidade fortalecidas no transcurso dos anos e da confrontação. Assinalar que estas relações só se dão ou podem se dar com quem se denomina “anarquista” além de ser uma falácia só pode comprovar que xs que se aventuraram a transitar pelos caminhos do conflito e não xs que creem transitar por eles em suas fantasias frente ao computador é algo que rechaçamos desde o momento em que priorizamos por estabelecer vínculos a partir de práticas comuns antes de fazer por etiquetas vazias ou consignas repetidas até o cansaço. Autoproclamar-se raivosamente como “anárquicxs irredutíveis” não significa nada se não vai acompanhado de uma prática confrontacional que o sustente. O papel aguenta absolutamente tudo.

Por outra parte – e o mais importante – ao supor que nós anarquistas só deveríamos nos relacionar com anarquistas reflete um purismo absurdo e um sectarismo que, sem dúvida alguma, é uma expressão de autoritarismo.

Estabelecer coordenações e iniciativas conjuntas de luta somente entre quem se autodefine “anarquista” é restringir e limitar enormemente nossas relações e com elas nossas possibilidades de crescer. É nos encerrar estupidamente em dogmatismos que nos restringem e nos impedem de nos associarmos livremente. Assim, vemos como em nome da liberdade algumas pessoas defendem absolutamente o contrário, estabelecendo seitas baseada em etiquetas.

Com isso não queremos dizer que estabeleçamos relações de maneira indiscriminada ou que não tenhamos nem um tipo de filtro.

Deixamos explícito em comunicados anteriores os pontos que para nós são inaceitáveis; arrependimentos, dissociações e institucionalidade correspondem a algumas linhas vermelhas que constituem aspectos irreparáveis que impedem levar a cabo qualquer iniciativa conjunta com quem opte por tais caminhos. Como se pode apreciar, esses pontos não correspondem a etiquetas vazias, mas à práticas concretas, maneiras de viver a prisão e não somente ela. São opções que para nós destroem de uma só vez todo nosso discurso e prática, gerando uma contradição total entre o que se diz e o que se faz. Bom, talvez para algumas pessoas somente valha ou tenha importância o que se diz ou as proclamas incendiárias pela internet ou alguma rede social. Pelo contrário, nós priorizamos a prática e desde ela vamos estabelecendo afinidades e rupturas.

E certamente que as práticas autoritárias representam um ponto com o qual não transaremos. Jamais estabelecemos relações de luta com base no autoritarismo e a experiência de presxs anarquistas e subversivxs não é a exceção. Os pontos comuns que temos entre todxs são muito mais fortes que as discrepâncias que possamos ter, discrepâncias que evidentemente não representam aspectos “insalváveis” já que se fosse assim nós já teríamos nos distanciado desde o início. Os laços que nos unem com xs companheiros se forjaram na confrontação tanto dentro como fora da prisão, há mais de uma década, significando para nós uma relação e experiência enriquecedora que, sem dúvida, nutriu, fortaleceu e qualificou o nosso caminhar anárquico. Hoje, nesta nova situação de prisão, estreitamos ainda mais os laços, o que se refletiu nesta iniciativa conjunta que não é nova, mas que no último ano contou com mobilizações importantes que permitem elaborar projeções interessantes.

Contudo, tal como afirmamos no artigo “Sobre a necessidade de continuar a luta dentro da prisão…” da revista Kalinov Most #4, nós, presxs anarquistas, quebramos com certo códigos dentro das prisões instalados e reproduzidos por membros dos grupos armados de esquerda desde a década de 1980, códigos que principalmente tinham que ver com a reprodução da lógica orgânico-partidária na prisão e também com estabelecer uma relação de superioridade com respeito ao resto da população penal.

Cabe dizer que nossos companheiros estão longe disso e são contrários a tais códigos, na complexa prática intracarcerária, não no discurso cômodo que se faz desde alguma habitação com internet.

Eles se encarregaram de manter vivos os códigos subversivos com os quais nos sentimos intendificadxs e que vemos como indispensáveis incorporá-los e reproduzi-los.

Nos referimos a uma posição e atitude refratária frente a instituição carcerária que outorga uma identidade particular, vista e reconhecida tanto pelxs presxs sociais como pelos carcereiros. Nos referimos também ao fato inegável de continuar a luta dentro da prisão, a demonstrar na prática que com o isolamento nada termina, que só é outro cenário de luta, o qual rompe com o vitimismo e assistencialismo muitas vezes presente na luta pela liberdade dxs presxs. Os companheiros há muitas décadas tem se levantado e levado adiante uma prática anticarcerária que traspassou os muros, da que nós fomos parte na rua e somos parte hoje na prisão.

Esses são alguns dos códigos subversivos que compartilhamos com os companheiros, que reforçam nossos laços de afinidade na prática cotidiana e nos afastam de quem, inclusive se chamando anarquista, opta por caminhos afastados ou completamente desvinculada dela. O que dizem xs puristas de quem se denomina “anarquista” e se desvincula completamente de suas ideias e práticas quando enfrenta um julgamento ou estão na prisão? Talvez com elxs sintam mais afinidade desde o momento em que colocam como prioridade a etiqueta vazia. Reiteramos, nós estabelecemos relações com base em práticas comuns, não com base em palavras ou comunicados incendiários publicados na internet.

Finalmente, vemos a necessidade de nos referir ao perigo que representa o sectarismo ou o purismo dentro de nossos espaços que carrega – aparte de relações autoritárias mencionadas anteriormente – atitudes autocomplacentes que não fazem mais do que nos estancar e não aprofundar e nem qualificar o enfrentamento.

Desde nosso explícito posicionamento anárquico sustentado na conflitividade permanente e na liberdade individual, vamos estabelecendo relações e coordenações que nos potencializem e nos fortaleçam neste caminho pela liberação total.

Como disseram há alguns anos, na prisão, xs companheirxs da Conspiração Células de Fogo:

“Solidariedade com xs presxs anarquistas e xs não arrependidxs de todas as tendências revolucionárias!”

Hoje nós dizemos:

Liberdade para os companheiros Pablo Bahamondes, Marcelo Villaroel, Juan Aliste, Juan Flores e Joaquín García!

27 de julho de 2021

Mónica Caballero
Cárcere de San Miguel

Francisco Solar
Cárcere de Rancagua

Fonte: https://edicoesinsurrectas.noblogs.org/post/2021/08/04/comunicado-de-monica-e-francisco-sobre-a-luta-nas-prisoes-27-de-julho-2021/

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Nada se move
No campo ou nas montanhas —
Manhã de neve.

Chiyo-jo

[Nova Zelândia] Declaração da AWSM sobre o aniversário de 85 anos da Revolução Espanhola

Nesta mesma data, 85 anos atrás, trabalhadores se defenderam de um golpe militar de inspiração fascista. Apesar da falta de treinamento e de recursos escassos, em muitas áreas eles expulsaram as forças da direita. Em seguida, as massas se auto-organizaram em múltiplas formas através de diferentes organizações, incluindo a Confederação Nacional do Trabalho (CNT) e a Federação Anarquista Ibérica (FAI). Logo, deram início a um experimento social e econômico revolucionário. Fábricas foram coletivizadas sobre o controle dos trabalhadores, com a produção melhorando quantitativa e qualitativamente em comparação com o sistema anterior, o capitalista. Mulheres iniciaram sua libertação econômica e sexual, livres das amarras da Igreja Católica. Em áreas rurais, peões pobres reivindicaram terras nas quais vinham trabalhando a gerações. Essas terras estavam nas mãos de aristocratas e senhorios que os tratavam como bestas de carga. Em muitos lugares o dinheiro foi abolido e as tomadas de decisão sobre produção e distribuição eram feitas entre os moradores locais.

Após três anos de conflito intenso, a revolução foi vencida por uma combinação de fatores. Isso inclui ataques de larga escala das forças de direita auxiliadas pela Itália fascista e pela Alemanha nazista, ataques internos por parte de comunistas contra-revolucionários, apoio externo limitado e divergências táticas no campo revolucionário. Apesar da derrota pelas mãos de seus inimigos, as classes trabalhadoras obtiveram ganhos imensos e serviram de exemplo para futuras gerações. Eles demonstraram que pessoas comuns podem ser mais que ferramentas de exploração da classe dominante, que eles são capazes de se organizar democrática e colaborativamente para alcançar a liberdade.

Nós, da Aotearoa Workers Solidarity Movement (AWSM), reconhecemos que certas condições hoje, são diferentes daquelas do passado. Apesar das mudanças, o básico do sistema capitalista se mantém inalterado. Pessoas trabalhadoras aqui e em outros lugares ao redor do mundo continuam sofrendo pela opressão gêmea do controle do Estado e do capital sobre nós. Por isso, nós saudamos a memória dos heroicos trabalhadores da Espanha, nesse conflito histórico que ocorreu entre 1936-1939. Ainda hoje suas ações permanecem como um importante guia para todos nós.

No Pasarán! Pasaremos!

Fonte: https://awsm.nz/?p=11151

Tradução > 1984

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agência de notícias anarquistas-ana

janela que se abre
o gato não sabe
se vai ou voa

Alice Ruiz

[Itália] A história de um ideal

Reedição do romance histórico dedicado às lutas sindicais em Barcelona: “1907” por Fulvio Caporale

O romance histórico tem uma força surpreendente, pois ainda hoje arrasta milhões de leitores para histórias que têm um encanto antigo e que muitos talvez só tenham desnatado na escola, mas que encontram no romance, na narração de uma história inventada dentro de um contexto que realmente aconteceu. Obviamente, é sempre uma ideia que, empurrada por uma narrativa convincente, invade a mente e o coração do leitor.

No livro “1907” de Fulvio Caporale, Edições Montag, há uma ideia importante: a amizade e o amor de três personagens que influenciam a História, os ideais, a política, a luta sindical e os tremendos abusos do poder econômico que destroem toda esperança sem deixar um rastro e memória de suas vítimas. Três personagens determinados a realizar seus sonhos e seus projetos se encontram por causa das circunstâncias históricas que estão moldando Barcelona, uma cidade dinâmica onde a indústria, o capitalismo e o empreendedorismo estão tendo um sucesso inesperado esmagando os direitos dos trabalhadores e empregando mulheres, homens e crianças em um inferno de trabalho sem esperança e perspectivas. Todos os três personagens, Luca, Pablo e Luna querem derrotar essas injustiças, mas cada um deles o faz seguindo seu próprio caráter, sua inteligência e, acima de tudo, seu coração. E assim a História entra na vida das pessoas, transformando seu destino.

Em “1907”, um pequeno romance de 75 páginas, muitas coisas acontecem e os eventos se sucedem rapidamente, transformando a vida das pessoas em virtude de suas escolhas.

Desta forma, o romance histórico torna-se uma forma emocionante de leitura na qual o contexto molda os personagens e a visão, os ideais e os personagens dos protagonistas mudam o sabor da história e das histórias.

Francesco Massa

“1907” por Fulvio Caporale.

Publicado por Editions Montag.

Ano 2021

Páginas 75

Preço 13,00 euros

edizionimontag.it

Fonte: https://www.anarkismo.net/article/32341

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Este caminho!
sem ninguém nele,
escuridão de outono.

Matsuo Bashô