Mollie Steimer, anarquista

Mollie Steimer, uma destacada anarquista e defensora dos direitos dos presos políticos, foi coacusada em um dos julgamentos antirradicais mais divulgados da história estadunidense.

Nascida em 21 de novembro de 1897 em Dunaevtsy, Rússia, Steimer chegou à cidade de Nova York aos quinze anos, junto com seu pai, sua mãe Fannie Steimer e cinco irmãos e irmãs. Para ajudar a manter sua família, trabalhou em uma fábrica de roupa, onde esteve exposta pela primeira vez ao radicalismo. Em 1917, se converteu em anarquista e se uniu a um grupo de radicais judeus que se chamava Frayhayt [Liberdade]. O grupo apoiou a Revolução Russa e, além de publicar uma revista yiddish, distribuiu em segredo folhetos e outros materiais de propaganda que estavam proibidos pela legislação em tempos de guerra. Entre estes materiais havia dois folhetos, um em inglês e outro em yiddish, que se opunham à intervenção estadunidense na revolução russa e criticavam energicamente o governo estadunidense.

Os dois folhetos logo puseram a Frayhayt em problemas com as autoridades governamentais. Um dos membros do grupo foi detido por distribuir folhetos. Depois de que concordou em cooperar com a inteligência militar, outros seis membros, incluído Steimer, foram presos e acusados de conspirar para violar a Lei de Sedição.

O julgamento posterior se converteu em uma causa célebre, notável como o primeiro grande processo sob a Lei de Sedição e pela flagrante violação dos direitos dos acusados. Steimer e seus coacusados foram representados por Harry Weinberger, um conhecido defensor dos objetores de consciência, pacifistas e radicais. O julgamento de duas semanas começou em 10 de outubro de 1918. Weinberger argumentou que, dado que as ações dos acusados não interferiram diretamente com o esforço de guerra, não eram puníveis segundo as disposições da Lei de Sedição. Apesar de sua defesa, todos menos um dos acusados foram declarados culpados e quatro receberam sentenças importantes. Jacob Abrams, Hyman Lachowsky e Samuel Lipman foram condenados cada um a vinte anos de prisão e multados com mil dólares, enquanto que Steimer recebeu quinze anos e uma multa de cinco mil dólares. Os quatro apelaram seu caso ante a Corte Suprema.

Liberada sob fiança, Steimer continuou com suas atividades radicais. Se tornou amiga da anarquista Emma Goldman, que acabava de sair do cárcere. Goldman admirou a atitude intransigente de Steimer para com os ideais anarquistas e a chamou “uma espécie de Alexander Berkman com saias”. As contínuas atividades radicais de Steimer resultaram em ao menos oito prisões enquanto seu caso estava em apelação, e finalmente a levaram à prisão em Blackwell’s Island no East River no final de 1919. Enquanto esteve ali, a Corte Suprema confirmou sua condenação e as de seus colegas. Steimer foi transladada a uma prisão em Jefferson City, Missouri, onde a puseram para trabalhar costurando roupas.

Enquanto isso, Harry Weinberger continuou seus esforços para liberar os quatro anarquistas, desta vez com a esperança de obter um indulto, um decreto de anistia ou a deportação à Rússia. Pode obter uma onda de apoio para o grupo, não só entre os radicais judeus, mas também entre vários advogados e intelectuais destacados que estavam convencidos de que não tinham recebido um julgamento justo. Apesar desse apoio, Steimer se negou a assinar uma petição de anistia ou solicitar a deportação à Rússia.“Não quero nenhum perdão”, escreveu a Weinberger. “A palavra ‘perdão’ me perfura os ouvidos e afeta meu sentido de direito, que já é mau”. Se opôs à deportação sobre a base de sua crença de que “cada pessoa viverá onde escolher” e que “nenhuma pessoa tem direito de enviar-me fora deste ou de qualquer país!” Apesar destas objeções, Weinberger conseguiu a liberação do grupo. Em 1921, aos quatro anarquistas foi permitido serem deportados à Rússia soviética por conta própria e receberam um perdão total com a condição de que nunca regressassem aos Estados Unidos.

Depois de chegar à Rússia, Steimer se sentiu decepcionada ao descobrir que os anarquistas eram pouco mais bem vindos que nos Estados Unidos. Goldman e Berkman, que haviam sido deportados uns meses antes que ela, já haviam abandonado o país desiludidos. O novo regime comunista não tolerava nenhuma oposição à política estatal e via os anarquistas como uma ameaça a sua autoridade. Prometendo “defender meu ideal, o comunismo anarquista, em qualquer país no qual esteja”, Steimer começou a difundir propaganda por causas anarquistas e em nome dos presos políticos soviéticos.

Pouco depois de sua chegada a Rússia, Steimer conheceu e se enamorou de sua companheira anarquista Senya Fleshin, uma judia nascida na Rússia que havia imigrado aos Estados Unidos e regressado depois da Revolução. Ainda que as duas nunca se casaram, se converteram em devotas companheiras. Assim como Steimer, Fleshin estava desiludida com o regime soviético e as duas uniram forças em seu trabalho para ajudar os presos políticos. Em 1922, Steimer e Fleshin foram presas pela polícia secreta soviética, acusadas de ter conexões anarquistas na Europa e Estados Unidos. Foram condenadas a dois anos de exílio na Sibéria, mas foram liberadas quando realizaram uma greve de fome. Depois de serem presas pela segunda vez e realizar outra greve de fome, as duas foram expulsas da União Soviética e partiram para a Alemanha em 1923.

Durante os seguintes quinze anos, Steimer e Fleshin se transladaram entre Berlim e Paris, ajudando a presos políticos e exilados anarquistas. Mantiveram contatos com inumeráveis prisioneiros — a quem enviaram pacotes de atenção — e com radicais em vários países, muitos dos quais receberam como convidados. O casal também participou nos principais debates do dia sobre política radical, incluída a controvérsia em torno a Peter Arshinov e sua Plataforma Organizacional. Arshinov propôs a criação de um comitê executivo central para guiar o movimento anarquista, um movimento que Steimer e Fleshin sentiram conduziria ao autoritarismo e uma subversão dos princípios anarquistas.

No começo da Segunda Guerra Mundial, Steimer e Fleshin viviam em Paris. Com a invasão da França pelos alemães, enfrentaram o perigo tanto como radicais como judias. Em 1940, Steimer foi presa e levada a um campo de internamento, enquanto que Fleshin fugiu ao setor desocupado. Capaz de negociar sua liberação, Steimer se reuniu com Fleshin em Marsella e as duas fugiram para a Cidade do México, onde abriram um estúdio fotográfico e se converteram em parte de um crescente grupo de exilados políticos. Em 1963 se retiraram ao povoado de Cuernavaca. Steimer passou seus últimos anos mantendo correspondência com seus companheiros radicais e recebendo muitos visitantes que a admiravam como uma veterana do movimento anarquista internacional. Morreu em 23 de julho de 1980, aos 82 anos.

Fonte: https://circuloacrata.blogspot.com/2020/11/mollie-steimer-anarquista.html

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Gotas ao chão
Tudo escurece
Solidão

Silvia Avila

[Espanha] Guerrilha Anarquista Leonesa

Recopilação de escritos, biografias, documentos, imagens, testemunhos, curiosidades… extraídos de diversas fontes, sobre os elementos guerrilheiros anarquistas, suas circunstâncias e protagonistas, na província de León.

Somente se evidenciaram os elementos claramente anarquistas ou com um número relevante de cenetistas em suas fileiras e as biografias de seus membros libertários e os que com filiação desconhecida pertenciam a elas e poderiam ser supostamente cenetistas também. Para o restante dos guerrilheiros uma pequena pincelada biográfica.

El Seta, León 2020

“A maioria dos espanhóis hoje tem uma imagem distorcida do período, baseada em dois mitos principais: que o fenômeno era limitado e que a guerrilha era comunista (salvo em umas poucas exceções). Pelo que se refere ao primeiro mito, foi habilmente cultivado pelos fascistas já desde os anos da guerrilha. O regime apresentava os combatentes como bandoleiros, vermelhos delinquentes e foragidos sanguinários, subtraindo de sua atividade o componente político. E quanto ao segundo mito, a despeito da propaganda comunista que lançou o PCE depois da transição espanhola, os guerrilheiros comunistas não foram nem a maioria nem os mais decisivos nas ações. Simplesmente depois de 1945 os delegados do partido assumiram o controle em muitas zonas da Espanha montanhosa.”

Kostas Floros. Kiklos Alpha. Historia del Movimiento Libertario Español durante la Dictadura. 1939-1977.            

“Os leoneses se lançaram ao monte para evitar uma morte certa e depositaram seus sonhos de redenção nos países que lutavam na Europa pela liberdade e a democracia. E lutaram com ousadia tendo em conta seus precários meios. O total  final de baixas reflete a dureza do combate: 60 guerrilheiros, 23 ligações, 17 membros da força pública e 55 pessoas catalogadas como “população civil”. Alguns maquis despertaram dessa luta desigual no exílio, outros não tiveram tanta sorte e perderam a vida na tentativa. Os guerrilheiros esperavam ser, quando caísse o fascismo, os representantes de um povo livre, mas esse povo maltratado e oprimido só pensava em viver a qualquer preço. Inclusive o preço da liberdade. Em troca dessa submissão, nas zonas rurais se criaram mitos e lendas relacionados com os maquis. E é que, a falta de liberdade, as pessoas do mundo rural leonês – como as do resto do país – optaram por criar mitos de liberdade. Ou de esperança. De sonhos, definitivamente.”

Secundino Serrano. La resistencia antifranquista en la provincia de León.

>> Link para baixar PDF:

https://drive.google.com/file/d/1toFVVcZxWv-Jm-lMp2Sq4AU7vOp0OiRD/view

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Ao fazer a sesta,
A mão que segura o leque
Pára de se mexer …

Taigi

[Itália] Um carvalho vermelho para Giuseppe Pinelli

51 anos após o assassinato de Giuseppe Pinelli, a Federação Anarquista de Reggio Emilia – FAI pretende doar à cidade uma árvore dedicada a ele para transmitir sua memória às gerações futuras. Como já aconteceu em Milão no ano passado, na presença do prefeito da cidade e de suas filhas Silvia e Claudia e de acordo com a esposa do ferroviário Licia Rognini, gostaríamos de plantar um carvalho vermelho em um lugar significativo em nossa cidade. Na capital da Lombardia, foi afixada uma placa que diz: “Árvore dedicada a Giuseppe Pinelli, ferroviário, anarquista, guerrilheiro, 18ª vítima da Piazza Fontana, 50 anos após sua trágica morte em sua memória, no bairro onde ele morava”. O projeto visa plantar esta bela árvore no Jardim Público (Parco del Popolo).

A Federação Anarquista de Reggio Emilia sempre esteve comprometida, desde dezembro de 1969, denunciando a Estratégia de tensão que causou o massacre da Piazza Fontana, o assassinato de Giuseppe Pinelli e não apenas. E hoje, como então, está empenhada em lutar contra todo poder, por uma sociedade baseada na justiça social e em equilíbrio com o meio ambiente que nos rodeia.

Fonte: https://federazioneanarchicareggiana.noblogs.org/una-quercia-rossa-per-giuseppe-pinelli/

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/12/17/italia-15-de-dezembro-de-1969-pinelli-vive/

agência de notícias anarquistas-ana

o sapo, num salto,
cresce ao lume do crepúsculo
buscando a manhã

Zemaria Pinto

[Uruguai] Redes de ajuda mútua, partidos políticos e autonomia

De acordo com um estudo que foi divulgado, as panelas populares (“ollas populares”) deram uma média de 373 porções de alimentos desde que a solidariedade contra a “crise” econômica decolou.

Temos dito repetidamente que os exploradores desempenham seu papel e não descansam para aprofundar seus lucros, ergo, exploram e dominam as pessoas mais profundamente. As panelas representam e são de fato parte do poder social contra aquele mundo de morte que é o capitalismo. A ajuda fora da arena política e do lucro é uma base fundamental para um mundo baseado na solidariedade, mas há vários riscos associados às boas intenções.

Nossa compaixão em todos os diferentes espaços, merendeiras e panelas vê em carne e osso a solidariedade, a força do povo e também as tentativas de recuperação política de diferentes setores, desde igrejas, partidos políticos e organizações “partidárias” como a PITCNT.

Nossos compas decidiram continuar na maioria dos lugares, muitos deles criados pelas mesmas pessoas, e há muitas coisas que não são de “escolha”. Com a ética da liberdade onde o apoio mútuo é mostrado como uma força indispensável para um novo mundo, tornar visíveis as tentativas de institucionalização e cooptação será uma tarefa necessária nos próximos tempos.

Será necessária uma crítica, uma crítica que não quebre as redes de ajuda, que não venha “de fora”, ou seja, que não pare, mas reforce as forças em direção à autonomia e à liberdade. Na crise de 2002 vimos como muitas redes foram tomadas pelos futuros gerentes progressistas do capitalismo como estruturas complementares e transitórias. A única coisa em que eles estavam interessados era o poder omnimodal e centralizado do Estado. As panelas certamente não são uma estrutura econômica básica para qualquer tipo de sociedade libertária ou livre. Elas são criadas para mitigar um problema.

A concepção diferente que podemos contribuir talvez seja a de entender as redes de solidariedade como o embrião, não para interesses políticos, mas para aprofundar a auto-organização das pessoas através da compreensão e expansão de sua força, criatividade e independência. O progressivismo já falhou em deificar o mercado e tornar as pessoas mais dependentes. O “novo uruguaio” provou ser um conceito prejudicial. Teremos que construir algo mais entre todos…

(A)

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Vultos
Ciscos cegos
No olho da rua.

André Vallias

[Espanha] Primeira tiragem de “La Madeja”, fanzine anarcofeminista

No dia 1º de dezembro de 2020 foi publicada a primeira tiragem do fanzine de reflexão anarcofeminista La Madeja, criação do grupo de afinidade anarcofeminista Moiras.

O objetivo desta publicação é servir de ferramenta de reflexão no âmbito do pensamento anarcofeminista com vistas ao impulso organizativo do mesmo. Analisar a diversidade de ideias presente, para gerar acordos, sínteses, coesionar, unir forças, seguindo o guia de uns princípios a partir dos quais se formou o grupo Moiras. Este grupo de afinidade fica como equipe de redação permanente encarregado da adequação do conteúdo à linha especifica traçada nesta primeira tiragem. Se admitirão colaborações de texto a partir de um número ainda por determinar, e contribuições artísticas e literárias, preferencialmente de mulheres. Se agradece a difusão máxima da publicação.

>> Para baixar o fanzine La Madeja:

https://drive.google.com/file/d/1TXFZ4bmVnKuwj3vAYEbEb3x3wO7vpFHC/view

agência de notícias anarquistas-ana

quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa

Alice Ruiz

[Alemanha] Hannover: manifestação espontânea contra a violência e a repressão policial em 13.12

Em 13.12, cerca de 50 pessoas se manifestaram no distrito de Nordstadt, em Hannover, contra a violência e a repressão policial.

Existem razões suficientes para se tornar ativo contra os policiais. Controles racistas, orgias de espancamento em manifestações, buscas domiciliares, permissões de despejos forçados, deportações e desmatamentos de florestas, bem como envolvimento em redes terroristas da extrema-direita.

Para expressar sua indignação com isso, cerca de 50 pessoas foram às ruas neste dia simbólico em forma de manifestação espontânea. A manifestação marchou ao longo de todo o E-Damm no distrito de Nordstadt e se dissolveu na Igreja Christus. Nós descreveríamos a expressão da manifestação como militante e cheia de raiva. Durante toda a ação, slogans contra os policiais foram entoados e muita pirotecnia foi iniciada.

De forma autocrítica, porém, temos que admitir que muito mais teria sido possível neste dia. Os policiais que chegavam poderiam ter sido parados com barricadas ou vários objetos poderiam ter sido atirados contra eles. No entanto, estamos felizes por termos percorrido todo o percurso planejado e não temos conhecimento de nenhuma prisão.

Saudações solidárias a todos os prisioneiros e ativistas afetados pela repressão. Vocês não estão sozinhos!

Fonte: https://enoughisenough14.org/2020/12/14/hannover-germany-spontaneous-demonstration-against-police-violence-and-repression-on-13-12/

Tradução > A. Padalecki

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Quão glorioso,
Nas folhas verdes, folhas tenras,
O brilho do sol!

Bashô

[Espanha] Lançamento: “Fuera de la ley. Vol.4 | Gamberros, ultras, quinquis y clandestinos. Los bajos fondos en españa (1960-1981)”

Vários Autores

“Tínhamos dois inimigos irreconciliáveis; nossos piores inimigos: a Guarda Civil e os Invernos” (Eleuterio Sánchez, também conhecido como “El Lute”)

Este é um país que cheira a pólvora e onde não há uma semana sem atentados, roubos ou choques de rua. Dinamite e adaga, armas caseiras e bastões são utilizados. Há torturas, julgamentos sumários, pantomimas judiciais e garrote vil. No submundo, os antigos bairros “tenebrosos”, o regime de Franco se mostra torpe. São cidadelas rebeldes, pequenas cortes de milagres. Ali, a autoridade raramente é vista sob uma boa luz. Anarquistas e revolucionários de todos os tipos enfrentam o regime enquanto os ultras são treinados militarmente e se especializam em retaliações e ataques sanguinários. Assassinos em série, golpistas, complôs “negros”, gamberros, guerrilheiros, assaltantes, confrontos de rua. De 1960 a 23F.

Fuera de la ley. Vol.4 | Gamberros, ultras, quinquis y clandestinos. Los bajos fondos en españa (1960-1981)

VV.AA.

La Felguera Editores, Colección True Camino, 61. Madrid 2020

596 págs. Rústica 24×17 cm

ISBN 9788412261004

24,90 €

lafelguera.net

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/10/03/espanha-lancamento-fuera-de-la-ley-vol-3-contrabandistas-expropiadores-protoquinquis-y-guerrilleros-los-bajos-fondos-en-espana-1937-1960/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/10/03/espanha-lancamento-fuera-de-la-ley-vol-2-pistoleros-revolucionarios-y-noctambulos-los-bajos-fondos-en-espana-1924-1936/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/10/03/espanha-lancamento-fora-da-lei-quadrilha-anarquistas-bandoleiros-e-apaches-os-delinquentes-na-espanha-1900-1923/

agência de notícias anarquistas-ana

No cimento quente,
A ilusão de um oásis:
Vaso de samambaias

Edson Kenji Iura

[Espanha] Noam Chomsky dá início as Jornadas Libertárias da CGT Valência

A 22ª Jornadas Libertárias da CGT de Valência começou na segunda-feira, 21 de dezembro, com uma entrevista em videoconferência com o linguista, filósofo e ativista Noam Chomsky, transmitida nas redes sociais da organização anarcossindicalista.

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista foi encarregado de iniciar a A 22ª Jornadas Libertárias da CGT de Valência com uma entrevista conduzida pela organização anarcossindicalista, na qual ele abordou vários aspectos da sociedade atual. O veterano pensador norte-americano mostrou que ainda brilha aos 92 anos de idade, continua dando aulas e realiza encontros regulares com outros linguistas de diferentes partes do mundo, como o próprio Chomsky explica na entrevista, ao mesmo tempo em que afirma que “nunca abandonou seu ativismo social desde os 10 ou 11 anos de idade”.

Este ano, as Jornadas Libertárias da CGT de Valência atingem 22 anos e visam refletir sobre o apoio mútuo como um pilar para a construção de uma nova sociedade. Questionado sobre este ponto, Noam Chomsky afirma que “Kropotkin estava certo” e dá como exemplo “a reação humana espontânea” que ocorreu em diferentes lugares durante a pandemia da COVID-19 com “pessoas ajudando umas às outras e trabalhando juntas para superar a situação”, apesar de “as estruturas destinadas a miná-la”. Chomsky também conta com os sindicatos como uma ferramenta para lidar com o “pequeno setor da população” que aumentou seus lucros, enquanto “a grande maioria estagnou ou diminuiu seus recursos”.

Noam Chomsky chama o que aconteceu neste verão na Europa com a pandemia de uma “catástrofe”. “Eles queriam aproveitar as praias espanholas ou esquiar nos Alpes”, explica o linguista, acrescentando que “a crise mais grave que estamos enfrentando é a ambiental, muito mais do que a pandêmica”, pois segundo o pensador americano “não há volta atrás, as calotas de gelo estão derretendo, não podemos consertá-las” e ele acredita que “ainda nos restam algumas décadas para tentar superá-la e, se não aproveitarmos a oportunidade, a espécie humana estará acabada”.

O final da entrevista é um chamado à ação por parte de Noam Chomsky: “é possível, está ao nosso alcance fazer um mundo melhor, mas temos que fazê-lo”.

Fonte: https://www.cgtpv.org/comunicats/noam-chomsky-da-el-pistoletazo-de-salida-a-las-jornadas-libertarias-de-cgt-valencia

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Casa abandonada—
a aranha faz sua teia
na porta de entrada

Regina Ragazzi

A educação libertária no jornal anarquista A Luta: da escola Eliseu Reclus às práticas de leitura e outras expressões culturais

Por Caroline Poletto

Resumo

O presente artigo objetiva apresentar as múltiplas formas com que a educação libertária foi divulgada, praticada e incentivada através do jornal anarquista A Luta, que circulou pela cidade de Porto Alegre durante os anos de 1906 a 1911. Já no exemplar inaugural do jornal é apresentada a Escola Eliseu Reclus que, inspirada nos ensinamentos do educador catalão Francisco Ferrer, praticava o ensino livre. Acompanhar a trajetória e as atividades desenvolvidas nesta escola é um dos objetivos deste trabalho, bem como averiguar quais materiais de leitura formavam o acervo do Gabinete de Leitura da escola Eliseu Reclus, tendo em vista o próprio autodidatismo incentivado pelos libertários. Por fim objetiva-se também dissertar, ainda que brevemente, sobre outras práticas culturais e pedagógicas que auxiliavam na educação dos sujeitos nas bases dos princípios libertários.

>> Download (PDF) do texto aqui:

http://seer.upf.br/index.php/ph/article/view/11805/114115484

agência de notícias anarquistas-ana

Bolhas de sabão
sopradas no ar da manhã
exalam arco-íris.

Ronaldo Bomfim

As ‘cicatrizes’ gigantes sobre a Terra deixadas pela mineração

Quando cavamos para extrair metais preciosos, combustível fóssil ou minérios antigos, removemos um capítulo de outra era.

Tais substâncias são, nas palavras do escritor Astra Taylor, o “passado condensado”, remetendo a períodos épicos de fúria magmática, florestas tropicais ou vapor hidrotermal.

Levam milhões de anos para se formar ou cristalizar, e apenas alguns instantes para serem removidas com maquinário e explosivos.

Desde que o homem percebeu pela primeira vez que o solo abaixo dele continha riquezas ocultas, passou a cavar para descobrir o que repousa sob seus pés.

A mineração torna possíveis quase todos os aspectos de nossas vidas modernas, e muitas vezes os efeitos sobre a natureza estão a muitos quilômetros de nossas casas.

Quando você depara visualmente com o impacto de uma mina, pode mudar sutilmente a forma como avalia seu consumo. Inclusive este texto chegou até você por meio de materiais geológicos — por trás dessa tela, emaranhada em eletrônicos, há metais que outrora estiveram retidos por milênios em uma rocha.

E, em algum lugar do mundo neste momento, nosso desejo crescente por tecnologia está alimentando pesquisas subterrâneas cada vez mais profundas e abrangentes em busca desses recursos.

A seguir, você vai ver inúmeras maneiras pelas quais a mineração transformou a superfície da Terra — sejam os tons surpreendentes e artificiais das “bacias de rejeitos” ou as paisagens a céu aberto que parecem ser as verdadeiras impressões digitais da humanidade.

Se os antigos minérios e minerais que cobiçamos são o “passado condensado”, então, infelizmente, o que nos espera é um futuro com cicatrizes.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

bbc.com/portuguese/vert-fut-55280352

agência de notícias anarquistas-ana

Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite…

Matsuo Bashô

[Irlanda] Affinity Collective: Não se desespere, organize!

O modo em que estamos condicionados a viver nossas vidas na sociedade Ocidental é insustentável. Precisamos de modelos alternativos e não podemos esperar os políticos para entregar as mudanças necessárias para fornecer segurança e abrigo aos seus cidadãos e proteção aos nossos ecossistemas. Duas das maiores emergências enfrentadas pela Irlanda nesse momento são a devastação ecológica imposta por empresas florestais com fins lucrativos e a contínua crise de habitação que está vendo os aluguéis subirem e a qualidade das habitações caírem, embora o número de sem-tetos suba ao ponto mais alto de todos os tempos. Em Dublin, de 2012 até o dia de hoje, o preço de uma casa ou apartamento subiu em torno de 80% a 90%. Os salários têm subido desproporcionalmente, aumentando em apenas 18%. Os aluguéis também aumentaram drasticamente. Em meio a esta crise, centenas de propriedades improdutivas e abandonadas caindo em ruínas.

O Affinity Collective está buscando oferecer uma potencial solução para estes problemas, uma de muitas maneiras na qual podemos nos unir e tomar o futuro em nossas mãos. Ela nasceu de um desejo mútuo de mudança e um modelo alternativo colaborativamente criado para as falhas de nossa sociedade capitalista corporativista. Em breve chamaremos um terreno de 9,5 acres na zona rural da Irlanda ocidental de lar, o Collective é uma cooperativa radical de terras que em 2018 juntou a vontade de agir de acordo com os ideais compartilhados, a inspiração e a co-criação de soluções para os problemas que enfrentamos. Comprometido com uma abordagem de base, o Afinity Collective busca promover a permacultura agrícola e social: o cuidado do que já existe e a criação de um novo ecossistema local auto-sustentável que inclua atividade humana descentralizada e não hierárquica e que proteja e forneça a todos seus agentes minerais, vegetais, animais e humanos.

Os membros do coletivo possuem histórias diferentes e vêm de uma variedade de origens incluindo ativistas, cientistas cidadãos, e artistas com experiência em DIY (faça você mesmo), jardinagem de guerrilha, cultivo comunitário, convivência e organização de centros sociais. Eles estão empenhados em usar todas as suas habilidades e recursos à sua disposição para construir uma base de apoio mútuo, vida sustentável, e organização de base.

Então como conseguimos chegar onde estamos?

Bem, primeiro, realizamos o que podíamos e precisamos reestruturar radicalmente o modo que organizamos sociedades e comunidades enquanto espécie, substituindo o que vemos como estruturas opressivas por modelos baseados em acessibilidade, cooperação e empoderamento. A injustiça e angústia aparentemente intransponíveis agem como um catalisador para organizar e podem dar um impulso único para alcançar projetos e construir as comunidades que tão desesperadamente precisamos.

Então veio a papelada! Sabíamos que precisávamos ter acesso legítimo à terra, mas não queríamos ter propriedade particular sobre ela. Decidimos abrir uma empresa limitada e nos tornarmos membros do conselho – dois conceitos muito estranhos para nós! Houve taxas, burocracia e muitas reuniões. Isso tudo coincidiu com um longo período de poupar, atrair investimentos, considerar empréstimos de instituições financeiras e esperar por um milagre. Durante o  verão deste ano, o Affinity Collective LTD foi fundado, contamos nosso dinheiro e começamos a busca por um terreno acessível. Quando encontramos um lugar que pensamos que estava em nosso orçamento, pegamos vários empréstimos pessoais de bancos e amigos. É aí que nossa história pausa por enquanto! Com as restrições da Covid no local, nós teremos que nos contentar com sonhar com maravilhosas “cob houses” [nota do tradutor: casas construídas com barro e material orgânico na Irlanda e Inglaterra], listando ferramentas e materiais necessários e nos comunicando pelo Skype.

Ainda estamos todos sonhando com o futuro, e planejando trabalhar no projeto e plantio de nossa floresta de alimentos e nossa floresta em geral durante o inverno e fazer um caminho até a colina que abrange quase metade da propriedade. O verdadeiro truque para fazer esse lugar prosperar está no equilíbrio em construir espaços de convivência, energia confiável fora da rede, um centro comunitário, e talvez até instalações para reciclagem. Todos nós estamos muito animados para trabalhar no entrelaçamento da vegetação natural, fauna, fungi e distribuição de água para criar um bioma forte e saudável. Estes são todos os pontos iniciais vitais que estamos comprometidos a dar vida. Nós acreditamos que cada base irá trazer novos projetos e desenvolvimentos para vida, seja através de colaborações com outras cooperativas ou através de respostas às necessidades e projetos criativos locais que surgirem. Depois de tudo, avançando, a humanidade em geral vai realmente precisar prestar atenção em todos estes elementos interconectados dos mais variados biomas maravilhosos pela Terra, se vamos continuar prosperando nesta Terra e avançando para tempos maiores e melhores.

Reconhecemos a cultura como uma parte central e economicamente rejeitada da atividade humana. Assim sendo, o Affinity Colective também já é envolvido na produção de podcasts e blogs, e contará com seu próximo local para encorajar nossos filósofos e pensadores de todas as vertentes para trocar, prosperar, e compartilhar seus pensamentos e projetos culturais. Afinal, cooperação e criatividade cultural são os dois marcadores de uma sociedade que prospera, em vez de meramente sobreviver.

Uma verdadeira abordagem permaculturista significa que o Collective não funciona através da autarquia. Ao contrário, nós buscamos nos tornar um nó em uma rede de apoio mútuo, conectando com outros tantos projetos de todos os tamanhos na Irlanda, de pequenas fazendas a viveiros de árvores de quintal e esperamos mais projetos em uma linha semelhante ao do próprio Collective. Ao reduzir a cadeia de fornecimento de recursos de uma operação corporativista global intensiva de carbono para redes menores e mais diretas, podemos contribuir para cortar as emissões de carbono da Irlanda e mostrar novas maneiras práticas e significativas de nos organizar.

A vida é boa, pessoal! Você também pode fazer isso!

Affinity Collective

@affinitycoire

Fonte: https://freedomnews.org.uk/dont-despair-organise-affinity-collective/

Tradução > Brulego

agência de notícias anarquistas-ana

Na palma da mão,
Um vagalume —
Sua luz é fria!

Shiki

[Espanha] Uma Lei da Memória que esquece as vítimas

Em 2 de dezembro, a Confederação Nacional do Trabalho, a CNT, apresentou várias alegações ao anteprojeto da Lei de Memória Histórica.

Por experiência, prática e história, sabemos que pouco podemos esperar da política institucional, mas, por responsabilidade, analisamos o texto da minuta e introduzimos nossas alegações. Há duas razões para isso: viemos de uma longa jornada pelo deserto em matéria de Memória – oficial, entende-se – e será sempre melhor se houver algum movimento a seu favor e, por outro lado, para registrar a luta e as conquistas de nossos camaradas anarcossindicalistas, não democráticos, sobre os quais a Lei estende um segundo esquecimento.

Na realidade, pode-se resumir as alegações em uma, ao todo, pela falta de ambição da Lei e por estar ligada a um interesse político que se concentra em perpetuar o sistema que, sem romper com o regime franquista, lhes permite coletar, para seus filhos políticos, inclusive os autodenominados progressistas, as migalhas de um poder concedido, mas não tirado, aos fascistas.

No plano jurídico, ela se baseia em valores democráticos específicos e em uma instituição democrática específica: os da Transição Espanhola e da Constituição de 1978; que se repetem com uma vingança em todos os artigos. Uma Constituição e uma Transição emanaram diretamente de um pacto ignominioso para as vítimas – de todos os gêneros – do franquismo. Basta olhar ao redor para ver os graves déficits democráticos (a ONU também o diz) deste sistema.

No caso da Memória Histórica, e da justiça, isto nos leva à Lei de Anistia de 1977. O primeiro passo para a verdadeira Memória e a verdadeira justiça seria sua imediata revogação, algo que nem sequer é mencionado nesta Lei. Portanto, toda a reparação às vítimas é simbólica.

Não vamos parar aqui e explicar tudo que é “curto”, confuso e contraditório sobre este rascunho, porque seria muito longo, cobre quase todos os artigos.

O sistema de sanções é um insulto às vítimas (passado e futuro) do franquismo e do fascismo; a burocratização dos processos é espetacular; o acesso aos arquivos é, no mínimo, confuso; a possibilidade de auto-organização da sociedade civil, que não é visível, ou, como dissemos, a conversão de nossos camaradas da CNT, que lutaram pela Revolução e Justiça Social, em lutadores por valores democráticos que, no caso do Estado espanhol, as instituições não sabem nem mesmo como limpar em seu próprio campo. Eram lutadores por uma causa justa e com uma ideologia justa que não deveria ser desprezada, ignorada ou esquecida.

Concluímos que esta Lei de Memória é incompleta e insuficiente, partindo do fato de não condenar a ditadura sangrenta e cruel de Franco, não inclui o período de transição e os primeiros anos de democracia em que os mesmos carrascos do regime de Franco ocuparam cargos públicos, não denuncia a conivência da Igreja Católica com o regime de Franco e sua participação em fatos aberrantes como o roubo de bebês, entre outros, e, claro, ainda não toca na Lei de Anistia de 77, feita sob medida para o regime de Franco.

Temos demasiados corpos perdidos no subsolo e não temos tempo suficiente para desperdiçar.

GRUPO DE TRABALHO DE MEMÓRIA HISTÓRICA DA CNT

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/una-ley-de-memoria-que-se-olvida-de-las-victimas/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/07/espanha-em-vista-do-projeto-de-lei-sobre-memoria-historica-e-democratica/

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Quando é que você veio
Para junto de meus pés,
Oh, caramujo?

Issa

[Reino Unido] Um guia anarquista para o natal

por Ruth Kinna

Não é surpresa alguma descobrir que o teórico anarquista Kropotkin era interessado pelo Natal. Na cultura Russa, São Nicolau (Николай Чудотворец) é reverenciado como defensor dos oprimidos, dos fracos e dos desamparados. Kropotkin compartilhava desses sentimentos.

Mas há também uma ligação familiar. Como todo mundo sabe, Kropotkin poderia rastrear sua ancestralidade a antiga dinastia Rurjk que governou a Rússia antes do advento dos Romanovs e que, a partir do século I dC, controlavam as rotas comerciais entre Moscou e o Império Bizantino. O ramo da família de Nicolau foi enviado para patrulhar o Mar Negro. Mas Nicolau era um homem espiritual e procurou fugir da pirataria e banditismo pela qual sua família viking russa era famosa. Então, ele se estabeleceu com um novo nome nas terras do sul do Império, hoje a Grécia, e decidiu usar a riqueza que ele tinha acumulado de sua vida de crime para aliviar os sofrimentos dos pobres.

Fontes de arquivos não publicados descobertos recentemente em Moscou revelam que Kropotkin era fascinado por este laço familiar e da semelhança física marcante entre ele e a figura do Papai Noel, popularizada pela publicação de “Uma visita de São Nicolau” (mais conhecido como “A noite antes do Natal”) em 1823.

Kropotkin não era tão corpulento como Papai Noel, mas com uma almofada de pelúcia a rechear sua túnica, ele sentiu que poderia passar. Seu amigo Elisée Reclus aconselhou-o a largar a guarnição da pele sobre a roupa. Essa foi uma boa ideia, pois também lhe permitiria usar um pouco mais de preto com o vermelho. Ele decidiu seguir o conselho de Elisée nas renas, também, e de usar um trenó conduzido a mão. Kropotkin não era normalmente dado a fantasiar-se. Mas explorar a semelhança para espalhar a mensagem anarquista era uma excelente propaganda pela ação.

Antecipando “V”, Kropotkin pensou que todos poderiam se passar por Papai Noel. Na margem de uma página Kropotkin escreve: “Infiltrem-se nas lojas, distribuam os brinquedos!”

Restos rasurados na parte de trás de um cartão postal se lê:

Na noite antes do Natal, todos nós vamos estar prontos

Enquanto as pessoas estão dormindo, vamos realizar a nossa influência

Nós vamos expropriar bens das lojas, porque é justo

E distribuí-los amplamente, para aqueles que mais precisam.

Suas notas sobre este projeto também revelam alguns valiosos insights a propósito de suas ideias sobre características anarquistas do Natal e de seu pensamento sobre as formas e quais os rituais do Natal Vitoriano deveriam ser adaptados.

“Todos nós sabemos”, escreveu ele, “que as grandes lojas – John Lewis, Harrods e Selfridges – estão começando a explorar o potencial de vendas do Natal, criando cavernas mágicas, grutas e terras encantadas fantásticas para atrair nossos filhos e pressionar-nos para comprar presentes que não queremos e não podemos pagar”.

“Se você é um de nós”, continuou, “você vai perceber que a magia do Natal depende do sistema de produção do Papai Natal, não das tentativas das lojas para seduzi-lo ao consumo de inúteis bens de luxo”. Kropotkin descreveu as oficinas espalhadas pelo Pólo Norte, onde os elfos trabalham felizes durante todo o ano, porque eles sabiam que estavam produzindo para o prazer de outras pessoas. Observando que essas oficinas eram estritamente sem fins lucrativos, a base de mão-de-obra artesanal e funcionando em modelos comunais, Kropotkin tratou-as como protótipos para as fábricas do futuro (delineadas em “Campos, Fábricas e Oficinas”).

Algumas pessoas, ele sentia, pensavam que o Papai Noel sonhava em ver que todos haviam recebido presentes no dia do Natal, era quixotesco. Mas ele poderia ser realizado. Na verdade, a extensão das oficinas – que eram muito caras para manter no Ártico – facilitaria a generalização da produção pautada pelas necessidades e a transformação da troca ocasional de presentes em partilha regular. “Precisamos dizer às pessoas”, Kropotkin escreveu, “que oficinas comunais podem ser estabelecidas em qualquer lugar, e que podemos combinar nossos recursos para assegurar que todos tenham suas necessidades satisfeitas!”

Uma das questões que mais incomodou Kropotkin sobre o Natal foi a forma pela qual o papel inspirador que Nicolau desempenhou evocando mitos do Natal, confundido a ética do Natal. Nicolau foi erroneamente representado como um homem caridoso e benevolente: santo, porque ele era beneficente. Absorvido na figura do Papai Noel, as motivações de Nicolau para as doações se tornaram ainda mais distorcidas pela fixação vitoriana por crianças.

Kropotkin realmente não entendia as ligações, mas sentia que refletia uma tentativa de moralizar a infância através de um conceito de pureza que foi simbolizado no nascimento de Jesus. Naturalmente, ele não poderia imaginar a criação do Grande Irmão Papai Noel, que sabe quando as crianças estão dormindo ou acordadas e vem para a cidade, aparentemente sabendo quais entre elas se atreveram a chorar ou fazer birra.

Mas, cedo ou tarde, ele avisou, esta ideia de pureza seria usada para distinguir crianças más e boas, e apenas aquelas do segundo grupo que seriam recompensadas com presentes.

Seja qual for o caso, era importante recuperar deste quiproquó confuso tanto o princípio da compaixão de Nicolau quanto as origens folclóricas de Papai Noel. Nicolau deu porque era torturado pela sua consciência das privações de outras pessoas. Embora ele não fosse um assassino (até onde Kropotkin soubesse), ele compartilhou da mesma ética de Sofia Petrovskaya. E ainda que fosse obviamente importante se preocupar com o bem-estar das crianças, o princípio anarquista era tomar em conta o sofrimento de todos.

Da mesma forma, a prática da doação foi erroneamente compreendida, como se necessitasse da implementação de um plano centralmente dirigido, supervisionado por um administrador onisciente. Tudo isto estava completamente errado: Papai Noel veio da imaginação do povo (basta considerar a gama de nomes locais que Nicolau tinha acumulado – Sinterklaas, Tomte, de Kerstman). E o espraiamento da alegria – através da festividade – foi organizado de baixo para cima.

Enterrado sob o Natal, argumentou Kropotkin, estava o princípio solidário do apoio mútuo.

Kropotkin apreciou o significado do ritual e o valor real que os indivíduos e as comunidades associavam ao carnaval, aos atos de lembrança e comemoração. Ele não queria abolir o Natal, nem tampouco queria vê-lo republicanizado através de alguma reorganização burocrática obstinada do calendário.

Era importante, no entanto, separar a ética que o Natal apresentava da singularidade da sua celebração. Dar uma festa era apenas isso; a extensão do princípio do apoio mútuo e da compaixão à vida cotidiana era outra coisa. Na sociedade capitalista, o Natal abria espaço para bons comportamentos. Enquanto era possível ser cristão uma vez ao ano, o anarquismo era para toda a vida.

Kropotkin percebeu que sua propaganda teria mais chance de sucesso se ele pudesse mostrar como a mensagem anarquista também estava incorporada na cultura mainstream. Suas anotações revelam que ele se inspirou particularmente no “Conto de Natal”, de Dickens, para encontrar um veículo para suas ideias. O livro foi amplamente creditado com consolidadas ideias de amor, alegria e boa vontade no Natal. Kropotkin encontrou a genialidade do livro em sua estrutura. Que outra coisa seria a história do encontro de Scrooge com os espíritos dos natais passados, presentes e futuros além de um relato prefigurativo da mudança?

Ao ver o seu presente através de seu passado, Scrooge teve a oportunidade de alterar seus modos avarentos e remoldar o seu futuro e o futuro da família Cratchit. Mesmo que isso só seja lembrado uma vez por ano, Kropotkin pensou, o livro de Dickens emprestou aos anarquistas um veículo perfeito para ensinar esta lição: alterando o que fazemos hoje, modelando os nossos comportamentos segundo o de Nicolau, podemos ajudar a construir um futuro que é como o Natal!

>> Ruth Kinna é editora da revista Estudos Anarquistas (“Anarchist Studies”) e professora de Teoria Política na Universidade de Loughborough.

Fonte: http://strikemag.org/anarchist-guide-christmas/

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a mâe conta
enquanto dá de mamar
as picadas de pulga.

Issa

Kropotkin e a questão das prisões

Por Murillo Heinrich Centeno | 10/11/2020

Piotr Alexeyevich Kropotkin (1842 – 1921) foi um dos principais pensadores políticos do anarquismo no fim do século XIX. Em 1897, publicou a obra “Les Prisiones“, onde faz uma análise acerca dos sistemas prisionais da época. Muito embora possuam mais de um século, suas ideias servem ainda para (re)pensarmos sobre a (des)necessidade do cárcere e a (falta de) legitimidade deste tipo de punição.

De acordo com o pensador, qualquer espécie de fundamentação que vise a legitimação das prisões é falso por excelência. Não seria possível que um mecanismo criado apenas para retribuição, causador de imensurável sofrimento inócuo, tivesse condições de lograr qualquer benfeitoria, seja para o indivíduo ou para a sociedade.

Se agora me perguntassem: “O que poderia ser feito para melhorar o sistema penitenciário?”, eu contestaria categoricamente: “Nada! Porque não cabe melhorar uma prisão. Exceto algumas ligeiras modificações que não afetam o principal problema, nada pode fazer-se sem demoli-lo previamente”. (KROPOTKIN, 2012, p.11)

A discussão ora pretendida se faz indispensável neste cenário atual, onde a cultura punitivista se apresenta em constante expansão, tanto no imaginário popular quanto nas instituições. O bombardeio diário de notícias falsas acerca dos assuntos relacionados à política criminal também são alarmantes e contribuem para a retroalimentação de ideias radicais, como por exemplo a redução da maioridade penal, prisão perpétua e pena de morte.

Outro ponto chave para que se possa iniciar um debate acerca das prisões, especialmente na América Latina, é que seja reconhecido que uma pena privativa de liberdade nunca é somente uma pena privativa de liberdade.

A valer, os efeitos de uma condenação ao cárcere vão muito além de meramente privar o indivíduo do seu direito de ir e vir. No momento em que ingressa no sistema prisional, uma série de consequências paralelas já começam a repercutir; desde a perda da dignidade, tratamento sub-humano, chances enormes de contrair doenças de todos os tipos, sem contar a violência sexual, física e psicológica muito comum nestes locais, até ao preconceito que se perpetua ad infinitum (etiquetamento social dado aos ex-condenados e egressos, “bandidos”).

Em obra publicada recentemente pela editora Canal Ciências Criminais, tratamos sobre o tema do sistema prisional brasileiro, apontando o mesmo como exemplo de Estado de Coisas Inconstitucional e propondo uma ferrenha crítica à toda a situação que envolve o assunto.

Entrando em um estabelecimento prisional, o sujeito invariavelmente vai cair sob o domínio de alguma facção. Ele vai precisar fazer coisas para poder sobreviver dentro do cárcere. Vai necessitar fazer amizades, prestar favores, fazer todos os tipos de concessões somente para que possa continuar vivo. Ninguém (muito menos o Estado) está preocupado com a sua segurança ou com o seu bem-estar. Não resta uma alternativa senão adaptar-se ao meio.

A questão da impossibilidade de reinserção social também foi levantada na ADPF-347. No cenário atual simplesmente não há espaço para a ressocialização, reeducação, tratamento psicológico ou nada deste tipo. As masmorras servem como depósitos de gente, onde se jogam cada vez mais pessoas, utilizando-se da segurança pública como pretexto. Grande ironia.

Algo que parece ser muito convenientemente esquecido é o fato de que alguma hora o indivíduo que é jogado “aos lobos” dentro dos presídios brasileiros vai ter que voltar a viver em sociedade. E nada nos faz pensar que esta pessoa vai voltar melhor do que quando entrou. O trauma, o estigma, todo o sofrimento pelo qual o sujeito passou não vai fazer com que não volte a cometer crimes. O que acontece é justamente o oposto. (HEINRICH In ABREU, 2020, p.16)

A verdade é que, sem perceber, a sociedade acaba criando um exército contra si mesma ao apoiar a hipertrofia do sistema prisional. É humanamente impossível pensar que qualquer pessoa possa de fato sair do cárcere “melhor do que entrou”.

A questão (da desigualdade) social é explorada por Kropotkin, bem como a responsabilização efetiva pelas consequências nefastas de uma sentença, como muito bem aponta:

Se a prisão é possível hoje, é porque em nossa sociedade abjeta, o juiz conta que haja um carcereiro ou verdugo, com um salário miserável. Mas se o juiz tiver que vigiar os que sentencia, se tiver que matar os que manda para morte, estejam seguros que esses mesmos juízes considerariam insensatas as prisões e a pena de morte, abominável. (KROPOTKIN, 2012, p.33)

Mesmo a partir de um ponto de vista pragmático-econômico, a prisão também ainda não logra êxito, pois o custo de todo um processo judicial e da posterior manutenção do indivíduo no cárcere é gigantesco. Gigantesco, ainda mais quando analisa-se a proporcionalidade da persecução estatal junto à conduta praticada no caso concreto (posse de quantidade irrisória de droga que acaba sendo considerada “tráfico”, furto de objetos irrisórios, etc.).

Por qualquer lado que se possa pensar, a mudança na forma com a qual se pensa na questão das prisões é algo urgente. A solução simplista de apenas jogar pessoas dentro do cárcere e esperar que aconteça uma milagrosa diminuição na criminalidade é ingênua ou mal intencionada.

Vou resumir. A prisão não coíbe os atos antissociais; pelo contrário, aumenta seu número. Não reabilita quem prende, podem reformá-la o quanto quiserem, será sempre uma privação de liberdade, um sistema falso, como um convento, que torna o prisioneiro cada vez menos apto a vida social. Não atinge o que propõe. Mancha a sociedade. Deve desaparecer por consequência. (KROPOTKIN, 2012, p.34)

REFERÊNCIAS

HEINRICH, Murillo. O sistema penitenciário brasileiro como exemplo do estado de coisas inconstitucional. In: ABREU, Carlos (coord.). Olhares criminológicos da execução penal. Porto Alegre: Canal Ciências Criminais, 2020.

KROPOTKIN, Piotr. As prisões. Tradução e diagramação: Barricada Libertária. Campinas, 2012.

Fonte: https://canalcienciascriminais.com.br/kropotkin-e-a-questao-das-prisoes/

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Recolhendo toda
A chuva do mês de maio
Corre o rio Mogami.

Bashô

Lançamento: Revista Tormenta – 2020

Neste ano, transformamos nossa modesta retrospectiva anual em uma publicação reunindo os principais conteúdos que publicamos em nosso blog em 2020.

A Revista Tormenta estará disponível para download em PDF livremente e vendida a preços módicos nos melhores infoshops e distribuidoras subversivas ao sul do equador.

Neste ano conturbado colaboramos, também, com algumas publicações para pensar e agir em nosso mundo. Dentre eles, o livro “Antifa: Modo de Usar”, que conta com artigos, entrevistas e traduções que fizemos e publicamos no site e estão inclusos nessa edição de lançamento.

C o n t e ú d o:

• 2020: um Ano que dispensa apresentação

• A Revolta é a Vida, a Resignação é a Morte

• Pandemia e Agronegócio: Entrevista com Rob Wallace

• ANTIFA: Contra o Que e ao Lado de Quem Lutar – Entrevista com Mark Bray

• 6 Críticas à Criminalização e ao Mito do “Manifestante Infiltrado”

• O Fogo que Arde Desde a Cordilheira

• Cartas de Presos Anarquistas em Solidariedade a Mónica Caballero e Francisco Solar

• Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo

• ROJAVA: Entrevista com Tekoşîna Anarşîst

• Brasil: Epicentro do Vírus do Populismo?

• Leituras e Indicações

>> Link para baixar a publicação:

https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2020/12/revista-2020-LIMPO-1.pdf

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Abriu-se a papoula
E ao vento do mesmo dia
Ela veio ao chão.

Shiki

[Grécia] Nas ruínas do inferno do século XXI celebraremos a festa mais bonita!

Temos que chamar as coisas por seu nome, os centros de acolhida de refugiades e migrantes na Grécia são lugares de miséria e barbárie. Ali se aglomera as pessoas nas condições mais adversas, os alimentos não são comestíveis, a limpeza e a higiene são impossíveis, faltam médicos e remédios, todos os dias gente é maltratada, golpeada e torturada pela polícia, às vezes até a morte. O inferno de Moria, iluminado por um breve instante pelas chamas que envolveram o campo, é só uma das muitas misérias espalhadas pelo território do estado grego, onde o valor da vida se extingue.

Tanto faz se chegaram à Grécia como migrantes ou como refugiades de guerra, as pessoas que se movem entre os campos, os centros de acolhida e a sociedade são as mesmas que trabalham sem seguro por umas poucas migalhas, no campo, na construção, como faxineiros e em outros trabalhos similares. São parte da classe trabalhadora multiétnica global que sofre ataques permanentes. É o dever do movimento obreiro e sindical da Europa fazer do fim de todas estas misérias uma prioridade. O capitalismo e os estados estão desatando guerras com o objetivo de obter cada vez maiores benefícios para os patrões, restringindo a liberdade de movimento das pessoas com a ajuda das leis e, portanto, criminalizando a migração previamente legal. Exploram permanentemente os migrantes e refugiades sem documentos que chegaram aos países ocidentais como mão de obra barata sem direito a voto e os encerram em campos miseráveis. Estas misérias de nossos dias são financiadas pela União Europeia, que ao mesmo tempo cria o marco legal para que os refugiades não saiam da Grécia.

Desde março de 2020, com o pretexto de uma pandemia, o estado grego fez vista grossa ante os migrantes dentro e fora dos centros de acolhida, já que supostamente estão trazendo enfermidades e propagando o coronavírus. O governo prende os refugiades em centros de acolhida, onde não se podem aplicar medidas de controle da infecção e não há acesso à atenção médica. As medidas de quarentena, que se prorrogaram até outubro, também estão transformando as instalações abertas em centros de detenção fechados de fato. A legalização da detenção de refugiades nestes bairros de lata prolonga o estado de emergência que lhes impuseram. Desde o novo Moria que está sendo construído em Kara Tepe em Lesbos até os campos de Amygdalesa, assim como os bairros atenienses de Eleaionas e Petrou Ralli, lutemos pela abolição dos campos, sejam instalações abertas ou fechadas. Este é nosso dever com nós mesmos, com nossa classe e com a humanidade.

Fazemos um chamado a todas as organizações anarcossindicalistas da Europa e do mundo para que se unam à luta pelo fechamento dos campos e outras instalações similares de acolhida de refugiades e migrantes. Eduquemos a todes os trabalhadores de nossos países sobre este crime de direitos humanos de nossos dias e organizemos eventos e manifestações. Falemos de coordenar um dia de ação mundial contra os campos. Lutemos contra as guerras e o racismo e até o fim de todas estas misérias.

Por um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade!
O barco não está cheio!
Contra todos os campos!
Documentos para os migrantes, asilo para os refugiades!

EΣE · Greece
Eλευθεριακή Συνδικαλιστική Ενωση-Αθήνας

Fonte: https://www.icl-cit.org/we-will-celebrate-the-most-beautiful-feast-on-the-ruins-of-the-21st-centurys-greatest-hell/

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

O rio de verão —
Que alegria atravessá-lo
De sandálias à mão.

Buson