I Fúria-Livre de SP

No próximo domingo (dia 19/12), a partir das 10h, ocorrerá a I Fúria-Livre de SP, jornada coletiva e auto-organizada de difusão de publicações e outros materiais anarquistas. Será realizada a céu aberto, em frente à Casa das Rosas, localizada na Av. Paulista, 37, próximo ao metrô Brigadeiro.

A participação é aberta, leve sua banquinha e seus materiais.

Atividade livre de autoritarismo, homofobia, misoginia, racismo e demais condutas intoleráveis!

agência de notícias anarquistas-ana

Arrastar espantalhos pelo chão
é o que a tempestade
faz primeiro.

Kyoroku

Relançamento: “Punk – Memória, História e Cultura”, de Antonio Carlos de Oliveira

O Centro de Cultura Social (CCS) é um espaço anarquista mantido pelos seus sócios e simpatizantes, assim, como parte do esforço para manter o espaço e divulgar as publicações de caráter social ou anarquista acaba de relançar o livro “Punk – Memória, História e Cultura”, de Antonio Carlos de Oliveira.

O presente trabalho é a divulgação, em formato de livro, da transcrição de uma palestra sobre o movimento punk realizada no CCS. O que segue além da palestra são documentos sobre o acervo do movimento punk com algumas notas de esclarecimento. Os textos refletem o desejo de divulgar o trabalho realizado na organização do Arquivo Punk do CCS, a grandeza e importância da cultura punk, da relação desta com o anarquismo de forma geral e com sua forma de expressão organizada. Hoje podemos afirmar que parcela significativa da militância do movimento anarquista organizado que conhecemos teve sua origem ou alguma relação com os movimentos ligados ao punk.

Punk – Memória, História e Cultura

Autor: Antonio Carlos de Oliveira

Editora: Rizoma

Ano: 2021

Páginas: 120

Preço: R$ 20,00

http://ccssp.com.br/livrariaccs/

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/02/relancamento-do-livro-os-fanzines-contam-uma-historia-sobre-punks-de-antonio-carlos-de-oliveira/

agência de notícias anarquistas-ana

O sol brilha
Nas vigas da ponte –
Névoa da tarde.

Hokushi

[Colômbia] ‘Um massacre policial’: policiais colombianos mataram 11 manifestantes durante protestos contra a violência policial, diz relatório

Por Joe Parkin Daniels | 13/12/2021

Manifestantes contra a brutalidade policial foram recebidos com mais brutalidade

A polícia colombiana foi responsável pela morte de 11 manifestantes durante os protestos anti-polícia que se deu na capital em setembro de 2020, de acordo com um relatório publicado esta segunda-feira (13/12) após uma investigação independente apoiada pela prefeitura de Bogotá e pela ONU.

“Foi um massacre policial”, escreveu Carlos Negret, um ex-ombudsman do país sul-americano que liderou as investigações, no longo e mordaz relatório publicado na segunda-feira. “Uma liderança decisiva, ambas política e operacionalmente, baseada em direitos, é necessária a nível nacional e local para evitar esses acontecimentos”.

Manifestações varreram Bogotá e o subúrbio de Soacha em setembro do ano passado, após a viralização de uma gravação mostrando policiais derrubando e agredindo com um taser um pai de duas crianças que fora detido pela quebra das restrições do Covid. “Por favor, parem!”, pode-se ouvi-lo implorando no vídeo. Ele faleceu pouco depois por ferimentos de quando estava sob custódia.

O incidente foi comparado ao assassinato de George Floyd pela polícia em Minneapolis em maio de 2020, cuja gravação também viralizou e desencadeou protestos generalizados.

A morte de Ordoñez gerou protestos que encontraram resposta policial violenta que utilizava rondas “menos-letais”, matracas e gás lacrimogêneo, enquanto manifestantes ateavam fogo em dezenas de quiosques policiais pela cidade. Com 14 manifestantes assassinados – 11 dos quais pela polícia – centenas foram feridos de ambos os lados.

A maior parte das mortes ocorreram nos bairros mais pobre da cidade, levando investigadores a concluir no relatório de segunda-feira que “existe uma criminalização da pobreza pelas forças do Estado, o que desencadeou ações autoritárias e ilegais contra residentes de certos setores sociais”.

“A prática mais representativa e generalizada durante esses dias de protesto foi o uso ilícito da força por parte de membros da polícia nacional”, apontou o relatório. “Essa investigação conclui que a polícia nacional abertamente abandonou os princípios de proporcionalidade”.

A investigação foi realizada a pedido da prefeita de Bogotá, Claudia López, e foi apoiada pelo programa de desenvolvimento da ONU.

“Quem deveria assumir responsabilidade política?”, perguntou López em resposta inclusa no relatório. “Eu, para começar, mas também a polícia e o presidente [Iván Duque]”.

Na época dos protestos, López requereu a Duque que acalmasse a polícia, que responde ao Ministério da Defesa. O presidente colocou os manifestantes como “terroristas urbanos”, emprestando jargões da guerra civil do país que perdura por décadas contra insurgências de esquerda.

Alejandro Lanz, codiretor da Temblores, um cão de guarda da violência policial local, diz que o relatório demonstrou falhas sistêmicas do sistema de justiça, as quais permitiram que os policiais responsáveis escapassem de processos e punição.

“A coisa mais preocupante é que a vasta maioria dos policiais envolvidos no massacre ainda patrulham as ruas de nossa cidade”, diz Lanz. “É surpreendente que apenas quatro policiais foram acusados, e apenas um deles foi privado de sua liberdade, e isso significa apenas prisão domiciliar”.

“É extremamente alarmante ver a diferença de como a promotoria e o sistema jurídico se comporta em casos nos quais a polícia é o provável agressor e nos quais são as pessoas que participaram das manifestações”, declarou Lanz.

Protestos na Colômbia continuam a ser recebidos com violência policial. Em abril deste ano, a resposta policial às manifestações nacionais contra a pobreza foi semelhantemente brutal, com ao menos 20 pessoas assassinadas por policiais nos meses subsequentes de instabilidade, de acordo com a Human Rights Watch.

“A resposta do Estado foi caracterizada por um uso excessivo e desproporcional de força, em muitos casos, incluindo força letal”, afirmou a presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Antonia Urrejola, durante uma coletiva de imprensa em julho deste ano.

Fonte: https://www.theguardian.com/global-development/2021/dec/13/police-massacre-deaths-11-protesters-2020-report

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

No perfume das flores de ameixa,
O sol de súbito surge –
Ah, o caminho da montanha!

Matsuo Bashô

 

[Nova Zelândia] Nova impressora para publicação radical em Wellington

Por 11 anos, nosso coletivo usou uma impressora antiga para ajudar as editoras a lançarem seus livros. Precisamos substituí-la para que possamos continuar publicando.

A impressora antiga fez mais de 600.000 cópias, teve quase todas as peças internas substituídas pelo menos uma vez, mas está chegando ao fim de sua vida útil. Precisamos de sua ajuda para garantir que possamos continuar fazendo livros radicais e independentes em Wellington. A Rebel Press abriga um coletivo de editoras que têm usado um pequeno escritório no Trades Hall para imprimir, guilhotinar e encadernar livros desde 2008. É uma configuração muito DIY que nos permite imprimir pequenas e grandes tiragens, o que significa que podemos começar com pequenas tiragens e depois usar esses fundos para continuar imprimindo mais.

A Rebel Press existe principalmente para apoiar a publicação de esquerda radical e atualmente é o lar de:

> The Freedom Shop é uma livraria anarquista sem fins lucrativos e um centro de informações cujo objetivo é espalhar informações radicais e apoiar a cultura anarquista DIY.

> Left of the Equator Press eleva e amplifica as vozes daqueles que trabalham para transformar nosso mundo para melhor, contra o capitalismo, colonialismo, autoritarismo e todas as estruturas e instituições injustas de poder e privilégio.

> Lawrence and Gibson é um coletivo que publica ficção literária voltada para o taciturno, satírico, prolixo e pensativo.

> 5ever books é uma editora de trabalhos vigorosos, experimentais e interdisciplinares.

Para cada livro que imprimimos para nossos membros coletivos, imprimimos o mesmo para amigos da comunidade. Estamos ansiosos para continuar oferecendo nosso trabalho e tempo para ajudar a manter a comunidade imprimindo e publicando. Por exemplo, além dos livros impressos por nossas editoras, imprimimos:

> Kia Mau: resisting colonial fictions de Tina Ngata,

> as primeiras nove edições de Counterfutures,

> a primeira edição de A Surfeit of Sunsets – que então foi publicado pela Mākaro Press,

> um livreto para o segundo álbum do Unsanitary Napkin e um para o mais recente Lake South,

> 4000 livretos para a campanha Double the Refugee Quota.

Não publicamos qualquer coisa – não é um negócio – apenas aquilo que ressoa com um espírito radical e independente. Usamos papel 100% reciclado e tinta à base de soja.

Estamos em um ponto de inflexão com as dificuldades da velha impressora – e a impressora está no centro do que uma editora clandestina faz! Com muitas reduções de escritórios, conseguimos fazer um ótimo negócio em uma impressora de modelo antigo que é confiável e econômica. Inicialmente, esperávamos realizar um show ou algum outro evento para arrecadação de fundos, mas com a Covid do jeito que está e com novos livros a caminho, simplesmente não temos tempo para esperar até que possamos colocar todos em uma sala e implorar por dinheiro. Se não chegarmos aos 3.000 dólares, teremos que descobrir outra maneira de arrecadar os fundos… o que provavelmente pode levar isso até 2022 e nossa capacidade de nos reunirmos.

Uso de fundos

Nós passamos o chapéu dentro do nosso coletivo e conseguimos arrecadar mais da metade dos 6.000 dólares necessários para a impressora. Agora estamos convidando amigos, colegas e camaradas para nos ajudar a arrecadar os restantes 3.000 nas próximas três semanas.

>> Para colaborar, clique aqui:

https://givealittle.co.nz/cause/rebelpressprinter?fbclid=IwAR1-aSbjG8pJ0SPCKh9PCzPkhYaBVR16Rj1FTgQfa3rcuIh3BLcMLZYa3TY

Tradução > A Estrela

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/05/19/nova-zelandia-feliz-25o-aniversario-para-a-freedom-shop/

agência de notícias anarquistas-ana

Borboleta azul
raspa este céu de mansinho
insegura e frágil.

Eolo Yberê Libera

[EUA] Pré-venda | A Inquisição Anarquista | Assassinos, Ativistas e Mártires na Espanha e na França, de Mark Bray

|| Economize 30% na pré-venda do meu novo livro, A Inquisição Anarquista: Assassinos, Ativistas e Mártires na Espanha e na França, com este código especial: 09BCARD ||

The Anarchist Inquisition explora as campanhas inovadoras de direitos humanos transnacionais que emergiram em resposta à onda brutal de repressão desencadeada pelo Estado espanhol para anular atividades anarquistas na virada do século XX. Mark Bray guia os leitores por essa era tumultuosa — de reuniões secretas em Paris e câmaras de tortura em Barcelona a conferências internacionais antiterroristas em Roma e manifestações por direitos humanos em Buenos Aires.

Bombardeios anarquistas em teatros e cafés na década de 1890 provocaram prisões em massa, a aprovação de duras leis anti-anarquistas e execuções na França e na Espanha. Ainda assim, longe de um fenômeno marginal, essa primeira ameaça terrorista internacional teve ramificações profundas no desenvolvimento mais amplo dos direitos humanos, bem como do policiamento moderno global e da legislação internacional em extradição e migração. Uma rede transnacional de jornalistas, advogados, ativistas sindicais, anarquistas e outros dissidentes relacionaram a tortura peninsular à supressão brutal das revoltas coloniais em Cuba e nas Filipinas pela Espanha para criar um movimento emergente por direitos humanos contra o “renascimento da inquisição.” Seus esforços definitivamente obrigavam a monarquia a aceder face a um criticismo global sem precedentes.

Bray apresenta vividamente os assassinos, ativistas, torturadores e mártires cujas lutas prepararam o terreno para uma era até então não examinada de mobilização pelos direitos humanos. Ao invés de assumir que lutas por direitos humanos e “terrorismo” são forças inerentemente contraditórias, The Anarchist Inquisition analisa como esses dois fenômenos políticos modernos trabalharam em conjunto para construir campanhas dinâmicas contra as atrocidades espanholas.

“Tão fascinante quanto sério, o conto emocionante de Mark Bray da violência anarquista lendária em Barcelona e Paris acerca de 1900 considera uma questão urgente: jogar bombas pode ser entendido como defesa dos direitos humanos contra a violência do Estado?” – Michael T. Taussig, autor de My Cocaine Museum

“Mark Bray é um dos estudiosos do anarquismo mundialmente preeminentes e não há alguém melhor para acender uma luz nesta escuridão, um capítulo sangrento — ainda que esperançoso — no complexo tradicional esquerdista e na evolutiva história global.” – Kim Kelly, autora de Fight Like Hell

The Anarchist Inquisition é uma história narrativa admirável, contada com detalhes emocionantes, e um desafio essencial para discursos entrincheirados sobre direitos humanos. Neste momento de nacionalismos calcificantes, Bray chama nossa atenção para a história anarquista de um internacionalismo potente, o que faríamos bem em recuperar.” – Natasha Lennard, autora de Being Numerous

The Anarchist Inquisition
Assassins, Activists, and Martyrs in Spain and France
Mark Bray
ISBN13: 9781501761928
Data de publicação: 15/03/2022
Páginas: 344
Ilustrações: 18 p&b meio-tom, 2 mapas
Dimensões: 6 x 9 x 1.06 in
Cornell University Press
$36.95
cornellpress.cornell.edu

Tradução > Sky

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/06/08/espanha-mark-bray-nao-ha-nem-de-longe-grupos-antifas-suficientes-para-realizar-o-que-estamos-vendo/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/07/18/lancamento-antifa-o-manual-antifascista-de-mark-bray/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/02/28/eua-lancamento-educacao-anarquista-e-a-escola-moderna-um-guia-para-francisco-ferrer/

agência de notícias anarquistas-ana

É quase noite –
As cigarras cantam
Nas folhas escuras.

Paulo Franchetti

[Itália] 8 de dezembro de 2021. Um dia de festa e luta.

Em 8 de dezembro deste ano, a neve caiu fortemente, mas não parou um movimento que foi capaz de cerrar os dentes e continuar por décadas. Éramos muitos na procissão que depois de atravessar o centro da vila rumamos para a guarnição dos Borgones, que o alcaide quer destruir, construindo uma estrada inútil com o dinheiro das indenizações recebidas pelo Tav [trem de alta velocidade].

A guarnição Bourgogne nasceu na primavera de 2005. Todos nos lembramos daquele dia, porque foi o primeiro teste de um movimento que ainda não tinha consciência de sua própria força, de sua capacidade de passar do relatório a uma ação direta.

Eles tiveram que fazer um levantamento preliminar da obra, mas apesar do deslocamento massivo de forças, havia muita gente naquela área, a maioria deles habitantes do país que permaneceram a guarnecer sem parar por dias e noites. A polícia nunca voltou, mas a guarnição continua lá para testemunhar, com as suas quatro paredes de madeira, uma luta popular que conseguiu envolver países inteiros indo muito além das melhores expectativas.

A procissão então passou do centro de San Didero e terminou na guarnição de Baraccone.

Aqui tudo começou com bolas de Natal e festões nas cercas, e então continuou com ganchos e cordas para puxar metros e metros de arame farpado, enquanto bolas de neve congeladas voavam por cima da cerca. Um verdadeiro cerco ao canteiro de obras/forte militarizado de San Didero.

A polícia disparou canhões de água contra grupos do No Tav, que de todos os lados, protegidos por barreiras de plástico instáveis, avançavam em ondas quase contínuas.

Começou então a habitual barragem de gás lacrimogêneo, também disparado na praça, onde se distribuía vinho quente e castanhas torradas. Muitos gases lacrimogêneos foram devolvidos ao remetente, outros se afogaram na neve. Um 8 de dezembro de festa e luta.

Na memória das pessoas que lutam contra o Tav, dezembro de 2005 é um marco. Entre Novembro e Dezembro ocorreu uma epopeia de luta que atingiu o coração de muitos. Um movimento popular decidiu resistir à imposição violenta de uma obra inútil e devastadora e, apesar de ter quase todos contra, conseguiu sitiar as tropas de ocupação construindo a República Livre de Venaus. Após o despejo violento, o movimento assumiu um claro caráter insurrecional por alguns dias: todo o Val Susa se barricou contra o invasor. O dia 8 de dezembro foi um feriado. A manifestação, após uma breve escaramuça no cruzamento onde a polícia esperava os manifestantes, transformou-se numa marcha que, depois de subir a montanha, desceu em direção à zona ocupada enquanto a neve caía ligeiramente. Os caminhos em declive estavam encharcados de gelo e lama, mas ninguém parou. As redes caíram e as tropas foram convocadas.

Em 2011 – após o rigoroso inverno dos treinos – eles voltaram, muito mais agressivos do que em 2005.

O estado não pode se dar ao luxo de perder duas vezes no mesmo lugar.

O aparato repressivo feito de gás, cercas de cerveja, cassetetes e tortura se desdobrou com toda sua força. O judiciário entrou em campo com a perna esticada. Existem inúmeros julgamentos e condenações envolvendo milhares de ativistas do No Tav.

O governo e o judiciário não lidaram com a resistência do No Tav.

Este ano, após a evacuação da guarnição da garagem de San Didero, eles montaram um gigantesco aparato policial para transformar a área em um forte militarizado, cercado por arame farpado e fortemente iluminado por faróis gigantescos. Lá dentro, como em Chiomonte, soldados, carabinieri, polícia.

Várias aldeias do vale foram declaradas áreas de interesse estratégico, zonas vermelhas, onde o prefeito tem o direito de proibir a passagem à vontade.

Mas não é só uma questão de trens. Na fronteira, aberta para quem tem dinheiro, mas fechada para quem viaja, há quem luta contra as linhas do mapa que os homens armados transformam em barreiras difíceis de transpor. Alguém morreu na neve, outro foi deportado, mas as coisas teriam sido piores se não fosse por alguém que atrapalhou.

Pessoas como Emilio, que agora está trancado em uma prisão a centenas de quilômetros de seu vale, mas que muitos trouxeram consigo em sua marcha sob a neve.

O que aconteceu naquele outono de 2005 em Val Susa foi a força vital para os movimentos espalhados pela península.

O cancelamento de um projeto que já havia entrado na fase executiva mostrou que vencer é possível, que o que aconteceu naquele canto da montanha pode se repetir em qualquer lugar.

Não somente. A poderosa onda de solidariedade que varreu o No Tav surgiu da indignação. Uma indignação profunda, que atravessou a península e passou os Alpes, porque muitos pensaram que a medida estava cheia, que o que se passava no Val Susa dizia respeito a todos.

Hoje vivemos tempos difíceis, muito difíceis. Tempos marcados pela violência do Estado contra os movimentos de luta, os imigrantes e os pobres.

Muitas vezes, a grande fábula da democracia derreteu como neve ao sol. Sempre que a liberdade, a solidariedade, a igualdade são compreendidas e praticadas na sua alteridade radical e constitutiva com uma ordem social baseada na dominação, na desigualdade, na exploração, na mais feroz competição, a democracia mostra a sua verdadeira face.

A verdadeira democracia admite a dissidência, desde que seja uma opinião ineficaz, um mero exercício de eloquência, um simples jogo de palavras. Se a dissidência se torna ativa, se a ação direta é tomada, se corre o risco de explodir as regras de um jogo feroz, a democracia torna-se um discurso de poder que nega legitimidade a todas as outras palavras. A cada pedido, você quebra o atual.

O movimento No Tav, nas barricadas e nos caminhos da luta, tem lutado e lutado na consciência de que nossas vidas e nossa liberdade contam mais do que os lucros de quem enriquece, explorando, devastando e saqueando um planeta inteiro. O movimento No Tav nos mandantes e nas repúblicas livres colocou a solidariedade, o cuidado mútuo, a consciência de que um outro mundo começa a crescer dia a dia entre aqueles que optam por atrapalhar, não desviar o olhar, de quem sabe chegar indignado e agir.

Passada a enésima ilusão eleitoral, os No Tav têm consciência de que o jogo, hoje como em 2005, está de volta às mãos de um movimento popular que nunca desistiu.

É importante que a memória não vacile: os No Tav têm apoiado a prática da ação direta contra o canteiro de obras e as empresas colaboracionistas, os bloqueios de estradas e ferrovias, a greve geral, as grandes marchas e sabotagens.

Parar o Tav, obrigar o governo a retomar uma decisão nunca partilhada pela população local é a razão de ser do movimento No Tav.

8 de dezembro de 2005 foi o culminar da revolta contra o TAV. Mas, mesmo então, havia muito mais em jogo: a liberdade e a dignidade daqueles que não toleravam a imposição com a força de uma escolha não compartilhada.

Ninguém planejou, mas aconteceu. Fomos os primeiros a ficar maravilhados. As barricadas, os troncos no meio da estrada, os bloqueios de estradas foram a resposta à ocupação militar.

O vale tornou-se ingovernável.

O Vale deve voltar a ser ingovernável.

Longos anos de ação direta, confronto horizontal, construção de caminhos compartilhados de tomada de decisão têm sido um campo de treinamento extraordinário para a liberdade. Todos nós carregamos Venaus e Madalena em nossos corações, na memória viva de nosso movimento. Repúblicas livres, verdadeiras comunas libertárias, onde a hierarquia foi quebrada, trazendo à vida um outro tempo.

O futuro não está delegado: hoje, como então, só a ação direta, sem retrocessos, pode criar as condições para mais uma vez deter a corrida louca de quem coloca o lucro antes da vida e da liberdade de todos.

Federação Anarquista de Torino

Para ver uma galeria de imagens acesse www.anarresinfo.org

Fonte: https://umanitanova.org/8-dicembre-2021-un-giorno-di-festa-e-di-lotta/

Tradução > GTR@Leibowitz__

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/17/italia-marcha-nao-ao-tav-rumo-a-um-estado-de-luta/

agência de notícias anarquistas-ana

escreve
a tinta se esvai
o mar se expande

Seferis

Declaração da ABC-Belarus sobre a situação com Dzmitry Z.

Em 5 de dezembro, houve uma tomada agressiva da ocupação Sirena em Varsóvia; a razão para tal foi a tentativa de tirar Dzmitry Z. da ocupação. Z. vivia ali por cerca de cinco anos e o duradouro conflito interno da ocupação escalou em violência e ameaças de violência do Z. Durante uma discussão pública extensa dos incidentes, uma decisão coletiva foi feita para despejá-lo, da qual foi informado com antecedência e dado tempo para coletar seus pertences e encontrar um novo local para ficar, mas ele se recusou a mudar voluntariamente. Foi então forçado para fora do prédio, e sua parceira teve a oportunidade de juntar seus pertences e deixar o local quando estivesse pronta. Mais tarde, uma multidão armada veio da ocupação vizinha Przychodnia e atacou os e as residentes da Sirena, forçados a sair por medo, por sua integridade física e saúde.

É importante mencionar que Dzmitry Z. foi um prisioneiro que apoiamos no passado. Em 2013, houve uma briga coletiva com ativistas de extrema direita em Brest, depois da qual três pessoas foram condenadas, incluindo Z. Ele foi solto em 2016 e foi para Varsóvia. Seu passado, assim como o tópico delicado de Belarus e do grande número de refugiados políticos que chegaram na Polônia em 2020-2021, foi usado para criar uma imagem em torno de Z. como um mártir oprimido por ativistas poloneses privilegiados.

Como um coletivo político, estamos cientes da responsabilidade que a ABC tem em apoiar os reprimidos. Durante esse período de Z. no cárcere, visitamos mais de 100 cidades na Europa, divulgando seu caso, chamando atenção à brutalidade policial, distribuindo várias declarações e chamados por solidariedade na comunidade internacional e dando nosso melhor para adicioná-lo à lista internacional de antifascistas encarcerados para que seu nome aparecesse no contexto de repressão e apoio, entre outras ações. Tudo isso dá a qualquer pessoa em situação de cárcere uma certa reputação, e não podemos sempre confirmar as visões políticas e métodos de ativistas em particular, assim como não podemos prever como essas pessoas se comportarão após sua soltura.

Contudo, vale reconhecer que a publicidade que criamos ajuda essas pessoas a usar a infraestrutura política dos movimentos anarquistas e relacionados. Torna-se muito mais fácil sua migração, uma recepção amistosa em ocupações, auxílios de grupos anti-repressão. Não estamos dizendo que Dzmitry Z. foi integrado apenas pelos esforços da ABC, mas não podemos negar que o apoio da ABC tem um papel em como ativistas reprimidos de Belarus são percebidos dentro do movimento.

Estamos especialmente com raiva do fato de que algumas vezes esses “ativistas” vêm e tomam espaços políticos locais que emergiram como resultado da luta do movimento local, o que bielo-russos reprimidos não têm a ver, mas apenas usufruem dos produtos dessa luta e se consideram no direito de decidir seu futuro, sob o pretexto de sua “opressão”.

Não há solução fácil para esse problema. Podemos apenas estimular ativistas a não formar imagens de briguentos agressivos antissistema dos migrantes de Belarus. Qualquer pessoa é digna de confiança quando a conseguem em interação direta com novas pessoas.

Condenamos o comportamento do Dzmitry Z. e seu grupo de apoiadores.

ABC-Belarus (Cruz Negra Anarquista)

abc-belarus.org

Tradução > Sky

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/13/polonia-como-um-antifa-de-belarus-despejou-e-capturou-a-ocupacao-anarquista-sirena-em-varsovia/

agência de notícias anarquistas-ana

Vamo-nos, vejamos
a neve caindo
de fadiga.

Matsuo Bashô

“Os velhos muitas vezes são esquecidos pela juventude na nossa sociedade, isso se reflete em muitos grupos sociais, e também em ambientes que se dizem libertários.”

Entrevista com Marcolino Jeremias sobre anarquismo e o livro “Carlo e Anita Aldegheri”

Disponível para leitura na íntegra a entrevista que o Carlos Lopes fez com um membro do Núcleo de Estudos Libertários Carlo Aldegheri (NELCA), onde falaram sobre o livro “Carlo e Anita Aldegheri: Vidas Dedicadas ao Anarquismo” e outros temas ligados ao anarquismo e a questão social.

Para quem ainda não conhece, Carlos Lopes (Dorsal Atlântica), além de excelente músico, letrista, desenhista e jornalista (um verdadeiro “faz-tudo” da cultura brasileira), desenvolve várias iniciativas artísticas fascinantes, entre elas a Revista Tupinambah (surgida em Brasília, em Julho de 2018), que é uma publicação independente, com excelente qualidade gráfica e estética, mas o que mais chama a atenção na Revista é mesmo o seu conteúdo magnífico que mistura quadrinhos, antropofagia, história, política e espiritualidade. Um dos seus slogans é “O Brasil repensado, refletido e desnudado”. O seu editor afirma: “A causa indígena é de todos nós!” e, especialmente nos dias de hoje, precisamos reafirmar isso sempre e cada vez com mais ênfase!!!

Essa entrevista que agora está disponível para a leitura no link abaixo, foi publicada originalmente no segundo número da Revista Tupinambah, cujo tema central é a história sobre o Estado de Exceção em Brazilândia (Verdade ou Ficção?), além de matérias sobre Sérgio ‘Macaco’ de Carvalho e Apolônio de Carvalho, além de dois pôsteres coloridos. A arte tem uma função que é sempre questionadora: “Milhares de mortos pela ignorância, a negação e o ódio tomaram conta de almas e mentes, cabe aos conscientes tomarem o destino em suas mãos” (Revista Tupinambah). # Importante: A Revista Tupinambah é contraindicada em caso de suspeita de intolerância artística!!!

>> Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui:

http://tupinambah.com.br/entrevista-com-marcolino-jeremias-sobre-anarquismo-e-o-livro-carlo-e-anita-aldegheri/?fbclid=IwAR24A6JcoJew6xHK5TN05YJKemHXfYMAscWkH_-ct7ZYu9M5MGZb2WWRXJ4

agência de notícias anarquistas-ana

A noite caminha.
No negrume, o vaga-lume
acende a bundinha.

Flora Figueiredo

Anarquia no Reino Unido? O poder transformador do apoio mútuo

Por Rachel Shabi | 24/11/2021

As organizações hiper locais criadas durante a pandemia eram grupos políticos – mas não tinham intenção de substituir a ajuda estatal

Pergunte a qualquer integrante do grupo de apoio mútuo contra a Covid de Whalley Range, ao sul de Manchester, sobre seu maior motivo de orgulho e duas respostas aparecem: o fundo emergencial e o mutirão épico de limpeza das ruas. Não é difícil entender por quê. A transformação das ruas sujas que cruzam os terraços da vizinhança foi um ato de poder coletivo. Já o fundo, que conta com a contribuição de todos, permite que qualquer membro do grupo saque £50 em dinheiro todo mês, sem perguntas. Ambos os projetos sedimentaram a confiança e o senso de responsabilidade entre o grupo de 100 vizinhos.

Espalhado por três ruas na região sul de Manchester, esse grupo é o suprassumo da versão hiper local do apoio mútuo. Os integrantes são das mais diversas origens: locatários e proprietários, com idade variando entre 20 e 70 anos. No bairro, moram uma comunidade paquistanesa e uma família sudanesa. Os folhetos são traduzidos para o urdu, o hindi, o árabe e o guzerate, enquanto outros integrantes usam aplicativos de tradução online para participar das conversas no grupo de Whatsapp do bairro.

O foco inicial do grupo era suprir as necessidades imediatas durante os primeiros meses da pandemia, como ajudar com as compras, buscar receitas médicas ou compartilhar informações confiáveis sobre a Covid. De lá para cá, o escopo aumentou: hoje os integrantes compartilham alimentos e festivais, fazem rodízio de ferramentas DIY, cultivam um jardim comunitário e reúnem-se para discutir questões como os senhorios inescrupulosos e os motoristas que desrespeitam os limites de velocidade. Quando encontrei alguns integrantes do grupo, uma delas, Helena, de 50 anos, disse: “Quando vizinhos se falam, um quinquilhão de milagres inesperados acontece.”

Enquanto pesquisadores e militantes estudam o fenômeno do apoio mútuo no Reino Unido durante a pandemia, permanece a dúvida sobre o seu significado político. Semanas após o primeiro lockdown, em março do ano passado, a Grã-Bretanha viu surgir um dos maiores esforços de apoio mútuo do mundo, com mais de 4 mil grupos criados por todo o país. O acontecimento em si foi político, e é um reflexo terrível do vácuo que o apoio estatal deixou, e que os grupos voluntários se apressaram em preencher. A pandemia foi devastadora para quem não tinha caixas de papelão estocadas, nem economias ou redes de apoio. Rees Nicholas, integrante do pequeno grupo que montou o site Mutual Aid UK para contribuir com as organizações locais, me disse que no início da pandemia mais de 600 pessoas em dificuldade enviavam mensagens ao site todos os dias.

O apoio mútuo é, por definição, político. O anarquista russo Piotr Kropotkin cunhou o termo para descrever o fenômeno das comunidades que ajudavam umas às outras. As sociedades prosperam por meio do coletivismo. O trabalho voluntário de apoio mútuo geralmente vem acompanhado do slogan “solidariedade não é caridade”. Em contraste com o setor filantrópico, em que há um doador (a entidade filantrópica) e outro que recebe a doação, o apoio mútuo opera em sentido horizontal, de ajuda recíproca. Especialmente nos EUA, a tradição do apoio mútuo está enraizada entre a população negra e as minorias étnicas, nos grupos LGBT e em grupos de imigrantes, comunidades marginalizadas que não têm como depender do apoio estatal.

Quando a psicóloga política Emma O’Dwyer, da universidade de Kingston, começou a pesquisar os grupos de apoio mútuo contra a Covid na Grã-Bretanha, descobriu que a maioria dos voluntários era de mulheres, de classe média, e de esquerda. Mas em todo o país, muitos grupos evitaram qualquer tipo de discussão política, numa tentativa de estimular a inclusão. Política com “P” maiúsculo pode ser alienante e é algo malvisto por muita gente. Integrantes dos grupos em Whalley Range insistiram em se declarar não politizados. Uma mulher de 39 anos me disse que, na verdade, os objetivos do grupo eram “o amor, a gentileza e a ajuda mútua”.

Mas o problema de diluir a política é que a direita prontamente coopta o apoio mútuo como um esquema para repassar mais responsabilidades estaduais para o setor voluntário.

Ano passado, Danny Kruger, deputado do distrito de Devizes pelo Partido Conservador, lançou a Nova Unidade de Aliança Social, relacionando o discurso do governo sobre “equalização” ao surgimento dos grupos de apoio mútuo durante a pandemia. Mês passado, a Unidade publicou um relatório sobre “conservadorismo comunitário” que foi defendido pelo novo secretário de equalização, Michael Grove. O relatório classifica as milhões de pessoas que ingressaram em grupos de apoio mútuo como parte de um “núcleo cívico” cujo empoderamento seria “a conclusão lógica do Brexit”. Com o silêncio do Partido Trabalhista sobre o tema, o governo parece empenhado em transformar a onda de coletivismo em uma força Conservadora.

Voluntários com quem conversei dizem que, em vez de tampar as lacunas deixadas pela negligência do estado, o objetivo dos grupos é pressionar o governo a reduzir essas lacunas. Mas como a extraordinária rede de apoio mútuo da Grã-Bretanha se transformaria em uma força capaz de tanto? O primeiro passo é garantir que o apoio mútuo continue a florescer depois da pandemia. Nicholas diz que muitos dos grupos que permanecem ativos adotaram um modelo de caridade, como um grupo de Londres que é financiado por uma loteria, que arrecada laptops e celulares para imigrantes. Outros grupos se voltaram para necessidades de longo prazo. Um grupo de Newcastle administra uma despensa comunitária, permanente abastecida, que distribui comida de graça. Mas a permanência do grupo de Whalley Range sugere que a comunidade pode ser autossustentável, e uma necessidade em si. Se a esquerda tem dificuldade para encontrar apoio nas regiões devastadas pela desindustrialização e em dificuldades econômicas, talvez estas novas comunidades possam ajudar a abrir terreno.

Sejam politicamente articulados ou não, muitos voluntários dizem que o apoio mútuo mudou suas vidas. Participar de uma ação coletiva é algo poderoso e tem seu próprio impulso. Como me disse Emma O’Dwyer, não há nenhum gesto importante em particular, se não o ato em si. Conseguir transformar o apoio mútuo em uma força progressiva capaz de renovar a esquerda, é outra história.

Fonte: https://www.theguardian.com/commentisfree/2021/nov/24/left-mutual-aid-hyper-local-groups-pandemic-community

Tradução > Peixe

agência de notícias anarquistas-ana

O brilho do salto
do peixe na cascata,
lâmina de prata.

Luiz Bacellar

[EUA] Lançamento: “Lessons in Liberation – Uma Caixa de Ferramentas Abolicionista para Educadores”

The Education for Liberation Network & Critical Resistance Editorial Collective (edição)

Uma visão política para uma colheita futura com alternativas ao encarceramento e à punição.

Lessons in Liberation é uma oferenda abundante e generosa, repleta de recursos para nos ajudar a construir coletivamente em direção à abolição dentro e fora da sala de aula. Esta excelente caixa de ferramentas é um chamado para imaginar, para agir, para sonhar, para expandir nossas noções do que é educação e do que pode ser — e da sociedade corajosa e radicalmente acolhedora que podemos cultivar em conjunto. É uma leitura essencial para professores, organizadores e alunos de todos os tipos!” —Maya Schenwar, coautora de Prison by Any Other Name e editora-chefe do Truthout

“Este livro de recursos destaca a necessidade e urgência da abolição do complexo industrial prisional em, por e por meio de sistemas educacionais. É cheio de ideias, atividades de oficinas, princípios norteadores, ferramentas, reflexões e estratégias de campanha, Lessons in Liberation irá crescer e aprofundar nossos movimentos. Para aqueles procurando por uma guinada na abolição por meio da educação — isto é para você.” — Liat Ben-Moshe, autora de Decarcerating Disability: Deinstitutionalization and Prison Abolition

Lessons in Liberation é uma inspiração! Os autores estabelecem conhecimentos fundamentais sobre o que significa ser um educador abolicionista enquanto também provém ações concretas para aqueles que são comprometidos com a construção conjunta de um mundo mais justo com a juventude de suas salas de aula. Este é um texto profundamente crítico, empático e amável — o remédio necessário para crescermos juntos.” — Curtis Acosta, educador em Estudos Étnicos

“As ferramentas necessárias para a libertação e liberdade estão neste livro. Como todos nós, se você aspira ser um educador abolicionista, este livro é o seu guia. Lessons in Liberation nos empurra a desaprender, a ser vulneráveis e a encontrar nossa humanidade para podermos entrar em salas de aula prontos para sonhar com a liberdade, para desmantelar e construir pela luta coletiva, libertação e amor.” — Bettina L. Love, autora de We Want to Do More Than Survive: Abolitionist Teaching and the Pursuit of Educational Freedom

“Abolição é uma teoria cujo tempo chegou em salas de aula e escolas, mas aquilo que ainda praticamos nesses espaços precisam ser uma figura mais completado que acontece na vida cotidiana. Lessons in Liberation é exatamente isso. Cada página é um convite para sonhar e criar um mundo novo, mas também como construir aquele mundo e quais ferramentas poderemos precisar para fazê-lo.” — Teachers 4 Social Justice

Nascido da organização sustentável e enraizado em feminismos não-brancos, justiça para a deficiência, entre outros movimentos, a abolição chama a um fim para nossa confiança no encarceramento, policiamento e vigilância e a imaginar um futuro mais seguro para nossas comunidades.

Lessons in Liberation: An Abolitionist Toolkit for Educators oferece pontos de entrada para construir pontes críticas e intencionais entre a prática educacional e o movimento crescente pela abolição. Feito para educadores, pais e jovens, essa caixa de ferramentas destaca projetos abolicionistas inovadores, particularmente nos contextos educacionais do ensino básico.

Seções são dedicadas a pontos de entrada na abolição do Sistema Prisional Industrial e educação, a aplicação de lições e princípios da abolição e histórias sobre o cultivo da abolição fora de contextos educacionais. Tópicos abordados incluem organização estudantil, justiça para imigrantes frente a políticas de imigração, abordagens à educação sexual, currículo de base artística e a construção de habilidades e pensamento abolicionistas em planos de aula.

Resultado de trabalho paciente e urgente, e de mais de cinco anos de produção, Lessons in Liberation convida educadores ao trabalho da abolição.

Contribuidores incluem: Projeto Black Organizing, Centro de Saúde da Mulher de Chicago, Mariame Kaba e Projeto NIA, Bettina L. Love, o Coletivo MILPA e artistas do Coletivo Justseeds, entre outros.

The Education for Liberation Network & Critical Resistance Editorial Collective é uma equipe de escritores, educadores e pensadores de vários antecedentes e movimentos sociais trabalhando rumo à abolição no nosso tempo.

Lessons in Liberation – An Abolitionist Toolkit for Educators

The Education for Liberation Network & Critical Resistance Editorial Collective (edição)

Editora: Ak Press

Formato: Livro Impresso

Vinculação: pb

Páginas: 376

ISBN-13: 9781849354363

$18.75

akpress.org

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Mais um ano que acaba.
Como esconderei dos meus pais
o cabelo grisalho?

Etsujin

[México] Memória | Silvia Mistral, anarquista!

Em 1º de dezembro de 1914, a anarquista Hortensia Blanc Pita, mais conhecida como Silvia Mistral, nasceu em Havana. Escritora, crítica de cinema, filha de pais espanhóis. Em 1931, a família se estabeleceu em Barcelona. Ela colaborou com diferentes revistas de cinema e cultura e se tornou parte da CNT. Durante a Guerra Civil ela publicou reportagens da frente e forjou uma amizade colaborativa com a fotógrafa húngaro-mexicana Kati Horna, que anexava suas fotos aos seus artigos.

Em maio de 1939, exilada na França, ela foi internada no campo de concentração de Barcarès. Em julho de 1939, junto com seu parceiro, o cineasta anarquista Ricard Mestre Ventura, partiram para o México.

Em Veracruz ela escreve memórias de guerra, resenhas de filmes, reportagens e artigos para revistas e jornais e colabora com a revista anarquista cubana El Libertario. Além de colaborar com várias revistas, ela escreve mais de dez livros, sendo o mais importante “Éxodo. Diario de una refugiada española“.

Tradução > solan4s

agência de notícias anarquistas-ana

Cachorro vadio
À sombra da quaresmeira
Dorme sobre flores

Tony Marques

[Polônia] Como um “antifa” de Belarus despejou e capturou a ocupação anarquista Sirena em Varsóvia

7 de dezembro de 2021

Há alguns dias, o ex-prisioneiro antifascista de Belarus Dmitriy Zvanko, com uma multidão, atacou a ocupação anarquista Sirena no centro de Varsóvia. A gangue usou garrafas, spray de pimenta, tijolos e outras coisas para jogar os residentes para fora do edifício ocupado.

Razões?

Zvanko foi preso em 2013 e passou 3 anos na prisão bielorrussa por uma briga com vândalos de extrema direita. Após sua soltura, mudou-se para a Polônia e logo permitiram que morasse na ocupação Sirena. O ex-prisioneiro antifascista foi bem-vindo por muito tempo no local, apesar de seu comportamento horrível direcionado a ocupantes anarquistas. Muitos ativistas se mudaram por seu comportamento e conflitos constantes, mas este ano a situação escalou quando Dmitriy tentou dominar parte do espaço comum da ocupação para suas necessidades particulares. A primeira onda acabou com Zvanko chamando seus amigos dos restos da cena antifa bielorrussa de Varsóvia, que recuaram após algumas pequenas brigas.

O coletivo da ocupação por vários meses tentou encontrar uma solução para o conflito, organizando múltiplas reuniões para falar sobre os problemas. Essas reuniões eram normalmente ignoradas por Dmitriy e seus amigos.

Sem um grupo de sucesso por trás, Sirena decidiu pedir ao antifa bielorrusso que fosse embora dentro de uma semana. Ele riu em resposta e continuou a morar na casa como se nada tivesse acontecido. 14 dias depois, o coletivo o chutou para fora da casa.

Ao invés de aceitar a decisão do coletivo e realmente encontrar um lugar no qual não estivesse em conflito permanente com seus vizinhos, Zvanko mais uma vez foi a seus amigos. Reuniram uma multidão de 30-40 pessoas que atacaram Sirena à noite. Depois de alguma resistência, anarquistas tiveram que deixar a ocupação que foi capturada por antifascistas autoproclamados.

O que acontece agora?

No momento, o lugar ainda está capturado pela multidão. O coletivo da Sirena publicou uma declaração na qual condenam ataques e chamam por solidariedade. Muitos coletivos de Varsóvia, bem como alguns anarquistas organizados de Belarus morando na capital polonesa, também publicaram suas declarações.

A gangue antifa lançou seu próprio texto em que absurdamente tenta usar o status de Zvanko como um refugiado político que enfrenta racismo de ocupantes anarquistas. Ao mesmo tempo, há muita manipulação acontecendo, incluindo tentativas de fazer Dmitriy um líder dos anarquistas e antifascistas bielorrussos locais organizados.

Enquanto as pessoas tentam abusar do status de migrante político em suas tentativas de exercer violência contra ativistas antiautoritários, é importante mencionar que Zvanko atualmente não encara qualquer processo em Belarus, nem estava envolvido em qualquer coletivo bielorrusso anarquista ou antifascista desde sua migração a Varsóvia. Ele não é um líder da diáspora bielorrussa em Varsóvia; na realidade, não participou em quaisquer tentativas anarquistas ou antifascistas de trabalhar na diáspora bielorrussa.

Já dei muitas apresentações sobre repressão em Belarus em 2014-2015, durante as quais mencionava Zvanko e chamava por solidariedade com ele. Mas agora não pode haver solidariedade com uma pessoa assim. Nesta situação, seu passado não importa. Essa ação traz perigo não só para as pessoas morando na Sirena, mas para o movimento inteiro que é atacado de um lado pela extrema direita violenta da Polônia, mas de outro lado por alguns “gopniks” de Belarus, que não ligam para justiça social ou equidade e estão ali explorando movimentos políticos em seus próprios objetivos.

A situação na Sirena não é um caso único de violência dentro do movimento antifascista. De fato, é parte de um longo fio de eventos. Pessoas como Zvanko continuam a usar nossos princípios de não cooperar com a polícia – eles sabem perfeitamente que, em caso de conflito, não chamaremos por assistência do Estado.

Com essa perspectiva, expusemo-nos à violência em várias direções. Como anarquistas, está se tornando repetidamente claro que a defesa de nossas comunidades é uma obrigação que fica nos ombros de cada membro da comunidade. A questão da violência é difícil e desconfortável para muitos, mas não há maneira de escapar dela. Temos que ser capazes de nos defender em caso de situações como o que ocorreu com Zvanko, e não apenas nos defender, mas preveni-las de acontecer ao manifestarmos nossa força comum contra essas pessoas no movimento. Não há posições neutras em tais situações.

Gostaria de declarar solidariedade às pessoas da Sirena, que enfrentaram esse comportamento abusivo levando em conta todos os riscos e ameaças. A luta continua!

Fonte: https://black-stork.writeas.com/how-antifa-from-belarus-evicted-and-captured-anarchist-squat-sirena-in-warsaw

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Cai da folha
a gota d’água. Lá longe,
o oceano aguarda.

Yeda Prates Bernis

[Itália] Destruamos a violência baseada no gênero, destruamos o patriarcado!

Na família, na sociedade, no local de trabalho, no trabalho, na escola, nas brincadeiras…

Em associações e movimentos…

A Federação Anarquista de Livorno apoia as iniciativas de NonUnadiMeno Livorno por ocasião do Dia Internacional contra a Violência de Gênero e todas as iniciativas de agitação e comunicação contra a violência e a discriminação de gênero, contra a organização social hierárquica e patriarcal.

Denunciamos a ação do governo, das forças parlamentares e das instituições religiosas que, enquanto falam em combater a discriminação e a violência, reforçam aquelas políticas familiaristas, supremacistas e chauvinistas que alimentam e justificam a violência de gênero.

Comissão de Correspondência da Federação Anarquista de Livorno

Fonte: https://collettivoanarchico.noblogs.org/post/2021/11/24/distruggiamo-la-violenza-di-genere-distruggiamo-il-patriarcato/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A rã de Bashô
sai num pulo do haicai
dele para o meu.

Otoniel

“É um dos jornais mais importantes do anarquismo brasileiro, de todos os tempos”

Entrevista com João Henrique Oliveira, autor do livro “Páginas Revolucionárias – Anarquismo, contracultura e imprensa alternativa no Brasil”. Confira abaixo.

Agência de Notícias Anarquistas > Vamos começar com você se apresentando, como chegou ao anarquismo… Vale?

João Henrique Oliveira < Sou natural do estado do Rio de Janeiro, nascido numa cidade periférica da Baixada Fluminense. Minha infância e adolescência se desenrolam entre a segunda metade dos anos 1980 e a primeira dos 90. Como muitos moleques da minha geração, fui influenciado pela indústria cultural do rock daquela época, ouvindo muita música e lendo publicações sobre o tema. Nesse processo, fui buscando coisas além dos hits que tocavam nas rádios e, obviamente, acabei conhecendo algumas bandas e correntes do punk, sua cultura, seus valores (ainda assim havia muita coisa que eu desconhecia naquele momento, como a especificidade do movimento anarcopunk, por exemplo). Portanto, a questão social, política, surge para mim pela via da cultura, pelas letras de algumas músicas e textos de fanzines. (Mas fazendo aquela ressalva óbvia: eu vivia num tempo sem internet, numa cidade periférica, com muito mais dificuldade de acesso à informação do que hoje).

Então, a primeira percepção que tive de anarquismo veio daí, muito por conta da divulgação feita pelo punk, mas também através das apropriações e distorções que são disseminadas pela indústria cultural. Enfim, foi um primeiro contato superficial e não aprofundado, ainda restrito à ideia de anarquismo e de anarquia como algo ligado apenas à rebeldia, à destruição do sistema, etc. Até aí nada original, pois acho que muita gente conhece o anarquismo dessa forma e não vai muito além. Eu não sabia, naquele momento, que o anarquismo era algo muito mais amplo.

A coisa vai começar a mudar por volta de 2003-2004, quando eu inicio a graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. Lá conheci um companheiro de curso que me convidou para as reuniões do recém-criado Grupo de Estudos do Anarquismo (GEA). A partir dali eu fui entender a riqueza da tradição anarquista por meio dos debates e das discussões de textos, além das aulas ministradas na universidade pelo professor Carlos Addor – autor de pesquisa pioneira sobre a Insurreição Anarquista no Rio de Janeiro em 1918. Em seguida, começo a frequentar os espaços militantes da cidade do Rio, como a Biblioteca Social Fábio Luz (BSFL), que funcionava no Centro de Cultura Social (CCS), em Vila Isabel. Na mesma época, me aproximo da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), onde vou militar por um tempo, tendo a oportunidade de ampliar muito a minha compreensão do anarquismo organizado, percebendo como ele pode se tornar vivo na prática, na construção junto aos movimentos sociais. Enfim… acho que nesse momento cheguei a uma compreensão histórica do anarquismo, rompendo a barreira de preconceitos e estereótipos prévios, entendendo-o como uma proposta revolucionária de organização da sociedade em novas bases.

ANA > Você lembra qual a primeira obra anarquista que leu?

JHO < Olha… provavelmente comecei com uma coisa mais solta, tipo uma fotocópia de algum texto clássico, não lembro se do Kropotkin ou do Bakunin… coisas que costumávamos discutir nas reuniões do GEA. Lembro bem que a pasta do grupo tinha um número bem irônico, anticlerical e provocativo: 666! (risos). Até hoje tenho as pilhas de folhas fotocopiadas dessa época. São referências que ainda consulto sempre que preciso.

Mas acho que a primeira obra que adquiri mesmo, e li na íntegra, foi um livrinho que serviu de introdução para muita gente: o História das ideias e movimentos anarquistas, do George Woodcock, publicado pela editora L&PM. Embora passível de críticas em alguns pontos, ainda acho uma boa síntese para dar um pontapé inicial nos estudos sobre o anarquismo.

ANA > E o primeiro protesto, a primeira luta que se envolveu?

JHO < As primeiras lutas foram no âmbito do movimento estudantil, final dos anos 90, naquela conjuntura de entreguismo e privatização desenfreada do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Havia no ar a constante ameaça de privatização das universidades públicas, e lutar contra isso era uma bandeira bem presente na minha época de estudante.

Já o primeiro protesto foi bem marcante para mim, pois eu nunca havia participado de nada parecido antes, por não ter crescido num grande centro urbano. O ano era 1998 e o contexto era a privatização do setor de telecomunicações, da Telebrás. Houve manifestações nos arredores da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, centro da cidade, na Praça XV, onde se desenrolaram os leilões. Estudava na UFF e morava em Niterói. Então, atravessei a Baía de Guanabara com os compas do movimento estudantil e fui protestar contra mais aquela entrega promovida pelo governo neoliberal do FHC. Tudo muito novo e emocionante para um moleque como eu, pela primeira vez vivenciando aquela atmosfera de força coletiva, movimentos sociais, sindicatos, coros de protesto… E, claro, começava ali a sentir ainda mais revolta e indignação diante da repressão promovida pelas forças policiais do Estado, sempre atuando contra o povo para defender os privilégios da burguesia e seu sacrossanto direito à propriedade privada. A “rage against the machine” entrava de vez na minha veia! (risos)

ANA > E o que o despertou a escrever “Páginas Revolucionárias – Anarquismo, contracultura e imprensa alternativa no Brasil”? Como nasceu essa ideia? Como foi o processo de escrita, de pesquisa histórica?

JHO < Esses três eixos do livro – anarquismo, contracultura e imprensa alternativa – extrapolam um pouco o interesse meramente acadêmico e científico, e se confundem com minha trajetória pessoal e minha formação política. Acho que a contracultura surgiu primeiro na minha vida, ainda na adolescência, com o gosto pelo rock’n’roll e pela cultura psicodélica; e também a partir da literatura dos beatniks, dos quadrinhos do Crumb… Quer dizer, eu já tinha uma compreensão básica do movimento da contracultura e me identificava politicamente com os valores antiautoritários, de esquerda.

Eu também gostava muito de ler publicações independentes, fanzines dos anos 90, quadrinhos… Aí fui fazer graduação em Jornalismo, em 1998, e comecei a me interessar em pesquisar a imprensa alternativa e a história dos jornais independentes que resistiram durante a ditadura. No final do curso, fiz uma monografia que unia, de certa forma, os temas da contracultura e da imprensa alternativa: investiguei a história da versão brasileira do jornal Rolling Stone, editado no Rio de Janeiro pelo Luiz Carlos Maciel, entre 1972 e 1973.

Bom… o terceiro eixo – o anarquismo – vai aparecer mais fortemente, como já disse, quando começo a frequentar as reuniões do GEA. Daí que, lendo aquele livro do Woodcock que citei antes, vi que ele falava da renovação das ideias e práticas anarquistas depois da Segunda Guerra Mundial, especialmente na Europa e nos EUA dos anos 60, naquele caldeirão heterogêneo que também trazia a contracultura como ingrediente. Então, me coloquei uma questão: “Será que aconteceu algo parecido aqui no Brasil?”. Tinha curiosidade de saber se o anarquismo também foi ressignificado por essas bandas, em plena ditadura, e se houve algum diálogo com as ideias da contracultura. Para entender isso concretamente, busquei identificar pistas em alguns jornais da imprensa alternativa.

Então, a ideia para a pesquisa nasceu dessa interconexão de interesses, que me serviram de base para investigar uma questão ainda pouco explorada pela historiografia. Assim, resolvi montar um projeto e entrar na seleção do mestrado em História da UFF, sendo aprovado em 2005. A base do ‘Páginas Revolucionárias’ é justamente esse trabalho anterior – revisto e atualizado.

Nesse sentido, o processo de escrita do livro tem um desenrolar um tanto longo – e que também foi fruto de minha procrastinação em publicá-lo! (risos). A estrutura da obra seguiu basicamente os três eixos citados, com o primeiro capítulo dedicado à imprensa alternativa, o segundo à contracultura e o terceiro ao anarquismo (obviamente que os três temas se entrelaçam ao longo de todo o texto). Como passou muito tempo em relação à pesquisa original, escrevi novas introdução e conclusão, trazendo ainda uma breve atualização sobre o que foi produzido sobre o tema depois de 2007, ano em que defendi a dissertação. Além disso, o eixo do anarquismo foi bem “engordado” com a inclusão de um trecho de pesquisa mais recente, concluída em 2017, no qual trato das formas e estratégias de propaganda do anarquismo entre o início da Primeira República e o começo da ditadura em 64.

A pesquisa histórica teve como fontes primárias seis periódicos, além de depoimentos de personagens da época. Três dos periódicos são ligados ao ideário da contracultura: coluna ‘Underground’ de “O Pasquim” (1969-72), “Tribo” (1972) e “Soma” (c.1974). Já os outros três se assumiam explicitamente como anarquistas: “O Inimigo do Rei” (1977-88), “Barbárie” (1979-82) e “Utopia” (1988-92). A partir da análise dos textos e das memórias, busquei identificar que relações e tensões foram estabelecidas entre o anarquismo e a contracultura; como se deu o contato entre gerações diferentes de militantes; como a tradição anarquista foi sendo ressignificada nesse período pós golpe civil-militar; entre outras questões.

ANA > Você poderia falar um pouco sobre “O Inimigo do Rei”? O que você destacaria nele? Além das abordagens, o jornal tinha uma apresentação visual muito boa, não? As fotos eram bem ousadas… (risos)

JHO < Embora eu tenha trabalhado com seis publicações, posso dizer que “O Inimigo do Rei” foi a fonte mais importante em minha pesquisa. Tanto que eu fiz questão de colocar uma capa do jornal na capa do livro – uma escolha que representa, simultaneamente, uma homenagem e um reconhecimento da relevância do “Inimigo” para meu trabalho.

Eu poderia destacar muita coisa do jornal, porque foi uma experiência muito rica e original da imprensa anarquista. Mas, para não me alongar demais, vou escolher dois pontos que julgo relevantes: seu papel como organizador e animador do anarquismo no Brasil pós-golpe de 64; e a sua originalidade no campo da imprensa alternativa de resistência à ditadura.

“O Inimigo do Rei” foi uma publicação que surgiu num espaço local – o movimento estudantil da Universidade Federal da Bahia (UFBA) – mas logo conseguiu articular uma rede autogestionária que extrapolou os limites de Salvador. Uma rede que tinha colaboração tanto de jovens quanto de importantes anarquistas de uma geração anterior – como Ideal Peres, Edgar Rodrigues e Roberto das Neves, entre outros. Também foi marcante a articulação com movimentos sociais autônomos, como o movimento negro, o sindicalismo não atrelado ao Estado (o jornal promove um debate sobre uma nova leitura do anarcossindicalismo no país), as minorias (gays, lésbicas), o movimento ecológico e antinuclear, etc. Enfim… creio que foi muito marcante essa dimensão do “Inimigo” como catalisador de grupos libertários dos anos 70 e 80, tornando-se um verdadeiro marco na história do anarquismo e das esquerdas no Brasil.

Daí que merece destaque o segundo ponto que citei: sua originalidade no cenário dos jornais alternativos da época. Enquanto as esquerdas de inspiração marxista-leninista se rearticulavam para formar novos partidos ou ressuscitar velhas siglas, o “Inimigo” fazia uma crítica pertinente, ácida e muitas vezes debochada aos limites da democracia burguesa e à falácia do processo de “abertura” e de “anistia” promovido pelas elites. E sentava a lenha nos marxistas que defendiam a entrada nesse jogo! (risos) Nesse sentido, o jornal nadava contra a corrente dos alternativos que acabaram passando para a história como exemplos de resistência (como “Opinião”, “Movimento”, entre outros). Não que estes não tivessem desempenhado papel relevante. Mas o que me chamou a atenção foi que a experiência do “Inimigo” foi ignorada ou mal interpretada pela historiografia da imprensa alternativa. Isso vai mudar com o trabalho pioneiro do Waldir Paganotto, que em 1997 fez uma dissertação sobre o jornal [Imprensa alternativa e anarquismo: “O Inimigo do Rei”(1977-1988)]. Muito importante também foi a pesquisa do Carlos Baqueiro, que foi integrante do jornal e em 2007 fez um documentário que me ajudou pra caramba em meu trabalho [O Inimigo do Rei: Imprimindo Utopias Anarquistas]. Há ainda outros trabalhos – monografias, artigos… – que ajudaram e vêm ajudando a contar essa história. Tentei contribuir um pouquinho com o meu livro também.

Por fim, comentando essa questão do visual… Você observou bem. Além da linguagem verbal – irônica, ácida, desbocada e bem-humorada – o jornal trabalhava muito bem sua estética, sua diagramação, especialmente depois do número 4, de 1979, quando passa a adotar um novo projeto gráfico. Há edições com capas emblemáticas, como a número 9, do início de 1980, que traz uma chamada provocativa: “Prática sexual ampla, geral e irrestrita” (num jogo de palavras criativo, remetendo ao slogan da anistia). E a foto por trás, bem ousada para os padrões conservadores, trazia dois corpos nus se abraçando. Outra capa que gosto muito é a da edição 13, que traz a manchete: “Você pode fumar baseado (desde que não seja do PDS ou trotskista)”. Ao fundo, a imagem de uma pessoa fumando um baita cigarrão de maconha! (risos). Olha… tem muita coisa boa. Recomendo que os leitores deem uma olhada na coleção virtual do “Inimigo” que está disponível na seção “Canto Libertário” da Biblioteca Digital da Unesp:  https://bibdig.biblioteca.unesp.br/handle/10/8051

ANA > Não podemos esquecer que “O Inimigo” também era vendido em bancas, não? Fico imaginando o rebuliço que as capas do jornal causavam… (risos) Sabe dizer se houve algum tipo de censura ao jornal? Alguma tentativa de cerceá-lo…

JHO < Verdade! Infelizmente não explorei a fundo esse detalhe da recepção do público, mas acho que seria muito interessante investigar isso. Talvez colhendo os depoimentos de alguns leitores da época, e também de jornaleiros que vendiam o jornal, ver como era a reação das pessoas nas bancas, o que comentavam sobre as capas, etc. Acho que pode ser uma questão em aberto para fazer uma pesquisa de história oral, por exemplo.

Em relação à censura, é bom lembrar que o contexto em que o “Inimigo” começou a ser publicado já era o da “abertura”. Com todos os limites, foi um período relativamente menos pesado do que aquele que vai de 1968 (com a decretação do AI-5) até a primeira metade dos anos 70. A censura teve ampla atuação entre 68 e 75, com radicalização de 72 a 75. Já entre 75 e 78 começou uma distensão, com uma ação mais seletiva. Mas, como disse, essa abertura foi relativa. Então, se o AI-5 foi revogado em 1978, permaneceu a infame Lei de Segurança Nacional, que definia crimes de imprensa e atribuía ao ministro da Justiça a competência para apreender e suspender impressos. Sem falar na atuação dos sociopatas da extrema-direita, né?, com atentados a bancas de jornal que vendiam alternativos. Em março de 81, por exemplo, um grupo invadiu a “Tribuna da Imprensa”, do Rio de Janeiro, ameaçando funcionários e danificando o parque gráfico.

No caso do “Inimigo”, temos relatos de integrantes que falam de um clima de tensão e repressão. Por exemplo, o jornalista Toni Pacheco, em entrevista ao Carlos Baqueiro, falou de locais em que se proibia vender o jornal, além de ter relatado um episódio em que tiveram de correr da polícia em Feira de Santana/BA. E o próprio Baqueiro me contou que teve gente da polícia federal infiltrada nas reuniões do coletivo, certamente para acumular informações para o sistema de repressão… (A propósito, em artigo de 2020, o pesquisador João Correia de Andrade Neto cita um dossiê do Serviço Nacional de Informações que listou “O Inimigo do Rei” como órgão “subversivo”. Para quem tiver interesse, o link do artigo é este aqui: https://doi.org/10.47195/20.655).

E tem uma outra questão que o Toni Pacheco citou: a “censura econômica”. Ou seja: mesmo que não se censurasse mais ostensivamente, como nos tempos da censura prévia, o regime habilmente fez com que o papel e a impressão se tornassem coisas muito caras, impossibilitando a sobrevivência da mídia alternativa. Em última instância, isso foi uma das causas para o fim de muitos jornais nos anos 80, incluindo o “Inimigo”, que tinha muitas dificuldades de levantar grana para imprimir os exemplares.

ANA > Acredita que “O Inimigo do Rei” deixou um legado? Tantos anos após sua publicação, ainda hoje vejo as pessoas lendo e falando dele… (risos) Podemos dizer que é um dos jornais mais importantes da história anarquista brasileira?

JHO < Sem dúvida! É um dos jornais mais importantes do anarquismo brasileiro, de todos os tempos. Para mim pode colocar ao lado dos clássicos da Primeira República. Claro que é outro contexto, um momento em que o anarquismo não era mais hegemônico nos movimentos de trabalhadores. Mas foi um marco em seu tempo e espaço, um elo de gerações que animou uma rede de contatos e de troca de ideias.

Penso que o periódico influenciou muito a organização e/ou a articulação de grupos já existentes, que se engajaram no seu processo de edição e distribuição autogestionária. No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, vai influenciar o grupo que girava em torno do Círculo de Estudos Libertários (CEL), que contava com a presença do veterano Ideal Peres. Anos mais tarde, em 1991, o CEL vai lançar um informativo, o “Libera… amore mio”, que, na minha interpretação, trouxe um pouco da influência da linguagem do “Inimigo” em seus primeiros números, com uso do humor, da ironia ácida…

Acho que quem conheceu “O Inimigo do Rei” no passado – como leitor e/ou colaborador – reconhece a relevância e continua falando dele hoje, até como uma forma de manter vivo um exemplo importante para animar novas experiências no campo da propaganda anarquista. E as pessoas que só viram o jornal depois de seu término (como foi o meu caso), fatalmente se encantam pela pujante comunicação libertária que o “Inimigo” promoveu, sua criatividade, sua linguagem debochada… Enfim, seu jornalismo absolutamente inovador e revolucionário.

ANA > E como as pessoas fazem para adquirir o livro?

JHO < Podem encomendar diretamente comigo pelo e-mail jhcastro2015@gmail.com

ANA > Pretende escrever novos livros, ou parou por aí? (risos)

JHO < Sim, gostaria de escrever mais. Acho muito bom ampliar o alcance (por menor que seja a tiragem), colocar as reflexões para debate do público e, quem sabe, inspirar novas pesquisas, novas interpretações. Eu tenho um trabalho que gostaria de publicar, sobre o jornal “Libera”, do Rio de Janeiro. Vamos ver se concretizo isso mais pra frente… Por enquanto, tô curtindo o “primeiro filho”. (risos)

ANA > Algo mais para finalizar? Valeu!

JHO < Ah… Aproveito para registrar meu agradecimento à Rizoma Editorial, pelo belo trabalho de edição, e ao caro amigo Carlos Addor, que escreveu o prefácio e foi um grande incentivador para que eu publicasse o livro. Também agradeço muito a oportunidade que a ANA ofereceu para eu falar um pouquinho da obra. É uma honra estar aqui neste espaço, pois admiro muito o trabalho da Agência, que vem contribuindo há tempos para manter acesa a chama da propaganda anarquista no Brasil. Uma chama que vem lá da imprensa anarquista e operária da Primeira República, atravessando as ditaduras (entulhos!) pelo caminho, renovando-se com o “Inimigo”, “Barbárie”, “Utopia”, “Libera”… e tantos outros. Enfim… não dá para conceber a história do anarquismo sem a história da comunicação realizada pelos anarquistas. Penso que são dimensões indissociáveis.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/11/08/lancamento-paginas-revolucionarias-anarquismo-contracultura-e-imprensa-alternativa-no-brasil-de-joao-henrique-oliveira/

agência de notícias anarquistas-ana

Libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão

Masuda Goga

[EUA] Lançamento: “Da Urbanização às Cidades – A Política do Municipalismo Democrático”

Murray Bookchin (Autor)

“Esta edição, cuidadosamente reformulada, apresenta a uma nova geração de leitores o estudo historicamente baseado de Murray Bookchin para recuperar as cidades como a linha de frente da democracia participativa e da renovação ecológica. Esse caso nunca foi tão fortemente argumentado ou tão pertinente para os desafios de nosso tempo”. — David Wengrow, co-autor com David Graeber, do livro The Dawn of Everything (O Amanhecer de Tudo)

“Bookchin nos dá uma história útil e um apelo à ação.” —New York Times

“O mais importante filósofo verde da nossa época.” —Independent (Reino Unido)

Da Urbanização às Cidades é uma abrangente história das cidades, não como um destino para a troca capitalista e gratificação individual, mas como um locus para políticas diretamente democráticas. Assim como os ecossistemas dependem da participação e do mutualismo, as cidades – e seus cidadãos – devem redescobrir essas qualidades, estabelecendo relações sociais harmoniosas e éticas. O municipalismo democrático é uma filosofia emancipatória de autodeterminação, em que a política se torna um ato cotidiano no qual as pessoas comuns e as comunidades locais assumem o poder de decisão em suas próprias mãos. Da Comuna de Paris à revolução liderada pelos curdos no nordeste da Síria, o municipalismo democrático é uma ferramenta para arrancar o poder do Estado-nação, permitindo que a urbanização capitalista dê lugar a sociedades em escalas humanas, ecológicas e igualitárias. Inclui uma nova introdução de Sixtine van Outryve d’Ydewalle.

Murray Bookchin (1921–2006) foi uma voz ativa nos movimentos ecologistas, anarquistas e comunalistas por mais de cinquenta anos. Seu ensaio inovador, “Ecology and Revolutionary Thought (Ecologia e Pensamento Revolucionário)” de 1964, foi um dos primeiros a afirmar que o ethos “crescer ou morrer” do capitalismo estava em uma rota de colisão perigosa com o mundo natural, o que incluiria a devastação do planeta pelo aquecimento global. Bookchin é o autor de The Ecology of Freedom (A Ecologia da Liberdade), entre duas dúzias de outros livros.

Sixtine van Outryve d’Ydewalle é uma pesquisadora, PhD em teoria política e jurídica na Universidade UC Louvain, na Bélgica. Sua pesquisa se concentra na teoria e na prática da democracia direta a partir de uma perspectiva comunal, especificamente nos movimentos sociais que lutam pelo autogoverno local na França e na América do Norte.

From Urbanization to Cities | The Politics of Democratic Municipalism

Murray Bookchin

Editora: AK Press

Formato: Book

Capa: pb

Páginas: 352

ISBN-13: 9781849354387

$14.25

akpress.org

Tradução > A Estrela

agência de notícias anarquistas-ana

pequenos dedos
das gotas de chuva
massageiam a terra

Carlos Seabra

[Itália] Grécia. Em memória de Alexis

No dia 6 de dezembro de 2021, aniversário do assassinato do anarquista Alexis Grigoropulos, de 15 anos, morto por um policial com dois tiros nas costas em 2008, houve inúmeras iniciativas de luta.

Pela manhã uma passeata de estudantes abriu o dia, no final da tarde uma passeata de milhares de pessoas cruzou o centro de Atenas.

A manifestação partiu às 18 horas do Propileu entoando slogans e indo em direção ao Parlamento e, de lá, milhares de manifestantes dirigiram-se à Exarchia, onde às 21 horas foi feito um encontro na lápide do local onde Alexis foi morto.

Para impedir a entrada da polícia, foram incendiadas barricadas e ocorreram vários confrontos em diferentes ruas. Durante a noite, uma “caça ao homem” foi lançada por policiais. Houve 4 prisões e feridos. A descoberta de que a polícia grega está usando gás lacrimogêneo que expirou há mais de 20 anos causou assombro. Nos projéteis disparados aos manifestantes havia um prazo de validade de 1999. Em um vídeo você pode ver um grupo de policiais de motocicletas, a equipe Delta, que para prender dois companheiros quebrou a janela de um prédio.

Houve iniciativas semelhantes em várias cidades gregas: em Tessalônica, no final da passeata, houve confrontos e o lançamento de coquetéis molotov contra a polícia.

Após o forte aperto das penalidades para quem usa garrafas explosivas, isso parece ser um sinal de que as repetidas tentativas de semear o medo nos movimentos não estão se enraizando.

Conversamos sobre isso com Gabrio, um companheiro que mora em Atenas.

>> Ouça ao áudio em italiano aqui:

https://radioblackout.org/…/grecia-in-ricordo-di-alexis/

Tradução > GTR@Leibowitz__

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/12/08/grecia-cerca-de-10-000-anarquistas-e-antiautoritarios-protestam-no-centro-de-atenas-pelos-13-anos-da-morte-de-alexis-grigoropoulos/

agência de notícias anarquistas-ana

Bolha de sabão.
Uma explosão colorida
sem nenhum estrondo.

Maria Reginato Labruciano