[Chile] Santiago: convocatória à jornada de protesto contra o desaparecimento forçado e o terrorismo de Estado

Companheiros, como Assembleia Libertária de Santiago lhes estendemos este convite e solicitamos difusão para uma jornada de protesto com data de sexta-feira, 3 de setembro, às 18h30, em Cerro Huelén, contra o terrorismo de Estado e o desaparecimento forçado:

O jovem Mapuche de 16 anos, José Huenante, desapareceu de maneira forçada pelos Carabineiros [polícia] em 3 de setembro de 2005 em Puerto Montt, sua cidade de origem. Além de resgatar sua figura e memória junto com os demais jovens vítimas do Estado, o jovem mapuche nos recorda mediante sua história o carácter assassino da democracia, junto com a cumplicidade característica das forças da ordem que até o dia de hoje não dão o paradeiro de seu corpo nem tampouco entrega certezas dos culpados, não podendo comprovar-se o homicídio por parte dos carabineiros nem terceiros. O que sim é certo, é que José Huenante esteve em custódia dos vassalos do Estado, sendo estes últimos os culpados de sua morte.

José Huenante passou despercebido na realidade chilena, pouco se comenta sobre seu desaparecimento e, portanto é nula a difusão dos meios hegemônicos que nunca duvidaram de seu servilismo ao status quo. Nunca houve pronunciamento nem tampouco intervenções em prol da justiça pelo desaparecimento de Huenante de parte dos partidos políticos institucionais. Só nos resta afirmar, que a justiça virá única e exclusivamente desde a classe oprimida em luta, pois não podemos esperar nada do Estado e do capital.

Muito se discute sobre democracia e ditadura, enfatizando constantemente nas vantagens e diferenças entre uma e outra, em um palavreado sem fim na conquista pelo poder. No entanto, as comunidades em luta contra o Estado e o capital não se deterão em evidenciar e atacar o caráter assassino e coercitivo tanto da democracia como da ditadura, onde o capital sempre terá o controle sobre nossas vidas e não nos permitirá desenvolvermos em concordância com uma ética comunitária, antiautoritária em harmonia com nosso entorno.

Não temos dúvidas de que o Estado é inerentemente um assassino e inimigo da realidade que queremos construir. Este tem a função de assegurar a manutenção e perpetuidade do domínio do capital, recorrendo a medidas repressivas e disciplinares para isso, independentemente dos governantes de turno. É por isto que não devemos ceder nenhum espaço de memória, e juntos seguir fortalecendo as instâncias onde a solidariedade combativa possa fazer uma mudança na miséria da realidade do território vigiado pelo Estado do Chile.

Dado que há que enfrentar estas problemáticas e visibilizar o terrorismo de Estado (tanto na democracia como na ditadura) nos dispomos a instalar esta data como uma jornada de agitação. É por isso que nos parece imprescindível nos juntarmos para homenagear Huenante e todas as vítimas da detenção forçada, assim como também nos solidarizar com aqueles encarcerados e vigiados por sua luta contra a ordem atual. Estendemos o convite para nos reunirmos em sinal de protesto esta sexta-feira, 3 de setembro, às 18h30, em Cerro Huelén. Parece-nos também importante enfatizar, a importância de acompanharmos como classe em nossa resistência frente à ordem atual, entendendo que o terrorismo de Estado é uma constante ameaça para nós. Enquanto nossas vidas estejam a sua mercê, não nos resta mais que lutar!

Assembleia Libertária Santiago

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Há trafego intenso —
Vendo o ipê amarelo
Meus olhos descansam.

Sonia Regina Rocha Rodrigues

Palavras anárquicas e subversivas desde as prisões chilenas

Gritos de guerra; verdadeiros sons de liberdade!!!

Nesta semana de solidariedade com os prisioneiros anarquistas, fazemos um chamado aberto à guerra, para continuar e intensificar o conflito contra toda expressão de poder e para fortalecer os laços de afinidade para o combate entre todos os setores antiautoritários que existem e trilham caminhos comuns.

É a partir desta posição que recordamos os companheiros Sacco e Vanzetti como parte do amplo setor do ilegalismo  anárquico, que eram chamados “Galleanistas”, que com bombas, expropriações e execuções sacudiram o solo americano no início do século passado. Apoiados pela criação e multiplicação de grupos de afinidade e ação violenta, os ilegais espalham ideias anarquistas por meio de ações, entendendo que palavra e ação são inseparáveis.

Desde então, muita água correu sob a ponte, muitos morreram e muitas prisões viram passar companheiros que enfrentaram orgulhosamente o poder do lugar onde foi seu destino. No entanto, as ideias que se traduzem em afinidade e ação suportaram e são o que hoje nos motiva, os anarquistas e subversivos do território dominado pelo Estado chileno, a continuar a guerra a partir deste confinamento e nas ruas, sempre levando em conta a necessária harmonia entre os prisioneiros e os ambientes solidários e cúmplices que caminham do confronto com a normalidade do existente.

Distanciando-nos e opondo-nos aos sectarismos prejudiciais que trabalham para o Estado, fortalecemos nossa luta permanente com base em códigos comuns que se solidificaram, permitindo-nos, ao mesmo tempo, fortalecer nossos laços com diferentes universos de companheiros na rua. Hoje, sem dúvida, somos mais fortes do que ontem.

Nos últimos meses, enquadrados em lutas constantes, enfrentamos duras provas que conseguimos superar, fortalecendo-nos e possibilitando várias iniciativas como uma contribuição real para as lutas contra as prisões no Chile de hoje, entendendo que é somente no confronto que crescemos em todas as áreas da realidade, a fim de continuar a aguçar a luta pela libertação total.

Enviamos um forte abraço a todos os rebeldes em solidariedade que na terça-feira, 24 de agosto, iluminaram novamente as ruas de Santiago e de outras cidades. Uma saudação calorosa àqueles que se reuniram fora da prisão La Gonzalina em Rancagua, fazendo chegar aos nossos ouvidos os gritos de solidariedade, enchendo-nos de encorajamento e alegria.

Enviamos saudações fraternas a todos os companheiros antiautoritários subversivos, revolucionários autônomos e anarquistas de diferentes tendências espalhados pelas prisões do mundo; a Natascia, a Juan Sorroche, aos companheiros presos na Grécia, especialmente a Dinos, Nikos Maziotis, Pola Roupa e Gianis Dimitrakis. Para Alfredo Cospito, Anna Beniamino e todos os companheiros presos nas cadeias italianas. Um abraço especial a Ignacio Avaca e Luis Avaca.

Abraçamos e saudamos no weichan os prisioneiros políticos mapuches.

Com nossa mãe, nossa avó e nossa companheira Luisa Toledo eternamente e lindamente violenta!!!

Morte ao Estado e longa vida à anarquia!

Que as prisões explodam!

Enquanto houver miséria, haverá rebeldia!

Juan Aliste

Marcelo Villarroel

Juan Flores

Joaquin Garcia

Francisco Solar

Prisão da empresa em Rancagua.

Mónica Caballero

Prisão feminina de San Miguel.

Pablo Bahamondes

Prisão da Empresa Santiago 1.

Sexta-feira, 27 de agosto de 2021.

Território dominado pelo Estado chileno.

Fonte: https://buscandolakalle.wordpress.com/2021/08/29/palabras-anarquicas-y-subversivas-desde-las-prisiones-chilenas/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/07/23/convocatoria-para-a-semana-internacional-de-solidariedade-com-os-presos-anarquistas-23-30-de-agosto-de-2021/

agência de notícias anarquistas-ana

velho sapato
lembra das caminhadas
solto no mato

Carlos Seabra

Lançamento | “Recusa à autoridade: visualidade e contravisualidade na formação anarcopunk”, de Mauricio Remígio

Recusa à autoridade discute as práticas de formação da pedagogia libertária construindo a recusa à segregação e a busca por autonomia.

Mauricio Remígio, em “Recusa à autoridade: visualidade e contravisualidade na formação anarcopunk”, discute as vivências anarcopunks como práticas de formação no âmbito da pedagogia libertária, conduzidas por princípios de negação da autoridade, não hierarquização e coletividade: sem líderes e sem mestres. Trata-se de uma formação que contesta modos de ver dominantes por meio de práticas sociais. A vivência anarcopunk se configura através de processos sociais, nos quais o conhecimento construído informa e articula a visão com uma conotação política, construindo contravisualidades na recusa à segregação e na busca por autonomia.

Recusa à autoridade: visualidade e contravisualidade na formação anarcopunk

Maurício Remígio

Monstro dos Mares

32 páginas

R$6,60

monstrodosmares.com.br

agência de notícias anarquistas-ana

Não pude imaginar
Esse tigre invisível
Que vês em meu nariz

Jeanne Painchaud

Vala comum com milhares de vítimas de Stalin é encontrada na Ucrânia

Pesquisadores encontraram na Ucrânia o que pode ser uma das maiores valas comuns da época em que o ditador Josef Stalin governava a antiga União Soviética. Restos mortais de até oito mil pessoas foram encontrados nesta semana em 29 sepulturas em Odessa, no sul do país, durante os trabalhos iniciais de uma obra de expansão do aeroporto da cidade.

Acredita-se que os corpos sejam de vítimas do Grande Expurgo, quando Stalin mandou matar pelo menos 750 mil pessoas.

Sergiy Gutsalyuk, chefe da filial regional do Instituto Nacional de Memória da Ucrânia, disse à agência de notícias AFP que as vítimas provavelmente foram assassinadas pela unidade da polícia secreta soviética no final dos anos 1930, embora seja impossível identificá-las, já que os documentos da época são sigilosos e mantidos em Moscou.

“Esses documentos nunca serão entregues a nós sob o atual governo da Rússia”, disse.

Aleksander Babich, um dos pesquisadores envolvidos na descoberta das sepulturas, disse que o número de vítimas pode ser ainda maior, já que as escavações ainda estão em andamento. Valas comuns já haviam sido encontradas na área anteriormente e em outras partes da Ucrânia.

Segundo estimativas de historiadores, centenas de milhares de ucranianos foram presos em campos de trabalhos forçados ou executados durante a época de Stalin. Também neste período, milhões de ucranianos morreram durante a chamada “grande fome”, causada pela política agrícola implementada pelo ditador na década de 1930.

Fonte: agências de notícias

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/06/10/o-impiedoso-do-catastrofico-seculo-20-stalin-o-homem-de-aco/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/24/espanha-lancamento-el-camino-de-pasion-de-zensl-muhsam-trece-anos-prisionera-de-stalin-de-rudolf-rocker/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/13/franca-historias-de-crimes-stalinistas/

agência de notícias anarquistas-ana

lerdamente,
a água empurra a água
e o rio flui

Alaor Chaves

[Espanha] Afeganistão: o fracasso da “guerra contra o terrorismo” que iria impor valores ocidentais e libertar a região

Antes da Al-Qaeda derrubar as Torres Gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001, George Bush já havia se cercado das principais figuras do chamado movimento neoconservador ou neocon, como Paul Wolfowitz, Dick Cheney e Donald Rumsfeld, e seus planos já incluíam a invasão do Iraque e a expansão dos EUA no Oriente Médio. O 11 de setembro foi a justificação perfeita para entrar na região, mas era muito cedo para enfrentar o regime de Saddam Hussein. Quando foi descoberto que muitos membros da Al-Qaeda estavam escondidos nas montanhas do Afeganistão, os EUA não hesitaram em invadir o país em outubro de 2001. Ele chamou a operação de Enduring Freedom (Liberdade Permanente).

Dois anos mais tarde, fez o mesmo com o Iraque. Mas depois de gastar bilhões de dólares, criando governos extraordinariamente corruptos e desestabilizando o Oriente Médio, os EUA perceberam que haviam se metido em duas guerras eternas que não podiam ganhar nem perder. Por esta razão, há alguns anos, optou por se retirar gradualmente destes dois países e assistir à distância, pois tudo em que tocava era destruído. Em agosto de 2021, as tropas da OTAN se retiraram do Afeganistão. Eles estão programados para deixar o Iraque no final deste ano.

A guerra contra o terrorismo e os ataques preventivos

O fato de que os perpetradores dos ataques de 11 de setembro foram sauditas, ou que a Al Qaeda foi fundada em uma potência nuclear como o Paquistão – de fato, Osama bin Laden foi descoberto e executado lá em 2011 – não foi de nenhuma consequência para esses países. O gigante americano exigiu sua vingança indo atrás da nação mais fraca: um país rural, subdesenvolvido, com uma baixa densidade populacional. Foi necessário pouco esforço para que os EUA e seus aliados da OTAN derrubassem o governo Talibã, assumissem o controle da região e bombardeassem incessantemente as montanhas onde Bin Laden supostamente estava escondido.

A guerra no Afeganistão marcou o início da chamada Doutrina Bush: uma política de guerra preventiva, justificada como a “luta contra o terrorismo internacional”, que defendia que, após a Guerra Fria, os EUA eram a única superpotência no mundo e, como tal, podem policiar o mundo. Consequentemente, ela tem o poder, e até mesmo a obrigação moral, de derrubar regimes estrangeiros que representam uma suposta ameaça (mesmo que não iminente) à segurança de seus interesses e de garantir que nenhum outro poder possa jamais emergir para rivalizar com seus próprios interesses, como a URSS foi outrora. Tudo isso sob o pretexto de espalhar a democracia ocidental pelo planeta, e assim a Pax Americana ou paz mundial governada pelas relações econômicas capitalistas, consolidando o nacionalismo americano em um mundo cada vez mais globalizado. É, em resumo, uma atualização do Plano Condor para o século XXI. Em outra época teria sido chamado de imperialismo, colonialismo e até mesmo fascismo.

No caso específico do Afeganistão, não apenas a luta contra o terrorismo foi usada como justificativa, mas também a libertação das mulheres, subjugadas pelo cruel Talibã [1]. O fato de que os Talibãs estavam em uma posição de poder porque haviam sido financiados e treinados pelos EUA durante os anos 80 para travar uma guerra com a URSS foi negligenciado [2]. A narrativa tinha que ser que os EUA eram os campeões da liberdade no mundo e seu lugar no mundo era para nos salvar de qualquer opressor.

Por alguma razão, a invasão do Afeganistão em 2001 – que ocorreu um mês e uma semana após o 11 de setembro – não provocou um movimento internacional antiguerra semelhante ao que foi desencadeado pela invasão do Iraque em 2003. Milhões de pessoas saíram para protestar contra a guerra do Iraque, cantando “Não à Guerra”, mas havia pouca resistência nas ruas contra a guerra do Afeganistão. Líderes progressistas do governo, como o então Primeiro Ministro Zapatero, que se recusou a participar da impopular guerra do Iraque, compensaram o primo norte-americano com o aumento das tropas no Afeganistão. E eles não foram criticados por isso.

O custo de guerras sem fim

Vinte anos mais tarde, as tropas da OTAN começaram a abandonar sua presença no país, facilitando o avanço do Talibã, que em questão de semanas apreendeu Cabul. Vinte anos de ocupação militar terminaram com 10.000 mortes de civis e praticamente nenhuma melhoria. Apesar do fato de que um dos objetivos da Liberdade Duradoura era a libertação das mulheres, dois terços das jovens afegãs não estão na escola, 80% das mulheres ainda são analfabetas, mais da metade sofreu violência masculina dentro de suas próprias famílias e 75% enfrentam casamentos forçados, em muitos casos antes dos 16 anos de idade. Tudo isso enquanto as tropas da OTAN ainda se encontravam no país. É curioso que as mesmas pessoas que defenderam essa intervenção militar estejam agora lamentando a situação em que o país se encontra com o avanço do Talibã, mas surpreendentemente, elas dissociam completamente a presença dos EUA e seus aliados da OTAN durante essas duas décadas no país de tudo o que tem acontecido no Afeganistão desde 2001.

Em agosto, Olga Rodríguez escreveu um artigo no eldiario.es no qual explicava que “ONGs, ativistas e jornalistas vêm denunciando a situação das mulheres afegãs há anos, mas a Europa considerava o Afeganistão um país seguro para elas e preferia não aceitá-las como refugiadas que corriam riscos se fossem deportadas [3]. Quase ninguém levantou a voz na época, apesar do fato de que muitos estavam fugindo de agressões sexuais, violência sistemática baseada no gênero, discriminação e sem futuro. Alguns só quiseram levantar a voz agora que os EUA e seus aliados estão saindo. Parece que, consciente ou inconscientemente, eles querem aceitar o argumento falacioso de que as coisas estão indo bem com a presença das tropas americanas e só começam a dar errado quando eles partem“.

Uma região desestabilizada e cheia de armas

Em 2021, quase metade da população afegã estava em necessidade humanitária. A Unicef estima que metade das crianças afegãs sofrerá de desnutrição severa este ano. Mas a ajuda que tem sido enviada ao país nas últimas décadas tem sido principalmente militar, e não de outra forma. Milhões de dólares americanos foram destinados à compra de armas e investimentos em “segurança”. Muito menos tem sido investido em educação, saúde pública, governança, desenvolvimento, democratização, infraestrutura, etc. De fato, alguns analistas apontam o fato de que 300 bilhões de dólares haviam sido investidos no armamento do governo de Cabul, mas que eles não tinham comida e estavam passando fome, como uma das causas da queda do governo de Cabul.

Olga Rodríguez explica que “como aconteceu em tantos países ocupados ou intervencionados militarmente por tropas estrangeiras, o Afeganistão se tornou um barril de pólvora com muitas armas que agora estão sendo tomadas pelo Talibã [4]. Já em 2004 a população reclamava que os tanques americanos que passavam por cidades e vilas apontavam suas armas para baixo, para a rua, para o povo. As tropas americanas têm sido percebidas por grandes setores da população como elementos hostis. Não foi à toa que a prisão secreta de Bagram, administrada pelos EUA, foi palco de tortura e violações sistemáticas dos direitos humanos. Trauma e enorme sofrimento foram gerados dentro de suas paredes, como em Guantánamo, onde alguns dos homens que agora incham as fileiras do Talibã foram mantidos“.

A morte do credo neocon

Após vinte anos de ocupação militar, sob as presidências de Bush, Obama, Trump e Biden, a Operação Enduring Freedom, que pretendia acabar com o regime Talibã, terminou com o retorno do regime Talibã.

Uma conclusão que podemos tirar do desastre da intervenção militar é que a suposta justificação feminista – assim como branca e liberal – para a guerra no Afeganistão não era mais do que uma desculpa barata, desprovida de realidade. Em primeiro lugar, porque a invasão só ocorreu após o 11 de setembro e seu verdadeiro motivo foi a luta contra a Al-Qaeda. E em segundo lugar, porque em 2019, dezoito anos após a invasão e ocupação do Afeganistão pelos EUA, justificada por muitos porque ia “libertar as mulheres”, a administração Trump iniciou negociações com o Talibã, excluindo a presença de mulheres nas reuniões e sem colocar em cima da mesa a necessidade de lutar contra a violência masculina através de medidas legislativas. Em 2021, com a chegada de Biden à Casa Branca, tudo continuou pelo mesmo caminho. Como Olga Rodríguez aponta, “Washington invadiu o Afeganistão porque queria mostrar que estava respondendo aos ataques do 11 de setembro. Seu objetivo não era melhorar a vida dos afegãos ou democratizar o país. Em vinte anos de ocupação, deixou isso claro. Em um mundo idílico, podemos acreditar em unicórnios. Mas na vida real, as invasões com exércitos perseguem interesses próprios que muitas vezes entram em conflito com os da população nativa. E em meio a tudo isso, as mulheres são muitas vezes um argumento removível para justificar operações militares e estratégias geopolíticas“.

A segunda lição a ser tirada desta triste história é a do fracasso sombrio da ideologia neoconservadora em relação ao papel do Ocidente no Oriente Médio, resumido melhor por Samuel Huntington em O choque de civilizações. Ele argumentou que nossa civilização ocidental é colocada contra outras, como “o mundo islâmico”, com o qual inevitavelmente entraremos em conflito até que reste apenas uma. Os neocons do início do século 21 acreditavam que a democracia ocidental poderia ser imposta a países com tradições radicalmente opostas, que suas populações aceitariam a “superioridade” moral de nossos valores e que suas instituições seriam democratizadas quando os ditadores fossem depostos. Huntington chamou esses fenômenos de “surtos democráticos”.

Claramente, o tempo não provou que ele estava certo. A luta contra o terrorismo tem sido um fracasso e a resistência aos valores ocidentais tem vencido. Essas gentalhas racistas confiaram na superioridade ocidental e condenaram milhões de pessoas à morte ou à miséria. O presidente russo Vladimir Putin acertou em 20 de agosto quando, em uma reunião com a chanceler alemã Angela Merkel, disse que “é hora de abandonar a política irresponsável de impor valores estrangeiros, de impor a democracia sob regras estrangeiras, sem levar em conta detalhes históricos, étnicos ou religiosos, ignorando completamente as tradições de outras nações“.

A nova onda de refugiados e exploração política pela extrema direita

Agora que a OTAN está partindo, as mulheres afegãs estão finalmente se preocupando. Como se sua vida antes do Talibã tomar Cabul fosse fácil. Olga Rodríguez nos diz em seu extraordinário artigo que “elas não são as únicas que vivem sob terrível opressão”. Mas a geopolítica decide quem merece atenção e quem não merece (há os sauditas, por exemplo). Os refugiados na Europa são estigmatizados em demasiados quadrantes, alguns dos quais agora abanam a cabeça diante da situação no Afeganistão. Ontem, a Europa deportou a população afegã ou a trancou em centros de internação, diante de muitos silêncios. Hoje, a hipocrisia pública está enviando SOS’s para eles”.

Entretanto, este SOS internacional não é mais unânime quando a opção é acolher refugiados dentro de nossas fronteiras. Os partidos europeus de extrema direita – e no contexto espanhol podemos apontar claramente para Vox, cujo vice-presidente, Jorge Buxadé, numa demonstração de ignorância e racismo declarou que “99% dos muçulmanos afegãos são a favor da aplicação da lei Sharia” e, “entre eles, 85% são a favor do apedrejamento” – se opuseram à recepção, argumentando que não podemos deixar entrar pessoas com valores diferentes dos do Ocidente. E, além disso, alguns terroristas poderiam entrar sorrateiramente, fazendo-se passar por um pobre refugiado. Explorando o medo.

Os outros partidos europeus do restante espectro político – centro-esquerda, centro-direita e direita – responderam à xenofobia da extrema direita com mensagens de retirada [5]. Como eles também acreditam no discurso racista ou por medo de perder as próximas eleições, suas mensagens não diferiram das da extrema direita. Na França, Macron advertiu que irá conter os “fluxos de imigração irregular”. No Reino Unido, o gabinete de Johnson está se preparando para endurecer a lei contra a imigração irregular. A Áustria, onde o governo Sebastian Kurz insiste em continuar deportando afegãos mesmo após o triunfo do Talibã, tem uma postura dura. A Grécia também envia uma mensagem dura. “Nosso país não será a porta de entrada para uma nova onda de refugiados”, disse o Ministro da Migração Notis Mitarachi. Por sua vez, a Turquia começou a construir um muro na sua fronteira com o Irã, onde provavelmente chegarão migrantes.

Afeganistão, uma cabra entre dois leões

O Afeganistão, um ponto estratégico na Ásia Central, um importante ponto de passagem para possíveis rotas de hidrocarbonetos, compartilha uma fronteira com o Irã e a China, entre outros países. É um estado tipo tampão, um cenário no qual não apenas Moscou e Washington, mas também a China e alguns países da região – Irã, Índia, Paquistão – estão lutando por interesses e liderança. Por enquanto, parece que os vencedores da retirada da OTAN serão a China e a Rússia, que de acordo com algumas reportagens da mídia já estão chegando a acordos comerciais com o Talibã para a abertura de minas e gasodutos em algumas partes do país.

Em 1900, o emir afegão Amir Abdul Rahman Khan descreveu o Afeganistão como “uma cabra entre dois leões“. Os leões parecem ter agarrado a cabra em seus dentes, estão puxando-a para ambos os lados e não se importam se ela se rompe, contanto que eles consigam um pedaço dela.

Notas:

[1] Ver “As feministas brancas queriam invadir”, de Rafia Zakaria, em A Nação.

[2] Sobre como os EUA financiaram os mujahideen afegãos e permitiram que o regime talibã tomasse o poder, recomendamos o artigo “As raízes do movimento talibã”, escrito por Ana Cabirta Martín e publicado em El Salto.

[3] Nas últimas quatro décadas, o Afeganistão foi um dos países que gerou mais refugiados no mundo, mas a Europa só aceitou meio milhão. Em 2015 e 2016, havia mais requerentes de asilo afegãos do que sírios e iraquianos.

[4] Neste verão foi descoberto que o governo de Aznar doou 17.000 toneladas de armas ao Afeganistão em 2003. Há algumas semanas, o governo de Sánchez admitiu que não tinha ideia do que havia acontecido com essas armas.

[5] Para maiores informações sobre as reações dos líderes europeus, ver ‘La extrema derecha agita el fantasma de una nueva crise migratoria que despierta temor entre los líderes europeos’, de Ángel Muñárriz, em InfoLibre.

Fonte: https://www.todoporhacer.org/afganistan/

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/27/espanha-o-taliba-e-a-guerra-contra-as-mulheres/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/26/espanha-qatar-messi-e-terrorismo-islamico/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/23/espanha-o-afeganistao-e-as-guerras/

agência de notícias anarquistas-ana

Pé de ipê!
Dá dó de varrer
o tapete lilás.

Cumbuka

[Chile] Jornada Comemorativa em Santiago: 23º aniversário da morte da companheira Claudia López

A 23 anos do assassinato de Claudia López: Nenhum Minuto de Silêncio, Toda uma Vida de Combate!

Desde os cantos mais inquietos da memória, nos auto-convocamos, tanto companheirxs que conhecíamos a Claudia desde uma fraternidade rebelde como também quem, sem conhecê-la, nos reconhecemos em sua experiência de vida e de luta, para continuar com o combate ao esquecimento, ajudando a não deixar que a história se escreva por si só, nos somando àquela enxurrada de recordações que se difundiu em práxis e resistência, multiplicando-se e expandido-se através de bibliotecas, centros sociais, atividades, combates nas ruas, ações, faixas, cartazes, murais e panfletos.

Esta vez desde nosso olhar, desde nossa lembrança, com raiva e dor, com nossas derrotas parciais mas também com as árduas vitórias, pretendemos levantar, longe das verdades inquestionáveis, um exercício/práxis de memória e voltar a percorrer os passos que levaram este 11 de setembro de 1998 a companheira Claudia López, a Chica Claudia, com seus 25 anos, a caminhar até o povoado La Pincoya, onde deixou sua vida na rua, assassinada pelas balas policiais, tiros afiançados por um Estado sempre a serviço do capital e dos poderosos. Destes fatos e desta realidade não há dúvida alguma, apesar das infâmias jornalísticas ou manobras jurídico-policiais.

Que a Chica estivesse nessa noite em La Pincoya não obedece à casualidade ou algum impulso rebelde momentâneo, mas sim a uma decisão e a um caminho traçado desde anos envolvida em lutas e enfrentamentos nas ruas, tanto em universidades como em distintas localizações, da mesma forma em sua ativa participação em coordenações combativas, somando forças entre distintas experiências autônomas e lutas anti-estatais.

Ao longo destes anos, muito se comentou a respeito da militância política da companheira, esta sem lugar a dúvidas não pode ser compreendida desde categorias únicas e determinantes, mais ainda quando eram tempos, que a partir de um acertado questionamento a um marxismo dogmático por parte de quem apostava por revitalizar uma prática ofensiva contra o poder e o capital, se gera uma aproximação entre tendências de um marxismo revolucionário, o anticapitalismo e a autonomia, com o anarquismo. É nesse espaço que a Claudia se movia, sem negociar com tonalidades médias.

Eram tempos também de sequelas palpáveis de uma transição nauseabunda; tempos de consolidação de um capitalismo selvagem gestado sob a proteção dos fuzis e botas militares e administrado servilmente pelos governos “concertacionistas” da época; tempos em que muitxs baixaram a guarda sob a falácia que deslocada a besta ditatorial a luta carecia de sentido, evitando aceitar que continuavam mandando os mesmos em uma democracia que não é mais que uma forma mais sofisticada de um regime autoritário. Neste contexto, muitxs também, desde uma lucidez insurreta, optaram por manter viva uma chama rebelde e combativa para assim fazer frente a uma realidade asfixiante, Claudia estava entre elxs.

É por isso que, sem medo de equivocar-nos, mantemos a clareza do caminho da Chica Claudia, desde as lutas estudantis durante os últimos anos da ditadura aos combates durante a transição democrática, e para quem compartilhamos trincheira com ela resgatamos a relação de companheirismo que forjamos, organizando-nos por afinidade, com objetivos comuns, pisando as mesmas ruas, defendendo as mesmas barricadas que não pararam de ser erguidas até hoje.

Já se passaram 23 anos desde que aquelas balas policiais crivaram o corpo da Chica, hoje longe das estruturas judiciais e dos cantos vitimistas, buscamos armar nossa memória com ofensiva e combate, unindo distintas gerações para dar continuidade à luta contra a ordem imperante.

Resgatar a história da Claudia não é só resgatar um passado relativamente recente, mas também tirar do esquecimento experiências e vivências para projetar a luta desde o presente. Buscamos sabotar os mecanismos da amnésia fazendo propagar a dança rebelde da companheira em todos cantos onde surjam caminhos de negação ao mundo dos poderosos. As balas que assassinaram Claudia, seguem assassinando a distintxs companheirxs e ainda permanecem impacientes para serem descarregadas sobre aquelxs que questionem o Estado.

Próximo à nova comemoração do assassinato policial, fazemos um chamado a cada companheirx, individualidade, coletivo, grupo, organização e iniciativa para que levantem sua própria atividade ou propaganda na multiforme variedade que possa ter a memória, tomando em suas mãos o trabalho coletivo para que esta data não passe despercebida.

Desde esta coordenação, estamos convocando uma atividade para comemorar nossa companheira caída em combate no sábado 4 de setembro com uma multiformidade de ações para recordá-la em nossos corações negros. Iremos desde o mural, passando pelo comida comum, a dança, a trova, oficinas, leituras e bandas que se juntarão à nossa ação neste dia.

Chamamos, ademais, a propagar e estimular esta e outras iniciativas. Desde as ruas de La Pincoya, Santiago Centro ou Temuco até qualquer rua nas urbes de outros países: que a memória saiba viajar e ser traduzida no único idioma possível, o do conflito com o existente e a memória negra de nossos corações, que também são negros.

A 23 anos dos assassinato da companheira Claudia López, retomamos a frase que a companheira criou em seu momento: Juventude combatente, insurreição permanente!

– Kali Subversiva

– Memoria Negra

Santiago

Território dominado pelo Estado Capital $hileno

Agosto 2021

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/03/28/chile-cartaz-em-memoria-das-companheiras-norma-vergara-e-claudia-lopez/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/09/12/chile-companheira-claudia-lopez-presente-recompilado-de-textos/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2015/09/17/chile-nem-esquerda-nem-direita-nem-fascismo-nem-democracia/

agência de notícias anarquistas-ana

Borboletas e
aves agitam voo:
nuvem de flores.

Bashô

[Espanha] À merda!

Este ano de 2021, o genial escritor e cineasta Fernando Fernán-Gómez teria cumprido cem anos; quando faleceu, em novembro de 2007, uma bandeira anarquista cobriu o seu caixão.

Ao contrário de Berlanga, outro ácrata genial, se bem que com claras diferenças vitais e ideológicas entre ambos, não parece que proliferem as homenagens de uma figura chave na cultura contemporânea deste indescritível país. O espírito libertário de Fernán-Gómez, com segurança, germinou em sua adolescência durante a maldita Guerra Civil, quando se inscreveu em uma escola de arte dramática da CNT, onde teve alguns de seus melhores professores de declamação; seu tio, pertencente à Confederação Sindical, o manteve próximo de numerosa propaganda ácrata.

Certo é que, durante o cruel franquismo, Fernán-Gómez teve que aceitar contínuos personagens estúpidos em filmes de escassa importância; em seus inícios, durante muitos anos, sua vida não esteve isenta de necessidade, desalento e desesperança. Seu incrível talento interpretativo, em qualquer caso, sempre esteve por cima das produções em que interveio como ator.

O inefável cinema religioso, pueril e maniqueísta, do franquismo, teve uma exceção com Esa pareja feliz [Esse casal feliz], co-dirigido por Juan Antonio Bardem e, precisamente, por Luis García Berlanga, uma obra que pode assemelhar-se ao neorrealismo italiano, e onde Fernán-Gómez aportou seu inquestionável talento.

Falamos de um cara que, obviamente, não foi só um intérprete, sua condição intelectual foi forjada em inumeráveis tertúlias [debates] em cafés, alguns dos quais era, supostamente ao menos, certo reduto de liberdade durante a cruel ditadura.

Teriam que passar bastantes anos para que um autor imprescindível, um pouco oculto durante certo tempo, pudesse trabalhar em melhores obras. Acabou escrevendo e dirigindo filmes que hoje são imprescindíveis em qualquer filmoteca que se preze. La vida por delante [A vida adiante], El mundo sigue [O mundo segue], El extaño viaje [A estranha viagem]… obras protagonizadas por pessoas humildes, críticas, satíricas e tão cruéis como o tempo em que se gestaram.

Especialmente em El extraño viaje, talvez seu melhor filme, Fernán-Gómez, baseando-se em uma ideia de Berlanga e coescrita com Pedro Beltrán, constrói uma peça exemplar de humor irônico, um impagável quadro do repressivo provincialismo franquista. Mas, oficialmente, foi El viaje a ninguna parte, já realizada nos anos 80, seu filme mais valorizado; se trata de uma terrível crônica que recorre a vida dos comediantes nos caminhos daquela triste e cinza Espanha dos anos 50. A profissão que tão bem conhecia seu autor.

Quase durante os quarenta últimos anos de sua vida, Fernán-Gómez esteve ao lado de Emma Cohen, outra figura a reivindicar; uma mulher vivaz e comprometida, que viveu o Maio francês e que tinha as mesmas vontades de seu companheiro de criar e mudar o mundo. Nessa época, talvez muito condicionada por seu par, quando nosso autor vive os melhores anos profissionais, com memoráveis papéis no teatro e no cinema de indubitável qualidade.

Fernán-Gómez dirigiu o filme Mi hija Hildegart [Minha filha Hildegart] em 1977, uma obra que, sem dúvida, tem um interesse histórico e ideológico; baseada na crônica do escritor, e também libertário, Eduardo de Guzmán, recorre uma história real incrível. Aurora é uma feminista convicta que decide ser a mulher perfeita que encabeçará a causa libertadora feminina. Hildegart será, já aos 18 anos, toda uma instituição nos ambientes intelectuais e revolucionários de Madri, mas sua rebeldia contra o socialismo autoritário de sua mãe terminará por chegar.

Las bicicletas son para el verano [As bicicletas são para o verão] é, inquestionavelmente, uma das melhores obras teatrais que deu a este peculiar país; de tons autobiográficos, é narrada no sentido das aspirações de um grupo de pessoas que perde a ocasião histórica de mudar de vida e mudar a vida durante o conflito civil espanhol. A frase final da peça teatral já forma parte, também, da cultura popular e da história deste país, que tem tantos problemas com sua memória: “Não chegou a paz, chegou a vitória”.

A respeito da memória, recomendo fortemente a autobiografia de Fernando, El tiempo amarillo [O tempo amarelo], do melhor neste gênero literário. Em lembrança e homenagem a este homem, só podemos vociferar seu conhecido À merda! Sim, à merda os intermináveis cretinos, medíocres e reacionários neste inenarrável país.

Juan Cáspar

Fonte: http://acracia.org/a-la-mierda/

Tradução > Caninana

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/12/29/espanha-fernan-gomez-escola-acrata/

agência de notícias anarquistas-ana

A abelha tristonha
— fauna e flora devastadas —
produz mel amargo.

Leila Míccolis

[EUA] Atualização: a saúde e a situação jurídica do caso Mumia Abu-Jamal

Por Mumia Abu-Jamal | 30/08/2021

Minha família, meus amigos e amigas, irmãos, irmãs e camaradas. Escutei que muitos de vocês se preocupam por minha saúde. Quero assegurar-lhes que me sinto muito melhor do que me senti em meses recentes. De novo, estou recuperando minha saúde e caminho sem cessar.

Ao que parece, escutaram que estou em quarentena, mas isto é porque uma pessoa, na realidade duas pessoas neste pavilhão, obtiveram resultados positivos para COVID-19. Eu só havia recebido uma dose da vacina ao invés das duas necessárias. Por isso, me colocaram em quarentena junto com dois homens que tampouco tinham recebido as duas doses.

Não me informaram se os resultados de meu exame saíram positivos ou negativos, mas quero lhes assegurar que me sinto bastante bem. Agradeço muito preocuparem-se por mim e me apoiarem.

Com respeito a minha situação jurídica, seguimos esperando. Isto é um jogo de espera. Sempre foi e talvez sempre será. Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã, mas lhes manteremos informados e os levarei em meu coração como vocês têm me levado nos seus. Agradeço-lhes.

Fonte: https://amigosdemumiamx.blog/2021/08/31/actualizacion-la-salud-y-el-estado-del-caso-juridico-de-mumia/

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/05/21/eua-situacao-de-mumia/

agência de notícias anarquistas-ana

a cigarra canta
enquanto orquídeas florescem:
cada um na sua

Gustavo Felicíssimo

Invasão de capivaras agita a guerra de classes na Argentina

Presença crescente dos roedores no condomínio exclusivo Nordelta, ao norte de Buenos Aires, reativa as vozes favoráveis a uma lei de uso dos pantanais e desencadeia um debate público sobre os privilégios dos ricos

Por Mar Centenera | 25/08/2021

Há pouco mais de 20 anos, o Nordelta, um dos condomínios privativos mais exclusivos da Argentina, era um pantanal. A construção de casas com jardins nessa região do delta do Paraná, em que hoje moram por volta de 40.000 pessoas, alterou o habitat de numerosas espécies, entre elas as capivaras. Os roedores, cuja população por ali é de aproximadamente 400 animais, hoje procuram nos gramados e nas plantas decorativas o alimento que não encontram no outro lado e passaram a ser motivo de preocupação para alguns moradores ao se transformar no centro de um debate sobre o avanço humano nos pantanais, além de uma fonte inesgotável de memes sobre a suposta luta entre os ricos e os animais.

A capivara é o maior roedor do mundo. Os adultos podem chegar a pesar até 60 quilos e medir 1,30 metro de comprimento. São vegetarianos, anfíbios e vivem em colônias. Os moradores do Nordelta estão acostumados à convivência com os animais, que até mesmo dão nome a um dos 24 bairros em que está dividido o grande condomínio construído 40 quilômetros ao norte de Buenos Aires, com vistas ao rio e docas exclusivas. No entanto, denunciam que, nos últimos meses, o número de animais cresceu, levando os bichos a protagonizar danos aos jardins, ataque a animais de estimação e até mesmo acidentes de trânsito.

“Quero que retirem as capivaras porque atacaram meu cachorro no meu próprio jardim. Quase o matam”, afirmou uma moradora ao jornal Clarín. “Morderam sua barriga e as pernas. Agora meu cachorrinho não quer mais sair. Treme o tempo todo e meu jardim, mesmo cercado, continua sendo invadido pelas capivaras”, acrescentou a mulher.

A Associação de Moradores do Nordelta denuncia que “a atividade dos animais cresceu 17% somente no último ano”, o que fez com que alguns moradores estejam “muito preocupados pela ação das capivaras”, enquanto outros “pensam na preservação sem mudanças da fauna como primeira premissa”. Moradores como Gustavo Iglesias dizem que viveram em harmonia com os animais durante uma década, mas que, a partir de 2019, houve “um crescimento explosivo da quantidade de animais”, o que continuou no ano seguinte. Diz, também, que há o risco de que “o número possa duplicar e sextuplicar em um ou dois e três ou quatro anos, respectivamente, caso uma boa quantidade dos animais não seja retirada”. Para lidar com a situação, pediram a intervenção da Direção de Fauna e Flora da província de Buenos Aires.

“Nos últimos anos ocorreu uma destruição importante de áreas que não eram ocupadas, foram desmatadas para construir e as capivaras não têm outra opção além das regiões com casas em sua procura por novos espaços”, alerta a pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet) María José Corriale.

A proliferação de capivaras ativou a discussão sobre o avanço dos grandes condomínios privados em terras virgens. Mas, também, agitou um outro debate: o dos ricos que se isolam em áreas exclusivas sem respeitar a natureza ao redor. As capivaras se transformaram, dessa forma, na linha de frente de uma guerra de classes que, sinal dos tempos, foi travada nas redes sociais. Os roedores protagonizaram centenas de brincadeiras e memes virais em que são vistos lendo O Capital, transformados em ‘Capi-Marx’ armados como guerrilheiros, respeitando a distância social melhor do que os humanos e apontados como candidatos a estampar a (ainda não existente) nota de 2.000 pesos por serem “patriotas da natureza argentina”.

O fato de a invasão ter ocorrido no Nordelta alimentou ainda mais a polêmica. É símbolo de um paraíso construído para milionários, onde moram grandes empresários, artistas, atletas e todo aquele que pode ter uma boa renda. Em 2017, o país viu viralizar o áudio de uma moradora que se queixava de que no Nordelta havia moradores que “não são pessoas ruins, mas que vêm de bairros visivelmente não muito bons”. “Eu quero descansar visualmente, porque tenho valores morais e estéticos”, dizia, traçando um perfil duro das classes altas na Argentina. Tempos depois foi divulgado o protesto de uma empregada doméstica que era proibida de tomar o ônibus com os moradores. As capivaras só reavivaram a chama da “esnobe do Nordelta”.

Enquanto isso, os especialistas tentam resolver o impacto ambiental. Adelmar Funk, especialista em fauna, concorda com María José Corriale: “A capivara come a vegetação de rios e lagoas, o pasto tenro que cresce com a umidade do solo. Com tanta carga animal, é provável que o pasto da margem não seja suficiente e elas tenham o bairro ao lado, com pessoas que plantaram jardins e hortas”. Na sua opinião, a ausência de predadores permitiu que a população de capivaras crescesse acima do que ocorreria em um habitat selvagem. Além disso, a atitude de alguns moradores agravou o problema: “Algumas pessoas, em vez de espantá-las, enxergavam os animais como um bicho pitoresco, simpático e começaram a gerar uma relação que não é natural. Aparecem em imagens dando beijinhos, dividindo a piscina e passeando com elas como se fossem cachorros. Os animais, desse modo, mudaram seu comportamento, deixaram de temer os humanos e conquistaram seu ambiente”, afirma.

Para os dois especialistas, enviar os animais para um outro lugar não é a solução. Por um lado, por conta de sua grandes dimensão, peso e pela dificuldade para capturá-los. Por outro, pelo impacto que os animais podem causar no novo local escolhido. “Acho que, no curto prazo, é preciso trabalhar com medidas que permitam a convivência com a espécie e focar em alguns conflitos como os acidentes de trânsito. Para evitá-los é possível diminuir a velocidade máxima permitida nas horas de maior atividade dos animais”, diz Corriale.

Funk aposta em quebrar a relação dos moradores com os animais, bem como colocar cercas nas casas para impedir a entrada dos bichos: “É provável que, ao faltar alimento nas margens e diante de uma restrição de acesso ao condomínio, os animais procurem outros lugares. Assim, conseguiríamos uma redução da população”.

O debate voltou a dar voz aos que pedem uma lei dos pantanais que detenha o avanço dos humanos sobre esses ricos ecossistemas, fundamentais como reserva de água doce, reguladores de inundações e casa de uma grande biodiversidade. No delta do Paraná, o segundo rio mais importante da América do Sul atrás do Amazonas, os pantanais são ameaçados pelos negócios imobiliários, mas, também, pelos incêndios provocados por ação humana para abrir caminho para a pecuária e a agricultura.

Fonte: https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-08-26/invasao-de-capivaras-agita-a-guerra-de-classes-na-argentina.html

agência de notícias anarquistas-ana

os raios de sol
iluminam de manhã
o velho farol

Carlos Seabra

[Espanha] Um século de anarquismo em Durango

Galo Díez fez um discurso na cidade em 1920 e anos depois, em 1934, um grupo local foi acusado pelo assassinato do chefe da Guarda Urbana, Ignacio Rojo, também um repressor do movimento nacionalista basco.

Um grupo anarquista assassinou um policial em Durango em 2 de janeiro de 1934. Emergindo 20 anos após a formação da CNT em 1° de novembro de 1910, o movimento na cidade da Biscaia tinha sido tão perseguido por este chefe da Guarda Urbana que eles não hesitaram em matá-lo. Ou, pelo menos, eles foram culpados pela morte. O nome do homem assassinado era Ignacio Rojo e era bem conhecido como repressor, também obcecado com o movimento nacionalista basco da cidade.

Às 19h20 daquele dia, depois que o tradicionalista Rojo acompanhou o prefeito do município, o chefe da polícia municipal foi esperado por várias pessoas na rua Olmedal e foi baleado três vezes, o que causou sua morte apesar de ter sido levado à farmácia Sanroma na rua Uribarri, que ainda hoje está aberta.

Os garantes da sigla anarco-sindicalista na cidade da Biscaia foram, entre outros, os seguintes Fermín Manteca, Simón Marco, José María Larrinaga, León Escalona, Balbino Morado, Esteban Nicolás Barreña, Antonio Lafuente, Carlos Bilbao, Mauricio Aizpurua e Epifanio Osoro.

Após o assassinato de Ignacio Rojo, a Brigada Social de Bilbao enviou um caminhão carregado de guardas de assalto para a cidade. Eles prenderam Juan Ibarra, Francisco Raposo e Balbino Morado. Eles também procuraram Barreña e Aizpurua, que, segundo informações fornecidas pelo pesquisador José Ángel Orobio-Urrutia, que estudou este evento em profundidade para o anuário Astola de Gerediaga Elkartea, “fugiram de bonde. Eles foram presos dias depois”.

O coordenador dos anarquistas, José María Larrinaga, não participou da operação. Ele estava preso e em recuperação no hospital porque dois meses antes “sua arma havia sido disparada”. Nem Osoro e Longarte, anteriormente presos por insultar as autoridades, participaram da vingança.

O funeral de Rojo, presidido pelo governador civil e o prefeito da cidade, contou com a presença, entre outros, de Marcelino Oreja e outros líderes tradicionalistas. A sessão plenária concordou em conceder uma pensão vitalícia a Luciana Miguel, viúva do policial assassinado, e seus quatro filhos. Paradoxalmente, após a Guerra Civil, o apoio da viúva foi retirado por causa das “simpatias de esquerda”. “Ignacio Rojo acusou, entre outros, meu irmão mais velho, mas após sua morte seus parentes ainda eram nossos amigos”, segundo o testemunho de Alberto Barreña, irmão de Esteban Nicolás, miliciano do batalhão Cenetista Malatesta do Governo Basco, que desapareceu durante a Guerra Civil. No final de 1935, Durango tinha cerca de 50 membros das Juventudes Libertarias, CNT e do Sindicato Único, assim como cerca de uma centena de simpatizantes.

O movimento realizou “proselitismo e doutrinação” entre o proletariado e “violentas ações diretas contra a igreja, o governo e os patrões burgueses” que “sujeitam os trabalhadores a condições desumanas de trabalho de exploração”. Nesse mesmo ano, 1934, sindicalistas de Durango foram presos por vandalizar cruzes e distribuir propaganda. Mesmo em 2 de maio houve um confronto armado em Kuru-tziaga entre Larrinaga, Osoro e Raposo e três guardas civis.

Era o ano da Revolução de outubro. A revolta foi apoiada pelos trabalhadores da cidade com confrontos armados contra as autoridades. Entretanto, vale lembrar também que, durante a Guerra Civil, os anarquistas se posicionaram no bloco em defesa da República. Em Durango, eles atuaram ao lado de nacionalistas e socialistas bascos na Junta de Defesa Local, na Junta de Investigação de Propriedades. Eles se juntaram aos batalhões da CNT Bakunin, Malatesta e Isaac Puente. “Mortes em combate, fuzilamento, prisão, exílio e repressão de Franco significaram que o movimento anarco-sindicalista em Durango não se desenvolveu novamente até a morte do ditador Franco”, ilustra Orobio-Urrutia.

OS ALBORES  

Se voltarmos à aurora do anarquismo em Bizkaia, ou seja, aos anos 1920, os Sindicatos Únicos agrupados sob a Confederación Regional del Trabajo del Norte registraram até 4.000 membros. Orobio-Urrutia estudou a impressa da CNT na cidade da Biscaia. A “escassa” adesão foi divulgada através de assembleias e comícios.

O famoso tribuno anarquista de Bilbao, Galo Díez, fez um discurso na cidade em 1920. Pouco tempo depois, Fermín Manteca, Simón Marco e outros cinco homens foram presos sob acusações de propaganda ilegal e incitação à desordem. O movimento libertário em Durango foi liderado por Larrinaga. Eles eram jovens trabalhadores, filhos de trabalhadores e a maioria vivendo no bairro antigo. Em 1932, a polícia apreendeu 445 quilos de proclamações libertárias e comunistas em Bilbao. De acordo com vários documentos, as proclamações continham “ataques violentos contra a Maçonaria, a República e os políticos republicanos”.

Em maio de 1932, Larrinaga e Escalona foram presos sob a acusação de colocar panfletos que “incitaram os trabalhadores à violência”, embora tenham sido libertados. Em 15 de setembro, o chefe da Guarda Municipal, o tradicionalista Ignacio Rojo, informou ao prefeito que havia prendido Morado, Barreña, Lafuente, Larrinaga, Bilbao, Aizpurua e Osoro por assembleia ilegal.

Quando foram revistados, descobriram que traziam folhetos anarquistas. Rojo sofreu uma “obsessão pessoal” com a “perseguição de elementos sindicalistas na cidade”. A Direção Geral de Segurança criou uma inspeção de vigilância para reprimir os nacionalistas e anarquistas bascos. Os agentes de vigilância denunciaram ao prefeito que Rojo se recusou a fornecer informações sobre “indivíduos extremistas”. Sob pressão do prefeito, o chefe local justificou que ele estava encarregado da perseguição. Ele alegou que Raposo, Bilbao e Barreña fugiram de suas casas de família para Zaragoza.

Em janeiro de 1933, a CNT e a FAI denunciaram as condições “deploráveis” dos trabalhadores. Eles apelaram para a insurreição que, por “contágio revolucionário”, levou à revolução libertária. A agitação chegou ao Euskadi com uma “repressão feroz”, onde ocorreu uma ginástica revolucionária: tentativas de revolução que “aperfeiçoaram a tendência à insurreição popular”.

Uma remessa de 250 bombas de 180 quilos foi enviada da Catalunha para Portugalete. Durante a entrega, a polícia prendeu José María Larrinaga de Durango. Como resultado, Rojo, juntamente com a Guarda Civil, colocou “à disposição” do Governador Civil os vizinhos locais, como Echaburu, Emeterio e Francisco Raposo, Juan Ibarra, Barreña, Aizpurua, Osoro e Morado. Eles foram acusados de explodir dinamite em Bitaño. Dois quilos de explosivos foram encontrados em um pombal ao lado da casa de Epifanio Osoro em Artekalea. Eles foram presos na Prisão Provincial de Bilbao, de modo que em 12 de junho a CNT organizou um ato de denúncia, que foi banido pelo governador civil e assistido por sindicalistas de Bizkaia e Nafarroa. A polícia e as tropas de assalto, no entanto, impediram a reunião. Dado o número de mulheres e crianças presentes, o evento foi realizado nos campos da cidade, sob forte guarda das forças de assalto. Meses depois, o caso contra Larrinaga e oito companheiros, acusados de posse ilegal de explosivos, foi ouvido. O veredicto não os culpou. Mas Rojo informou o prefeito sobre o aparecimento de folhetos que haviam sido colocados sem permissão. Eles anunciaram um comício cenetista em Bilbao.

Rojo denunciou Emeterio Raposo, Barreña e Larrinaga como os autores. O assédio contínuo teve consequências fatais. Em 2 de janeiro de 1934, o policial Ignacio Rojo foi ferido mortalmente, com três balas alojadas em seu corpo.

Fonte: https://www.deia.eus/actualidad/historias-de-los-vascos/2021/08/22/siglo-anarquismo-durango/1145298.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Quase escondida
entre a casca e o tronco
teia de aranha.

Rodrigo de Almeida Siqueira

Pietro Ferrua, um anarquista

Em 28 de julho de 2021, faleceu aos 91 anos em Portland, Oregon, EUA, o anarquista Pietro Ferrua. Nascido em San Remo (Itália) era poliglota, professor emérito do Lewis Clark College, e foi um instigante estudioso das artes plásticas e do cinema.

Conhecemos Pietro Ferrua, um italiano forte de físico e nas decisões, suave e amigo presente desde nosso primeiro encontro em São Paulo, durante o evento Outros 500. Pensamento libertário internacional, realizado em 1992, no TUCA- Teatro da PUC-SP.

Pietro Ferrua contribuiu frequentemente com diversas associações anarquistas, muitas vezes expondo a sua minuciosa reflexão sobre a arte e a anarquia. O Nu-Sol publicou em parceria os volumes Arte e anarquismo e Surrrealismo e anarquismo na Coleção Escritos Anarquistas que trazem firmes e instigantes reflexões de Ferrua.

Na revista verve, fez parte do conselho editorial, desde sua instauração em 2002, e nela também publicou onze artigos e a peça teatral Iphigenia em utopia.

Ferrua foi um dos fundadores do CIRA (Centre Internationale de Recherche sur l’Anarchisme), então sediado em Genebra, em 1957, considerado um dos principais arquivos-monumento dos anarquistas, até hoje vivo e atuante. No Rio de Janeiro, em plena ditadura civil-militar criou a versão brasileira do CIRA, como Centro Brasileiro de Estudos Internacionais (1965). O arquivo principal encontra-se publicado na revista verve, organizado e apresentado por ele em três movimentos.

Ferrua teve três filhos com sua companheira de vida a musicista e compositora Diana Lobo Filho. Escreveu muitos livros, produziu peças de arte midiáticas, foi professor, tradutor e grande companhia libertária em conversações regadas a boas comidas e bebidas.

www.nu-sol.org

agência de notícias anarquistas-ana

o véu da cascata
nesta noite de luar
finas gotas frias

José Marins

[EUA] Tinta, anarquia e a história da cooperativa de impressão de Detroit

A autora Danielle Aubert investiga o passado de uma cooperativa radical que se propôs a libertar a palavra impressa. Palavras de Jonathan McAloon, 27 de junho de 2021

Nas décadas de 1960 e 1970, as operações de impressão comercial não queriam ser associadas à literatura radical. O resultado foi que a impressão clandestina teve um apogeu. Incluindo associações anarco-marxistas como a lendária Detroit Printing Co-op, criada por Fredy Perlman, um economista e anarquista nascido na Tchecoslováquia, formado em Columbia, e Lorraine Perlman (nascida Nybakken), violinista e professora de matemática.

Conforme relatado por Danielle Aubert em The Detroit Printing Co-op: The Politics of the Joy of Printing, Fredy Perlman viajou de Torino (onde estava ensinando) para testemunhar os levantes de Paris de maio de 1968. Lá ele se dedicou à organização, vendo no trabalho manual de produção de folhetos uma forma de unir os papéis de operário e intelectual. Ele voltou para Michigan e se estabeleceu em Detroit, um centro de atividade política negra e de esquerda, bem como de manufatura.

Os Perlmans montaram uma impressora offset Harris de 50 anos em frente a uma fábrica da Cadillac no sudoeste da cidade, trabalhando com um estoque com desconto ou doado de papel não utilizado de outras impressoras. O maquinário era pesado e perigoso de operar, mas qualquer um podia usá-lo, desde que ajudasse na manutenção e ajudasse nos projetos uns dos outros.

Perlman “nunca antes… se sentiu tão estimulado intelectualmente” como ao configurar a impressora e dominar seus processos, diz Aubert. Ele acreditava na livre disseminação de idéias: em 1961, imprimiu 91 cópias de sua obra, The New Freedom: Corporate Capitalism, em uma máquina de mimeógrafo, e então incentivou leitores a fazer suas próprias cópias. Se ele tivesse vivido além de 1985, a internet utópica e desregulada teria sido, com certeza, seu elemento.

A Detroit Printing Co-op publicou revistas para a Black & Red (que se tornou e continua sendo uma editora radical) e para a Radical America, fundada pelo amigo de Perlman, Paul Buhle. Junto com as obras de Grace Lee Boggs e do marxista trinitário CLR James, eles também imprimiram 30.000 cópias de uma tradução “não autorizada” do texto situacionista de Guy Debord de 1967, The Society of the Spectacle, sua produção mais popular e influente.

“Perlman tornou-se sua própria síntese ideal de intelectual, trabalhador e produtor”

Perlman experimentou a impressão em offset em várias cores, inserindo imagens em silkscreen no texto dos livros como uma extensão do significado. Ele se tornou sua própria síntese ideal de intelectual, trabalhador e produtor, uma ideia herdada do sociólogo radical C Wright Mills. Sendo generoso, você poderia ver Perlman como um precursor do tipo de autor contemporâneo cujos textos são informados por sua própria seleção de imagens embutidas.

Professor Associado de Design Gráfico na Wayne State University, Aubert tenta no livro catalogar todos os textos impressos pela Co-op ou associados ao seu ethos. Imagens de tantas quantas podem ser encontradas (incluindo jornais radicais do colégio, calendários e avisos para a vizinhança) são reproduzidas com amor. Às vezes, eles são impressionantes; às vezes, são fac-símiles de páginas inteiras digitadas no Courier. Mas muito parecido com as colagens de Fredy de suas próprias palavras, longas citações de outros e imagens, esses fac-símiles produzem o efeito de um texto momentaneamente cedendo lugar a outro.

Há um tema recorrente, sobre como é difícil efetuar mudanças. As passagens mais esclarecedoras são relatos de pessoas sem a mistura de princípio, impulso e capacidade que permitiu aos Perlmans produzir projeto após projeto.

Organismos estudantis mal administrados tentam organizar protestos. Ninguém aparece. Os Perlmans imprimem um folheto convidando os locais a “colaborar… na produção de uma publicação sobre como era viver e trabalhar em Detroit”. Apenas uma pessoa responde. Logo no início da descrição de um boletim informativo que visa radicalizar “secretários não administrativos, arquitetos, artesãos e engenheiros… na área de Detroit”, somos informados: “Esses esforços de organização não tiveram sucesso”.

Se ele tivesse vivido além de 1985, a internet utópica e desregulada teria sido, com certeza, seu elemento.

Mas o que emerge com mais força é a incansabilidade dos Perlmans. Não parece ter havido um momento em que eles não estivessem escrevendo ou traduzindo um novo texto. Esses trabalhos anarquistas não estão amplamente disponíveis ou amplamente citados no mainstream, mas vemos momentos em que eles poderiam plausivelmente se juntar agora. Em The Continuing Appeal of Nationalism (1984), Fredy Perlman argumentou que “Depois da guerra nacional-socialista, o nacionalismo deixou de ser confinado aos conservadores… Nacionalistas de esquerda ou revolucionários insistem que… o deles é um nacionalismo dos oprimidos, que oferece libertação pessoal e cultural”.

Em Against His-Story, Against Leviathan! – talvez a obra mais conhecida de Perlman – ele declarou sua crença de que a “civilização” começou quando as pessoas começaram a se deslocar e escravizar, e que as formas de progresso são, em última análise, destrutivas para a ecologia. Se ele tivesse vivido em nossa época, talvez ele tivesse sido considerado um visionário convencional.

Fonte: https://elephant.art/ink-anarchy-and-the-story-of-the-detroit-printing-co-op-27062021/

Tradução > abobrinha

agência de notícias anarquistas-ana

À sombra, num banco,
folha cai suave
sobre meu cabelo branco

Winston

Encontro virtual | Discussão do livro “A Conquista do Pão”, de Piotr Kropotkin

Chegou o grande dia! Após semanas de leituras e debates no grupo de estudos, vamos nos reunir para discutir os principais pontos do livro A Conquista do Pão de Kropotkin. A discussão será transmitida ao vivo pelo Youtube sexta (03/09) às 20h. Todes são bem vindes para participar através do chat ao vivo (acesse o link abaixo).

https://youtube.com/channel/UCNUP8F8TENqrsoznjsaujuw

Nas sociedades civilizadas somos ricos. Como se explica então tanta miséria ao nosso redor? Para que este trabalho pesado que embrutece as massas? Por que a falta de segurança do dia de amanhã? têm-no dito e repetido a cada momento os socialistas com argumentos colhidos em todas as ciências. Porque tudo o que franquias baratas é necessário à produção: a terra, as minas, as máquinas, as estradas, o alimento, o abrigo, a educação, a ciência foi açambarcado por alguns, durante a vasta história de pilhagem, de êxodos, de guerras, de ignorância e de opressão, que a humanidade viveu antes de aprender a dominar as forças da natureza“. – Piotr Kropotkin

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/30/revista-do-centro-de-cultura-social-especial-kropotkin/

agência de notícias anarquistas-ana

Manhã de frio —
Apoiado num só pé
O papagaio dorme.

Paulo Franchetti

Vídeo | A Urgência das Crises Ecológicas – com Peter Gelderloos

Neste episódio de Vozes Anarquistas, Peter Gelderloos fala sobre como acredita que é a melhor forma de encararmos o desastre ambiental e as catástrofes climáticas que nos rondam.

>> Veja o vídeo (07:52) aqui:

https://antimidia.org/a-urgencia-das-crises-ecologicas-com-peter-gelderloos/

agência de notícias anarquistas-ana

Longa chuvarada…
Nos matos e nas lagoas,
um canto de vida.

Humberto del Maestro

Games e extrema direita | Pesquisa mostra como extremistas usam jogos para reforçar ideologias radicais

Estudo detecta ação de neonazistas e supremacistas nas plataformas Steam, Discord, Dlive e Twitch

Por Aldo de Luca | 25/08/2021

Os extremistas estão mostrando que não estão nos jogos para brincadeira. Games de estratégia ambientados em períodos históricos como a Segunda Guerra Mundial ou as Cruzadas podem ser muito mais do que um momento de diversão. Quando devidamente manipulados, podem ajudar a promover o neonazismo ou o ódio antimuçulmano.

Essa é apenas uma das estratégias identificadas por uma pesquisa britânica que mostrou como os jogos online vêm sendo cada vez mais usados pela extrema-direita para reforçar sua ideologia e construir ou fortalecer as comunidades extremistas existentes.

O estudo, que faz parte da série Gaming and Extremism, foi realizado por pesquisadores do ISD (Institute for Strategic Dialogue), que mapearam o uso no Reino Unido pela extrema-direita de quatro das plataformas mais populares relacionadas a jogos: Steam, Discord, DLive e Twitch. No total, foram analisados quase 300 comunidades e canais ligados a radicais. 

O Steam e o Discord são serviços de distribuição digital de videogames. A DLive e o Twitch são plataformas de transmissão ao vivo dos jogos. Todos permitem a criação de comunidades e que os usuários se relacionem entre si. E é aí que mora o perigo, segundo o ISD.

Com escritórios em Londres, Washington, Paris, Berlim e Beirute, a organização luta contra o extremismo e a polarização, e afirma que os resultados da pesquisa podem ser extrapolados para uma visão global do problema.

Jogadores de games chegam a quase 3 bilhões, a maioria jovens

Como acontece com as plataformas de mídia social, a conectividade proporcionada pelas plataformas de jogos online traz consigo uma série de riscos, permitindo que um grande número de pessoas em todo o mundo joguem, se relacionem – e possam ser influenciadas.

O potencial é enorme. A indústria dos games já supera de longe a de música e a do cinema. São nada menos do que 2,8 bilhões de jogadores em todo o mundo, a maioria deles jovens. Essa estimativa é da consultoria Newzoo, que calcula que quase três quartos (73%) dos britânicos na faixa dos 16 aos 24 anos jogam games.

Segundo o estudo do ISD, as comunidades que congregam esses jovens aficionados pelos games online têm desempenhado um papel importante na formação da cultura contemporânea de extrema-direita.

A influência é exercida por meio de comentários, links que conduzem aos sites de grupos violentos ou pelo compartilhamento de conteúdo extremista, incluindo transmissões ao vivo.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://mediatalks.uol.com.br/2021/08/25/pesquisa-mostra-como-extrema-direita-usa-games-para-reforcar-ideologia/

agência de notícias anarquistas-ana

a estação amua
fumo de castanhas
à esquina da rua

Rogério Martins

[Espanha] Casa Cornelio, a mítica taberna anarquista destruída por fogo de canhão durante a República

Um dos lugares mais populares de Sevilha foi destruído no verão de 1931 por ordem do Governo como um golpe para eliminar um lugar de encontro de grupos de esquerda e figuras proeminentes da época.

Por María Serrano | 14/08/2021

Foi apagada do mapa. Sem mais delongas. Uma das mais conhecidas tabernas anarquistas da cidade de Sevilha durante a Segunda República foi destruída com granadas durante a famigerada “Semana Sangrenta” no verão de 1931. A direita monarquista quis desmontar a imagem do novo governo. Eles iriam criar um embuste. A imprensa falava de motins ferozes e violência nas ruas. Cerca de vinte pessoas foram mortas em sete dias. E o governo republicano em Madri agiria em conformidade. Para reprimir os tumultos anarquistas e comunistas, a Casa Cornelio foi abatida em face de fervorosas reuniões militantes. Noventa anos após o fato, a família Cornelio nunca foi compensada, apesar da farsa. Seu bisneto, Antonio Ochoa, conversa com o Público para contar como o governo nunca explicou o que aconteceu. “Eles foram a Madri para reclamar e voltaram sem nada”, diz Ochoa.

Ruiz Trillo, a mais alta autoridade militar da cidade, foi pessoalmente responsável pela destruição da Casa Cornelio, em cujo local foi construída a atual Basílica de Macarena durante o pós-guerra, com o genocida General Queipo de Llano enterrado a seus pés. O historiador Francisco Espinosa aponta que tudo isso foi consequência da “direita mais reacionária que veio a controlar o Governo Civil em um processo que começou com a ocupação militar da cidade e culminou em vários episódios”, como a aplicação da “lei de fuga” a quatro prisioneiros no Parque de María Luisa em Sevilha e a destruição da “Casa Cornelio”.

Um lugar mágico

Antonio Ochoa sublinha ao Público como um testemunho vivo da família como aquele dono de taberna legou a seus filhos Ramón e Francisco Mazón um lugar único na cidade. Entretanto, ele lamenta como apenas um deles conseguiu escapar da repressão da guerra que não demorou muito a chegar. Ramón Mazón, o filho mais velho de Cornelio, escapou da barbárie e morreu aos 80 anos de idade. Francisco Mazón sofreu um destino pior. “Meu tio-avô foi baleado aos 40 anos de idade em setembro de 1936. Ele foi pedir um empregado da taberna no Governo Civil e, como proprietário daquele lugar, ele saiu três meses depois para ir ao muro”.

Ramón e Francisco Mazón dirigiam este bar desde a morte de Cornelio, desconhecendo as desgraças que viriam mais cedo ou mais tarde. “Nessa taberna, comunistas, socialistas, anarquistas e muitos grupos de esquerda se reuniam tradicionalmente, incluindo figuras históricas como José Díaz, assim como os irmãos Macarena da paróquia de San Gil”. Longe de conspirações políticas, aquela republicana Sevilha foi abalada por uma forte onda de conflitos trabalhistas que se seguiu um dia após o outro dia. O desemprego estava crescendo devido ao fechamento de empresas que coincidiu no tempo com o início da Segunda República.

José María García Márquez, historiador e especialista sobre a Guerra Civil e o pós-guerra em Sevilha, fala sobre a “semana sangrenta” ou “semana vermelha” do verão de 1931. Em seu livro, publicado pelo Aconcagua, La Semana sangrienta de julio de 1931 en Sevilla, ele fala sobre a gestação de um golpe, que levou cinco longos anos para terminar na Guerra Civil.

“Entre a história e a manipulação”, como diz o subtítulo do livro, foi seguido por uma série de incidentes muito graves. O primeiro deles foi o assassinato de quatro detentos no Parque María Luisa sob “a lei das fugas”, no qual participou uma conhecida figura de Sevilha, o General Manuel Díaz Criado. Este oficial militar se tornaria anos mais tarde “o braço executor da política repressiva de Queipo de Llano após o golpe de julho de 1936”, assinala García Márquez.

Outra das grandes consequências daqueles dias foi a destruição da Casa Cornelio, cujas supostas reuniões conspiratórias foram “desmanteladas pelos sindicalistas”. García Márquez disse que os trabalhadores “nunca teriam pensado em realizar reuniões em um bar a vinte metros do quartel da Guarda Civil, sempre cheio de confidentes e informantes e com guardas à porta”.

Essa imagem de instabilidade era prejudicial. E o governo queria colocar para baixo uma “revolta” que sabia de onde vinha. Largo Caballero pediu ao Ministro do Interior, Manuel Maura, uma solução rápida para o problema. Ochoa Castrillo afirma que “aquele Conselho de Ministros de 21 de julho aprovou por unanimidade um golpe com a demolição de uma casa que eles marcaram como um refúgio para anarquistas”.

Mas quem estava por trás da trama? Havia uma intenção de perturbar a República. Márquez sublinha como a taberna de Cornelio foi marcada como um “covil comunista e anarquista”. Ruiz Trillo foi apelidado de “General Cornelio que tinha em mente destruir cada foco esquerdista da cidade”, disse o historiador ao Público. Ele também afirma como o general, que passou à reserva em 1935, “teve tempo de escrever a Franco em fevereiro de 1939 para dizer-lhe o quanto lamentava não ter acompanhado o general nos dias do golpe”.

A odisséia da família Castrillo

A avó María, como lembra Antonio Ochoa, teve que recolher os pertences que tinham na taberna em menos de uma hora quando receberam o aviso de bombardeio. O bisneto de Cornelio conta que foi “o governador militar que deu apenas alguns minutos, mesmo sendo um lar de família”. Francisco Mazón, que dirigia o negócio com seu irmão Ramón, havia sido detido dias antes do bombardeio. “Meu tio tinha estado preso por quase oito dias. Foi minha avó quem reuniu o que pôde com pressa com meu outro tio. E, depois de dinamitá-lo, voltaram para debaixo dos escombros para recuperar o pouco que podiam”.

Os proprietários da Casa Cornelio não falariam mais desse lugar após as represálias do governo republicano. Antonio Ochoa afirma que sua família “só queria continuar com sua vida e alugou a casa vizinha, correndo até os anos 40 o popular bar Plata, que ainda está na mesma rua”. Ele acrescenta que “Ramón e Francisco foram a Madri meses depois para tentar fazer uma reivindicação formal da propriedade. Foi-lhes dito que era impossível solicitar qualquer coisa para não agitar o assunto”.

A imprensa da época falava sem parar dos acontecimentos da tarde de 23 de julho de 1931: “Às quatro horas da tarde, o trânsito foi cortado na área ao redor da Macarena, com a Guarda Civil e as forças de cavalaria do Exército na rua, e às cinco vinte e cinco o primeiro tiro de canhão foi disparado na casa de Cornelio”.

Não foram poucos os impactos que atingiram o edifício. Quase vinte. As fotos apareceram na primeira página dos jornais, devastadas pelas ruínas. “Às quatro e seis, o tráfego foi restaurado. A casa destruída foi desocupada”. Nasceu a lenda de uma taberna que testemunhou aquela República que levaria cinco longos anos para desaparecer.

Fonte: https://www.publico.es/sociedad/casa-cornelio-mitica-taberna-anarquista-destrozada-canonazos-republica.html

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Árvore curvada
tentando catar folhinhas
caídas no chão.

Lena Jesus Ponte