[Espanha] Por um encontro anarquista e/ou libertário em 2021

Hoje estabilizado o conflito social e esquecido o questionamento mesmo das bases do sistema capitalista pelas massas sociais.

Hoje quando os sistemas de proteção social se deterioram, privatizam e desmantelam, e se restringe seu acesso aos mais desfavorecidos, de forma que a assistência sanitária de qualidade já não está garantida.

Hoje quando o acesso a uma educação formal, desde faz muito desvalorizada, já não garante mobilidade social de nenhum tipo, em suma, o acesso a um trabalho precário.

Hoje quando a crise energética e ambiental não fez mais do que agudizar-se pela manutenção do perdulário modelo de produção e consumo imperante.

Hoje quando as “classes medias” intuem sua progressiva proletarização, quando o espaço de exclusão aumenta para jovens e imigrantes em paralelo com os trabalhadores precários ou sem emprego.

Etc…

Neste cenário é onde surgiram movimentos e partidos que tratam de ocultar que o problema é o próprio sistema enquanto os grupos libertários e/ou anarquistas, antagônicos ao sistema capitalista, a maioria das vezes atuamos de costas uns aos outros.

Ante esta situação, conscientes da imperiosa necessidade e do crescente interesse existente por encontrar pontos de colaboração entre estes diversos grupos, coletivos e indivíduos que nos movemos à margem das propostas de colaboração institucional, fazemos um enésimo chamado para um encontro onde debater as possibilidades de organização e/ou coordenação.

Dado que partimos de realidades muito diferentes, e de que o capitalismo já impregna todos os espaços vitais devemos recobrar a humildade, reconhecer que ninguém tem a verdade nem a resposta para tudo, separar as diferenças e propormos como obrigação o imenso, mas gratificante trabalho de construir um espaço de encontro, partindo das experiências já existentes, com as contribuições de todas as pessoas que estamos na luta diária.

A obrigação de consegui-lo é imperiosa, ninguém sobra e todas fazemos falta.

ateneolibertariocarabanchellatina.wordpress.com

Tradução > Sol de Abril

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A velha ponte –
No pó ajuntado entre as tábuas,
Brota o capim.

Paulo Franchetti

Encontro virtual | Anarquistas na América do Sul: escândalos libertários & tesão e anarquia, 09 de setembro

As práticas anarquistas, de diferentes maneiras, desde o final do século XIX até o presente, saúdam a existência livre e os prazeres da vida juntxs. Nas associações, no trabalho, na cozinha, nas festas, nas danças, nos amores, no sexo, nas artes, nos estudos, com as crianças e em meio à natureza… Muitxs anarquistas sabem que a vida se faz no presente, agora, e não se deixam prender pela sisudez, por uma causa, um ideal a ser alcançado no futuro. Esta mesa propõe conversas sobre as práticas libertárias escandalosas, que rompem com as formas rígidas e afirmam a vida contra a morte das formas, dos clichês e da ordem. Práticas que afirmam o escândalo e o tesão pela vida livre e libertária.

Das 10h às 13h | roda de conversa: escândalos libertários

> Elena Schembri
> Eliane Carvalho
> Flávia Lucchesi & Mauricio Marques
> Sebastián Stavisky
> Thiago Lemos Silva
Coordenação: Mauricio Pelegrini

Das 19h às 22h | mesa: tesão e anarquia

> Gustavo Simões
> João da Mata
> Leonor Silvestre
> André Liohn
Coordenação: Lucia Soares

Link de acesso: youtube.com/tvpuc

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Canta alegre o sabiá
faz folia o bem-te-vi
— natureza assovia

Rogério Viana

[Espanha] Cafiero, a ovelha negra

Por María del Carmen Taborcía | 24/02/2021

Carlo Cafiero (1846-1892) foi um anarquista italiano, amigo próximo de Mijaíl Bakunin e Errico Malatesta durante a segunda metade do século XIX.

Nasceu no seio de uma família rica, muito religiosa e aristocrata, muitos membros de sua família tiveram cargos públicos, no entanto, ele era considerado a “ovelha negra”.

Em 1864 se titulou em Direito e logo empreendeu uma carreira diplomática. Em princípios de 1870 viveu em Paris como hospede do pintor Giuseppe De Nittis, que o descreveu como “um bonito jovem, fascinante para as mulheres”. Logo viajou a Londres, onde manteve contatos com a I Internacional e começou a militar nas fileiras revolucionárias.

Em dita cidade estabeleceu contato com Marx e Engels, se uniu à Associação Internacional dos Trabalhadores e foi enviado à Itália para difundir o marxismo. Mas ali recebeu uma forte influência do coletivismo bakunista e o republicanismo de Giuseppe Mazzini.

Restaurou a seção antiga de ‘L’Internazionale’ em Nápoles, com a ajuda de Giuseppe Fanelli, Errico Malatesta, Carmelo Paladino e Emilio Covelli, uma organização obreira que havia sido proibida em 1871.

Cafiero põe em marcha um ambicioso plano: tentar construir uma casa na Suíça com o dinheiro recebido da herança de seus pais. Nesta casa tinha pensado alojar os revolucionários pertencentes à Internacional que corressem perigo em seus respectivos países.

O refúgio é batizado com o nome de “La Baronata”. Com esta ideia compra uma pequena vila próxima à fronteira italiana, na qual aloja Bakunin, e que o havia feito renunciar ao socialismo autoritário. Mas o projeto fracassou rotundamente, e para meados de 1874, Cafiero havia dilapidado quase toda sua fortuna. Com o resto do dinheiro, Cafiero financia alguns pequenos movimentos insurrecionais que não tiveram demasiada transcendência internacional.

Companheiro inseparável de Malatesta, compartilharam as teses do anarquismo comunista frente ao coletivismo. “Nós os anarquistas, amigos da liberdade, nos propomos combater os socialistas de Estado com todas as nossas forças. A anarquia, na atualidade, é uma força de ataque, sim, é a guerra à autoridade, ao poder do Estado. Na sociedade futura, a anarquia será a garantia, o obstáculo à volta de qualquer autoridade, e de qualquer ordem, de qualquer Estado. Livre o indivíduo para satisfazer todas as suas necessidades, em completa possessão de sua personalidade, segundo sejam seus gostos e simpatias, se reunirá com outros indivíduos para formar grupos e associações, livres as associações, se federarão no município ou no bairro, livres os municípios, pactuarão para formar a comarca e a região, e assim sucessivamente, até unir-se livremente toda a Humanidade”.

“Não queremos intermediários, não queremos representantes que acabam por representar-se a si mesmos, não queremos moderadores da igualdade que acabam por serem moderadores da liberdade, não mais novos Governos: não mais Estados, chamem-se populares ou democráticos, revolucionários ou provisórios. Não queremos intermediários e homens servidores, que acabam sempre por converter-se em verdadeiros amos”.

Carlo Cafiero, homem de pensamento e ação, pertencia ao ramo da família “que não tinha por costume ficar com todos os ganhos”.

>> María del Carmen Taborcíaé advogada e escritora.

Tradução > Sol de Abril

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chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo

Buson

Lançamento livro solidário ‘El Buen Trato’ e ‘Expropriação Anarquista’

Este material é um gesto solidário com Mónica Caballero e Francisco Solar, anarquistas presxs pelo Estado chileno desde junho de 2020. Os textos “Buen Trato” e “Expropriação anarquista”, escritos por Pascual Muñoz e traduzidos aqui para o português, narram a fuga de anarquistas da prisão uruguaia de Punta Carretas em 1931 e retomam uma série de expropriações feitas também por ácratas que viveram pela região do Rio da Prata nas primeiras décadas do séc. XX.

Ao trazer à tona esses momentos inscritos na história das lutas ocorridas neste continente, este livro não foca em um passado distante, idealizado, romantizado. Tampouco expressa um sentimento nostálgico de um momento perdido. Pelo contrário, evidencia uma história do presente e é como um presente da história que nos possibilita ampliar a perspectiva sobre os diferentes modos de enfrentamento e sobre a prática da anarquia no aqui e agora.

As ações narradas nos textos nos lembram um elemento que muitxs parecem fazer questão de esquecer: não há paraíso futuro, não há o depois, somente o agora, o instante no qual se vive. Não há conciliação e nem pacificação possível. A vida é combate e é preciso colocar nossos corpos no campo de batalha. Das mais diferentes maneiras, inclusive, quando necessário, cavar a terra com as nossas próprias mãos para abrir túneis por onde escaparão nossxs companheirxs.

A chama insurrecta arde sem cessar. E cada ação anárquica é um sopro de vida que a mantém permanentemente acesa. Nesse sentido, esta publicação tem como objetivo ecoar o enunciado presente em suas páginas: “a solidariedade ácrata é mais do que palavra escrita”. Buscamos espalhar a anarquia, assim como o vento que faz voar fagulhas que podem provocar grandes incêndios. Sabemos bem que de uma pequena brasa podem surgir enormes fogueiras que a tudo queimam. Nesse sentido, traduzimos e difundimos este material para impulsionar fugas, incitar a derrubada de muros, a destruição de grades e de prisões. E que da sociedade carcerária reste apenas escombros e cinzas. Que viva a anarquia!

edições insurrectas, 2021

fúria sudaka.

76pp.

R$25

TODO O VALOR DA VENDA SERÁ DESTINADO À MÓNICA E FRANCISCO.

Ninguém fica para trás!

Caso tenha interesse, envie um email para edicoes-insurrectas[arroba]riseup.net

edicoesinsurrectas.noblogs.org

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Velho casarão.
Iluminam o interior
raios de luar.

Fanny Dupré

O anarquismo e a Espanha

Devemos discordar da opinião generalizada de que o anarquismo está no marasmo em comparação com o que um dia foi. O movimento anarquista e o anarquismo, o conjunto de ideias que constituem o corpo de sua doutrina, são como um rio que às vezes corre no subsolo e outras vezes vem à superfície e transborda tudo. Por exemplo, em maio de 1968, quando foi mostrado que este anarquismo, que parecia ter desaparecido da sociedade francesa, floresceu novamente e foi, de certa forma, a nota dominante de tudo aquilo que era a ação dos estudantes.

Na Espanha, este movimento não pode ser considerado como deslocado, mas é preciso reconhecer que ideologicamente e sindicalmente é o movimento que representa a única esperança para a classe trabalhadora, especialmente no momento atual. E não apenas porque a mensagem anarquista visa integrar esta classe naqueles quadros em que esta organização de trabalhadores segue a antiga tradição de ação direta, ou seja, sem intermediários entre capital e trabalho, mas porque esta tradição é o lugar fora do qual todas as organizações de trabalhadores estão hoje em nosso país, fechadas e sujeitas ao capital. A mensagem permanente da CNT em nosso país deixa claro que ela é a única organização de trabalhadores que tem em alta a bandeira da independência. É o único movimento operário independente que não se submete e que fará todo o possível para não se submeter ao confinamento no qual o franquismo quis primeiro prendê-lo e depois outras forças políticas quiseram colocá-lo durante o regime de 78. Forças que não eram mais franquistas, mas que tenderam a garantir que não houvesse movimento de trabalhadores independentes; e procuraram um movimento de trabalhadores que fosse uma imitação do que era nos Estados Unidos, Inglaterra, França e outros países. Lugares onde o trabalhador não tem personalidade própria, mas é uma transcrição ou um instrumento utilizado pelas forças políticas para administrá-lo e usá-lo na maior parte do tempo para seus próprios interesses.

Além destes aspectos de natureza sindical, o anarquismo na Espanha tem raízes muito profundas que remontam não à vinda de Fanelli para nosso país ou às ideias de Bakunin, mas a algo que é nativo, que nasceu em nosso país, e que foi continuado e herdado, para dar um exemplo, pelo federalismo de Pi i Margall. O conceito de autonomia, respeito e exaltação do indivíduo são coisas que fazem parte da idiossincrasia espanhola e que nada nem ninguém pode destruir, pois eles teriam que destruir todos nós espanhóis. Eu diria até mesmo que na Espanha os reacionários são anarquistas sem saber disso.

O anarquismo não desapareceu em nossos dias; não é, como se fosse um idealismo da moda, ofuscado; pelo contrário, está em primeiro plano da atualidade social e política de nosso tempo. O erro mais grave que se pode cometer é pensar que este movimento é uma realidade estática, um dogma; não é e nunca foi. O anarquismo não surge por geração espontânea ou por uma revolução imposta pela força ou por uma ditadura; este movimento sempre ressurge e permeia a sociedade, como é o caso hoje. Há tantas ideias anarquistas que estão em uso comum hoje em dia. O amor livre é praticado hoje como nunca foi praticado antes. A maioria dos casais começa a viver juntos e quando há filhos legalizam ou não essa união. A desobediência civil, propagada por Thoreau, é um dos procedimentos da luta pacífica de hoje que vem do anarquismo. A luta contra a explosão populacional, o uso de métodos contraceptivos ou a autorização da prática do aborto vem do anarquismo. O anarquista Lluis Bulffi passou vários anos na prisão precisamente por escrever o panfleto “Greve de ventres”. O movimento verde e os ecologistas nada mais são do que uma tradução do naturismo libertário. Há uma série de ideias que permeiam nossa sociedade que ninguém sabe que vêm do anarquismo. A lista seria interminável.

Fonte: https://www.diariojaen.es/opinion/articulistas/anarquismo-y-espana-NK7950681

Tradução > Liberto

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No frescor da sombra
Caldo pelos cotovelos —
Manga madura

Neiva Pavesi

Promotores russos atrás de longas sentenças de prisão para casal anarquista em Cheliabinsk

Promotores da cidade russa de Cheilabinsk pediram à corte para sentenciar um casal anarquista a seis anos de prisão por acusações de vandalismo motivado por ódio e inimizades.

Pavel Chikov da organização de defesa legal Agora escreveu no telegram que os promotores pediram a corte do distrito central na cidade de Ural para condenar Dimitri Tsibukovsky e sua esposa Anastasia Safovona no dia 30 de agosto.

O cerne das acusações foi uma faixa colocada pelo casal em fevereiro de 2018 próximo a um prédio do serviço federal de segurança (FSB) em Cheilabinks, com as palavras: “FSB: principal terrorista.”

Ao colocar a faixa, Tsibukovsky e Safovona expressaram sua solidariedade ao grupo de ativistas presos entre 2017 e 2018, acusados de criar um grupo terrorista chamado Set (Rede), com células em Moscou, São Petersburgo, Penza e Omsk, assim como nos arredores da Bielorrússia.

No ano passado, nove membros do grupo foram condenados por terrorismo e sentenciados a longos períodos de prisão.

A Anistia Internacional referiu-se as acusações de terrorismo como uma invenção dos serviços de segurança russos. Eles afirmam que elas foram produto da imaginação, fabricadas como uma tentativa de silenciar estes ativistas.

Os guardiões dos direitos humanos, localizados em Londres, afirmam que o caso é “o mais recente abuso do sistema de justiça com motivações políticas para mirar nos jovens”.

O casal, Tsibukovsky e Safovona, foi preso pela primeira vez em 2018. Tsibukovsky disse que na época eles foram torturados enquanto estavam sob custódia. O caso foi encerrado duas vezes antes de os investigadores falharem em provar elementos de crime nas ações do casal.

Eles também foram acusados de vandalismo por conta de grafites de protesto contra reformas de pensão impopulares em 2018.

O casal foi preso em abril de 2020 e enviado para passar quatro meses em prisão preventiva antes de ser transferido para cumprir prisão domiciliar.

Fonte: https://www.rferl.org/a/chelyabinsk-anarchist-couple-prosecution/31435074.html

Tradução > Calinhs

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vôo de borboletra
do mundo das coisas
pro mundo das letras

Alexandre Brito

[México] Outro compa que se vai, Pietro Ferrua

Acabo de saber pela publicação Núcleo de Sociabilidade Libertária (NU-SOL) [1] da morte de meu amigo Pietro, 7 dias depois da morte do compa Jacinto.

Abaixo (se alguém estiver interessado), compartilho estas breves linhas de sua breve estadia no México.

Conheci Ferrua fisicamente em 2010, durante uma visita que ele fez ao México [2].

Percebi que a luta diária pela sobrevivência, as diferentes circunstâncias que nos encontramos, etc., nos afastam de nossos companheiros e amigos que estão longe, como no caso de Pietro, do qual a última vez que recebi notícias, via e-mail, foi em 6 de fevereiro de 2018, onde ele nos informou (um grupo de amigos e conhecidos) que:

Depois de perder minha filha em dezembro de 2009 e meu filho em maio de 2016, minha saúde se deteriorou e tive que me aposentar… Quanto à minha esposa, ela tem mais mobilidade, mas não pode mais cuidar de mim devido à sua recente operação de câncer.

Na mensagem ele indicava que iria se mudar para outro lugar e que quando estivesse instalado em sua nova casa, ele nos informaria. Respondi, entre outras coisas, que uma vez que ele compartilhasse sua localização, eu lhe enviaria um exemplar do livro Surrealismo e Anarquismo “Proclamas Surrealistas” em Le Libertaire, compilado por Plínio Augusto Coelho, que publicamos sob a editora Banderas Negras, porque Plínio acrescentou a este livro, o ensaio de Pietro Ferrua sobre a relação estabelecida entre anarquistas e surrealistas, de 1951 a 1953, agradecendo a Ferrua por ter lhe proporcionado esta valiosa contribuição.

…o resultado de pesquisas pacientes ao longo dos anos e que foi apresentado na inauguração do Instituto Anarchos em 5 de junho de 1982 na Universidade de Montreal, Canadá. Foi publicado no mesmo ano, em Paris, pelo Le Monde Libertaire.

Infelizmente nunca mais tive notícias de Pietro, escrevi para ele, mas não obtive resposta e tentei me comunicar com ele e sua companheira Diana através de uma amiga veterana que também sofria das doenças da vida (do qual, por sinal, também não tenho notícias), por causa dessas doenças e enfermidades ela não pôde ir ver Pietro e Diana e me dar qualquer notícia.

Após este encontro com Pietro em 2010, fui contatado por dois amigos do Brasil, dos quais não tinha ouvido falar até hoje, mas sei que eles estão bem por causa de outros companheiros e a quem voltarei a contatar, assim que terminar estas linhas, estou falando da pesquisadora Claudia Tolentino e do companheiro Marcolino Jeremias.

Eu estava interessado em contatar Pietro porque ele tinha escrito alguns livros sobre o México: Anarquistas na Revolução Mexicana: Praxedis G. Guerrero, La Fiaccola, Ragusa, 1976 e Ricardo Flores Magón e a Revolução Mexicana, Anarquismo, Catania, 1983. O primeiro título foi publicado em espanhol até 2012, com o apoio do amado Jacinto Barrera; o segundo título, tanto quanto eu sei, não foi traduzido para o espanhol. Além disso, como Ferrua estava no México em 1984, onde então conheceu pessoalmente Omar e Chantal de Ediciones Antorcha, a visita de Ferrua foi a convite do cineasta Raúl Kamffer para a apresentação de palco da obra Morte acidental de um anarquista, de Dario Fo [3] (a propósito, o companheiro Delfino, anarquista dos anos 70, ouvinte(sic) do ENAH, me disse que este trabalho, em particular deste diretor, é o que ele viu que mais o comoveu, tanto que ele costumava deixar seus alunos da escola secundária e primária irem para vê-lo como tarefa de casa), diria Ferrua:

Naquela época Benjamín Cano Ruiz e outros membros da geração mais velha, que tive o prazer de conhecer, assim como Omar e Chantal, ainda estavam vivos. Tudo era excepcional, mas os anos se passaram.

Com o fragmento acima percebo que o mesmo acontece com Ferrua e os compas em geral, com o passar do tempo, o contato se perde, e também que, como agora, as pessoas idosas da época estão morrendo. Durante o evento que realizamos na CSL-RFM, convidamos Omar e Chantal, mas eles não puderam comparecer, eles me disseram em uma mensagem em 10 de junho de 2010:

Obrigado pela informação.

Como não podemos participar desses eventos, poderia transmitir nossos mais calorosos cumprimentos aos companheiros? Alguns deles não os vemos há muitos, muitos anos. Por exemplo, se nos lembramos corretamente, pensamos que foi no início dos anos 80 que vimos pela última vez Pietro Ferrua. Já se passaram trinta anos.

Realmente, por favor, transmita nossas saudações.

Agradecemos antecipadamente

Com sinceridade,

Chantal e Omar

Voltando a Kamffer, na primeira edição da revista Anarchist Film and Video, editada por Russell Campbell em 2009, há uma descrição de Pietro Ferrua na qual ele menciona Kamffer como: “um cineasta mexicano que tinha se esforçado para relatar a contribuição anarquista à Revolução Mexicana”, referindo-se ao filme Ora sí ¡Tenemos que ganar! inspirada nos contos de Ricardo Flores Magón.

Ferrua foi então contatado por meu amigo Walter Dominguez, naquela época seu filme Weaving the Past: Journey of Discovery (sobre a relação de Praxedis com Emilio Hernandez, avô de Walter durante seu ativismo anarquista e a vida posterior do avô após a morte de Prax), o filme ainda não estava pronto, e Ferrua teria gostado muito que no colóquio do INAH do qual ele participou, onde este documentário foi apresentado.

…pela simples razão de não ter aparecido em nenhum banco de dados, caso contrário teria recebido uma alta prioridade. A razão é muito simples: o mesmo Instituto (INAH) traduziu meu livro do italiano para o espanhol, que foi publicado em 1976 (e que está esgotado no idioma original) com o título: ANARCHICI NELLA RIVOLUZIONE MESSICANA: I PRAXEDIS G. GUERRERRERO. [4]

A apresentação do documentário no México não foi possível até vários anos depois.

Depois das jornadas terem passado, Jacinto me escreveu em 25 de junho declarando isso:

Caro Carlos: Ferrua me escreveu sobre a sessão de sábado: Ele estava muito feliz.

Os vídeos a seguir mostram a participação de Pietro no México:

https://www.youtube.com/watch?v=ETUOlKGWZTM

https://www.youtube.com/watch?v=MtCQBeLLrYE

No final, a morte nos alcança a todos!!!

31/08/2021

Carlos (anemias)

Notas

[1] https://www.nu-sol.org/blog/pietro-ferrua-um-anarquista-1930-2021/

[2] https://www.portaloaca.com/historia/biografias/15607-hasta-la-proxima-jacinto.html

[3] E-mail de 12 de maio de 2010.

[4] E-mail com data de 5 de novembro de 2010.

Tradução > Liberto

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uma folha cai
o chão cheio de folhas
o vento distrai

Marcio Luiz Miotto (Pitu)

[Reino Unido] Anti-imigrante? Anti-refugiado? Então leia isso!

À medida que os elementos da extrema direita se transformam em uma espuma adequada sobre as tripulações dos botes salva-vidas heroicos que salvam as vidas dos refugiados no mar, vale a pena ter o seguinte em mente…

O capitalismo se reproduz e floresce, por causa da ignorância, e usa o racismo e outras coisas para nos dividir para que possa nos governar. O sentimento anti-imigrante e anti-refugiado é colocado lá e encorajado pelos ricos e sua mídia, ele está lá por uma razão – para nos distrair de reconhecer nossos próprios interesses de classe e nos desviar da luta de classes.

Uma coisa comum que você ouve de pessoas anti-refugiados e anti-imigrantes é esse tipo de coisa, e tem acontecido ultimamente: ‘Eu simpatizava com os refugiados, mas depois segui um refugiado até sua casa recentemente e descobri que ele tinha uma casa e um carro.’

Não deveríamos ter que dizer isso, mas isso é um absurdo absoluto e, como todas essas declarações, é baseado em boatos e rumores, e não há nenhuma evidência confiável e confiável para apoiá-lo. Realmente não é diferente das teorias da conspiração. E se você realmente tivesse “simpatia” pelos refugiados em primeiro lugar, não os teria seguido para casa. E a propósito, se você está seguindo as pessoas, não importa quem seja, então você é basicamente um perseguidor, isso é o que você é, não há outra maneira de colocar isso – você é um perseguidor, que para sua informação é na verdade uma ofensa criminal. E porque você é um perseguidor, obviamente também significa que você é uma pessoa errada e assustador.

E o que você ouvirá das mesmas pessoas é que temos um ‘sistema de benefícios de toque suave’. Essas pessoas claramente não têm a menor ideia sobre o sistema de benefícios que temos neste país, porque se tivessem, saberiam que ‘nós’ não temos um ‘sistema de benefícios de toque suave’. Essas pessoas são tão ignorantes sobre o que está acontecendo que estão completamente inconscientes da austeridade capitalista e dos ataques à classe trabalhadora – incluindo os desempregados e deficientes – que vêm acontecendo nos últimos dez anos? Essas pessoas realmente enterraram tanto a cabeça na areia? Infelizmente, parece que sim.

Então, eles dirão, é por isso que os refugiados vêm aqui, porque temos um ‘sistema de benefícios de toque suave’. O fato é que existem outros motivos pelos quais eles vêm aqui, por exemplo – eles já falam inglês, ou são do antigo império britânico ou de países da comunidade, ou já têm família aqui, ou estão tentando escapar dos maus tratos na Europa. Muitos dos países ao redor de onde eles são não os aceitam também. Mas a razão pela qual as pessoas anti-refugiados vão dizer que temos o chamado ‘sistema de benefícios de toque suave’ é porque eles absorvem o que a mídia de direita como o The Sun e o Daily Mail e outros meios de comunicação querem que eles acreditem e pensem sobre os desempregados e benefícios.

E eles são, sem dúvida, o tipo de pessoa que odeia e fala mal dos requerentes, assim como odeia e fala mal dos imigrantes e refugiados. Essas pessoas parecem completamente incapazes de olhar adequadamente para as notícias que têm sido divulgadas nos últimos dez anos sobre o tratamento nojento dado aos requerentes de benefícios. E pense sobre isso, eles são o tipo de pessoa que simplesmente descartará isso como a chamada ‘propaganda esquerdista’ ou ‘mentiras esquerdistas’, que diz a você tudo o que você precisa saber sobre eles. Que sorte para eles que podem simplesmente descartar isso e seguir em frente com sua vida, enquanto os reclamantes estão sendo tratados como lixo.

E outra coisa que ouvimos frequentemente de pessoas anti-imigrantes e anti-refugiados é – ‘eles ficam com todas as moradias’ ou – ‘eles ficam com todas as moradias sociais’. Novamente, isso é um absurdo absoluto. O motivo do problema com moradia e habitação social não tem nada a ver com imigração ou refugiados. Novamente, você está completamente alheio às políticas dos governos neoliberais thatcheristas que tivemos nos últimos 40 anos? Você é realmente tão sem noção? Pessoas como Thatcher e Blair, os Conservadores e depois o Novo Trabalhismo encorajaram e permitiram que as pessoas comprassem suas casas e apartamentos do conselho. Eles também permitiram que incorporadores imobiliários comprassem e depois se livrassem de moradias sociais, incluindo propriedades inteiras do conselho, algo de que os conselhos trabalhistas também são culpados. A habitação é uma questão de classe. A classe trabalhadora tem problemas de moradia porque há uma guerra de classes acontecendo e os ricos tornam a situação pior para a classe trabalhadora em seu próprio benefício. Eles exploram a situação, como parasitas que são, e privam as pessoas comuns de coisas como moradia, e então causam problemas de moradia, o que contribui para o aumento do número de desabrigados. E o que é lamentável é que as pessoas que são basicamente de direita e centristas votam nessas pessoas e continuam a fazê-lo – seja votando em nomes como Boris Johnson, Laurence Fox, Nigel Farage ou pessoas assim. Todas essas pessoas só vão piorar as coisas para a classe trabalhadora, e isso inclui uma situação pior com a moradia. E os centristas como o Partido Trabalhista são um pouco melhores, mesmo os como Jeremy Corbyn e John McDonnell and Co., e pessoas como nós não acreditam na política parlamentar para resolver esses problemas.

E é como se essas pessoas de direita nunca tivessem pensado para si mesmas que aqueles que estão no poder e a classe dominante iriam nos ferrar com relação à moradia, ou qualquer outra coisa, é ridículo. E nunca passou pela cabeça dessas pessoas que se pegássemos todas as terras e propriedades dos ricos e da classe dominante e as usássemos para nós, para nosso benefício, haveria mais espaço para nós e para os outros e as coisas seriam melhor para nós? Essas pessoas parecem nunca ter pensado nisso. Que a forma como a terra, a propriedade e a habitação são usados é para beneficiar os ricos, às nossas custas – é por isso que a classe trabalhadora está, em geral, amontoada em vilas e cidades enquanto os ricos têm a maior parte da terra para usar como bem entenderem, em nosso detrimento. No geral, essas pessoas não parecem realmente pensadoras.

E outra coisa que você vai ouvir é algo assim: ‘bem, eu não me importo com os que trabalham, mas esses refugiados, ou esses imigrantes, não trabalham e recebem todos esses benefícios.’ Eu tenho que trabalhar, mas eles não. Para começar, muitos imigrantes trabalham, e eles deram uma enorme contribuição, em impostos e no trabalho para este país, e o NHS e outros setores não seriam nada sem eles. Mas se os imigrantes não conseguem encontrar trabalho, porque sabe, nem todo mundo consegue encontrar trabalho e pode trabalhar, essas pessoas querem que eles simplesmente fiquem sem dinheiro e morram de fome nas ruas porque não podem pagar o aluguel e se alimentar? É isso que essas pessoas querem? Porque essa parece ser a alternativa que eles preferem, assim como parecem preferir a dos pobres que nasceram aqui. Essas pessoas não parecem se importar realmente com outros seres humanos. As pessoas deveriam ter o direito de viver e aproveitar a vida também, não apenas de sofrer uma existência horrível – e isso deveria se aplicar a todos.

Em segundo lugar, se você é um refugiado que acabou de chegar aqui, você não pode trabalhar porque não tem permissão para isso e nem mesmo tem um número de seguro nacional. E o fato é que os refugiados que recebem mesada recebem apenas cerca de 35 libras por semana. Quero dizer, como alguém deveria existir nisso?! E a realidade é que os refugiados também são colocados em lugares terrivelmente desumanos, como os quartéis Napier e Yarl’s Wood, onde são tratados como lixo e deixados para apodrecer também.

Aqui está outra coisa que você ouvirá de pessoas anti-imigrantes / anti-refugiados: ‘E antes que você diga qualquer coisa, eu não sou racista. Não tenho nenhum problema em trabalhar e viver com pessoas de diferentes partes do mundo, de diferentes culturas, religiões e cores, e alguns deles até são meus amigos.’

Isso é muito pouco convincente e muito cansativo e, basicamente, é apenas a nova versão de ‘alguns dos meus amigos são negros’. E não quer dizer que a pessoa que fala não seja racista. Porque todos os tipos de pessoas podem ser racistas, não importa de onde sejam, para começar. Qualquer um pode ser racista ou preconceituoso com outra pessoa. Mas, realmente, isso é muito pouco convincente, como todos esses argumentos, e na realidade não significa nada. E a única razão pela qual a pessoa sente a necessidade de dizer isso é provavelmente porque o que ela está dizendo é racista. É tão óbvio e estúpido.

E terminaremos dizendo algumas coisas. Em primeiro lugar, a única razão pela qual as pessoas anti-imigrantes / anti-refugiados se opõem à vinda de refugiados e imigrantes para cá parece ser porque lhes falta humanidade e decência e são provavelmente racistas. É claramente o racismo que sustenta todos esses supostos argumentos que essas pessoas estão apresentando. Não há nenhuma boa razão para se opor à vinda de refugiados e imigrantes para cá. Os refugiados estão fugindo da guerra, fome e perseguição. Eles têm o direito de vir aqui, inclusive de acordo com o direito internacional. Francamente, pessoas anti-imigrantes / anti-refugiados exibem uma grande falta de empatia e compaixão pelo que estão falando, postando online e tudo mais. Eles também estão fazendo um grande favor à classe dominante ao apontar o dedo aos refugiados. Enquanto eles caem no bode expiatório, os ricos escapam nos ferrando e acumulando todas as riquezas e recursos. Mas com pelo menos algumas dessas pessoas é como se elas fossem muito estúpidas para ver, ou muito confortáveis e egoisticamente individualistas e teimosas. É como se eles provavelmente nunca tivessem um pensamento original em toda a sua vida e nunca tivessem questionado nada. É provável que sejam o tipo de pessoa que não é corajosa o suficiente para ir contra a corrente e simplesmente acreditam e concordam com todas as coisas que se espera que façam. Eles são o problema, não os imigrantes ou refugiados, e há muitas dessas pessoas covardes e ignorantes por aí. O capitalismo produz muitos robôs incultos, condicionados e insensíveis como este. Outra razão pela qual é um sistema tão horrível e destrutivo e precisa desesperadamente acabar. O fato é também que a migração sempre fez parte da vida humana neste planeta, sempre aconteceu e continuará a acontecer, principalmente à medida que a população diminui devido à diminuição da taxa de natalidade.

Em segundo lugar, se alguns de vocês que estão lendo isto, que estão realmente preocupados com os refugiados que vêm aqui e a imigração, pensam que estamos sendo injustos com você, e você é realmente uma pessoa que pensa e é realmente uma pessoa compassiva, por favor, pelo menos pense sobre o que pessoas como nós estão dizendo e dê a devida consideração. Realmente pense sobre isso, ouça e pesquise isso e tente levá-lo a bordo e abrir sua mente, em vez de apenas concordar com todas as porcarias em que se espera que você acredite e a maneira como deve se comportar. Porque aquelas coisas em que se espera que você acredite e a maneira como você deve se comportar não vão te levar a lugar nenhum, não vai te beneficiar realmente, vai apenas beneficiar a classe dominante, que é o motivo de estar lá em o primeiro lugar. E você pode olhar para o resto deste site e ler nossas publicações e ouvir nossos podcasts para explorar e pensar sobre uma alternativa de como as coisas são para nós.

E a última coisa que gostaríamos de dizer é que essas pessoas anti-refugiados / anti-imigrantes tendem, em geral, a se opor aos imigrantes e refugiados comuns. Se essas pessoas reclamassem dos imigrantes milionários e bilionários que nossa classe dominante deixou neste país, permitindo que eles fizessem o que quisessem e com os quais tratassem (incluindo a compra de propriedades e negócios e infraestrutura neste país e a exploração da classe trabalhadora, ambos aqueles que nasceram aqui ou imigrantes comuns) então talvez não nos importássemos tanto. Isso seria ótimo. Nós nos opomos ao que os milionários e bilionários, os imigrantes ricos estão fazendo – porque é contra nossos interesses de classe. São os imigrantes ricos que são parasitas, assim como os ricos que nascem ou se naturalizam aqui. E não há fronteiras para esses imigrantes ricos da classe dominante, não como há para os imigrantes e refugiados comuns. E são os ricos que têm unidade e solidariedade uns com os outros, por isso precisamos ter solidariedade e unidade com os imigrantes e refugiados que são pessoas comuns como nós, que querem apenas fazer o melhor da vida.

Mas esses direitistas não fazem isso, é como se eles nem tivessem pensado nisso. Eles não têm consciência de classe ou solidariedade de classe – eles apenas parecem odiar os outros, eles odeiam aqueles que consideram ser tão diferentes deles. Quando, na verdade, eles provavelmente têm mais em comum com um imigrante da classe trabalhadora ou refugiado do que alguém da classe dominante britânica como Jacob Rees Mogg. Vamos ser realistas, temos mais em comum com um imigrante da classe trabalhadora ou um refugiado de qualquer lugar do que com milionários locais e elites governantes. É mais provável que tenhamos experiências e interesses semelhantes e relacionáveis, isso é apenas um fato, um fato que as pessoas anti-imigrantes / anti-refugiados nunca reconhecem.

No final do dia, parece que os anarquistas da luta de classes têm uma visão mais humana e pró-humanidade, que beneficia a classe trabalhadora internacional e as pessoas comuns de todo o mundo, que une as pessoas e é genuinamente progressista e pensada – e o grupo anti-imigração tem uma visão anti-humana, de espírito mesquinho, rancoroso e baseada no ódio, baseada na ignorância que divide as pessoas e causa conflito, ódio e divisão e deixa a classe dominante internacional fora de perigo. Essa parece ser a diferença entre nós.

Fonte: https://www.anarchistcommunism.org/2021/07/30/anti-immigrant-anti-refugee-then-read-this/

Tradução > Da Vinci

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agência de notícias anarquistas-ana

A rua vazia —
Ressoa na escuridão
o cri cri do grilo

Alvaro Posselt

[Espanha] Anarquismo de bairro – Entrevista a Ruymán Rodríguez

A Federação Anarquista da Gran Canária se converteu em uma referência. Promoveram onze comunidades de moradias autogestionárias de bairro e numerosos projetos de relocação de pessoas em situação de risco: La Marisma. Falamos com um de seus porta-vozes, Ruymán Rodríguez, imerso em um processo judicial por sua militância nestes projetos.

Como estás? Em que ponto está esse processo?

O caso está há seis anos em andamento. O julgamento [contra ele por atentado e contra três guardas civis por tortura] era em 24 de março, mas após a campanha que se organizou, os guardas civis pediram que os considerassem de fórum especial, que implica que julgue outra instância superior.

A Federação Anarquista da Gran Canária transcendeu fronteiras. Conte-nos o que fazeis. 

A Federação surge no início do 15M de forma muito espontânea. Éramos um grupinho anarquista na plaza de San Telmo e fomos vendo que nosso discurso ecoava e cada vez havia mais anarquistas e mais gente que se interessava pelo anarquismo. No princípio era um anarquismo muito convencional. Nos demos conta que era uma linha muito combativa que estava muito bem, mas muito alijada da situação social canária, que era muito alarmante. Temos o maior índice de pobreza infantil da Europa, 35% das crianças canárias são pobres. Mais de 45% da população canária está em risco de exclusão social. Nos últimos cinco anos subiu 56% o preço do aluguel. Somos a região mais pobre com um dos consumos mais altos. Isso é insustentável e jogou muita gente na indigência. E fomos aí. Começamos com a moradia, parando desalojos, mas nos demos conta de que nos faltava o plano B. Então começamos a fazer os primeiros projetos de realojamento e assim surgem as primeiras comunidades. Falamos de comunidades autogestionadas dirigidas pelos próprios moradores. Em algumas, como a Comunidade de La Esperanza, vivem mais de 210 pessoas. 76 famílias vivendo em autogestão. Outras são projetos dedicados a migrantes em situação de perseguição policial e acontecem de forma mais reservada para evitar deportações. São comunidades nas quais há atualmente mais de 270 pessoas. No final o exemplo está se espalhando e as pessoas assumem que é muito melhor um modelo cohabitacional no coletivo, em comunidade, que individuais.

Como acedes a estes espaços? 

Em muitas destas comunidades, como La Esperanza, se chega a um acordo com a promotora que estava em falência, embargada por Bankia. Chegamos a um acordo para realojar as famílias e de quebra prejudicamos o banco, e vai ficar muito mais difícil despejar estas famílias e que estas pessoas percam a propriedade. Outras vezes ocupamos depois de fazer um estudo da titularidade. Sempre são de pessoas jurídicas, bancos, empresas, laSareb.
Atualmente há onze comunidades, mas entre as comunidades e as moradias unifamiliares, calculamos que há mais de 1.000 pessoas vivendo em autogestão na Gran Canária, que para uma ilha tão pequena como a nossa é um marco.

Em 2017 ocorre uma situação um pouco paradoxa. Quanto mais nos envolvemos neste tipo de anarquismo de bairro, como nós o chamamos, há mais moradores que querem participar na Federação Anarquista. O problema é que muitas vezes são pessoas que gostam das ferramentas, mas não tem por que definir-se como anarquistas. Então surgiu a ideia de formar uma organização mais ampla, de massas e é aí que nasce o Sindicato de Inquilinas.

E o que ocorre com La Marisma? 

La Marisma surge de outra maneira. Elas chegam a esta situação porque contatam com um suposto promotor imobiliário que lhes ofereceu moradias que estavam abandonadas há dez anos. O promotor lhes diz que vai descontar os reparos da moradia do aluguele que formalizará um contrato de arrendamento. Pedem 100 euros a modo de “boa vontade” em troca das chaves e nas próximas semanas se formalizaria o contrato. Os moradores, 28 famílias, o fazem; o tipo embolsa 2.800 euros, lhes dá as chaves e desaparece. As famílias ficam sem esse dinheiro e entram nas moradias que estão destruídas. Durante seis meses ficaram reciclando o lixo, ajudando-se uns aos outros e criando verdadeiros lares. E agora que são imobiliariamente atrativas são contatadas pelo banco, que lhes informa de que os quer despejar. É um fundo de investimento do Caixabank e se dedicam a persegui-los. Os moradores nos contatam e a partir daí se põe em marcha esta campanha. Primeiro redigimos recursos legais para todos e cada um para apelar aos tribunais. Sabemos que só servirá para ganhar tempo, mas é necessário. Depois fazemos o que chamamos “guerra de tinta”: contatar com todos os meios possíveis, começamos a pressão contra a propriedade e conseguimos que sentem para negociar. Depois é preciso pressionar a Municipalidade porque se negava a facilitar os informes de vulnerabilidade que requer a propriedade. O resultado foi que em 15 de junho passado, oito destas famílias se expunham a um julgamento por usurpação e a propriedade retirou a demanda penal. Ainda fica em andamento a demanda civil, mas é um grande passo.

Por que é tão difícil que ocorram estas experiências em outros espaços militantes anarquistas? 

Ao final se converte tudo em um concurso de pureza anarquista, como se fosse uma questão de graus. A realidade não é essa. Se seguimos potencializando esse anarquismo acabaremos convertendo-o em um clube de intelectuais. E na realidade o anarquismo é útil à pessoa a quem vão desalojar e tem medo que os serviços sociais lhes tirem seus filhos ou à pessoa migrante que tem que buscar um refúgio para esconder-se. No entanto, não usam as ideias anarquistas porque as leram em um livro e sejam muito brilhantes, nem podem dedicar-se seis horas a participar em uma assembleia interminável. O necessitam para sobreviver. Na realidade, o anarquismo é algo eminentemente prático e nos esquecemos disso.

E é verdade que há outros vetores: o racismo, o machismo, o capitalismo feroz. Mas é que, isso, ou o entregamos ao inimigo e nos rendemos e damos a volta, ou nos envolvemos e o mudamos. Há quem critique que há gente que está muito necessitada mas gasta dinheiro em tatuagens. Já o dizia Galeano: “Em casas nas quais falta o leite sobra Coca-Cola”. Porque as leis do consumo são obrigatórias para todos. O lugar do anarquismo está aí e temos que ter claro que, se não estamos nós, vai estar o fascismo. Que queres, bairros fascistas ou bairros anarquistas? Eu o tenho claro.

Mar Pino
Equipe de El Topo

Fonte: https://eltopo.org/anarquismo-de-barrio/

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

no capim orvalhado
guarda-chuva de renda
a teia de aranha

Tânia Diniz

O Relógio Sempre Atrasado de Quem Teme a Revolta – ou Como os Protestos de 2021 Foram Enterrados

Presenciamos a maior pandemia que o mundo viu em um século. No Brasil, com quase 600 mil mortos, uma crise econômica, desemprego, aumento da população em situação de rua, a fome crescente e uma crise institucional com ameaças de “ruptura” e golpe militar toda semana. O governo e os ricos parecem querer zombar de nós com lucros recordes para bancos e novos bilionários surgindo no país em meio a uma crise sanitária que acabou com mais de 4 milhões de vidas em todo o planeta – e segue matando – enquanto filas se formam em açougues onde pessoas esperam comprar ossos e outros restos para ter o que comer.

Ainda há pouco, países vizinhos na América Latina são tomados por revoltas e pressão popular nas ruas contra os custos de vida e a perda de direitos pelo modo de gestão neoliberal, enquanto por aqui prevalece um grande esforço dentro da própria esquerda para manter a ordem social e a paz nas ruas.

Motivos para revoltar-se nunca faltaram, mas agora eles transbordam! E muitos ainda se perguntam: por que a rebelião não tomou as ruas de todas as cidades, trancando vias, queimando carros, destruindo lojas e delegacias, incendiando carros e viaturas como fizeram companheiras e companheiros em Santiago, Bogotá e Minneapolis? Temos os mesmos ingredientes básicos: reformas econômicas sufocantes, ataques a direitos básicos, uma pandemia tornada plano de extermínio e violência policial racista com números de guerra.

Ainda assim, é possível que tenhamos jogado no lixo a única chance desde o início desse governo de massificar uma radicalização em escala nacional. Os únicos capazes de romper o cerco e demonstrar força e articulação são os povos indígenas ocupando Brasília de forma inédita e exemplar para defender seus territórios à espoliação capitalista. Mas estão lutando praticamente sozinhos.

A janela de oportunidade parece ter se fechado e pode ser que levará muito tempo para se abrir novamente. Porém, para além de colocar a culpa e a responsabilidade em um outro, ou apenas no que de fato está sendo feito por nossos inimigos, devemos pensar o que nós temos feito — ou deixado e fazer.

Ao contrario do que alguns pensam, a gente não tem medo da morte. Se tivéssemos, não estaríamos aqui, armados de arco e flecha e sem colete à prova de balas… não estaríamos aqui de peito aberto em meio a esta cidade” — Indígena em ato em São Paulo, quando STF ia julgar o Marco Temporal.

Inimigos da autonomia

Nas lutas contra o aumento das tarifas de transporte público em 2013 e contra a Copa em 2014, a organização autônoma de movimentos veteranos das lutas antiglobalização, como MPL e inúmeras assembleias horizontais, foram capazes de mobilizar pessoas em dezenas de cidades de forma inédita, passando longe do controle dos partidos e centrais sindicais pacificadas pelo governo do PT. As ocupações de escolas por secundaristas em 2015/16, mostrou que uma geração muito mais jovem se organizando pela primeira vez também podem adicionar elementos novos e uma diversidade de táticas (ocupações, marchas, eventos) em uma mesma luta e obter grande sucesso. Desde então, não conseguimos arrancar grandes vitórias dentro da perspectiva de uma luta autônoma.

Nas atuais lutas contra o governo Bolsonaro e a catástrofe da Covid-19, a centro-esquerda têm mantido sua hegemonia reformista e garantido seus interesses eleitoras nos chamados e na organização dos atos pelo Brasil.

Movimentos que se organizam por fora da agenda dos partidos ou das grandes centrais sindicais – especialmente sob o guarda-chuva petista como a CUT– são ainda minoritários e até grandes e importantes movimentos sociais como o MST se submeteram ao mesmo imobilismo reformista. Mesmo assim, os movimentos autônomos e independentes foram pioneiros e protagonizaram várias tentativas de radicalizar as lutas com diversos coletivos, movimentos e blocos autônomos tomando a iniciativa em diferentes cidades.

No início da pandemia em 2020, de Porto Alegre a Belo Horizonte, torcidas organizadas antifascistas foram as primeiras organizações a chamar atos para barrar e confrontar carreatas e eventos bolsonaristas enquanto todo resto da esquerda ainda só sabia repetir um “fique em casa” acrítico, fazendo de tudo para evitar o enfrentamento com a extrema-direita. Em 2021, de Londrina a Salvador, blocos de luta organizando anarquistas, comunistas e indígenas compuseram os atos chamados pelas centrais sindicais e suas coalizões.

Tais mobilizações tiveram mérito em levar pessoas para as ruas, divulgar as pautas e imagem da luta antifascista, além de reforçar o potencial de articulação e ação política das torcidas organizadas. Eles romperam o silêncio para dizer que a onda fascistóide é tão ou mais perigosa que o vírus. Muitas pessoas obrigadas a se aglomerar todo dia nos transportes públicos e no trabalho, ficar em casa para assistir fascistas tomarem as ruas para legitimar esse governo e sua crise parecia uma péssima ideia. Mas ainda é preciso avaliar os motivos que impediram tais mobilizações de manter o fôlego para se manter nas ruas e ampliar a adesão.

Lutamos contra eles escrevendo cartas para que não tenhamos que enfrentá-los com os punhos. Lutamos com os punhos para que não tenhamos que enfrentá-los com facas. Lutamos com facas para que não precisemos enfrentá-los com armas. Lutamos com armas para que não tenhamos que enfrentá-los com tanques.” — “Murray” de Baltimore, citado no  livro Manual Antifa de Mark Bray.

Após apontar os caminhos para uma autocrítica autonomista ainda a ser desenvolvida, não podemos deixar de avaliar o contexto político e as organizações para além dos nossos círculos autônomos ou radicais. Nesses quesitos, as frentes amplas partidárias reformistas foram mais eficientes em mobilizar simultaneamente atos por todo o país. Muito disso é devido à sua enorme estrutura, tempo de atuação e recursos – os custos para divulgação, aluguel de carros de som, combustível, drones para filmagem, etc. chegaram à cifra dos 40 mil reais em Belo Horizonte e mais de 100 mil reais em São Paulo, segundo os próprios organizadores em assembleias. Recursos que, além de impossível de ser empregados por movimentos autônomos em uma única cidade, são também uma prova do imenso desperdício inerente às formas tradicionais de protesto organizado de cima para baixo, pensados de forma quantitativa onde uma estrutura com veicular e sonora cerca, dita o passo e abafa as vozes de corpos que poderiam ser ouvidos e enfrentar seus inimigos de classe com muito quase zero investimento do próprio bolso – e causando muito mais prejuízo aos patrões.

É importante analisar o papel das frentes amplas que foram formadas desde a luta contra o impeachment de Dilma Roussef e como esse tipo de organização tem funcionado como um grande entrave na luta. O Fora Bolsonaro™(reforçamos aqui ironicamente a exclusividade da marca) reuniu a Frente Povo Sem Medo(composta majoritariamente por MST, PSOL, UP, PCB, dentre outros), Frente Brasil Popular(PT, MST, CUT, dentre outros) e a Povo Na Rua, Fora Bolsonaro (uma tentativa de partidos como UP e PCB de darem novos rumos aos protestos), além dos poucos independentes e autonomistas.

Nas discussões e assembleias ficou claro que a ala Brasil Popular fez de tudo para arrefecer o que já não parecia caminhar para a radicalidade. A decisão de adiar os protestos para um a cada mês depois e seu boicote claro as datas tiradas para além do seu controle reforçam esse diagnóstico. As reuniões das Fora Bolsonaro Nacional™ demonstravam claramente que grande parte dos que compunham o movimento oficial não queriam que os protestos se massificassem e saíssem do seu controle.

Qual foi o papel da CUT, a maior central sindical da América Latina, nos últimos atos que foram construídos no Brasil, se não a sabotagem de alto nível, desarticulação profissional e desmobilização esforçada? Enquanto diversos setores como os Correios são privatizados, professores e funcionários públicos passam por uma precarização cada vez maior, a CUT permanece extremamente recuada.

Não havia motivos ou desculpas para que uma grande greve geral não fosse convocada desde o início da pandemia. Porém, sabemos por qual razão isso não foi nem será feito: optou-se esperar até que Lula eventualmente possa ser eleito em outubro de 2022. Quem pode esperar até lá? Quando a revolta estourar nas ruas e nem mesmo essa esquerda cúmplice dos patrões e da lei puder controlá-la, seremos nós que estaremos nas ruas.

Na luta contra esse governo, sua base fascista, o neoliberalismo e a vida no capitalismo em si, aqueles que, como fizeram membros MTST e PCB, desfazem barricadas e agridem quem as ergue, são inimigos de classe. Também o são aqueles que se sentaram com a polícia e os partidos de direita em São Paulo para negociar e combinar o que é permitido e legítimo fazer em um protesto, jogando na fogueira qualquer movimento organizado ou revoltas espontâneas que possam surgir. São falsos críticos do capitalismo pois não fazem sua crítica com ações concretas quando é a hora, apenas aguardam, tramam e agem quando sua convém à sua agenda por entrar na máquina estatal. E pior: se colocam no caminho de quem tem disposição para agir, declarando-os inimigos. Nossa leitura apenas aceita e reforça tão declaração.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/09/04/o-relogio-atrasado-de-quem-teme-revolta/

agência de notícias anarquistas-ana

A terra sangra
A cana avança
Ganância que engana!

Silvio Feitosa

[Suíça] Morre Pietro Ferrua

O fundador do Centro Internacional de Pesquisas sobre o Anarquismo (CIRA na sigla em francês) morreu no dia 28 de julho de 2021 em Portland, Oregon, Estados Unidos.

Nascido na cidade italiana de Sanremo aos 18 de setembro de 1930, sua mãe era dona de casa, seu pai trabalhava como crupiê no cassino. Quando jovem, serviu de mensageiro na Resistência italiana. Durante a Liberação, formou em Sanremo com mais dois companheiros o grupo anarquista Alba dei Liberi. Os três se recusaram a prestar o serviço militar. Preso em 1950 por objeção de consciência, Ferrua viveu posteriormente numa situação de semiclandestinidade, participando da organização de acampamentos libertários internacionais, editando a revista Senza limiti (1952-1954, cinco números), e atuando nos trabalhos de campo do Serviço Civil Internacional.

Para escapar da prisão, emigrou para a Suíça em 1954 e lá foi recebido por Lise Ceresole, viúva do fundador do Serviço Civil Internacional, em Daley-sur-Lutry. Mais tarde se instalou em Genebra para seguir os seus estudos de intérprete-tradutor. Lá encontrou companheiros anarquistas que ele convidou para continuarem o trabalho de Louis Bertoni. Assim, em 1957, foi editada uma nova série da Réveil anarchiste/Risveglio anarchico, publicada mensalmente durante um ano, e depois sem regularidade. Nessa publicação colaboraram principalmente Alfred Amiguet e André Bösiger na parte francesa, e Claudio Cantini, Carlo Frigerio, Carlo Vanza e Ferrua (sob o nome Vico) na parte italiana.

No mesmo ano, lançou o projeto de uma exposição sobre a imprensa anarquista do mundo inteiro, enviando uma grande quantidade de convites com variados graus de sucesso. Foi daí que nasceu a ideia da criação do CIRA, para conservar as publicações que eram recebidas. As obras recuperadas da biblioteca de Louis Bertoni e do grupo Germinal de Genebra foram incorporadas ao acervo, e posteriormente uma grande quantidade de livros que pertenceram a Jacques Gross e a outros militantes que logo aderiram ao projeto, como Hem Day, E. Armand, André Prudhommeaux, a SAC (Organização Central dos Trabalhadores Suecos) etc. Em seguida, o CIRA recebeu os arquivos do SPRI e da CRIA (Secretariado Provisório de Relações Internacionais e Comissão de Relações Internacionais Anarquistas, 1947-1958), que por muito tempo permaneceram empacotadas e só foram inventariadas depois de quarenta anos.

Pietro Ferrua sempre buscou obter o reconhecimento do pensamento anarquista nos meios intelectuais e universitários. Para tanto, tratou de formar um comitê de honra internacional do CIRA, reunindo pesquisadores e militantes. Essa iniciativa teve algum sucesso, mas ele também amargou várias recusas. Estabeleceu contatos com a biblioteca universitária e com a biblioteca das Nações Unidas em Genebra, enquanto o acervo do CIRA ainda eram caixas de jornais e pilhas de livros em precárias estantes numa sala.

Também reuniu estudantes e jovens pesquisadores para ajudar na catalogação, organizar conferências, publicar (e fotocopiar) o Boletim do CIRA. Em 1955, no acampamento anarquista de Salernes (no departamento francês do Var), foram organizadas redes de objetores de consciência franceses, argelinos e italianos. Muitos residiam em Genebra, onde a fronteira não era difícil de cruzar. Num ímpeto de solidariedade internacional, quatro jovens lançaram coquetéis molotov contra o consulado da Espanha em fevereiro de 1961, o que suscitou importantes manifestações de apoio, mas também acarretou prisões e expulsões. Pietro Ferrua teve de deixar a Suíça em janeiro de 1963, deixando o CIRA a cargo de Marie-Christine Mikhaïlo e Marianne Enckell, que o assumiram de surpresa. Com a sua esposa brasileira e seus dois filhos, partiu para o Rio de Janeiro. Lá ele retomou sem demora as suas atividades intelectuais e militantes, das quais a mais notável foi a fundação da seção brasileira do CIRA. Em 1969, uma nova expulsão. Mas graças a relações familiares, encontrou um novo refúgio nos Estados Unidos, na cidade de Portland, Oregon.

Lecionou de 1970 a 1987 no Lewis and Clark College, ficando responsável pelas línguas estrangeiras, literatura comparada e história do cinema. Interessava-se havia muito tempo pelas formas artísticas e literárias de vanguarda. Em 1976 organizou o primeiro simpósio internacional sobre o letrismo e publicou vários trabalhos e obras nessa área. Também era membro da Internacional Novadora Infinitesimal (INI). Passaram-se muitos anos até que ele pudesse voltar para a Europa, quando finalmente lhe foram suspensas as proibições de entrada na Itália, na França e na Suíça. Morou por um tempo em Nice e em Sanremo, onde ele cuidava de sua mãe.

O interesse pelo anarquismo não o abandonava. Em 1980, chegou a organizar na sua universidade uma semana internacional de debates, filmes, apresentações e eventos sobre o anarquismo, apesar das reclamações por parte da direção da faculdade. Publicou estudos sobre “Surrealismo e Anarquia”, “Anarquismo e cinema”, “Os anarquistas vistos pelos pintores”, assim como dois livros importantes sobre os anarquistas na Revolução Mexicana e uma revisão das fontes sobre o tema. Conduziu também pesquisas sobre as origens da objeção de consciência na Itália.

Escreveu artigos para A rivista anarchicaApArteRivista storica dell’anarchismoArt et anarchie, para os Boletins do CIRA de Genebra/Lausana e de Marselha, para publicações brasileiras e várias outras revistas e obras coletivas.

Depois de aposentar-se, ainda prestou alguns serviços como intérprete, mas vivia modestamente, o que lhe obrigou a vender uma parte dos seus arquivos. Ainda assim, organizou festivais de cinema, participou de diversos colóquios internacionais e continuou com as suas pesquisas.

Nos últimos anos, a sua saúde se havia deteriorado. Teve o pesar de perder prematuramente a sua filha Anna e o seu filho Franco. A sua esposa, Diana Lobo Filho, também falecera antes dele. Alguns(umas) antigos(as) alunos(as) próximos(as) dele puderam acompanhá-lo até os seus últimos momentos, quando ele residia numa casa de repouso e já não conseguia mais falar.

Alguns dos arquivos de Pietro Ferrua se perderam ou foram apreendidos ao longo dos seus sucessivos exílios, mas ele havia conservado e recuperado uma grande parte. Eles foram entregues (ou serão em breve) ao Archivio Famiglia Berneri em Régio da Emília (Itália), à Labadie Collection da universidade de Ann Arbor em Michigan (Estados Unidos) e ao CIRA de Lausana (Suíça).

A iniciativa de Ferrua deu origem a outros CIRA, alguns de longa, outros de curta duração, que foram agrupados desde 1974 sob diversos nomes na rede FICEDL (Federação Internacional dos Centros de Estudo e de Documentação Libertária, ficedl.info).

ME, CIRA Lausanne

www.cira.ch

Tradução > Guilherme Tell

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umidade de orvalho
na folha verde da manhã
brilho de sol nas gotas

Marland

[Espanha] Lançamento: “Rebeldes periféricas del siglo XIX”, de Ana Muiña

No transcurso do século XIX, o germe originário da “sociedade do porvir” foi constituído por uma multidão de mulheres transgressoras, até agora quase anônimas. Com raiva e com paixão, tentavam subverter a ordem antiga em um afã fervilhante de justiça, liberdade e igualdade.

Neste livro se resgatou do esquecimento umas 350 mulheres rebeldes que fizeram brotar sob seus pés todos os movimentos sociais contemporâneos: o feminismo, o antimilitarismo e pacifismo, o internacionalismo, o laicismo, o republicanismo, o livre pensamento, o sindicalismo, o naturismo, a liberdade sexual, a maternidade consciente, e os direitos reprodutivos, convertendo-os em uns movimentos mundiais que reinventavam todos e cada um dos aspectos da vida cotidiana.

As protagonistas destas páginas se moveram pelo subsolo até se tornarem fortes. E quando ganharam potência para passar da realidade imaginária à realidade tangível, criaram mundos paralelos à sociedade dominante e antagônica que as caluniava, excluía e punia.

Graças à coragem destas mulheres, muitas de suas alternativas as desfrutamos hoje em dia. Desde a periferia demostraram que persistindo nas utopias, cedo ou tarde, acabam por tornar-se realidade.

Algumas das pioneiras em tempos selvagens citadas:

Belén Sárraga, Voltairine de Cleyre, Luisa Capetillo, Emma Goldman, Louise Michel, Rosa Luxemburgo…

Rebeldes periféricas del siglo XIX

Ana Muiña

208 Páginas. Contiene 800 imágenes inéditas de la época.

Precio 20 €

ISBN:978-84-122547-2-3

lalinternasorda.com

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Cena oriental:
uma palhoça medita
no meio do pasto.

Lena Jesus Ponte

[Espanha] Homenagem a Sebastián Oliva na Plaza del Arenal

Convocado pela CNT Jerez, esta tarde (17/08) uma homenagem a Sebastián Oliva foi celebrada na Plaza del Arenal no 85º aniversário de sua execução. Camponês, professor e anarcossindicalista, desde a CNT se destaca que “Oliva foi um lutador incansável pelos direitos dos camponeses, e um professor de ‘casa de fazenda’ que ensinava a ler e a escrever, e, aliás, espalhou a Ideia pelas fazendas e vinhedos. Foi diretor do jornal “La Voz del Campesino”. Cinquenta pessoas participaram do evento em memória de Sebastián Oliva, que contou com a música de El Domador de Medusas e contadores de histórias.

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zunir da cigarra…
no instante da pausa
o silêncio ecoa

Gustavo Terra

Quem são os integralistas, o fascismo brasileiro que mantém seguidores até hoje

“Deus dirige o destino dos povos”.

A expressão, criada por Plínio Salgado (1895-1975), abriu o Manifesto de Outubro, em 7 de outubro de 1932.

O documento, redigido pelo próprio jornalista, definia as diretrizes ideológicas do integralismo, versão brasileira do fascismo italiano e de seus similares europeus, e é considerado a “certidão de nascimento” do movimento.

Quase 90 anos depois, no dia 8 de junho de 2021, a frase foi resgatada por Paulo Fernando para abrir seu discurso de filiação ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em julho, mais duas importantes lideranças neointegralistas, Moisés José Lima e Lucas Carvalho, se filiaram ao partido presidido pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson para disputar as próximas eleições.

Não é a primeira vez que neointegralistas tentam aproximação com partidos políticos de direita, como o Partido de Reedificação da Ordem Nacional (PRONA), de Enéas Carneiro (1938-2007), e o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), de Levy Fidelix (1951-2021).

Quem explica é Odilon Caldeira Neto, doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

“Os neointegralistas buscam construir alianças para articulações mais amplas. O discurso contrário à democracia liberal é, muitas vezes, um grande obstáculo para as pautas integralistas. Mas essa relação existe. E, ultimamente, tem crescido”, afirma Odilon, autor de Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo (2014) e coautor de O Fascismo em Camisas Verdes – Do Integralismo ao Neointegralismo (2020), em parceria com Leandro Pereira Gonçalves.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-58205709

agência de notícias anarquistas-ana

Com dignidade
nas minhas velhas roupas –
o espantalho

Stefan Theodoru

[França] A livraria do Lírio do Vale

Você deve se comprometer a descobrir a livraria do Lírio do Vale no bairro de Saint-Éloi em Bordeaux, nas instalações do Athénée libertaire [Ateneu Libertário]. No final do beco sem saída, você atravessa um portão de ferro forjado e entra em uma espécie de pátio onde verá uma fachada de borras de framboesa, a livraria e algumas bicicletas.

Memória

Desde 1963, esta sala abrigava uma biblioteca dedicada à história dos movimentos operários e suas lutas, trazida por exilados anarquistas da Guerra Civil Espanhola. Como resultado de lutas internas e ideológicas, o acervo dessa biblioteca foi disperso, mas grande parte dela continua disponível para consulta no local.

Nos anos 1970, também abrigou um cineclube que agora deu lugar a uma sala de debates, espetáculos e um bar autogestionado.

O livro totem

O pensamento libertário tem uma relação singular com os livros, meio de emancipação e educação. Não é o Ateneu o lugar onde os oradores vêm ler suas obras?

A livraria do Lírio do vale é independente, libertária e opera em autogestão desde março de 2003. A visitação é oferecida duas tardes por semana por ativistas não remunerados e as receitas da livraria são totalmente reinvestidas nas despesas de viagem de autores ou conferencistas e para complementar o fundo da biblioteca.

Alguns milhares de livros aguardam o leitor interessado em temas específicos: colonialismo, todas as formas de exclusão e perda de liberdades (prisão, psiquiatria), mas também lutas feministas, com o viés de informar sobre todas as formas de lutas sociais, políticas, econômicas, ideológicas e críticas.

Acompanhando os grandes movimentos sociais de 1995 na França e de 1999 em Seattle (nascimento do movimento antiglobalização que se tornou alter-globalista em 2001), estamos testemunhando o surgimento de editoras especializadas em fanzines, rótulos que são os portadores das palavras de lutas sociais. A próxima visita à livraria de Jean-Pierre Leva Ray é a prova disso. Trabalhador de uma fábrica química, subsidiária da Total, sindicalista, escritor libertário e ativista anarquista, é autor de vinte livros, o mais conhecido deles é Putain Factory, mas também criador de um fanzine e de uma editora musical.

Abertura

A atividade da livraria não se limita à venda de livros. Participa uma dezena de vezes por ano em mesas de imprensa no âmbito de eventos a convite do cinema Utopia, do Ciné Réseaux no Jean-Eustache de Pessac. Mais recentemente, l’Escale du Livre convidou a Livraria do Lírio do vale para apresentar editoras como Libertalia, L’Échappée e organizar debates com pesquisadores como Éric Fassin, sociólogo e autor das edições Roma e residentes em La Fabrique em 2014. As discussões são organizadas uma vez por mês sobre temas atuais ou históricos, como com Pinar Selek, ativista e sociólogo, exilado na França, autor de “Porque são armênios” publicado por Liana Levi, 2015.

A associação Mankind, organizada pelo Athénée, organiza concertos de música punk e hardcore.

O livro em construção

Por causa de sua combatividade, os trabalhadores do livro unidos na associação, sempre se beneficiaram de consideráveis ​​vantagens em relação à condição de trabalho. A informatização e a concentração de grupos de imprensa os minaram em grande parte. A questão do acesso à distribuição digital surgiu dentro do coletivo da livraria que, por enquanto, o deixa em suspenso. A prioridade é perpetuar a atividade e garantir a presença junto ao público. Podemos apostar que as gerações futuras assumirão essas questões.

Talvez não seja por acaso que a livraria está localizada na rua do lírio do vale: lírio do vale está associado ao Dia do Trabalho, uma reminiscência da greve dos trabalhadores de Chicago, suprimida com sangue em 1° de maio de 1886. Este lírio do vale, que substituiu ao longo dos anos, o símbolo do triângulo vermelho das três demandas: oito horas de trabalho, oito horas de sono, oito horas de lazer.

Uma coisa de que podemos ter certeza é que todo ano o lírio do vale florescerá.

Jean-Louis Deysson

>> Livraria do Lírio do Vale, 7 rue du Muguet, atheneelibertaire.net

Tradução > Baru

agência de notícias anarquistas-ana

O peixe mergulha
do seu salto sobre a rocha:
o rio não para.

Everton Lourenço Maximo

[Espanha] Solidariedade internacionalista: companheiras anarquistas resgatadas das garras dos Talibãs

Hoje (01/09) várias companheiras anarquistas da região afegã foram resgatadas.

Companheiras e companheiros da região paquistanesa da Workers Solidarity Federation (WSF) em colaboração com a Federação Anarquista da Nova Era (Irã-Afeganistão) e o apoio do sindicato australiano ASF-AIT, a subsecretaria da AIT na Ásia-Pacífico e as seções da AIT em todo o mundo, conseguiram resgatar várias companheiras das garras dos Talibãs.

Elas agora estão seguras no Paquistão.

Desde a CNT-AIT só podemos agradecer a todas e todos vocês que ajudaram durante estas semanas difíceis levantando e enviando fundos ou divulgando a campanha promovida pela seção paquistanesa da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).

Seguiremos informando.

CNT-AIT

cnt-ait.org

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2021/08/17/afeganistao-ajude-nos-com-nossa-luta-contra-os-talibas/

agência de notícias anarquistas-ana

As folhas secas
caem com a ventania
sobre o riacho

Antonio Malta Mitori