[Cuba] Declaração de Afrocubanas: La Revista

O coletivo de editoras de Afrocubanas La Revista torna pública a presente declaração a propósito dos acontecimentos de 11 de julho em várias cidades e municípios do país.

Repudiamos a violência e a repressão posterior dos que tomaram as ruas cubanas em resposta à situação de crise econômica, social e sanitária em que se encontra o país.

Compreendemos a gravidade do contexto da pandemia em que aconteceram as manifestações. Não obstante, Afrocubanas La Revista considera que a violência física, verbal, as detenções, julgamentos sumários e a transmissão de narrativas do tipo “a rua é dos revolucionários” são contrários aos princípios fundacionais da nação cubana, além de que está em questionamento o que é ser revolucionário em uma Cuba onde ainda resta muito por fazer em matéria de direitos humanos (o matrimônio igualitário é uma dessas pendências).

Um país como Cuba, que teve a igualdade como princípio de suas políticas públicas, não deve dar espaço a retóricas excludentes, que pretendem silenciar e perseguir a crítica e o dissenso, assim como os setores da população que os propõem dentro do processo de construção do projeto revolucionário. Manifestar-se e sair à rua é o resultado de uma luta histórica e é também uma das formas na qual o poder e o desejo do povo – diverso, heterogêneo e inclusivo – se expressa.

Exortamos então a abandonar as lógicas binarias, muito próprias de um pensamento colonial que segue sendo reproduzido pelo Estado, de “estás comigo ou contra mim”. Estas lógicas coloniais, defendidas desde posições hegemônicas, reduzem fenômenos complexos a uma fórmula maniqueísta que não permite achar outra saída que não seja a confrontação antagônica. Afrocubanas defende a reconciliação e a gestão de espaços para que todas as vozes e posições políticas possam coexistir.

A violência policial em Cuba não é nova. Há setores que estão há muito tempo vivendo-a, como os jovens negros, que atendendo ao “perfil racial” estão sempre na mira da polícia. Também, entre os que saíram à rua em 11 de julho se encontram ativistas, jornalista e artistas que vem sofrendo por anos o assédio político, ameaças, descrédito por parte do governo, da segurança do Estado e dos meios de comunicação oficiais.

Preocupa-nos também que essas pessoas que se manifestaram em 11 de julho, entre as quais se encontram menores de idade, estão sendo criminalizadas e julgadas. Estão-lhes inventando causas comuns como estratégia para dar lições a elas e ao resto da população. Muitas dessas pessoas pertencem aos setores marginalizados do país, gente humilde que viveu e vive histórias de carências, de círculos de violência em todos os níveis, gentrificação, racismo, classismo, etc. Pessoas que lutam a cada dia para sobreviver. Sair para manifestar-se por uma vida digna é um ato de justiça e assim deveria ser visto por uma revolução que pretendeu ser com todos e para o bem de todos. Ao invés disso os nomearam no início como “revolucionários confusos”, para logo convertê-los em “malandros”.

Pedimos aos meios de comunicação, cubanos e internacionais, oficiais e independentes, que tratem de ater-se à verdade e tratem com respeito os testemunhos das pessoas que participaram nos acontecimentos. Que se denunciem as notícias falsas ao mesmo tempo em que se reconheça a veracidade de outras.

Exortamos a deixar de lado o confronto, as ordens de combate, os chamados a uma intervenção militar, assim como nos declaramos contra o bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba. Em todos os casos, é sobre o povo cubano, sobre os quais sobrevêm as funestas consequências dessa beligerância.

Por último, a liberdade, em seu sentido mais amplo, é uma responsabilidade, mas temos que aprender a exercê-la eleva-la até suas últimas consequências. A liberdade de amar, de pensar, de fazer, de existir. Não é a liberdade que se esgota nas urnas. A estabilidade dos países não deveria estar sujeita à pessoa de turno que esteja no poder.

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.

Matsuo Bashô

A Revolução cubana morreu

Por Julio Lorente | 19/07/2021

O entusiasmo que gera toda revolução — Kant o apontava em sua Filosofia da História —, faz tempo que acabou para a Revolução cubana. E se acabou porque a mesma foi esgotando minuciosamente sua reserva simbólica: seu compromisso social.

O povo passou de figura tangível a decoração retórica, e cai sobre esse esquecimento-coerção não só a “parte divergente” do povo, mas o povo em sua generalidade. As reformas implementadas na chamada “Tarefa Ordenamento” foram, uma após outra, cometendo todo tipo de erro que, por ser tão inconcebível para uma economia despedaçada, se poderia pensar que são a priori. Não se pensou nem medianamente em solucionar os problemas imediatos das pessoas, mas em entorpecer a vida do cidadão a pé, e tudo isto em meio de uma pandemia. Desse desespero coletivo nasce o 11 de julho.

É a primeira vez, nos 62 anos de retórica populista da Revolução cubana, que o regime castrista teve que enfrentar um levantamento popular a tal escala. E o fez ao mais puro estilo totalitário: violência pura e dura. Os mecanismos de repressão haviam sido, quase sempre, sinuosos, pontuais e profiláticos. Mas o repertório mostrado ante cada câmara de celular flutua entre sórdidas imagens de jovenzinhos do serviço militar assustados e com paus na mão, até policiais com uma indumentária futurista e temerária. Disparos, sangue, pedras, lemas de um lado e verdades desgarradas de outro; a ilustração mais acabada da cubanidade inoculada pelo castrismo: divisão e ódio.

Díaz-Canel perdeu a oportunidade de ser um Gorbachov tropical e escolheu ser uma prolongação dócil e mesquinha nas mãos do pináculo do poder real em Cuba; leia-se Raúl Castro. Escolheu seguir defendendo a cubanidade como uma categoria política, por isso “a rua é dos revolucionários”, daí a fora não existem os demais, e como não existem são facilmente descartáveis. Parecia retumbar a equação estalinista: a morte de um homem é uma tragédia, a de um milhão uma estatística.

Depois deste banho de sangue tão hiper-real, depois destes encarceramentos e desaparições, não será possível nenhuma “retificação”, esse termo tão comunista e demodê utilizado na Rússia soviética de Stalin, da China de Mao e da Cuba de Fidel/Díaz-Canel. E não será possível porque a Revolução, como cruel Uróboros, mordeu sua própria cauda, essa cauda que sempre foi seu estratégico leitmotiv: o povo.

Quando a linguagem política gravita para o nada e necessita puxar o gatilho para ser crível, o evento revolucionário terminou. Poderíamos dizer, sem temor de nos equivocarmos, que a Revolução cubana morreu. Só lhe resta que custodiem seu cadáver suas tropas de assalto, antes que outra explosão social a apague do mapa histórico. É questão de tempo.

Tradução > Sol de Abril

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Tarde de inverno:
Sobe do fundo dos vales
A sombra das montanhas.

Paulo Franchetti

[Chile] Semana de agitação contra o capitalismo extrativista e pela liberdade | 23 a 29 agosto

Desde diversos lugares do território latino-americano se levanta a Semana de agitação contra o capitalismo extrativista e pela liberdade, a qual, inclui informação, atividades, oficinas e comícios.

Na sexta-feira, 27 de agosto, é a convocatória internacional em cada território contra a devastação e a usurpação da natureza pelas empresas extrativistas instaladas em nossos territórios.

LUTA ANTICAPITALISTA CONTRA TODA DOMINAÇÃO E AUTORIDADE, FORA MADEIREIROS E EMPRESAS EXTRATIVISTAS DE NOSSO TERRITÓRIO!

Por décadas, a classe política-empresarial, em coordenação com os Estados latino-americanos, sustentou e intensificou o saque da Terra.

A integração ao mercado global é sua meta, e as consequências são empobrecimento, devastação e a contaminação de nossos territórios.

Fazemos um chamado a todas as expressões de luta autônoma, a nossos companheiros e aos diversos povos em luta a fortalecer a resistência e manifestarmos com protesto, propaganda, e difusão de informação, em ofensiva contra a atual colonização mercantil, que acelera o projeto civilizatório capitalista.

O chamado é também para agitar e se solidarizar com os presos de longa condenação e todos os que se encontram encarcerados por assumir o enfrentamento radical contra o sistema capitalista.

Vamos trazer à memória todos que deram a vida na luta contra o sistema, com eles fortalecendo nossos passos e com a certeza de que um mundo novo é possível, pela criação de saídas reais ao capitalismo, com a certeza de que um mundo novo é possível.

QUE O VENTO EXPANDA O CONVITE A ESTA SEMANA DE AGITAÇÃO!

agência de notícias anarquistas-ana

A chuva tardia
deixou perfumes de terra
nas ruas molhadas.

Humberto del Maestro

[Espanha] Centenário do assassinato de três cenetistas em aplicação da Lei de Fugas. Madrugada de 18 de junho de 1921

Por Agustín Guillamón

Faz cem anos, na madrugada de 18 de junho de 1921, foram assassinados três cenetistas em aplicação da Lei de fugas. O terrorismo da patronal catalã e do Estado espanhol, aliados e complementares, vingaram o assassinato de Dato e o recente atentado contra o alcaide de Barcelona.

Centenário do assassinato de três cenetistas na madrugada de 18 de junho de 1921

Evelio Boal López (1884-1921). Nascido em 11 de maio de 1884 em Valladolid. Emigrou muito jovem a Barcelona. Tipógrafo anarcossindicalista. Em 1908 se filiou ao Sindicato de Artes Gráficas de Barcelona e foi nomeado membro da Junta do Sindicato da Arte de Imprimir. Impulsionou a greve contra El Progreso, órgão do Partido Republicano Radical de Alejandro Lerroux.

Aficionado ao teatro dirigiu o grupo artístico do Centro Obrero de la calle de Mercaders, onde se representaram obras de Guimerà, Rusiñol e Ibsen.

Depois da greve geral revolucionária de agosto de 1917, foi secretário de atas no CN de Manuel Buenacasa, realizando tarefas propagandísticas e de organização em toda Castilla.

Desde 28 de junho a 1º de julho de 1918 foi delegado do Sindicato de Artes Gráficas de Barcelona ao Congresso de Sants, que o elegeu membro do Comitê Nacional (CN) da CNT. Fez parte da comissão que redigiu a memória do congresso, que havia decidido organizar-se em sindicatos únicos.

Em janeiro de 1919 foi detido com outros membros do CN, mas logo foi liberado surpreendentemente, devido a sua tuberculose e a uma carta assinada por 500 presos solicitando sua liberdade, porque sua vida corria perigo. Em fevereiro de 1919 substituiu provisoriamente a Buenacasa na secretaria do CN.

Entre fevereiro e março de 1919 fez parte do Comitê de Greve da Canadiense em representação do CN da CNT. Em 23 de maio foi detido por difusão de propaganda anarquista. No verão de 1919 viajou a Portugal para buscar aliados sindicais e sugeriu a criação de uma federação anarquista ibérica.

Foi um dos mais destacados organizadores do Segundo Congresso da CNT no Teatro da Comedia de Madrid, reunido entre 10 e 17 de dezembro de 1919. Esse congresso confirmou seu cargo de secretário do CN da CNT. Foi um dos 24 signatários do parecer sobre a definição ideológica da CNT, que declarava como finalidade da organização o Comunismo Libertário.

Em 12 de janeiro de 1920 foi detido em uma reunião do CN. Em setembro de 1920 acompanhou Salvador Quemades e Salvador Seguí na viagem a Madrid para formalizar um pacto com a UGT, contra a repressão e em prol de futuras mobilizações, apesar de que havia manifestado sua desconfiança para com os ugetistas.

Entre 1920 e 1921 foi corresponsável em Barcelona de Solidaridad Obrera de Gijón. No Pleno de Tarragona defendeu o apoio à greve de Riotinto e o pacto com UGT. Colaborou na imprensa libertária (Fuerza Consciente de Los Ángeles, El Rayo, Solidaridad Obrera, Tierra y Libertad, etc.). Costumava usar o pseudônimo “Chispazos”.

Em novembro de 1920, na sequência da repressão governamental desatada contra o movimento anarcossindicalista, passou à clandestinidade. Em 3 de março de 1921 foi novamente detido no domicílio de Ángel Fernández Castaño na calle de Marina, onde vivia secretamente, e foi preso na barcelonesa cárcere Modelo, onde foi golpeado e torturado.

Em 8 de março de 1921, Eduardo Dato, presidente do Governo, havia sido assassinado por grupos de ação confederal.

Em 17 de junho de 1921 o alcaide de Barcelona, Antonio Martínez Domingo, havia sido ferido de bala, muito levemente, em um atentado. Esse mesmo dia, 18 cenetistas encarcerados como presos governamentais, muitos deles desde 1º de março de 1921 em uma reunião do secretariado da CNT, foram transladados do Cárcere Modelo à Chefatura de Polícia, e após as oportunas diligências foram liberados às doze da noite.

Na madrugada de 18 de junho de 1921, em aplicação da chamada “lei de fugas”, lei não escrita, mas muito real e efetiva, criada pelo terrorismo conjunto e complementar da grande patronal catalã e do Estado, foram assassinados três sindicalistas filiados à Confederação que haviam sido transladados desde o Modelo à Chefatura de Polícia, com outros 15 companheiros, e logo postos em liberdade a meia noite.

Esses três militantes eram os seguintes:

  1. Evelio Boal López, secretário nacional desde março de 1921, de 30 anos de idade, foi assassinado em 18 de junho de 1921 às duas e meia da madrugada nas proximidades de Santa María del Mar. Recebeu vários disparos de pistola na cabeça. Vítima da lei de fugas sem mais delito que sua militância sindical.
  2. Poucos minutos depois, José Domínguez Rodríguez era assassinado por um disparo na cabeça na porta de seu domicílio, na calle Mirallers 12, tercero, primera. Havia nascido em Barcelona em 18 de março de 1897. Em 1920 havia sido vice-secretário do sindicato único do vidro da CNT. Era supostamente “implicado em vários atentados ocorridos na fábrica do senhor Lligé”. Havia regressado a pouco à Barcelona, depois de um longo período oculto, ao que parece, em Málaga. Vítima da lei de fugas, culpado de militar na CNT.
  3. Às três da madrugada, Antonio Feliu Oriol foi assassinado a tiros na Sala de San Juan, frente ao Palácio de Justiça. Havia nascido em Barcelona em 2 de janeiro de 1897, solteiro, tanoeiro, domiciliado na calle Borrell 158, bajos. Era membro do secretariado do sindicato da madeira e tesoureiro da CNT. Havia sido detido em 1º de março de 1921 em uma reunião do secretariado da CNT, junto a outros nove militantes. Outra vítima da lei de fugas, sem mais delito que o de ser um sindicalista da CNT.

Ninguém denunciou que essas mortes eram a resposta da patronal e do exército ao atentado contra o alcaide de Barcelona. Nenhuma nota de imprensa. Nada, nem ninguém, absolutamente ninguém, relacionava explicitamente a morte desses três cenetistas com o atentado ao alcaide de Barcelona, nem tampouco com a morte de Dato em 8 de março de 1921. Não era necessário dizê-lo ou escrevê-lo, porque todo o mundo sabia. O assassinato desses três cenetistas era a resposta do terrorismo estatal e patronal ao assassinato de Dato e o atentado ao alcaide de Barcelona.

Evelio Boal, partidário do amor livre, deixou companheira, com quem não tinha casado, e dois meninos.

Alguns analistas afirmam que os assassinatos de Evelio Boal e Salvador Seguí truncaram uma via sindicalista pura na CNT, favorecendo sua radicalização e abrindo caminho a um anarcossindicalismo radical e insurrecionalista.

Durante a Segunda República, a calle de Sant Pere Més Alt de Barcelona levou o nome de Evelio Boal.

Agustín Guillamón

Barcelona, junho de 2021

Fontes:

BUENACASA, Manuel: El movimiento obrero español (1886-1926).Historia y crítica.Júcar, Madrid-Gijón, 1977

ÍÑIGUEZ, Miguel: Enciclopediadel anarquismo ibérico. Asociación Isaac Puente, Vitoria, 2018

La Vanguardia (19-6-1921)

Fonte: https://serhistorico.net/2021/06/14/centenario-del-asesinato-de-tres-cenetistas-en-aplicacion-de-la-ley-de-fugas-madrugada-del-18-de-junio-de-1921/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

O velho salgueiro
Inclinado sobre o lago
Resmunga baixinho.

Mary Leiko Fukai Terada

[Espanha] Vídeo | O Grande Irmão Chega ao Campo: Ataque Digital aos Alimentos

As maiores corporações do mundo estão provocando mudanças drásticas e em larga escala na agricultura, no processamento de alimentos e no varejo em todo o mundo. Em colaboração com o Estúdio Freehand em Nairóbi, apresentamos O Grande Irmão Chega ao Campo, que desafia o discurso industrial dominante de soluções tecnológicas promovido pela próxima Cúpula de Sistemas Alimentares. Nossa animação afirma que a soberania alimentar e a agroecologia são o único caminho a seguir.

Ela revela que gigantes do agronegócio como Bayer, Corteva Agriscience, Syngenta Group e BASF estão agora unidos por outras corporações igualmente poderosas que não pertenciam ao mundo dos alimentos, mas querem moldá-lo para servir aos seus interesses. Por exemplo, as gigantescas empresas de gestão de ativos das quais quase ninguém ouviu falar, como a Blackrock, que tem comprado ações no mundo alimentício e agrícola e adquirido enorme influência sobre seu desenvolvimento futuro.

As grandes empresas financeiras e tecnológicas querem que a agricultura fique “on-line”. O sistema alimentar está cheio de coisas que podem ser transformadas em “dados”: DNA em sementes, dados sobre água e solo em fazendas, dados sobre a movimentação de mercadorias do campo para a fábrica e, é claro, todos os dados de vendas de mercearia e dados de consumo.

O Grande Irmão Chega ao Campo pode ser visto em inglês, francês, espanhol e swahili. Uma história difícil, mas esperamos que você a aprecie e encontre algumas informações importantes.

O Grande Irmão Chega ao Campo: Ataque Digital aos Alimentos (Espanhol)

https://youtu.be/-8j2vIYnrr8

Fonte: https://contratodanocividad.espivblogs.net/video-el-gran-hermano-llega-al-campo-asalto-digital-a-la-alimentacion/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

À luz da manhã
cigarras cantam uníssonas:
homenagem ao sol.

Ronaldo Bomfim

[EUA] Um olhar para a cidade anarquista no parque Kelly Butte, em Portland

O PDX Houseless Radicals Collective (Coletivo de Radicais Sem-teto) transformou o parque em uma base isolada em sua luta para resolver os problemas dos sem-teto

Por Henry Brannan| 14/07/2021

O que os sem-teto podem fazer para lutar e melhorar suas próprias vidas? Porque ninguém mais vai fazer isso por nós.” Essas foram as palavras que deram início ao Coletivo PDX Houseless Radicals, de acordo com Jean-Jacques Michell, um dos membros fundadores.

Michell disse ao Street Roots que o coletivo considerou outras áreas onde eles poderiam ser úteis enquanto os protestos noturnos do levante de George Floyd diminuíam no início deste ano, finalmente olhando para dentro de suas próprias experiências.

“Passei a maior parte da minha vida adulta sem casa. Eu também fiz faculdade de serviço social e trabalhei no sistema de jovens sem-teto por um tempo, então eu vi os dois lados”, disse Michell, que é não-binárie e usa pronomes neutros (“they” singular, em inglês). “Então, eu desisti do meu lugar e comecei a falar com as pessoas, e isso simplesmente cresceu.”

Meses depois, o coletivo tem cerca de 30 membros, com 10 a 12 morando em um acampamento isolado sob as árvores conhecidas como abeto-de-douglas e bordos (também conhecidas como ácer) na área natural Kelly Butte, no sudeste de Portland.

A declaração de missão postada no site do grupo descreve-o como um coletivo de esquerda, sem liderança, de antifascistas, solidário com as pessoas em todo o mundo na luta por igualdade, justiça social, iniciativas verdes, antifascismo, anti-imperialismo e devolução de terras às populações indígenas, comumente referido como o movimento “terra de volta”. Em última análise, o grupo defende uma sociedade socialista sem governantes, classes ou fronteiras.

Um fluxo constante de apoiadores e voluntários entrega suprimentos e ajuda com projetos de acampamento entre conversas sobre política e eventos atuais. O anarquismo é a ideologia mais prevalente no campo e se reflete em sua bandeira preta e vermelha e no logotipo do HRC.

“Esta é basicamente uma terra não utilizada, então não vejo por que haveria um problema com alguém usando-a para abrigar pessoas que precisam de abrigo”, disse Michell, observando que, como os proprietários locais querem que essas pessoas fiquem escondidas, isso deve ser um arranjo agradável para todas as partes.

Além de evitar a ira dos proprietários de casas nas proximidades, e com os esforços de varredura contenciosos e contestados da cidade em Laurelhurst Park frescos na mente dos membros, o local também foi uma escolha defensiva. Pessoas sem casa e seus aliados muitas vezes evitavam ou adiavam as varreduras em Laurelhurst, mas era “apenas uma posição possível porque obteve publicidade até agora”, disse Michell.

“Não acho que isso possa ser possível a longo prazo”, acrescentou Michell. “Eventualmente, Ted (Wheeler) vai se cansar disso e vai mandar policiais de choque, e então será o fim.”

O isolamento do parque de 23 acres também mantém os campistas longe da violência dos vigilantes.

“Alguns dos meus amigos literalmente apareceram mortos no centro da cidade”, disse Alex, um jovem membro do coletivo que se juntou a seu parceiro em busca de segurança, comunidade e alcance de ajuda mútua. “Suas barracas são queimadas ou coisas são roubadas… barracas são cortadas por facas.”

Os membros variam em idade, formação e ideologia política específica, mas estão unidos na dedicação à realização de seus valores por meio de ações cotidianas. Isso é expresso principalmente por meio de uma mistura de ajuda mútua e trabalho de defesa de varredura militante.

“Nós saímos algumas vezes por semana, trocamos seringas e distribuímos suprimentos e outras coisas para as pessoas”, disse um membro do acampamento que atende pelo nome de Kracken, que disse que estiveram nas ruas durante grande parte da vida.

O coletivo distribui suprimentos de acampamento e outras “coisas de necessidade básica”, disse Michell, acrescentando que, embora tudo deva ser comprado ou doado porque vivemos em um “sistema baseado em capital”, o coletivo está “tentando mostrar que há outra maneira, que não envolve [tanto] capital”.

Michell disse que o coletivo postou panfletos com suas informações de contato para ajudar a organizar uma defesa para quem for destacado para varreduras. Michell disse que eles também realizaram treinamentos de autodefesa com outros campos para lidar com a violência dos vigilantes.

O coletivo enfatiza aproximar-se de outras pessoas sem casa como pares e não ser afiliado a uma organização religiosa ou sem fins lucrativos, muitas das quais são vistas pelo grupo como agindo com interesse próprio e têm ligações com autoridades municipais e policiais.

“Uma das razões pelas quais eu escolhi fazer deste um coletivo sem-teto, em vez de apenas um coletivo ajudando pessoas sem-teto, foi que eu senti que seria uma vantagem poder comparecer a um acampamento que precisa de assistência e armar uma barraca”, disse Michell. “Coisas como ajuda mútua são a prova e a prática e o conceito de que há outra maneira de fazer as coisas, com pessoas apoiando umas às outras.”

Entrando em outros acampamentos para oferecer apoio, eles costumam dizer aos residentes: “Não somos assistentes sociais e não estamos com o governo, mas temos coisas e é grátis”. Michell disse que o refrão comum dentro do grupo começou como uma piada.

Desde que Street Roots conversou pela primeira vez com Michell, eles anunciaram publicamente que estão se afastando de um papel de liderança no grupo devido a uma doença com risco de vida, embora permaneçam residentes em Kelly Butte.

Outro membro do grupo que atende pelo nome de Fantasmo disse que encontrou a comunidade, apesar de vir de uma formação muito diferente – estudar filosofia na faculdade. Ele queria colocar em prática as teorias sobre as quais estava lendo.

“Não acho que posso me rebelar contra o sistema permanecendo parte dele”, disse ele. “Eu quero ir até o fim e quero participar. A única maneira de realmente entrar na luta de classes é entrar na classe que está fazendo a luta”.

Os Park Rangers de Portland pediram aos campistas que saíssem – um pedido que eles negaram firmemente – abrindo a possibilidade de uma remoção forçada pela administração da cidade. Em nota ao Street Roots, o porta-voz Tim Collier da agência de parques e recreação de Portland, responsável pela manutenção das áreas naturais de Kelly Butte, escreveu que a agência deve seguir o Título 20 (regulamentação de eficiência), que proíbe a construção de estruturas, permanentes ou temporárias, em parques públicos. Qualquer intervenção no local seria conduzida pelo Programa de Redução de Impacto dos Moradores de Rua e dos Acampamentos Urbanos da cidade, e as pessoas que não cumprirem voluntariamente as regras do parque podem ser excluídas do parque.

A declaração de Collier observou que a agência está preocupada com os moradores de Portland morando ao ar livre na área natural de Kelly Butte, reconhecendo que a crise habitacional nacional, exacerbada pelos impactos econômicos da pandemia COVID-19, continua a aumentar o número de pessoas sem-teto em Portland.

“O PP&R (agência de parques e recreação) reconhece que há uma interseção clara entre o terreno que a agência é responsável por manter e nossa crise habitacional nacional”, disse um porta-voz ao Street Roots por e-mail. “O relacionamento atual é um equilíbrio entre a redução de danos e a segurança dos campistas e da comunidade, relacionada a coisas como risco de incêndio florestal, materiais perigosos, etc.”

Embora se recusem a sair, por preocupação com a sustentabilidade do acampamento os membros do coletivo dizem que trabalharam para manter o impacto ambiental do acampamento mínimo por meio do uso de banheiros químicos, que têm manutenção profissional regular, e coleta de lixo frequente. Em conformidade com o protocolo de segurança COVID-19, eles espaçaram as tendas do acampamento com pelo menos 6 pés de distância.

Enquanto a ameaça de uma varredura permanece sempre presente, os campistas estão jogando o jogo longo.

“Minha visão de longo prazo é que haverá lugares mais sustentáveis fora da sociedade, onde as pessoas que desejam abandonar o sistema podem ir e viver separadas dele”, disse Fantasmo.

Fonte: https://www.streetroots.org/news/2021/07/14/look-inside-anarchist-city-portland-s-kelly-butte

Tradução > abobrinha

agência de notícias anarquistas-ana

minha sombra
com pernas mais longas
não me afasta

André Duhaime

[Argentina] Comunicado de 1º de agosto de 2021 desde a Pu Lof Cushamen, a 4 anos do desaparecimento de Santiago.

#JusticiaPorSantiago

Em 1º de agosto de 2017, neste mesmo lugar, Santiago foi visto pela última vez com vida durante a brutal Repressão do operativo realizado pela Gendarmeria [polícia] nacional. Desde esse dia Santiago esteve desaparecido 78 dias.

A partir desse dia na Argentina e em muitos lugares do Mundo se começou a conhecer sua cara e seu Nome, se multiplicaram os pedidos de Aparecimento com vida e a pergunta que todos nos fazíamos era, Onde está Santiago?

No País dos 30.000 onde as e os desaparecidos ocupam um lugar muito importante em nossa sociedade, que não esquece essa época obscura e nefasta, tínhamos um novo desaparecido na democracia sob o Governo de Mauricio Macri, com sua política de Estado baseada na repressão, ajuste e violações de direitos humanos levada a cabo por Patricia Bullrich e todo seu ministério de segurança.

Desde Pablo Noceti a cargo do operativo, negado durante muitos dias pela própria Ministra, dizendo que não havia participado do operativo, passando por funcionários como Gonzalo Cané delineando o expediente, Daniel Barberís preparando os testemunhos dos gendarmes, até o secretário de DH [Direitos Humanos] Claudio Abruj que negava a existência de Santiago no lugar dos fatos. Com o correr dos dias se demonstrou que mentiam, algo recorrente no discurso diário do governo Macrista.

Os gendarmes gozaram de total impunidade graças ao acionar da promotoria Ávila e do Juiz Guido Otranto.

Em 5 de agosto se realizou o primeiro rastreio, em seguida no 12 de agosto e no 18 de setembro, este último foi um mega rastreio com 400 efetivos, 3 helicópteros, vários drones e grupos de elite. O juiz Otranto não permitiu que ingressasse com minha advogada Verónica Heredia nem tampouco o ingresso de organismos de DH. O rastreio durou mais de 6 horas manietando os membros da comunidade e dispondo do lugar a vontade, sem que ninguém pudesse verificar absolutamente nada de sua ação, toda uma encenação sem nenhum resultado. Santiago não estava aí.

No meio, minha família e amigos sofremos o ataque constante dos meios de comunicação e do governo que instalavam todo tipo de mentiras. Também organizações, Sindicatos, organismos de DH e movimentos sociais foram atacados, chegando ao extremo de sancionar docentes por falar de Desaparecidos nas aulas, uma forma de perseguição que pensávamos que não voltaria a ocorrer mais na Argentina. Mas o mais terrível foi a crueldade com que trataram e desumanizaram Santiago.

Santiago era uma pessoa genuína, artista, tatuador, muralista, músico que desde seu Anarquismo se envolvia em diferentes causas. Assim é como chegou pela primeira vez em 31 de julho de 2017 à Pu Lof Cushamen a solidarizar-se com os integrantes da comunidade Mapuche. O fez desde uma forte convicção e sem nenhuma especulação, ainda que algumas pessoas que estiveram nesse 1° de agosto, sim tenham especulado com seu desaparecimento.

Cresciam as reivindicações constantes, as marchas multitudinárias a praça de Mayo davam conta do importante que era para uma grande parte de nossa sociedade não voltar a repetir a história, reclamando saber a verdade do que havia ocorrido com Santiago.

Em 17 de outubro de 2017, foi encontrado seu corpo sem vida, aqui nestas mesmas águas do rio Chubut, apareceu em um lugar que havia sido rastreado em 3 oportunidades. Foram horas de muita tristeza, angustia e incerteza de não saber se era ou não Santiago.

Em 20 de outubro se realizou a autópsia após ter sido reconhecido o corpo, o juiz Lleral apressado em encerrar o caso, disse que Santiago não tinha sinais de violência e a causa da morte era afogamento com ajuda de hipotermia, o como, onde e quando não pareceu algo importante para ele, como tampouco o contexto do desaparecimento. Esse domingo 22 de outubro o Macrismo voltou a ganhar as eleições, tudo pensado e calculado perfeitamente.

Desde esse dia não se fez absolutamente nada para saber o que aconteceu com Santiago, todas as apresentações que realizamos solicitando provas e ampliações da autópsia foram rechaçadas, ao juiz nunca interessou investigar o Desaparecimento Forçado, todas as perícias realizadas pelo juiz LLeral só foram feitas com o fim de querer encerrar a causa, como exemplo posso citar a tomada de dados de temperatura e medições do caudal do rio Chubut no dia 12 de dezembro de 2017, perícia que deveria ser feita em 1°de agosto para aproximar-se das mesmas condições do dia em que desapareceu Santiago. Não se fez nem sequer uma reconstrução dos fatos ocorridos faz 4 anos.

A causa está totalmente paralisada na Corte Suprema, à espera que resolvam a designação de um novo juiz e que se investigue como um Desaparecimento Forçado, garantindo assim a impunidade.

Faz 4 anos que seguimos sem saber o que aconteceu com Santiago.

Desde o começo pedimos ao Governo de Mauricio Macri, a formação de um grupo de especialistas independentes que garantissem a investigação, esse mesmo pedido foi reiterado ao atual governo de Alberto Fernández através da Secretaria de DH e Ministério de Justiça da Nação em janeiro de 2020, esse pedido se reiterou durante o mês de julho deste ano sem ter resposta até esta data, nem tampouco um pronunciamento concreto sobre o desaparecimento forçado seguido de morte de Santiago.

Algumas Funcionárias, Funcionários, Políticas e Políticos que atualmente integram o governo da Frente de Todos e que nos acompanharam durante o governo de Mauricio Macri, assinaram a petição para a formação do grupo de especialistas independentes e fazem silêncio a 20 meses. Esse silêncio de alguma maneira também os faz cúmplices.

Este é um Governo que entende mais do que nenhum outro de Direitos Humanos, que sabe perfeitamente o que se necessita para avançar na busca da verdade e justiça.

Não estou pedindo que o poder executivo intervenha no poder judicial, meu pedido é que tenham uma firme decisão e vontade política, para que haja avanços na causa. Isto é necessário e urgente, para garantir o nunca mais na democracia e que não voltem a ocorrer desaparecimentos forçados como aconteceu no ano passado com Luis Espinoza e Facundo Castro. O acompanhamento aos familiares das vítimas de violência do estado não só é por uma mensagem nas redes sociais quando é um novo aniversário, mas garantir um acesso real à justiça para que possamos chegar à verdade. Deveriam ter uma postura clara e mantê-la não só quando se é oposição mas quando se é governo.

Entendo que o que estou dizendo incomode a muitos setores, eu tenho, como a maioria das pessoas uma postura política, que deixe de lado desde agosto de 2017. O tempo passa, se esgota a paciência, e com cada ano vamos nos distanciando mais da verdade.

Assumi esta luta por Santiago e por Mim, sei que estou fazendo o correto, do contrário o estaria traindo. Ele é meu irmão e não um simples expediente. Vou questionar este governo tanto como o fiz com o governo anterior, até que encontre justiça por Santiago. Não me move o ódio, só o interesse de saber a verdade sobre o que aconteceu.

Hoje desde este lugar, onde desapareceu Santiago, um fato terrível que mudou nossas vidas por completo, quero agradecer a todas as minhas amigas e amigos por seu amor incondicional, a todas as pessoas que nos acompanham todos os dias, que nos brindam seu apoio, que realmente querem saber o que aconteceu com Santiago e que esperam que se castigue os culpados tanto materiais como ideológicos.

Também agradeço o acompanhamento de Mães, Avós, Organismos de DH, Sindicatos e Organizações Sociais.

Nestes 4 anos aprendi que só não se pode, que é importante estar acompanhado e que a luta é coletiva. Não vamos baixar os braços apesar de que às vezes o caminho se torne muito difícil mas agora mais do que nunca necessitamos de todo esse apoio.

Agradecimentos por estar.

Santiago Maldonado Presente

Agora e Sempre

Saúde e Liberdade a Santiago Maldonado!!!

Justicia Por Santiago

Tradução > Sol de Abril

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agência de notícias anarquistas-ana

vento seco
entre os bambus
barulho d’água

Alice Ruiz

[Argentina] Recordando Santiago, recuperando a vida

Já se passaram mais de quatro anos desde que conheci Santiago pessoalmente. Lembro-me que foi uma tarde fria em junho ou julho de 2017 na nova biblioteca em Avellaneda. Tivemos o cuidado de montá-la depois de okuparmos uma padaria abandonada e o Bruxo passou por lá para conhecê-la.

“Eles me chamam de Lechuga, a alface”, disse ele com um sorriso. Eu ri e perguntei a ele o porquê do apelido. “É por causa do meu cabelo. Eles me dizem que a parte de trás do meu cabelo cresce como uma alface” foi sua resposta. Durante minhas relações com ele naquele dia ele sempre foi amigável e sorridente, ele parecia ser um companheiro extremamente caloroso e agradável. Ele estava muito animado me dizendo que tinha viajado muito no território dominado pelo Estado chileno, acompanhando principalmente o conflito da salmonicultura naquele território. “Vou voltar e continuar viajando”, disse-me ele, deixando claro seu nomadismo anarquista.

Pouco tempo depois, o maldito 1º de agosto chegaria e a notícia de seu desaparecimento nos atingiria no rosto. Levei alguns dias para perceber que esta era a mesma pessoa que se apresentou a mim como “el Lechuga“, já que muitos o chamavam de “el Brujo“. “Ei, desapareceram com o Brujo“, disseram. Pensei que não o conhecia, até que vi uma foto e entendi que era a mesma pessoa. A partir daquele dia, eu nunca mais fui o mesmo. Saber em teoria que o Estado desaparece com alguém é uma coisa. Que uma pessoa que você conhecia e com quem compartilhava ideais e práticas desaparece é outra. A partir daquele dia, minhas convicções e meu desprezo por este sistema imundo se fortaleceram.

E eu não era o único. O desaparecimento do Brujo foi uma centelha que fez com que os camaradas fossem para as ruas. Muitos dos camaradas que conheço hoje e com os quais compartilho minha vida, eu encontrei em assembleias que se ativaram para a aparição de Santiago. Nunca esquecerei as ações que começaram a partir das tristes notícias. A raiva poderia ser organizada. Bloqueios de rua, ataques a instituições, assembleias nas praças, escritos, propaganda, cartazes e ações começaram. Movimento.

As marchas pacíficas dos partidos políticos foram interrompidas pelos “infiltrados”, camaradas ingovernáveis que atacaram bancos, edifícios governamentais, sedes das forças repressivas do Estado, não só aqui, mas em vários territórios. A solidariedade estava se espalhando. Os blocos negros perturbaram a passividade do espetáculo democrático. Várias ações ocorreram em diferentes partes do território dominado pelo Estado argentino. “El brujo fue la chispa”, “Izquierda yuta”, “Aparición sin vida de Patricia Bullrich”, “La naturaleza exige venganza”, “Que la rabia se desborde”, disseram algumas paredes. Ainda não podíamos mudar o mundo, mas pelo menos pudemos lamentar à nossa maneira, como Santiago, acreditamos, teria gostado.

O anarquismo, com todas as nossas limitações, mas com raiva genuína, estava de volta ao local um pouco mais. Falou-se dos “infiltrados”, Kri$tina pediu que eles fossem entregues à polícia e os cidadãos responsáveis executariam a ordem. Ainda me lembro quando um amigo de toda a vida, um militante da Patria Grande que agora é membro da Frente de TodEs, me disse que não deveríamos sair às ruas, que o desaparecimento era uma provocação da “direita”, que só lhes daríamos argumentos para que o governo Macrista saísse para se reprimir e vitimizar. Obviamente, as eleições legislativas estavam logo ao virar da esquina. Como o desaparecimento de um Estado num contexto de luta territorial pode ser apenas uma “provocação”? Diante da morte diária e estrutural do sistema que eles dizem querer mudar, diante da despossessão de uma vida, a única coisa a fazer é seguir a linha amarela que o próprio sistema define? Se a institucionalidade anula o próprio desejo de rebelião, de destruição criativa, a repressão já opera dentro de nós e já acontece antes. Existe sangue em um corpo que foi completamente colonizado pelo pacifismo democrático mercantilista? Se um dia eu não voltar, quebrem tudo.

Finalmente, gostaria de acrescentar que na época eu não estava muito informado sobre a importância de acompanhar a luta mapuche para a recuperação de suas terras ancestrais. Mas com o passar do tempo compreendi que “o povo da terra” tem sido um dos poucos povos que tem sido capaz de resistir (com suas óbvias limitações) à colonização mercantil de suas tradições e cultura. Cinco longos séculos se passaram desde que o processo de invasão capitalista e despossessão do território “americano” começou, e milhares de tribos e até impérios caíram sob as botas do progresso e da civilização. Entretanto, uma parte do povo mapuche continua mostrando ferocidade e resistência incomuns, por exemplo, o Movimento Autônomo Mapuche de Puelmapu ou o Comitê Coordenador da Arauco-Malleco. Esta resistência é uma evidência empírica de que houve outras formas de estabelecer relações sociais entre as pessoas e seu entorno, e é por isso que é tão importante que o sistema as elimine. Eles são a prova viva e material de que havia vidas antes do Estado/Capital. Compreender que a humanidade vive na Terra há muito tempo e que temos um longo caminho a percorrer para nos compreendermos é o que podemos aprender com sua luta. Este sistema tem se caracterizado pela destruição de todas as formas de vida que se lhe opunham. Se não pode cooptar e mercantilizar, os destrói. Nenhum outro sistema patriarcal de opressão tem sido capaz de homogeneizar a cultura em nível planetário. A globalização é o movimento pelo qual a vida cotidiana do mundo é mercantilizada. Sua melhor arma sempre foi marcar como “loucura”, “heresia”, “terrorismo”, “barbárie” ou “selvajaria” todos os povos e indivíduos que se recusaram a sucumbir a suas relações sociais alienadas e destrutivas.

Qual é nossa tradição? Que história recordar? Quem define as datas nos calendários? Que comunidade nos une se não a do Capital e seu vazio? Onde podemos olhar para o passado em busca de inspiração e força para projetar um futuro diferente? Como resgatar as mortes intermináveis das gerações anteriores que se amontoam atrás da procissão dos Césares, enquanto construímos um presente e um futuro melhores para as gerações presentes e futuras? Santiago e a luta do povo mapuche podem nos dar algumas pistas.

Fonte: https://periodicogatonegro.wordpress.com/2021/07/31/recordando-a-santiago-recuperando-la-vida/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

sol poente
numa ruela
menino corre das sombras

Rod Willmot

[Irlanda do Norte] Chamada Urgente para dar fim à discriminação contra John Paul Wootoon

A união radical Industrial Workers of the World (IWW) está auxiliando no chamado da família para dar fim às discriminações sofridas pelo prisioneiro [anarquista] John Paul Wotton, injustamente condenado.

Em um comunicado publicado à frente de uma campanha de cartas online, um representante da IWW disse: “A Industrial Workers of the World sempre esteve o lado de trabalhadores encarcerados e daqueles que lutam por justiça social. Ao fazer isto, nós continuamos ecoando o chamado pela libertação imediata do Craigavon Two, que é claramente mais um caso de condenação injusta realizada pelo Estado britânico.”

“Durante décadas eles têm injustamente mandado para prisão vítimas inocentes, destruído, assim, as vidas daqueles a quem encarceraram e das suas famílias, que são deixadas de lado. O caso Craigavon Two é mais um caso, assim como o Birmingham Six e o Guildford Four.”

“A família e entes queridos de John Paul Wootton destacaram mais uma vez a prática da campanha em curso sobre a discriminação dirigida contra nosso companheiro trabalhador e exigiram que isso tenha um fim. A IWW apoia totalmente esta campanha e ecoa as queixas e preocupações da família. Nós chamamos pelo diretor geral das prisões para agir imediatamente e escutar as demandas da família.”

A carta da família Wootton e o e-mail da campanha podem ser apoiados por aqui:

https://www.jftc2.ie/post/urgent-help-end-discrimination-against-john-paul-wootton?fbclid=IwAR0touHIDlV0F7-oXB0kSLND2MurG751ccMwOY84nUqGwHZPCFQGSVJHXSE

Para mais informações sobre como você pode apoiar o Justiça pelos Craigavon Two, clique aqui:

https://www.jftc2.ie/

Assine a petição em solidariedade aos Craigavon Two aqui:

https://www.change.org/p/ccrc-the-craigavon-2-deserve-justice-now

Fonte: https://www.onebigunion.ie/post/urgent-call-for-an-end-to-discrimination-against-john-paul-wootton?fbclid=IwAR0UVr6heW2WifvFdu_olxXsnKMogNQyoRfVeI4Js9h-lU8zOFDhDMG_SWs

Tradução > Calinhs

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agência de notícias anarquistas-ana

chegado para ver as flores,
sobre elas dormirei
sem sentir o tempo

Buson

[Reino Unido] Não as demissões na Universidade de Liverpool

A Rede Internacional de Solidariedade e Luta Sindical expressa seu mais forte apoio à luta da University College Union (UCU), da Trade Union Congress (TUC), do pessoal e dos estudantes da Universidade de Liverpool para salvaguardar os empregos de 47 cientistas sob ameaça de demissão.

As exigências de rentabilidade que afetam a Universidade de Liverpool, além de todo o senso comum, representam uma grande mudança que ameaça as universidades em todo o mundo. A luta na Universidade de Liverpool representa nossas lutas futuras.

Apoiamos a greve e a convocação da UCU para um boicote, para que ninguém se candidate a empregos, participe de conferências, etc., até que os gestores da universidade revertam as demissões.

Apelamos a todos os sindicatos, especialmente no campo do ensino superior, para que divulguem este apelo por um boicote e esta luta.

Viva a solidariedade internacional!

Fonte: http://www.laboursolidarity.org/REINO-UNIDO-No-a-los-despidos-en?lang=es

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

No solar ruído
há ainda verdes cortinas
e um senhor, o sapo.

Alexei Bueno

[EUA] Ramsey Kanaan, da PM Press, sobre o Poder da Independência

A indústria editorial, assim como é o caso da indústria da música, está em constante fluxo, no qual editoras menores acabam sendo frequentemente desfavorecidas. Livreiros independentes estão sendo esmagados pelas grandes empresas que, por sua vez, são soterradas pela Amazon.

Formada em 2007, a editora independente e radical, PM Press, viu mudanças imensas no ramo ocorrerem. Os cofundadores Ramsey Kanaan e Craig O’Hara, junto com um pequeno grupo de agitadores, se afastaram das merdas impostas pela indústria editorial, mantendo intocada sua visão.

“A PM começou com o conceito antiquado de que ideias realmente importam”, diz Kanaan. “Ela nasceu do desejo de disseminar estas ideias e encontrar quantas maneiras criativas e efetivas fossem possíveis para fazê-lo. Desde então, eu não acho que esta visão tenha mudado.”

A editora publica livros sobre diversos tópicos, incluindo anarquismo, raça, economia e gênero. Ela dedica-se a apoiar as vozes de autores radicais, artistas e ativistas. E, sim! A PM tem um histórico de publicação de livros sobre punk, incluindo títulos sobre o Black Flag, Crass e anarco-punk britânico. Algumas obras estão por vir, como a história da banda Victoria, BC punk weirdos e Nomeansno.

“A maioria das pessoas na PM veio do punk, então estamos seguindo nossos interesses”, diz Kanaan, que foi vocalista da banda escocesa de anarco-punk Political Asylum nos anos 80. “Como um propagandista, um comunicador ou um organizador político, você começa por aquilo que você sabe e onde está confortável.”

Kanaan tem vendido muitos títulos por mais de quarenta anos. Ele começou a AK Press em 1987 e lançou livros e CDs de spoken word criados por escritores ativistas como Noam Chomsky e Howard Zinn. A AK também se alinhou com bandas progressivas de punk político como Propagandi. Esta conexão se manteve intacta com a PM.

“Todos nós podemos ligar para o Jello Biafra e dizer ‘Hey, podemos colocar um stand no seu show?’ e ele dirá ‘Sim, por favor!’. Ou NOFX, ou quem quer que seja, porque são amigos nossos”, diz Kanaan. “Eles são nossos contemporâneos e pessoas que sabem sobre nós; portanto, não somos algum esquisitão de fora tentando crescer e se impor.”

Além dos shows de punk e festivais como Punk Rock Bowling e Pouzza, a PM vende livros em feiras literárias, infoshops, conferências e manifestações políticas. Ela esteve em mais de 500 eventos somente em 2019. Segundo Kanaan, nos últimos cinco anos que precederam a quarentena, a editora vendeu mais livros diretamente do que em outras lojas.

A abordagem é necessária já que a indústria editorial mainstream engole as vozes de diversidade e muitas vezes marginaliza estes escritores. Neste processo, livrarias independentes são forçadas a fecharem as portas todos os dias. Pequenas editoras como a PM têm que se virar para encontrar maneiras alternativas de disseminar informação.

“Não é somente a destruição de livrarias e lojas de discos independentes, mas a destruição de lojas especializadas”, afirma Kanaan. “No mercado de livros, isso significou uma consequência dos anos 60 e 70 e os novos movimentos sociais como libertação gay, das mulheres e negros. Havia livrarias gays, negras e feministas. No final dos anos 80 e começo dos anos 90, elas foram destruídas pelas grandes empresas. A Amazon surgiu no final dos anos 90 e desde então, vem destruindo todas as outras franquias. Visto de qualquer ângulo, os modos antigos de se fazer isto estão sendo… fodidos.”

Com 11 funcionários vivendo da esperança de conseguir se manter decentemente e sem nenhuma fonte de financiamento além das vendas de livros, a PM publica obras que, com sorte, pagarão suas contas sem se desviar do olhar inicial.

“Existem muitos livros que nós escolhemos fazer por amor ou por acreditarmos neles, apesar de perdermos dinheiro com muitos destes títulos. No entanto, tudo que é feito por nós tem que ter este componente financeiro”, relata Kanaan. “Fundamentalmente, a razão pela qual a PM existe é o fato de sermos revolucionários. Nós queremos destruir o capitalismo, o estado e viver em um mundo melhor.”

Kanaan diz que os livros de punk mais vendidos do catálogo são Spray Paint the Walls: The story of Black Flag,The Day the Country Died: A History of Anarcho Punk 1980-1984, The Story of Crass. Tanto o livro do Black Flag quanto do Crass chegaram a ser reimpressos pela terceira vez. Outro título popular, este no campo da ficção, é The Primal Screamer do Nick Blinko, cantor principal da banda britânica de anarco-punk Rudimentary Peni. Suas músicas espinhosas e afiadas foram inspiradas por bandas de grandes sucessos como Killing Joke, Amebix e Neurosis. Blinko vive com uma disfunção squizoafetiva e o livro conta com a mesma visão satírica e distópica das letras das músicas da Rudimentary Peni.

Livros sobre bandas de punk há muito esquecidas e anarquistas não estarão nas listas de best sellers tão cedo. Mas isso nunca foi o ponto ou o objetivo da PM Press.

“Tudo que fazemos é sem nenhuma fonte extra de financiamento”, explica Kanaan. “Nós não temos um sugar daddy, apesar de que amaríamos se fosse o caso. Nós não temos financiamentos, corporações ou qualquer coisa do tipo nos apoiando. Eu não acho que nossa visão tenha se modificado. O modo como aplicamos essa visão talvez tenha mudado, só porque temos lidar com a realidade em que vivemos.”

Kanaan vê muitos paralelos entre as indústrias de livro e música: o constante declínio das vendas, a propriedade corporativa das editoras e gravadoras e a repaginada dos formatos visando um aumento de lucro. (alguém se lembra quanto os CDs custavam quando eles começaram a aparecer?)

“Pelos últimos quarenta e tantos anos, a maneira tradicional de disseminar ideias através da palavra impressa tem passado por um declínio cataclísmico por diferentes razões”, diz Kanaan. “A destruição do chamado ‘mercado de livro’ espelha a desintegração da chamada ‘indústria musical'”.

Kanaan aponta os mecanismos de entrega de livros e música como motivos pelos quais as corporações estão nadando em dinheiro. Com o passar dos anos, a indústria livreira teve audio-books, e-readers e e-books. No caso da música, ela tem tido seus próprios meios de lucrar e não é através do som em si, segundo Kanaan.

“A Apple, pioneira dos downloads, não se importa em dar música por aí de graça” ele diz. “Se eles estão vendendo downloads a 99 cents, ninguém está ganhando nenhum dinheiro com isso. Nem mesmo a Apple, Sony ou Spotify. Eles não se importam. Eles conseguem fazer dinheiro com mecanismos de entrega. A Apple, ao inventar e vender Ipods ou a Sony ao vender Walkmans. Foi isso que fez com que eles ganhassem dinheiro e não a música em si.”

As semelhanças entre as duas indústrias não se encerram aqui. Além do tortuoso sistema de entregas, outro fator que faz com que pequenas editoras e gravadoras tenham que penar para sobreviver são os provedores de conteúdo que estão cada vez maiores e mais poderosos.

“Do mesmo jeito que 40, 60, 80 anos atrás havia uma abundância de selos de gravadoras. Eles se consolidaram e basicamente se tornaram donos de tudo. É parecido com o que aconteceu com a indústria dos livros”, afirma Kanaan.

Enquanto provedores de conteúdo mainstream continuam se consolidando, são os artistas na base da pirâmide que sofrem, sendo eles autores ou músicos.

“Eles começaram a afastar, por assim dizer, todos os autores. Do mesmo jeito que os selos de gravadoras começam a afastar os artistas quando há uma consolidação na indústria musical”, diz Kanaan. “Eles cancelam contratos, se recusam a optar pelo próximo disco ou qualquer coisa do tipo. É a mesma coisa que acontece no mercado editorial.”

Kanaan diz que a PM vendeu mais de um milhão de livros por fora da indústria mainstream. Ainda que seu distribuidor venda para as Amazons, Barnes e Nobles da vida, a editora tem provado que isso não significa que cachorros velhos necessariamente têm que aprender truques novos.

“Parte dos nossos esforços se concentra em como podemos ajudar os nossos livros a fazer o seu melhor com o que restou da maneira antiga de fazer isso (no varejo)”, diz Kanaan. “Outra questão é: ‘como criamos novos canais?’ Eu não diria que isso nunca foi feito. Nós não fomos as primeiras pessoas no mundo a ir num show de punk vender livros, mas nós ajudamos a fazer disso um lugar mais comum.”

Como complemento das vendas que ocorrem pessoalmente, a PM tem um serviço de assinatura através do qual leitores podem pagar uma quantia mensal e receber todos os livros publicados. Ainda assim, botar os livros na mesa é o jeito mais eficaz de colocar o catálogo da PM sob os olhos de quem possa se interessar”, diz Kanaan.

“Expor os livros não é somente uma grande parte das nossas vendas, mas é também nossa principal forma de publicidade”, diz ele. “Porque, literalmente, nós estamos em todos os lugares. As pessoas nos vêem em todos os lugares. Aonde quer que eles vão, há uma estante da PM Press. ‘Caralho, de novo uma estante da PM!.’ Este também é nosso jeito de interagir com o mundo exterior, é assim que conhecemos pessoas. É assim que conhecemos autores.”

Enquanto continuarmos sob às botas do capitalismo, onde a literatura e a música são estapeadas com uma etiqueta e monetizadas, a PM Press estará disposta a trabalhar mesmo dentro do sistema para colocar seus títulos nas mãos das pessoas. Mas isso não significa que ela esteja feliz com a situação.

“Em um mundo ideal, conhecimento deveria ser livre e todos deveriam ter acesso a qualquer coisa que necessitassem”, diz Kanaan. “Nós não chegamos lá ainda, infelizmente.”

Fonte: https://newnoisemagazine.com/interview-pm-press-ramsey-kanaan-on-the-power-of-independence/

Tradução > Calinhs

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agência de notícias anarquistas-ana

durmo sob uma oliveira
com o musgo
por travesseiro

Rogério Martins

[País Basco] “O comunismo libertário é uma verdadeira alternativa política a qualquer variedade do capitalismo”

• A CNT presta homenagem em Artxanda aos revolucionários de 1936.

• Todos nos lembramos dos Durrutis, dos Montsenys, mas é o trabalho de formiga, dia após dia, com as pessoas da vizinhança, com as pessoas no trabalho, que fez com que o anarcossindicalismo se tornasse uma ferramenta útil”, foi apontado à frente do La Huella.

Cerca de quarenta pessoas participaram da homenagem que a central anarcossindicalista organiza a cada 19 de julho em Artxanda (Bilbao). Este ano foi realizada uma oferenda de flores e uma militante da CNT, Endika Alabort, dedicou algumas palavras aos homens e mulheres que impediram o fascismo em 1936.

Nas linhas seguintes coletamos o que foi dito na frente do La Huella, que Irola Irratia gravou em áudio (disponível em seu canal no Telegram) e também carregou no youtube (youtube.com/watch?v=piHZOYL8IHY).

Este 19 de julho marca o 85º aniversário da Revolução Social de 1936. A última grande revolução no Ocidente, que serviu de exemplo para as transformações sociais atuais como a de Rojava, que também começou em 19 de julho.

Homens e mulheres humildes e trabalhadores que sofriam diariamente a miséria, pessoas comuns, conseguiram derrotar um golpe de Estado, e lutaram contra um exército profissional com décadas de experiência em massacrar povos como o marroquino, pondo fim às mobilizações operárias, e que teve o apoio total das ditaduras fascistas e das democracias ocidentais. Mas o que começou em 19 de julho de 1936 foi mais do que a Guerra Civil, foi a grande transformação social e econômica, a Revolução Social. Os trabalhadores, com base na autogestão, campos e fábricas coletivizados, os administravam. Eles mostraram que é possível funcionar sem capitalistas, que são os trabalhadores que criam riqueza. Eles cumpriram o objetivo que o sindicalismo deve ter, se for revolucionário: fazer a economia funcionar sem exploração e exploradores.

Isto não aconteceu de forma espontânea. Décadas de trabalho, difundindo ideias libertárias, trazendo o anarquismo para baixo da torre de marfim e transformando-o em uma verdadeira alternativa política, criando um mundo de trabalhadores paralelo ao burguês. E no que diz respeito à CNT, aproximar as massas trabalhadoras do anarcossindicalismo, sendo uma ferramenta útil para a classe trabalhadora. Todos nos lembramos dos Durrutis, dos Montsenys, mas é o trabalho de formiga, dia após dia, com as pessoas da vizinhança, com as pessoas no trabalho, que fez do anarcossindicalismo uma ferramenta útil e do comunismo libertário uma verdadeira alternativa política a qualquer variedade do capitalismo.

Hoje, se disséssemos a qualquer um que a alternativa ao capitalismo estava ao virar da esquina, seríamos marcados como alienados. É uma sociedade diferente, a classe trabalhadora não é a mesma, e os problemas que enfrentamos mudaram. Entretanto, é importante lembrar datas como estas. Não para romantizar o passado, não para colocar essa geração sobre um pedestal ou torná-la santa: nosso objetivo deve ser construir um futuro, não para recriar o passado. Esta geração nos mostrou que é possível viver sem capitalismo, em autogestão, com igualdade e sem exploração. Devemos resgatar os sucessos e deixar de lado os erros de 1936.

Ainda mais quando o capitalismo se desvia, destruindo tudo o que toca: mais guerras e violência, crise climática acelerada, mercantilização de todos os aspectos da vida… O que eles estão colocando na mesa é o ecofascismo, uma saída autoritária para ter tudo amarrado e bem amarrado. As democracias burguesas não são mais suficientes para eles. Se olharmos para o Reino da Espanha, o Regime de 78 ainda está cambaleando, e as alternativas parlamentares foram cooptadas. Isto nos deixa uma década pela frente que será fundamental não apenas para a classe trabalhadora, mas para sustentar a vida de uma forma digna. É por isso que temos que insistir na organização da classe trabalhadora, no mundo do trabalho e nos bairros e vilarejos.

Estas são todas as razões pelas quais estamos aqui hoje, por que devemos lembrar-nos daqueles homens e mulheres trabalhadores que, diante do fascismo mais sanguinário, enfrentaram-no, sim, mas também construíram e puseram em movimento um novo mundo. Termino com uma citação de Durruti, repetida mil vezes, mas não menos válida para isso:

As ruínas não nos assustam. Sabemos que só herdaremos ruínas, porque a burguesia tentará arruinar o mundo na última fase de sua história. Mas não temos medo de ruínas porque carregamos um mundo novo em nossos corações. E esse mundo está crescendo neste exato momento“.

Fonte: http://www.cnt-sindikatua.org/es/noticias/el-comunismo-libertario-en-una-alternativa-politica-real-ante-cualquier-variedad-de-capitalismo

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Na noite trevosa
eis, quando menos se espera,
teu semblante, lua!

Alexei Bueno

[França] Lançamento: “Cuba. Crônicas de um pesadelo sem fim”, de Floréal Melgar

Nos últimos anos, o acesso à Internet, mesmo com limitações, permitiu que muitos cubanos se expressassem livremente em sites de oposição ao regime e, mais recentemente, nas redes sociais. Em um país onde qualquer voz dissidente foi sufocada por sessenta anos, essa liberdade relativa resultou no aumento da repressão contra aqueles que a usam, jornalistas independentes ou defensores dos direitos humanos em seus vários aspectos.

Desde outubro de 2019, o autor, ativista libertário de longa data, tem se empenhado em relatar, em seu blog pessoal, casos concretos dessa repressão que atinge, quase diariamente, os cubanos que lutam contra a ditadura, geralmente com a indiferença dos meios de comunicação.

Cuba. Chroniques d’un cauchemar sans fin (reed.)

Pref. por David Orret Cisneros

Postf. por Jacobo Machover

L’Esprit frappeur, s.l.

263 p.

7 euros

livrelibre.fr

agência de notícias anarquistas-ana

Sesta no jardim:
a borboleta me acorda.
Coça o meu nariz.

Anibal Beça

Novo Vídeo: Queimar Igrejas e Derrubar Estátuas

Em diversas partes dos territórios colonizados, estátuas de escravagistas, estupradores, colonizadores e genocidas têm sido vandalizadas, derrubadas ou destruídas. Por que derrubar esses símbolos? O que eles representam? E quais valores os mantém de pé?

>> Veja o vídeo (05:48) aqui:

https://antimidia.org/fogo-nos-genocidas/

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agência de notícias anarquistas-ana

Viagem de anciões,
Cabelos brancos, bastões
– visita aos túmulos.

Matsuo Bashô

[Espanha] Liberdade imediata para os prisioneiros em luta de Eloxochitlán de Flores Magón e Fidencio Aldama no México

A Confederação Geral do Trabalho adere ao apelo internacional para a libertação imediata dos presos políticos de Eloxochitlán de Flores Magón e Fidencio Aldama.

Desde o final de junho, um grupo de prisioneiros políticos de Eloxochitlan de Flores Magón vem se unindo à greve de fome iniciada por Argelia Betanzos Zepeda, filha de Jaime Betanzos Fuentes. Argelia, uma mulher Mazatec, está em greve de fome em frente ao Conselho Judiciário Federal na Cidade do México desde 27 de maio.

O companheiro Jaime Betanzos é um dos presos sequestrados pelo Estado desde 14 de dezembro de 2014 acusado de participar do assassinato de Manuel Zepeda, irmão da deputada local do Estado de Zepeda, Elisa Zepeda Lagunas. O companheiro Jaime é mantido refém há mais de 7 anos pelo Estado mexicano junto com outros seis detentos falsamente acusados de assassinato, com 18 apelos a seu favor que os ilibam da responsabilidade pelo assassinato. Atualmente, cinco das sete pessoas presas pelo assassinato de Manuel Zepeda continuam sendo reféns do Estado, apesar das resoluções de inocência.

Também acontece que o companheiro Jaime foi inicialmente acusado de homicídio agravado, mas foi absolvido, quando ele, Herminio Monfil e Fernando Gavito foram libertados em 1º de março de 2019. Ele foi colocado novamente na prisão e agora são acusados de tentativa de homicídio contra a deputada Elisa Zepeda Lagunas.

Por todas essas razões, a companheira Argélia exige a libertação imediata de seu pai, Jaime Betanzos Fuentes, e seus dois companheiros injustamente presos, Herminio Monfil Avendaño e Fernando Gavito Martínez. Os dois últimos aguardavam atualmente a resolução da revisão do amparo que havia sido processada na Segunda Corte Colegiada da Décima Terceira Vara em Oaxaca.

Além disso, a greve de fome de Argelia também mostra solidariedade com os presos Alfredo Bolaños Pacheco, Isaías Gallardo Álvarez, Francisco Durán e Omar Hugo Morales Álvarez, exigindo sua libertação imediata e atenção imediata a todos os recursos interpostos. Desta forma, considera necessário exigir que o Conselho Federal da Justiça e o Conselho Judiciário de Oaxaca reconheçam imediatamente as graves violações cometidas pelo Quarto Juiz Distrital de Oaxaca, Pedro Guerrero Trejo, e pelos magistrados da Segunda Câmara do Tribunal Superior de Justiça de Oaxaca, bem como pelos magistrados das Câmaras que continuam a atrasar sistemática e injustamente e a emitir resoluções ilegais contra os presos políticos de Eloxochitlán de Flores Magón.

Da CGT nos juntamos à exigência ao Congresso de Oaxaca de pôr um fim ao conflito de interesses que vem do fato de a Congressista Elisa Zepeda ser a presidente da Comissão de Procuração e Administração da Justiça, ou seja, aquela que coloca e retira do cargo aqueles que acusam os prisioneiros retaliados, os Magistrados do Tribunal Superior de Justiça do Estado de Oaxaca. Finalmente, a denúncia pública de Argélia aponta tanto para a conivência do partido MORENA quanto para o próprio Presidente do Governo.

O preso político Fidencio Aldama também aderiu à greve de fome. Fidencio Aldama é um Yaqui indígena e um ativista feroz pelos direitos de seu povo. Em 21 de outubro de 2016, enquanto os membros da comunidade se reuniam em assembleia, um grupo armado entrou em Loma de Bácum com a intenção de derrubar as autoridades tradicionais da comunidade e impor outras autoridades em favor da construção de um gasoduto. Este ataque deixou um morto, vários feridos e doze veículos queimados. O Yaqui Fidencio Aldama foi injustamente sequestrado pelo Estado mexicano desde 27 de outubro de 2016, falsamente implicado em sua morte enquanto lutava contra a imposição do gasoduto Sempra Energy no território tradicional Yaqui da cidade de Loma Bácum, em Sonora.

Não podemos terminar esta denúncia sem mencionar a perseguição política que os companheiros deslocados que são perseguidos por buscar a autodeterminação em Eloxochitlan de Flores Magón, em Oaxaca, continuam sofrendo. Há sete anos, a Assembleia Comunal Flores Magón vem defendendo Artemio Vidauria, Lucio Carraro, Jaime Vidauria, Genaro, Ranulfo e Jorge Betanzos, membros da comunidade que foram deslocados devido à perseguição da família Zepeda.

“Um dia a mais é um dia a menos”

Liberdade a todos os presos!

Fonte: https://cgt.org.es/libertad-inmediata-para-los-presos-en-lucha-de-eloxochitlan-de-flores-magon-y-a-fidencio-aldama-en-mexico/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Cai da folha
a gota d’água. Lá longe,
o oceano aguarda.

Yeda Prates Bernis

 

[Rússia] Declaração contra a biopolítica totalitária das autoridades russas

Aquele que botar as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo (P.J. Proudhon)

A seção da Associação Internacional dos Trabalhadores na região russa rejeita categoricamente a biopolítica totalitária das autoridades russas que, sob o pretexto de combater a epidemia do coronavírus, violam abertamente os direitos mais básicos dos trabalhadores e do povo em geral.

Consideramos a vacinação obrigatória e forçada, proclamada pelos governantes, um ato ultrajante de violência aberta do Estado contra a pessoa humana, sua liberdade, dignidade e a própria vida. Reconhecemos que cada pessoa tem o direito incondicional de escolher a forma de prevenção, tratamento e assistência médica que julgar necessária. Afirmamos a obrigação de informar plena e verdadeiramente o paciente sobre as medidas médicas e suas consequências. Como não somos uma associação médica profissional, nos abstemos de avaliar aspectos puramente médicos ou a eficácia das vacinas coronavírus existentes, deixando ao indivíduo a escolha de vacinar-se ou não com elas.

Em qualquer caso, em razão da vulnerabilidade do paciente após receber a vacina dita, em nossa opinião, há necessidade de proporcionar ao vacinado férias remuneradas durante o período de obtenção de imunidade total ou restabelecimento da imunidade.

Entretanto, em vez de transparência, abertura, voluntariedade e introdução de férias pagas, as autoridades recorreram a métodos de violência gritante contra a sociedade. Esta violência é determinada pelo desejo da classe empresarial de obediência e lucro. A falta de informações confiáveis e a imposição obrigatória de tratamentos, incluindo a vacinação obrigatória, não pode ser percebida de outra forma que não seja como terror estatal e uma experiência médica em larga escala em benefício de grandes fabricantes farmacêuticos. Sua própria involuntariedade e ignorância de qualquer contraindicação individual faz com que tal experiência faça lembrar os experimentos médicos criminosos em pessoas que foram praticados em campos nazistas ou laboratórios militares japoneses nas décadas de 1930 e 1940.

Ao forçar a pessoa vacinada a assinar um documento no qual declara que ele mesmo é responsável por todas as consequências da vacinação, o Estado se isenta completamente de qualquer responsabilidade pelos possíveis resultados trágicos de tal experiência.

O despotismo tecnocrático; a busca de números numéricos de pessoas vacinadas; a manipulação das estatísticas de testes, morbidade e mortalidade; o descaso com qualquer opinião alternativa da comunidade científica médica; a propaganda irritante e estonteante, alimentando o medo e o pânico; a declaração elitista da população como massas incompetentes, estúpidas e egoístas; a indignação por uma pessoa comum; a difamação histérica de todos que não foram vacinados; a difamação histérica de quem não quer concordar com a coerção do Estado terrorista; a proclamação da prioridade da chamada “segurança coletiva” sobre as liberdades e os direitos humanos (bem dentro do espírito do slogan nazista “o bem comum sobre o bem pessoal”) e, finalmente, a própria crítica a essas liberdades como as razões do fracasso dos planos governamentais – tudo isso serve como uma manifestação da rápida fascitização do regime oligárquico. Como deveria ser sob o fascismo, os círculos dirigentes confiam na multidão histérica, intimidada e agressivamente obediente.

A discriminação aberta e flagrante contra cidadãos não vacinados, a privação dos não vacinados dos cuidados médicos, o acesso aos serviços públicos básicos e à educação, a introdução da segregação que lembra os tempos sombrios do nazismo ou apartheid são flagrantes. Para nós, como organização de trabalhadores, é particularmente inaceitável forçar os trabalhadores de setores inteiros da economia a serem vacinados sob ameaça de demissão ou suspensão do trabalho sem remuneração. O fato de que as autoridades estão executando esta medida ditatorial com a mão dos empregadores é a melhor lembrança da natureza de classe do regime e que uma guerra de classes em grande escala foi lançada de cima contra nós, os trabalhadores.

Estamos convencidos de que a atual onda de terror e repressão do Estado não é um fenômeno puramente temporário e excepcional. Torna-se parte da estratégia geral da classe dominante estabelecer uma ditadura aberta através de controle eletrônico total e vigilância total da população, um sistema de códigos eletrônicos e bancos de dados em larga escala, vigilância generalizada por vídeo e punição pelo menor desvio das regras prescritas.

Sabemos pela história que a fascitização acontece gradualmente. Quanto mais cedo encontrar resistência, mais fácil será parar o deslizamento para o abismo totalitário. A desobediência e a resistência às medidas terroristas e ditatoriais do Estado e da classe patronal estão se tornando em nossos dias uma garantia não apenas de nossa dignidade humana, mas também da preservação de nossa própria vida. É claro, se quisermos viver e não sobreviver como gado escravo obediente sendo levado ao matadouro.

Pela desobediência individual e coletiva, civil e humana às ordens criminosas das autoridades!

Em luta, conquistaremos nosso direito!

Confederação dos Anarcossindicalistas Revolucionários – Seção da Associação Internacional dos Trabalhadores

Somam-se à declaração:

Movimento sócio-ecológico “Outros Ursos”

Fonte: https://aitrus.info/node/5745

Tradução > Liberto

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a luz do poente
escala a alta montanha;
no cume será a noite.

Alaor Chaves