[Colômbia] Manifestantes atearam fogo em delegacia de polícia de Medellín em resposta a estupro policial

Na noite de 28 de junho, durante os protestos antigovernamentais em Medellín, Antioquia, uma menina de 15 anos foi estuprada por um policial do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (ESMAD). Em 2 de julho, manifestantes incendiaram uma delegacia com coquetéis molotov.

Este não é um caso isolado, pois desde o início dos protestos, há mais de 2 meses, 28 mulheres foram estupradas.

A revolta na Colômbia atingiu seu 67º dia consecutivo. Apesar de centenas de pessoas mortas e desaparecidas e da polícia atirando nos olhos dos manifestantes, as pessoas têm ocupado às ruas, lutando com bravura, queimando delegacias e atacando policiais.

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sementes de algodão
agora são de vento
as minhas mãos

Nenpuku Sato

3J | “Os autoritários trajando vermelho seguem tentando policiar as condutas nas ruas”

O dia amanheceu em chamas

No dia 3 de julho, em Belo Horizonte, libertárixs e alguns coletivos antifascistas saíram às ruas antes do dia raiar. Empilharam pneus e ergueram uma pequena barricada no meio do Viaduto Helena Greco. O dia amanheceu em chamas. Deixaram claro que não se submetem às ordens de nenhum “comitê unitário”. Não foram convocadxs por ninguém. Tampouco aderem ao falacioso discurso da “Frente Ampla”. Não andam ao lado dos verde-amarelo “arrependidos”. Não se iludem com soluções institucionais como o impeachment do homem que senta no trono do palácio, a ampliação de políticas sociais, etc. Sabem que o Estado tenta asfixiar as vidas livres. Sabem que a imprensa livre é a manifestação da opinião de empresas. Sabem que os chamam de vândalos por não servirem os propósitos empresariais. Sabem que a imprensa livre julga e não quer saber de quem pensa fora de seu cercadinho… Empenham-se em atiçar revoltas por meio da ação direta. São ingovernáveis.

Revolta e apoio

No mesmo dia, em São Paulo, na Avenida Paulista, ocorreu mais um ato contra o homem que senta no trono do palácio. Assim como na manifestação anterior, o dia esteve marcado por tensões. Como não se alinham aos autoritários vestidos de vermelho e aos “arrependidos” de verde-amarelo, xs revoltosxs traçaram seus próprios percursos no ato. O policiamento esteve mais ostensivo, sobretudo na rua da Consolação. No entanto, xs insurretxs não se intimidaram e atacaram agências bancárias, uma concessionária, uma instituição de ensino reacionária, vidraças de pontos de ônibus e de propagandas. Travaram embates com os profissionais da violência. Mesmo após as bombas, seguiram na rua acendendo barricadas e praticando ação direta. Alguns insurgentes foram detidos pela polícia. São presos políticos, como todo preso. Dois permaneceram em cana. No domingo, Lucas, jovem trans e preto, foi solto. Xs revoltosxs apoiam xs presxs da revolta e exigem a liberdade de Mateus, que segue encarcerado.

Binarismo

Os autoritários trajando vermelho seguem tentando policiar as condutas nas ruas e defendem ou se calam diante das detenções e dos processos abertos. Neste sábado, foi possível ver os efeitos da ativação do discurso fundamentado na dicotomia entre “manifestantes ordeiros” e “vândalos”. Antes da polícia fardada tentar reprimir xs que praticavam a tática black bloc, cidadãos-polícia em um carro de som xs apontavam clamavam por intervenção. Depois, pelas redes e nas mídias, o binarismo se atualizou com as devidas substituições. Esquerda acusa infiltrados da extrema-direita. Direita, que foi barrada na festa democrática (gerando polêmica entre a esquerda), acusa a esquerda de ser igual a extrema-direita. Direita no atual governo federal acusa a “esquerda criminosa” que atua a mando do outro líder… Sinal de alerta: estar atentxs para o binarismo não invadir os libertárixs! Liberar-se da política é também liberar-se dos binarismos.

Presença imperceptível

Manifestações ocorreram em centenas de cidades. Não foi só nas capitais paulista e mineira que libertárixs estiveram presentes. Bandeiras negras tremularam nas ruas do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, Santos, Ribeirão Preto, Blumenau, Belém do Pará… uma única em Vinhedo. Onde mais? O que mais escapou até das notícias e posts em redes sociais?

Fonte: Flecheira Libertária – N° 633 – 06 de Julho de 2021 – nu-sol.org

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na folha orvalhada,
gota engole gota,
engorda, desliza e cai

Alaor Chaves

PF adquire sistema de identificação que em 2 anos armazenará dados de 50 milhões

O diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Maiurino, assinou nesta segunda, 5, um contrato de compra e implementação de um sistema chamado ABIS – Solução Automatizada de Identificação Biométrica -, que vai permitir a ‘identificação de pessoas com coleta, armazenamento e o cruzamento de dados da impressão digital e o reconhecimento facial’.

A PF informou que o ABIS vai ‘proporcionar a unificação de dados das Secretarias de Segurança Pública’, possibilitando às polícias estaduais acesso a uma base biométrica nacional. A aquisição da ferramenta era uma pretensão antiga do órgão, mas pedidos anteriores em tal sentido foram negados em razão de ‘pendências junto ao Tribunal de Contas da União’.

De acordo com a corporação, o sistema está projetado para armazenar, em 48 meses, dados de 50,2 milhões de pessoas, com possibilidade para expansões posteriores que poderão conter dados de até 200 milhões de indivíduos. “Com o tempo, poderá haver a completa integração com outros modelos de identificação biométrica, como íris e voz”, indicou ainda a PF.

A ferramenta entrará em funcionamento já abastecida com 22,2 milhões de dados. As informações foram importadas do AFIS (Sistema Automatizado de Identificação de Impressões Digitais), usado pela Polícia Federal há 16 anos, para identificação de impressões digitais na resolução de crimes, em casos de pessoas desaparecidas, na cooperação internacional e na identificação de corpos.

A PF indicou que, além das licenças de softwares que compõem o ABIS, foi comprado um conjunto de ‘estações de cadastramento, estações forenses e dispositivos móveis de coleta, verificação e identificação de alto padrão tecnológico’.

“Cada um dos papiloscopistas policiais federais terá a sua disposição uma estação portátil ABIS operacional, apta a operar em qualquer unidade da PF, conectada ao ABIS central, permitindo assim, maior agilidade na análise de vestígios papiloscópicos revelados em cenas de crimes”, destacou a corporação.

A Polícia Federal indicou que a impressão digital é a biometria mais usada no mundo, ‘com vantagens de exatidão a um baixo custo e de rapidez na análise dos dados’.

“Só no Brasil, a identificação biométrica por impressão digital é usada há mais de 100 anos e conta com grande aceitabilidade social por parte dos brasileiros. Com a aquisição de sistema multi-biométrico, a PF dá mais um passo em direção ao futuro em sintonia com as melhores práticas internacionais”, ressaltou a corporação.

Fonte: https://www.uol.com.br/tilt/ultimas-noticias/estado/2021/07/06/pf-adquire-sistema-de-identificacao-que-em-2-anos-armazenara-dados-de-50-milhoes.htm

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O plantador de nabos,
Apontando com um nabo,
Ensina o caminho.

Issa

[Chile] “Nunca devemos parar de nos solidarizar”

Como OAF (Órgão Anarco Feminista), participamos da jornada em apoio às mulheres presas na prisão feminina de San Miguel, como forma de expressar nosso apoio total e incondicional às que estão em sequestro penitenciário. Isto faz parte dos dias de solidariedade e mobilização para os presos políticos nos dias 3 e 4 de julho.

As condições dentro das prisões tornam-se desoladoras, e devemos estar constantemente agitando para que estes centros de punição sejam finalmente dissolvidos, juntamente com todos os bastiões da sociedade de vigilância. Nunca devemos esquecer que há mulheres e dissidentes presas por crimes de classe, por contextos precários, pela fome, pelo capitalismo selvagem, e nunca devemos parar de nos solidarizar, seja como for e quando for, com esta situação, para apoiá-las na construção do caminho para a abolição total de todas as prisões.

Hoje, amanhã e sempre, estaremos onde nosso corpo permitir, expressando nossa solidariedade ativa com as e os presos, construindo redes de apoio para apoiá-los durante seu sequestro, e até sua libertação.

Não estaremos todas até que a última das pessoas presas esteja nas ruas conosco!

Órgão Anarco Feminista – OAF

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As cebolinhas
Lavadas e tão brancas —
Que frio!

Bashô

[Chile] Termina a greve de fome dos prisioneiros transferidos da Prisão de Alta Segurança para Rancagua

Durante os últimos dias de junho, a greve de fome da maioria dos presos transferidos do Presídio de Alta Segurança para Rancagua, no Módulo 1 (Prisioneiros de Alta Segurança) e no Módulo 2 (Prisioneiros de Segurança Máxima), chegou ao fim.

A mobilização permitiu mais algumas horas de pátio, a regularização de um regime interno e a entrada de uma forma mais ou menos estável de uma quantidade mínima de alimentos, necessária para superar a dieta decadente imposta pelas concessionárias (empresas que lucram com os alimentos das prisões).

Mesmo assim, há uma série de batalhas que continuarão a ser travadas, tais como o completo desuso do locutório para advogados, bem como a ameaça de usá-la nas próximas visitas. Tudo com a desculpa da saúde como um motor repressivo.

Da mesma forma, ainda é urgente a entrada permanente e estável de alimentos de fora (considerando os companheiros veganos e as necessidades médicas), bem como algumas outras situações do regime interno.

Hoje Rancagua está saindo da mais rigorosa quarentena, portanto, as visitas à prisão devem ser retomadas.

Por sua vez, os companheiros que participaram desta mobilização estão de bom ânimo e firmes, recebendo o apoio dos demais anarquistas e subversivos das diferentes prisões, Mónica Caballero e Pablo Bahamondes.

O chamado é sempre para não desistir da solidariedade combativa com os companheiros e companheiras.

ISOLAMENTO É TORTURA!

SOLIDARIEDADE COM OS PRESOS MOBILIZADOS E EM GREVE DE FOME!

ABAIXO COM OS MUROS DA PRISÃO!

Buscando la kalle, informativo de prisioneirxs subversivxs e anarquistas em luta nos cárceres chilenos

buscandolakalle.wordpress.com

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Dá para uma fogueira —
O tanto de folhas secas
Trazidas pelo vento.

Ryôkan

Assim aparecem os corpos dos desaparecidos na Colômbia

Por Dayana Méndez Aristizábal | 30/06/2021

Há várias semanas, corpos de jovens assassinados e desmembrados começaram a aparecer nos rios, principalmente o Cauca e em várias áreas onde houve uma forte mobilização social, muitos deles em sacos plásticos.

O dia 28 de junho marcou dois meses desde o início das mobilizações na Colômbia, dois meses em que o povo tomou as ruas no que chamaram de greve nacional, para exigir condições de vida dignas e denunciar as injustiças que são cometidas diariamente na Colômbia e que se intensificaram no desenvolvimento dos protestos.

A repressão policial atingiu limites assustadores, a ONG Human Right Watch declarou que nas últimas décadas não havia visto este nível de brutalidade policial na Colômbia. Houve 4687 casos de violência policial, 45 homicídios, 28 casos de agressões sexuais e de acordo com dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e Paz -Indepaz- e da ONG Temblores, estima-se que 548 pessoas tenham desaparecido, tudo isso apenas no contexto das manifestações.

Em 23 de maio, três organizações de direitos humanos, a Comissão Intereclesial de Justiça e Paz, a Equipe Jurídica e Humanitária 21N e a Corporação Justiça e Dignidade, publicaram um relatório baseado em testemunhos, no qual relataram a existência de valas comuns nas áreas rurais dos municípios de Buga e Yumbo e “casas de pique” em Ciudad Jardín, um dos setores mais luxuosos de Cali, que estão sendo usadas para matar manifestantes na greve nacional. As “casas de pique” são lugares cuja existência na Colômbia é atribuída a grupos paramilitares e são usadas para torturar, assassinar e desmembrar pessoas. Como se isto não fosse suficiente, o relatório também afirma que a polícia está envolvida na prática destes crimes, pois é em seus caminhões que os corpos das vítimas, jovens moradores de Cali que participaram das mobilizações, são transportados.

Há muitos relatos que apontam para a polícia agindo em cumplicidade com civis armados para atacar aqueles que participam dos protestos. Há inúmeros vídeos em redes sociais que mostram como pessoas com roupas civis são vistas em plena luz do dia atirando nelas não apenas com a cumplicidade da polícia, mas sob suas ordens e proteção. Há também um trabalho jornalístico de investigação abundante que tem sido feito neste sentido para denunciar estes fatos, mas as autoridades não fazem nada. Na Colômbia, os órgãos de controle são agora influenciados pelo executivo. O Procurador Geral, responsável por iniciar investigações criminais, dedicou-se a apreender os carros que foram usados para bloquear as estradas nas cidades durante a greve, embora o Tribunal Constitucional já tenha dito que estas práticas não constituem crime e fazem parte do exercício do direito de protesto.

Mas a história não termina aí. Há várias semanas, os corpos de jovens assassinados e desmembrados começaram a aparecer nos rios, principalmente no Rio Cauca e em várias áreas onde houve uma forte mobilização social, muitos deles em sacos plásticos, jovens que haviam sido denunciados como desaparecidos em meio aos protestos. Há alguns dias, na zona rural do município de Tuluá, o chefe de Santiago Ochoa, de 22 anos, foi encontrado em um saco plástico. Ele havia deixado sua casa pela manhã e à noite a descoberta arrepiante foi feita.

Estes horrores que são típicos dos regimes ditatoriais estão acontecendo na Colômbia, em um país que se orgulha de ser democrático e respeitoso dos direitos humanos. O governo de Ivan Duque mantém um silêncio cúmplice, parte de uma estratégia que envolve o descrédito da mobilização social, apontando os jovens que estão nas ruas lutando por uma vida digna como “vândalos terroristas”, uma acusação que não só os criminaliza, mas também reforça os abusos policiais, a criação de grupos armados e dá carta branca à impunidade; retornando a Colômbia aos seus piores momentos de violência paramilitar. Neste momento, a população vive em uma situação de absoluta falta de proteção. Sair para exercer o direito de protestar na Colômbia é pior do que ir para a guerra, porque mesmo na guerra os direitos devem ser respeitados.

Em 2002, o escultor e pintor Fernando Botero criou uma pintura que chamou de “Río Cauca”, na qual flutua um cadáver em decomposição no rio cercado de abutres. Botero disse na época que a situação do país era tão crítica que ele sentiu uma obrigação moral de retratar a terrível realidade do país. Aqui estamos quase 20 anos depois, revivendo essas imagens terríveis e essa dor profunda. Mais uma vez, é assim que os desaparecidos reaparecem na Colômbia.

Fonte: https://www.eldiario.es/opinion/tribuna-abierta/aparecen-cuerpos-desaparecidos-colombia_129_8091798.html?fbclid=IwAR3nbxY3s7CnLu2Vh_upljMKzV-Kr71lpwfYWTg7GJ6tUO67gyYDiE1PTHA

Tradução > Liberto

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Sem ter companhia,
E abandonada no campo,
A lua de inverno.

Roseki

[França] Amiens: pedimos apoio! A okupação do Coletivo la Brèche é violentamente ameaçada por um senhorio

Comunicado de imprensa do Coletivo la Brèche

Olá a todos vocês!

Há dois anos, o coletivo La Brèche ocupa um lugar em Rivery (na periferia de Amiens). O prédio havia sido abandonado por muitos anos e estava em um estado muito triste quando nos mudamos para cá. Seu proprietário, que vive em Nice, também possui muitas outras propriedades, em toda a Picardie e provavelmente em outros lugares. Sua recusa em vender e manter seus edifícios vazios levou a várias ordens de abandono por parte dos municípios da Picardie, e conflitos com muitos vizinhos.

De vez em quando ele volta a Amiens para cuidar de sua pequena propriedade, acompanhado por capangas e motoristas. Este multiproprietário nos ameaçou várias vezes de vir nos despejar ilegalmente, de empregar uma milícia armada, dizendo que substituiria nossa bandeira negra por uma bandeira azul-branca-vermelha, ou que preferiria ver sua casa incendiada do que ser ocupada por “pessoas como nós”. Ele gosta de dizer que subalugamos salas, ou que invadimos uma de suas muitas casas vazias. Isto é obviamente totalmente falso, e teria sido completamente estúpido de nossa parte.

Mas ontem, por volta do meio-dia, a tensão subiu um degrau. De volta a Amiens, desta vez ele estava acompanhado por um novo capanga, que fingia ser seu sobrinho. Primeiro ele tentou arrombar nossas portas. Depois ele nos ameaçou, e nos deu 48 horas para sair do local antes de intervir como um grupo. Esta manhã, ele disparou uma arma no ar e nos ameaçou de morte novamente.

Não vamos ceder a essas ameaças. Não vamos ceder a esta chamada milícia.

Portanto, convidamos o maior número possível de pessoas para nos apoiar nestes tempos particularmente difíceis. Quer você seja de Amiens ou de outro lugar, você é bem-vindo para vir e dormir ou simplesmente sair. Ofereceremos várias oficinas, projetos, discussões, etc., para não ficar muito entediado, e para tirar sua mente das coisas, você pode propor algumas também, o que seria ótimo.

Teremos uma atualização diária às 19h.

Como isso não é uma festa, você terá que ser relativamente reativo.

Qualquer que seja sua posição, seus medos ou desejos, apenas estar lá é muito bom, e há muitas maneiras de ajudar.

Para sua segurança, é melhor evitar trazer cães.

Se você não é de Amiens ou não conhece ninguém aqui, talvez seja legal enviar um e-mail para cozette@riseup.net, assim saberemos.

Coletivo La Brèche

65 rue Thuillier-Delambre

80136 Rivery

cozette [at] riseup [dot] net

https://squ.at/r/7i3t

https://collectiflabreche.noblogs.org/

Tradução > Liberto

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sol na varanda –
sombras ao entardecer
brincam de ciranda

Carlos Seabra

[Espanha] Covardes contra os livros anarquistas

EM RESPOSTA AO ATAQUE À SEDE DA FUNDAÇÃO ANSELMO LORENZO

A Fundação Anselmo Lorenzo foi atacada neste fim de semana (14/06) por pessoas desconhecidas, que pintaram sua fachada, quebraram o vidro e tentaram arrombar sua fechadura. É um ato covarde com um objetivo, sim, perigoso para aqueles que odeiam o anarquismo e a emancipação humana: a cultura. Hitler e Stalin já o tentaram queimando livros que tinham uma visão de mundo diferente da deles, mas o ideal sobreviveu até hoje, apesar dos novos inquisidores. Os franquistas tentaram, incendiando os 23.000 livros na biblioteca de La Justicia, o centro de trabalhadores da CNT/FAI em La Felguera quando chegaram, deixando atrás de si um rastro de sangue e miséria.

Não há nada mais covarde do que atacar prateleiras cheias de livros, um centro onde são dadas palestras e pedagogia libertária, um lugar onde pessoas de todo o mundo vêm para consultar arquivos, para aprender sobre a cultura anarco-sindicalista e anarquista e sobre as ideias que defendem um mundo livre e igualitário.

Os livros são desarmados e não sabem como se defender contra os inquisidores. Eles são sem dúvida o alvo dos privilegiados, dos acríticos, daqueles que querem um mundo de patrões e escravos, de ovelhas e pastores. Os livros abrem uma janela para o mundo, nos levam a outros tempos, nos permitem ter critérios, nos dão discernimento, nos divertem, nos movimentam, nos instruem, nos surpreendem e nos ajudam a lutar e a construir um mundo novo.

É por isso que os fascistas e autoritários de todos os tipos os odeiam.

Uma e mil vezes a vileza humana será capaz de destruir uma biblioteca ou uma livraria. Mil e mil vezes livros antigos e novos serão recolocados nas prateleiras. Livros anarquistas também, porque eles brotam em todos os lugares, aqui e ali. Uma editora libertária fecha e outra nasce, um livro é escrito a cada minuto, novos jornais são impressos aos montes, sem meios, mas com vontade e entusiasmo militante. E assim, a cultura libertária prolifera, como um imenso reservatório que, hoje ou amanhã, quando chegar a hora, contribuirá para abrir os olhos da sociedade e oferecer-lhe armas para pôr fim à opressão e à injustiça.

Companheiros e Companheiras da FAL, nossa solidariedade e apoio. Eles latem, logo nós cavalgamos.

Saúde e cultura para sempre!

Grupo Anarquista Higinio Carrocera / FAI (Asturias)

higiniocarrocera.home.blog

Tradução > Liberto

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Silêncio:
cigarras escutam
o canto das rochas

Matsuo Bashô

[Espanha] Lançamento: “Memorias de un revolucionário”

Piotr Kropotkin

A natureza havia provido Kropotkin de ricos tesouros, mas o tesouro maior era sua rica personalidade, a simples grandeza e a pureza de seu caráter, diferente de suas convicções, que nem o adversário mais encarniçado de suas opiniões poderia deixar de respeitar. É este aspecto de sua natureza o que fez de suas “Memorias de un revolucionario” uma das obras mais notáveis da literatura autobiográfica. Ele, que sabia contar tantas coisas agradáveis e alentadoras dos outros, ficava sempre em último plano. E quando se viu obrigado a falar de si mesmo, o fez com uma modéstia tão simples que encanta.

Memorias de un revolucionario

Piotr Kropotkin

Centre d’Estudis Llibertaris Federica Montseny, Badalona 2021

432 págs. Rústica 21×15 cm

ISBN 9788409307241

12,00 €

centrefedericamontseny.org

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lavrando o campo:
do templo aos cumes
o canto do galo

Buson

Esperanto, a língua perigosa no Brasil

Por Rafael Lins

Em 1907, quando A Terra Livre era publicada no Rio de Janeiro, Neno Vasco recebeu um colaborador parisiense que viajara meio mundo: Paulo Berthelot. Conhecedor de várias línguas, seu maior interesse, como o de muitos anarquistas, era o de ensinar ao mundo o esperanto, ‘a língua internacional’.” (DULLES, 1980, p.21)

Ainda há de ser escrita, um dia, a história da penetração do esperanto em território brasileiro nas primeiras décadas do século passado. Não se trata de fazer uma obra louvando os abnegados pioneiros da elite intelectual – médicos, advogados, engenheiros, literatos – dos quais sempre se fala em históricos do movimento esperantista no Brasil[1] Trata-se de trazer à luz uma história silenciada, mencionada de passagem em obras acadêmicas e temáticas, mas quase completamente desconhecida pelos esperantistas. Muito antes de em nossas terras o esperanto ser conhecido como ‘língua de espírita’, era, entre as décadas de 1900 e 1920, bastante identificado com os movimentos sociais dos trabalhadores. Notícias contam que anarquistas, anarco-sindicalistas, libertários – o grosso do proletariado, que por sua vez constituía-se majoritariamente por imigrantes italianos, espanhóis e portugueses – estudavam a língua internacional, propagandeavam-na, compunham hinos no idioma e praticavam-na entre si.

Paul Berthelot (criador, em 1905, da revista Esperanto, que se tornaria o mais importante veículo de comunicação esperantista, e quatro anos depois eleito membro da Lingva Komitato), estando em Montevidéu em 1907, se dirigiu ao Rio de Janeiro afim de participar do primeiro Congresso Brasileiro de Esperanto. Lá conheceu Neno Vasco, anarquista português, e outros anarquistas, passando a se relacionar com eles. Sobre Berthelot, o historiador Edgar Rodrigues registra em seu dicionário biográfico ‘Os companheiros’:

“Paul Berthelot chegou ao Rio de Janeiro em 1907 para participar de Congresso Esperantista. Conheceu Neno Vasco, seu cunhado Moscoso e outros militantes anarquistas com os quais passou a conviver. Não obstante seu compromisso com os adeptos de Zamenhof, integrou-se também ao Grupo Terra Livre, passando a colaborar no jornal de igual nome dirigido por Neno vasco, com o pseudônimo de Marcelo Verema.”

Na mesma página há um relato de Neno Vasco sobre o anarquista francês:

Por volta de 1907, apareceu na redação de um jornal do Rio, conduzido por um médico, um tipo curioso de esperantista, com a sua “verde estrela” no boné, vindo de Montevidéu. Era Paul Berthelot, um parisiense de 27 anos, que falava velozmente o esperanto, sabia várias línguas, viajara meio mundo e era conhecido entre os esperantistas por ter colaborado em algumas obras da língua de Zamenhof (entre elas um vocabulário) e também, sob o pseudônimo de Marcelo Verema, na imprensa esperantista.

E em breve se tornou familiar entre os escritores e jornalistas do meio carioca, contando entre suas relações Medeiros e Albuquerque e Teixeira Mendes, chefe da Igreja Positivista.” (RODRIGUES, 1998, p.62).

De alma inquieta, Berthelot partiu para o interior do Brasil afim de tomar contato com sociedades indígenas, morrendo em 1910 em Conceição do Araguaia, Goiás. Em sua última carta, escrita a Neno Vasco em 5 de agosto, ele desabafa: “Acho-me doente e sem recurso algum nessa povoação; penso até que a morte não está longe” (RODRIGUES, 1998, p.71). Antes de morrer escreve em francês uma alegoria sobre o anarquismo, ‘O evangelho da hora’, cuja primeira versão em esperanto foi publicada já em 1912, e a segunda, uma tradução da versão em português, publicada por Gilbert Ledon em 1990[2].

Além da presença no Brasil de Paul Berthelot, outro registro muito importante é a utilização do esperanto na colônia penal de Clevelândia, município de Oiapoque, no Amapá, verdadeiro campo de concentração utilizado pelo governo de Artur Bernardes (1922-1926) para deter trabalhadores militantes, principalmente anarquistas. Edgar Rodrigues reproduz em ‘Os companheiros’ o relato de Domingos Braz, um ex-deportado, sobre o cotidiano em Clevelândia:

Gravamos um manuscrito em folhas de papel que mais tarde constituíram um volumoso caderno, contendo todos os nossos hinos libertários já conhecidos em português, espanhol e esperanto (…). À noite e às vezes durante o dia mesmo, entregávamo-nos ao divertimento de cantá-los, além de empregarmos as horas de lazer num curso destinado ao estudo e conhecimento da música, semáfora, alfabeto e conversação dos surdo-mudos, correspondência figurada, ginástica; permuta de conhecimentos sobre português, espanhol, italiano, francês, inglês e esperanto.

Sobre a utilização do esperanto e seu fim trágico no cárcere, ele prossegue:

Sendo que este último – o idioma internacional – começou a ser estudado por nós dentro das masmorras do Rio de Janeiro – na ‘Geladeira’ e outros cubículos da Polícia Central – continuando a bordo do sinistro “Campos” e do negreiro ‘Comandante Vasconcelos’, indo ser interrompido no silêncio sepulcral das selvas inhóspitas do Oiapoque com a morte de nosso saudoso e inesquecível camarada José Alves do Nascimento, um dos mais fervorosos e competentes mestres do idioma internacional em todo o Brasil, cuja propaganda, estudo e divulgação dedicou grande parte de sua existência.” (RODRIGUES, 1995, p.11).

No verbete José Alves do Nascimento, Edgar Rodrigues escreve:

Viveu com outros anarquistas igualmente degredados, sem culpa formada, sem qualquer acusação, nos anos distantes de 1924/25, no lote 15 do igarapé Sipariny, Centro Agrícola Clevelândia. Mais tarde foi transferido para o lote 10 do mesmo Centro.

(…)

José Alves do Nascimento não foi desterrado por acaso, ele era um militante ‘perigoso’, sua inteligência e sua cultura davam maior dimensão às suas idéias anarquistas que semeava em português e em esperanto, língua internacional que cultivava e ensinava aos companheiros nos sindicatos, nos centros de cultura, nos locais de trabalho, nas masmorras governamentais, durante a longa viagem de navio até o Oiapoque, e no meio das selvas seculares amazônicas que absorviam a sonoridades dos hinos revolucionários dos anarquistas (…).” (RODRIGUES, 1997, pp.139-140)

Como se pôde perceber, em começos do século XX o esperanto já estava bem inserido entre os trabalhadores militantes, e sua inserção se manteve com força pelo menos até as perseguições políticas aos anarquistas durante o governo de Arthur Bernardes[3]. Edgar Rodrigues talvez seja quem mais registrou essas ligações entre esperanto e trabalhadores no Brasil, e em outras suas obras ele fala da utilização da língua internacional por anarquistas já em finais do século XIX.

O que quero dizer, finalmente, é que há uma história do esperanto no Brasil que não é conhecida pelos esperantistas, apesar de ser do conhecimento de quem estuda o movimento operário anarquista, em especial (mas não apenas), do período da Primeira República. Nos históricos e cronologias da língua internacional em nossas terras, sempre se fala de figuras proeminentes na sociedade. Mas da gente simples, trabalhadores imigrantes e brasileiros que utilizavam o esperanto para se comunicar face à Babel que era a classe operária brasileira, destes nada se fala.

Vergonha? Temor de ver o esperanto associado às ‘classes perigosas’ de anarquistas a delinqüentes? Ou apenas medo de que a perseguição política colocasse em risco as atividades esperantistas da pequena burguesia? Cumpre um estudo aprofundado sobre o tema. A documentação creio que não seja tão difícil: a imprensa operária do período já pode ser um bom pontapé para a pesquisa, e muito dela se encontra no Arquivo Edgar Leuenroth, na UNICAMP (www.ifch.unicamp.br/ael). A imprensa esperantista da época também pode ajudar, e possivelmente na biblioteca da Liga Brasileira de Esperanto (www.esperanto.org.br) existam exemplares. Enfim, trata-se de uma pesquisa complicada, devido aos deslocamentos necessários, mas se feita – e bem feita – pode resultar num trabalho interessantíssimo pra se compreender o imaginário dos trabalhadores e dos esperantistas na época em questão. A quem se interessar, mãos à obra.

Bibliografia:

DULLES, John W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil (1910-1935). Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1980.
RODRIGUES, Edgar. Os companheiros 2. Rio de Janeiro, VJR, 1995.
RODRIGUES, Edgar. Os companheiros 3. Florianópolis, Editora Insular, 1997.
RODRIGUES, Edgar. Os companheiros 5. Florianópolis, Editora Insular, 1998.

Fonte: https://anarkio.net/index.php/2008/05/30/esperanto-a-lingua-perigosa-no-brasil/

agência de notícias anarquistas-ana

nuvens insultam o céu,
aves urgentes riscam o espaço;
pingos começam a molhar.

Alaor Chaves

[Itália] Os despejos para os inquilinos afetados pela crise estão de volta a partir de hoje

Por Raffaele De Luca

O congelamento das expulsões e despejos emitidas antes de 28 de fevereiro de 2020, ou seja, nos dias anteriores ao fechamento nacional, expirou, e é por isso que a partir de hoje (01/07) recomeçamos com a execução do mesmo. Para aqueles emitidos durante a pandemia, porém, houve uma extensão do bloqueio, o que simplesmente atrasa o que é um destino inevitável: eles serão liberados nos próximos meses em duas parcelas. Especificamente, a partir de 1º de outubro, os despejos solicitados de 28 de fevereiro a 30 de setembro de 2020 serão acionados, enquanto que a partir de 1º de janeiro de 2022 serão acionados aqueles solicitados de 1º de outubro de 2020 a 30 de junho de 2021.

Tudo isso ocorrerá enquanto haverá uma liberação total de redundâncias. De fato, mesmo neste caso, foi introduzida uma prorrogação do congelamento até 31 de outubro de 2021 para alguns setores, mas precisamente após esta data eles podem ser feitos. Como resultado, haverá um aumento ainda maior da pobreza absoluta. Neste sentido, já no primeiro ano da pandemia, de acordo com as estatísticas do ISTAT, ela aumentou, atingindo o nível mais alto desde 2005: mais de dois milhões de famílias em pobreza absoluta, para um total de mais de 5,6 milhões de indivíduos.

Isto testemunha, portanto, que a remoção do bloqueio de despejos para algumas pessoas e a simples prorrogação de alguns meses para outras, é parte de uma grave situação de crise causada pela pandemia. Por causa da pandemia, muitas pessoas não poderão pagar seu aluguel. Portanto, perguntamo-nos por que foi decidido proceder com a execução de despejos (imediatamente ou em breve) como se os problemas econômicos dos cidadãos italianos fossem resolvidos e a situação tivesse voltado à situação pré-pandêmica. Este não é absolutamente o caso, pelo contrário, devido ao iminente desbloqueio total de demissões que muitas pessoas nos próximos meses poderão ficar sem trabalho.

Fonte: https://www.lindipendente.online/2021/07/01/italia-da-oggi-tornano-gli-sfratti-per-gli-inquilini-colpiti-dalla-crisi/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Você se parece
com este galho de acácias
repleto de sóis.

Eolo Yberê Libera

[Bélgica] Cabe a nós sermos tudo

Neste texto de 2010, Vaneigem, um dos expoentes históricos da Internacional Situacionista, antecipa muitas das novas características da militância política que envolve comunidades em várias partes do mundo em uma ação de apoio mútuo baseada na rejeição da delegação estatal que, em tempos de crise (financeira ou de saúde), adota políticas que estão longe de apoiar a parte pobre dos países e, ao contrário, vê as desigualdades aumentarem enormemente. Ações de mutualismo, criação de comitês de vizinhança, troca de habilidades e serviços não mediados pelo fluxo do dinheiro permeiam o discurso de Vaneigem, dos quais é importante tomar inspiração para novas formas de luta que não excluem ou evitam, mas preparam o inevitável conflito.

(…) Várias questões surgem com uma urgência que o desencadeamento de eventos ameaça precipitar. Terei o cuidado de não dar respostas que, fora das condições práticas e das coletividades em que surgirão, correm o risco de cair em abstração, e a abstração, como pensamento separado da vida, sempre ressuscita os velhos monstros do poder. Eu me contentei em dar-lhes alguns exemplos.

1. O que estamos prontos a colocar em prática para remediar a deficiência de um Estado que não apenas não serve mais a seus cidadãos, mas os sangra até secar para alimentar o polvo bancário internacional?

A força da inércia está trabalhando contra nós. As tradições familiares, sociais, políticas, econômicas, religiosas e ideológicas não cessaram de perpetuar, de geração em geração, aquela servidão voluntária que La Boetie já denunciava. É possível, por outro lado, aproveitar o choque que o colapso do sistema, a desintegração do Estado e a tentação de olhar além das fronteiras mesquinhas da mercadoria estão prestes a produzir.

É de se esperar uma inversão de perspectiva. Além do possível saque dos supermercados, ao qual a pauperização acelerada corre o risco de levar, muitos consumidores ameaçados de exclusão não deixarão de perceber que a sobrevivência não é vida, que a adulação de produtos adulterados e inúteis não vale o prazer de uma existência em que a descoberta das energias e dos bens prodigalizados pela natureza se harmoniza com os apelos do desejo. Que a vida está aqui, agora, que está nas mãos da maioria das pessoas, que nada mais pede do que se construir e se propagar.

Paremos de derramar lágrimas sobre os fracassos da emancipação que pontilham nossa história, não para celebrar afirmações ocasionais – porque as noções de sucesso e fracasso dão um mau cheiro de competição mercantil, de tática e estratégia, de competição predatória – mas para apoiar experiências que, esboçadas com alegria e audácia, estão esperando por nós para levá-las adiante com a implementação de um projeto de autogestão e com o estabelecimento de assembleias de democracia direta.

As comunidades zapatistas de Chiapas talvez sejam hoje as únicas a aplicar a democracia direta. Desde o início, a terra que foi compartilhada exclui os conflitos ligados à apropriação privada. Todos têm o direito de participar das assembleias e de falar e expressar sua escolha, inclusive as crianças. Na verdade, não há pessoas eleitas através de um plebiscito da assembleia. Só é proposto aos indivíduos que demonstram interesse em determinadas áreas (ensino, saúde, mecânica, café, organização de festivais, métodos de agricultura orgânica, relações com o mundo exterior) que se tornem representantes da comunidade por um período limitado. Eles então se tornam parte de uma “junta de bom governo” e informam regularmente sobre sua missão durante o período de seu mandato. As mulheres, reticentes no início por causa dos hábitos patriarcais dos maias, agora ocupam um lugar preponderante nas juntas.

Para definir sua vontade de estabelecer uma sociedade mais humana, os Zapatistas usam uma fórmula que nos lembra a necessidade de vigilância constante: não somos um exemplo, mas uma experiência.

2. O dinheiro não está apenas desvalorizando, ele está à beira de desaparecer. Durante a revolução espanhola, algumas comunidades na Andaluzia, Aragão e Catalunha haviam estabelecido um sistema de distribuição que excluía o uso de moeda (outras continuaram a usar a peseta e outras ainda cunharam uma nova moeda local, todas trabalhando bem juntas). Hoje nos cabe examinar como suplantar, com uma relação humana baseada no dom e não na troca, uma relação de exploração na qual o comércio das coisas determina o comércio dos homens.

Temos sido escravos de um funcionamento econômico cujo estabelecimento marcou o nascimento da civilização mercantil, alterando o comportamento individual e social, promovendo uma confusão permanente entre conforto e desnaturalização, progresso e regressão, aspiração humana e barbárie.

Certamente, o modelo de financiamento concreto e virtual ainda constitui um sistema coerente – uma coerência absurda, é verdade, e ainda assim capaz de continuar a governar o comportamento. Por outro lado, o que é provável que aconteça no dia em que o crash financeiro despoje o dinheiro de seu valor e utilidade?

Seu desaparecimento será sem dúvida aclamado como uma libertação por aqueles que lhe negam o direito de tiranizar sua vida cotidiana. Entretanto, o fetichismo do dinheiro está tão incorporado em nossos costumes que muitos indivíduos submetidos a seu jugo milenar acabarão caindo nas garras daqueles desequilíbrios emocionais sobre os quais reina a lei da selva social e para os quais a luta de todos contra todos é desencadeada e a violência cega grassa em busca de bodes expiatórios.

Não subestimemos os tentáculos do polvo reduzido a defender-se em seus últimos abrigos. A ruína do dinheiro não implica, de fato, o fim da depredação, do poder, da apropriação, dos seres e das coisas.

A exacerbação do caos, tão útil às organizações estatais e mafiosas, propaga um vírus de autodestruição cujas explosões nacionalistas, explosões genocidas, conflitos religiosos, o ressurgimento do fascismo, com os bolcheviques ou peste fundamentalista correm o risco de envenenar os espíritos se a inteligência sensível dos vivos não colocar a questão da felicidade e a alegria de viver de volta ao centro de nossas preocupações. A abjeção sempre teve um fascínio que, após algum embaraço, abre um caminho secreto e, infectando todos os estratos da população, espera poder garantir impunidade e legitimidade para banalizar a barbárie (a ascensão do nazismo na Alemanha mostrou como o humanismo abstrato poderia ser transformado em selvageria desenfreada).

Não devemos, por outro lado, permitir que a desumanidade do passado apague a memória dos grandes movimentos de emancipação e daquilo que era mais radical: a vontade de libertar o homem alienado e de dar à luz nele aquela verdadeira humanidade que reaparece de geração em geração.

A sociedade vindoura não tem outra escolha senão retomar e desenvolver os projetos de autogestão que, desde a Comuna de Paris até os coletivos libertários da Espanha revolucionária, fundaram sobre a autonomia dos indivíduos uma busca de harmonia na qual a felicidade de todos está unida à felicidade de cada um.

3. O fracasso do Estado obriga as comunidades locais a implementar uma gestão do bem público mais bem adaptada aos interesses vitais dos indivíduos. Seria uma ilusão pensar que libertar territórios da dominação mercantil e estabelecer zonas onde os direitos humanos erradicam o direito de comércio e rentabilidade pode ser feito sem confronto. Como podemos defender os enclaves de gratuidade que tentaremos implantar em um mundo controlado por um sistema universal de despossessão e ganância?

(…) A coesão só pode ser baseada em um projeto de vida individual e social. O futuro pertencerá a comunidades locais capazes de pensar globalmente. Quero dizer: aqueles que apostaram em sua radicalidade e em sua difusão para lançar as bases de uma humanidade internacional. Esta é a única maneira de evitar a armadilha do comunitarismo, um produto do jacobinismo de estado.

A ideia dos comitês de vizinhança estabelecidos em Oaxaca merece ser examinada como um caminho viável (…). Os comitês de vizinhança não representam uma ameaça armada, eles não são um perigo identificável para o poder. Eles formam um lugar com uma identidade imprecisa, no qual se lida com alimentos, água e fornecimento de energia. Desta forma, a solidariedade é desenvolvida sobre temas aparentemente anódinos que mudam as mentalidades, abrindo-as à consciência e à criatividade. A igualdade entre homens e mulheres, o direito à felicidade, a melhoria da vida diária e do meio ambiente perdem assim seu caráter abstrato e mudam de comportamento.

Ao dar prioridade às questões colocadas pela vida cotidiana, os problemas tradicionalmente reavivados pelas ideologias, religiões e aquela velha política que é a política do velho mundo são gradualmente tornados antiquados. Assim, voltamos ao significado original do termo “política”: a arte de administrar a cidade, de melhorar o lugar social e psicológico no qual as pessoas aspiram a viver de acordo com seus desejos.

Temos tudo a ganhar atacando o sistema e não os homens que são tanto seus perpetradores como seus escravos. Ceder à peste emocional, a vingança, a explosão, é participar do caos e da violência cega que o Estado e seus aparelhos repressivos precisam para continuar a existir.

Não subestimo o alívio furioso ao qual uma multidão que queima um banco ou saqueia um supermercado se entrega. Sabemos, entretanto, que a transgressão é um tributo à proibição e que oferece uma saída para a opressão, pois não a destrói, mas a restaura. A opressão precisa de revoltas cegas. Por outro lado, não vejo uma maneira mais eficaz de se dedicar à destruição do sistema mercantil do que propagar a noção e a prática da gratuidade (aqui e ali, por exemplo, a sabotagem dos parquímetros é timidamente esboçada, muito para desgosto das empresas que afirmam roubar nosso espaço e tempo).

Estamos com tanta falta de imaginação e criatividade que não sabemos como abolir as obrigações ligadas ao barulho dos lobbies públicos e privados? Que meios poderiam utilizar para se oporem a um movimento coletivo que decretaria o transporte público gratuito, que se recusaria a pagar impostos e taxas ao Estado para investi-los em benefício de todos, proporcionando a uma região energias renováveis, melhorando a qualidade da assistência médica, da educação, da alimentação, do meio ambiente?

Não será restabelecendo uma verdadeira política de proximidade que lançaremos as bases para uma sociedade autogovernada? Em vez de chamar greves de transporte (trens, ônibus e metrôs) que impedem a circulação dos cidadãos, por que não decidir libertá-los? A vantagem seria quádrupla: prejudicar a rentabilidade das empresas de transporte, reduzir os lucros dos lobbies do petróleo, romper o controle burocrático dos sindicatos e, sobretudo, incentivar a adesão maciça e o apoio dos usuários (…).

Extraído de VANEIGEM, Raoul, O Estado não é nada, cabe a nós sermos tudo (julho de 2010)

Fonte: https://umanitanova.org/?p=14423

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A abelha voa vai
vem volta pesada
dourada de pólen

Eugénia Tabosa

[País Basco] Friki Films e Editorial Txalaparta se unem para levar a vida do anarquista Lucio Urtubia à televisão

A editora Navarra Editorial Txalaparta e a produtora Friki Films de Barcelona têm um acordo desde o início do ano para transformar a vida de Lucio Urtubia em uma série de ficção.

Lucio Urtubia, pedreiro e militante anarquista espanhol exilado em Paris, colocou o próprio City Bank contra as cordas nos anos 80, falsificando cheques de viagem com placas de impressão dos quais ele foi o autor. Seu objetivo era levantar fundos para seu movimento político.

Segundo a editora e a produtora, “o legado de Lucio Urtubia chegará a todas as telas com a mesma riqueza, veracidade e força com que o ativista de navarro viveu sua trepidante vida”.

Urtubia se caracteriza por sua atividade clandestina em prol de grupos anarquistas internacionais e é considerado por parte da esquerda política como uma espécie de Robin Hood.

A família de Lucio Urtubia, Friki Films e Editorial Txalaparta, responsável por seu legado, consideram que, como o primeiro aniversário da morte de Urtubia está prestes a ser celebrado, “chegou a hora de justificar sua enorme figura e suas espetaculares e impressionantes realizações em formato audiovisual”. Uma história com grande projeção internacional que visa entreter e inspirar as novas gerações no valor da luta, dos direitos sociais e do trabalho”.

O próprio Urtubia escreveu ‘Mi utopía vivida’, enquanto Mikel Santos ‘Belatz’ assinou em 2018 uma novela gráfica sobre a vida do anarquista intitulada ‘El tesoro de Lucio’.

Fonte: https://www.audiovisual451.com/friki-films-y-editorial-txalaparta-se-alian-para-llevar-a-la-television-la-vida-del-anarquista-lucio-urtubia/?fbclid=IwAR1pVTQZsIddleNdBHauuAUC2HMAM6SkCvCWtJJJvfEfJBHVLI8VTcRtIbY

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agência de notícias anarquistas-ana

Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

Guilherme de Almeida

A Alemanha também aprova novas leis para a vigilância dos cidadãos

O espectro da repressão e do securitarismo paira sobre a Europa. A Alemanha também adotou um projeto de lei que permite a vigilância em massa e a repressão imediata e oportuna de qualquer coisa considerada prejudicial para o Estado alemão e para a Constituição. A justificativa é combater o terrorismo e o extremismo de direita, mas o que parece fazer é colocar uma luz brilhante no centro das atenções de toda a população.

O Bundestag aprovou o projeto de lei do governo federal “Sobre a Adaptação da Lei de Proteção da Constituição” (19/24785, 19/24900) conforme emendado pelo Comitê de Assuntos Internos (19/30477). Em uma votação nominal, 355 Membros votaram a favor do projeto de lei, enquanto 280 votaram contra; quatro abstenções. Em uma segunda reunião, grupos de oposição haviam votado contra a minuta do governo.

Os serviços de inteligência e as forças de segurança e policiais recebem “poderes adicionais de inteligência através da regulamentação sobre vigilância de telecomunicações, incluindo serviços de mensagens”. De acordo com o Ministério Federal do Interior, este poder é particularmente importante para o monitoramento da comunicação digital criptografada por software de criptografia.

No debate acalorado no Bundestag, falou-se em “propor novos poderes de controle” e ficou claro que esse controle seria total. Não sabendo onde o islamismo radical ou extremismo de direita pode estar se escondendo, o controle deve ser capilar e cobrir toda a população alemã.

Não apenas na Alemanha. Em abril, foi a vez da França aprovar a “lei de segurança global” que, entre outras coisas, introduziu uma ofensa para qualquer pessoa que espalhasse imagens capazes de “prejudicar a integridade física e moral” dos policiais.

No início de junho, a Grã-Bretanha aprovou uma lei, intitulada Police, Crime, Sentencing and Courts Bill, que estabeleceu novos poderes para a polícia, permitindo-lhes decidir se um protesto é justificado ou não, impor uma hora de início e fim, e encerrar um protesto no local, por motivos muito gerais e aleatórios.

Fonte: https://www.lindipendente.online/2021/06/25/anche-la-germania-approva-nuove-leggi-per-la-sorveglianza-dei-cittadini/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

vento nas cortinas
fico atenta
ao que a manhã ensina

Camila Jabur

Resumo: A Pedagogia Libertária no Brasil

O princípio da autoridade na educação das crianças constitui o ponto de partida natural: ele é legítimo, necessário, quando é aplicado às crianças na primeira infância, quando sua inteligência ainda não se desenvolveu abertamente. Mas como o desenvolvimento de todas as coisas, e por conseqüência da educação, implica a negação sucessiva do ponto de partida, este princípio deve enfraquecer-se à medida que avançam a educação e a instrução, para dar lugar à liberdade ascendente. Mikhail Bakunin

Introdução

No final do Império e Primeira República, a sociedade brasileira fica mais diversificada. Além da elite dominante, representada pela burguesia rural e urbana, as classes médias aparecem com força no cenário político. Surge também um proletariado urbano influenciado pelas tradições políticas anarquistas e socialistas trazidas pelos imigrantes europeus.

A burguesia é formada pelos representantes da lavoura tradicional e ex-escravocrata, como os do Vale do Paraíba, pelos cafeicultores modernos que empregam trabalho assalariado, como os do oeste de São Paulo, por banqueiros e grandes comerciantes ligados à exportação e à importação e pelos grandes e pequenos industriais. As classes médias urbanas incluem os imigrantes que se dedicam ao pequeno comércio e ao artesanato, os militares, os profissionais liberais e os altos funcionários públicos. O proletariado inclui funcionários públicos do baixo escalão, trabalhadores assalariados rurais e urbanos, e uma grande maioria de ex-escravos desempregados ou que trabalham como biscateiros.

Entre 1889 e 1928 entram no país 3.523.591 imigrantes. Mais de um terço são italianos, seguidos pelos portugueses, espanhóis, alemães e japoneses. A maior parte vai para a lavoura do café. Muitos, porém, de origem urbana, abandonam o campo e dedicam-se ao comércio ou à indústria, como assalariados ou donos de seus próprios negócios.

Movimento operário brasileiro

Em uma sociedade que acabara de sair da escravidão, a nascente classe operária enfrenta condições de trabalho adversas. Os salários são muito baixos, não existe legislação trabalhista e os sindicatos recém-formados não são reconhecidos. Os trabalhadores não contam com aviso prévio em casos de demissão, não têm direito a férias, a aposentadoria ou a qualquer tipo de seguro contra acidentes. A jornada de trabalho diária chega a 15 horas. A greve é encarada como crime e caso de polícia. Em 1889 há 54 mil operários no país, localizados principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em 1920 eles já são 275.512, a maioria imigrantes italianos e espanhóis, responsáveis pela difusão das idéias anarquistas e socialistas no país.

O anarquismo chega ao Brasil com os imigrantes europeus e, durante boa parte da Primeira República, é a ideologia predominante no movimento operário. Os anarquistas defendem a organização sindical autônoma para todas as categorias profissionais como forma de os operários reunirem forças para negociar com os patrões. Eles se opõem radicalmente ao Estado, à Igreja e à propriedade privada e pregam a completa extinção dessas instituições. Também são contrários a qualquer atuação político-partidária e aí reside sua principal diferença com os socialistas e comunistas. A influência anarquista sobre o movimento operário brasileiro diminui quando o Estado começa a criar mecanismos legais de proteção ao trabalhador.

Devido a esta oposição contra o Estado, os anarquistas propunham uma pedagogia diferenciada para que o filho do operário (e futuro trabalhador) se libertasse das ideologias dominantes disseminadas através da educação tradicional.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://pedagogiaaopedaletra.com/resumo-a-pedagogia-libertaria-no-brasil/

agência de notícias anarquistas-ana

Agora é inverno
e no mundo uma só cor;
o som do vento.

Matsuo Bashô

Novo Vídeo: Floresta em pé, fascismo no chão

Junho de 2021 foi marcado pelas revoltas chamadas de levante indígena ou Levante Pela Terra, em função de barricadas e enfrentamentos violentos de dezenas de povos originários que expressam sua indignação com o retrocesso nas demarcações de terras indígenas. O PL-490 legitima a mineração e exploração dessas terras, restringe a demarcação, incentivando a evangelização e ameaçando povos que escolheram viver isolados do homem branco. As atividades que o PL legitima sempre ocorreram, com maior ou menor incentivo do Estado, mesmo que mais discretas que a atual gestão. Assim como o levante indígena, que não é de hoje e tampouco é isolado em Brasília. A colonização nunca foi pacífica, desde a invasão houve resistência e, sendo esse PL aprovado ou não, seguirá tendo resistência.

>> Assista o vídeo (03:26) aqui

https://kolektiva.media/videos/watch/a1f7d68b-e958-443a-9abe-a2d7e30b7b2d

agência de notícias anarquistas-ana

teu corpo deitado
acorda desejos
não confessados

Eugénia Tabosa