[Argentina] Folheto: Bakunin decolonial. Emancipação epistemológica ou teoria heterodoxa

Após a aparição na Europa do pensamento e das teorias emancipatórias da modernidade, como podem ser as derivadas do marxismo e do anarquismo, estas foram se estendendo, como rastilho de pólvora, pelos quatro continentes, e chegaram  finalmente aos lugares considerados pelos europeus como “periféricos”.

Nos países da América Latina, Ásia e África, as teorias elaboradas pensando nas sociedades e nas problemáticas europeias, demonstraram não se ajustar totalmente à realidade, sobretudo, aquelas que interpretaram a realidade de nossos territórios com categorias elaboradas por Karl Marx, pensando desde as principais potências econômicas.

Martín Albert Persch, elabora uma ajustada crítica das categorias marxistas, e dos pensadores decoloniais que não podem renunciar a uma epistemologia marxista por interesses acadêmicos, e demonstra, que algumas das contribuições de Mijail Bakunin, se ajustam mais a um pensamento e uma práxis pensada desde nossos lugares no mundo, distanciados do centralismo europeu.

>> Baixar o folheto [PDF] aqui:

http://www.mediafire.com/file/auxczc1skbpmpht/Bakunin.decolonial.pdf/file

agência de notícias anarquistas-ana

Sobre mim a lua.
Lá atrás das altas montanhas
outro deve olhá-la.

Alexei Bueno

Sobre abstenções e covardias

Em todo o Brasil, no dia 29 de novembro se encerrou o ritual eleitoral municipal, com exceção do adiamento da votação para dezembro, devido ao apagão que atingiu inúmeras cidades no Amapá. Mais uma vez o recorde de votos não foi para nenhum partido-candidato, mas para as abstenções. Ao final da apuração do segundo turno, em capitais como Rio de Janeiro e Goiânia, a soma de abstenções foi superior aos votos dos vencedores do pleito. Analistas políticos em programas de TV aberta, a cabo ou no YouTube justificaram o aumento, desta vez, pela chamada pandemia da Covid-19. Contudo, mesmo que o novo coronavírus tenha intimidado uma parte considerável dos eleitores, pesquisas mostram que desde o início dos anos 2000, o número de eleitores ausentes, mesmo com a obrigatoriedade do voto, só aumentou.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, em 2002, pouco mais de 15% da população apta a votar não votou. Quatorze anos depois, em 2016, o número que não compareceu foi 22% e, agora, no segundo turno, atingiu o patamar de 30%. Segundo pesquisas acerca da distribuição de votos pela cidade (no primeiro turno), o número de abstenções se concentrou, sobretudo, no chamado centro expandido, enquanto votos brancos e nulos marcaram mais as zonas eleitorais situadas nas periferias (não há ainda dados relacionados ao pleito do último domingo).

A partir dos “mapas de votos” investigadores concluíram que em áreas centrais da cidade, na qual mulheres e homens podem realizar as suas atividades em home office fora do município, ou seja, em suas respectivas habitações, no litoral ou interior, a abstenção cresceu mais. Essas mesmas áreas são identificadas ainda por uma população etária mais velha, a chamada população de risco ao novo coronavírus. Todavia, tal leitura reservada somente a 2020 não leva em consideração o que algumas estatísticas apontam há muito tempo que as abstenções não param de subir desde o começo do século.

Mesmo com a ampliação de estudos acerca da abstenção, a permanência do voto obrigatório reintroduzido pela ditadura civil-militar e assimilado por todos os governos do chamado período de retomada da democracia, impede uma compreensão mais clara sobre quem são as pessoas que não se apresentam à convocação eleitoral. A ausência indicaria algum protesto em andamento? E qual?

Por falar em continuidade do voto obrigatório frente ao aumento exponencial da abstenção, nesse ano ela foi similar à das eleições dos Estados Unidos, onde o voto é facultativo. Então, por que não enfrentar de vez essa questão? Espera-se pelo consentimento de uma autoridade do TSE?

O voto obrigatório foi instituído em 1932 no governo de Getúlio Vargas e levado adiante pela ditadura civil-militar. Ainda hoje, trinta e cinco anos depois do ocaso da ditadura, pouco se comenta, mas, o Código Eleitoral ainda em vigor no país foi promulgado pouco tempo após o golpe de 1964 (Lei n. 4.737, de 15 de Julho de 1965). Nesse ano, a obrigatoriedade do voto no Brasil escancarou ainda mais a sua estupidez e violência. Em meio ao crescimento de taxas de transmissão pela Covid-19, mesmo assim milhões de pessoas mascaradas saíram às ruas para exercitar a sua cidadania.

Umas por crerem na democracia e no voto, outras compelidas pela ameaça de punições, outras porque não querem dar mais dinheiro em tributo ao Estado, mesmo que seja um preço mínimo e módico, outras por convicções ideológicas… Enfim, o que se constata é que algo se passa… Inclusive que há adeptos dos tiranos que usam e abusam de democracia e para quem votar é um desperdício, pondo liberais e esquerdistas em sinuca de bico.

Desde o governo do general Castelo Branco, quem não vota e deixa de justificar a sua ausência no ritual fica proibido, entre outras atividades, de prestar concursos públicos ou de deixar o território nacional mesmo para o turismo. Todavia, se o pagamento da pequena multa for efetuado, a situação do eleitor se regulariza novamente. Se o(a) eleitor(a) for a um cartório eleitoral 90 dias depois das eleições, poderá justificar e poupar a multa. E, ainda, pode utilizar a grande novidade do ano, o app do TSE, que promete processar a justificativa para evitar aglomerações — apesar de ter inúmeros erros e falhas para processá-las. Cabe ao eleitor a paciência em submeter sua justificativa até ser aceita. É, também, o que vem acontecendo. Enfim, é cada vez maior o contingente que não comparece às urnas e escolhe acertar passivamente o boleto da multa em alguma agência bancária próxima ao seu cartório eleitoral.

Contudo, não foi sempre assim. Na metade do século XIX, anarquistas já combatiam diretamente a política, incluindo seus rituais eleitorais. E tal combate irrompeu da própria experiência de Pierre-Joseph Proudhon na Assembleia Nacional. Proudhon foi eleito, em 1848, com quase oitenta mil votos, no rescaldo das revoluções que se espraiaram por todo continente europeu naquele ano. Pouco tempo depois de ocupar uma cadeira no parlamento, o autor de O que é a propriedade?, concluiu: “Assíduo, desde às nove horas, às reuniões nas comissões e comitês, não deixava a Assembleia senão à noite, esgotado de fadiga e desgosto (…). Eu não sabia de nada, nem das oficinas nacionais, nem da política do governo, nem das intrigas que se cruzavam no interior da Assembleia. É preciso ter vivido nesse isolador que se chama Assembleia Nacional, para conceber como os homens que ignoram mais completamente o estado de um país são quase sempre os que o representam”.

Anos mais tarde, sob efeito da recusa de Proudhon — um marco para a atitude antiparlamentar anarquista —, Piotr Kropotkin prosseguiu no ataque à centralização e isolamento provocados pela política. O libertário russo, propagador do apoio mútuo, declarou: “seu representante deverá emitir uma opinião, um voto, sobre toda a série, variada ao infinito, de questões que surgem nesta formidável máquina — o Estado centralizado. Ele deverá votar o imposto sobre os cães e a reforma do ensino universitário, sem jamais ter colocado os pés na universidade, nem sabido o que é um cão de caça”.

Os questionamentos de Proudhon e Kropotkin são conhecidos na chamada História do Anarquismo. Assim como os de Emma Goldman, “se votar fizesse alguma diferença, fariam-no ilegal”, ou de Élisée Reclus, “votar é entregar-se a um senhor”. Poucos conhecem as corajosas histórias desses questionamentos no Brasil. Por aqui, em 1917, Edgar Leuenroth recusou incisivamente tornar-se um candidato mesmo depois da ampla mobilização para que ele se tornasse representante dos operários depois da Greve Geral ocorrida em São Paulo. Seu contemporâneo, José Oiticica, além de atacar o voto defendeu a ação direta como única maneira de transformar decididamente a sociedade. E como não lembrar Maria Lacerda de Moura, de seu rompimento com certas mulheres que defendiam o voto como possibilidade política. Com a ditadura civil-militar, na década de 1970 e 1980, os integrantes do jornal O Inimigo do Rei, debochavam: “parlamentar é pra lamentar” e, poucos anos depois, anarcopunks estampavam, pelas ruas, em shows e zines, a abstenção ou o voto nulo.

Não é de estranhar que nas discussões e debates cada vez mais frequentes sobre as abstenções travadas por analistas em seus programas ou podcasts, a prática anarquista de embate anti-eleições não apareça uma vez sequer. É que distinto do que sugere o cenário atual, o antivoto das mulheres e homens ácratas coloca em xeque, simultaneamente, questões sagradas: a obrigatoriedade do voto, o Código Eleitoral, a política e o próprio emprego dos empolados analistas.

O estranho mesmo é como diante do aumento evidente da miséria e dos cadáveres por Covid-19 não acontecer uma revolta em meio às campanhas eleitorais que se espalharam por todo o território brasileiro.

Em meio a um novo crescimento das taxas de transmissão do coronavírus o que se viu, à direita e à esquerda, foram candidatos e candidatas provocando aglomerações pelas ruas das mais variadas cidades, ao mesmo tempo em que condenavam as aglomerações por outros motivos, em uma demonstração de “cuidado” com a saúde do rebanho. Afinal, o que dizem e repetem os súditos é que votar é um direito do cidadão.

Sobre voto e revolta, em “Escuta, eleitor”, o anarquista Sébastien Faure, há quase um século, afirmou: “O Estado é o guardião das fortunas adquiridas; é o defensor dos privilégios usurpados (…) é o que do alto põe um punhado de milionários ao abrigo dos assaltos que lhe lança a torrente agitada dos espoliados. Assim é natural, lógico e fatal que os detentores dos privilégios e da fortuna votem com entusiasmo”. O que Faure e os anarquistas não compreendem é como pobres, miseráveis, pessoas acossadas sistematicamente pelo Estado, votem e aceitem a política que perpetua as violências das quais são alvos.

O trecho de Faure é instigante. O voto é a continuidade dos privilégios, mesmo quando sua bandeira seja precisamente a oposta. A revolta é a possibilidade corajosa de inventar outra vida.

Fonte: Hypomnemata 240 – N° 240, novembro de 2020. Boletim eletrônico mensal do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/12/os-anarquistas-e-as-eleicoes/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/06/a-coordenacao-anarquista-brasileira-frente-as-eleicoes-de-2020/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/04/live-anarquistas-e-as-eleicoes-municipais-de-2020/

agência de notícias anarquistas-ana

Ao longo da estrada:
“A próxima descida trará
Mais quaresmeiras em flor!” 

Paulo Franchetti

[Chile] Comunicado da “Coordinadora 18 de Octubre” ante a Anistia

Levamos já várias semanas discutindo junto a presos e ex-presos políticos, agrupações de seus familiares e organizações anti-carcerárias do todo o país sobre o que significa a saída de nossos companheiros que hoje encontram-se privados de liberdade por lutar. Desde aqui, definimos nosso apoio a iniciativa de anistia como saída, dentro do marco legal burguês, para a liberdade de nossos companheiros, pelo que, declaramos o seguinte:

1. Hoje temos que ser conscientes do que significa que desde distintos setores do poder estejam considerando buscar uma saída à demanda popular da rua pela liberdade a presos políticos, isto não pela sua boa vontade ou suas boas intenções, mas que foi instalado na sua agenda pela relevância dada desde as ruas com as massivas mobilizações e pressões que têm existido nesse último tempo.

2. Consideramos fundamental uma saída política diante da prática sistemática da prisão preventiva contra nós que lutamos por uma vida digna fora dos interesses empresariais. É nosso dever lutar pelas vias pelas quais possamos conseguir a tão aguardada liberdade para nossos companheiros, e é nesse caminho no que definimos nosso fazer e ações a tomar.

3. A anistia é uma figura legal que corresponde a um período de tempo demarcado e que tem relação com o reconhecimento de que houve um contexto excepcional onde desenvolveram-se os acontecimentos, pelo que é apagada a existência do delito. Essa iniciativa já tem um esboço de projeto de lei, onde são considerados os delitos pelos quais hoje são perseguidos nossos companheiros, no entanto, ainda resta o tempo desde o qual deveria reger a anistia. Consideramos que deveria ser contado do 06 de outubro de 2019, data em que iniciaram-se as evasões do metrô, até a data em que seja promulgada a lei.

4. Certos setores da esquerda parlamentar tem decidido mudar seus esforços em direção ao “perdão”, o que beneficiaria apenas a aqueles que já tenham sido considerados culpados dos delitos (22 companheiros), deixando fora aqueles que têm meses em prisão preventiva. Por conseguinte, mais que uma solução real, isto seria apenas uma medida simbólica “beneficiando” só uma minoria de todos os nossos companheiros presos da revolta. Além disso, devemos considerar que o indulto, ao eliminar a condenação e não o delito, estragaria os antecedentes criminais de nossos companheiros, ao contrário da anistia.

5. Isto não é um intercâmbio de prisioneiros. Não é de sua parte um “perdão especial” para ambas as partes, não pensemos que é “necessário” dar anistia também aos agentes do estado que possam ser imputados ou processados, porque não é. Apostamos pela dissolução das polícias, todas as polícias são assassinas, lutamos pela Liberdade de todos os nossos companheiros e nossas companheiras encarceradas, e pelo fim da sociedade carcerária.

6. Mesmo assim, esse projeto não vai abranger a totalidade dos presos políticos, por isso acreditamos necessário que a mobilização se espalhe também a apostar por revogar o decreto 321, para que desse jeito os prisioneiros políticos de longa condenação possam optar pelo benefício da liberdade condicional na metade da sua sentença, como também pelo cumprimento do convênio 169 da OIT, o qual permite que para todos os presos dos povos originários tenham-se preferência por outros tipos de sanções (como por exemplo Centros de Estudos e Trabalho), além que se considerem as suas características econômicas, sociais e culturais.

7. Não pretendemos negociar nossas exigências com o poder, definimos que a rua é nosso espaço onde fica claro que não temos nada a trocar com eles. Dissemos, tal como nossos companheiros reclusos na prisão Santiago 1, que aqui o papel da casta política é exclusivamente administrativo, pelo que eles tem que responder diante da pressão popular que luta pela liberdade dos e das presas políticas. Não vamos aceitar nem negociações, nem pactos, nem acordos, e nem muito menos sua pretensão de fazer ver como um favor que eles estão fazendo ao povo ao votar por essa iniciativa que já sabemos é incômoda para eles.

8. Continuaremos lutando pela liberdade de todos os presos políticos, desconfiando e denunciando os oportunistas, e tendo claro que a anistia é uma saída possível e real para que nossos companheiros voltem às ruas junto conosco para seguir lutando.

Liberdade para todos os presos políticos.

Anistia sem condições!

Revogação do decreto 321 e cumprimento do convênio 169 da OIT.

Coordinadora 18 de Octubre por la libertad de lxs presxs políticxs.

Fonte: https://coordinadora18deoctubre.wordpress.com/2020/12/01/comunicado-coordinadora-18-de-octubre-ante-la-amnistia/

agência de notícias anarquistas-ana

Parou de chover:
No ar lavado, as árvores
Parecem mais verdes.

Paulo Franchetti

[Bielorrússia] “Eles ameaçaram me estuprar, disseram que me levariam para a Gestapo ou para a floresta”

História de Nikolai Dedok, entregue à Radio Svaboda.

Em 12 de novembro, o Ministério de Assuntos Internos informou a prisão do blogueiro anarquista Nikolai Dedok. Em seguida, o serviço de imprensa do departamento afirmou que o detido “coopera ativamente com as autoridades investigadoras e dá confissões”. Ao mesmo tempo, oficialmente publicado juntamente com o comunicado de imprensa da polícia, é claro que Dedok foi espancado severamente. Agora ele é acusado de organizar ações que violam gravemente a ordem pública (artigo 342 do Código Penal). “Mediazona” soube dos detalhes da detenção do anarquista da pessoa com quem Dedok conseguiu falar no centro de detenção na rua Akrestsina.

A fonte, que desejou manter o anonimato por razões de segurança, disse a “Mediazona” que, de acordo com Nikolai Dedok, as forças de segurança foram ao seu apartamento alugado na cidade de Sosnovy por volta das 23h do dia 11 de novembro. “Eles quebraram a janela e sete pessoas de um esquadrão especial da polícia e homens da OMON (polícia de choque) invadiram”, relembra a fonte da história do anarquista.

“No começo eles começaram a bater [nele] para conseguir uma senha para entrar no sistema de seu laptop etc, depois começaram a sufocá-lo com um travesseiro. Quando [ele] começou a sufocar, ele deu a senha. Aí [ele] foi espancado por muito tempo até se lembrar da senha da rede social Telegram”, diz a fonte.

Em seguida, Dedok ficou deitado no chão por algum tempo – os policiais não o deixaram levantar a cabeça, mas o blogueiro lembrou que eles estavam andando pelo apartamento. Logo eles trouxeram testemunhas e revistaram o apartamento. “[Ele] foi imediatamente instruído a não dizer uma palavra na frente das testemunhas”, relata o interlocutor do “Mediazona”.

“Durante a busca, três garrafas foram retiradas do nicho com as ferramentas que [não estavam no apartamento] e cheiravam a gasolina muito forte. Mas as garrafas estavam embrulhadas em uma toalha, que ele usou na cozinha”, lembra Dedok falando com a fonte. Mais tarde, a mídia da bielorrussa disse que os coquetéis molotov foram encontrados no apartamento de Nikolai.

A advogada Natalia Matskevich contou que Nikolai Dedok foi espancado durante sua prisão. A advogada de defesa solicitou um exame médico forense.

“Posso dizer que tive vários clientes que fugiram da Chechênia depois de serem torturados e detidos na Bielorrússia para expulsão. Mas nunca pensei que ouviria tais histórias acontecendo em nosso país”, disse Matskevich, sem especificar os detalhes da prisão de seu cliente.

Após a busca, os policiais disseram a Nikolai Dedok que agora gravariam o vídeo. Eles o empurraram para uma despensa e colocaram gás lacrimogêneo nela. “Então eles o levaram para fora e jogaram gás pimenta em seu rosto, bem em seus olhos. Disseram que se ele não falasse no vídeo, não o deixariam lavar o rosto. Eles o colocaram em casa, e até que o vídeo fosse filmado, eles não o deixariam lavar o rosto”, conta a fonte de “Mediazona” sobre as palavras do anarquista.

No registro distribuído pelo serviço de imprensa do Ministério de Assuntos Internos, os olhos de Dedok estão visivelmente lacrimejados. Fonte: Spring96.org

“O tempo todo eles ameaçaram estuprá-lo, urinar nele e disseram que o levariam para a Gestapo ou para a floresta”, continua a fonte.

Por volta de 1h30, Dedok foi colocado em um micro ônibus e levado para Minsk, para a sede da GUBOPiK (Diretoria Principal de Combate ao Crime Organizado e à Corrupção). O blogueiro disse à fonte do “Mediazona” que foi colocado de cara no chão lá e passou quatro horas nesta posição.

“[Ele] foi obrigado a fornecer uma senha do VeraCrypt, de seu disco rígido, e foi obrigado a dizer quem eram os administradores do canal, especialmente anarquistas como “Pramen” e “ABC-Belarus” (cruz negra anarquista). Quando ele ficava em silêncio, batiam-lhe nas costas e nas pernas com cassetetes”,  diz a fonte da história da Dedok.

Ele foi ameaçado de estupro com um cassetete, espancado nas mãos e nos calcanhares com uma arma de choque; quando ele ergueu a cabeça, eles pisaram nela – isso continuou até as 5 da manhã.

“Eles pegaram garrafas que supostamente encontraram no apartamento, enfiaram gargalos em sua boca, fizeram ele cuspir nelas e depois as esfregaram. Eles o fizeram assinar alguns papéis”, disse Dedok ao interlocutor de “Mediazona”.

Depois os policiais exigiram que o anarquista preso voltasse a falar diante das câmeras o texto que haviam escrito – “disseram que se ele disser algo errado, vão espancá-lo. Se ele disser mais alguma coisa sobre os policiais ou sobre alguém do GUBOPiK (Diretoria Geral de Combate ao Crime Organizado e à Corrupção), eles o levariam para o centro de detenção e o espancariam de novo, e com ainda mais força.

Segundo a fonte, Dedok não sabe quem zombou dele – os participantes da busca e prisão não se apresentaram e usavam máscaras. Eles “prometeram” que o anarquista receberia “sete ou nove anos”, e se ele disser algo sobre “eles”, ele será colocado em uma “cabine” (o tipo especial de cela russa onde os prisioneiros podem estuprar um novo prisioneiro. Os guardas podem usar esta cela como castigo) e matá-lo ali”.

Dedok foi levado para o centro de detenção em Akrestsina em 12 de novembro por volta das 5 da manhã. Agora Nikolai Dedok está no centro de detenção preventiva nº 1.

25 de novembro de 2020

Fonte: https://abc-belarus.org/?p=13476&lang=en

Tradução > A. Padalecki

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/19/bielorrussia-contra-o-capitalismo-e-a-ditadura-pela-solidariedade-internacionalista/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/04/quatro-anarquistas-detidos-na-fronteira-da-bielorrussia-por-acoes-diretas/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/09/10/apoio-aos-anarquistas-e-antifascistas-da-bielorrussia/

agência de notícias anarquistas-ana

Frases compostas
no sol que passeia
sob minha caneta.

Jocelyne Villeneuve

[Itália] Os mitos recorrentes da esquerda reformista

Em 8 de novembro, a Tlon, uma pequena editora da esquerda reformista italiana com algum acompanhamento nas redes sociais, publicou um post no qual lança um ataque contra aqueles que, analisando criticamente as eleições americanas, não consideram a vitória dos democratas como um passo em direção ao magnífico destino da emancipação social.

Naquele post, preso a uma imagem do Smurf de quatro olhos, os responsáveis pela editora se vingaram do que acreditam ser o horrível “derrotismo esquerdista” que “(…) sempre que algo de bom acontece – vê o podre, o imperfeito e esquece tudo o mais. Não é complexidade, é inação. É uma falta de previsão, mas é também uma falta de escuta. É a atitude de uma elite que não pergunta como são realmente os Estados Unidos”.

Portanto, tomemos este post da editora Tlon, que causou uma certa comoção nos círculos das redes sociais de esquerda, como ponto de partida para algumas reflexões gerais.

Não é raro que aqueles que olham de forma crítica o anarquismo tentem ser desafiados por esquerdistas reformista com tais argumentos. Comecemos com algumas perguntas básicas: não somos apenas nós anarquistas que somos exigentes, os extremistas habituais que nunca estão satisfeitos, para criticar, por palavras e ações, o modelo de governo do Partido Democrata. Tem havido marés de pessoas tomando as ruas durante esses meses de incêndio em cidades governadas pelo Partido Democrata nos Estados Unidos. Havia aqueles que foram baleados com granadas de flash pela polícia federal de Obama durante os protestos de Standing Rock. Existe um sindicalismo revolucionário americano.

Naturalmente, parte desse movimento diverso chamado Black Lives Matter votou taticamente a favor do duo Biden-Harris, identificando Trump como um inimigo a ser removido de campo o mais rápido possível. No entanto, uma parte substancial ficou longe das pesquisas: algumas por escolha tática, outras por escolha estratégica, outras por rejeição instintiva. Quase ninguém o fazia para sentar-se em sua cadeira e fazer julgamentos. Esta consideração seria suficiente para tomar a suposta publicação inteligente da Tlon e arquivá-la sob o rótulo “bobagem”. Entretanto, não somos pessoas que se satisfazem facilmente e, como anunciado anteriormente, gostaríamos de fazer algumas observações mais gerais.

Por acaso Biden-Harris propôs a retirada das tropas americanas estacionadas na Europa? Não há provas. Então podemos imaginar que eles continuarão aqui, assim como as grandes bases aéreas no norte da Itália, um alvo privilegiado para uma bela ogiva atômica no caso de um grande conflito, assim como aquelas grandes áreas da Sardenha transformadas em polígonos militares em benefício da OTAN (este ainda seria o caso mesmo sem os EUA e a OTAN: o glorioso exército italiano é suficiente e é capaz de causar danos ambientais). No máximo, haverá uma redução de certas presenças militares em favor do teatro oriental: nada que a administração Trump não estivesse fazendo, mas nada incisivo e, em qualquer caso, trata-se de mover presenças militares, não eliminando-as.

Mas voltemos para os Estados Unidos. Kamala Harris, personagem por quem grande parte da esquerda reformista, da Tlon a Il Manifesto, entrou em êxtase, tem uma série de eventos passados que vale a pena mencionar:

– ela votou para cortar o financiamento para o acesso ao aborto; [1]

– pouco ou nada fez contra o negócio prisional privado na Califórnia, onde exerceu a advocacia e foi Promotora Geral; [2]

– queria firmemente uma lei que permitisse a prisão de pais de crianças ausentes “sem desculpa válida” em mais de dez por cento dos dias escolares: [3] uma lei que discrimina as famílias monoparentais e de classe inferior. Este é um exemplo perfeito do processo de “criminalização da sociedade” que estados como a Califórnia foram forçados a passar;

– se opôs à abolição da lei das três greves; [4]

– pessoalmente esteve empenhada em fazer cumprir rigorosamente a “Guerra às Drogas”, atacando duramente a comunidade afro-americana; [5]

– garantiu que os presos transgêneros permanecessem ou acabassem em prisões masculinas;

– suas ações como promotora pública, marcadas por eventos menores e com poucas implicações, como tentar executar um homem inocente, chegaram a atrair a ira de um editorial do New York Times, um jornal que não se opõe inteiramente à arena política à qual Harris pertence;

– ela também era a favor de todas as intervenções militares possíveis.

Em resumo, vocês não precisam nem mesmo ser revolucionários anti-eleitorais para perceber que Kamala Harris é um representante daquele sistema de opressão estrutural pelo qual milhões de vidas humanas são destruídas. De fato: mesmo sem ser grandes críticos do Estado e do Capital, pode-se dizer, com toda honestidade e sem medo, que não há argumentos para nos provar que estamos errados e que Kamala Harris está humanamente enojada com o que está evidentemente errado nos EUA.

Agora, pode-se perguntar se toda a área política que entrou no coro de elogios a futura vice-presidente dos Estados Unidos está ciente de todas estas questões. Nossa hipótese é que eles não estão completamente cientes deles, mas que, mesmo que soubessem sobre eles, eles os tirariam de sua consciência. Eles poderiam ter sido tão comovidos por Kamala Harris quanto foi há doze anos por Obama. Amanhã eles estarão entusiasmados com a premier de algum outro país. Eles terão amores mais ou menos duradouros: Justin Trudeau ou Jacinda Ardern. A consciência deles será firme, forte e clara.

Enquanto isso, os habitantes dos guetos americanos continuarão a acabar nas prisões por crimes deliberadamente inventados, iraquianos, afegãos ou quem quer que continue a ser bombardeado, os explorados continuarão a ser explorados e os exploradores continuarão a explorar. Mas o comitê executivo da classe dominante terá uma mulher negra como vice-chefe, e as boas emoções triunfarão. Em resumo, nada de novo sob o sol.

Lorcon

Notas:

[1] https://www.politico.com/newsletters/playbook/2019/06/06/guess-who-else-voted-against-federal-funding-for-abortion-443667

[2] https://www.mercurynews.com/2013/08/29/mercury-news-editorial-kamala-harris-needs-to-tackle-prison-standoff/

[3] https://www.huffpost.com/entry/kamala-harris-truancy-arrests-2020-progressive-prosecutor_n_5c995789e4b0f7bfa1b57d2e?guccounter=1

[4] https://www.thenation.com/article/archive/reforming-three-strikes/tnamp/

[5] https://afropunk.com/2019/01/kamala-harris-has-been-tough-on-black-people-not-crime/

[6] https://www.washingtonblade.com/2015/05/05/harris-renews-effort-to-block-gender-reassignment-for-trans-inmate/

[7] https://www.nytimes.com/2019/01/17/opinion/kamala-harris-criminal-justice.html

Fonte: https://umanitanova.org/?p=13160

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Bolha de sabão.
Uma explosão colorida
sem nenhum estrondo.

Maria Reginato Labruciano

[São Carlos-SP] 15° Vivências anarquistas e inauguração da Biblioteca Anarquista Armando Gomes

Um sujeito só é revolucionário quando há revoluções o resto do tempo apenas resiste ou provoca” (Jesus Sepúlveda)

No dia 20 de novembro de 2020 aconteceu na cidade de São Carlos (SP) o 15° Vivências Anarquistas coordenado pela companheira H.B.. Agradecemos todas as pessoas que colaboraram e participaram e dispuseram suas liberdades para que o evento acontecesse. Trazemos como forma de agradecimento e ampliação dos contatos um breve relato.

A abertura do evento foi feita com a leitura de carta em homenagem à memória de João Alberto Silveira Freitas assassinado por policiais em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre (RS).

O grupo de teatro Essencial Sanca-Brotas apresentou o Manifesto dramático 2020.

Em seguida e em homenagem aos 5 anos das ocupações das escolas secundaristas aconteceu uma roda de conversas feita por estudantes que construíram a resistência na cidade em 2015 e 2016. Relatos poderosos colocaram em discussões temas importantes: sexismo, machismo, capacitismo, relações de opressão e poder interna e externa, entrismo, cooptação de pautas e ações, denunciantes, apoio mútuo, ação direta, consenso, assembleísmo, violência e terror estatal, linhas de apoio, zonas autônomas a defender, solidariedade anarquista, o que é ser anarquista, o que é uma ocupação anarquista, desmontagem e reorganização para continuidade da luta. A conversa encaminhou a possibilidade de publicação de um livro contendo memórias destas ocupas que deverá ser realizado pelas próprias alunas anarquistas. Concluíram com a certeza de que as Ocupas Secundaristas foram uma Vitória enorme colocando novas resistências e a permanente centelha provocadora de que 2015 ainda não acabou.

O evento se encerrou com a inauguração da Biblioteca Anarquista Armando Gomes. A ação direta foi efetivada através de coleta autônoma de livros realizada pelas anarquistas e contou com a enorme e generosa parceria das amizades da Editora Monstro dos Mares que irá integrar a Biblioteca Armando Gomes nas suas remessas mensais de livros da editora. A biblioteca estará na Apeosp (onde ocorreu o evento).

Contamos ainda com o apoio das importantes companheiras do Fagulha Podcast (divulgação do canal e em especial do episódio sobre Anarquismos Negros) e do poeta Cassio Aquino (distribuição de Zines do autor). Também teve distribuições de zines das companheiras da Facção Fictícia; zines e cartazes do Coletivo CrimethInc e livros do antropólogo e anarquista David Graeber editados pela Monstro dos Mares em homenagem à sua memória.

Desejamos que esta semente se espalhe nas fissuras dos ressentimentos.

Anarquia, livros e ocupas!

Ninguém sozinho contra o Estado!

agência de notícias anarquistas-ana

A ponte é um pássaro
de certeiro vôo: sua sombra
perdura na lembrança.

Thiago de Mello

 

[Espanha] Vida ou sobrevivência

Desde a primavera de 2020, quando fomos confinados/as em casa a maioria da população exceto as pessoas que trabalhavam nos serviços básicos, tinha na cabeça dançando o lema no qual tanto insistiu a esquerda, incluído o âmbito libertário e anarquista: há que confinar-se para defender a vida. Havia algo que não me encaixava nesse lema aparentemente inquestionável em um momento de pânico como o dos meses de março a maio de 2020 na Espanha.

No entanto, o confinamento significava para muitas pessoas ficar sem trabalho (especialmente quando se tratava de trabalhos informais precários e sem contrato), às vezes sem moradia (os desalojos por não pagamento de aluguel não se detiveram nem até a data de hoje) ou em moradias pequenas e compartilhadas (não falo só de imigrantes mas da população autóctone que recebe salários abaixo de 800 € e que tem que compartilhar moradia), com graves déficites de alimentação e de saúde, etc.

Este pensamento me levou a uma rua sem saída e ademais cheio de incorreção política: Os que construíram esse lema tinham assegurado um salário, uma moradia digna, cobertas as necessidades de alimentação e saúde, tele trabalhavam em casa com comodidade?

Os que vivem na precariedade e na vulnerabilidade são setores da população aos quais o neoliberalismo considera descartáveis. Para esses setores ficar em casa confinados não era a vida, quando muito era a sobrevivência em condições de negligência sistemática que provocam que seus bairros sejam os mais afetados pela pandemia, que tenham os maiores índices de positividade, quando em outros bairros baixam para 5%, que sejam os lugares onde seus anciãos/ãs morrem em maior número e tenham assim mesmo o maior número de infectados por cem mil habitantes.

Ainda que fiquem em casa confinadas, estas pessoas já foram escolhidas pela racionalidade do mercado para serem vidas que não serão apoiadas e não vão encontrar sustentação para sua saúde. Apesar de tudo, seus corpos podem sobreviver, mas a sobrevivência é só uma espécie de condição prévia sobre cuja base se deveriam conseguir os objetivos políticos mais amplos da vida. Não podemos confundir a vida com a sobrevivência e me parece que a esquerda o fez (a direita não se confunde, suas propostas neoliberais lhes marcam um caminho claro, livre e expedito).

Não há objetivo político que possa desvincular-se da criação de condições justas e equitativas na vida, entre as quais se encontraria o próprio exercício da liberdade, ao qual se renunciou porque se considerava que a vida, que na realidade era mera sobrevivência para a maioria, requeria renunciar à liberdade em benefício do controle e da vigilância que era imprescindível para lutar contra o Covid.

Estes raciocínios seguem dançando em minha cabeça seis ou sete meses depois de finalizada a primeira onda da pandemia. Estamos imersas na segunda onda com confinamentos perimetrais e fechamentos ou restrições diversas sem que os governos tenham sido capazes de centrar-se nos setores precários e vulneráveis para que possam enfrentar melhor a situação. E nestas circunstâncias ganham pleno sentido estas perguntas de Judith Butler:

“(…) se sobrevivemos é justamente para seguirmos vivos e separar desta maneira sobrevivência e vida? Ou antes se trata de que a sobrevivência deve ser algo mais que mera sobrevivência a fim de que se possa experimentar como vida? (…) Podemos então inferir de tudo isto que a demanda de sobrevivência está ligada à exigência de uma vida vivível” [1]

Mas, como entende J. Butler a vida? [2] A entende como algo interdependente, como uma espécie de “rede social de mãos”, algo que tem sempre o mesmo valor, e que impõe certos princípios éticos. Estar vivo é estar conectado com a vida em si mesma, com a que vai mais além da condição humana; ninguém pode viver sem esta conexão à vida biológica que excede o âmbito do animal humano. A vida, na realidade, são todas as condições em que habitamos o mundo.

A chave, com Covid ou sem Covid, é a necessidade de articular uma luta generalizada contra a precariedade (pessoas que correm o risco de perder seus empregos e suas moradias; indivíduos que sofrem a perseguição nas ruas, a criminalização, o encarceramento, a patologização de suas vidas; etc.). Exigir uma vida vivível, uma ordem social e política igualitária na qual possa dar-se uma interdependência entre as pessoas que seja assumível para a vida.

Não deixes escapar nunca uma ideia que fique um tempo dançando em vossa cabeça, cedo ou tarde encontrareis a forma de canalizá-la e dar-lhe forma para entender melhor aquilo que parecia inquestionável e natural.

Laura Vicente

[1] Judith Butler (2015/2017): Cuerpos aliados y lucha política. Hacia una teoría performativa de la asamblea. Barcelona, Paidos, p. 135. Este livro teve a qualidade de abrir um passo pelo qual canalizar meu pensamento flutuante, líquido, gasoso e descê-lo à terra para fixá-lo brevemente.

[2] É muito difícil ir citando de onde tiro uma ideia ou um conceito deste livro de J. Butler, Cuerpos aliados, assim que se alguém quer encontrar algumas destas ideias lhe recomendo que as busquem nas pp. 49, 72-74 e 136.

Fonte: http://pensarenelmargen.blogspot.com/2020/12/vida-o-supervivencia.html

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

Flores no jardim,
Jabuticabas no quintal!
Eis a primavera.

Mailde Tripoli

Nazismo no Brasil multiplica-se durante governo de Bolsonaro

Tomada de posse da nova governadora de Santa Catarina, aliada incondicional do presidente e filha de um adepto assumido de Hitler, acendeu o alerta. “Há um crescimento de 16% de movimentos desse tipo a cada trimestre”, revela a pesquisadora.

“O seu pai, como professor de História, pregava em sala de aula o negacionismo do Holocausto judeu, inclusivamente utilizando livros de uma editora que foi condenada por contar mentiras sobre a Segunda Guerra Mundial. Agora que a senhora é governadora de Santa Catarina, qual é a sua posição: corrobora essas ideias?” A pergunta é de um jornalista, na tomada de posse de Daniela Reinehr no dia 29 de outubro.

“Eu realmente não posso responder, ser julgada ou condenada por esse ou aquele pensamento. Eu respeito as pessoas, independentemente do seu pensamento, eu respeito os direitos individuais, e qualquer regime que vá contra o que eu acredite, eu repudio. Existe uma relação e uma convicção que me move a mim e a todos que se chama família. E cabe-me, como filha, manter a relação familiar em harmonia”, reagiu ela.

Uma pergunta direta de um jornalista e uma resposta cheia de curvas de uma governadora devolveram o tema do nazismo no Brasil, em especial no estado de Santa Catarina, ao noticiário.

Daniela Reinehr, incondicional de Jair Bolsonaro, acabara de substituir o governador Carlos Moisés, ex-aliado do presidente, afastado para responder a processo de impeachment. Moisés pertence ao PSL, partido com o qual Bolsonaro rompeu; Reinehr aguarda a formalização do Aliança Pelo Brasil, força criada em torno do presidente, para se alistar.

O terceiro protagonista desta história é o professor de José Altair Reinehr, o pai de Daniela, que publicou uma fotografia em frente à casa onde Adolf Hitler nasceu, em Braunau Am Inn, na Áustria, com uma legenda onde exaltava os 90% de apoio popular de que o ditador gozava, as rodovias construídas sob o seu consulado, a revitalização da indústria alemã, a criação de seis a sete milhões de empregos e a moralização dos serviços públicos.

Antes de Reinehr, outro professor do estado de Santa Catarina, Wandercy Pugliesi, foi notícia. Candidato nas municipais do próximo dia 15 a vereador na pequena cidade de Pomerode, é dono de uma propriedade em cuja piscina está pintada uma suástica gigantesca, conforme revelado em fotografia aérea.

A relação de Santa Catarina, estado colonizado por, entre outras comunidades, imigrantes alemães, com o nazismo existe ou não?

Para a antropóloga social da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Adriana Dias, que o estuda o nazismo no Brasil há 18 anos, “a ligação de Santa Catarina à Alemanha não pode ser considerada a única razão para essa relação”.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://www.dn.pt/mundo/nazismo-no-brasil-multiplica-se-durante-governo-de-bolsonaro-13006445.html

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/04/por-que-ha-tantos-grupos-neonazistas-em-santa-catarina/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2016/10/07/santa-catarina-sc-sala-da-ufsc-voltada-a-atividades-etnicas-e-pichada-com-mensagens-nazistas/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/03/15/o-caldeirao-da-internet-que-agita-fantasmas-do-nazismo-no-brasil/

agência de notícias anarquistas-ana

Boneca se aquece
com o meu chapéu de lã.
Eu visto saudades.

Teruko Oda

[Espanha] Mujeres Libres: “Até horizontes prenhes de luz”

Por Araceli Pulpilo | 18/11/2020

A criação da revista libertária ‘Mujeres Libres’ em 1936 supôs o impulso para o nascimento da Federación Nacional de Mujeres Libres, na qual a educação foi o pilar fundamental. Cerca de 28.000 mulheres fizeram parte da organização que teve 147 delegações.

«É bom esperar a revolução todos os dias; mas melhor ainda é ir em sua busca, forjando-a minuto a minuto nas inteligências e nos corações»

Lucía Sánchez Saornil

Na hora de fazer genealogias do feminismo no Estado espanhol é imprescindível nos aproximarmos do anarquismo e do anarcossindicalismo de finais do século XIX e princípios do XX, movimentos político-sindicais onde se abordou a questão feminina e muitos dos problemas que se referiam à emancipação social, econômica e sexual das mulheres. Desde manchetes como La Revista Blanca ou Estudios iniciaram debates de primeira ordem a propósito de temas tão díspares como a maternidade consciente, o controle da natalidade, a liberdade e a educação sexual, a destruição da família patriarcal e suas hierarquias, os direitos salariais ou o papel e natureza que as mulheres deviam ter na sociedade nova.

Duas tendências percorriam ditos debates. Por um lado, a corrente influenciada por Proudhon, que relegava o papel da mulher a simples “gestante e lactante”, considerando-a inferior ao homem. Por outro lado, e a mais generalizada na Espanha, a influenciada por Bakunin, que reivindicava a plena igualdade de direitos e deveres de mulheres e homens. De fato, no Congresso da CNT celebrado em Zaragoza em maio de 1936 se adotou este critério no conceito Confederal do Comunismo Libertário.

Tal e como assinala Mary Nash, “estas discussões, junto com a […] campanha em prol da educação sexual, deram lugar à progressiva tomada de consciência das mesmas mulheres que, assimilando os princípios anarquistas, os aplicaram a sua própria situação”. O que se traduziu em que, posteriormente, se organizassem numerosas agrupações de mulheres anarquistas em diversos povoados e cidades. Por mencionar algumas, em Casas Viejas em 1932 se criou a Agrupación Amor y Armonía, composta por María e Catalina Silva Cruz, sua prima Catalina, Manolita Lago, Francisca Ortega e Ana Cabezas, que através da leitura compartilhavam inquietudes e promoviam sua própria emancipação como trabalhadoras e como mulheres.

Um projeto mais ambicioso

Outra destas agrupações que se criou em princípios de 1935 foi a Agrupación Cultural Femenina de Barcelona, composta por um grupo de mulheres anarquistas da CNT que acreditavam necessário abordar a questão feminina dentro dos espaços libertários. Pilar Grangel, Áurea Cuadrado, Nicolasa Gutiérrez, Maruja Boadas, María Cerdán, Apolonia de Castro, Felisa de Castro e Conchita Liaño começaram a dar conferências às mulheres sobre a necessidade de assumir responsabilidades e serem mais ativas no espaço orgânico. Eram conscientes de que, apesar do número tão considerável de mulheres afiliadas à CNT e de sua combatividade nas greves dos setores nos quais trabalhavam, fazia falta mais participação. Criaram várias campanhas de distribuição de pasquins e convocaram um comício no teatro Olimpia que teve uma massiva afluência.

Enquanto isso, em 18 de setembro de 1935, o então secretário geral da Confederação Regional Catalã, Mariano R. Vázquez (Marianet), publicou em Solidaridad Obrera o artigo ‘La mujer, factor revolucionario’, no qual instava aos homens da CNT a tomar consciência da importância da incorporação de mais mulheres à organização e da necessidade de que lhes chegasse informação sobre o sindicato. Por sua parte, Lucía Sánchez Saornil, destacada militante anarcossindicalista, implicada na greve da telefônica de 1931 e secretária de redação do diário confederal CNT desde 1933, responderá a Marianet com uma série de cinco artigos intitulados ‘La cuestión femenina en nuestros medios’, nos quais interpelava aos homens a pôr em prática os valores anarquistas em seus próprios lares. Escreverá “propaganda nos sindicatos? Propaganda nos ateneus? Propaganda em casa! É a mais simples e a mais eficaz”, para continuar advertindo: “Vi muitos lares, não já de simples confederados, mas de anarquistas […] regidos pelas mais puras normas feudais. De que servirão, pois, os comícios, as conferências, os cursos, toda a gama de propaganda, se não são vossas companheiras, as mulheres de vossa casa as que irão a eles? A que mulheres se referis então?”. Após um cruzamento de textos, Marianet convidará Lucía Sánchez Saornil a escrever uma seção em Solidaridad Obrera sobre a questão feminina. Ela, no entanto, o tinha muito claro; acabará publicando um último artigo ‘Resumo a margem da questão feminina para o companheiro M.R. Vázquez’ no qual se vislumbrará um propósito muito maior: “Não recebo tua sugestão […] ainda que seja muito interessante, porque minhas ambições vão mais longe; tenho o projeto de criar um órgão independente, para servir exclusivamente aos fins que me propus”.

Assim, fruto da relação da anarcossindicalista com a advogada e pedagoga Mercedes Comaposada e com a doutora Amparo Poch e Gascón, nascerá em Madrid em maio de 1936 a revista Mujeres Libres, uma publicação periódica de cultura e documentação social, cujo propósito era o de “canalizar a ação social da mulher, dando-lhe uma visão nova das coisas”. O primeiro número estreará com textos, não só do Comitê de Redação, mas de militantes anarquistas da estatura de Emma Goldman ou Antonia Maymón.

Será meses mais tarde, após o estouro da guerra contra o fascismo, quando Mercedes Comaposada visite as companheiras de Barcelona para propor-lhes formar uma agrupação de Mujeres Libres como as que já haviam sido criadas em Madrid e em Guadalajara (esta última graças ao trabalho militante de Suceso Portales). Aspiravam a um projeto muito mais ambicioso ainda: a Federación Nacional de Mujeres Libres.

Até a Federação Nacional, até a emancipação total

Com a revista posta em marcha — a qual tinha uma ampla difusão e da qual chegaram a publicar 13 números — e a força enérgica de suas militantes, se propuseram criar uma organização autônoma feminina no seio do movimento libertário, objetivo que as diferenciava do resto de tendências políticas. Tal e como se lê em seu folheto “Cómo organizar una Agrupación Mujeres Libres”, aspiravam a:

1. Emancipar a mulher da tripla escravidão a que geralmente esteve e segue estando submetida: escravidão de ignorância, escravidão de mulher e escravidão de produtora;

2. Fazer de nossa organização uma força feminina consciente e responsável que atue como vanguarda da revolução e

3. Chegar a uma autêntica coincidência entre companheiros e companheiras; conviver, colaborar e não excluir-se; somar energias na obra comum.

A educação foi o pilar fundamental que puseram em marcha para conseguir seus objetivos. Como anarquistas sabiam que através desta se podia capacitar e instruir as mulheres obreiras para romper com suas três escravidões. Em Madrid e Valência criaram os Institutos de Mujeres Libres e em Barcelona o Casal da Dona Treballadora, onde se ministravam aulas gratuitas de diversas matérias como alfabetização básica e cultura geral, história, literatura, matemáticas ou aritmética, e ensinos superiores como contabilidade ou anatomia. Também ministravam formação profissional para que as mulheres optassem por um trabalho que lhes outorgasse receitas e através do qual contribuir na guerra e na revolução; dai as escolas de transporte, eletricidade, redação, enfermagem ou mecanografia. Na zona antifascista também puseram em marcha programas educativos, assim como bibliotecas. E claro, recebiam uma ampla educação sindical.

Através da maternidade consciente e o neomaltusianismo, cujo objetivo era reduzir o número de nascimentos, buscavam uma melhora na qualidade de vida das famílias obreiras. Puseram em marcha programas educativos para que as mães estivessem informadas sobre seus corpos e sua sexualidade, transmitindo também uma informação sanitária básica. Outro dos projetos furam os Liberatórios de Prostituição, que partiam da análise de que eram as mulheres sem recursos e sem capacitação as que se viam forçadas a exercê-la. Sabendo que estas mulheres eram vulneráveis, lhes deram a oportunidade de instruir-se para exercer outros trabalhos, oferecendo-lhes apoio e acompanhamento. Portanto, a sociedade nova devia abolir, também, esta prática.

Conchita Liaño assinala que Mujeres Libres conseguiu agrupar os esforços dos grupos de mulheres isolados que lutavam pelo mesmo ideal em todas as regiões da Espanha. Assim, com um tecido cada vez maior, criaram-se agrupações locais, provinciais e regionais, replicando a estrutura confederal da CNT. Em cada uma se contava com Seção Administrativa do Comitê, formada por uma Secretária, Vice-secretária, Contadora e Tesoureira; Seção de Assistência Social; Seção de Assistência ao Combatente; Seção de Trabalho; Seção de Cultura; e Seção de Propaganda. Cerca de 28.000 mulheres fizeram parte da organização.

Em agosto de 1937 aconteceu em Valência a celebração de seu primeiro Congresso Nacional. Nele se assentaram as bases da organização. Se implantaram, ao menos, 147 delegações distribuídas por toda a zona antifascista: Região Centro Madrid, Guadalajara, Ciudad Libre (nome que adotou a Cuidad Real na guerra), Catalunha, Levante, Aragão, e algumas cidades de Andaluzia. Também criaram-se delegações no estrangeiro, como em Portugal, França, Polônia, Argentina ou Inglaterra, pretendendo conseguir uma organização peninsular e internacional.

Há que ter em conta que sua atividade foi variando dependendo dos momentos que viveram. De fato, após o Congresso mencionado decidiram atuar em duas direções: seguir com a formação revolucionária da mulher e contribuir decididamente para o esforço de guerra. Deste segundo acordo surge a estreita colaboração que Mujeres Libres teve com Solidariedade Internacional Antifascista (S.I.A.), organização de ajuda humanitária pertencente ao movimento libertário.

Arregaçar as mangas e fazer a história

Em 2018 inaugurou-se a exposição ‘Mujeres Libres: precursoras de um mundo novo’, com a curadoria de Sonia Lojo, na qual através de 16 painéis nos aproximamos dos antecedentes, origens, finalidades e práticas desta organização. Um acertado trabalho de investigação e divulgação que se aproxima ao que fazer cotidiano do conjunto da federação. No entanto, é preciso fazer trabalhos locais que resgatem a memória esquecida de muitos de nossos povoados e bairros.

Um destes trabalhos de recuperação é sem dúvida o realizado por Aurore E. Van Echelpoel e Francisco J. Cuevas, que publicaram o livro Mujeres libertarias en Jerez. El Sindicato de Emancipación Femenina (Calumnia Edicions, 2020). Graças a fotografia que aparece no número 2 de Mujeres Libres, seguem a pista das 1500 mulheres que se organizaram em um sindicato exclusivamente feminino e no qual estavam representadas obreiras da agulha, moças do serviço, empregadas do comércio ou de fábricas de selos, entre outros setores. María Luisa Cobo Peña terá muito que ver neste marco. Afiliada à CNT, desde 1931 foi uma militante ativa na localidade, chegando a pronunciar numerosos comícios, participando em greves e mobilizações, ou fazendo parte da luta dos inquilinos contra os desalojos por não pagamento de aluguéis. Durante a guerra participará na Agrupação Mujeres Libres de forma ativa, chegando a corresponder-se com Lucía Sánchez.

Desde logo, fazendo eco das palavras de Nash, são as massas anônimas as que fazem a história. E ainda que esse anonimato seja impossível de revelar em muitas ocasiões, em outras só faz falta arregaçar as mangas para descobrir essas pequenas histórias que compõem a História. É importante que não caiam no esquecimento.

Horizontes prenhes de luz

Mujeres Libres acreditava em um mundo novo, na criação de uma sociedade que rompesse com toda hierarquia. Estavam convencidas de que, através da organização, da solidariedade, do apoio mútuo, da ação direta e do anarcossindicalismo, poderiam consegui-lo. Puseram todo seu empenho em aplicar o golpe final ao capitalismo em todas as suas manifestações. Contribuíram para isso antes da guerra e também nesta. Estiveram na frente e na retaguarda. Fizeram parte das coletividades agrárias e da coletivização das fábricas. Escreveram para gerar consciência frente a um novo porvir. Ademais sensibilizaram sobre sexualidade, amor livre, livre escolha das mulheres para serem quem quisessem ser. Ninguém põe em dúvida que sua contribuição para a revolução social foi indispensável.

Penso que muitos dos coletivos e organizações feministas que lutam cada dia, tanto a escala estatal como internacionalmente, contêm esses raios de luz que elas projetaram para o horizonte. Entender estas experiências do passado pode nos ajudar no presente. E como elas mesmas entoavam em seu hino:

Puño en alto mujeres del mundo
hacia horizontes preñados de luz
por rutas ardientes
los pies en la tierra
la frente en lo azul.

Seguimos.

Fonte: https://www.pikaramagazine.com/2020/11/mujeres-libres/

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

O grito do grilo
serra ao meio
a manhã.

Yeda Prates Bernis

[Espanha] O anarquismo cristão de Dorothy Day

Por Francisco Martínez Hoyos | 08/10/2020

A opressão das minorias, a luta pela paz… Essas eram as inquietudes do Catholic Worker, um jornal e um movimento social em torno do anarquismo cristão de Dorothy Day (1897-1980), uma ativista de esquerda que, após uma surpreendente conversão ao catolicismo, dedicou o resto de sua vida à luta em favor dos deserdados. Foi, em muitos sentidos, uma mística do século XX.

Viveu uma juventude turbulenta cheia de ativismo político. Se familiarizou então com o pensamento libertário de Kropotkin e ingressou nas fileiras do partido socialista. Preocupada mais em comprar livros que em adquirir alimentos, ganhou a vida em uma ocupação, o jornalismo, que a pôs em contato com o lado menos amável do sonho estadunidense: desemprego, desalojos, protestos sociais… Naqueles momentos, a esquerda e a religião lhe pareciam conceitos antagônicos. O mundo se dividia em ricos e pobres e a igreja era o lugar onde os primeiros recebiam louvores. Os segundos, enquanto isso, tinham que conformar-se com uns valores conformistas. A resignação se considerava uma virtude!

A jovem Dorothy pensava então que a religião equivalia a uma droga: servia para narcotizar o povo. Por quê, se pensava assim, acabou nas fileiras católicas? Na longa solidão, seu livro de memórias, conta que se sentiu atraída por uma minoria que sofria nos Estados Unidos uma profunda discriminação. Os anglo saxões não só censuravam sua fidelidade ao Papa, também desconfiavam daquelas massas de gente pobre de diversas nacionalidades: irlandeses, italianos, polacos…

Corriam tempos duros e os humildes se viam sacudidos pela crise mais terrível que havia vivido o capitalismo, a Grande Depressão. Sua única oportunidade de sobrevivência parecia ser a caridade dos poderosos.

Nos encontramos ante uma convertida, mas não frente a uma pessoa sem sentido crítico. A Igreja a escandaliza em numerosas ocasiões por sua aliança com os poderosos, por seu apoio às forças obscuras do imperialismo. Por quê, então, segue ela? Basicamente, porque a percebe como o instrumento que serve para tornar visível a Jesus Cristo no mundo. Isso significa, na prática, aceitar uma fé que viverá em um estado de insatisfação permanente a respeito das estruturas eclesiásticas.

Em 1933, junto a Peter Maurin, a quem considerava seu mestre, fundou o Catholic Worker (O Obreiro Católico), uma rede de casas de acolhida para os mais desfavorecidos e ao mesmo tempo um jornal mensal que em pouco tempo passou de 2.500 exemplares a 150.000. A palavra “worker” possuía, a primeira vista, uma clara conotação de esquerda, mas na realidade aludia em sentido amplo a todos os que exerciam um trabalho físico ou mental, ainda que também é certo que se pensava fundamentalmente nos despossuídos. Os pobres, desde a ótica dos fundadores, estavam mais próximos de Deus que os demais. O compromisso com os explorados, em muitos casos, procedia do sentimento de culpa de gente incomodada por desfrutar de privilégios como ter ido à escola ou dispor de recursos para sobreviver.

Corriam tempos duros e os humildes se viam sacudidos pela crise mais terrível que havia vivido o capitalismo, a Grande Depressão. Sua única oportunidade de sobrevivência parecia ser a caridade dos poderosos. Que fazer para que vissem respeitada sua dignidade? No Catholic Worker se acolhia todo mundo sem fazer perguntas. Sempre havia um prato de sopa e um café para quem o necessitava. As camas se distribuíam em função de quem chegasse primeiro. Maurin, em um comentário que constituía toda uma declaração de intenções, assegurava que não haviam criado uma organização mas um organismo.

Um grupo de voluntários se encarregava de atender aos deserdados. Como diria um deles, o escritor Michael Harrington, autor do clássicoThe Other America, não tinham dinheiro nem aceitavam retribuição. “Compartilhávamos as condições de vida das pessoas as quais ajudávamos: alcoólicos e doentes mentais”. A sua, portanto, era uma aposta pela pobreza voluntária, ainda que esta pobreza terminava por converter-se em real ao cabo de uns meses de levar esta vida, posto que de uma forma ou de outra perdiam suas posses. Desde o ponto de vista do resto do mundo, seu comportamento era próprio de loucos. De fato, nem sequer os que ali se refugiavam chegavam a compreender que alguém se preocupasse por sua sorte quando não tinham necessidade.

Em certo sentido, a mensagem de Dorothy Day é muito americana. Desconfia da burocracia do Estado e não quer contrair hipotecas enquanto se aproxima dos mais pobres de entre os pobres. A solidariedade não deve ser um monopólio do governo mas o fruto da ajuda mútua, da cooperação entre todos os que aspiram a um mundo mais justo. Mais que reivindicar um Estado providência, os deserdados devem aspirar a serem os donos dos meios de produção e aceitar as responsabilidades consequentes. A aposta, portanto, é dirigida a tornar visível a sociedade civil desde uma crítica radical aos postulados do capitalismo. O salário constituiria um instrumento a serviço de uma escravidão da qual nem sempre são conscientes os servos: vendem seu trabalho, que é tanto como dizer a si mesmos, e ainda se sentem felizes se o preço lhes parece mais ou menos razoável.

Fiel a uma mística baseada na entrega de si e o anonimato, Dorothy era garota para tudo. Escrevia artigos no jornal, claro, mas também ajudava a vendê-lo pelas ruas e colaborava nos albergues como mulher da limpeza e cozinheira. Tinha muito claro porque atuava assim, convencida de que não bastava com as ajudas materiais. Tinha que ir viver com os explorados, compartilhar suas penúrias, abandonar a tranquilidade do espírito e do corpo: “Aproximar-se do povo é o ato melhor e mais puro dentro da tradição cristã e revolucionária, e o ponto de partida da fraternidade universal”.

Fonte: https://www.diariodeleon.es/articulo/tribunas/anarquismo-cristiano-dorothy-day/202010081235402050936.html

Tradução > Sol de Abril

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/07/12/espanha-anarquismo-e-espiritualidade-uma-conta-pendente/

agência de notícias anarquistas-ana

Fiquei com pena
Com minha pena voei
Caiu poema

Umav

[Espanha] Algo desperta em Madrid. Crônica de um 20N antiautoritário

Em 20 de novembro, foi realizado uma concentração anarquista contra o fascismo em Tirso de Molina.

Depois que o comício foi cancelado às 20h, um grande número dos presentes saiu para fazer demonstrações. Um pequeno grupo de nazistas iludidos se aproximou para farejar, e eles tiveram que quebrar recordes de velocidade momentos depois, sua falta de solidariedade interna deixou uma vítima.

A marcha começou na área de Lavapiés, onde várias agências imobiliárias e caixas eletrônicos foram atacados. Depois chegou à La Latina, onde novamente bancos, casas de jogos e agências imobiliárias da região foram destruídas. Várias outras ruas foram seguidas, até que finalmente a marcha foi cancelada.

Durante todo o percurso, foram utilizados foguetes e pirotecnia e as ruas foram cortadas com cercas, contêineres e motocicletas alugadas (elementos gentrificantes que criam o imaginário da “cidade ecológica”) para proteger os participantes. Foi demonstrado que quando não há cordões, cidadãos e policiais que possam conter a raiva das pessoas, ainda pode haver protestos selvagens e combativos que são mais do que uma simples caminhada.

Acreditamos que o antifascismo deve ser uma verdadeira luta, longe do folclore e do autoritarismo.

Nenhuma luta avança com submissão e obediência, muito menos com partidos que, por interesses políticos, sustentam um sistema hierárquico que usa o fascismo e a democracia como dois lados da mesma moeda para manter a ordem estabelecida.

Posteriormente, 10 pessoas foram presas querendo ligá-las à devastação, e atualmente estão livres de acusações. Daqui queremos enviar-lhes todo o nosso apoio e nos posicionamos, agora e sempre, contra a repressão do Estado.

Madrid 2020.

Solidariedade com os presos!

Nem fascismo nem democracia!

Que a raiva se espalhe!

Fonte: https://contramadriz.espivblogs.net/2020/11/24/algo-despierta-en-madrid-cronica-de-un-20n-antiautoritario/

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/20/espanha-madrid-concentracao-por-um-20n-antifascista-e-antiautoritario/

agência de notícias anarquistas-ana

Um ventilador
espalha o calor
e as notas da sinfonia

Winston

Chamada da Grécia: 6 de dezembro. Inverno

O grupo anarquista Obsidian fez uma chamada para o dia 6 de dezembro, dia em homenagem a Alexis Grigoropoulos.

A Chamada:

A desobediência não conhece “hora de agir”, ela vive nos momentos em que os indivíduos buscam uma maior liberdade. Uma liberdade definida pela luta para ganhar tempo e espaço para além das restrições sociais. Ela é uma reação à ordem atual, contra a sociedade passiva e pela promoção de nossos desejos individuais. Nada mais nada menos. Atualmente, muito pouco se fala sobre desobediência.

A desobediência é sempre pessoal e frequentemente espontânea, mesmo se realizada coletivamente. A desobediência é em seu cerne uma ação anarquista existindo para atacar, nunca apoiar a ordem atual. Esperaríamos que a desobediência e sua celebração aumentassem com a supressão do indivíduo e, neste momento, foi o que aconteceu.

O que dizer dessa supressão sem precedentes? Em um frenesi, os adeptos da sociedade e seus senhores recorrem ao autoritarismo distópico apoiado por leais soldados nacionais reacionários, a polícia. Eles chamam isso de progresso!

No curso da história humana, o progresso é uma história de falsos começos, becos sem saída e ideias que já viveram seu propósito. Na pior das hipóteses, o progresso é um curso que leva a humanidade à extinção.

O surgimento da Revolução Industrial nasceu da guerra contra o tempo livre e o espaço aberto, o capitalismo. Em sua essência, a situação prevalecente sempre foi anti-humana, mantida à tona por ganhos rápidos e agora decrescentes.

Com esses ganhos perdidos, a raça humana fica com o desastre. Não queremos nos concentrar em tangentes de futuros concebíveis. Temos plena consciência do momento significativo em que nos encontramos. Com isso dito, consideremos que o capitalismo sempre esteve fadado a se transformar na mesma guerra em que começou. Guerra essa que nossa desobediência se coloca como uma batalha por nosso tempo e espaço para vivermos livres.

Em tempos de extremo autoritarismo, a desobediência tem valor infinito à medida que sua capacidade de promover nosso desejo se expande. Desejamos desobediência.

Por liberdade, humanidade e um desejo insidioso de acabar com a ordem atual.

Que a cada ato de repressão que nos inflija floresça uma resistência cruel e infinita.

Esperando um inverno de anarquia.

Obsidian, 27 de novembro de 2020

Fonte: https://www.amwenglish.com/articles/call-december-6-winter-from-greece/

Tradução > A. Padalecki

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/12/07/grecia-manifesto-pelos-onze-anos-da-morte-de-alexis-grigoropoulos-reune-milhares-de-pessoas-em-atenas/

agência de notícias anarquistas-ana

os raios de sol
iluminam de manhã
o velho farol

Carlos Seabra

Memória | Teatro Operário e Anarquismo

Por Marcolino Jeremias | 03/12/2020

O Grupo Dramático Cultura Social, foi um grupo de teatro social anarquista que atuou bastante no Rio de Janeiro, especialmente entre 1913 e 1914.

Muitas das peças eram escritas pelos próprios operários do grupo, que estreou sua primeira performance em dezembro de 1913. Segundo suas próprias definições eles se organizavam obedecendo o livre acordo entre os indivíduos do grupo.

Realizaram festivais beneficentes ao Centro de Estudos Sociais, à Confederação Operária Brasileira e ao periódico ‘A Voz do Trabalhador’. Faziam parte do Grupo Dramático Cultura Social: José Alves, Paschoal Gravina, Zenon de Almeida, Jose Wisman, Juana Rouco Buela, Antonio Moreira, Leal Junior, Demetrio Minhana, José Minhana (menino), Plutarco Filinto, Gonçalves de Oliveira, Albino Fernandes, Luiz Sanz, Antonio Castro, Luiz Arthur Mas, Manoel Medina, Santiago Vazquez, Frutuoso Alsó, Lucia Alsó, Marietta Alsó, Manoel Alves, Santos Barbosa, Arthur Guimarães, Aquilino Lopes, Antonio Currito, Heitor Duarte Luiz, entre outros…

O padeiro anarquista, Lino Garrido, ao convidar a população para as peças teatrais do grupo, assim se expressava: “Lembrai-vos que o teatro é uma escola onde muito se aprende, e para se poder bem viver é necessário aprender, principalmente nesta época, em que o ignorante é torpemente explorado, e não procura os seus camaradas que se colocaram atrás de uma forte muralha que é o sindicato“.

agência de notícias anarquistas-ana

Entre pernas guardas:
casa de água
e uma rajada de pássaros.

Olga Savary

[Cuba] Solidariedade para o Movimento San Isidro

No final de novembro de 2018, os ativistas do Movimento Artístico de San Isidro se reuniram pela primeira vez para se manifestar nas ruas de Havana e em frente ao Ministério da Cultura, com o objetivo de obter a revogação do projeto de decreto-lei 349 que visava restringir a criatividade de qualquer atividade artística na ilha. Desde o início do movimento, nossos camaradas do Taller Libertario Alfredo López de La Habana participaram dessas mobilizações.

A maioria dos ativistas da campanha contra o Decreto 349 é originária de Havana e muitos deles vivem no bairro do Alamar. Um bairro que foi palco de um importante movimento de arte alternativa e lar do mais importante festival de hip-hop e poesia da ilha, até ser interrompido e finalmente cancelado pelo Ministério da Cultura.

Os ativistas deste movimento adotaram o nome de San Isidro devido ao apoio dos habitantes deste bairro de mesmo nome, localizado na parte mais antiga de Havana, porque os moradores do bairro se rebelaram contra as forças da lei e da ordem durante um concerto musical organizado para protestar contra o Decreto Lei 349.

Para os artistas unidos contra o Decreto Lei 349, ficou claro que o governo cubano não queria a existência de arte independente do Estado. Demonstramos isso com a supressão dos festivais de hip-hop e poesia já mencionados, mas acima de tudo a Bienal de Havana e o Festival de Cinema Jovem. O Decreto 349 foi a resposta oficial a estes tipos de eventos e para os artistas uma declaração de guerra. O governo não esperava tal rejeição popular como resposta; mas, apesar da manifestação pacífica da arte diante da instituição mais importante da cultura, o decreto entrou em vigor em 7 de dezembro de 2019.

Assédio, ameaças e prisões seguiram durante toda a campanha, não apenas após a convocação para o Ministério da Cultura. Por exemplo, o Movimento San Isidro tentou realizar uma meditação coletiva em um parque público, mas todos os artistas que participaram do encontro foram cercados pela polícia. Vários foram presos por horas. Para o governo cubano, a dissidência não é reconhecida como um direito, portanto, qualquer pessoa que protesta contra um projeto oficial é considerada criminosa e é classificada como um caso de CR (contra-revolucionário). Este estigma continua para o resto da vida.

O pouco tempo em que foram presos mostrou que as repercussões internacionais haviam sido significativas e que o governo estava preocupado com as implicações da repressão. A resposta oficial foi dada através de um programa de televisão no qual as autoridades justificaram a necessidade de aplicar o Decreto 349. No entanto, foi dito que sua entrada em vigor não ocorreria imediatamente e que o regulamento precisava ser revisto e discutido. Para o movimento, isto representou uma vitória. Mas esperar que o governo cubano reconheça publicamente um erro é utópico, porque há muita arrogância de sua parte, por medo de perder o controle absoluto sobre a população.

Uma greve de fome e suas consequências

Entre 9 e 19 de novembro, as autoridades novamente prenderam e assediaram arbitrariamente um grande número de membros do movimento San Isidro, muitas vezes em várias ocasiões. Membros do movimento, que inclui artistas, poetas, ativistas LGBTI, acadêmicos e jornalistas independentes, têm protestado nos últimos dias contra a prisão do rapper Denis Solis Gonzalez. Denis Solis foi preso em 9 de novembro e em 11 de novembro foi julgado e condenado a oito meses de prisão por “desprezo”, um crime incompatível com as leis internacionais de direitos humanos. Ele está sendo mantido em Valle Grande, uma prisão de alta segurança na periferia de Havana.

Após uma semana de greve da fome e de sede dos membros do Movimento San Isidro, a polícia cubana invadiu a sede do Movimento San Isidro na noite de quinta-feira, para acabar com a greve de fome e de sede desses artistas exigindo a libertação do rapper Denis Solis, expulsando Luis Manuel Otero Alcántar e outros 14 cubanos da sede do Movimento San Isidro em Havana por um suposto crime de propagação da epidemia de Covid-19, de acordo com a mídia estatal cubana.

O governo cubano alegou o crime de propagação da epidemia de Covid-19 para prender os artistas e ativistas reunidos na sede do Movimento San Isidro. Um grupo de artistas cubanos pediu então às autoridades que dialogassem com os membros do Movimento San Isidro e depois ouvissem os jovens presentes na sede do Ministério da Cultura. A polícia manteve cerca de 15 pessoas sob prisão por várias horas. Entre eles estavam jornalistas, artistas e professores que se reuniram para protestar contra a repressão e as políticas governamentais que restringem cada vez mais a liberdade de expressão. Vários dos presos foram libertados algumas horas depois. Após as prisões, escritores e jornalistas de todo o mundo denunciaram a expulsão da sede e exigiram a libertação dos detentos, que começou algumas horas depois.

Membros do Movimento San Isidro, o artista Luis Manuel Otero Alcántara e o cantor Maykel Castillo (Osorbo), continuam sua greve de fome até que o governo cubano libere o rapper Denis Solis. Luis Manuel Otero Alcántara está agora no Hospital Fajardo de Havana e continua sua greve de fome”, relata o comunicado oficial no Twitter do Movimento San Isidro. Luis Manuel Otero Alcántara se recusa a ir a qualquer lugar a não ser sua casa na Rua Damasco, em Havana, onde se localiza a sede do movimento.

Na sexta-feira, a Anistia Internacional declarou Luis Manuel Otero Alcántara, líder do movimento San Isidro, um prisioneiro de consciência e pediu sua libertação. A Anistia Internacional pediu ao governo cubano que parasse de assediar os membros do Movimento San Isidro e manifestou preocupação com a situação da comissária de arte Anamely Ramos, que também está sob vigilância policial na casa da professora Omara Ruiz Urquiola.

Daniel Pinós

Fonte: http://rojoynegro.info/articulo/ideas/cuba-solidaridad-el-movimiento-san-isidro

Tradução > Liberto

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/08/13/cuba-repressao-contra-a-oposicao/

agência de notícias anarquistas-ana

A Brisa Que Sopra
É O Melhor Refresco
Neste Dia Quente

Leonardo Natal

[Espanha] Menores fuziladas e anciãs que morriam de fome na prisão: a repressão franquista contra as mulheres em Córdoba

Conselhos de guerra em solução de gênero em Córdoba e sua província. Assim foi a repressão franquista nesta província andaluza.

PorMaría Serrano| 14/11/2020

A repressão franquista contra as mulheres não teve medida, nem em Córdoba nem em sua província. Se fala de genocídio, com mais de dez mil fuzilados. Mas em solução de gênero a cifra também estremece. Mais de 1.400 mulheres, das 15.000 pessoas assassinadas que o investigador Julio Guijarro compila a oito anos dos fundos de arquivos militares.

O papel destacado das mulheres como protagonistas da mudança nos anos 30 trouxe em Córdoba uma verdadeira revolução social. “O regime franquista pretendia ocultá-lo, aquele tempo onde as mulheres foram protagonistas, e contra elas se exerceu a mesma repressão que contra os homens, à qual terá que se somar outra causa específica de gênero”.

Condenadas a prisão ou a morte, detidas, executadas por serem mulheres e mães, esposas ou companheiras, filhas ou irmãs de militantes perseguidos ou pelo simples fato de ter ido a uma manifestação. Os delitos sexuais também ficaram latentes, casos de abusos contra menores que foram localizados no Arquivo do Tribunal Militar Territorial Segundo de Sevilha.

Guijarro assinala a Público que o contexto não é casual: “A repressão foi mais elevada naquelas províncias que resistiram ao golpe de Estado e enfrentaram as tropas franquistas, mantendo uma frente de guerra estável, como seria o caso de Jaén ou o norte de Córdoba”, assegura. O regime tentou silenciar a todo custo a repressão contra mulheres de todas as idades, ainda que a partir das investigações publicadas é possível confirmar que Córdoba e Jaén seriam as regiões com mais casos de mulheres que sofreram represálias de toda Andaluzia. Guijarro, em uma complexa tarefa de busca, pôde resgatar casos. Se fala de mulheres, irmãs que foram raspadas, vexadas, falecidas na prisão. Algumas eram menores de idade, como Carmen e María Pedrajas, outras como Martina e Dionisia são condenadas a morte por ajuste de contas aos 53 e 60 anos de idade. Anciãs como Bibiana Romero morrem de fome ou falta de higiene na prisão. Os casos de abusos a menores por parte de militares e guardas civis foram absolvidos.

Pedrajas e Carmen Luna, menores fuziladas sem julgamento

O caso das irmãs María e Carmen Pedrajas Sánchez, de 17 e 18 anos, é assustador. Moradoras de Hornachuelos, as duas ingressam na Prisão Provincial de Córdoba em 18 de setembro de 1936. Carmen sai da prisão para ser executada sem julgamento em 2 de outubro. Sua irmã María teve o mesmo destino dois dias depois. Apesar de serem menores de idade e não constar nenhum procedimento judicial contra elas, o chefe da Ordem Pública Bruno Ibáñez as manda fuzilar por Bando de Guerra. Suas famílias nunca souberam onde aconteceu a execução nem onde estão seus corpos.

Carmen Luna foi apelidada pelos fascistas de forma depreciativa “la cateta”. Trabalhava na casa de uns senhores do povoado como servente e é executada em Córdoba em 29 de dezembro aos 18 anos pelo simples fato de ter ido a uma manifestação.

Martina e Dionisia eram moradoras do povoado mineiro de Peñarroya Pueblonuevo. As irmãs Alcántara Calvo são submetidas ao código de justiça militar e a sua pompa judicial em dezembro de 1939. “O sumário mostra o ajuste de contas que viveram estas mulheres, já de avançada idade, com graves acusações por parte dos vencedores”. No conselho de guerra, a que tiveram acesso Público, como “na instrução o juiz não se mostra imparcial e as duas mulheres foram condenadas a morte por seu papel destacado na retaguarda”.

Martina seria fuzilada em 11 de dezembro aos 53 anos de idade. A Dionisia seria comutada a pena de morte por prisão perpétua, ainda que não resistisse à terrível notícia do fuzilamento de sua irmã. O relatório médico mostra que falece por “colapso cardíaco”, um argumento pelo qual cabe pensar que “foram submetidas a maus tratos na prisão de Pueblonuevo”. Dionisia tinha 60 anos de idade.

“Ficaria despojada de seu cabelo”

“A repressão foi a mesma para todos os que apoiaram os maquis, sem distinção de gênero”, conclui Guijarro. O caso de Encarna Vega é um dos exemplos mais claros de como a justiça franquista condenava as mulheres pelo simples fato de ter seu marido fugido para a França. “Nos sumários não aparecem testemunhos tão claros de mulheres raspadas pelos franquistas”, sustenta o investigador.

Encarnación Vega tinha 29 anos e era moradora de Villanueva del Duque. Devido à ausência de seu marido teve que sobreviver com o comércio ilegal “sendo ao terminar a guerra despojada de seu cabelo e exibida pelas ruas pelas Forças Nacionais para que servisse de escárnio”. A justiça militar a condenou em 1946 a 12 anos em conselho de guerra por apoio à resistência guerrilheira.

A Guarda Civil falsificava as declarações destas mulheres

A Guarda Civil falsificava as declarações destas mulheres, que as arrancam a base de maus tratos que podiam durar uma semana. As ameaças de surras à suas filhas, ou vexações (peladas). O trâmite sempre era o mesmo. Passam à prisão, e meses depois, já ante o juiz militar, essas mulheres negam que sejam certas aquelas declarações porque foram maltratadas. Na imagem se mostra como esta jovem cordobesa, Carmen, de 25 anos, nega ante o juiz militar em 1947 sua declaração anterior “pelos maus tratos a que a submeteram até o extremo de cortar-lhe o cabelo, por não querer dizer o que eles queriam”.

Bibiana foi detida por assuntos relacionados com a resistência guerrilheira, seu caso foi encerrado por falecimento, não chegou a ser condenada. Morre na Prisão Provincial de Córdoba com 75 anos em 24 de novembro de 1941. Seu corpo segue nas fossas comuns de Córdoba, assim como María Antonia Baena Granados. Com oito filhos, foi condenada a 30 anos e falece na Prisão Provincial de Córdoba com 82 anos em 8 de novembro de 1946.

O caso de Isidora Márquez, sem dúvida pode ser o mais estremecedor. Condenada a prisão perpétua com 97 anos em Hinojosa del Duque. A justiça a levou a itinerar inclusive por vários cárceres. “Esta mulher passou pela Prisão de Mulheres de Málaga e Gerona, seu expediente estava incompleto porque as duas peças localizadas não estavam unidas; somente poderá se completar a investigação sobre a totalidade da repressão franquista quando se localizem e se descrevam todos os sumários abertos contra a população”. No entanto, Isidora teve a sorte de sair com vida e regressar a sua casa em prisão atenuada com 100 anos.

“Abusos desonestos” a menores por parte de militares franquistas

Em meio da trama de casos, Guijarro encontrou o mais surpreendente, casos encerrados de sumários instruídos contra guardas-civis e militares franquistas por delito de “abusos desonestos” a meninas de entre 2 e 15 anos. Apesar de que não são delitos políticos, se processa militares nas causas por abuso de menores. “Os casos de maus tratos, abusos ou violações foram em geral encerrados pela justiça militar franquista, sendo absolvidos os acusados”.

Nos expedientes se alegava a favor dos acusados. Eximiam a culpa “pelos costumes libertinos das mulheres, para rupturas de hímen, ou sua falta de higiene para contrair enfermidades venéreas”. O informe do médico militar era determinante. “É frequente em ambiente de classe social inferior e por sua falta de higiene”. O informe pelo qual se encerra o caso está fechado, neste caso concreto, em janeiro de 1950.

Fonte: https://m.publico.es/politica/4749768/menores-fusiladas-y-ancianas-que-morian-de-hambre-en-prision-la-represion-franquista-contra-las-mujeres-en

Tradução > Sol de Abril

agência de notícias anarquistas-ana

espuma do mar
adensa o voo das
gaivotas no ar

Carlos Seabra

[Espanha] A revolução dos “chinelos” e os anarquistas: crônica da conversa informativa sobre os protestos na Bielorússia em Sant Andreu (Barna)

No dia 19 de novembro às 19h30, foi realizada uma palestra no Ateneo Libertario del Palomar (llenguadoc, 25) com companheiros anarquistas da Bielorrússia, tanto pessoalmente como por videoconferência, sobre a repressão contra o anarquismo neste país do Leste Europeu, após os protestos contra a reeleição do Presidente Alexander Lukashenko por possíveis fraudes eleitorais e suas políticas sociais e econômicas. O nome dado a estas mobilizações vem de uma fotografia, mostrada por vários meios de comunicação ocidentais, de um homem manifestando-se na capital Minsk com dois sapatos na mão. Os compatriotas bielorrussos nos informaram que houve várias prisões, cerca de 400, como resultado dos protestos para a reeleição de 9 de agosto de 2020.

No início, eles nos disseram que o anarquismo bielorrusso era minoritário e não tinha muita capacidade de mudar a realidade: os principais protagonistas eram pessoas comuns que estavam fartas do regime. Além disso, houve a tática, que reduziu muito sua capacidade de defesa, das autoridades para prendê-los preventivamente e prendê-los por alguns dias (geralmente 15 dias que poderiam ser prolongados por outros 15) na esperança de que a situação se acalmasse. Eles também apontaram que, a princípio, a preocupação e a atenção da polícia estava voltada principalmente para os partidos da oposição e não para os libertários. A tática naquela época era ir às manifestações individualmente sem mostrar bandeiras negras ou outros símbolos que as identificassem como uma corrente sócio-política.

Mais tarde, eles começaram a sair com seus próprios blocos em Minsk, seu discurso antiautoritário e a entreter os protestos com música, o que, segundo os oradores, fez com que muitos manifestantes os vissem com simpatia por causa do novo e diferente caráter que suas proclamações expressavam em relação aos partidos políticos tradicionais de oposição. Junto com os libertários, havia também alguns torcedores do futebol que foram presos e torturados por participarem dos protestos. O surgimento destes novos sujeitos políticos nas mobilizações está relacionado ao abandono progressivo da rua pela oposição oficial que atualmente se dedica a tarefas inócuas, como a coleta de assinaturas on-line. Tudo isso se traduziu, como esperado, na transferência de parte do eixo repressivo para o movimento minoritário, mas ativo e libertário no país.

Também é necessário apontar as tarefas de apoio, realizadas pelos ácratas bielorrussos aos manifestantes civis, sobre como enfrentar a repressão da polícia anti-motim: indicando o inoportuno ante o lançamento de bombas de fumaça ou abrindo contas no telegram para realizar o chamamento às ruas. Estes, dos quais existem três, são os únicos meios atualmente utilizados para este fim. Atualmente há 12 anarquistas e antifascistas na prisão. O caso que está despertando a solidariedade dos revolucionários no momento é o de 4 antifascistas que estão na prisão por bloquearem uma rua e confrontarem a polícia. Também é urgente apoiar 4 anarquistas presos por tentarem atravessar a fronteira para a Ucrânia, pois eram procurados por supostamente atacarem com fogo alguns edifícios e carros da polícia: um conseguiu escapar, mas os outros foram capturados pela polícia.

Um desses camaradas foi consequentemente condenado a 8 anos de prisão. Há também outro caso de um youtuber anarquista que foi preso por dar conselhos na Internet sobre como lidar com a violência repressiva do Estado. Outro preso libertário foi selvagemente torturado e acabou fornecendo suas senhas de telegram. Vários ativistas tiveram que deixar o país por causa de sua militância feminista, antifascista e libertária. O Estado bielorrusso é totalmente liberado em suas estratégias repressivas e intimidatórias e chegou ao ponto de procurar de porta em porta por manifestantes simplesmente para carregar bandeiras: eles normalmente colocam um capuz sobre suas cabeças e os levam para alguma floresta próxima, onde os ameaçam de morte. As autoridades, diante da impotência causada pelo fato de que as mobilizações não pararam, passaram da punição com multas para a prisão.

Os números são mais de 25.000 detidos e mais de 1.000 presos nos últimos meses. Além disso, há mais de 4.000 casos relatados de maus-tratos a detentos, certificados por relatórios médicos, nenhum dos quais resultou em condenação de qualquer policial. Mesmo o governo chegou ao ponto de lançar uma ofensiva repressiva contra o corpo médico por denunciar a tortura. Os palestrantes nos disseram que Minsk hoje é como o romance distópico de George Orwell de 1984 porque tudo está sob controle: um bairro que se destacou por ter muitas bandeiras anti-governamentais teve seu abastecimento de água cortado. Agora as autoridades estão ocupadas impedindo que as pessoas se reúnam para futuros comícios e manifestações.

Há um certo desânimo por parte dos camaradas anarquistas de ver que eles estão atualmente em uma fase de retiro tentando evitar casos mais repressivos: isto contrasta com os primeiros meses quando parecia que a iniciativa estava sendo tomada mais. Em resposta a algumas das intervenções do público, os palestrantes (tanto os que estavam presentes no Ateneu quanto o camarada que falava do país via videoconferência) apontaram que, sim, há alguns torcedore de ultradireita que participaram dos protestos, mas sem fazer um show de seu simbolismo: neste sentido, pode nos lembrar dos protestos dos coletes amarelos na França, onde estes indesejáveis também participaram das manifestações, levando a confrontos com os antifascistas e a esquerda revolucionária.

A questão era sobre o fato de que em outros movimentos sociais ao redor do mundo, como por exemplo os protestos no Egito que terminaram com a demissão de Hosni Mubarak, a presença de torcedores do futebol também foi observada: isto parece contrastar com as características de um certo hooliganismo na Espanha que parece, em geral, bastante apolítico se não diretamente contrário às mobilizações (acho que me lembro de algumas ameaças da rede destes setores do socialismo de Barcelona ao Acampamento 15-M na Plaza Catalunya coincidindo com uma de suas celebrações). Ele também se perguntou sobre a posição dos anarquistas bielorrussos em relação ao apoio de certos grupos da esquerda estalinista ao governo de Lukashenko sob o discurso demagógico pseudo-anti-imperialista contra o Ocidente que as autoridades estão tratando.

Neste sentido, vale lembrar que a Bielorrússia tem relações estreitas com o imperialismo russo e que, em qualquer caso, as posições reacionárias de defesa do país contra o inimigo externo são a estratégia que todo nacionalismo com tons fascistas na Europa tem historicamente utilizado. Os palestrantes apontaram, então, que eles não consideram os grupos estalinistas como esquerda, mas como direita (o que indica, em minha opinião, um certo respeito por este termo que contrasta um pouco com slogans que costumamos usar nos anarquistas espanhóis como esquerda e direita a mesma merda e similares). Por outro lado, não é estranho qualificar o estalinismo como direita, considerando que alguns partidos comunistas dogmáticos como os gregos, tchecos ou russos têm se mostrado contra os direitos das pessoas trans, refugiados ou próximos ao nacionalismo e ao cristianismo ortodoxo conservador.

Assim, indicaram que, como resultado, não é possível encontrar a participação de grupos estalinistas no antifascismo bielorrusso. Por outro lado, teria sido interessante perguntar se existe algum confronto com algum tipo de antifascismo institucional, já que os países da órbita ex-soviética que ainda são governados por seus herdeiros ideológicos, como é o caso aqui, tendem a lidar com um antifascismo vazio que está demagogicamente relacionado à luta contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Os palestrantes também indicaram, de uma forma que eu não conseguia entender bem, a participação ocasional de grupos comunistas e trotskistas da Rússia nos protestos e que estavam tentando organizar os trabalhadores, já que parece que não existem grupos deste tipo no país.

Acho esta afirmação estranha porque, segundo entendi, existem dois partidos comunistas na Bielorrússia que se distinguem, precisamente, por seu caráter oficial ou de oposição, respectivamente. Talvez pudesse se referir a algum outro tipo de grupo marxista que eu não conheço. Como o camarada comentou, os anarquistas mandaram esses grupos comunistas e trotskistas da Rússia para o inferno. Finalmente, deve ser observado que, segundo o sociólogo Volodymir Artiuk em seu artigo Partisanos ou trabalhadores? O protesto bielorrusso e suas perspectivas, as manifestações têm um apoio significativo da classe média urbana e dos trabalhadores: neste sentido, a Greve do Metrô de Minsk em 1995 ou, atualmente, a revolta proletária na fábrica de tratores na mesma cidade que, junto com trabalhadores de outras fábricas, marcharam junto com os manifestantes anti-Lukashenko, devem ser apontados como marcos na luta de classe contra Lukashenko.

Segundo Artiuk, estes são princípios de auto-organização que rompem com o sindicalismo burocrático oficial: pois o governo do filosoviético de Lukashenko sempre procurou confinar a classe trabalhadora dentro de estruturas burocráticas de obediência às instituições, prometendo estabilidade no emprego às custas de baixos salários. Um modelo híbrido, então, entre um controle institucional que procura diluir a consciência de classe e substituí-la pela obediência aos comandos, e o neoliberalismo capitalista e sua consequente deterioração do poder de compra e do padrão de vida dos trabalhadores. Fiquei me perguntando se esta ordenação dos grupos marxistas mandados ao inferno corresponde a uma tentativa libertária de estar presente nos locais de trabalho ou simplesmente de trabalhar em outros espaços. Neste sentido, o sindicato de trabalhadores e manifestantes, juntamente com o papel agitador que os libertários podem desempenhar, levará esperançosamente a mais do que uma simples dor de cabeça para o governo capitalista autoritário de Lukashenko.

Alma apátrida

Fonte: https://alma-apatrida.blogspot.com/2020/11/la-revolucion-de-las-pantuflas-los.html

Tradução > Liberto

Conteúdos relacionados:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/19/bielorrussia-contra-o-capitalismo-e-a-ditadura-pela-solidariedade-internacionalista/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/11/04/quatro-anarquistas-detidos-na-fronteira-da-bielorrussia-por-acoes-diretas/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/09/11/franca-paris-solidariedade-com-prisioneiros-anarquistas-na-bielorrussia-e-em-todo-o-mundo/

agência de notícias anarquistas-ana

Flauta,
cascata de pássaros
entornando cantos úmidos.

Yeda Prates Bernis