[Uruguai] Memória | Carta de Simón Radowitzky ao Partido Comunista da Argentina e a CGT

Ao Partido Comunista e a Confederação Geral do Trabalho. Tenho conhecimento que em sua propaganda e seus cartazes fazem figurar meu nome reivindicando a minha liberdade.

Como anarquista me dirijo a vocês: declaro que não quero ser instrumento de propaganda de nenhum partido político, inclusive do Partido Comunista, cuja adesão à política do governo russo é absoluta.

Em nome dos anarquistas encarcerados nas prisões e na Sibéria Soviética, em nome das agrupações anarquistas destruídas e cuja propaganda foi proibida na Rússia, em nome dos companheiros fuzilados em Kronstadt, em nome do nosso companheiro Petrini, que foi entregue pelo governo soviético ao fascismo italiano, em nome da Federação Obreira Regional Argentina e da Federação Obreira Regional do Uruguai e em nome de nossos companheiros Kropotkin, Malatesta, Rocker, Fabbri, Makhno, etc., etc., declaro que, como anarquista, rechaço todo o seu apoio que representa uma exploração indigna que fazem os líderes bolcheviques do partido e da CGT do generoso sentimento de solidariedade que me presta e a classe trabalhadora.

Simón Radowitzky, Montevidéu, Prisão Central, 22 de abril de 1936.

Texto extraído da revista Futuro Nº 7 Primavera / Verão 2004-2005

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Por este caminho,
Ninguém mais passa —
Tarde de outono.

Bashô

[Espanha] Novidade editorial: “En pos del milenio: Revolucionarios milenaristas y anarquistas místicos de la Edad Media”, de Norman Cohn

Em busca do milênio: Revolucionários milenaristas e anarquistas místicos da Idade Média, de Norman Cohn

A Idade Média viu surgir em suas margens uma complexa rede de heresias e movimentos que tentavam transpassar os limites da ortodoxia religiosa. Baseando-se principalmente nas tradições judias e na escatologia cristã (sobretudo no Apocalipses de São João), e impulsionados por sua dramática situação material e a decadência que observavam a seu redor, estes grupos de homens e mulheres encontraram no milenarismo uma tábua de salvação desesperada. Mas o milenarismo não foi só uma orientação religiosa. Segundo seus pressupostos, o reino dos mil anos que seguiria ao Juízo Final devia ser um paraíso na Terra no qual todas as penalidades dos justos seriam recompensadas e no qual todas as diferenças sociais seriam abolidas. A perspectiva, ao chegar às camadas mais desfavorecidas da sociedade, deu lugar uma e outra vez a movimentos revolucionários que lutaram com armas materiais para criar o reino de Deus na Terra: um reino que seria precedido pela eliminação dos malvados e no qual o homem seria devolvido a sua condição primitiva, o que implicava a abolição da propriedade privada e o estabelecimento de uma sociedade que hoje poderíamos identificar claramente como comunista.

Em En pos del Milenio – um dos livros de história mais importantes escritos durante o século XX – Norman Cohn fez uma pesquisa completa e rigorosa dos movimentos dos pobres durante a Idade Média. Em suas páginas, encontramos relatos extraordinários, como a apoteose anabatista na cidade de Münster, em 1535, e relatos detalhados de fenômenos fascinantes, como as “cruzadas dos pobres”, as procissões de flagelantes, as teorias de Joachim de Fiore, os incansáveis falsos profetas e messias, a disseminação de movimentos protoanarquistas cativantes, como a Irmandade do Espírito Livre, ou a luta de revolucionários sociais, como Thomas Müntzer.

En pos del milenio

Revolucionarios milenaristas y anarquistas místicos de la Edad Media

Norman Cohn

ISBN 978-84-15862-31-4

576 págs., 14×21 cms.

Preço: 28,00€

pepitas.net

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Canto da araponga.
Ferro fincado
No sol da tarde.

Wilma Chiarelli

[Chile] Chamado à solidariedade anarquista internacional.

Com as vítimas dos mega incêndios e a devastação capitalista no Chile.

Este chamado internacional é levantado pela Assembleia Anarquista de Valparaíso junto ao espaço anarquista Flora, porque sentimos a necessidade de recorrer à solidariedade internacional para colaborar na recuperação material, física e emocional das vítimas desta catástrofe capitalista em nosso território.

Este chamado se deve à emergência eco-social derivada dos gigantescos incêndios urbano-florestais que açoitaram as comunas de Valparaíso, Viña del Mar e Quilpué situadas no território denominado Chile, nos dias 2 e 3 de fevereiro.

O fogo custou mais de 130 vidas humanas e milhares de vidas não humanas. Além disso, destruíram-se ou danificaram-se mais de 15.000 moradias e vários centros sociais, bibliotecas populares e outros espaços comunitários.

A devastação capitalista, o desenvolvimento imobiliário, o negócio florestal e a crise habitacional que sofre o povo foram os ingredientes desta tremenda tragédia.

Como anarquistas, nossos esforços se centram na solidariedade com as vítimas, especialmente com os companheiros afetados e com os projetos políticos que se viram afetados.

Dada a magnitude da catástrofe, vemos a necessidade de gestionar uma campanha internacional de arrecadação de fundos para destiná-los diretamente às vítimas, à reconstrução das infraestruturas queimadas e à manutenção ativa das cozinhas populares e a compra de materiais para as equipes de trabalho autogeridas.

Viva o apoio mútuo!

Viva a solidariedade internacional!

Viva a anarquia!

>> Apoie aqui:

https://www.firefund.net/capitalistfire

Tradução > Sol de Abril

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Alegres grilos
Gritam na grama gris:
Música noturna.

Eduardo Otsuka

Gigante do cimento é atacada na Alemanha

Na noite de 14 para 15 de março em Berlim, por volta das 3h50, seis caminhões de cimento foram totalmente destruídos e outras três máquinas (escavadeiras) danificadas pelas chamas no canteiro de obras da rodovia A100, na Kiefholzstrasse, em Berlim. Estas betoneiras pertenciam ao grupo alemão Heidelberg Materials, uma das maiores fabricantes mundiais de cimento, agregados e concreto pré-misturado.

Em 27 de dezembro de 2023, outra gigante do concreto, a CEMEX, já havia sido atacada em Berlim (cinco caminhões betoneiras queimados, bem como a linha transportadora de materiais a granel e um prédio técnico próximo aos silos).

E em 19 de janeiro de 2024, duas escavadeiras presentes no mesmo canteiro de obras da rodovia A100 em Berlim já haviam sido consumidas pelas chamas da raiva.

O projeto contestado visa prolongar a estrada que circunda Berlim, atravessando um parque da capital alemã e também um bairro popular da juventude, destruindo assim tanto os espaços naturais como os muito populares clubes de techno. Milhares de clubbers e ativistas ambientais já haviam se manifestado contra a obra em setembro passado.

Um comunicado publicado na plataforma Indymedia Alemanha reivindica a ação incendiária contra a empresa ecocida. Além da realização da estrada para este projeto rodoviário mortal, a Heidelberg Materials participa de projetos coloniais, apropriando-se de terras, saqueando recursos e explorando os seus funcionários nos quatro cantos do planeta.

Na verdade, a empresa com mais de 800 subsidiárias é o segundo maior produtor de cimento do mundo. É a segunda empresa mais poluente da Alemanha, atrás da gigante energética RWE, que opera minas de carvão. Com estas fábricas de cimento e pedreiras, extrai, destrói, polui e explora recursos na Indonésia, na Cisjordânia, no Togo e no Sahara Ocidental.

O comunicado de imprensa do ataque de 15 de março à Heidelberg Materials, divulgado no mesmo dia no Indymedia Alemanha, pode ser lido aqui: https://de.indymedia.org/node/346434

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2024/03/11/alemanha-protesto-contra-a-ampliacao-de-fabrica-da-tesla-arvores-em-vez-de-concreto-pare-a-gigafabrica/

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Num galho seco,
Um corvo pousado.
Tarde de outono.

Bashô

[EUA] Lançamento: A Tradição Do Anti-fascismo Negro | Lutando Contra o Linchamento até a Abolição

Jeanelle K. Hope (Autora); Bill V. Mullen (Autor)

Ao mesmo tempo uma história para entender o fascismo e um manual para se organizar contra ele, A Tradição Do Anti-fascismo Negro é um livro essencial para entender nosso momento atual e os desafios que temos pela frente.

De Londres ao Caribe, da Etiópia ao Harlem, do Black Lives Matter à abolição, os radicais e escritores negros há muito tempo entendem o fascismo como uma ameaça à sobrevivência dos negros em todo o mundo – e de todos.

Em A Tradição Do Anti-fascismo Negro os acadêmicos-ativistas Jeanelle K. Hope e Bill Mullen mostram como gerações de ativistas e intelectuais negros, desde Ida B. Wells, na luta contra o linchamento, até Angela Y. Davis, na luta contra o complexo industrial-prisional – se mantiveram dentro de uma tradição de antifascismo negro.

Como Davis observou certa vez, apontando para a importância do racismo contra os negros no desenvolvimento do fascismo como ideologia, os negros foram “as primeiras e mais profundamente feridas vítimas do fascismo”. De fato, a experiência de viver sob o capitalismo racial e de resistir a ele muitas vezes fez com que os radicais negros se conscientizassem do potencial do fascismo muito antes de outros entenderem esse perigo.

O livro explora as ideias e o ativismo poderosos de Paul Robeson, Mary McLeod Bethune, Claudia Jones, W. E. B. Du Bois, Frantz Fanon, Aime Cesaire e Walter Rodney, bem como do Congresso dos Direitos Civis, do Exército de Libertação Negra e do movimento We Charge Genocide, entre outros.

Hope e Mullen argumentam que, ao lançar luz sobre o fascismo e a anti-negritude, os escritores e organizadores apresentados neste livro também desenvolveram ferramentas e estratégias urgentes para superá-los.

The Black Antifascist Tradition

Fighting Back from Anti-Lynching to Abolition

Jeanelle K. Hope (Author); Bill V. Mullen (Author)

Editora: Haymarket

Formato: Livro

Encadernação: pb

Páginas: 292

$24.95

https://linktr.ee/haymarketbooks

Tradução > cicada

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Rua da vida
Paralelas infinitas
Desencontro

Wally Cuoco Figueiredo

1° Festival do Cine Punk e Anarquista no Rio de Janeiro!

Vem aí:

1° Festival do Cine Punk e Anarquista no Rio de Janeiro!

O evento vai rolar nos dias 26 e 27 de abril. No dia 26 começaremos com apresentações de bandas independentes; no dia 27 será exclusivamente exibição de filmes.

Tá, mas quanto $ que é? Não se preocupe, pois é gratuito.

É preciso ser punk ou anarquista para participar? Não! Você pode ser rapper, sambista, otaku, funkeiro, tímido, falar pelos cotovelos ou chorador de mesa de bar. Só não pode ser fuleiro!

A faixa etária é livre. Crianças e idosos são super bem-vindos!

O evento é fruto da conjugação de forças da Edições Tormenta, CARA, Couro de Rato, Corpo Fechado e IEL.

Esperamos você lá!

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Ao mirar o espelho,
Na primeira manhã de outono,
O rosto do pai.

Kijô

[Espanha] Pichação anarquista na taberna de Pablo Iglesias em Lavapiés: “Exigimos a retirada do coquetel Durruti”

A Taberna Garibaldi, em Lavapiés, Madri, cujo coproprietário é Pablo Iglesias (cofundador do partido político de esquerda Podemos), e que abre nesta terça-feira, 19 de março, acordou com uma mensagem ameaçadora com uma assinatura anarquista.

“Ex-vice-presidente: exigimos a retirada imediata do coquetel Durruti ou o proletariado anarquista entrará em ação – Lxs amigxs de Durruti-“, escreveram na parede do prédio, ao lado dos azulejos da entrada, localizado no número 8 da rua Ave María, e que deve abrir nesta terça-feira.

Do outro lado da porta de entrada está pintada na mesma cor marrom uma letra A dentro de um círculo, um símbolo usado pelo anarquismo.

O grupo, Lxs amigxs de Durruti, ameaça “entrar em ação” se suas exigências não forem atendidas.

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Flor esta
De pura sensação
Floresta.

Kleber Costa

[Galiza] III Feira do Livro Anarquista da Corunha (FLAC)

Neste mês de setembro, como já se tornou tradição, celebraremos uma nova edição da Feira do Livro Anarquista da Corunha. Todas as editoras e grupos libertários são bem-vindos.

Se você faz parte de uma editora ou de um projeto cultural libertário, reserve o fim de semana de 14 e 15 de setembro e monte uma banquinha na Feira do Livro Anarquista da Corunha.

O prazo para se inscrever na FLAC 2024 é 31 de maio, e todas as propostas de apresentações de livros, fanzines, panfletos e projetos ou atividades culturais libertárias são bem-vindos. Se você quiser participar, inscreva-se antes de 31 de maio em flac@refuxiosdamemoria.org

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Explode o rojão.
protestam os cachorros,
Com seus latidos.

Sil Lis

Lançamento: Viva a Comuna! O anarquismo e a Comuna de Paris

Em 18 de março de 1871, diante de uma guerra avassaladora, trabalhadoras e trabalhadores de Paris se ergueram em combate e abriram caminho para a autodeterminação dos povos: nascia a Comuna de Paris.

A rica experiência prática em Paris ampliou também as teorias de luta contra o capitalismo e o Estado. Diversas vertentes do socialismo buscaram interpretar a Comuna, das quais, destacamos o aprofundamento da teoria anarquista, que também deram a vida pela causa do povo.

Como forma de honrar a memória e as lutas que se inspiraram nesta insurreição popular, publicamos hoje “Viva a Comuna: o anarquismo e a Comuna de Paris”. Com a obra, oferecemos aos nossos leitores e leitoras um espaço para debater junto aos clássicos a experiência da Comuna.

Com 40 páginas, “Viva a Comuna: o anarquismo e a Comuna de Paris” pode ser encomendado pelo link:  tiny.cc/tsaeditora.

O frete é grátis para todo o país, e os primeiros pedidos acompanharão o pôster “Vive la Comune”.

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A rua apinhada
E nos passos apressados
As pessoas solitárias…

Débora Novaes de Castro

[Reino Unido] Vídeo | Solidariedade e não caridade: A criação da revista anarquista DOPE

Vídeo sobre a produção da revista anarquista DOPE, produzida pela brilhante Dog Section Press, que os sem-teto vendem nas ruas de mais de 20 cidades do Reino Unido.

DOPE, uma revista trimestral e com tiragem de 20 mil cópias, foi lançada na primavera de 2018 por Craig Clark, um anarquista de 37 anos, com sede em Londres.

A revista é distribuída para pessoas sem-teto em todo o país para vende-las nas ruas, com uma variedade de pessoas desde aqueles que dormem nas ruas até pessoas pedindo asilo coletando o jornal gratuitamente. Fornecedores em várias cidades vendem-na pelo preço de capa de £ 3 e mantêm os lucros.

>> Veja o vídeo (19:14) aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=LHVMElDOWGc

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2020/10/09/reino-unido-entrevista-com-a-dog-section-press/

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Último vôo.
A despedida da luz
Nas asas do corvo.

Rubens Pilegi

Memória | Teatro Libertário em Santos

Por Biblioteca Carlo Aldegheri

No dia 13 de outubro de 1922, a Corporação Cênica Germinal organizou um Festival Operário em Santos, no Teatro Dom Pedro II, na rua Campos Mello, na Vila Macuco, que contava com a seguinte programação:

01 – Representação do drama social, em 1 ato, ‘Filhos do Povo’;

02 – Performance da peça ‘A Ideia Em Marcha’;

03 – Comédia ‘Perdi Minha Mulher’

04 – Conferência com Florentino de Carvalho.

Na data de 13 de outubro, anarquistas e livre pensadores recordavam o fuzilamento do pedagogo Francisco Ferrer i Guardia, pelo Estado Espanhol.

>> A Biblioteca Carlo Aldegheri é um centro de documentação e memória anarquista, fundado em 2012, em Guarujá-SP. Contato: nelca@riseup.net

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Horizonte rubro
Ave branca atravessando
O branco do luar.

Zuleika dos Reis

 

Histórias Perdidas do Anarquismo Paraguaio (I). O Pássaro Negro e o DeLorean

O Suplemento Cultural aborda a história quase desconhecida do anarquismo no Paraguai, dando início à nova série “Historias perdidas del anarquismo paraguayo”, de Mariano Montero, com esta primeira parte sobre a misteriosa tentativa de assassinato de Leopoldo Ramos Giménez em 1916.

Um dos episódios da história do anarquismo paraguaio que nunca foi esclarecido foi o ataque ao jovem e promissor membro do movimento, Leopoldo Ramos Giménez, em 5 de julho de 1916, em Assunção.

O que sabemos – detalhado nas duas obras de referência sobre o movimento operário paraguaio (1) – é que, depois de meses sendo a principal força motriz por trás de uma campanha para denunciar as condições desumanas de trabalho dos ervais (plantações de erva-mate) do Paraguai, e considerado na época por seus contemporâneos como o sucessor de Rafael Barret, como o ideólogo do anarquismo paraguaio, Ramos Giménez foi abordado por um homem na Rua Paraguarí (outros meios de comunicação indicam Escalada, atual México), na esquina da Río Apa (atual Manduvirá), que lutou com a vítima e disparou tiros que atingiram Ramos Giménez no abdômen.

Nos textos especializados, esse episódio só é mencionado em conjunto com um ataque anterior a Libre Jara, outro líder do anarco-sindicalismo, como uma forma de significar que os proprietários das empresas denunciadas como exploradoras – como no caso da Industrial Paraguaya – haviam partido para a ofensiva contra os corpos físicos dos líderes dos trabalhadores. No entanto, nem Francisco Gaona nem Milda Rivarola se aprofundam em como a investigação desse caso continuou. Quem foi o braço executor do ataque? Aqui vamos nós.

O evento foi amplamente coberto nas páginas da imprensa da época, como La Tribuna e El Nacional. Dois dias após o ataque, organizações de trabalhadores – como o Comitê Primero de Mayo – condenaram publicamente o ataque e organizaram uma manifestação na Plaza Independencia. Ignacio Núñez Soler, um líder do anarco-sindicalismo, discursou nesse evento, acusando os comerciantes de erva-mate pelo ataque. Em seguida, falaram o socialista Rufino Recalde Milesi e o estudante Robustiano Vera. Duas semanas depois, a imprensa noticiou que um trabalhador de padaria chamado Basilio Gómez, conhecido como “Pájaro Negro” (Pássaro Negro), havia sido preso como o principal suspeito do ataque.

O registro policial de Basilio Gómez – preservado no Centro de Documentação e Arquivo para a Defesa dos Direitos Humanos – nos dá algumas informações sobre ele: nasceu em Villa Concepción em 15 de abril de 1886, filho de Marcelino González e Marcela Gómez. Apelidado de “Pájaro Negro” (Pássaro Negro), padeiro de profissão, era um frequentador assíduo das delegacias de polícia de Assunção. Entre 1906 e 1934, registrou 18 entradas por “embriaguez e desordem”.

Com relação à sua prisão, a imprensa noticiou: “Basilio Gómez, “el pajarraco”, foi preso e estava de posse de um revólver calibre 44″. As informações que começaram a aparecer na imprensa sobre Gómez levaram à especulação de que ele poderia ter sido um infiltrado nos círculos anarco-sindicalistas dos trabalhadores, especialmente por causa de seu passado como funcionário do escritório técnico de Investigações em 1914. A isso se somaram testemunhos de trabalhadores que afirmaram que Gómez foi visto nos últimos dias de abril frequentando as instalações dos trabalhadores e se apresentando como “Pájaro Negro” ou “Pajarraco”, mas sem dizer seu nome, perguntando insistentemente por Ramos Giménez. As crônicas acrescentam que “Gómez era mal visto pela família da classe trabalhadora” e que, após o ataque, ele desapareceu dos círculos onde perguntava por sua futura vítima.

Gómez recusou-se repetidamente a assinar suas declarações e estima-se que, por volta de março de 1917, ele foi libertado por falta de provas. Nunca ficou claro quem foi ou foram os responsáveis pelo ataque. As constantes visitas de Gómez às delegacias de polícia podem levar a especular que as autoridades policiais queriam usá-lo como espião, mas seu histórico também pode levar a considerá-lo um infiltrado.

Quase 16 anos depois, Gómez reaparece nas fontes; por exemplo, em um documento de novembro de 1933 do Departamento de Ordem Social da Polícia de Assunção, que relata que ele foi preso depois de entrar em um ônibus de passageiros e expressar em voz alta opiniões contra a Guerra do Chaco (1932-1935), momento em que um oficial do ônibus o deteve como “antiparaguaista”. O relatório detalhava: “Gómez expressou-se em termos impróprios, fazendo declarações hostis à causa nacional”; e ele foi acusado de ter dito que “todas as notícias que foram dadas ao público eram falsas (…) que tudo isso não é guerra, mas um comércio, porque os ricos não vão para a frente porque compram seus passes”. Cinco meses depois, em maio de 1934, aos 50 anos, ele foi deportado para Clorinda, Formosa (Argentina), o último registro conhecido dele.

Quanto à vítima, depois de se recuperar de seus ferimentos, ele foi um dos principais fundadores do Centro Obrero Regional del Paraguay (CORP), o novo centro anarco-sindicalista de trabalhadores, herdeiro da Federación Obrera Regional Paraguaya (FORP). Parecia que o Paraguai havia encontrado o sucessor de Barrett. No entanto, o ímpeto libertário durou tanto quanto sua adolescência. Apenas quatro anos depois, em 1920, ele já havia se voltado para posições puramente nacionalistas e, entre 1920 e 1954, atuou como intelectual orgânico da Asociación Nacional Republicana – Partido Colorado, bem como intelectual do Itamaraty. Seu terceiro e último estágio foi como intelectual a serviço do regime stronista (1954-1989), tornando-se um dos historiadores “nacionais” que ajudaram a construir a matriz disciplinar da história de acordo com o stronismo.

A questão que liga Ramos Giménez a Gómez permanecerá em aberto. Gómez era um infiltrado no movimento anarco-sindicalista? Um assassino da Industrial Paraguaya? Ele era apenas um espião? Ou ele viajou no DeLorean para a década de 1960 e voltou convencido de que algo precisava ser feito com relação ao futuro traidor?

Notas

(1) Francisco Gaona, Introducción a la Historia Gremial y Social del Paraguay. Tomo II, Asunción, Arandurã, 2008; Milda Rivarola, Obreros, utopías y revoluciones. Formación de las clases trabajadoras en el Paraguay liberal (1870-1931). Assunção, CDE, 1993.

Fontes de jornais e periódicos

“Ecos del atentado criminal”, El Nacional, 7 de julio de 1916.

“Policía. Detención del autor del atentado a Ramos Giménez”, La Tribuna, 20 de julio de 1916.

“Antecedentes del presunto autor del hecho”, La Tribuna, 21 de julio de 1916.

“Gómez buscaba antes del atentado al director de Prometeo”, La Tribuna, 22 de julio de 1916.

“Otra grave contradicción de Gómez”, La Tribuna, 24 de julio de 1916.

*Mariano Damián Montero é investigador y professor de história pela Universidad de Buenos Aires. Publicou os livros Agapito Valiente. Stroessner kyhyjeha (2019) e Obras completas de Lincoln Silva (2021) e colabora habitualmente com revistas e jornais da Argentina, Paraguai e outros países.

Fonte: https://www.abc.com.py/edicion-impresa/suplementos/cultural/2024/03/10/historias-perdidas-del-anarquismo-paraguayo-i-el-pajaro-negro-y-el-delorean/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Pássaro ligeiro
Come o pêssego maduro
Antes de mim.

Roseli Inez Jagiello

[Bélgica] Feira do Livro Anarquista em Gante

Este ano, a 20ª Feira do Livro acontecerá em Gante! Pela primeira vez, estamos chamando-a de Feira do Livro Anarquista (anteriormente Feira do Livro (A)lternativa). Como cereja do bolo, esta edição festiva dura dois dias.

Por que organizar uma feira do livro?

Queremos celebrar o papel em nossas mãos, longe do pesadelo digital que se insinua em nossos círculos mais íntimos. Na feira do livro, além de livros, você encontrará muitas outras publicações, folhetos, panfletos, cartazes e adesivos. De romances antigos e clássicos revolucionários, a filosofia e poesia até críticas sociais contemporâneas ou os últimos apelos à luta: eles partem da vontade de mudar radicalmente o mundo. Compartilham ideias e buscam aprofundá-las. Ideias, não opiniões comercializáveis, agradáveis, corajosas sem riscos.

Mas a feira do livro é muito mais!

Para nós, nunca foi apenas sobre livros e publicações. A feira do livro anarquista é também um encontro internacional de anarquistas e antiautoritários, com discussões, workshops e trocas informais. Queremos que a feira do livro contribua para fortalecer o movimento anarquista. Vemos isso como uma ferramenta para aprofundar ideias, uma oportunidade para lançar propostas e forjar vínculos entre indivíduos e grupos. Queremos compartilhar nossas paixões, queremos ajudar a criar um contexto onde palavras e ações dançam umas com as outras e se reforçam mutuamente.

Então, o fato de estarmos mudando de nome para esta 20ª edição não é uma coincidência. Mas ainda mais do que uma mudança de nome, também estamos fazendo algumas escolhas de conteúdo que estarão refletidas nos estandes e no programa de conteúdo. Para nós, o anarquismo é incompatível com a autoridade. Ele carrega uma posição ofensiva contra o poder e uma vontade de subversão.

Vivemos tempos de guerra e endurecimento das condições de vida. Todos nós somos chamados a apertar nossos cintos, trabalhar mais duro e marchar ao ritmo do militarismo que está surgindo por toda parte. Ao mesmo tempo, em breve seremos convidados pelo estado a participar com nosso voto no grande circo que legitima seu poder sobre nós.

Em vez de nos resignarmos a este panorama sombrio, nos perguntamos o que nós, como anarquistas, podemos fazer para contra-atacar isso. Em vez de cair nas armadilhas do poder – militarismo, cálculos políticos, apatia – queremos buscar nossas possibilidades e partir de nossas próprias forças. O que significa ter uma utopia anarquista em nossos corações e mentes?

Bem-vindos ao ‘t Landhuis nos dias 4 e 5 de maio! Mantenha seus ouvidos e olhos abertos para o programa completo em nosso site: https://abgent.noblogs.org/

Até lá e viva a anarquia!

Tradução > fernanda k.

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O menino cego
Fecha os olhos e sorri
Sonhando com flores…

Izo Goldman

Domesticação e selvageria

Anarquia é selvagem, incontrolável! Porém de forma coletiva se organiza para o pavor de todos os grupos opressores e exploradores.

Buscar entendê-la é um processo lúdico e necessário para que sua expressão seja amplificada ao milésima potência revolucionária. Esse processo de entendimento é realizado em suas próprias fileiras anarquistas, uma vez que pessoas externas a elas, buscam acima de tudo um processo de domesticação e aprisionamento acadêmico, tornando a anarquia seu pet, específico e de corrente (entendedoras entenderão!).

Anarquia tornada um pet, remove sua selvageria oriunda das pessoas oprimidas e exploradas que instintivamente compreendem diretamente na prática aquilo que algumas poucas escritoras mal conseguiram escrever, afinal, a anarquia é destruição e construção, de forma que quem busca seu aprisionamento em teses acadêmicas, não consegue, pois a anarquia foge entre a fumaça de seus atos. Não é aprisionável em livros para empoeirar, embora nestes livros tenhamos alguns sinais que a anarquia tenha por ali passado, sinais como correntes quebradas e barricadas erguidas.

Por fim, repito e repetirei que a anarquia não é enjaulável em meio universitário para sua dissecação e processo classificatório enfadonho. A criatura busca saciar sua sede de liberdade, igualdade e justiça no sangue das pessoas exploradoras e opressoras de forma direta, quem ousar intervir, será sua refeição.

Na luta somos dignas e livres!

anarkio.net

agência de notícias anarquistas-ana

para medir o calor
do dia, olhe o comprimento
do gato que dorme

James W. Hackett

[México] Novidade editorial: “Perspectiva revolucionária de Ricardo Flores Magon | Um projeto de luta por terra e liberdade”, de Marcelo Sandoval Vargas

Resenha

Por que escrever novamente sobre o Magonismo e, particularmente, sobre a perspectiva revolucionária de Ricardo Flores Magón? Já não se disse tudo sobre seu pensamento e sua vida militante? Um argumento que poderia ser facilmente usado, até um pouco óbvio, é que o objetivo é recuperar a relevância de suas reflexões porque elas podem encontrar relevância nas condições atuais do capitalismo. Seria até mesmo um lugar-comum dizer que o objetivo é reconhecer as práticas políticas, as formas de organização e a estratégia revolucionária que elas forjaram, analisá-las à luz das possibilidades de criar um novo horizonte de luta, com a pretensão de dar vitalidade a um novo projeto comunista anárquico. Em contraste, com este livro não quero reproduzir uma visão que se concentra em um lugar-comum que quase nada nos diz sobre a memória dessas experiências e não contribui para a criação de uma constelação com os momentos subsequentes para a compreensão do mundo que está em curso.

Perspectiva revolucionaria de Ricardo Flores Magon | Un proyecto de lucha por tierra y libertad

Autor: Marcelo Sandoval Vargas

Editora: Universidade de Guadalajara

Número de páginas: 184

Preço: US$ 200

isbnmexico.indautor.cerlalc.org

Tradução > Liberto

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Uma chuva leve.
João-de-barro feliz
Quer barro fresquinho.

Eric Felipe Fabri

[Espanha] Buñuel, notas sobre o anarquismo

Mi último suspiro. Luis Buñuel.
ISBN: 9788430619870. Editorial Taurus

“Mi último suspiro”, as memórias de Luis Buñuel contadas ao roteirista Jean Claude Carriérre, fruto de dezoito anos de trabalho e amizade entre ambos. Juntos fizeram seis obras mestras do cinema: Diario de una camareraBelle de jourLa Vía LácteaEl discreto encanto de la burguesía, El fantasma de la libertad e Ese oscuro objeto del deseo.

O livro nasceu espontaneamente de suas entrevistas na Espanha e México durante os intervalos das sessões de trabalho; um evocando suas recordações e o outro reunindo as palavras do amigo e anotando-as.

“Mi Último suspiro” junta a voz e as próprias palavras de Luis Buñuel, e nos dá uma particular visão do genial cineasta e de seu mundo mais pessoal. Nele conta alguns detalhes sobre sua relação com o anarquismo, para o qual teve uma posição mais ambivalente:

1) “Sacco e Vanzetti acabavam de ser assassinados nos Estados Unidos. Comoção em todo o mundo. Durante toda a noite, os manifestantes se fizeram donos de Paris. Eu fui à l´Etoile com um dos eletricistas do filme (L´Age d´Or) e ali vi uns homens apagar a chama do soldado desconhecido mijando nela. Quebravam-se as vitrines, tudo parecia estar em efervescência. A atriz inglesa que interpretava o filme me disse que haviam atirado no vestíbulo de seu hotel. O Boulevard Sebastopol foi especialmente castigado. Dez dias depois, ainda se detinham suspeitos de saque” (p. 91).

2). “Eu falo do grupo de Bonnot, a que adorava, de Ascaso e de Durruti que escolhiam suas vítimas cuidadosamente, dos anarquistas franceses de finais do século XIX, de todos os que quiseram dinamitar um mundo que lhes parecia indigno de subsistir, lançando-o aos ares. A esses os compreendo e, muitas vezes os admiro. Mas ocorre que entre minha imaginação e minha realidade há no meio um profundo fosso, como ocorre à maioria das pessoas. Eu não sou nem nunca fui um homem de ação, dos que põem bombas e, ainda que às vezes me sentia identificado com esses homens, nunca fui capaz de imitá-los” (p. 123).

3). “Durante a guerra civil, quando as tropas republicanas, com a ajuda da coluna anarquista de Durruti, entraram no povoado de Quinto, meu amigo Mantecón, governador de Aragão, encontrou uma ficha com meu nome nos arquivos da guerra civil. Nela me descreviam como um depravado, um viciado em morfina abjeto e, sobretudo, como autor de Las Hurdes, filme abominável, verdadeiro crime de lesa pátria. Se me encontrassem, deveria ser entregue imediatamente às autoridades falangistas e minha sorte estaria dada.” (p. 138).

4). “Gostei de El tesoro de Sierra Madre, de John Huston (baseada na obra homônima de B. Traven), que foi rodado muito perto de San José de Purúa. Huston é um grande diretor e um personagem muito exuberante. Se Nazarín foi apresentado em Cannes, se deveu em grande parte a ele. Tendo visto o filme no México, passou toda a manhã telefonando à Europa. Não o esqueci” (p. 219).

5). Também conta que em 1933 esteve ocupado no projeto de rodar na Rússia uma adaptação de “Las cuevas del Vaticano“, projeto pelo qual se entrevistou com seu autor, André Gide, mas que este lhe disse que estava muito lisonjeado pela atenção do governo soviético mas que ele não sabia nada de cinema, e que em pouco tempo se fechou de um dia para outro (p. 136).

Pepe Gutiérrez-Álvarez

Fonte: http://acracia.org/bunuel-notas-sobre-el-anarquismo/

Tradução > Sol de Abril

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Rogério Martins