[França] Contra o produtivismo

Há muito tempo se reconhece que precisamos produzir menos. No entanto, o princípio por trás da ideia de que devemos trabalhar mais é produzir mais.

A deliciosa contradição é que Macron alega estar “fazendo sobriedade”, para bancar (mal) o ecologista; enquanto promove a regra de produzir qualquer coisa, desde que sature o mercado, que venda (um pouco) e que alimente os lucros dos capitalistas. Teatro e não o melhor!

No topo dessa contradição, o objetivo declarado dessa lei é trabalhar mais para “produzir mais riqueza”.

Querer produzir infinitamente e pensar em crescimento infinito é ser louco ou economista, como costumamos dizer. Produzir pelo simples fato de produzir, porque é necessário. Isso nos prende para o resto da vida em empregos inúteis e de baixa qualidade ou na produção de objetos dos quais podemos prescindir; ao contrário dos empregos de baixa qualidade que raramente são procurados em si mesmos, mas dos quais não podemos prescindir. Portanto, precisamos reduzir a produção do supérfluo induzida pelos empregos de merda e distribuir melhor o ônus comum que nos parece indispensável no momento.

Um argumento que poderia nos favorecer, mas que é um falso amigo, é o seguinte: o progresso técnico e os robôs estão se desenvolvendo, o que nos permite economizar trabalho, portanto, vamos reduzir nosso tempo de trabalho e tributar os robôs. Isso está confundindo o deslocamento das mudanças na produção com a substituição da máquina pelo ser humano: um trabalho robotizado pode muito bem aumentar a carga de trabalho e/ou o tempo de trabalho em vez de reduzi-lo!

Todo o debate sobre os critérios de penosidade também tende a nos fazer acreditar que existe uma penosidade aceitável, aquela que não se encaixa nos famosos critérios, e outra que pode ser compensada (financeiramente e de forma irrisória), enfatizando o fato de que o que é penoso é o que é visível, uma forma de desviar as reivindicações sobre as condições de trabalho.

Os patrões, tendo o monopólio dos principais meios de produção, podem direcionar os frutos da produção para seu próprio lucro à vontade. Roubando o tempo de vida, ele quer nos subjugar até a morte, daí a batalha que está travando contra as aposentadorias (por meio de seus afiliados governamentais e parlamentares). Por meio da distribuição em massa, o capitalismo tem os meios para nos fazer consumir. Ele está em seu papel quando nos vê como consumidores, enquanto grande parte de nossos gastos é com bens de consumo, que são confundidos com o consumo cotidiano.

Fonte: http://www.cnt-ait.fr/contre-le-productivisme/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Uma borboleta
Beija uma flor murcha
Sobre a lousa fria

Edson Kenji Iura

O futuro da nossa corrente: carta aos lutadores do povo e militantes revolucionários

Por Antônio Galego

“Podem estar certos de que o trabalho não será perdido — nada se perde neste mundo — e as gotas de água, por serem invisíveis, nem por isso deixam de formar o oceano.” Mikhail Bakunin

A situação política nacional teve mudanças significativas na última década. Há dez anos atrás estávamos na véspera da insurreição popular de junho de 2013, num contexto social e político explosivo, em que uma semana valia mais que um ano. Desde então houveram mudanças gerais nos agrupamentos das classes e na correlação das forças políticas no Brasil. Vivemos hoje a maior crise da classe trabalhadora e do socialismo desde a redemocratização, uma situação de isolamento e fragmentação que não atinge apenas as organizações anarquistas mas também todas as forças socialistas autênticas, somadas à diminuição desde 2016/2017 do número de greves (série histórica do Dieese) e de ocupações de terras (CPT) e ao fortalecimento do autoritarismo estatal e da exploração dos trabalhadores (seja em seu modelo conservador ou desenvolvimentista). Enfim, vivemos uma situação histórica de defensiva do proletariado.

Nos dirigimos aqui aos velhos e novos militantes que ainda se mantém firmes nas ideias socialistas revolucionárias e na luta classista. Nosso objetivo aqui é apresentar um balanço do último período, tendo como base a experiência em organizações que ajudamos a construir, em especial a UNIPA (União Popular Anarquista) e a FOB (Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil), com base também em análises de conjuntura e das diferentes tendências do movimento de massas. A partir disso pretendemos traçar linhas gerais para a retomada de uma atuação classista e revolucionário. Não haverá futuro se não entendermos nosso passado, onde estão os acertos e erros, não só aqueles que viveram e que acumularam cicatrizes físicas e emocionais, mas também aos jovens militantes.

De onde viemos? De uma trajetória de duas décadas de militância no Distrito Federal, que passam pela formação do MPL (com participação no encontro nacional de 2006, organização de protestos, trabalho de base, etc.), os encontros contra as reformas neoliberais e a formação da Conlutas, intervenção e ruptura com a Conlutas, fundação e expansão da RECC (Rede Estudantil Classista e Combativa), participação das jornadas de 2013, fundação e estruturação da FOB, e uma militância de linha bakuninista desde 2007 através da UNIPA. Não se trata de listar esses fatos como argumento de autoridade, isso seria ridículo (deixamos isso aos vaidosos e pós-modernos do “lugar de fala”), mas ressaltar que as reflexões que seguem são frutos de uma militância real, anônima e compromissada com a causa do povo.

Pensada coletivamente, essa trajetória do início dos 2000 até mais ou menos 2017 apresentou uma certa constância e evolução, quantitativa e qualitativa, com o crescimento nacional do bakuninismo e de uma corrente sindicalista revolucionária, basicamente por conseguir dar respostas corretas às conjunturas e problemas concretos enfrentados nacionalmente e localmente no trabalho militante. O auge da atuação bakuninista foi no levante de 2013. Mas ao longo do governo Temer, e relacionado a um refluxo das lutas que vem desde então, os erros e desvios (políticos, teóricos e organizativos) ficaram cada vez maiores até que se tornarem insustentáveis durante os anos de pandemia e de governo Bolsonaro. As organizações UNIPA e FOB não são mais aquelas que nos doamos de corpo e alma na primeira década dos anos 2000.

Assim, se por um lado partimos da experiência em organizações concretas, e faremos aqui um balanço de seus erros e acertos, por outro não nos limitamos a elas. Essa não é uma carta à UNIPA e a FOB nem aos seus membros. É uma carta aos socialistas revolucionários de forma geral, sobre a crise e o futuro da nossa corrente. E, se, por muitos anos disputamos internamente essas organizações, e desde a nossa ruptura permanecemos em silêncio, achamos que agora é hora de romper esse silêncio, o contexto político exige um posicionamento.

Entendemos nosso esforço com pé no chão, sabemos de nossas limitações (orgânicas e conjunturais), não temos a pretensão de dar resposta sobre tudo, sabemos que o desafio é do tamanho do problema. Nosso esforço é apenas uma parte que se junta a outros esforços valorosos que estamos acompanhando com atenção, que se não estão em completo acordo conosco, perseguem com algumas diferenças o mesmo objetivo ou respondem a inquietações e perguntas muito similares às nossas. Diante do contexto atual, o dever básico dos revolucionários é não se desesperar, lamber a ferida, aprender com os erros e recomeçar a luta.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://oamigodopovo.noblogs.org/post/2023/05/23/o-futuro-da-nossa-corrente-carta-aos-lutadores-do-povo-e-militantes-revolucionarios/?fbclid=IwAR1ns8chEK1keI08DWgn1Msi7BVgSB7JA-pJyz7Zx0GIFOSyJN7JxFE6pZo

agência de notícias anarquistas-ana

E tu, aranha
como cantarias
neste vento de outono?

Matsuo Bashô

[Itália] Boicotemos a festa antimilitarista do dia 2 de junho

Todo dia 2 de junho, a República se celebra com exibições, desfiles e comemorações militares.

Essa comemoração, que sempre esteve impregnada de nacionalismo, também assume uma conotação explicitamente militarista a cada ano que passa.

Este ano, o governo fascista em exercício acelerará ainda mais esse processo. Guerras, estupros, ocupações de terras, bombardeios, torturas, toda a amostragem de horrores humanos, quando executados por homens e mulheres uniformizados, tornam-se legítimos, necessários, oportunos, heroicos. Os uniformes de parada, as bandeiras, as medalhas não são o mero legado de um passado que é mais retórico e magniloquente do que o nosso presente, mas a representação sempre presente que o Estado dá de si mesmo.

A Itália está em guerra: há cerca de quarenta missões militares no exterior que veem o exército italiano diretamente em campo, e das bases militares da OTAN e dos EUA localizadas em solo italiano, drones voam todos os dias para gerenciar a inteligência do exército ucraniano. E não é só isso: a poucos passos de nossas casas, são produzidas e testadas armas usadas em guerras em todos os lugares. As tropas italianas as utilizam em missões de “paz” no exterior, as indústrias italianas as vendem para países em guerra. Essas armas já mataram milhões de pessoas, destruíram cidades e vilarejos e envenenaram irreparavelmente territórios inteiros.

Os militares também estão cada vez mais presentes nas ruas de nossas cidades, em bairros onde a subsistência é cada vez mais difícil, onde as fileiras de sem-teto, sem renda e precários estão crescendo. Eles servem para prevenir e reprimir qualquer insurgência social, para silenciar qualquer pessoa que se rebela contra uma ordem social cada vez mais rígida. As funções policiais e militares estão cada vez mais entrelaçadas. As intervenções de guerra através das fronteiras e nas fronteiras são consideradas operações policiais, enquanto o uso das forças armadas com funções de ordem pública se tornou “normal”: a distância entre a guerra interna e externa está desaparecendo. Com a pandemia, as forças armadas receberam funções que até então eram exclusivas da polícia: a osmose está completa.

Bairros, escolas, universidades, praças, locais de trabalho: agora não há esfera social a salvo da crescente maré militarista. A guerra que está sendo travada na Ucrânia deu mais um impulso dramático para um rearmamento mundial – incluindo a Itália – cujo fim não está à vista e cujo resultado é imprevisível.

Opor-se a tudo isso é uma necessidade inevitável. É por isso que apelamos a todas as realidades antimilitaristas, que lutam contra as guerras e todos os nacionalismos e imperialismos, para que deem vida a iniciativas generalizadas de oposição às comemorações de 2 de junho.

Assembleia antimilitarista

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

canta bem-te-vi
sol por todo o lado
natureza sorri

Carlos Seabra

[Rússia] Sentença confirmada para o primeiro ataque incendiário a um escritório de alistamento militar russo: 13 anos de prisão

Kirill Butylin realizou o primeiro ataque incendiário conhecido em um escritório de alistamento militar após o início da invasão russa em grande escala na Ucrânia. Em 28 de fevereiro de 2022, o jovem jogou coquetéis molotov no escritório de alistamento na cidade de Lukhovitsa, na região de Moscou. Antes, havia pintado os portões do escritório com as cores da bandeira ucraniana e escrito: “Não irei matar meus irmãos!” Kirill conseguiu enviar o vídeo de sua ação e seu manifesto anti-guerra para a internet, mas foi detido logo depois.

Em 15 de março, o Tribunal Militar Regional Ocidental condenou Kirill Butylin por três crimes: “vandalismo” (Parte 2, Artigo 214 do Código Penal da Federação Russa), um “ato terrorista” (Ponto “c”, Parte 2, Artigo 205 ) e “propaganda terrorista” (Parte 2, Artigo 205.2). Butylin foi condenado a 13 anos de prisão: os primeiros três anos ele deveria passar em uma prisão de alta segurança e os demais em uma colônia penal estrita.

No dia 17 de maio, o Tribunal Militar de Recursos considerou o recurso da defesa contra a sentença imposta. Conforme transmitido do tribunal pela SOTAvision, durante a audiência, o próprio Kirill se manifestou contra a guerra na Ucrânia e também disse que a Rússia era reconhecida como um estado terrorista e, portanto, não se importava com suas leis. As palavras finais de Butylin ao tribunal terminaram com a frase: “Glória à Ucrânia!”

O Tribunal de Recurso manteve a decisão original inalterada e impôs a sentença na íntegra.

Zona de solidariedade lembrou que ataques incendiários a escritórios de alistamento militar não constituem terrorismo. Mesmo sob as leis russas. Neste e em outros casos de motivação política semelhante, as autoridades russas estão tentando justificar seus próprios atos criminosos na Ucrânia com as duras sentenças que estão aplicando aos opositores da guerra.

Você pode escrever para Kirill Butylin, embora ele tenha dito que atualmente é difícil para ele responder do centro de detenção onde está. No entanto, ele ficará feliz em receber cartas e notícias.

Endereço para cartas: Rússia, 107996, Moskva, ul. Matrosskaya Tishina, m. 18,  SIZO-1, Butylin Kirill Vladimirovich 2001 g.r.

É possível enviar via serviço eletrônico “FSIN-pismo” (envio de qualquer lugar do mundo, sujeito a pagamento com cartão russo) e recurso voluntário “Rosuznik” (envio de qualquer lugar do mundo e possibilidade de permanecer anônimo ).

Fonte: avtonom.org/en/news/sentence-confirmed-first-arson-attack-russian-military-enlistment-office-13-years-prisionment

Tradução > Contrafatual

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O luar no mar.
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.

Jacy Pacheco

[Suécia] Feira do Livro Anarquista de Estocolmo, 3 e 4 de junho

Saudações, Amigos, Amigas, Camaradas, cúmplices, co-conspiradores e co-conspiradoras.

Como de costume, teremos a feira do livro no primeiro final de semana de junho de 2023, que será nos dias 3 e 4 de junho de 2023.

A feira do livro acontecerá no centro comunitário social Cyklopen em Högdalen, Estocolmo.

Terão oficinas, palestras, reuniões, assembleias e, é claro, os melhores livreiros e vendedores de produtos anarquistas do norte da Europa!

A Feira do Livro Anarquista de Estocolmo é um fórum para o desenvolvimento do movimento anarquista e uma oportunidade de polinização cruzada de ideias de diferentes partes do movimento. Queremos que as pessoas se conheçam e criem as relações que constroem um mundo livre de toda forma de opressão e de coerção.

Com amor e raiva!

Feira do Livro Anarquista de Estocolmo

>> Mais infos: www.anarchistbookfair.se

agência de notícias anarquistas-ana

de verde encolhido,
outonal silêncio
de lourinhos calados.

Saint-Clair Cavenaghi

[São Paulo-SP] “Autobiografia de um Gigante Ah! (Não)”

No dia 03 de junho, sábado, às 16h, o Centro de Cultura Social (CCS) em parceria com o LIMA (@limaanarquista) receberá José Maria Carvalho Ferreira, de Portugal, para o lançamento do seu livro “Autobiografia de um Gigante Ah!(Não)” e um bate-papo sobre “Anarquia, TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) e comportamento humano”. O evento será presencial, aberto e gratuito.

Autobiografia de um GiGANTE Ah! (Não)

Zé Maria, embora de baixa estatura, é de facto um gigante. A sua vida é feita de lutas permanentes. Todas elas têm a sua própria história, por sua vez, notável, mas refletem sempre o personagem. Um personagem que desafia barreiras sociais. Ignora obstáculos. Despreza problemas financeiros.

Conteúdo relacionado:

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/05/17/portugal-lancamento-do-livro-utopia-anarquia-e-sociedade-escritos-em-homenagem-jose-maria-carvalho-ferreira/

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No campo queimado
ainda uma leve fumaça
Tronco resistindo

Eunice Arruda

[Espanha] Tatu Circus Valência: 2, 3 e 4 de Junho

No primeiro fim de semana de junho (2, 3 e 4) acontecerá mais uma edição da TATU CIRCUS VALÊNCIA na ocupa CSOA L’Horta (C/Diógenes López Mechó).

Durante esses 3 dias acontecerão: palestras, espetáculos, rifas, comidas, distribuidoras de materiais, piercings, tatuagens, cabeleireiros e possivelmente mais coisas. Tudo o que é necessário para poder financiar a luta anticarcerária e para imaginar mais facilmente um mundo sem prisões, sem estado e sem nenhum tipo de autoridade ou dominação.

Como em qualquer outro Tatto Circus, toda a arrecadação é direcionada para a luta contra as prisões e para questões antirrepressiva em geral, ninguém lucra sob este tipo de eventos e se participa na qualidade de militante e solidária. A essência mesma do evento não tem que ver tanto com a cultura da tatuagem, dos piercings e demais, mas fazer um evento social de grande escala com o qual fazer divulgação libertária e gerar os laços necessários para uma solidariedade revolucionária.

>> Mais infos: https://tatucircusvalencia.noblogs.org

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A vasta noite
não é agora outra coisa
se não fragrância.

Jorge Luis Borges

O Teto de Gastos de Lula/Alckmin e a antiga forma de renomear coisas velhas com ares de novidade

Ao contrário do que a esquerda institucional quer vender, é importante afirmarmos o verdadeiro caráter do chamado Arcabouço Fiscal, já renomeado para Nova Regra Fiscal. Trata-se de mais um ataque neoliberal para implementar um teto de gastos públicos que perpetua, independentemente da cor da tinta da caneta que assina, a desigualdade e a exploração econômica. A nova regra encabeçada por Haddad e chancelada pelo governo Lula/Alckmin mantém intactos mecanismos do anterior Teto de Gastos, que beneficiam as classes dominantes em detrimento dos mais vulneráveis, mantendo a concentração de riqueza e as restrições para os investimentos públicos para drenar recursos do orçamento público do país, para garantir aos rentistas o pagamento dos juros da dívida pública. A medida foi aprovada na Câmara em caráter de urgência, e segue para o Senado.

Um dos principais problemas é o aprofundamento da desigualdade da carga tributária imposta à população. Enquanto trabalhadoras e trabalhadores são obrigados a arcar com uma parcela significativa de seus rendimentos para pagar impostos, as grandes corporações e os indivíduos mais ricos encontram inúmeras brechas e isenções fiscais para escapar dessa cobrança. Essa disparidade na tributação reforça a concentração de riqueza e faz aumentar o abismo entre a classe trabalhadora e as classes dominantes. Soma-se a isso um importante dado da realidade. No último período, diversos conglomerados empresariais receberam privilégios de isenção fiscal com o aval dos patrocinadores do Congresso Nacional.

Além disso, e talvez seja o ponto principal, o novo arcabouço fiscal do governo Lula-Alckmin ataca os serviços públicos para manter os lucros de banqueiros e desses grandes empresários. Esse mecanismo é mais uma semente plantada para justificar futuras medidas que aprofundam a precarização do trabalho e dos serviços públicos, com a terceirização e as privatizações. Para aprovar a medida, o governo vendeu ainda mais a alma para o Centrão, como já se previa, o que, na prática, levará ao congelamento de verbas que sucateará ainda mais a Saúde, a Educação, a Ciência etc.

Esse puxadinho do Teto de Gastos de Temer cria regras duras e metas, como zerar o déficit público em 2024. Caso as metas não sejam cumpridas, ficam proibidos a criação de cargos públicos e a realização de concursos, aumento de despesas com pessoal, como salários, por exemplo, o aumento de benefícios como o Bolsa Família, entre outras sanções. Mesmo o Fundeb e o Piso da Enfermagem foram incluídos na regra do novo teto. Com o menor espaço para gastos públicos, é certo que teremos aumentos da carga tributária para trabalhadoras e trabalhadores e um sucateamento mais profundo dos serviços públicos, com a velha solução mágica da privatização.

Há uma ilusão conciliadora que é a raiz do jeito petista de fazer política. O governo e sua base de apoio acreditam que, ao entregar tudo o que o mercado e a burguesia desejam, irão convencer os presidentes do Banco Central (Roberto Campos Neto) e do Congresso Nacional (Arthur Lira) a contrariarem seus parceiros e patrocinadores. A estratégia de acordo e conciliação petista já nasce fracassada, pois trabalha com a ilusão de que esse campo pode ser convencido a nadar contra as medidas neoliberais, entreguistas e antipovo que estão em seu DNA.

Não podemos cair no velho discurso da desmobilização para evitar o mal maior! Nem seguir a linha de grandes centrais, como a própria CUT, que atua como correia de transmissão do governo ao apoiar o texto original, que não traz nenhuma vantagem à classe trabalhadora. E pior, prepara o futuro para o retorno oportunista da extrema direita, ao implementar a chantagem neoliberal e desmobilizar as bases sociais. O governo Lula/Alckmin mal chegou a 6 meses e o que vemos é apenas publicidade e implementação de políticas que atacam trabalhadores – tal como os governos anteriores, mas com uma roupagem mais simpática. É preciso construir desde já a mobilização contra esses ataques, com independência de governos e patrões!

Coletivo Mineiro Popular Anarquista (COMPA)
Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)
Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL)
Rusga Libertária

https://anarquismosp.wordpress.com

agência de notícias anarquistas-ana

folhas no quintal
dançam ao vento
com as roupas do varal

Carlos Seabra

[Espanha] Da sopa de pedras ao espaguete à Bakunin: o encontro inesperado da culinária com o anarquismo

Restaurantes como La Mandrágora e La Llibertària mantêm viva a ideologia anarquista na cozinha.

Por Adriana Calvo Solís

Comer também é um ato político e, como tal, pode ser expresso por meio da ideologia anarquista. O cientista político Pablo Simón explica exatamente em que ela consiste: “O anarquismo surgiu em meados do século XIX e propõe que o indivíduo é a medida de todas as coisas e que, portanto, qualquer forma de hierarquia ou autoridade que acabe minando os princípios da liberdade deve ser suprimida”.

De acordo com o sociólogo Nelson Méndez em seu livro Anarquismo e Gastronomia (2021), uma das primeiras obras anarquistas que estabelece relação com a gastronomia é A Conquista do Pão, escrita em 1892 por Piotr Kropotkin.

Perguntamos a Salvador Méndez, filho de Nelson, como o setor de alimentos seria organizado em um sistema baseado nessas ideias libertárias: “Não haveria relações de opressão, seja pelo Estado ou pelo mercado, que são os principais pilares contra os quais o anarquismo se levantou. Em vez disso, ele buscaria criar relações de igualdade e solidariedade em todo o processo gastronômico”.

Para entender melhor isso, Pablo Simón dá o exemplo da típica tortilha espanhola: “Um conservador pensaria que a tortilha de batata deve ser protegida, enquanto um liberal diria que a tortilha de batata deve ser bem vendida para que as pessoas a consumam, e um socialista diria que a humildes de batata deve ser com cebola ou sem cebola, dependendo da produção de cebola que tivemos naquele ano”.

Na Península Ibérica, o anarquismo se espalhou entre o último terço do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Durante esse período, podemos ver seu reflexo no setor gastronômico. “As ideias anarquistas na Espanha começaram a se popularizar por causa da fome e se expressaram sobretudo através do anarcossindicalismo, nos congressos da CNT, na criação de sindicatos de garçons, trabalhadores de sementes, leiteiros, pescadores…”, diz Salvador.

De fato, em 1937, a CNT e a FAI publicaram uma revista gráfica da indústria gastronômica, na qual incluíram uma seção com receitas para tempos de guerra, na qual propunham “cardápios de guerra”. Em outras palavras, pratos com ingredientes humildes para alimentar o maior número possível de pessoas. Por exemplo: uma sopa vegetariana para 100 pessoas, arroz com bacalhau para 500 comensais ou a tradicional escudella camperola para 300.

Hoje em dia, em nosso país, continuamos a encontrar iniciativas anarquistas que estabelecem esse diálogo com a gastronomia. É o caso do La Llibertària, um bar em Barcelona que, além de servir comida e bebida, homenageia o movimento anarquista da cidade. Em seu interior, há um pequeno museu da história do anarquismo: “Há pedaços de jornais, fotografias da Barcelona da época e do movimento operário, fotografias do meu avô e do meu pai em uma reunião sindical em um bar…”, descreve Sergio Gil, proprietário do bar e antropólogo social especializado na análise de bares e restaurantes.

La Llibertària – que fechou devido à pandemia e reabriu suas portas nesta quinta-feira – compartilha o espaço com a Fundación Restaurantes Sostenibles, uma organização que promove o ambientalismo e a sustentabilidade no setor de restaurantes. Por exemplo, trabalhar com ingredientes que respeitem a natureza, proteger a biodiversidade, colocar as pessoas no centro ou colaborar com pequenos agricultores e pescadores, entre outros objetivos.

Mas há um lugar em Valência que vai um passo além: no restaurante La Mandrágora, todos os funcionários recebem o mesmo salário, o preço do cardápio é livre e, às terças e quintas-feiras, eles cedem as instalações a grupos sociais para arrecadar dinheiro para causas beneficentes. “Nós nos organizamos de forma horizontal e em assembleia, temos funções que mudam constantemente”, diz Antoni, um dos membros da associação. Embora eles também estejam cientes das inevitáveis contradições: “Embora nos definamos como um espaço libertário e sejamos contra o trabalho assalariado, precisamos de dinheiro para viver, esse ainda é o nosso trabalho, mas, na medida do possível, tentamos nos sentir o mais confortável possível e tratar uns aos outros da melhor forma possível”.

Da mesma forma que na Argentina o Sindicato de Padeiros preparou doces para criticar o clero e o exército, em La Mandrágora eles criaram uma sobremesa chamada “brazo de madero” (braço policial), inspirada no famoso brazo de gitano, que tem como objetivo denunciar o abuso policial. Outra receita “anarquista” curiosa foi criada pelo pintor siciliano Vella, que dedicou um prato de espaguete com sardinhas – muito usado na Sicília – e tomate ao russo Mikhail Bakunin, dando ao ensopado a cor avermelhada da rebelião.

Mas talvez a refeição anarquista perfeita seja a proposta por Mina Vivas, esposa de Nelson: a chamada sopa de pedras. Essa expressão é usada na Venezuela quando não se tem nada para cozinhar e vem de uma fábula de 1720 que incentiva a cooperação em face da escassez. É assim que Mina conta a história: “Uma pessoa fica em uma praça com uma panela de água e três pedras dentro. Depois de algum tempo, alguém chega e pergunta o que ele está fazendo, ao que ele responde: ‘Estou fazendo uma sopa de pedra porque não tenho mais nada para colocar nela’. Então essa pessoa vai e pega uma cebola, depois outra vem e lhe dá uma cenoura, depois outra vem e lhe dá tomates, depois pepinos. Toda a comunidade colabora e, no final, a utopia da sopa de pedra é celebrada”.

Fonte: https://cadenaser.com/nacional/2023/05/03/de-la-sopa-de-piedras-a-los-espaguetis-a-la-bakunin-el-inesperado-encuentro-entre-cocina-y-anarquismo-radio-madrid/

Tradução > Liberto

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/12/23/espanha-gastronomia-anarquista-e-de-guerra/

https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/11/12/russia-anarquistas-de-sao-petersburgo-cozinhando-uma-revolucao-vegana/

agência de notícias anarquistas-ana

Porque não sabemos o nome
Tenho de exclamar apenas:
“Quantas flores amarelas!”

Paulo Franchetti

[Itália] Acampamento antimilitarista anarquista

Francavilla Fontana, 1 a 3 de junho de 2023

Por que um acampamento antimilitarista?

O militarismo é uma relação social e como tal invadiu todas as esferas da vida. Das escolas às universidades, das línguas aos centros de investigação, da gestão da saúde ao controle territorial, passando pelas missões militares de guerra ou do colonialismo energético, o militarismo estendeu as suas ramificações a todo o mundo existente, tal como as metástases de um câncer atingem todo um organismo vivo. Se a figura do soldado é o símbolo da guerra, quando ele está em toda parte significa que a guerra está em toda parte e que o mundo em que vivemos está constantemente em guerra; uma guerra que se trava contra alguém, e esse alguém já não é apenas o combatente do exército estrangeiro, mas todos aqueles que tentam resistir ao avanço do militarismo que querem colocar no nosso pensamento:

A Apúlia, uma prótese geográfica no Mediterrâneo em direção ao Oriente Médio, é um território particularmente militarizado, no qual existem quartéis operacionais como os das bases da OTAN de Amendola e Gioia del Colle e tropas de elite como o batalhão de San Marco. A área de Taranto, especificamente, representa o emblema do militarismo na Puglia, com a base naval da OTAN “Chiapparo”, onde estão estacionados submarinos nucleares, e os centros de pesquisa de Leonardo – um dos maiores produtores de armas do mundo – em Grottaglie, em cujo aeroporto serão construídos e testados drones de combate e onde será construído o primeiro espaçoporto italiano, um projeto inicial para o colonialismo espacial e para as guerras do futuro.

Um acampamento antimilitarista na área de Taranto não é apenas uma escolha simbólica, mas uma oportunidade para analisar as várias faces que o militarismo assume hoje – mesmo as menos óbvias – e para discutir os possíveis métodos de oposição, entre a história de experiências passadas e perspectivas futuras.

O acampamento será realizado no município de Urupia, Contrada Cistonaro 1, Francavilla Fontana (Br).

Contato: camping2023@riseup.net

Fonte: https://lanemesi.noblogs.org/post/2023/04/18/campeggio-antimilitarista-anarchico-francavilla-fontana-1-3-giugno-2023/

Tradução > Contrafatual

agência de notícias anarquistas-ana

o coqueiro coqueirando
as manobras do vermelho
no branqueado do azul

Guimarães Rosa

[Espanha] A (incrível) história de Hildegart Rodríguez

A história de Hildegart Rodríguez (codinome de Carmen Rodríguez Carballeira) é de fato incrível, por vezes a realidade supera a ficção e foi o que aconteceu no país que chamamos de Espanha; um ser vivo concebido para ser moldado a um objetivo específico. Hildegart nasceu em Madri em dezembro de 1914; sua mãe Aurora, desde o momento da sua concepção decidiu que Hildegart seria um modelo para a transformação radical da sociedade, para a revolução sexual, a libertação do proletariado e, ironicamente, para a emancipação da mulher.

E desde cedo os métodos avançados de ensino de Aurora deram resultado; Hildegart foi desde tenra idade uma autêntica menina prodígio: com apenas 8 anos, já dominava vários idiomas e com 14 entra para a universidade para estudar Direito, acabou por ter três carreiras, pois também era jornalista e escritora, com uma infinidade de artigos e livros, além de atender a conferências ainda na adolescência. É preciso dizer que o sistema educativo de Aurora Rodríguez já havia funcionando antes, quando o empregou com seu sobrinho, que precocemente aprendeu a tocar piano com grande habilidade e acabou se tornando um famoso músico conhecido como Pepito Arriola.

Mas voltando a Hildegart Rodríguez e seu pensamento e atividades políticas, elas começam em 1928, aos 13 anos, ao acabar o bacharelado; é preciso dizer que se nesse momento apostou pelo socialismo, foi por influência de diversos professores universitários e pela CNT, o sindicato anarquista, que estava na clandestinidade durante a Ditadura de Primo Rivera; sua mãe Aurora, parecia querer que sua filha se juntasse ao anarquismo, mas respeitou sua decisão, esperando que sua própria evolução a levasse até o movimento libertário. Hildegart entrou para a Juventude Socialista e na UGT, sindicato ligado ao partido.

Em abril de 1931 quando a II República chegou a Espanha, surgiu um período de esperança que parecia abrir um horizonte mais próximo para transformação social e econômica de um país extremamente atrasado; no novo regime, conviveram diferentes setores políticos, mas a frustração das expectativas revolucionárias dos mais radicais, entre os quais se encontrava o movimento anarquista, não tardaria a surgir. Um jornal madrilenho, La Tierra, será um dos porta-vozes destes setores radicais, abertamente libertários (com a CNT como principal referência), de um republicanismo revolucionário crítico para com o desenvolvimento de certos acontecimentos, que pareciam ser maquiagem de uma mera mudança política sem revolução social.

Hildegart Rodríguez, em 1932, já estará fora do Partido Socialista, descontentou seus líderes com seu pensamento revolucionário; ainda que tenha recebido bem a República, logo considera que a política do partido não coincide em nada com seu pensamento transformador. Hildegart, já fora das fileiras socialistas, se converterá em colunista de La Tierra e escreverá numerosos artigos compartilhando a crítica já mencionada a timidez da República, e ao apoio, e apostando pela revolução social.

Se diz que outro motivo para a baixa de Hildegart do Partido Socialista foi a política de Largo Caballero, ministro do Trabalho, que beneficiava o sindicato aliado, a UGT, com a marginalização da CNT e sua principal linha de ação direta. Hildegart apostava também em uma frente sindical unida (algo que seria levado a prática anos mais tarde) e considerou, inclusive que a política repressiva do governo republicano era uma continuidade do regime anterior com a formação de uma nova força de ordem: a famosa Guardia de Asalto. Essa frente única, formada pela UGT e a CNT, encarnaria para Hildegart a síntese das tendências sindicalistas garantindo sua independência de qualquer partido, prescindindo de dirigentes e lutando em diversos âmbitos pela revolução social.

É preciso dizer que Hildegart, apesar de muitas críticas a Marx (o acusava de ter copiado a maior parte de seus pensamentos dos socialistas utópicos), se considerava um marxista sem partido; apesar disso, acreditava que a futura revolução na Espanha não seguiria a linha da doutrina de Marx, já que pensava, já havia se mostrado errada. Já foi dito que o pensamento de Hildegart podia encontrar-se no meio do caminho entre o socialismo revolucionário e o anarquismo com a militância no Partido Democrático Republicano Federal, dirigido por Eduardo Barriobero com certa afinidade com sectores anarcossindicalistas.

Aurora Rodríguez, mãe de Hildegart, professava um anarquismo de viés individualista e daí pode derivar as simpatias da filha para o campo libertário. Enquanto a, digamos, ortodoxia anarquista poderia desaprovar a militância de Hildegart em um partido político, ela considerava que a revolução seria interclassista; também, é preciso relembrar que Eduardo Barriobero, dirigente do partido citado, também era militante cenetista. A própria Hildegart explicou em um artigo que o PRDF onde militava não era um partido burguês, nem exclusivamente sindicalista; de alguma maneira, criticava assim a imposição de uma classe sobre a outra, também e preciso dizer que sem dúvidas apostava na luta de classes como fator histórico, assim como pela desaparição final do Estado (o que aproximaria o marxismo ao anarquismo).

Um dos fatores que atraiam Hildegart ao anarquismo era seu desejo por educar a classe trabalhadora, compartilhando elogios a publicações tão valiosas dos libertários. Outra tática viável para Hildegart era a ação direta, que colocava em oposição as leis sociais promovidas pelo Partido Socialista. É preciso dizer, no entanto, que Hildegart nunca se considerou totalmente anarquista, já que não desdenhava a tática parlamentarista, por exemplo, sempre que tiveram fins verdadeiramente revolucionários; apesar disso, acreditamos que se dizer que estava mais próxima da CNT, por considerá-la a organização que o país precisava para uma transformação social radical, para administrar as fábricas e a terra de maneira mais efetiva que o Estado.

O individualismo libertário teve também uma óbvia influência em Hildegart preservando assim a liberdade de pensamento e ação de cada um na sociedade; uma forma de preservar as melhores qualidades de cada indivíduo apoiar o coletivo. Apostava, como não poderia ser de outra maneira, pela solidariedade, mas que teria mais origem no biológico do que no social, e era uma decidida partidária da reforma de cunho sexual. Particularmente, acredito que falamos de uma figura importante e original no contexto da II República Espanhola, tratando de sintetizar socialismo, anarquismo e republicanismo federal dentro de uma estratégia decididamente revolucionária. Infelizmente, o final de Hildegart foi trágico, morta pela sua própria mãe, uma pessoa supostamente libertária, mas terrivelmente autoritária e assassina que havia dado a vida para moldá-la à sua vontade.

Aurora considerou que diversos fatores tratavam de afastar sua filha do seu lado; entre eles, uma possível paixão por um jovem advogado e um suposto complô internacional que Hildegart abandonaria a Espanha. Além disso, se para pai de sua filha Aurora escolheu um homem são e supostamente sem vícios, mais tarde descobriu que não era assim e que levava una vida de vícios, por isso estava convencida que sua filha poderia seguir o mesmo caminho; esta visão era parte de suas teorias eugenistas, segundo as quais somente deveriam se reproduzir os indivíduos saudáveis.

Com apenas 18 anos, em junho de 1933, Hildegart Rodíguez foi assassinada por sua própria mãe. Aurora Rodríguez se entregou voluntariamente a polícia para ser julgada e condenada a 26 anos de prisão; sempre defendeu que não foi presa por nenhuma loucura, algo que deu origem a todo um debate entre psiquiatras. Por exemplo, o reacionário Vallejo-Náera considerou que se tratava de um exemplo que as ideias progressistas levavam ao crime, algo absolutamente sem sentido. Quando em julho de 1936 acontece a insurreição militar, paralelamente estourava a revolução social e os milicianos abrem as portas das prisões, Aurora se viu em liberdade; em princípio se pensava que havia morrido na guerra, mas tempos depois seria descoberto que morreu de câncer nos anos 50 no centro psiquiátrico de Ciempozuelos.

Muito se escreveu sobre este caso. Eduardo Guzmán, jornalista libertário de enorme interesse (recomendo fervorosamente seus três livros de memórias), também foi redator do La Tierra, havia seguido o caso em seu desenrolar tratando, tanto da mãe quanto de Hildegart: escreveu em 1973 em Aurora de Sangre, que se estrutura através das três conversas que teve com Aurora Rodríguz na prisão feminina de Madri. É neste livro que se baseia o filme de 1977, escrito por Rafael Azcona e dirigido por Fernando Fernán Gómez, Mi Hija Hildegart, que não é uma obra perfeita, mas é de grande interesse. Para aprofundar o pensamento político dessa mulher, tristemente desaparecida muito jovem, recomendo o artigo “El pensamiento político de Hildegart Rodríguez“, em Germinal. Revista de Estudios Libertarios.

Capi Vidal

Fonte: http://acracia.org/la-increible-historia-de-hildegart-rodriguez/

Tradução > 1984

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entre as folhas
de um livro-de-reza
um amor-perfeito cai

Guimarães Rosa

[Bélgica] Milhares de instalações de petróleo e gás abandonadas no Mar do Norte, diz De Tijd

Milhares de instalações de petróleo e gás estão abandonadas no Mar do Norte, causando poluição e outros perigos. Fala-se em mais de 23.000 poços, cerca de 8.500 km de oleodutos e 62 plataformas de petróleo, informou De Tijd no sábado.

O jornal se uniu à organização holandesa Follow The Money e ao meio de comunicação norueguês NRK para mapear o “cemitério no Mar do Norte”.  O levantamento mostra que quase uma em cada dez plataformas de petróleo e gás no Mar do Norte não está mais em operação. Fala-se que centenas dessas infraestruturas deixarão de ser utilizadas nos próximos anos. Além disso, 20% de todas as tubulações que são construídas não estão mais em uso, assim como 85% dos poços. Essas instalações são de propriedade de grandes empresas como BP, Shell, Equinor e TotalEnergies.

No entanto, há uma obrigação internacional para que essas plataformas abandonadas sejam desmanteladas. Mas estes são frequentemente projetos tão dispendiosos e complexos que os proprietários beneficiam de derrogações por parte dos países em causa. O custo é estimado em 30 mil milhões de euros entre 2020 e 2030, tanto para empresas como para países onde as instalações permanecem offshore.

Fonte: https://www.rtbf.be/article/des-milliers-d-installations-de-gaz-et-de-petrole-a-l-abandon-en-mer-du-nord-selon-de-tijd-11200308

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No outono as folhas
Caem e o caminho
Tapete se transforma

Dalva Sanae Baba

Vídeo-teatro: “Kropotkin, uma visão feminina”, com Cibele Troyano

Dia 03/06, 16 horas, no Centro de Cultura Social Vira-Lata Caramelo, Santo André – SP

Kropotkin, uma visão feminina é uma peça de teatro, em formato de vídeo, composta por quatro cenas,  nas quais quatro mulheres que conviveram com Kropotkin contam a sua própria história e a dele.

São elas:

1- Uliana, governanta da família e que, após a morte de Catarina Kropotkin, mãe de Kropotkin, foi a principal responsável pela criação dele e de seu irmão Alexandre.

2 – Sophia Perovskaya, amiga de Kropotkin nos anos de sua juventude e condenada à morte por ter participado do assassinato do Czar Alexandre II.

3 – Sofia Anánieva Kropotkin, que foi a mulher e companheira de Kropotkin por mais de 40 anos.

4 – Catarina, a enfermeira que cuidou dele nos últimos meses de sua vida.

A exibição do vídeo, que tem duração de 45 minutos, será seguida de debate com Cibele Troyano, atriz e anarquista, que escreveu o texto e que interpreta as quatro mulheres.

Centro de Cultura Social Vira-Lata Caramelo

Rua Sumaré, 732, Vila Metalúrgica, Santo André – SP

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Hermética música
há no silêncio da lágrima
que salga o mar.

Fred Matos

[Espanha] Eu não voto, me organizo.

Eu não voto, não submeto minha vontade a políticos de nenhum governo.

Eu não voto, prefiro não fortalecer a partitocracia, abstenho-me ante a oligarquia dos partidos políticos e da podre social-democracia. Não pretendo colaborar com a indigna participação em um engano tão óbvio.

Eu não voto, prefiro não participar da mentira, da armadilha e do engano, para não legitimar regras do jogo endemicamente corruptas.

Eu não voto, não sou um indivíduo apático e passivo, me preocupo com as questões sociais que me afetam, assim como a meus companheiros, familiares, vizinhos etc. É por isso que opto por não ceder, por meio do direito de voto, nem minha voz nem o consentimento para agir em meu nome por meio de um sistema que é corrupto em sua raiz.

Eu não voto, não quero me manchar voluntariamente com o sangue, a tortura e a violência que podem ser praticados por Estados, bancos e exércitos (leis, prisões, orçamentos, corrupção, guerras…).

Eu não voto, não quero participar das decisões sinistras que, sem dúvida, serão tomadas em favor dos interesses empresariais contra a classe trabalhadora.

Eu não voto, não quero participar de um sistema que subsidia traidores profissionais, como partidos, sindicatos e suas lideranças.

Eu não voto, prefiro me organizar com outras pessoas de forma horizontal, como iguais, para lutar e poder mudar as coisas, praticando o assembleismo, a autogestão e a ação direta.

Eu não voto, não quero ser um servo passivo e delegar as questões importantes que dizem respeito à minha vida e aos meus coletivos a partidos políticos, empresas, bancos, entidades coorporativas e instituições remotas que não posso influenciar de forma alguma.

Eu não voto, nem acredito na história ridícula do voto útil ou do mal menor, não apoio nem escolho o mal em nenhum grau. Não me parece pouca coisa fazer o que considero certo em consciência e, portanto, começar retirando meu apoio moral e respeito por toda essa farsa.

Eu não voto, prefiro ter minha consciência livre de contribuir e reforçar esse sistema de servidão mediante minha participação eleitoral. Prefiro manter minha personalidade e, a partir daí, buscar alternativas, agir, criar, pensar fora e livre das amarras desse consenso podre.

Eu não voto, pois, ao não participar da farsa eleitoral, não dou meu consentimento, nem dou licença ou cheque em branco aos oligarcas de qualquer cor.

Eu não voto, não acredito na dicotomia das já inexistentes esquerdas e direitas, não acredito nas promessas absurdas da social-democracia, dos globalistas, dos pós-modernistas, dos liberais e de outros charlatães da moda, para a aceitação de seu jogo na sociedade e de suas regulamentações horríveis.

Eu não voto, a moral e as leis que prevalecem são produto do capital e da sofisticada rede de totalitarismo e corrupção instalada no Estado para controlar as massas por meio da sociedade de consumo capitalista e para enganar os mais insatisfeitos com a falsa ideia de reforma.

Eu não voto, prefiro exercer a responsabilidade e manter a decência.

Eu não voto, não negocio com terroristas.

SEU VOTO NÃO MUDA NADA,

SUA LUTA MUDA TUDO.

CNT-AIT Toledo

https://toledo.cnt-ait.org

NOTA: Em 28 de maio acontecem eleições regionais e municipais na Espanha.

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Por este caminho,
Ninguém mais passa —
Tarde de outono.

Bashô

[Espanha] 28M Abstenção ativa

As eleições municipais e regionais de 28 de maio de 2023 estão se aproximando em meio a um novo bombardeio de propaganda eleitoral. Nesse contexto, nós, trabalhadores e trabalhadoras, estamos nos perguntando o que fazer.

Por um lado, observamos como as opções políticas mais reacionárias estão se fortalecendo, enquanto a última legislatura colocou mais uma vez na mesa as limitações que as forças supostamente mais progressistas têm quando se trata de implementar políticas que ponham fim à constante degradação das condições de vida da classe trabalhadora.

Nós, libertários e libertárias, reafirmamos mais uma vez que a única saída para a grave crise para a qual o capitalismo está nos arrastando é a auto-organização da classe trabalhadora. Essa auto-organização deve ter vários objetivos. O primeiro é o desenvolvimento de práticas de apoio mútuo e ação direta que empreguem ao máximo a força da que dispomos para que a classe trabalhadora possa interromper a deterioração de nossas condições de vida em todas as áreas (trabalho, moradia, pensões, saúde etc.). Dessa forma, criar nossas próprias estruturas e espaços com valores antagônicos aos do Estado, do capital e da autoridade. São essas práticas de apoio mútuo, diante dos problemas cotidianos, e essas estruturas com as quais nós, a classe trabalhadora, nos equipamos, que podem nos permitir acumular a força necessária para avançar rumo à transformação social.

Essa é a direção que nós, anarcossindicalistas, damos ao sindicato e a razão pela qual, diante da via institucional, estamos comprometidos com a abstenção ativa e a auto-organização.

Você escreve o futuro quando se organiza para transformá-lo!

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/28m-abstencion-activa/

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Canta o bem-te-vi
no galho da goiabeira:
mesma saudação!

Ronaldo Bomfim

[Espanha] Lançamento: “Madri, vermelho e preto”, de Eduardo de Guzmán

Eduardo de Guzmán nos leva à Madri que surpreendeu o mundo e foi o orgulho da Espanha antifascista. Em seu estilo magistral, com o tom elevado de quem escreve uma reportagem de trincheira, vivendo e lutando ao lado do povo de Madri, ele documenta dia a dia a resposta dos trabalhadores ao golpe de estado fascista (18 de julho de 1936), o ataque ao quartel La Montaña, a coragem das milícias, que se tornariam a base do Exército Popular. Cada página vibra ao ritmo da luta para libertar Madri e as terras de Castela da barbárie nacional-italiana-alemã, já às portas da cidade naquele novembro histórico cuja defesa custou a vida de Durruti.

Ele descreve como a resistência e as colunas de Madri foram organizadas, irradiando-se dos sindicatos, ateneus, casas do povo, estações de rádio, organizações, bairros de trabalhadores… Ele transmite a coragem da Madri confederal e popular, que conquistou, à custa da vida de seus melhores militantes, uma muralha de corações. Grande parte do governo republicano fugiu para Valência. E sozinhos, com o apoio solidário dos povos da Espanha, dos voluntários e das Brigadas Internacionais, mostrou sua coragem de lutar pela liberdade e pela revolução social. Em pé de guerra, como um penhasco de resistência, os verdadeiros salvadores de Madri foram os trabalhadores.

Inclui um tributo inédito ao jornalismo de combate (escrito e gráfico) nas frentes de Madri. Eles arriscaram suas vidas para informar e levar a imprensa às trincheiras. Um bom número deles morreu lutando e outros morreram em campos de concentração e no exílio.

Madrid, rojo y negro

Eduardo de Guzmán

Contém 130 desenhos e fotografias, a maioria deles inéditos.

Coleção Lo que no debe decirse, 9 (dedicada aos pioneiros do jornalismo

de combate).

ao jornalismo de combate pioneiro).

240 páginas

Preço: 21 euros.

ISBN: 978-84-126464-0-5

Maio de 2023

www.lalinternasorda.com

Tradução > Liberto

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Anoitece
Atrás da colina
O sol adormece

RôBrusch