[Uruguai] Chile: a convenção constitucional pode ser o túmulo da revolta

A direita pinochetista foi derrotada, já que não conseguiu a terceira parte da convenção constitucional necessária para bloquear as mudanças. Uma derrota que começou a tomar forma por volta do ano 2000, com a resistência obstinada do povo mapuche e depois as lutas dos estudantes do ensino médio. A partir de outubro de 2019, o povo chileno decidiu enterrar o legado de Pinochet com uma revolta maciça.

Os partidos da antiga Concertação, que governou o Chile desde o fim da ditadura, também se saíram mal, ganhando apenas 25 cadeiras sob o slogan Unidade Constituinte, em comparação com 37 da direitista Vamos pelo Chile. A esquerda ganhou 28 assentos em um desempenho muito bom. Aos povos indígenas foram atribuídos 17 assentos, os independentes ganharam nada menos que 48 assentos e foi alcançada a paridade entre homens e mulheres.

Sabemos quem perdeu, mas não é fácil saber quem ganhou. Em primeiro lugar, houve uma alta taxa de abstenção, com apenas 42,5% dos registrados para votar, um número que cai para 21% entre os mapuches. Pode-se argumentar que a pandemia não favoreceu a votação, mas a verdade é que a deserção das urnas tem crescido durante a última década e meia.

A segunda questão é que enquanto a direita Pinochetista não tem poder de veto, a soma da direita e da antiga Concertação, composta basicamente por Socialistas e Democratas Cristãos que apoiaram o modelo neoliberal extrativista, tem. Juntos eles têm mais de um terço dos votos para evitar mudanças.

Em terceiro lugar, a revolta no Chile não foi para conseguir uma nova Constituição, mas para pôr um fim ao modelo neoliberal. A partir do momento em que as negociações da liderança abriram essa possibilidade, argumentando que com a nova Constituição o modelo vai cair, teve início a desmobilização.

Embora entre os 155 membros da convenção constitucional haja uma forte presença da esquerda e dos movimentos sociais, que contribuíram com uma parte considerável dos constituintes independentes, a garantia de mudança não está nos representantes, mas nas organizações e mobilizações coletivas.

A quarta questão é olhar para os lados. Na América Latina houve três novas constituições em poucos anos: na Colômbia, em 1991; no Equador, em 2008, e na Bolívia, em 2009. Algumas delas contêm capítulos muito interessantes: a natureza como sujeito de direitos, na equatoriana, e a refundação do Estado, na boliviana.

Em nenhum dos casos estas aspirações foram cumpridas, apesar do fato de que na Bolívia e no Equador a ala direita foi derrotada nas ruas e cinco presidentes caíram por grandes insurreições.

Entretanto, o neoliberalismo extrativista continuou a despojar os povos de bens comuns, e a situação concreta dos povos nativos e dos setores populares só piorou. Não por causa das constituições, mas por causa de algo mais profundo: a desmobilização das sociedades e dos povos.

Pensar que o neoliberalismo, que é a forma assumida pelo capitalismo neste período, pode ser derrotado através de novas cartas e leis que reivindicam direitos para as mais diversas opressões, é uma ilusão que leva a becos sem saída. Não é uma questão de ideologias, mas da leitura do passado recente e da situação que estamos atravessando em todo o mundo.

No Chile não estamos diante de uma assembleia constituinte legítima, mas de um jogo político, como sustenta Gabriel Salazar (https://bit.ly/3f1W6Eo). Este jogo foi criado pelos líderes da Frente Ampla, a proclamada nova esquerda, que fizeram um pacto com a direita quando havia milhões nas ruas e o farão novamente em um lugar onde possam fazer malabarismos com total impunidade.

A única garantia que nós os povos temos, para que pelo menos eles nos respeitem, é organização e mobilização. No Chile, houve enormes manifestações durante meses e mais de 200 assembleias territoriais foram criadas. Os constituintes de esquerda estão dizendo que não é necessário voltar às ruas e a maioria das assembleias foram enfraquecidas por apostas nas urnas, embora agora estejam voltando aos seus territórios.

Como se tornarão realidade os melhores artigos da nova Constituição, que sem dúvida haverá? As palavras da Comandanta Amada na inauguração do segundo Encontro Internacional de Mulheres que Lutam ressoam: “Dizem que agora há mais leis que protegem as mulheres. Mas eles continuam a nos assassinar”.

Nenhuma lei impedirá os homens armados (Carabineiros e militares), o núcleo duro do patriarcado, de continuar batendo, lacerando e assassinando. O Mapuche Fernando Pairicán reconheceu que 80% dos mapuches que não votaram o fizeram, em parte, por causa da força do movimento autonomista que chamou para não votar (https://bit.ly/3ot3Gv0).

A esperança de um novo Chile ainda está na resistência mapuche e nas redes de vida que sobrevivem em algumas assembleias territoriais.

Raúl Zibechi

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

fruta caída
ao lado da estrada:
pausa na ida

Carlos Seabra

[Itália] Solidariedade com todo o povo oprimido

Assistimos com consternação e raiva ao reinício dos confrontos entre o governo israelense e o Hamas, cujas primeiras vítimas são civis. Mas sabemos muito bem que a responsabilidade pela tensão contínua nesses territórios é a política fascista, racista e fanática do governo israelense, que pratica diariamente um regime de apartheid comparável ao sul-africano dos últimos anos. Todos os dias a população palestina é submetida a ações arbitrárias, violência, expropriação de terras e assédio de todo tipo, como se fosse normal, no silêncio do mundo. Em Gaza, as pessoas vivem como se estivessem em uma prisão ao ar livre.

A consequência pretendida desta situação é a exploração do fanatismo político e religioso, como o Hamas ou outras organizações similares, que carregam uma cultura obscurantista contra qual lutamos.

Absolutamente insuportável, portanto, é a hipocrisia criminosa de nossas instituições e dos partidos que as compõem, que de fato se colocaram inteiramente do lado do governo israelense, levantando questões como o direito à existência de Israel, que não está em questão hoje (enquanto obviamente a autodeterminação do povo palestino está), e evitando tomar a única posição humana: o fim do apartheid contra a população palestina.

Também cúmplice desta hipocrisia é a imprensa escravizada e acrítica, que perde toda a credibilidade e dignidade, com suas reportagens unilaterais, que na verdade negam a total assimetria deste conflito e não dizem que ele surgiu da enésima tentativa dos colonos e do direito religioso israelense de expulsar as famílias árabes dos bairros de Jerusalém em que vivem há décadas, como estão fazendo com suas terras.

Sem justiça não pode haver paz!

Solidariedade com todo povo oprimido, qualquer que seja a cor daqueles que os oprimem.

USI-CIT

Fonte: https://usi-cit.org/solidarieta-ad-ogni-popolo-oppresso/

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

nuvem de mosquitos
o ar se move
vento nenhum

Alice Ruiz

[Espanha] IV Encontro Anarquista Contra o Sistema Tecnoindustrial e seu Mundo

Durante os dias 29, 30 e 31 de maio acontecerá o “IV Encontro Anarquista Contra o Sistema Tecnoindustrial e seu Mundo”. Um lugar para nos encontrar, discutir, divulgar e afiar nossas ideias contra a organização técnica do mundo. Queremos que o encontro seja mais uma ferramenta de combate ao sistema técnico-científico-industrial, pois pensamos que o terreno do confronto deve concentrar-se no campo do progresso tecnológico, pois é e será o que moldará o presente e futura dinâmica de dominação sobre todos e cada um dos aspectos de nossa vida: social, político, econômico e ambiental. Durante o período da conferência haverá um espaço para distribuidoras (quem quiser montar uma banca no espaço, pedimos que confirmem a sua presença com antecedência) e refeitórios 100% vegetarianos. Nos próximos dias divulgaremos a programação completa do Encontro.

Historicamente, os sistemas de dominação têm aproveitado momentos de crise ou catástrofe para transformar o mundo, realizando uma metamorfose dele. Em outras épocas, essa metamorfose se concretizava quando era ameaçada pelo avanço da luta de classes ou pela necessidade de mudanças econômicas e produtivas para maximizar os benefícios. Agora, após a declaração da OMS há apenas um ano da ‘pandemia mundial’ em consequência do vírus quimera conhecido como Sars Cov 2, o sistema tecnocientífico e, portanto, nossas vidas, por ele dominadas, está passando por uma nova transformação. Essa metamorfose se concretiza no projeto da 4ª Revolução Industrial, um projeto Techno totalitário que envolve a colonização dos vivos pela máquina. Dando origem a uma aceleração social e tecnológica em todas as dimensões da vida com a qual se consegue a adaptação do homem-máquina ao mundo-máquina.

Essa aceleração tecnológica e social significará a digitalização e informatização de todos os aspectos da nossa vida e dos modelos de produção, transporte e comunicação, com o desaparecimento da atividade do ser humano, em maior ou menor grau, em praticamente todas as atividades. Dará origem ao mundo hiperconectado e robótico, onde as máquinas algorítmicas serão as que direcionarão nossos movimentos mecanizados e robóticos de nossas vidas modernas e ilustradas, conectadas ao mundo digital e fazendo parte dele, para que sejamos rastreados, monitorados e otimizados, para que a nossa vida seja o mais eficiente possível, nos padrões do mundo tecno-industrial, para que não queiramos parar, pensar e deixar de seguir o ritmo devastador da modernidade. Como vimos durante a pandemia, essa aceleração tecnológica e social levou a um avanço na sociedade cibernética, onde nossas atividades e experiências foram virtualizadas e substituídas por telas, desde o teletrabalho, tele-escola e telemedicina até nossa forma de relacionamento agora moldada pelas redes sociais como Tinder, Instagram, Facebook etc. Todos eles mudaram a nossa maneira de nos ver, de ver os outros e de ver um mundo que agora olhamos através dos filtros do Instagram.

O mundo como o conhecíamos antes da pandemia nunca mais voltará, a tão esperada “normalidade” por grande parte da população tornou-se um novo mundo tecnológico totalitário. Em todo caso, não queremos voltar ao que eles chamam de “normalidade”, àquele mundo de confinamento industrial em nossos pisos de concreto e tijolos pré-moldados, bem como ao nosso lazer, àquele mundo de estresse, ansiedade, imediatismo e superficialidade, de velocidade, de uma vida entregue ao trabalho assalariado e sujeita a aparatos tecnológicos, para nós o confinamento não foi, apenas, aqueles três meses declarados, é o modo de vida industrial que nos envolve e nos confina ao longo da vida, é a liberdade liberal que sufoca nossos desejos e sonhos. Não queremos a tua “normalidade” que nada mais é do que uma vida entre as grades do consumo e as cadeias do trabalho, enquanto as luzes ofuscantes dos dispositivos tecnológicos nos privam da nossa autonomia e liberdade.

Um mundo techno totalitário que é cada vez mais estritamente regulamentado, onde há pouco espaço para a liberdade. Desde a pandemia que estamos sofrendo também com uma ditadura da saúde que regula e dirige nossas vidas com a desculpa da saúde, anteriormente a sociedade de vigilância foi implantada sob o pretexto do medo do terrorismo, principalmente após os atentados do 11 de setembro nos EUAJá a tecnocracia da saúde dirige e regula nossos movimentos, atividades, experiências a partir da saúde.

A medicalização de nossos corpos e, portanto, a desapropriação de nosso sistema imunológico, é também uma das pontas das medidas tomadas após a pandemia. A ciência que causa o vírus quimérico também é oferecida como a salvação para o problema que ela mesma causou. Essa solução é o que o ‘big pharma’ nos vendeu como vacinas, que, no entanto, é terapia gênica, que vai transformar nosso corpo em uma fábrica de medicamentos ao mesmo tempo em que deteriora nosso sistema imunológico e altera nossos genes, produzindo cânceres em nosso corpo e outras doenças. Também a próxima imposição do Certificado Verde Digital (passaporte de imunidade) vai supor uma nova forma de regular nossos movimentos já que com base no seu estado de saúde (obviamente será o sistema de saúde quem decidirá quem é saudável e quem não se baseia em seus padrões), ou a aceitação das normas sanitárias (vacinas, Pcr) você poderá se movimentar livremente ou não, condicionando sua vida. Este atestado também abre caminho para o surgimento de atestados de saúde para outras atividades (lazer, trabalho, etc.), como já dissemos, o mundo se regula com base na saúde… ditadura da saúde?

Por isso, devemos enfrentar esse mundo tecno-industrial que tenta artificializar tudo o que está vivo e todo processo, fenômeno, etc. que ocorre no mundo. Pretende nos transformar em humanos-máquinas para nos adaptar ao mundo das máquinas. Rejeitamos este mundo porque amamos a liberdade. Pela anarquia.

Contra Toda Nocividade, abril de 2021

Em breve lançaremos o programa completo.

Para + info: contratodanocividad.espivblogs.net
E-mail de contato: contractdanocividad@riseup.net

Tradução > Da Vinci

agência de notícias anarquistas-ana

salta o gato
assalta o gatuno
susto na noite

Carlos Seabra

[Espanha] 25 de maio: Greve e mobilizações contra o Consórcio IeB

Por CNT Galícia

>> Na terça-feira, 25 de maio, a greve continua com a sétima jornada de greve do pessoal do Consórcio Galego IeB exigindo estabilidade em seus empregos.

>> Haverá chamadas de mobilização em toda a Galícia para o pessoal, usuários do Consórcio IeB e todo o pessoal público temporário e cidadania.

Na próxima terça-feira, 25 de maio, ocorrerá uma nova greve de 24 horas convocada pela CNT no Consórcio Galego de Servizos de Igualdade e Benestar que visa regularizar a situação de todas as trabalhadoras temporárias em fraude de lei e abuso de temporalidade, independentemente da forma de acesso ao seu posto (oposição, listas, sub-rogação …).

Do sindicato é anunciada para esta jornada de greve as seguintes mobilizações em diferentes regiões da Galícia:

– A MARIÑA: Concentração em Burela às 19h30 na Praza do Concello, rua de Eijo Garay, nº20.

– LUGO: Concentração às 19h30 na Praza Maior, em frente à Prefeitura.

– OURENTE: Manifestação a partir das 19h00 na rua de San Lázaro (em frente ao prédio do sindicato). Rota: rua Cardenal Quevedo, rua da Habana até o cruzamento com rua de Ramón Cabanillas. Terminando em frente ao edifício da prefeitura.

– O SALNÉS: Concentração em Vilagarcía de Arousa às 18h30 na Praça de Galicia.

– O MORRAZO: Concentração em Moaña às 17h30 na Praça do Conselho. Rua As Barxas, nº2.

– VIGO: Concentração 19h30 no Marco. Rua do Príncipe.

– FERROLTERRA: Concentração em Fene às 18h30 na Praza do Conselho.

– A CORUÑA: Demonstração saindo às 19h30 de Praça da Palloza. Rota: Plaça da Palloza- Primo de Rivera-Linares Rivas-Sánchez Bregua-Cantón pequeno-Cantón grande-Avenida da Marina, terminando na Praça de María Pita.

– COMPOSTELA: Concentração às 19h00 na Praça 8 de março.

– O BARBANZA: Concentração em Boiro às 19h30 na Praça de Galícia, em frente ao Conselho.

Com estes protestos é estender as mobilizações a todo o pessoal das creches da Galiña Azul, Creches, Casas Residenciais e todos os locais de trabalho da rede do Consórcio Galego de Servizos de Igualdade e Benestar, especialmente aos trabalhadores que estão privados do direito à greve devido a serviços mínimos abusivos decretados.

Estas mobilizações procuram a participação das famílias usuárias dos serviços do Consórcio que sofre a inépcia do poder público para resolver esta situação de conflito.

Como vem acontecendo com este tipo de mobilização, também é necessária a participação e solidariedade de todos os funcionários públicos temporários de todas as administrações públicas em uma situação de fraude e abuso da temporalidade que, como os trabalhadores do Consórcio IeB, continuam sendo vítimas de má gestão das administrações e agora estão pondo em risco seus empregos que ocupam há anos devido aos processos injustos de regularização da temporalidade.

Finalmente, da CNT também convocamos todo o pessoal temporário da Administração Pública, incluindo o pessoal do Consórcio Galego de Servizos de Igualdade e Benestar, para participar ativamente da manifestação de 22 de maio em Madrid, por ocasião dos chamados para protesto do pessoal temporário em fraude de lei organizada a nível estadual.

Você pode encontrar materiais para o protesto aqui: https://cnt.gal/materiais-folga-consorcio-galego-ieb/           

Fonte: https://www.cnt.es/noticias/25-de-mayo-huelga-y-movilizaciones-consorcio-ieb/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Lá vai de saltos
dona pata apressada
correndo aos saldos

Eugénia Tabosa

[Espanha] Lançamento: “El camino de pasión de Zensl Mühsam. Trece años prisionera de Stalin”, de Rudolf Rocker

Após alguns meses em que seguimos o rastro da edição original e trabalhamos conscientemente em sua reimpressão, anunciamos que El camino de pasión de Zensl Mühsam. Trece años prisionera de Stalin, de Rudolf Rocker, está agora em circulação.

Deixamos aqui algumas das características de nossa edição:

Título: El camino de pasión de Zensl Mühsam. Trece años prisionera de Stalin

Autor: Rudolf Rocker

ISBN: 978-84-121882-9-5

Páginas: 142

Preço: 8 euros.

2021

Em meados de março de 2020, enquanto a crise sanitária nos obrigava ao confinamento e começávamos a ver o lado mais sombrio da pandemia, encontramos o editorial da edição 3 da revista Mujeres Libres (Madri, julho de 1936), que encontramos através do livro sobre Lucía Sánchez Saornil publicado por La Malatesta (Madri, 2014). No texto, as companheiras de Mujeres Libres ecoaram uma “notícia perturbadora” que lhes chegou de Moscou. Elas diziam que Zensl Mühsam, viúva de Erich Müsham, tinha desaparecido na União Soviética e se perguntavam sobre seu paradeiro, advertindo que ela poderia ter sido sequestrada e internada em algum gulag siberiano.

Naquela época, nossa pequena editora já estava planejando publicar Sinais da Tormenta. Anarquistas alemães contra Hitler, de David Bernardini, e queríamos saber o que estava por trás desta história, completamente desconhecida para nós, que, mesmo indiretamente, tinha a ver com toda a situação política descrita no ensaio histórico de Bernardini. A partir daí, começamos uma pequena investigação que, entre outros documentos, nos levou a uma notícia intitulada “O Caminho da Paixão de Zensl Mühsam”, assinada por Rudolf Rocker e datada de agosto de 1949, na qual o anarquista alemão narrou todos os detalhes do caso e fez um apelo desesperado à comunidade internacional para a libertação de Mühsam.

Pouco tempo depois percebemos que esta notícia, “O Caminho da Paixão de Zensl Mühsam”, fazia parte de um texto muito mais longo com o mesmo nome, que havia sido seriado na imprensa libertária internacional e que uma editora ligada ao SAI (Solidariedade Anarquista Internacional) havia publicado em forma de panfleto entre 1949 e 1950. Esse texto El camino de pasión de Zensl Mühsam. Trece años prisionera de Stalin, é o que estamos reimprimindo hoje com a Piedra Papel Libros.

Kreszentia Elfinger, “Zensl”, que assumiu o sobrenome de seu parceiro, nasceu em 1884 em uma área rural da Baviera. Em busca de melhores oportunidades de emprego, como trabalhava como empregada desde muito jovem, emigrou para Munique, capital da Baviera, onde conheceu os emigrantes russos que haviam chegado após o fracasso da revolução de 1905. Seria naquela mesma cidade onde ela conheceria Erich Mühsam, uma das figuras mais proeminentes do movimento libertário alemão, com quem ela se casou em 1915.

O casal viveu intensamente o período de turbulência política que a Alemanha viveu após o fim da Primeira Guerra Mundial. O fracasso do projeto libertário na Alemanha em 1915, e neste contexto, o fracasso do projeto revolucionário do Conselho Bávaro (1919), cujos promotores mais proeminentes eram Erich Mühsam e no qual o anarquismo – uma minoria na Alemanha – desempenhou um papel muito proeminente, marcou em grande parte o destino subsequente de ambos. No início, tanto Erich como Zensl foram presos. Entretanto, enquanto Zensl foi logo libertado da prisão, Erich recebeu uma sentença exemplar de quinze anos.

Durante os anos de prisão de Erich Mühsam, sua companheira foi incansável em sua atividade política e solidária, cujo objetivo principal era obter uma anistia para os presos políticos alemães, que haviam enchido as prisões após o fracasso do ciclo revolucionário que começou em novembro de 1918. Seria neste período que ele estabeleceria boas relações com a militância da Rote Hilfe, uma organização de solidariedade, assistência e alívio aos prisioneiros muito próxima ao Partido Comunista Alemão e à Terceira Internacional. Seria precisamente nestes círculos que ele se encontraria com Elena Stásova, delegada na Alemanha do Komintern e presidente do Socorro Vermelho Internacional desde 1927.

Depois que o governo republicano concedeu uma anistia geral, Erich Mühsam foi libertado da prisão em 1924. O casal se mudou para Berlim e continuou a ter contatos ocasionais com militantes das organizações comunistas de assistência durante todo este tempo.

No entanto, tudo mudaria em 1933, após a rápida ascensão do Partido Nazista ao poder. Erich Mühsam foi preso novamente. Seu nome, como o de muitos dos militantes das organizações de esquerda, apareceu nas listas que os nazistas usaram para quebrar o movimento operário alemão. Internado em um dos primeiros campos de concentração, Oranienburg, Erich Mühsam foi sistematicamente torturado pelos guardas do campo e foi assassinado pelas SS em 10 de julho de 1934.

O golpe foi brutal para sua companheira. Apesar do medo de ser presa pelos nazistas, Zensl exigiu uma investigação para esclarecer as circunstâncias da morte de Erich e para descobrir quem era o responsável. Ao mesmo tempo, ela mudou sua residência para Dresden, uma cidade perto da fronteira com a Tchecoslováquia, e colocou todos os arquivos pessoais de seu marido na custódia de Ernst Simmerling, cunhado de Rocker.

Em 15 de julho de 1934, após ter sido avisada por uma jornalista americana, Dorothy Thompson, de sua iminente prisão pela Gestapo, ela cruzou a fronteira com segurança e, pouco tempo depois, através de alguns contatos, conseguiu levar o legado de Erich Mühsam a Praga por uma mala diplomática. Pouco tempo depois, em 1935, foi publicado O Calvário de Erich Mühsam, uma obra que denunciou o regime de terror implementado pelo NSDAP na Alemanha e que levou à perda de sua nacionalidade alemã. O texto foi publicado por uma editora ligada ao Socorro Vermelho Internacional, uma organização que, como mencionado acima, foi então presidida por Elena Stásova e que estava diretamente ligada à Internacional Comunista.

Durante sua estada na Tchecoslováquia, e através da mediação de Stásova, as autoridades soviéticas encorajaram Zensl a se mudar para Moscou. Ela chegou lá com seu sobrinho, Joseph Elfinger, em agosto de 1935. Pouco depois ela embarcou em uma turnê denunciando as atrocidades do regime nazista, participou de um serviço memorial para Erich Mühsam, e facilitou a entrega do legado pessoal de seu marido às autoridades soviéticas em fevereiro de 1936.

Entretanto, alguns meses depois, em abril de 1936, Zensl Mühsam foi presa e encarcerada na prisão de Lubyanka, em Moscou. Ela havia sido acusada de participar de atividades contrarrevolucionárias de caráter trotskista. Seu sobrinho também foi preso e nunca mais foi visto de novo.

A falta de notícias sobre o paradeiro de Zensl levou o filósofo André Guide a se interessar por ela durante sua visita a Moscou. Ele recebeu apenas notícias vagas. Foi precisamente então, em meados de 1936, que uma campanha internacional de denúncia foi organizada e Zensl Mühsam foi libertada da prisão.

A partir de então, as hierarquias do regime soviético nunca mais deixaram de manter Zensl sob controle. Em 1937, ele fez um acordo com o Instituto Maksim Gorky para depositar o legado de Erich Mühsam em troca de uma pensão alimentícia. Pouco tempo depois, em 1938, ela solicitou um visto de saída para viajar para os Estados Unidos, o qual foi negado.

Alguns meses mais tarde, Zensl foi presa novamente. Em 1939, ela foi condenada por atividades contrarrevolucionárias e começou sua provação em vários campos de trabalho. No âmbito do Pacto Germano-Soviético, ela foi selecionada para fazer parte do contingente de alemães residentes na URSS que seriam entregues à Gestapo, mas Zensl nunca cruzou a fronteira. Em 1940, ela foi internada no Campo Laboral Yavas III em Mordovia, onde permaneceu até 1946. Em novembro daquele ano ela foi deportada para uma cidade perto de Novosibirsk, mas em 1947 ela voltou clandestinamente para Moscou, onde, depois de ser reconhecida e denunciada às autoridades, ela pediu para retornar à Alemanha Oriental. Entretanto, seu pedido foi negado pelas autoridades do Partido Socialista Unificado da Alemanha, o único partido da República Democrática Alemã, e ela foi forçada a deixar Moscou, mudando-se para Ivanovo, onde pôde trabalhar em um orfanato.

Sua sorte mudou novamente em 1949, quando ela foi presa e deportada para a região de Omsk, onde teve que trabalhar em uma fazenda coletiva. Foi precisamente durante estes meses que Rudolf Rocker, que sempre fez o melhor para ajudar Zensl, iniciou uma campanha dos Estados Unidos para denunciar a situação da viúva de Erich Mühsam, cujo fruto é o texto que agora estamos republicando.

Entretanto, a situação de Zensl não pôde mudar até a morte de Stalin em 1953, quando ela foi autorizada a retornar ao orfanato em Ivanovo e pôde processar seu pedido de retorno à Alemanha sem impedimentos. Foi somente em meados de 1955 que Zensl se mudou para Berlim Oriental, onde as autoridades comunistas lhe concederam uma pensão honorária e começou um período de recuperação e valorização do trabalho de Erich Mühsam, o que levou à publicação póstuma de parte de seu trabalho, uma cópia microfilmada do legado de Erich Mühsam depositado no Instituto Maksim Gorky foi entregue à Academia de Artes de Berlim, e Zensl Mühsam recebeu a Ordem do Mérito Patriótico por ocasião de seu 75º aniversário.

Ao mesmo tempo, Zensl Mühsam foi reabilitada na União Soviética através da sucessiva revisão de suas convicções; um processo que não pôde ser totalmente concluído, pois Zensl morreu em 1962 de câncer de pulmão. Suas cinzas foram colocadas em uma cova na área dedicada aos heróis socialistas no cemitério principal de Friedrichsfelde. Após a queda do Muro de Berlim, apenas trinta anos depois, em 1992, as cinzas de Zensl foram colocadas no túmulo de Erich Mühsam, localizado em um cemitério na parte ocidental.

A vida de Zensl Mühsam, que representa a coragem dos milhares de mulheres europeias que sofreram sob o totalitarismo nazista e estalinista, é também um relato do trabalho indispensável que muitas mulheres desempenharam na preservação do legado documental de seus companheiros; Uma obra invisível, pouco reconhecida, mas fundamental para a transmissão da obra de autores como Erich Mühsam (Zensl Mühsam), Miguel Hernández (Josefina Manresa), Blas Infante (Angustias García Parias), Piotr Kropotkin (Sofía Anániev) ou E. A. Rheinhardt (Erica de Behr), para dar apenas alguns exemplos.

Este livro, de certa forma, é dedicado a todos elas.

Piedra Papel Libros

piedrapapapellibros.com

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

Quanta solidão
nos olhos do velho
no choro do cão

Regina Ragazzi

[EUA] Dr. Marie Equi: Médica, Abortista, Feminista, Lésbica, Anarquista, Ativista Laboral e Prisional

Por Maria Helena Dolan | 08/04/2021

Uma nativa de Massachusetts, Dr. Marie Equi nasceu em uma casa ítalo-irlandesa. Ela passou muito dos seus primeiros anos na Itália. Com 21 anos, ela se mudou com sua esposa “Boston Marriage[1]”, Bess Holcomb, para Dalles no Oregon em 1893.

A Bess foi oferecido um trabalho como professora por lá. De acordo com os relatos posteriores dos jornais, o empregador de Holcomb – o reverendo Orson D. Taylor – se recusou a pagar o prometido salário de cem dólares. Em uma confrontação barulhenta e raivosa, Marie ameaçou publicamente bater nele com um chicote de cavalo. E ela cumpriu sua ameaça.

Infelizmente, Bess não recebeu seus dólares prometidos, mas a comunidade local deu bastante apoio a essa ação, e então o chicote foi rifado. Com isso, Marie e Bess receberam uma quantia que excediam os cem dólares…

O casal se mudou para San Francisco, na Califórnia, mas Marie foi para Portland, no Oregon, onde se graduou na faculdade de medicina e então iniciou sua atividade médica em 1903. Ela se tornou uma das pouquíssimas doutoras que faziam abortos abertamente, e ela fazia isso para mulheres de qualquer classe, raça ou etnia, incluindo imigrantes que não falavam inglês.

No terremoto de San Francisco de 1906, Marie organizou um grupo de doutores e enfermeiras de Portland para prover ajuda humanitária à cidade devastada, em uma ação que a fez ganhar a Comenda Especial do exército estadunidense.

Logo depois, ela conhece Harriet Speckart, que começou a trabalhar como assistente de Marie. As duas começaram uma relação de 20 anos, dividindo casas em San Francisco e várias outras residências em Portland.

Harriet era uma das herdeiras do Olympia Brewing Company[2]. Mas sua família ameaçou deixar ela de fora da herança, caso ela não abandonasse Marie. Harriet se recusou a abandonar sua amada. As duas eventualmente adotaram uma menina e criaram ela juntas.

Em 1913, Marie se uniu a uma ação grevista organizada pelo Industrial Workers of the World[3], em apoio à luta das trabalhadoras femininas contra as terríveis condições de trabalho do Oregon Packing Company. A polícia a agrediu ferozmente enquanto dava socorro a uma grevista que tinha sido espancada até o chão. A sistemática brutalidade empregada para por fim a greve provou ser o que faltava para Marie denunciar o capitalismo, se tornar anarquista e se unir ao IWW.

Ela foi uma forte defensora do direito das mulheres terem controle sobre o próprio corpo, Marie ajudou Margaret Sanger escrevendo panfletos em defesa do controle de natalidade e, depois disso elas se tornaram amigas de longa data. Em 1916, elas foram presas juntas quando promoviam uma campanha nacional em favor do uso de aparelhos contraceptivos.

Com a esperada adesão dos Estados Unidos à primeira grande guerra que estava se aproximando na Europa, Marie se aliou a American Union Against Militarism (União Americana Contra o Militarismo). Durante um protesto antiguerra no centro de Portland em 1916, ela desenrolou uma faixa onde se lia:

“PREPAREM-SE PARA MORRER, TRABALHADORES.

J.P. MORGAN & CO QUEREM ESTAR PREPARADO PARA O LUCRO”

O seguinte protesto, ainda que menor, fez ela ser presa. Em dezembro de 1918, ela foi processada sob a nova revisão do Espionage Act[4] por estar contra a guerra. “O verão vermelho[5]” aconteceu meses depois. Durante esse período terrível, o conflito racial e a histeria “anticomunista” ferveu e reinou descontroladamente em grande parte dos Estados Unidos. O governo varreu dezenas de milhares, muitas foram presos, e outros milhares foram deportados como “antiamericanos”.

Durante esse calunioso e desavergonhado processo, o agente especial William Byron do Dep. de Justiça foi testemunhar. Ele deu detalhados relatórios obtidos através da sua implacável perseguição e investigação. No seu depoimento, ele denunciou Marie como uma: “anarquista, degenerada e abortista”.

Ela foi – sem surpresa – condenada por conspiração. Seus advogados tentaram anular a condenação sem obter sucesso. Em outubro de 1920, ela iniciou sua sentença de três anos na prisão de San Quentin (logo depois sua sentença foi reduzida a um ano e meio).

Por todos os relatos, ela era uma prisioneira extremamente difícil e não cooperativa. Mas enquanto esteve encarcerada, ela tentou amenizar a horrível condição de vida das mulheres aprisionadas. No natal, ela implorou aos amigos que enviassem presentes a 20 mulheres que a deixou particularmente sensibilizada, pois viviam em condição de extrema privação.

Em 1921, o então diretor do gabinete de investigação J. Edgar Hoover[6] acusou Marie de estar associada a Elizabeth Gurley Flynn, Anita Whitney e Emma Goldman… e também de ser uma profissional do aborto.

De 1928 à 1936, a já conhecida agitadora e comunista do IWW Elizabeth Gurley Flynn foi morar com Marie. Poucos anos antes, ela tinha tratado Flynn, trazendo a sua saúde de volta, após um ataque cardíaco ocorrido durante a turnê na costa oeste dos EUA em favor de Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti.

Com a chegada da idade, Marie aparecia menos aos olhos públicos. Mas um amigo de infância do seu neto visitou a casa de Marie muitas vezes durante sua velhice. Ele descreveu Marie décadas depois como um “terror sagrado”. Ela morreu na cidade de Portland com 74 anos.

Fonte: https://thegavoice.com/outspoken/dr-marie-equi-medical-doctor-abortionist-feminist-lesbian-anarchist-labor-and-prison-activist/

Tradução > Ligeirinho

Notas do tradutor:

[1] Segundo a Wikipédia, “casamento Boston”é termo antigo que define a coabitação de duas mulheres ricas, sem depender financeiramente de nenhum homem.

[2] A companhia de cerveja Olympiaque ainda está em atividade.

[3] O “IWW”, Trabalhadores Industriais do Mundo, associação sindical que continua em atividade até hoje.

[4] Lei estadunidense antiespionagem.

[5] Conflito civil pós-primeira grande guerra que culminou com a morte de centenas de negros por grupos supremacistas brancos com o apoio das autoridades.

[6] Ele depois se tornaria o primeiro diretor do FBI.

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agência de notícias anarquistas-ana

durmo sob uma oliveira
com o musgo
por travesseiro

Rogério Martins

Em “Capitalismo de Vigilância” Shoshana Zuboff discute a exploração de nossos dados

Por Maria Carolina Souza

Quando olhamos para nosso passado e como a experiência humana foi moldada, é fácil notarmos a existência de um sistema de trocas, seja em âmbito econômico ou comportamental. Com novos modelos ideológicos, sociais e culturais, diversas pessoas se tornaram mais ansiosas, valorizando a individualidade e com pouca consciência de que existem empresas que estão lucrando de forma descomunal com suas informações, seja pelo clique em um site ou mesmo uma câmera de segurança instalada em seu condomínio.

É com esta premissa que “A Era do Capitalismo de Vigilância”, de Shoshana Zuboff, lançado em fevereiro pela editora Intrínseca com tradução de George Schlesinger, nos aproxima dos diversos estudos realizados durante anos pela Ph.D. em psicologia social e professora emérita da Harvard Business School. O termo, cunhado pela autora e trabalhado ao longo de 800 páginas, surgiu de um texto publicado em 2015 e que recebeu o prêmio de “Melhor Artigo Científico” durante a Conferência Internacional sobre Sistemas de Informação, realizada pelo Laboratório de Gestão da Tecnologia e Sistemas de Informação (TECSI).

Zuboff define o capitalismo de vigilância como “uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas”. Em outras palavras: não é que somos “o produto” das redes sociais, como dizem alguns — mas sim uma fonte inesgotável de dados, que são usados como matéria-prima para empresas preverem comportamentos e, com isso, lucrar. É uma nova fase do capitalismo.

Uma compra feita na Amazon, uma postagem em seu feed no Facebook e até o Pokémon Go geram tantos dados que as empresas nem sabem lidar com todo o seu potencial ainda. No capitalismo de vigilância, tudo se transforma em um ciclo de extração, predição e venda de dados, formando o que a autora define como um nova lógica econômica, “uma ameaça tão significativa para a natureza humana no século XXI quanto foi o capitalismo industrial para o mundo natural nos séculos XIX e XX”.

A partir desta nova fórmula de poder, surgiu o “instrumentarismo”, uma forma de poder exercido por empresas como Google e Facebook para poder moldar comportamentos em busca de predição, monetização e controle. É uma evolução do “totalitarismo”, concebido pelos estados fascistas —  já que, nesse caso, não é preciso de exércitos e poder bruto, mas sim uma arquitetura tecnológica cada vez mais ubíqua que vai tomando o espaço dos nossos cotidianos.

Leitura densa, mas de fácil compreensão

Como forma de instruir o leitor na história da implementação do capitalismo de vigilância, partindo da Revolução Industrial até a ascensão do Google e outras grandes empresas nestas últimas duas décadas, Zuboff destina mais da metade da obra em exemplificações e contextos históricos.

A apresentação dos panoramas históricos é completa e de linguagem acessível, mesmo quando a autora opta por utilizar termos específicos, que são bem contextualizados e explicados. De nenhuma forma isto torna a leitura redundante ou desinteressante. Mesmo assim, aconselho a ir aos poucos, já que são muitas informações para absorver de uma vez.

Como já se passaram mais de três anos desde sua primeira publicação e as novidades do capitalismo de vigilância são diárias, o livro pode parecer um pouco datado. O caso mais recente analisado no livro foi da empresa britânica Cambridge Analytica, que usou ilegalmente dados de milhões de perfis do Facebook para influenciar a eleição americana e o plebiscito do Brexit em 2016. Para a autora, este episódio apontou de forma mais clara como esta nova tática capitalista opera: produzindo ignorância por meio do sigilo meticuloso de indivíduos conscientes.

Se analisarmos o contexto no qual estamos vivendo hoje, em meio a uma pandemia, é fácil notar exemplos mais próximos de nossa vivência, como a luta contra a desinformação, especialmente das vacinas, e a crescente dependência da tecnologia, que busca criar ferramentas de aproximação em meio ao isolamento social.

Chega a ser chocante pensar que todo este assunto já era algo a ser pensado na década de 1980, quando a autora lançou a obra “In the Age of the Smart Machine”, livro em que abordou os novos “meios de trabalho” de uma farmacêutica, que resultou em metodologias abusivas contra seus funcionários, como na divulgação de experiências pessoais que deveriam ser privadas. Como Zuboff diz, o tempo passa e as técnicas só mudam de estrategistas. Se antes os capitalistas eram os donos de maquinários industriais, hoje são aquelas que produzem as ferramentas que me ajudaram a produzir essa resenha. Não existe o livre-arbítrio em rolar a timeline do seu Twitter ou Instagram.

Como a autora deixa claro na conclusão da obra, muitas perguntas ainda serão respondidas, principalmente pelas gerações futuras, que já estarão mais avançadas quanto às novidades tecnológicas disponíveis. Em uma analogia à derrubada do muro de Berlim, Zuboff acredita que seu livro, assim como os diversos autores discutidos no livro e os trabalhos que estão sendo desenvolvidos ao longo destas duas décadas, poderão criar uma ruptura para que as pessoas reivindiquem o seu futuro digital, com conhecimento sobre a dinâmica do sistema e como a democracia é uma aliada na busca pelo equilíbrio.  O tempo dirá.

Fonte: https://gizmodo.uol.com.br/critica-em-capitalismo-de-vigilancia-shoshana-zuboff-discute-a-exploracao-de-nossos-dados/

agência de notícias anarquistas-ana

Começo de chuva…
A tempestade faz festa,
no meio da rua.

Humberto del Maestro

Memória | Lima Barreto: 140 anos de um intelectual do povo negro e trabalhador

No dia 13 de maio de 1881, há 140 anos, nasceu Afonso Henriques de Lima Barreto, mais conhecido como Lima Barreto. Lima Barreto escreveu importantes obras da literatura brasileira, e também diversas cartas, crônicas e artigos. Veio a falecer no ano de 1922.

O seu engajamento político muitas vezes é desconhecido ou apresentado de forma superficial. Lima Barreto sempre foi próximo a importantes figuras do sindicalismo revolucionário desde a sua juventude. Conheceu José Oiticica, Edgard Leuenroth, dentre outros. Escreveu um artigo para o primeiro número do jornal A Voz do Trabalhador, órgão oficial da Confederação Operária Brasileira (COB) e colaborou com outros jornais anarquistas e sindicalistas. Apoiou publicamente a grande Greve Geral de 1917, a Greve Geral e a Insurreição Popular no Rio de Janeiro em 1918, defendeu a Revolução Russa de 1917, criticou duramente a escravidão, a opressão sobre o povo negro, os imigrantes pobres e o povo trabalhador de forma geral.

Em homenagem a esse importante intelectual e trabalhador brasileiro publicamos aqui o texto “Sobre a Carestia” publicado, não por acaso, em 1917, ano da grande Greve Geral. Nesse artigo Lima Barreto faz uma dura crítica aos capitalistas e ao Estado e defende o uso da violência pelos oprimidos para lutar contra a carestia de vida. O artigo foi retirado do livro “Antologia de artigos, cartas e crônicas sobre trabalhadores”.

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

https://lutafob.org/8936/

agência de notícias anarquistas-ana

Cai a pedra n’água
partindo o espelho do rio:
as nuvens se esvaem.

Ronaldo Bomfim

Petição internacional de solidariedade com o Movimento de Desobediência Civil de Mianmar (CDM)

A seguir, reproduzimos a petição de solidariedade que recebemos dos camaradas de Mianmar.

Lembramos que os trabalhadores de todo o país estão sendo vítimas de uma repressão feroz desde o golpe de Estado de 1º de fevereiro.

Mais informações aqui: iclcit.org/es/golpe-de-estado-en-myanmar-el-ejercito-toma-el-control-del-pais/ e aqui iclcit.org/es/huelga-general-contra-el-golpe-en-myanmar/

Camaradas da Confederação Internacional do Trabalho (ILC), da rede Global May Day e de outros grupos de emancipação global:

Desde fevereiro, organizações de base em Mianmar têm tomado as ruas para se opor à junta militar que tomou novamente o poder ditatorial pela força, com um golpe de Estado após sua derrota nas eleições de novembro do ano passado.

O golpe tem sérias consequências para nós, entre outras, a perda dos direitos civis conquistados nos últimos anos e décadas.

Desde o início, nos mobilizamos nos locais de trabalho e moldamos o CDM em todo o país.

Exigimos a demissão da liderança militar e o fim de seu regime fascista, assim como uma nova constituição que torne realidade a plena democracia federal, e a libertação imediata dos presos políticos e presas políticas, sem exceção!

Nós, os homens e mulheres trabalhadoras, estamos enfrentando várias formas de repressão. Não apenas os militares atiram em nós nas ruas, mas aqueles que dirigem as fábricas e locais de trabalho muitas vezes colaboram com o exército, que eles utilizam para reprimir protestos e greves. A brutalidade dos soldados e da polícia já reclamou pelo menos 738 vidas de manifestantes contra o regime militar. (Leia mais em: aljazeera.com)

Esta situação é muito triste, assim como ultrajante!

De nossas organizações, ajudamos financeira e materialmente aqueles que perderam seus empregos, como pela repressão por participarem do movimento pela democracia. Este grupo inclui trabalhadoras grávidas que foram demitidas das fábricas e famílias monoparentais, mas também muitas outras pessoas que apoiaram o CDM.

Camaradas, é hora de se unirem para aumentar a pressão sobre a junta militar em todos os níveis possíveis! Propomos que o Dia 1° de Maio também sirva como um dia de ação para expressar solidariedade com o MDC em todo o mundo.

Aqui estão algumas ideias de coisas que podem ser feitas:

– Pressionar as empresas que colaboram com a junta militar, como o Grupo Deutsche Post DHL (fonte: justiceformyanmar.org), Total SE (fonte: asianews.it) e Sinotruk/MAN (fonte: justiceformyanmar.org).

– Apoiar financeiramente os trabalhadores envolvidos no MCD:

Diferentes maneiras de fazê-lo podem ser encontradas no seguinte link: isupportmyanmar.com

Para contribuir com os esforços de ajuda mútua do Food not Bombs Myanmar (Comida Sim Bombas Não), mais informações escrevendo para asia@icl-cit.org.

– Pressionar as principais marcas internacionais de vestuário para garantir que todas as suas fábricas e empreiteiras respeitem o direito dos trabalhadores a férias não remuneradas sem serem demitidos por isso. Ações de protesto contra o golpe de Estado em Mianmar podem continuar diante de empresas multinacionais como: Zara, H&M, Adidas, OBS, Mango e Sioen.

– Pressionar o governo de Singapura. “A próspera cidade-estado insular é o maior investidor estrangeiro em Mianmar, superando a China em 2019, para investir mais de US$ 24 bilhões de capital através de lucrativos projetos imobiliários, bancos, transporte marítimo, exportação de areia e construção, bem como venda de armas”. (fonte: vice.com). Seu governo é proprietário da Temasek Holdings, que arrecada mais de 230 bilhões de dólares em capital. Por sua vez, a Temasek Holdings é acionista majoritária de muitas empresas, tais como a Singapore Airlines (56%). Portanto, exercer pressão sobre a Singapore Airlines significa fazer o mesmo com o governo de Cingapura.

– Apoiar a iniciativa do governo de unidade nacional. “A oposição à junta militar anunciou um governo de unidade nacional que inclui membros do parlamento dissolvido e líderes dos protestos anti-golpistas e minorias étnicas. Eles disseram que seu objetivo é acabar com o governo militar e restaurar a democracia”. (fonte: reuters.com)

Levantemos três dedos: pela liberdade, pela unidade, pela solidariedade!

#Call4InternationalCDMsolidaridade

#WhatsHappeningInMyanmar

#1world1truggle

Assinantes da petição:

All Burma Federation of Trade Unions (ABFTU)

Federation of General Workers Myanmar (FGWM)

Food not Bombs Myanmar

Fonte: https://www.iclcit.org/es/peticion-internacional-de-solidaridad-con-el-movimiento-civil-de-desobediencia-cdm-de-myanmar/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

terno salgueiro
quase ouro, quase âmbar
quase luz…

José Juan Tablada

 

Anarquismo nas Filipinas

Em uma entrevista, os ativistas Jong Pairez e Bas Umali discutem alternativas para a organização social que se afastam da tradicional – e muitas vezes fragmentada – esquerda.

Este é um trecho ligeiramente editado de Pangayaw and Decolonizing Resistance: Anarchism in the Philippines (PM Press, 2020) por Bas Umali e editado por Gabriel Kuhn.

Entrevista com Jong Pairez e Bas Umali

Na última década, um movimento anarquista notavelmente forte parece ter se desenvolvido nas Filipinas. Você pode nos dar uma breve visão geral?

Jong Pairez: Houve muitos escritos publicados recentemente sobre o anarquismo nas Filipinas, a maioria dos quais são reflexos, bem como perspectivas em direção a uma forma alternativa de luta e organização que se afasta das tradições da esquerda dominante das Filipinas. Posso mencionar a Archipelagic Confederation de Bas Umali  e Sketches of an Archipelagic Poetics of Postcolonial Belonging, de Marco Cuevas Hewitt. Ambos os artigos abordam a importância da diversidade e da política horizontal descentralizada comumente negligenciada por uma esquerda que está unida ao governo no objetivo de construir um Estado-nação unificado. Como Marco argumenta, “o nacionalismo neste sentido pode até ser considerado uma espécie de ‘imperialismo interno’.”

No entanto, teorias surpreendentes nem sempre são coerentes na prática. O que quero dizer é que um movimento capaz de transmitir uma mentalidade anarquista dentro de vários setores da sociedade filipina ainda está em seu estágio inicial. Existem muitas lacunas a aceitar e considerar. Mas, por outro lado, vejo as deficiências como uma vantagem positiva para o movimento anarquista emergente, porque nos dá chances de experimentar criativamente e aprender com os erros.

Há algum movimento histórico nas Filipinas cuja política teve, de sua perspectiva, dimensões anarquistas?

Pairez: Comparado aos movimentos anarquistas na Europa e no Leste Asiático, mais especialmente no Japão, as Filipinas não têm história de tradições e lutas anarquistas modernas no final do século 19 e início do século 20.

No século 19 e durante o auge da luta anticolonial contra a Espanha e o imperialismo americano no início do século 20, todos os grupos revolucionários estavam preocupados com a libertação nacional. Mas de acordo com Benedict Anderson, o autor de Under Three Flags, os anarquistas europeus tiveram um grande impacto sobre os intelectuais filipinos que eram estudantes em Madrid. Um deles, José Rizal, escreveu romances que foram importantes para a história da revolução filipina. Em El Filibusterismo (1891), o protagonista é uma reminiscência de Ravachol, o anarquista francês conhecido por vingar trabalhadores oprimidos bombardeando alvos das autoridades. Rizal simbolicamente igualou isso ao desespero do povo filipino e seu desejo de se libertar do colonialismo.

Mas as teorias e a práxis anarquistas nunca proliferaram naquele período como uma alternativa revolucionária legítima ao colonialismo nas Filipinas. No Japão, o anarquismo plantou suas sementes durante os períodos Meiji e Taishō, quando os anarquistas japoneses se tornaram instrumentos nas lutas contra a guerra e o imperador, bem como na construção de sindicatos militantes. Houve alguns desses desenvolvimentos nas Filipinas, mas obviamente há uma diferença contextual entre a experiência japonesa e a experiência filipina. Portanto, há uma história de luta antiautoritária nas Filipinas, mas é fraca.

Alguns nativos filipinos pacificados, especialmente a classe descontente principalia (nobre), imaginavam um Estado-nação independente de seus colonizadores, mas muitos irmãos e irmãs indígenas lutavam para defender seus modos igualitários de vida nas montanhas e em outras partes do arquipélago. As insurreições quase religiosas na história das Filipinas podem estar ligadas a lutas antiautoritárias devido ao desejo de preservar a autonomia.

Bas Umali: o romance de José Rizal retrata o caráter opressor do colonialismo e sugere uma solução para se livrar dele. De onde ele tirou a ideia de que toda a elite colonial poderia ser exterminada com o acendimento da nitroglicerina escondida em uma lâmpada? A longa estada de Rizal na Europa o alertou sobre a “propaganda pela ação” dos anarquistas. Ao mesmo tempo, sua campanha pela educação como um dos principais componentes da luta pela liberdade é semelhante a [Francisco] Ferrer e ao anarco-sindicalismo espanhol.

Em 1901, Isabelo de los Reyes voltou para casa de uma cela da prisão de Montjuic na Espanha para enfrentar o novo inimigo que desembarcou dos navios de guerra modernos na baía de Manila. O quadro de luta de De los Reyes era muito diferente dos nacionalistas que conhecemos hoje como heróis. Em primeiro lugar, seu objeto de crítica foi o imperialismo. Ele organizou os trabalhadores e os pobres urbanos em Manila e atacou as corporações americanas. Ele praticou o que aprendeu com colegas de cela anarquistas como Ramon Sempau. A Unión Obrera Democrática (UOD), que ele co-fundou, foi o primeiro sindicato operário do arquipélago. Ações diretas por meio de piquetes criativos e greves lançadas por trabalhadores e comunidades, especialmente no distrito de Tondo, em Manila, abalaram o governo colonial, seus parceiros corporativos e a elite local.

Parece que em grande parte do seu trabalho você tenta relacionar as ideias anarquistas às formas tradicionais de organização social nas ilhas Filipinas. Você pode nos contar mais sobre isso?

Umali: Na minha opinião, desde tempos imemoriais, o anarquismo está presente no arquipélago; comunidades primitivas de áreas costeiras à planas floresceram e utilizaram padrões políticos autônomos e descentralizados que facilitaram a proliferação de culturas e estilos de vida altamente diversos.

As organizações sociais primitivas evoluíram até que as estratificações sociais se formaram e se tornaram instituições. O arquipélago possui várias tribos com identidade, cultura e organização sociopolítica próprias. Antes que o autoritarismo contagiasse o movimento revolucionário do arquipélago, a ação direta era praticada.

Um exemplo é o “motim de Cavite” de 20 de fevereiro de 1872, quando sete oficiais espanhóis foram mortos em um motim no estaleiro naval de Cavite. Como consequência, as autoridades espanholas ordenaram a prisão de crioulos, mestiços, padres seculares, comerciantes, advogados e até mesmo alguns membros da administração colonial. Para incutir medo nas pessoas, foi realizado um julgamento de canguru e três padres seculares foram estrangulados na frente de 40.000 pessoas. Seis meses depois, 1.200 trabalhadores entraram em greve, estabelecendo o primeiro recorde na história do arquipélago. Muitas pessoas foram presas, mas o governo não conseguiu identificar um líder e, eventualmente, todos foram libertados. O general Izquierdo aparentemente concluiu que “a Internacional abriu suas asas negras para lançar sua sombra nefasta sobre as terras mais remotas”.

Como as formas tradicionais de organização social se relacionam com o movimento de independência?

Umali: O Movimento de Propaganda era basicamente composto pela elite educada local. Eles adotaram a chamada estrutura iluminista da Europa. Nomes gigantes da história como os de Rizal, Emilio Aguinaldo, Emilio Jacinto, Andrés Bonifacio, Antonio Luna, Apolinario Mabini e Marcelo del Pilar estavam todos comprometidos com o nacionalismo como base para unir o povo oprimido.

A elite criou com sucesso a ideia de uma comunidade abstrata em grande escala, integrando culturas altamente diversas. O ponto culminante da agitação do Movimento de Propaganda foi o estabelecimento da organização Katipunan que mais tarde formou o primeiro governo do arquipélago seguindo o modelo nacionalista do Ocidente. As instituições centralistas, coercitivas e patriarcais dominaram as relações sociais no arquipélago e minaram os temas tradicionais de cooperação mútua e diversidade. A escravidão existia na forma do sistema de pólo. A pobreza e a marginalização foram introduzidas em comunidades que costumavam ser prósperas e viver em relativa liberdade.

Exceto por tribos e comunidades nas áreas mais remotas, todo o arquipélago tornou-se parte da doutrina régia e da hierarquia espanhola.

O que você pode nos contar sobre o atual movimento anarquista nas Filipinas?

Umali: Atualmente, a organização não hierárquica mais ampla está limitada a grupos indígenas que efetivamente mantêm as práticas tradicionais. O ativismo antiautoritário ficou adormecido após a desintegração do UOD. No entanto, a anarquia é bastante forte em muitos lugares de Luzon, Visayas e Mindanao. A resiliência das comunidades indígenas está relacionada às suas tradições autônomas. Embora sejam obrigados a coexistir com o Estado, não se sentem parte dele.

A anarquia e o antiautoritarismo começaram a recuperar um certo ímpeto na cena punk durante o início dos anos 1980. A política antiautoritária do Punk começou inicialmente como uma crítica ao caráter convencional da sociedade filipina. Logo, a cena punk e hardcore começou a exibir políticas anti-hierárquicas e propaganda anarquista consciente. O movimento atraiu um número cada vez maior de indivíduos, especialmente depois dos motins anti-Organização Mundial do Comércio em Seattle iniciados pelo Black Bloc – a “propaganda pela ação” de nosso tempo.

Inúmeros coletivos foram formados desde então na Região da Capital Nacional (NCR), Davao, Cebu, Lucena e outras cidades. Eles realizaram várias atividades, como Food Not Bombs, oficinas comunitárias, piquetes, fóruns de discussão, publicações, shows e grafite.

Pairez: Desde a virada do século 21, grupos ativistas e coletivos que se identificam como anarquistas estão de fato brotando como cogumelos selvagens nas Filipinas. Mas, como Bas diz, seu histórico está no fenômeno punk dos anos 1980, não no anarquismo do século 19. Gostaria de discutir isso um pouco mais, dada sua importância para o atual movimento anarquista no país.

A subcultura punk chegou às Filipinas como resultado da diáspora filipina. O início pode ser atribuído a adolescentes filipinos ricos que voltaram da Europa e dos Estados Unidos para o país no final dos anos 1970. Eles eram frequentemente chamados de balikbayanbalik significa retornar e bayan é a pátria. Alguns deles trouxeram o punk rock, que foi popularizado pelo programa de rádio DZRJ-810 AM “Rock of Manila”. Nessa época, a ditadura militar do presidente Ferdinand Marcos estava no auge. A mídia era controlada pelo Estado, mas algumas pequenas estações de rádio conseguiram operar fora das sanções estatais. Música de nomes como Sex Pistols e The Clash surpreendeu os ouvintes de Manila, e a cena “Pinoy punk” nasceu.

Depois de se tornar popular, o punk rock representou a insatisfação da juventude filipina com a sociedade conservadora filipina. O que, no início, parecia apenas mais uma convulsão musical, de natureza muito apolítica, mais tarde se desenvolveu em um desafio radical à autoridade. A juventude do punk rock começou a explorar a política do faça-você-mesmo e o anarquismo que estavam associados a ele.

Infelizmente, a era de ouro da cena punk rock nas Filipinas coincidiu com o declínio do punk no Ocidente, que teve seus efeitos propagadores. A mídia de massa filipina começou a abraçar as imagens punks e se tornou fundamental para novas estratégias de marketing de empresas multinacionais. A gigante dos refrigerantes Pepsi começou a patrocinar concursos de bandas punk na TV filipina. Isso ainda durante a ditadura de Marcos. Vários anos depois, depois que a ditadura foi substituída por um governo democrático sob Corazon Aquino, a mídia de massa filipina espalhou um medo de culto satânico para desacreditar a cena punk, até porque era uma maneira conveniente de encobrir o massacre de Mendiola.

Quando outros gêneros musicais, como new wave, hip-hop e crossover, ganharam mais influência, isso criou uma divisão entre os punks e outros. Mesmo dentro da cena punk, a fragmentação tornou-se tão violenta que os grupos frequentemente entraram em conflito sobre suas preferências musicais. Foi uma tendência que ecoou a da esquerda maoísta.

A esquerda nas Filipinas sempre foi caracterizada por severas lutas internas. Isso também é um problema para o movimento anarquista?

Pairez: O início dos anos 1990 é chamado de período da “Grande Divisão de Esquerda” devido ao fracasso do Partido Comunista das Filipinas em liderar a derrubada da ditadura de Marcos. O movimento de esquerda outrora forte e coeso foi enfraquecido por lutas internas entre os quadros do partido. Houve até assassinatos devido a diferenças ideológicas não resolvidas sobre como liderar o levante popular na Avenida Epifanio de los Santos [onde ocorreram a maioria das manifestações durante a Revolução do Poder Popular].

Infelizmente, a fragmentação também está entre as falhas e erros do movimento anarquista emergente – alegações mesquinhas sobre quem é mais anarquista do que o outro e assim por diante. Espero que possamos superar esse erro abraçando nossas diferenças e sendo fiéis à ideia de diversidade. Devemos aprender com as experiências de nossos irmãos e irmãs indígenas e deixar o gueto do punkdom.

Fonte: https://www.newframe.com/new-books-anarchism-in-the-philippines/

Tradução > Da Vinci

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agência de notícias anarquistas-ana

Ambas amarelas,
de folha em folha na horta
Duas borboletas

Matusalém Dias de Moura

[Espanha] Ante a militarização da fronteira em Ceuta

Concentração – Sexta-feira, 21 de maio, 19h00, Tirso de Molina, Madrid | Nem CIES Nem fronteiras Nem nações!

A situação em Ceuta é o resultado das tensões entre os estados espanhol e marroquino, mostrando a verdadeira face do capitalismo e dos estados como traficantes de nossas vidas. O sistema não tem escrúpulos em construir cercas de arame farpado e pontos de controle, erguer muros e prisões para migrantes como o CIES [Centros de Internamento de Estrangeiros], campos de refugiados administrados por uma dura bota militar, e tudo isso cercado pela mais alta tecnologia, protegido pela polícia e, quando necessário, pelas forças militares. Nada como a democracia para gerenciar o racismo e a xenofobia. Tudo isso para regular o fluxo de capital humano, ou seja, a população forçada a se deslocar ao longo das rotas migratórias do mundo, resultado de guerras, repressão e miséria pelas quais os estados e o capitalismo são diretamente responsáveis. Sem esquecer-se de mencionar a necessidade imperativa da classe empresarial de mão-de-obra barata para explorar.

Este terreno fértil de tensão imperialista entre os estados é ideal para o nacionalismo e, conseqüentemente, para a extrema direita. Essas forças tentam incutir ódio entre os pobres e explorados contra seus irmãos e irmãs de outras regiões para que não identifiquemos nosso verdadeiro inimigo, que não é outro senão o sistema. Por sua vez, o governo progressista fará o que sempre faz, protegerá os interesses do capital e comercializará a vida dos migrantes.

Apelamos para que as pessoas tomem as ruas, em solidariedade com os migrantes e, acima de tudo, com suas lutas. Porque temos visto como se rebelaram em motins nos CIES. Porque os vimos rebelar-se nos campos onde estão presos nas Ilhas Canárias e resistir à repressão policial com a vergonhosa cumplicidade da Cruz Vermelha. Porque vimos como os trabalhadores sazonais, muitos deles migrantes, enfrentaram seus chefes e as condições de exploração no meio de uma pandemia. Porque vimos como os jovens, desumanizados e rotulados como MENAS [Menores Estrangeiros Não Acompanhados], se defenderam com unhas e dentes contra os ataques fascistas. Porque vimos como as redes de apoio mútuo e solidariedade são geradas diante do assédio policial nas batidas racistas. Porque estamos unidos em nosso ódio à polícia e seus constantes abusos contra todos nós, tanto aqui como na fronteira de Ceuta.

Fazemos um chamado para sair às ruas contra as guerras e tensões imperialistas entre os estados e seu macabro jogo geopolítico.

Fazemos um chamado para sair às ruas contra a formação militar da fronteira em Ceuta e do estreito.

Um chamado para tomar as ruas contra as fronteiras e o capitalismo que precisa delas.

Solidariedade e luta!

Nem guerra entre povos, nem paz entre classes!

Convocam: Algumas solidárias internacionalistas

agência de notícias anarquistas-ana

Em câmera lenta
preguiça na imbaubeira
passa a outro galho.

Anibal Beça

[EUA] Situação de Mumia

Por Mumia Abu-Jamal | 12 de maio de 2021

Normalmente não faço isso, ou seja, não escrevo sobre mim mesmo. Acho muito mais interessante contar as histórias de outras pessoas, do globo giratório em que vivemos, as histórias geradas pela frágil condição humana e as lutas da humanidade pela libertação.

Mas eu escrevo, desconfortavelmente.

Este é um comentário sobre o comentarista.

Há várias semanas, fui submetido a um procedimento médico conhecido como cirurgia de coração aberto, um duplo “bypass” depois que se soube que havia bloqueios em dois vasos sanguíneos no meu coração que prejudicavam a função cardíaca.

Esta deficiência foi reparada por alguns jovens cardiologistas bem preparados e com ampla experiência neste complexo procedimento cirúrgico.

Eu lhes digo que não fazia ideia de que sofria de tal doença. Mas agora, para ser inteiramente honesto, me sinto ótimo. Na verdade, sinto-me com mais energia do que de costume.

Agradeço a todos vocês – minha família, meus amigos e amigas – por seu amor e apoio.

Vamos em frente para a liberdade, de todo o coração!

Desde a nação encarcerada, sou Mumia Abu-Jamal. 

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Ruídos nas ramas.
Trêmulo, meu coração detem-se
e chora na noite…

Matsuo Bashô

[Rússia] O capitalismo e o Estado = uma guerra!

Declaração sobre o novo conflito Israel-Palestina

Acontecimentos recentes no Oriente Médio, o bombardeio brutal de Israel e Gaza, resultando na morte, ferimentos e traumas psicológicos de centenas ou mesmo milhares de pessoas, confrontos inter-étnicos e pogroms em Israel, assim como a confusão e a reação muitas vezes unilateral das forças anticapitalistas mundiais (incluindo muitos anarquistas) nos levaram, como anarco-sindicalistas e anti-nacionalistas, a fazer esta declaração.

Condenamos veementemente toda a cadeia de ações que levaram a uma crise militar atual: despejos de residentes árabes de suas casas, ataques de mísseis a Israel de Gaza, bombardeio de Gaza pelo exército israelense, atos de violência por nacionalistas árabes e judeus. Todos esses atos têm e não podem ter nenhuma justificativa.

É bastante óbvio que a cadeia de violência criminosa foi lançada no interesse do poder político dos círculos governantes israelense e palestino. O governo israelense de direita de Netanyahu e seu partido Likud, diante da perspectiva de perder o poder, deliberadamente escalou e provocou o conflito. Por sua vez, as autoridades da Autoridade Palestina e o regime do Hamas em Gaza consideraram necessário demonstrar que são “defensores dos interesses nacionais” dos árabes palestinos, na véspera das próximas eleições na Palestina. Para obrigar a população a ganhar seu apoio, os círculos governantes de todos os lados recorreram a meios experimentados e testados: agitando o nacionalismo e provocando histeria militar.

A situação socioeconômica dos trabalhadores na região é cada vez mais catastrófica. Israel passou por meses de um bloqueio totalitário e despótico, quando as pessoas eram proibidas até mesmo de sair de suas casas e bairros. O país é abalado por escândalos políticos e de corrupção. A medicina e os serviços sociais estão arruinados pelas reformas neoliberais. O problema de moradia não foi resolvido. A maioria da população árabe na Palestina e em Israel vive em extrema pobreza. Em Gaza, eles sofrem especialmente tanto com o bloqueio israelense quanto com as políticas totalitárias do regime islâmico do Hamas. Tudo isso não pode deixar de causar profundo descontentamento entre os estratos desprivilegiados de judeus e árabes. Para evitar que sua raiva, mais cedo ou mais tarde, caia sobre os governantes e os ricos, os governantes de Israel e da Palestina estão cada vez mais colocando trabalhadores israelenses e palestinos uns contra os outros. Como sempre, no topo – poder, lucros e benefícios, na base – sofrimento, sangue e morte!

A atual explosão militar deve parar e, de uma forma ou de outra, ela vai parar. Mas isto não levará a uma resolução do conflito. Os problemas na região não desaparecerão em nenhum lugar. Eles são gerados pelo poder e pelos interesses de propriedade dos governantes e capitalistas de todos os lados, e só podem ser eliminados junto com eles: eliminados pela luta conjunta e, em última instância, pela revolução social dos trabalhadores comuns judeus e árabes, israelenses e palestinos.

O caminho para esta decisão é difícil e não está fechado. Demasiado desespero, cheiro de sangue derramado muito fresco, a mente das pessoas comuns está muito envenenada pelo nacionalismo israelense (sionista) e árabe, as emoções estão muito afloradas hoje em dia. Mas não há outro caminho para a paz na região sofredora, e não pode haver. E as ações conjuntas judaicas e árabes pela paz que já estão acontecendo hoje, por menor que seja, nos dão esperança de que um dia será assim.

NÃO À GUERRA! NÃO AO NACIONALISMO, AO MILITARISMO E AO FANATISMO RELIGIOSO DE TODOS OS LADOS!

NEM ISRAEL, NEM PALESTINA, MAS UMA LUTA DE CLASSES CONJUNTA DOS TRABALHADORES DA REGIÃO!

Confederação dos Anarco-Sindicalistas Revolucionários – Seção da Associação Internacional dos Trabalhadores na Região Russa

aitrus.info

Tradução > Liberto

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À sombra, num banco,
folha cai suave
sobre meu cabelo branco

Winston

Encontro digital | “Masculinidades: estratégias, perspectivas e práticas libertárias”

Neste sábado, 22 de maio, a partir das 16 horas.

Mediador: Reginaldo Bombini, facilitador de grupos reflexivos e de responsabilização de homens.

Debatedores: Alessandro de Oliveira Campos e Danilo Heitor, professores anarquistas, integrantes do grupo de discussões “Homem a Homem”. Eles também fazem o podcast homônimo discutindo masculinidades e cotidiano numa perspectiva anarquista.

>> Canal do CCS no YouTube:

www.youtube.com/centrodeculturasocial

FB: https://www.facebook.com/events/1794876577341566/

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A velha ponte –
No pó ajuntado entre as tábuas,
Brota o capim.

Paulo Franchetti

[Espanha] A CGT exige uma distribuição mais justa da riqueza que permita que todas as pessoas ganhem a vida

• A CGT participa em Ceuta nos eventos organizados para o 1º de maio, tendo em mente o impacto da pandemia nas pessoas e territórios mais pobres e mais vulneráveis.

• José Manuel M. Póliz: “A presença da CGT em Ceuta é uma realidade, mas hoje estamos deixando claro que vamos ser mais ativos e combativos do que nunca contra as desigualdades sociais”.

A Confederação Geral do Trabalho (CGT), participou este ano dos eventos do 1º de maio que foram realizados na cidade autônoma de Ceuta. Nesta ocasião, estiveram presentes os secretários gerais da CGT em nível territorial, J. Manuel M. Poliz, em nível nacional, Miguel Montenegro, e da federação local de Ceuta, Reduan Mohamed. No final da manifestação da manhã nas ruas da cidade, participaram da leitura de um manifesto unitário em comemoração a este Dia Internacional do Trabalhador.

A CGT tem exigido uma distribuição mais justa do trabalho, para que todos possam ganhar uma vida decente. Para a CGT, uma distribuição igualitária do trabalho também leva a uma distribuição da riqueza entre aqueles que estão tendo mais dificuldades nestes tempos de crise, derivada e exacerbada após o surgimento do Covid em nossa sociedade. No entanto, a CGT tem enfatizado que, embora seja verdade que nos últimos meses a situação da classe trabalhadora piorou com a pandemia, também é verdade que a realidade da classe trabalhadora tem sido dramática por muitos anos, o que tem experimentado um grande revés em termos de direitos e liberdades.

Os anarcossindicalistas propõem que a única saída para reverter o estado atual da classe trabalhadora é através de mobilizações vigorosas contra os cortes, contra o desemprego, a precariedade, as leis repressivas, contra as Reformas Trabalhistas, etc. que revertem a desmotivação instalada após longos meses de pandemia. Por isso, na coletiva de imprensa anterior à saída da manifestação, o secretário-geral da CGT, José Manuel Muñoz Póliz, explicou que era necessário estar nas ruas de Ceuta neste Primeiro de Maio, porque desde a organização anarcossindicalista entende que há uma grande repressão contra os trabalhadores e trabalhadoras, e uma diferença significativa nas taxas de desemprego em comparação com as da península. Além disso, o secretário geral dos anarcossindicalistas indicou que o desemprego juvenil é muito preocupante, estando em 70% em Ceuta, bem como as enormes diferenças de renda per capita entre os bairros mais ricos e mais pobres da cidade.

Assessoria de imprensa do Comitê Confederado da CGT

cgt.org.es

Tradução > Liberto

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na noite, o vento
vindo cheiroso de ver
madressilvas.

Alaor Chaves

Conflito entre Israel e palestinos: as dezenas de crianças que morreram nos confrontos

A violência entre israelenses e palestinos continua aumentando e sem dar sinais de que vai parar, apesar dos apelos internacionais para o fim das hostilidades.

Após semanas de tensão em Jerusalém Oriental, confrontos entre palestinos e a polícia israelense eclodiram no início de maio na Esplanada das Mesquitas (ou Monte do Templo), um local sagrado para judeus e muçulmanos.

Diante da dura repressão israelense que deixou centenas de feridos palestinos, o grupo armado Hamas começou a lançar foguetes em massa da Faixa de Gaza contra Israel. As forças militares israelenses responderam com bombardeios em Gaza.

Das 219 pessoas que morreram como resultado dos ataques na Faixa de Gaza, pelo menos 63 são crianças, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, comandado pelo Hamas. Além disso, cerca de 1,5 mil pessoas ficaram feridas.

Entre as 10 pessoas que morreram em Israel, duas eram crianças.

Aqui, contamos a você as histórias de alguns dos menores que morreram no conflito.

Crianças da família Al Kawalek, de 5 a 17 anos

Acredita-se que pelo menos 13 membros da família Al Kawalek morreram enterrados nos escombros de sua própria casa quando um ataque israelense atingiu a rua Al Wihda no centro da cidade de Gaza na manhã de domingo.

Muitas das vítimas eram crianças e uma tinha apenas seis meses de idade, segundo relatos da mídia local.

“Não vimos nada além de fumaça”, disse um dos sobreviventes da família, Sanaa al Kawalek, ao jornal palestino Felesteen Online. “Eu não conseguia ver meu filho perto de mim. Eu o estava abraçando, mas não conseguia ver nada.”

As Forças Armadas de Israel (IDF) descreveram o bombardeio como “anormal” e disseram que as mortes de civis não foram intencionais.

Um porta-voz disse que os ataques aéreos causaram o desabamento de um túnel e de casas.

Entre os mortos da família Al Kawalek estão as irmãs Yara, de 9 anos, e Rula, de 5.

Ambas recebiam tratamento para traumas do Conselho Norueguês para Refugiados (NRC).

As Al Kawalek eram meninas educadas que sempre faziam seus deveres de casa na hora certa, disse um de seus professores, que não quis ser identificado, à BBC.

Crianças da família al Hadidi, de 6 a 13 anos

Na sexta-feira, a esposa e os filhos de Muhammad al Hadidi — Suhayb, 13; Yahya, 11; Abderrahman, 8; Osama, 6; e Omar, de cinco meses — vestiram suas melhores roupas e foram visitar seus primos próximos no campo de refugiados de Shati, fora da Cidade de Gaza, para celebrar o Eid al Fitr, que marca o fim do Ramadã.

“As crianças vestiram suas roupas de Eid, pegaram seus brinquedos e foram para a casa do tio para comemorar”, disse o pai, de 37 anos, aos repórteres.

“Mais tarde eles ligaram e pediram para passar a noite e eu aceitei”, disse ele.

No dia seguinte, o prédio onde estavam hospedados foi atingido por ataques israelenses.

Omar, de apenas cinco meses, sobreviveu após ser resgatado dos escombros em que estava ao lado de sua mãe morta.

“Eles não carregavam armas, não estavam disparando foguetes”, disse al Hadidi sobre seus filhos. “O que eles fizeram para merecer isso? Nós somos civis.”

Em meio aos escombros estavam brinquedos infantis, um jogo de Banco Imobiliário e, no balcão da cozinha, pratos inacabados de comida do Eid.

“Quando meus filhos foram dormir, eles esperavam que tudo acabasse quando acordassem. Mas agora eles se foram. Só tenho a memória e o cheiro deles em minha casa”, disse al Hadidi ao jornal The Times de Londres.

Hamza Nassar, 12 anos

Hamza Nassar havia deixado sua casa em Gaza na noite de quarta-feira passada para comprar alguns legumes para que sua mãe pudesse preparar uma refeição para quebrar o jejum do Ramadã. Mas ele nunca foi capaz de voltar para casa.

O menor foi morto nos ataques israelenses naquela noite, que começaram perto do cemitério de Abu al Kas, de acordo com a rede Al Jazeera.

Hamza era um garoto legal e um excelente aluno, disse seu pai à Al Jazeera.

Ido Avigal, 5 anos

Acredita-se que a vítima mais jovem do lado israelense seja Ido Avigal, um menino de 5 anos que morreu na última quarta-feira na cidade de Sderot, no sul do país.

Ido morreu dentro de um aposento reforçado contra ataques, no que o exército israelense descreveu como um incidente “incrivelmente raro”.

Sua mãe o trouxe para a sala especial quando as sirenes do foguete soaram na quarta-feira à noite em Sderot, de acordo com o The Times of Israel.

Estilhaços de um foguete atravessaram a placa de metal protetora usada para cobrir a janela do quarto em que eles estavam e também feriram a mãe e sua irmã de 7 anos. Ido morreu várias horas depois devido aos ferimentos.

“Os estilhaços chegaram em um ângulo muito específico, em uma velocidade muito específica e em um ponto muito específico”, disse o porta-voz do IDF, Hidai Zilberman, sobre o incidente.

“Estávamos em casa e as crianças estavam um pouco entediadas, então minha esposa Shani foi com eles para a casa da irmã dela, a dois edifícios de distância”, disse o pai de Ido, Asaf Avigal, ao Canal 13 de Israel.

“Lamento não ter sido eu quem foi atingido pelos estilhaços, no lugar dele”, disse Avigal no funeral do filho. “Há alguns dias, você me perguntou: ‘Pai, e se a sirene tocar enquanto estivermos do lado de fora?’ Eu disse que, enquanto você estivesse comigo, você estaria protegido. Eu menti.”

Avigal e sua esposa falaram sobre a inteligência de Ido, que às vezes parecia um adulto de 50 anos no corpo de um menino de 5. Frequentemente, ele pedia ao pai que desligasse o computador e passasse mais tempo com ele. “Chega de telas, fique comigo”, dizia.

A mãe de Ido está no hospital.

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57183809

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Canta o bem-te-vi
no galho da goiabeira:
mesma saudação!

Ronaldo Bomfim