[Chile] Ya no hay vuelta atrás Nº 6: Crise Capitalista e Reestruturação na região chilena

Companheiros, enviamos a vocês a última edição da YNHVA, sobre a crise capitalista e a reestruturação na região chilena, os becos sem saída do reformismo e a necessidade de superar a impotência da perspectiva revolucionária.

Quase meio ano após a mudança de governo, há poucas coisas que podem nos surpreender sobre o governo de Boric, que não é diferente da contrarrevolução mais clássica, exceto talvez o pouco tempo que levou para se revelar como tal (embora estejamos nos acostumando com o ritmo vertiginoso destas observações). O que foi delineado durante a campanha[1] é agora a ideologia estatal, e é a segurança interna, a salvaguarda do Estado de direito (que nunca foi outra coisa senão o controle repressivo e o isolamento da dissidência), que é a tarefa que sustenta as políticas do bloco governante, sempre de acordo com as necessidades do capital.

Com a proposta de uma nova constituição entregue após um evento publicitado e televisionado, com o custo de vida próximo ao insuportável, e a mesma falta de representação política real pré-revolta, o atual governo das três antigas faces da desmobilização da burocracia estudantil de 2011 está se refugiando e fingindo enfrentar estes momentos críticos com um espírito jovem, aguardando um plebiscito pouco inspirador[2] e, mais do que qualquer outra coisa, colocando sua imagem em jogo, tentando mostrar sinais de sua capacidade de impor uma mão firme e ordem tanto na esfera pública como dentro de sua própria tenda política.

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https://hacialavida.noblogs.org/ya-no-hay-vuelta-atras-no-5-crisis-y-reestructuracion-capitalista-en-la-region-chilena/#more-1135

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

A chuva tardia
deixou perfumes de terra
nas ruas molhadas.

Humberto del Maestro

[São Paulo-SP] No ar Rádio Malfalada e abertura do espaço da Tenda

Depois de 5 meses de estudo, pesquisa e trabalho coletivo com pessoas de todo o Brasil: lançamos o primeiro de três episódios da Rádio Malfalada, uma colaboração entre Tenda de Livros e Fagulha Podcast. Nele você saberá ainda mais sobre a vida de Maria Antônia Soares, suas ideias e seus ideais, bem como o contexto de sua época e por qual motivo ela é essencial hoje para o feminismo e para o anarquismo. Assista agora¹.

A Rádio Malfalada também fará parte da exposição Estas são imagens, escute-as. A abertura é 27 de agosto com a inauguração da nossa casa, anote na agenda, é um sábado das 16h às 22h. Você, que gosta e acredita na Tenda de Livros, é uma pessoa muito bem-vinda. Pelo WhatsApp contaremos todos detalhes, venha para o grupo².

Um abraço carinhoso nosso

[1] https://ia801400.us.archive.org/18/items/radio-malfalada-ep-1/RADIO%20MALFALADA%20EP1.mp3?mc_cid=73de6c40b6&mc_eid=8caea939b8

[2] https://chat.whatsapp.com/FUmICDBoNIELwaccEQOLzg?mc_cid=73de6c40b6&mc_eid=8caea939b8

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Seu olhar segue
o voo do pássaro –
será que desce?

Eugénia Tabosa

Errico Malatesta | O Individualismo no anarquismo

Não pretendemos neste artigo falar daqueles que ao chamarem-se individualistas crêem justificar toda a ação mais repugnante, e que têm tanto a haver com o anarquismo quanto os esbirros com a ordem pública de que se gabam de ser defensores, ou os burgueses com os princípios de moral e de justiça com que às vezes procuram defender os seus privilégios homicidas.

Nem pretendemos falar daqueles companheiros que se chamam “individualistas nos meios”, os quais, na luta que hoje travamos, preferem, ou exclusivamente admitem, a ação individual, seja porque a crêem mais eficaz, seja por medidas de prudência, ou porque temem que uma qualquer organização, um qualquer entendimento coletivo, minoraria a sua liberdade. Desta, que em parte é questão de tática e em parte questão de princípios, nos ocuparemos quando falarmos da questão de organização.

Agora queremos falar do individualismo, como filosofia, isto é, como concepção geral da natureza das sociedades humanas e das relações entre indivíduos e coletividades, porquanto ele é professado (algumas vezes quase sem darem por isso) por uma parte dos nossos companheiros.

Há quem se diz individualista por entender que o indivíduo tem direito ao seu completo desenvolvimento físico, moral e intelectual e que deve encontrar na sociedade uma ajuda, e não um obstáculo, para alcançar o máximo de felicidade possível. Mas em tal sentido somos todos individualistas e seria só questão de uma palavra mais; e nós não a utilizamos simplesmente porque, tendo outras e variadas acepções, só serviria para gerar confusão. E não somente nós, anarquistas e socialistas de todas as escolas, somos individualistas no sentido supramencionado, como o são todos os homens de qualquer escola ou partido; pois o indivíduo é o único ser senciente e consciente, e sempre que se fala de prazeres ou de sofrimentos, de liberdade ou de escravidão, de direitos, de deveres, de justiça, etc., não se tem e não se pode ter em vista senão os indivíduos viventes.

Algumas vezes, portanto, trata-se de uma simples questão de palavras e não valeria a pena fazer-lhe grande caso. Mas amiúde uma importante diferença de ideias entre aqueles que professam e aqueles que repudiam o individualismo existe realmente; e importa determiná-la, porque graves são as consequências práticas que dela derivam, apesar de que os objetivos finais duns e doutros sejam os mesmos. Não é que haja razão de se olharem de esguelha e se tratarem por adversários, tanto mais que, desde que os anarquistas quiseram pôr-se a fazer “filosofia”, sucedeu uma tal confusão de ideias e de palavras que muitas vezes não há modo de perceber se se está de acordo ou não; mas é urgente que nos expliquemos bem, se não por outro motivo, pelo menos para nos desembaraçarmos duma vez para sempre destas questões abstratas que absorvem a inteira atividade de certos companheiros, com grave dano do trabalho de verdadeira propaganda.

Examinando tudo o que tem sido dito e escrito pelos anarquistas individualistas apercebemo-nos da coexistência de duas ideias fundamentais, contraditórias entre si, que muitos não afirmam explicitamente, mas que duma forma ou doutra se encontram sempre, e muitas vezes até nas ideias de muitos anarquistas que não costumam chamar-se individualistas.

A primeira destas ideias consiste em considerar a sociedade como um agregado de indivíduos autônomos, completos em si mesmos e capazes de bastar a si mesmos, que não têm razão de estar juntos se não encontram o proveito próprio, e que poderiam separar-se quando achassem que as vantagens que a sociedade lhes oferece não compensam os sacrifícios de liberdade individual que ela exige. Em suma, consideram a sociedade humana como uma espécie de companhia comercial que deixa ou deveria deixar cada sócio livre de entrar ou sair segundo a sua conveniência. Hoje, dizem eles, como uns poucos indivíduos açambarcaram todas as riquezas naturais ou produzidas, os outros vêem-se obrigados a sofrer à força as regras impostas pela sociedade ou pelos indivíduos que na sociedade imperam; mas se a terra, se os meios de trabalho fossem livres para todos, e se a força organizada de uma classe não escravizasse o povo, ninguém teria razão de permanecer em sociedade quando o seu interesses lhe aconselhasse doutro modo. E como, uma vez satisfeitas as necessidades materiais, a suprema necessidade do homem é a liberdade, toda a forma de convivência que exigisse um qualquer, ainda que mínimo, sacrifício da vontade individual é de se repudiar. Faz o que queres, tomado no sentido mais estreito e absoluto da frase, é o princípio supremo, a regra única da conduta.

Mas por outro lado, admitidos o indivíduo autônomo e a sua absoluta, ilimitada liberdade, deriva-se que a partir do momento em que os interesses se acham em antagonismo e as vontades variam, a luta surge, e na luta uns ficam vencedores e outros vencidos, e então volta-se à opressão e à exploração se quer remediar.

Por isso era necessário aos anarquistas individualistas, que não ficam atrás de ninguém no ardente desejo do bem de todos, um modo de poder, mais ou menos logicamente, conciliar com o bem permanente de todos o princípio da absoluta liberdade individual. E encontram-no adotando um outro princípio: o da harmonia por lei natural.

Faz o que queres; mas é certo, dizem eles, que espontaneamente, naturalmente, tu só quererás aquilo que não puder prejudicar o igual direito dos outros a fazerem o que querem.

“A nossa liberdade — escreve-nos um amigo, explicando-se em toda a amplitude das faculdades humanas — nunca lesará a liberdade alheia. Como os astros gravitando em torno do próprio centro percorrem trajetórias especiais, assim os homens poderão percorrer a sua própria linha de liberdade sem nunca se confundirem e sem degenerarem no caos.” E outros, substituindo a astronomia pela fisiologia, falam de uma “simpática aglomeração de células nos vegetais e nos animais”; e outros falam da formação dos cristais, e assim sucessivamente passando em revista todas as ciências naturais. Dos cristais tortos ou mancos, da luta pela existência, das catástrofes cósmicas, das doenças, dos abortos, de toda a infinita soma de chacinas e de dores que também existem na natureza, nenhum se recorda.

A desarmonia, o antagonismo de interesses, são a consequência das instituições presentes. Destruí o Estado; respeitai a completa liberdade de comércio, de banca, de cunhagem de moeda; seja o direito de posse da terra limitado pela obrigação de a cultivar ou utilizar doutro modo pessoalmente; seja livre, completamente livre a concorrência, dizem os anarquistas individualistas da escola de Tucker — e a paz reinará no mundo: a renda económica, vale dizer, as diferenças de valor, por produtividade e por posição, das várias partes do solo desaparecerão naturalmente, e a concorrência conduzirá naturalmente à mais profícua utilização das forças naturais em benefício de todos.

Destruí o Estado e a propriedade individual, dizem os anarquistas individualistas da escola comunista (a coisa existe apesar da aparente contradição dos termos), e tudo caminhará bem; todos ficarão naturalmente de acordo; todos trabalharão porque o trabalho é uma necessidade fisiológica; a produção corresponderá sempre e naturalmente às demandas do consumo, e não haverá necessidade nem de regras nem de pactos porque… fazendo cada um aquilo que quer, dará consigo a ter feito, sem saber nem querer, justamente, precisamente aquilo que queriam os outros.

De modo que, indo ao fundo da coisa, encontra-se que o anarquismo individualista não é mais que uma espécie de harmonismo, de providencialismo.

Segundo nós os princípios do individualismo são completamente errôneos.

O indivíduo humano não é um ser independente da sociedade, mas é o seu produto. Sem sociedade ele não teria podido sair da esfera da animalidade brutal e tornar-se verdadeiramente um homem, e fora da sociedade não poderia senão retornar mais ou menos rapidamente à animalidade primitiva.

O dr. Stokmann do Inimigo do Povo de Ibsen, que irritado por não ser compreendido e seguido pelo público exclamava “o homem mais forte é o que está mais só”, e que foi tomado por anarquista quando não era mais que um aristocrático, dizia um solene disparate. Se ele sabia mais do que os outros e podia mais do que os outros, era porque mais do que os outros tinha vivido em comunicação intelectual com os homens presentes e passados, porque mais do que os outros tinha beneficiado da sociedade — e portanto mais do que os outros devia à sociedade.

O homem pode ser na sociedade livre ou escravo, feliz ou infeliz, mas na sociedade deve permanecer, porque ela é a condição do seu ser homem. Portanto, em vez de aspirar a uma autonomia nominal e impossível, deve procurar as condições da sua liberdade e da sua felicidade no acordo com os outros homens, modificando de acordo com os outros as instituições sociais que não lhes convêm.

Igualmente vã, e completamente desmentida pelos fatos, é a crença numa lei natural pela qual a harmonia entre os homens se estabelece automaticamente, sem necessidade da sua ação consciente e desejada.

Mesmo destruídos o Estado e a propriedade individual, a harmonia não nasce espontaneamente, como se a natureza se ocupasse do bem e do mal dos homens, mas é preciso que os próprios homens a criem.

Mas sobre isto, para nos fazermos compreender, deveremos falar amplamente… e os leitores já reclamaram que fazemos artigos demasiado longos.

Para uma outra vez então.

(de «L’Agitazione» de Ancona, n.º 6 — 19 de abril de 1897)

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Não pude imaginar
Esse tigre invisível
Que vês em meu nariz

Jeanne Painchaud

[Itália] Por um novo manifesto anarquista contra a guerra

Nestes meses em que a tragédia da guerra é cada vez mais trazida à atenção internacional pela crise na Ucrânia, o tema do antimilitarismo anarquista é mais importante do que nunca. Vemos como, já antes da invasão russa da Ucrânia, algumas críticas pesadas ao nosso tradicional antimilitarismo foram realizadas por alguns indivíduos e grupos que se declaram antiautoritários, libertários ou anarquistas. Consideramos cuidadosamente essas posições nos últimos meses, e acreditamos hoje que precisamos esclarecer nosso ponto de vista.

Nossos pensamentos primeiro vão para nossǝs companheirǝs que, há mais de um século, antes da tragédia da Primeira Guerra Mundial, sentiram a necessidade de afirmar que: “A todos os soldados de todos os países que acreditam que estão lutando por justiça e liberdade, temos que declarar que seu heroísmo e seu valor só servem para perpetuar o ódio, a tirania e a miséria” (Manifesto Anarquista Internacional contra a Guerra, 1915). Como Goldman, Berkman, Malatesta, Schapiro e ǝs outrǝs, acreditamos na necessidade de que a voz internacionalista e solidária do anarquismo, juntamente com seus princípios de irmandade e fraternidade universal, voltem a falar com todǝs, ainda mais num mundo cada vez mais fragmentado pelo ódio nacional, étnico e identitário.

A guerra está na origem da ordem social atual, baseada na dominação, exploração e opressão. Este é um ponto-chave para a FAI, pois está exposto no Programa Anarquista, que é a referência teórica da nossa Federação: “Não compreendendo as vantagens que poderiam vir a todǝs da cooperação e solidariedade, vendo em todas as outras pessoas um concorrente e um inimigo, uma parte da humanidade tentou agarrar a maior quantidade possível de riqueza em detrimento da outra. Em tal luta, o mais forte, ou o mais afortunado, termina para vencer e para oprimir e dominar os vencidos de várias maneiras”.

É por isso que mantemos nossa posição de rejeição de todas as guerras e de apoio à ideia de derrotismo revolucionário. Pelo derrotismo, queremos dizer uma posição revolucionária antes da guerra, o que implica que se deve lutar pela derrota do governo e das classes dominantes de seu próprio país, acreditando que as guerras são travadas pelos interesses e privilégios dos opressores e exploradores. No início do século XX, e especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, alguns governos europeus usaram a acusação de “derrotismo” para reprimir qualquer forma de dissidência, oposição à guerra, protesto político ou luta dos trabalhadores, o que quebraria a unidade nacional diante do inimigo. Portanto, o derrotismo não aceita as suspensões das lutas sociais que são impostas pelos governos em tempos de guerra através da censura, da repressão e das leis marciais. Pelo contrário, a luta contra o governo durante a guerra continua, sabotando a guerra e incentivando as lutas sociais. O derrotismo está inserido numa perspectiva internacionalista e revolucionária que visa provocar a derrota do imperialismo de “nosso” país, e um de seus pontos fundamentais é a recusa em apoiar qualquer partido beligerante nas guerras entre estados e/ou blocos imperiais.

Dezenas de guerras estão sendo travadas, com sua carga de mortes, destruição, estupros, saques e deportação em massa. Nos últimos quinze anos, a crise do sistema de hegemonia baseada na globalização produziu uma tendência mundial de autoritarismo e militarização. A globalização como forma de dominação mundial há muito tempo garantiu um papel privilegiado na exploração dos recursos do planeta ao imperialismo anglo-americano, com o apoio das classes privilegiadas de vários países. A entrada da Rússia e da China no Fundo Monetário Internacional e na Organização Mundial do Comércio demonstrou que os conflitos entre essas potências não questionam a divisão da sociedade em classes e em várias hierarquias.

No Congresso da FAI, que ocorreu em Empoli, em junho de 2022, emitimos uma declaração sobre interpretações da guerra na Ucrânia, da qual citamos uma parte: “Nos últimos dez anos, um cenário muito diferente foi definido pela intensificação das tensões entre estados, as guerras comerciais e financeiras, o isolamento progressivo dos mercados em maior ou menor grau, a extensão dos conflitos que ocorrem em parte por procuração, mas cada vez mais em forma direta, entre potências mundiais e regionais em diferentes regiões do mundo. O modelo capitalista que foi imposto no século passado pela hegemonia dos EUA ainda é o horizonte dentro do qual as disputas entre estados ocorrem, mas o mundo não é mais dominado por uma única superpotência. Os EUA perderam as guerras no Afeganistão, Iraque e Síria, e em comparação com algumas décadas atrás sua influência na América Central e do Sul, que eles costumavam considerar seu quintal, diminuiu significativamente. O acordo AUKUS entre a Austrália, o Reino Unido e os EUA, que reorientava a estratégia desses Estados em direção ao Pacífico com uma aliança separada, parecia desafiar a presença dos EUA na Europa e a própria coesão, se não a existência mesma, da OTAN. Assim, a invasão russa da Ucrânia faz parte de um processo de redefinição dos equilíbrios globais do poder.

A crise dessa hegemonia global está intimamente ligada à crise dos sistemas governamentais baseados na coesão social, devido ao corte das garantias sociais e ao enfraquecimento dos mecanismos de consenso. Em muitos países, temos visto o aumento de movimentos que, com diferentes formas e características, questionam os governos e os acordos entre as classes dominantes. Nesse contexto, o uso da força torna-se o principal instrumento destas classes para a preservação do poder e da ordem social. Nesse sentido, temos discutido nos últimos anos o crescente papel dos militares nas sociedades. A revolta na Bielorrússia em 2020 e a insurreição no Cazaquistão em janeiro de 2022 mostraram uma grave crise de consenso dentro do sistema liderado pela Rússia. Na realização do OTSC, os militares assumiram um papel fundamental. A intervenção militar russa no Cazaquistão para esmagar sangrentamente revoltas populares deu uma trágica demonstração disso, e abriu caminho para a invasão da Ucrânia em fevereiro. Mesmo nos EUA, os tumultos anti-policiais contra a violência racista em 2020 levaram a liderança das Forças Armadas a apoiar a instalação de Biden como presidente em um prelúdio para a guerra civil no início de 2021, para evitar que o supremacismo violento de Trump exasperasse irreparavelmente a crise de consenso.”

A resposta à essa crise foi o aumento dos gastos militares e o fortalecimento do papel das forças armadas nas decisões políticas. Uma vez destruídos os mecanismos de regulação econômica e política que estabeleceram a hierarquia entre os poderes e os fluxos de dinheiro para as metrópoles imperialistas, as classes dominantes precisam da guerra para restaurar a velha dominação ou para definir novos. No contexto desta nova desordem mundial, está crescendo o recurso à guerra e às “missões” militares, de qualquer maneira os governos as definem em sua propaganda.

Da Ucrânia ao Iêmen, dos países do Sahel a Mianmar, do Afeganistão ao Tigray e em outros lugares, passando por todas as regiões onde genocídios como o do povo curdo e os de populações indígenas e afrodescendentes estão em andamento, estamos todos potencialmente sob as bombas e a ameaça de destruição, repressão e mudança autoritária. Sabemos bem que as portas giratórias entre as chamadas democracias e as chamadas autocracias podem se mover muito rapidamente, e que o estado de guerra rapidamente reduz o espaço para aqueles que querem agir para a transformação social. Sempre damos nossa solidariedade humana àqueles que sofrem e arriscam suas vidas estando em situações difíceis, mesmo que tenham ideias e práticas distantes daquelas que expressamos.

No entanto, o anarquismo social quebra as lógicas imperiais, capitalistas, nacionalistas e autoritárias atuais, rejeitando as divisões impostas pelas fronteiras. Não reconhecemos o conceito de integridade territorial ou de “defesa territorial” de um Estado ou de qualquer entidade que aspira a ser como um Estado porque, associados ao princípio da soberania territorial, esses conceitos inevitavelmente acabam por fomentar perspectivas nacionalistas ou micronacionalistas. O que quer que a palavra “nação” signifique, ela esconde a divisão entre exploradores e exploradǝs, entre opressores e oprimidǝs.

Reiteramos nossa irrevogável e inequívoca condenação do regime putiniano e de sua invasão criminosa da Ucrânia, bem como sua feroz repressão da dissidência interna. Mas também condenamos o papel criminoso de todos os governos que sopram sobre as chamas deste e de outros conflitos fornecendo armas, muitas vezes ganhando dinheiro com esses suprimentos. Nós nos opomos fortemente à OTAN, que há muito vem tentando impor a militarização da vida social e o aumento dos gastos militares nos países membros, e que graças a Putin ganhou nova força após o fim inglória de sua agressão no Afeganistão. Da mesma forma, não aceitamos a narrativa de uma guerra entre liberdade e ditadura. Deste ponto de vista, a Ucrânia de Zelensky é realmente uma pequena Rússia, com um governo autoritário, um círculo de oligarcas que saqueiam o país, agindo uma repressão contra todas as formas de protesto e contra minorias que a guerra tornou mais dura. Hoje, Zelensky, para permanecer no poder, está fazendo dívidas e vende seu país para os EUA, o Reino Unido, a União Europeia em troca de seu apoio militar. No entanto, a penetração dos interesses ocidentais na Ucrânia está longe de ser apenas devido à invasão russa de 24 de fevereiro: empresas multinacionais de agroalimentares, muitas dos Estados Unidos e uma da Rússia, controlam parte do “celeiro” da Europa e seu principal porto comercial em Odessa há mais de 10 anos.

As consequências desta guerra são dramáticas em ambos os lados da frente. São desastrosas também para o resto da Europa, com o aumento dos preços devido à especulação, à crescente militarização e ao rearmamento, ao agravamento das condições de vida de milhões de proletáriǝs, incluindo o medo e a violência, que correm o risco de se tornarem ferramentas perigosas para governos autoritários. Essa situação é de novo percebida na Europa, mas continua caracterizar a maioria das regiões do mundo, paralelamente à devastação ambiental fomentada pelas lógicas de lucro, mercados e estados, que ameaçam a própria vida do planeta onde vivemos.

O primeiro compromisso daquelǝs que se opõem à guerra é a construção e disseminação de práticas de ajuda mútua, como redes de solidariedade de baixo para atender às necessidades imediatas das pessoas que mais sofrem com as consequências do conflito, sendo esses alimentos ou apoio médico. Há também a necessidade de redes de apoio para aqueles que praticam greves, sabotagem, deserção, como redes transnacionais para aqueles que se escondem ou fogem de ou sobre ambos os lados da frente. Nesse sentido, rejeitamos e lutamos para desconstruir os modelos patriarcais e de dominação impostos pelo militarismo que são repetidas incessantemente pela propaganda de guerra na mídia oficial e nas mídias sociais também, onde o centro do palco é sempre tomado pelas mesmas imagens de lutadores masculinos, robustos e jovens.

De várias partes foi sugerido tomar uma posição, eis lutar por um dos governos que fazem esta guerra, como se tomar partido para um ou outro fosse inevitável.

Algumas relíquias do marxismo pensam que podem apoiar um imperialismo menor, a fim de derrotar a ameaça predominante que eles identificam com a “ocidental”. Mas a estratégia de brincar com poderes imperialistas para aguçar suas contradições, como demonstrou a aliança entre movimentos operários e forças nacionalistas que caracterizaram o stalinismo entre as duas guerras mundiais e depois, leva a destruir toda a perspectiva revolucionária e a dificultar toda a ação autônoma das classes exploradas e oprimidas.

Outras interpretações seguem diferentes abordagens, avaliando o imperialismo russo como um perigo para toda a Europa e além. Essas interpretações também são endossadas por alguns componentes da orientação libertária. Sem questionar a ameaça representada pelo autoritarismo e militarismo da Rússia, acreditamos que não será a derrota militar da Rússia na Ucrânia que impedirá uma virada autoritária na Europa Ocidental. Os processos sociais autoritários que são evidentemente dominantes na Rússia e nos países da OTSC também estão sendo praticados desde anos na União Europeia, e a guerra está agora dando-lhes uma aceleração adicional. Além disso, a “democracia” baseia-se na condição de privilégio de alguém. A visão que apresenta a União Europeia como um farol da democracia, identificando, em vez disso, a Rússia, a China e seus satélites como herdeiros do totalitarismo combinado com o capitalismo selvagem é a quintessência de um ocidentalismo que não nos pertence.

Estas são nossas posições, confirmando nosso antimilitarismo numa perspectiva internacionalista e revolucionária que deve estar concretamente enraizada em lutas sociais e redes de solidariedade, para criar saídas coletivas e libertárias do vórtice da guerra em que os Estados e o capitalismo mundial nos jogam. Esta é a nossa contribuição para o debate internacional anti-guerra. Achamos que uma coisa deve ser clara acima de tudo: com ou sem armas, para ser eficaz, qualquer luta deve ser feita e organizada de baixo, fora dos aparelhos dos Estados, governos e especialmente fora das forças armadas.

Mesmo os governos beligerantes ou co-beligerantes estão cientes de que a guerra implicará massacres e devastação nas áreas diretamente afetadas, mas também miséria, desemprego e fome no resto do mundo, mesmo na Europa, mesmo nos Estados Unidos. Os governos estão cientes de que as condições estão amadurecendo para uma crise social sem precedentes, razão pela qual estão fazendo tocar as bandas de metal do militarismo e do nacionalismo, para evitar a solidariedade das classes exploradas e oprimidas.

Como os governos são os promotores e beneficiários das guerras, para acabar com as guerras, os governos devem ter medo dos movimentos populares, porque o único limite para o capricho de cada governo é o medo de que os movimentos populares possam instilar nele. A oposição à guerra faz parte do nosso compromisso diário, a partir da denúncia e boicote às produções da morte e da crítica e desconstrução da retórica militarista, a partir da educação militarista e da linguagem em todos os níveis. Devemos nos posicionar contra todas as guerras e todos os exércitos implantando uma estratégia interseccional que identifique e contraste as conexões entre militarismo e outras formas de opressão, como patriarcado, racismo, capitalismo e todos os tipos de chauvinismo, através de ações coletivas, bem como relações pessoais.

Somente a ação das classes exploradas pode parar a guerra boicotando produções de guerra, recusando-se a construir, comercializar e transportar armas e todos os instrumentos de morte, participando dos movimentos de oposição a plantas e bases militares, e promovendo greves a nível nacional e internacional contra a guerra e a economia de guerra. O movimento anarquista participa dessas lutas, de diferentes formas de acordo com as circunstâncias, criticando ideologias militaristas e nacionalistas, construindo associações e redes de base a partir de baixo, praticando ação direta, apoiando todas as formas de recusa, deserção e objeção aos massacres promovidos pelo capitalismo e estados.

Estamos mais do que nunca convencidos da validade do princípio anarquista que significa que os meios devem ser coerentes com os fins. Não há guerras boas ou guerras justas, e em tempos de crescente loucura nacionalista e soberanista acreditamos que nunca devemos nos aliar de forma alguma aos governos ou participar de guerras entre estados e blocos imperiais. As pessoas nunca devem morrer ou matar pela soberania territorial. As guerras são todas criminosas e os exércitos (incluindo seus corpos auxiliares) são todos instrumentos de exploração, patriarcado e da mais ou menos “legítima” dominação do Estado sobre os territórios e sobre os corpos dos indivíduos. Não reconhecemos nenhuma dessas legitimidades territoriais e não estamos dispostos a lutar por nenhuma delas.

A história mostra que as guerras são tradicionalmente travadas para dificultar a ação das classes exploradas para sua própria emancipação, razão pela qual é primordial para o anarquismo mobilizar-se agora contra a guerra, fora e contra todas as instituições militares. Nossa força está primeiro na circulação de ideias e na defesa de espaços para a produção e circulação do pensamento crítico, promovendo a unificação de movimentos pacifistas e antimilitaristas numa luta comum contra os governos. A capacidade do movimento anarquista de ser coerente na luta contra a guerra é a maneira de ativar práticas libertárias, organização e ideais entre as classes exploradas e oprimidas que são as primeiras a sofrer as consequências das guerras. Com base nisso, um novo protagonismo será possível para fornecer uma solução diferente para a crise, com a espera de construir uma sociedade libertária.

Federação Anarquista Italiana – FAI

[documento apresentado no XXXI Congresso – Empoli junho de 2022 e ratificado nas semanas seguintes]

www.federazioneanarchica.org

agência de notícias anarquistas-ana

Ventos nos umbrais
janelas antigas,
modernos varais.

Sandra Maria de Sousa Pereira

Semana Internacional de Solidariedade com os Prisioneiros Anarquistas, de 23 à 30 de Agosto de 2022

O fato de que o capitalismo não se centra em nossas necessidades, mas no lucro, é comprovado hoje, em toda sua brutalidade, pela crise climática, a pandemia da Covid-19 e o colapso dos sistemas sócio-econômicos em todo o mundo. Aqueles que lucram com o capitalismo ficam mais ricos em tempos de desastre. Mas com as crises atuais também estamos passando por uma nova era de revoltas de baixo para cima.

A resistência à guerra na Ucrânia, os protestos sudaneses contra o regime militar ou a revolta social no Chile são alguns exemplos que não só nos mostram as possibilidades de organização e luta coletiva. Também mostram como é importante que os movimentos sociais aprendam e se apoiem uns aos outros nestes tempos. Não apenas fora dos muros, mas também atrás deles.

Desde o pipocar da pandemia da Covid-19, temos visto lutas ferozes contra o encarceramento, lembrando-nos de que os encarcerados são os mais afetados quando tudo cai. As fugas das prisões brasileiras e italianas, as pessoas encarceradas na Tailândia que incendiaram uma prisão, assim como as greves de fome em andamento como as que vemos na Grécia ou nos campos de detenção de refugiados poloneses, são exemplos da coragem que as pessoas encarceradas estão mostrando para derrubar os muros.

Em todas essas lutas, ideias e valores anarquistas são o combustível da resistência coletiva. Portanto, não é de se estranhar que a repressão contra os anarquistas esteja aumentando e a solidariedade seja mais necessária do que nunca. O sistema de dominação capitalista consegue funcionar graças ao isolamento contínuo entre as pessoas, da competição sem fim e de ignorar nossas reais necessidades e desejos. Precisamos de solidariedade entre nossos amigos, no trabalho, na vizinhança, em nossas comunidades. Os de fora e os de dentro de seus muros.

Vamos derrubar os muros juntos!

É por isso que convocamos novamente a Semana Internacional de Solidariedade com os Prisioneiros Anarquistas. Faça alguma ação de solidariedade! Escrever cartas, organizar palestras ou exibições de filmes, torne nossos companheiros visíveis nas ruas com uma faixa ou pichação e deixá-los ver que eles estão em nossos corações e que lutamos juntos.

Recordemos aqueles que lutaram contra a injustiça e estão pagando com suas vidas.

Ninguém será livre, até que todos estejam livres!

Se você tiver alguma pergunta ou comentário, se quiser nos enviar uma foto, um pequeno texto, uma gravação de seu evento ou ação, escreva para nós (tillallarefree@riseup.net).

https://solidarity.international/

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sol poente
numa ruela
menino corre das sombras

Rod Willmot

[Espanha] Madri: Despejo do EOA La Emboscada

Diante do despejo do EOA La Emboscada: Resistir sempre valerá a pena

Esta manhã (30/07), um novo espaço morreu novamente em Tetúan (Madri). Um bairro cada vez mais acostumado a despejos e desocupações. Desta vez, foi a vez do Espaço Okupado Anarquista La Emboscada, localizado na rua Azucenas. A resistência ativa dos solidárixs conseguiu evitar duas tentativas anteriores de irrupção policial, mas hoje às 7h30 da manhã uma grande mobilização policial fez com que esta realidade sucumbisse ao abandono, à destruição interior e muito provavelmente à demolição, para se adaptar às novas e privilegiadas “necessidades de vida” do bairro.

Foram quatro anos de atividades, reuniões e momentos de conspiração coletiva contra o poder. Um lugar longe da regularidade e da constância com que uma vez foi planejado, mas, de qualquer forma, um espaço no qual se pode praticar afinidades e propiciar encontros.

Pode parecer estranho, apenas algumas horas depois de fazer um apelo de solidariedade diante da batida policial, escrever novamente e pedir apoio para a resistência. Mas entendemos que a defesa de um espaço ou as lutas que o sustentam nunca podem terminar com um despejo. Ao contrário, são a semente de um conflito contínuo com o Poder e a Dominação, onde uma série de ideias são abraçadas e praticadas por um número infindável de camaradas que continuam a aguçar a experimentação em cada ato, cada ação, cada palavra, cada grafite, cada pedra, cada barricada, cada expropriação, cada okupação… Que tentam gerar lacunas a partir das quais se pode enfrentar este mundo de miséria e tristeza.

Porque vale a pena resistir ao cinzento monótono da homogeneidade, à perversa “igualdade de oportunidades”, ao diálogo enganoso, à cessão que (se) extorque?

Porque vale a pena resistir a uma rotina em que trabalhamos até a morte em troca de produtos cada vez mais caros, sempre com o pescoço na água, enquanto nos pedem para fazer o último esforço de suas mansões e escritórios nos arranha-céus dos centros financeiros.

Vale a pena, e alegremente, viver uma vida na qual geramos relações reais, baseadas na igualdade, honestidade, desejos e confronto como uma prática consciente para enfrentar a realidade atomizada mediada pelo consumo, competitividade eterna e solidão digital multitudinária.

Resistindo a um mundo que aceita e normaliza mortes em prisões, CIES, fronteiras, delegacias de polícia, centros de detenção juvenil e outras instituições onde os pobres, diferentes ou rebeldes são encarcerados. Resistir à destruição exponencial de vidas em nome do progresso, da democracia, das nações ou de todos ao mesmo tempo.

Vale a pena continuar a gerar espaços de resistência no coração da besta, da cidade do capital. Vale a pena subverter as relações baseadas na propriedade privada, que prioriza os lucros de alguns sobre as necessidades básicas gerais, tais como ter um teto sobre a cabeça.

Resistir vale a pena porque continua a nos proporcionar uma oportunidade de conflituar entre iguais. Procurar um sentido contra a resignação. Porque um despejo não acaba com nada. Continuaremos a liberar espaços. Contra a propriedade, contra a autoridade. Resistir sempre valerá a pena.

Okupação, Resistência, Ação Direta

Em solidariedade com o La Emboscada

P.S: Abraços e força ao camarada Giannis Michailidis, prisioneiro anarquista em greve de fome na Grécia desde 23/5, e a todos aqueles que estão lutando por sua liberdade.

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

sob o sol se pondo
como alfinete no lago
descansa a garça

Marcelo Santos Silvério

[Chile] Jornada de solidariedade pela anulação das condenações da promotoria militar ao companheiro Marcelo Villarroel

Apoiamos o chamado que procura tornar visível e pressionar para a libertação imediata do companheiro Marcelo Villarroel Sepúlveda, que já cumpriu 14 anos de prisão impostos pelo Estado chileno, e que agora procura perpetuar o sequestro de nosso irmão através do “sistema de justiça militar”.

É importante lembrar que os companheiros processados pelo caso da segurança foram condenados pela imprensa e suas partes perante os tribunais, tendo que ir à clandestinidade para proteger suas vidas, pois como podemos agora corroborar, o crime de que são acusados é o de pensar e propagar ideias libertárias e subversivas, por se declararem abertamente contra esta sociedade prisional e sua democracia militarizada.

Que a solidariedade vá além dos muros desta sociedade carcerária podre!

Abaixo a democracia e seu estado militarizado, para o inferno com sua nova constituição, protegida pelas mesmas milícias de sempre.

Morte ao Estado e todos os seus partidos!

Enquanto houver miséria, haverá rebelião!

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

Eu nado de costas;
meu ventre magnífico é
o Monte Fuji.

Manuela Miga

Curdistão | 10 anos da Revolução de Rojava

Por Guilhotina.info

Para marcar o 10º aniversário da Revolução de Rojava, a Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão traduziu alguns excertos do comunicado internacional das YPG e das YPJ, que apela a uma onda de solidariedade com os povos de Rojava e do Norte da Síria face à anunciada agressão imperialista do estado turco.

A 19 de julho de 2012, a revolução de Rojava começou, com a tomada de poder na cidade de Kobane. A revolução deu esperança do Curdistão e daí espalhou-se para o resto do mundo. E uma revolução que, à base de democracia popular, libertação da mulher e ecologia, dá uma resposta e alternativa do sistema capitalista que destrói o planeta e os valores da humanidade.

Em Rojava, encontramos uma luz de democracia e de vida livre e autónoma. E um lugar de fraternidade entre povos e de estabilidade numa região que, durante séculos, se viu vítima de guerra e de destruição, e que se tornou um tabuleiro para os jogos geopolíticos das grandes potências do mundo ocidental.

As mulheres tomam um papel de vanguarda na Revolução de Rojava. A sua participação na autodefesa em particular não só destroçou a noção patriarcal de que as mulheres não se podem defender, mas inspirou mulheres por todo o mundo a lutar pela sua libertação.

Neste dia, comemoramos os e as quase 11 mil mártires e mais de 20 mil camaradas feridos que deram o seu sangue e vida em defesa desta revolução e do mundo contra o Daesh. Internacionalistas de todo o mundo vieram a ter um papel importante nesta guerra. São a nossa inspiração e nós seguimos o seu caminho.

Depois da vitória sobre o Daesh, celebrada pelo mundo inteiro, Rojava vê-se agora confrontado com ataques diários pelo Estado Turco, membro da NATO, e por numerosos embargos, de água e vários bens, que servem primariamente para atacar as pessoas da região.

Tal com as YPG, YPJ e as SDF defenderam o mundo da ameaça [jihadista] que era temida pelos mais poderosos Estados ocidentais, agora o mundo tem de aceitar a responsabilidade de defender os povos e a revolução de Rojava!

Fonte: https://guilhotina.info/2022/07/20/10anos-revolucao-rojava/

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nuvem que passa,
o sol dorme um pouco –
a sombra descansa

Carlos Seabra

 

[Espanha] Caminhadas para descobrir os traços anarquistas de Zamora

A iniciativa teve a participação de um grande número de pessoas

A tarde de domingo (07/08) trouxe um tipo diferente de atividade para Zamora. Uma caminhada libertária que gerou um interesse significativo entre os residentes zamoranos e turistas, atraindo um bom número de participantes. Guiados pelo professor zamorano Carlos Coca, autor de vários estudos sobre o assunto, eles percorreram os lugares onde o anarquismo deixou sua marca na cidade, escutando atentamente as explicações.

Poetas, artistas, escritores, jornalistas, judeus, operários, professores e destacados anarcossindicalistas dos anos 30 foram biografados. Durante o passeio, visitaram suas casas, sedes, monumentos e lugares de interesse histórico. Pessoas, ainda hoje muito queridas na cidade, ou que estão começando a ser estudadas, tais como: Pepe Durán, Jacinto Toryho, León Felipe, Agustín García Calvo, Diego Hernández, Miguel Fernández Expósito, Amparo Barayón, José Justo Bruña, os anarquistas de Sanabria, Losacio e Villalpando, Iliá Ehrenburg, ou a família Lobo, foram explicados pelo professor zamorano ou diretamente por seus familiares, vários dos quais também estavam presentes na caminhada. Em uma atividade muito emocionante, e que poderia ter excelentes resultados turísticos, observando o interesse de ontem.

A atividade foi organizada pelo XIV Encuentro del Libro Anarquista de Salamanca, que realizou a feira neste fim de semana na cidade vizinha. No final do ato, o cantor-compositor Buterfly recitou algumas estrofes do “Cazadores de ciudad” de Chicho Sánchez Ferlosio, e foi lida uma comovente carta de Federico García Lorca dirigida a seus pais.

Fonte: https://www.zamora24horas.com/local/paseos-conocer-huellas-anarquistas-zamora_15049191_102.html

agência de notícias anarquistas-ana

A jabuticabeira.
Através de líquida cortina
olhos negros espiam.

Yeda Prates Bernis

[Portugal] Acampamento em Defesa do Barroso | Não às minas, sim à vida!

Em agosto de 2021, as portas da Quinta do Cruzeiro abriram-se de par em par para acolher amigas/os e irmãs/ãos de luta, chegados de norte a sul do país e de todos os cantos do mundo. A população de Covas do Barroso recebeu-os como sempre recebe qualquer forasteiro que venha de boa-vontade: de coração aberto, sorriso posto, e entrada franca.

Depois de uma experiência muito recompensadora tanto para visitantes quanto para habitantes, e porque a nossa luta persiste, o Acampamento em Defesa de Covas do Barroso regressa para uma segunda edição!

Entre os dias 12 e 15 de Agosto de 2022, convidamos novamente todas aquelas que a nós se queiram juntar para quatro dias de partilhas de experiências e histórias

A nossa luta é a mesma, mas também é diferente. Se no passado achávamos que (apenas) teríamos que enfrentar uma empresa e o governo português para proteger o nosso território e o patrimônio, agora sabemos que vale tudo.  Fomos confrontados/as com ameaças,  com tentativas de intrusão nos processos democráticos do poder local e, inclusive, com as mais básicas táticas de divisão, segundo a famosa máxima “dividir para conquistar”. Aprendemos a não subestimar o quão fundo se consegue descer na busca desenfreada por lucro.

Contra as insidiosas manobras de divisão social orquestradas pelas companhias mineiras, contamos com o apoio, a solidariedade e a camaradagem de outras populações em luta, aqui e mundo afora, assim como com a força da união da nossa comunidade.

Este ano, perante o cenário de guerra e de militarização da sociedade, o mundo vê-se  obrigado a refletir sobre o que significa e quanto custa realmente a “transição” energética que se adivinha. Queremos confrontar e desconstruir a ideia de que a transição energética tem de passar, necessariamente,  pelo extrativismo desenfreado, pelo esgotamento de todos os recursos naturais segundo o plano de terra arrasada, pela despossessão dos territórios rurais, e pela procura incessante de lucros. Queremos falar-vos de engenharia social e de terrorismo judicial, de como combater o frenesi capitalista que quer crescer à custa das nossas gentes, dos nossos montes e das nossas águas.

Queremos, acima de tudo, evitar que uma empresa gananciosa destrua as nossas serras e reescreva a nossa ancestral história. Queremos impedir este colonialismo modernista, que submete populações e regiões vulneráveis aos piores abusos em nome de um “bem comum” que nunca chega.

Não nos vamos deixar enganar pelas “Roupas Nova do Rei”, nem ser obrigados a dizer que cinzento é verde, que as minas são sustentáveis, e muito menos iremos acreditar que as empresas de mineração são os nossos salvadores e que nos vão trazer desenvolvimento sustentável.

Estamos cansados de afirmações de  que a exploração mineira na  UE está sujeita aos mais elevados padrões ambientais e sociais a nível mundial, ficou provado que não é e que estamos  vulneráveis a abusos.  Em Covas do Barroso temos a prova de que as leis valem pouco ou nada se não forem aplicadas e mais ainda se o governo e as instituições públicas estiverem dispostas a ceder e a curvar-se à vontade das empresas mineiras.

Em Covas do Barroso, nós que sempre vivemos de forma sustentável, recusamos ser sacrificados para que outros possam manter o seu consumismo intensivo.

Gostaríamos muito de contar-vos a nossa história, apresentar-vos as nossas gentes, e mostrar-vos o imenso patrimônio histórico e natural que herdámos – e que lutamos para proteger.

Temos várias propostas de discussão, mas queremos  ouvir as vossas também.

Inscrevam-se e juntem a vossa voz à nossa!

Sim à VIDA. Não às MINAS.

VERDE É O BARROSO!

barrososemminas.org

agência de notícias anarquistas-ana

na blusa velha,
muitas borboletas –
ele adora tocá-las…

Rosa Clement

[Brasília-DF] Armadilhas do “Novo Ensino Médio”: A genética capitalista na reforma educacional

É atrativa a propaganda de que o Novo Ensino Médio (NEM) traz liberdade para os alunos escolherem o que estudar. Também seduz a promessa de uma educação diversificada e conectada com o cotidiano e que garanta um emprego. Afinal, o desemprego e a precariedade da educação básica no Brasil, sobretudo a pública, são desesperadoras; e melhorar as escolas é um anseio geral.

Porém, o NEM deve ser analisado para além dessas publicidades ideológica que governos e empresas fazem para vender seu “peixe”. Estes estão explorando o justo anseio por melhorias para nos empurrar goela abaixo uma reforma empresarial muito nociva. Estão romantizando um projeto que fere princípios da educação pública e universal, mas que é vendida como “progressista”.

A paternidade empresarial do NEM

O NEM é um projeto educacional elaborado por bancos e grupos empresariais nacionais e internacionais em parceria com governos. Alguns destes grupos nacionais são o “Movimento pela Base” e “Todos pela Educação”. Entre empresas entusiastas e financiadoras estão a Fundação Lemann, Instituto Ayrton Senna, Instituto Natura, Instituto Unibanco, Fundação Itaú Social, Fundação Roberto Marinho etc.

No plano internacional, o Governo Federal se submeteu a um acordo com o Banco Mundial (BM), contraindo uma dívida de 250 milhões de dólares para implantar o NEM. A liberação deste recurso está condicionada ao cumprimento de metas definidas pelo Banco até 2023, como identificação de especialistas e reformas curriculares nos estados. O Banco Mundial é uma instituição imperialista que “orienta” países periféricos a adotarem políticas neoliberais, oferecendo financiamento e assessoria técnica, como ocorre com o NEM.

Para exemplificar sua política, em documento intitulado “Um Ajuste Justo…” de 2017, o Banco Mundial defende que o Brasil reduza seu investimento em educação e o número de docentes, aumentando assim a quantidade de alunos por professor em sala. Uma tática para isso seria aproveitar o “declínio natural do número de professores, sem substituir todos os profissionais que se aposentarem no futuro“. Esta “recomendação” sinaliza seu caráter antipovo, neoliberal e imperial.

No teste de paternidade, o NEM está impregnado do código genético desta elite brasileira e mundial. Uma elite que é parte dos problemas do mundo, das nossas desigualdades e injustiças, e que pensa e age também a nível educacional para formar uma força de trabalho adaptada a suas novas formas de exploração e que aceite seu poder: este é o projeto de sociedade que o NEM vai servir.

Antecedentes e contexto da reforma

É preciso pontuar que o NEM tem, pelo menos, três antecedentes institucionais que o pavimentam, atravessando diferentes governos – Dilma, Temer e Bolsonaro:

  • A) em 2009, o Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI) serviu de laboratório para induzir uma reestruturação curricular, também orientada pelo Banco Mundial;
  • B) em 2014, o Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024)apontava em sua Estratégia 3.1 a flexibilização curricular com conteúdos obrigatórios e eletivos, hoje presentes no NEM;
  • C) em 2015, o início da elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em 2017 e 2018, foi fruto do lobby e aposta do mercado educacional para investir com previsibilidade e segurança econômica nos produtos do ramo. A BNCC está no tripé do NEM.


Em 2016, enfim, o presidente Temer instituiu a Medida Provisória 746 da “reforma do ensino médio”. Como reação, mais de mil escolas e universidades no país foram ocupadas pelo Movimento Estudantil contra a Reforma: uma resistência histórica! Apesar da luta, a reforma foi aprovada em 2017 com algumas dissimulações – como Lei 13.415.

A educação não é uma ilha isolada. Assim, devemos entender que a nova formação pretendida no NEM serve a um contexto econômico específico. Entre 2016 e 2019, um conjunto de outras reformas ultraliberais foram propostas ou sancionadas por Temer e Bolsonaro, como: a EC 95, que congelou por 20 anos o orçamento da União; a Lei da Terceirização ilimitada (Lei nº 13.419); a Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467); a Reforma Previdenciária, entre outras.

Vejamos a EC 95 em relação ao NEM: em vez de ampliar recursos, já que o NEM pretende ampliar a carga horária e “inovar” o currículo, a EC 95 limita investimentos públicos. Tal corte de verba criar uma forte carência; por outro lado, o NEM abre a possibilidade legal de parte do currículo da rede pública ser executado pelo setor privado. Criam o problema, precarizando o serviço público, e apresentam a “solução” milagrosa da privatização.

Estas reformas antipopulares e o quadro econômico reforçam o contexto para o qual o NEM é justificado. Sob o pretexto de um ensino “flexível, em diálogo com o setor produtivo e demandas do século XXI“, o NEM pretende formar estudantes adaptáveis à flexibilidade do mercado de trabalho: longos períodos de desemprego, empregos rotativos, precários, sem direitos trabalhistas, sem estabilidade e com baixa remuneração. Eis a realidade do século XXI para a qual o NEM pretende formar nossa juventude.

Fonte: https://lutafob.org/9605/

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louco desafio:
comer fubá e cantar
o sole mio!

Carlos Seabra

 

[Itália] 1922- 2022 | Em memória de Filippo Filippetti, anarquista livornese, antifascista, morto por fascistas

Cem anos após os Fatos de Agosto de 1922, ontem (02/08) recordamos o anarquista Filippo Filippetti na placa afixada em 1972 pela Anppia Federazione Livorno na Via Provinciale Pisana. Abaixo encontra-se o texto do folheto que circulou na cidade nos últimos dias:

Filippo Filipetti, um jovem anarquista, foi morto a 2 de Agosto de 1922 pelos fascistas enquanto se opunha, juntamente com outros antifascistas, a uma expedição punitiva contra Livorno.

A 2 de Agosto de 1922, um grupo de jovens antifascistas, incluindo alguns anarquistas, envolveram-se num confronto armado perto de Pontarcione com os camiões dos fascistas. Filippo Filippetti, membro do Arditi del Popolo, sindicalista da USI para o setor da construção civil, morre no tiroteio.

No Verão de 1922, jogavam-se as últimas cartas para travar a reação antiproletária: o país foi marcado por uma crescente agressão dos fascistas contra as organizações do movimento operário e militantes individuais; dezenas de mortes foram contadas entre os antifascistas.

Durante meses, a União Anarquista Italiana e o jornal ‘Umanità Nova’ lutam em apoio ao movimento Arditi del Popolo, para formar uma frente proletária única para organizar a defesa. Por iniciativa do Sindicato dos Ferroviários Italianos, foi formada a Aliança dos Trabalhadores, na qual participaram todos os sindicatos, com o apoio da União Anarquista, do Partido Republicano, do Partido Comunista e do Partido Socialista.

A Aliança dos Trabalhadores convocou uma greve geral para acabar com a violência fascista a partir da meia-noite de 31 de Julho.

Fascistas financiados pelo setor agrário e industriais, armados pelos Carabinieri e pelo Exército, protegidos pela monarquia e pela Igreja, atacam os bastiões dos trabalhadores.

Em muitas cidades, incluindo Piombino, Ancona, Parma, Civitavecchia e Bari, os fascistas foram repelidos também graças à ação do Arditi del Popolo. À medida que a resistência dos trabalhadores crescia, a CGL e a PSI, na esperança de mais um compromisso, retiraram-se da luta, abrindo caminho para represálias armadas por parte do governo.

Livorno foi um dos centros do confronto. Entre 1 e 2 de Agosto de 1922, esquadrões fascistas de toda a Toscana lançaram uma caça aos antifascistas de Livorno, atacando bairros da classe trabalhadora que resistiram à invasão.

Muitos foram assassinados naqueles dias. Populares, comunistas militantes, anarquistas, republicanos e socialistas, incluindo Luigi Gemignani, Gilberto Catarsi, Pietro Gigli, Pilade Gigli, Oreste Romanacci, Bruno Giacomini e Genoveffa Pierozzi, bem como o jovem anarquista Filippo Filippetti.

Hoje, numa época de crescente militarização, guerra, renascimento do nacionalismo e do patriotismo, autoritarismo cada vez mais forte e ataques ferozes às condições de vida e de trabalho, é ainda mais importante reafirmar o nosso antifascismo. Fazemo-lo com a nossa prática diária, mas também através da memória daqueles que, sem ceder a compromissos ou seduções institucionais, queriam realmente impedir o aumento do fascismo, da ditadura, da miséria e do horror da guerra.

Anarquistas de Livorno

Tradução > Liberto

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brilha o grampo
ou ela tem no cabelo
um pirilampo?

Carlos Seabra

[Portugal] Há um século: O meu tributo a Malatesta

Poucos são os que conhecem o nome deste anarquista italiano (Errico, de baptismo, traduzido às vezes em português como Enrico, Eurico, etc.) mas ele figura com destaque em todas as histórias deste movimento político radical que despontou na Europa oitocentista e ainda se prolongou com alguma influência em certos países até à II Guerra Mundial, e sobreviveu depois, a espaços.

Malatesta nasceu em 1853 na província de Caserta (no Sul da Península), de uma família de proprietários rurais que lhe pôde proporcionar estudos. Chegou a frequentar Medicina mas a acção política e revolucionária falou mais forte e a elas se entregou inteiramente. Para sobreviver, recorreu a diversos empregos que a sua cultura permitia realizar (traduções, revisão de provas tipográficas, livreiro, vendedor, etc.) mas durante o seu longo exílio em Inglaterra trabalhou como electricista. Em situação de detenção domiciliária, veio a falecer a 22 de Julho de 1932 na cidade de Roma, onde sobrevivia com a ajuda dos camaradas, depois que uma squadra fascista havia destruído a sua oficina tipográfica.

Conhecendo ainda a acção de alguns heróis do Rissorgimento Italiano, como Mazzini, foi rapidamente para o nascente movimento operário-socialista que Malatesta se inclinou, privando ainda com o intemerato russo Bákunine (então refugiado entre a Suíça e a Itália), um nome que só por si assustava as Casas Reinantes e os Impérios, e entrando com outros jovens idealistas (entre outros, Cafiero, com quem esgotaram as respectivas heranças paternas para financiar as preparações revolucionárias) nas fileiras da International Workingmen Association onde já pontificava Karl Marx mas coexistiam várias outras tendências, entre as quais a dos franceses do anarquista Proudhon. E quando a disputa se agudizou depois da Comuna de Paris (1871) e do congresso de Haia (1872), Malatesta foi dos que recusou a extinção da Internacional e, pelo contrário, enveredou pela expansão da corrente anti-autoritária em todos os países onde isso parecia possível, como Portugal.

Redactor panfletário e jornalista inflamado, publicou diversos opúsculos destinados à propaganda entre o povo (Fra Contadini, etc.) e travou diversas polémicas, dentro e fora do seu movimento: em 1897, com o camarada Saverio Merlino sobre se o “partido anarquista” deveria ou não concorrer nos pleitos eleitorais; no congresso anarquista internacional de Haia, em 1907, com o francês Pierre Monatte, sobre se o sindicalismo (revolucionário) se bastaria a si próprio para a almejada revolução social; em 1916 (embora cheio de pena sincera), contra o seu amigo Kropótkine, que defendia o direito da guerra defensiva da França democrática perante os intentos do “militarismo prussiano”; e em 1926, contra os russos da “tendência de Archinov”, que preconizavam um modelo de organização própria de tipo “anarco-bolchevista”, com direcção centralizada e “responsabilidade colectiva”. Em todos estes confrontos, Malatesta representou sempre a parte radical e intransigente contra as cedências ao “realismo” e a abdicação daqueles princípios anti-autoritários que interiorizara desde jovem – anti-eleitoralismo, anti-estatismo, anti-teologismo, crença numa revolução emancipadora para todos os oprimidos – princípios estes que muitos outros assumiram como dogmas de uma ideologia que seria capaz de resistir às evoluções do mundo e da ciência (e foram capazes de sacrificar por isso as suas vidas).

Consequente com aquelas palavras, participou pessoalmente em diversas tentativas insurreccionais no seu país: em 1874 em Bolonha e em 77 no Benevento; em Ancona em 1898 e de novo em 1913; e Turim (em parte também Milão) em Setembro de 1919 (com ocupações de fábricas que paralisaram a nação), onde colaborou com o comunista Gramsci e impulsionou a criação da Unione Anarchica Italiana, redigindo um Patto de Alleanza exemplar que foi o seu estatuto orgânico fundador, e lançando o jornal Umanità Nova, que ainda hoje existirá. Esta actividade ininterrupta valeu-lhe inúmeras prisões, exílios e deportações al confino, sendo (segundo o historiador Berti) uma das personalidades mais perseguidas pela polícia daquele tempo. Mas nunca defendeu ou apoiou os atentados individuais praticados por certos anarquistas.

Depois veio a “marcha sobre Roma” (1922), o Fascismo, e o já idoso Malatesta lá foi, de trouxa aviada, homiziado para uma daquelas ilhas do Sul onde agora chegam os desesperados migrantes saídos da Líbia.

Este tempo de forçada inacção deu-lhe a oportunidade de reflexão pessoal, de análise do movimento em que acreditava e da toda a época que conhecera. Conseguiu publicar ainda a revista Pensiero e Volontà e colaborar em outros periódicos italianos e estrangeiros. E aqui podemos encontrar abundantes exemplos de como o seu pensamento político se terá tornado menos radical e mais atento às realidades sociais, económicas e políticas deste período “de entre guerras”. Face à complexidade, que já entrevia, das sociedades modernas industrializadas, recomendava ele então aos seus correligionários que, num processo de mudança social, “só devemos destruir aquilo que saibamos, e possamos, substituir por coisa melhor”.

Nunca renegou o seu passado de activista e revolucionário, mas Malatesta abria-se agora à compreensão de novas dimensões da acção social, que o futuro mostrou se terem tornado ainda muito mais imbricadas e profundas do que ele (e qualquer outra pessoa culta do seu tempo) poderia algum dia ter imaginado. A um dos que o conheceu e sendo dos mais sérios e consequentes seguidores da sua linha de pensamento, Umberto Marzocchi, ouvi-lhe um dia esta frase, que admito pudesse ter sido dita pelo seu mestre, face a certas críticas mais insidiosas vindas do seu próprio meio: “forse, abbiamo sbagliatto, ma con quanta bonna fede…

É a este carácter de lutador por boas ideias para uma sociedade mais livre e igualitária, mas, simultaneamente, de observador atento às evoluções que o mundo ia conhecendo, que eu presto o meu tributo de respeito e reconhecimento.

E por aqui termino estas evocações centenárias.

JF / 22.Julho.2022

(para quem queira aprofundar o conhecimento sobre esta figura histórica sugiro: Max Nettlau, Errico Malatesta, 1922; E. Malatesta, Pensiero e Volontà, 1936; Vernon Richards, Malatesta: Vita e Idee, 1968; Pier Carlo Masini, Storia degli Anarchici Italiani, 1969; Gino Cerrito, Il ruolo dell’organizazione anarchica, 1973; Paolo Finzi, La nota persona, 1990)

Fonte: https://aideiablog.wordpress.com/2022/07/22/ha-um-seculo-4/

Conteúdo relacionado:

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sonho colorido
o sol dança com a lua
você comigo

Carlos Seabra

[São Paulo-SP] “Prisões: Perspectivas Anarquistas”

O próximo encontro do Grupo de Estudos de Anarquismos, Feminismos e Masculinidades, do Centro de Cultura Social (CCS), será presencial, dia 13 de agosto, sábado, das 16h às 18h. Indicamos 2 textos para a conversa: “Prisões: falência e crime social”, de Emma Goldman (1910) (tinyurl.com/ge08221) e “Anarquia e dissonâncias abolicionistas”, de Salete Oliveira (2007) (tinyurl.com/ge08222). Os encontros do grupo são gratuitos e abertos para todas as pessoas interessadas. Teremos intérpretes de Libras.

Em razão da vigência da epidemia de Covid-19, pedimos que mantenha a máscara, traga sua garrafinha de água, e respeite o distanciamento e as orientações sanitárias de praxe.

Lembrando que nos orientamos pelos princípios anarquistas, tais como autogestão, apoio mútuo, internacionalismo, anticapitalismo e não partidarismo, não toleramos qualquer tipo de discriminação de raça, gênero ou sexualidade.

Centro de Cultura Social (CCS)

Rua General Jardim, 253, Sala 22 – Próximo ao metrô República — Vila Buarque – São Paulo (SP)

E-mail: CCS: ccssp@ccssp.com.br | E-mail do Grupo de Estudos: grupodeestudos_afm@ccssp.com.br | Site: www.ccssp.com.br |

FB: https://www.facebook.com/events/5365022440284937/?ref=newsfeed

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vôo de borboletra
do mundo das coisas
pro mundo das letras

Alexandre Brito

 

Lançamento: “Introdução ao pensamento anarquista na geografia: Piotr Kropotkin e Charles Perron”, de Amir El Hakim de Paula

A p r e s e n t a ç ã o

Iniciamos essa caminhada com objetivos totalmente claros. Colocar os geógrafos anarquistas em condições de igualdade com qualquer outro legatário desta importante ciência. Queremos com este livro que as suas propostas sejam estudadas e principalmente disseminadas. Kropotkin e Perron demonstram a relevância de uma geografia mais plural, humana e onde a prática e a teoria trabalhem sempre em conjunto. Pensar e agir: essas são as palavras de ordem de dois geógrafos e anarquistas, ou melhor, geógrafos-anarquistas!

Introdução ao pensamento anarquista na geografia: Piotr Kropotkin e Charles Perron

Amir El Hakim de Paula

143 páginas

44 reais

Intermezzo Editorial

https://intermezzoeditorial.minhalojanouol.com.br/

Conteúdo relacionado:

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No cimento quente,
A ilusão de um oásis:
Vaso de samambaias

Edson Kenji Iura

[Espanha] A CGT denuncia uma perda significativa do poder aquisitivo e a consolidação de condições de trabalho preocupantes para a classe trabalhadora nos próximos anos.

A organização anarcossindicalista apontou a falta de vontade política e o fracasso das medidas implementadas, como a “nova” Reforma Trabalhista, para aliviar a situação extrema de milhões de pessoas trabalhadoras.

Os dados sobre a pobreza da classe trabalhadora contrastam com os lucros das grandes empresas, que já se recuperaram após a queda sofrida em 2020.

A Confederação Geral do Trabalho (CGT), através de um comunicado no qual analisa os dados da Pesquisa da Força de Trabalho (EPA) correspondentes ao segundo trimestre de 2022, destacou mais uma vez a situação preocupante da classe trabalhadora e o futuro imediato que a classe trabalhadora enfrenta em face de uma nova crise econômica.

De acordo com a CGT, o aumento do custo de vida nos últimos meses, refletido no aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e na taxa de inflação subjacente, está afetando aqueles domicílios onde não há renda de qualquer tipo, que atualmente são 571.000. Além disso, a CGT aponta que os salários reais foram desvalorizados em até 10%. Isto teve um impacto sobre os acordos assinados durante 2022 (2.300 abrangendo quase 6.200.000 pessoas), porque uma perda salarial generalizada de 6,1% foi institucionalizada.

A CGT explicou que esta situação terá um impacto brutal sobre as famílias mais vulneráveis e, em geral, sobre a vida das pessoas com menor renda, causando mais desigualdade e precariedade.

Em relação à precariedade e tendo em vista os dados da EPA, a CGT tem enfatizado que a chave para reverter esta situação ainda está na luta social e trabalhista, fortalecendo os direitos trabalhistas da classe trabalhadora que lhes permite ter um escudo contra uma nova crise econômica. Entretanto, de acordo com a EPA, apesar da redução do número de desempregados, os empregos criados continuam a ser temporários e parciais. Estes tipos de contratos, que fomentam a incerteza no emprego para milhares de seres humanos, continuam a impedir que muitas pessoas em nossa sociedade tenham um projeto de vida decente.

A CGT também lembra que 6,6 milhões de horas extras por semana ainda estão sendo trabalhadas, e quase metade delas não são remuneradas, o que mostra que a exploração limita as pessoas a escolher outros empregos.

A CGT considera que a flexibilização e a intensificação das cargas de trabalho pioram as condições de trabalho da classe trabalhadora, como evidenciado pelo crescente número de mortes de pessoas enquanto ganham a vida. Especificamente, desde o início de 2022 até maio, 336 pessoas perderam suas vidas enquanto trabalhavam, 57 a mais do que durante o mesmo período em 2021.

É por todas essas razões que a CGT alerta para o perigo da desmobilização e da desmotivação dos trabalhadores em face dos ataques aos seus direitos trabalhistas e bens básicos (como saúde, educação, a sacola de compras, etc.), e apela para que se organizem, independentemente dos interesses políticos e partidários, contra a precariedade e a pobreza dos governos e dos que estão no poder.

Fonte: https://cgt.org.es/cgt-denuncia-una-importante-perdida-de-poder-adquisitivo-y-la-consolidacion-de-unas-condiciones-laborales-preocupantes-para-la-clase-trabajadora-durante-los-proximos-anos/

Tradução > Liberto

agência de notícias anarquistas-ana

tanto ao lado da chaminé,
como ao lado da porta –
o gato gelado

Jadran Zalokar