[EUA] Sobre Viver Neste Mundo

Revisitando Always Coming Home de Ursula Le Guin, por John Clark

Recentemente, o Anarchist Political Ecology Group (o Grupo APE) [Grupo Anarquista de Ecologia Política] leu e discutiu o livro de Ursula Le Guin Always Coming Home. Embora seja uma obra que revisito com frequência, esta foi a primeira vez que a li inteira em cerca de 35 anos.

Descobri o trabalho de Le Guin pela primeira vez quando li The Dispossessed [Os Despossuídos] em meados dos anos 1970. O livro teve um grande efeito nos membros do grupo anarquista do qual fazia parte na época, o Black Pearl Mutual Aid and Pleasure Club [Clube de Apoio Mútuo e Prazer Pérola Negra] de Nova Orleans.

Inspirado em parte por essa obra, alguns de nós formaram um grupo pequeno de afinidade dentro do grupo maior. Nós nos consideramos Odonianos, seguidores da filosofia cooperativa antiproprietária de Laia Odo, a grande filósofa social anarquista do planeta anarquista de Le Guin, o Anarres.

Quando Always Coming Home apareceu, uma década depois, o grupo Black Pearl não existia mais e aspirar a criação de e a vida em uma subcultura Odoniana começou a parecer um sonho de juventude, mas a nova obra de Le Guin me inspirou ainda mais do que seu clássico anterior tinha feito, ajudando-me a recuperar minha fé na comunidade livre e me dando um senso renovado de direção.

Em meados dos anos 1990, escrevi sobre o livro para uma coleção na qual cada contribuinte descrevia múltiplos livros que os tocaram mais profundamente. Disse que Always Coming Home, “de uma forma inteiramente incomparável, cria um mundo — um mundo distante que se torna intimamente presente para nós, já que mexe com os anseios mais profundos de nosso ser.”

Enalteci Le Guin pelo que revela através da personagem central do livro, “Stone Telling,” mais tarde chamada de “Woman Coming Home.” [Mulher Vindo para Casa] (“Stone Telling” — um nome cosmicamente dialético, reminiscente do pronunciamento famoso de Hegel, “The stones cry out and lift themselves up to Spirit”! [Em tradução livre, As pedras gritam e se levantam em direção ao Espírito!])

A originalidade da Stone Telling (sua singularidade universal) vem da experiência de viver em, e de compreender profundamente, duas culturas radicalmente diferentes. Através dessa experiência, ela “ganha a habilidade de revelar a verdadeira natureza de cada uma.”

Essas duas culturas ficcionais representam os dois mundos que podemos habitar e vir a compreender, o mundo manipulativo da dominação em que nos encontramos, e o mundo cooperativo de liberdade que somos capazes de criar. O que me pareceu mais marcante foi o retrato de Le Guin desse mundo, do cooperativo e anárquico Kesh, e sua cultura de “lar”, o oikos.

A grande conquista de Le Guin, concluí, foi que ela “nos dá um relato inspirador e emocionante de uma comunidade bonita, amável, criativa e feliz.”

Quando olho para trás, estou mais convencido do que nunca de tudo isso. Contudo, penso que, ao mesmo tempo, subestimei muito a densidade e a complexidade da proeza de Le Guin. Mais tarde, desenvolvi uma (ainda sendo evoluída) teoria de transformação social, estressando as pré-condições necessárias para a mudança revolucionária.

Localizei essas condições na esfera social institucional, a socio-ideológica, a social imaginativa, a ética-social e a interação dialética entre todas elas. Em Always Coming Home, Le Guin explora profundamente todas essas esferas. Na realidade, sei que nenhum livro lhe conta mais sobre como todas elas interagem e, assim, criam um mundo social — ou, potencialmente, destroem-no.

Todo detalhe de sua obra revela o funcionamento desses modos de determinação. Isso conclui brilhantemente estórias idealizadas, rituais, cerimônias, mitos, lendas, obras dramáticas, poesias e outros gêneros literários, arquitetura, paisagens, jardins, espaços comunais, roupas, relações de parentesco, hospedagens, sociedades, artes, artesanatos, ferramentas, mapas, culinária, medicina, música, instrumentos musicais, danças, brincadeiras, estruturas de caráter, sensibilidades, traços psicológicos e, talvez acima de tudo, linguagem.

E essa descrição deixa muito de fora. Tudo isso, nas mãos mitopoéticas de Le Guin, revelam a natureza de modos de determinação, seja como modos de dominação e separação, ou como modos de libertação e solidariedade.

A natureza de todos esses determinantes e das esferas de interação maiores da determinação que constituem molda o tipo de mundo no qual vivemos – ou, nos termos da Le Guin, determina se vivemos no Mundo ou não. E, na verdade, não vivemos. O mundo dominante do arché (“governar,” no sentido de dominação) é na realidade um modo de escapar e de negação do Mundo. É um não-Mundo e um anti-mundo de necrofilia e niilismo.

Em seu nível mais profundo, Always Coming Home é uma crítica de “viver fora do Mundo.” E é uma crítica que se direciona a nós, ao ponto de vivermos na cultura dominante (e não nos enganemos sobre o grau do quanto realmente estamos inseridos nela) até que não estejamos mais em casa ao estar no Mundo. Os resultados de viver fora do Mundo se tornaram torturantemente óbvios desde que o livro foi escrito.

O que pode ter sido pensado mais de trinta e cinco anos atrás, mas que agora grita conosco de suas páginas, é o fato de que é endereçado a nós, aqueles do passado trágico que moraram fora do mundo e que o devastaram.

A Stone Telling de Le Guin tem uma voz profética porque morou em ambos os mundos e teve uma profunda experiência de ambos. Ela se torna a Woman Coming Home porque sua viagem para outro mundo acaba por levá-la para casa, para o oikos, para o Mundo – o que ela então aprecia mais profundamente. A sua é uma jornada mística, uma viagem paradigmática por todos nós e, para seguir seu exemplo, devemos começar a experimentar nossos lares tão profundamente quanto a falta de um; isso significa que temos que começar a viver o aqui e o agora como se estivéssemos no Mundo.

Muitos anos atrás, sugeri que o livro de Le Guin “mexe com os desejos mais profundos de nosso ser.” Contudo, falhei em compreender adequadamente a necessidade de lê-lo de uma forma que permita que nosso ser seja “mexido” da forma mais praticamente crucial, da forma mais mundana, uma forma que libera o nosso espírito de criatividade social engajada.

Se o lermos em tal espírito de criação social, de poética comunal (criatividade radical), não iremos meramente pensar sobre, ou ainda, celebrar formas sociais libertárias, mas também começar a criá-las — por grupos de afinidades, comunidades de base, ecovilas e além.

Apenas tal criatividade comunal é capaz de unir o que restou no Mundo e de finalmente trazê-lo de volta em sua plenitude, ou, para invocar o imaginário Kesh, de dançar o Mundo de volta. Devemos entrar em uma temporalidade e uma espacialidade, um tempo e espaço realizados, em que não mais existimos fora do Mundo, mas vivemos no e com o Mundo.

Talvez possamos ter fé de que o grande anarquista comunitarista Gustav Landauer estava certo quando previu que, se criarmos comunidades nas quais a vida é verdadeiramente boa e nas quais tudo verdadeiramente floresce, isso criará um tipo de “inveja positiva” naqueles que as observam. Podemos chamar tal efeito de “inspiração”, a propagação pelo mundo inteiro do que Landauer chamou de Geist ou Espírito. De acordo com seu amigo Martin Buber, esse Espírito é algo encontrado em todos os centros descentralizados da comunidade livre.

Estamos agora na Necrocena, a nova era da morte na Terra, e está mais do que na hora de nós entrarmos no que pode ser chamado de Poeticena, uma nova era de nascimento, renascimento e criatividade na Terra. Essa transição dependerá da reemergência da comunidade carismática, um movimento do Espírito Livre; é muito tarde para a pré-figuração, é hora da transfiguração.

>> John Clark é um ativista anarquista comunitário e teórico. É diretor do La Terre Institute for Community and Ecology [Instituto La Terre para a Comunidade e Ecologia], o qual patrocina programas educacionais e organizacionais em Nova Orleans e em um local de 88 acres em Bayou La Terre, na floresta da Costa do Golfo do Mississippi. Seu último livro foi Between Earth and Empire: From the Necrocene to the Beloved Community, da PM Press.

Fonte: Fifth Estate # 410, Fall, 2021

Tradução > Sky

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agência de notícias anarquistas-ana

Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.

Rodrigo de Almeida Siqueira

[Espanha] Morre Sergio Castilla, figura histórica do ativismo anarquista de Lugo

Foi o representante da CNT em Lugo e chegou até mesmo a ser preso

Sergio Castilla, referência histórica do anarquismo em Lugo, acaba de morrer aos 84 anos de idade. Castilla morreu no domingo passado e foi cremado nesta segunda-feira (27/12) e nenhuma cerimônia de despedida foi marcada, pelo menos por enquanto.

Castilla viu sua saúde se deteriorar progressivamente nos últimos anos e sofreu algumas doenças graves, apesar das quais sempre tentou manter seu ativismo político.

Uma figura bem conhecida na cidade, embora politicamente nunca tenha conseguido fazer avançar o anarquismo em Lugo, ele sempre permaneceu ativo e apoiou várias demandas políticas e sociais.

Ele foi muito ativo como sindicalista da CNT, especialmente nos anos 80 e 90, e era um frequentador regular de todas as manifestações políticas e sindicais na cidade, onde não se importava de se impor, mesmo que isso lhe trouxesse mais de um dissabor, como lembrou Paco Rivera na segunda-feira.

Além do ativismo sindical, Castilla organizou ao longo dos anos vários eventos culturais, tais como sessões de cinema e apresentações de livros, com o objetivo de disseminar as ideias anarquistas em Lugo.

Castilla começou a ser politicamente ativo há muitos anos e foi até mesmo condenada à prisão. Em 2017, por ocasião da conversão da antiga prisão do distrito judicial de Lugo em um centro cultural, ele regressou às instalações da antiga prisão para relembrar os dias de 1977, quando, em plena Transição, foi preso com outros representantes sindicais de Lugo, como Santos Costas, por promover uma greve no setor da construção civil e colocar cartazes na cidade pedindo aos trabalhadores desse setor que aderissem à greve para exigir melhores condições de trabalho.

Fonte: https://www.elprogreso.es/articulo/lugo/muere-sergio-castilla-historico-activismo-anarquista-lugo/

agência de notícias anarquistas-ana

Na palma da mão,
Um vagalume —
Sua luz é fria!

Shiki

[Espanha] Lançamento: “La vida bajo la bandera pirata”, de Gabriel Kuhn

Durante as duas últimas décadas, uma batalha ideológica foi travada sobre o legado político e o simbolismo cultural dos piratas da era do ouro que vagaram pelos mares entre as ilhas do Caribe e o Oceano Índico entre 1690 e 1725. São retratados como vilões românticos, por um lado, e como verdadeiros rebeldes sociais, por outro. Gabriel Kuhn examina o significado político e cultural destes foras-da-lei nômades relacionando os relatos históricos a uma ampla gama de conceitos teóricos: desde Marshall Sahlins e Pierre Clastres até Mao-Tse Tung e Eric J. Hobsbawm passando por Friedrich Nietzsche e Michel Foucault. Os significados de raça, gênero, sexualidade e deficiência nas comunidades piratas da idade do ouro são analisados e contextualizados, assim como as formas de organização, economia e ética pirata.

La vida bajo la bandera pirata

Gabriel Kuhn

Katakrak Liburuak, Pamplona-Iruñea 2021

336 págs. Rústica 21×14 cm

ISBN 9788416946617

22,00 €

katakrak.net

agência de notícias anarquistas-ana

Salta uma truta —
Movem-se as nuvens
No fundo do rio.

Onitsura

[Bielorrússia] Sangue em suas mãos – informações sobre tortura e anarco-partisans

Hoje, a irmã do anarquista Dmitry Dubovsky publicou um short story depois de visitar o ativista na prisão sobre as torturas dos partisans nos primeiros dias após a detenção: os policiais cortaram a pele do pé de Igor Olynevich, Dubovsky foi estrangulado com uma sacola plástica e pendurado no que chamam de “swallow” [- um conhecido método brutal de tortura que provoca dores nos ligamentos e deixa sequelas a longo prazo]. Previamente, já tinha sido reportado que Sergei Romanov abriu suas veias por conta das agressões dos policiais da fronteira.

Estamos bem cientes de que ativistas anarquistas repetidamente passam por surras pelas mãos das autoridades punitivas, mas, desde agosto de 2020, os policiais não têm operado com qualquer tipo de limite. Esse sadismo exacerbado existia nas assim chamadas agências “de manutenção da lei” antes dos protestos começarem. Uma pessoa não vira um animal da noite para o dia (sic), muitas das torturas e agressões que vieram antes dos presos “políticos” foram testadas em pessoas comuns encarceradas.

A história dos anarco-partisans é apenas um exemplo do que está acontecendo no país agora. Há milhares de pessoas sentadas atrás das grades que não têm voz e não temos dúvidas de que estão sendo agredidas e torturadas continuamente, mesmo depois de sentenciadas. A ditadura bielo-russa evoluiu de um regime autoritário a uma seita de sádicos, prontos a derramar sangue não apenas para se manter no poder, mas porque tomaram gosto pelo processo em si. Se você tem alguma dúvida sobre as pessoas trabalhando no Ministério de Assuntos Internos/sistema KGB, lembre-se então daqueles lutando de dentro das prisões pela sua e pela nossa liberdade.

Nós não iremos esquecer de cada gota de sangue derramado na luta contra o regime; por cada gemido e lágrima, não apenas os policiais, mas cada filho da puta que executou a sentença pagará. Vocês podem ter vencido em 2020, mas a guerra contra a ditadura continua!

Até que todos e todas estejam livres!

Fonte: https://pramen.io/en/2021/12/blood-on-your-hands-regarding-information-about-torture-of-anarcho-partisans/

Tradução > Sky

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agência de notícias anarquistas-ana

Bolha de sabão.
Uma explosão colorida
sem nenhum estrondo.

Maria Reginato Labruciano

Monstro dos Mares: 10 Livros e 10 zines publicados em 2021

A Monstro dos Mares bota muito material na pista, ainda que seja apenas uma editora artesanal formada por pouquíssimas pessoas que tomam para si a tarefa de fazer livros. Estamos cansadas de negacionismo, de pandemônio, de fila do osso e de populismo pré-eleitoral. 2021 termina com a certeza de que os problemas permanecerão e que o próximo ano que se avizinha promete ser ainda pior para quem já se cansou de conversa fiada. Mesmo diante desse cenário de passos pesados, nós seguimos com nosso bonde. Foram publicados 10 livros e 10 fanzines de textos anarquistas ou inspirados pelas ideias anárquicas. Entendemos que, para um pequeno grupo de pessoas, que se encontram on-line e realizam as atividades diretamente das profundezas do interior paranaense, e com todas as nossas limitações, fazer livros fortalece nossa visão de como é possível (entre muitos aspectos) agir no mundo.

Felizmente, podemos contar com uma rede de apoio de muitas pessoas, fica nosso abraço por toda a confiança e incentivo, valeuzão! Mais do que palavras e recursos que permitem a continuidade da editora, também recebemos uma parte do tempo de nossas amizades que realizam as atividades conosco. Essas pessoas maravilhosas dividem algumas frações do mês para colaborar na revisão de um livro, desenhar a capa de um zine, ou mesmo ler um texto em grupo, trocar ideias, conversar sobre bolo ou torta em nosso grupo do Element/Matrix. E também recebemos com muita animação os comentários nas redes sociais, os compartilhamentos, RTs, fotos e stories. Isso nos faz permanecer e prosseguir.

Valeu 2021, trombamos no ano que vem.

monstrodosmares.com.br

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agência de notícias anarquistas-ana

Ano que termina
areia cheia
conchas mínimas

Alice Ruiz

[Chile] Reivindicação de responsabilidade por ataque à Gendarmeria

De uma forma muito autocrítica, as ações de solidariedade que são tomadas geralmente são reativas. Não há ações que sejam bastante ofensivas… Todos sabemos onde estão os caras, eles andam passeando com seus uniformes, e o fazem com total impunidade. E sabemos que eles estão assediando os irmãos e irmãs, estão os fazendo sentir-se mal, estão os humilhando…“. – Mauricio Morales

Um ano após nossa primeira ação, como o grupo que somos, e após muito estudo, tensões, propostas e reflexões, estamos de volta, continuamos com o trabalho do grupo. Voltamos, continuamos com a campanha que começamos há algum tempo.

Dirigimo-nos na madrugada do dia 27 de dezembro de 2021, alguns minutos antes de o relógio atingir as 3:00 da madrugada (A hora e o dia são sempre propostos, para que o ataque em sua totalidade atinja nossos alvos – inimigos) para a direção nacional da Gendarmaria do Chile. Localizado na Calle Rosas, no centro de Santiago.

Usamos uma carga direcionada, para que a explosão entrasse naquele ninho de torturadores. Desta vez usamos 400 grs. De explosivos industriais, mais ½ kilo de ANFO (adicionamos no interior do dispositivo munições de grande calibre e também de 9mm.) Tudo isso ativado por um sistema mecânico. Não queremos falhar, nem sofrer eventos imprevistos!!!

Se tudo funcionar como planejamos, estas munições carregadas de raiva contra os algozes, cheias de amor e solidariedade para com nossos irmãos e irmãs na prisão, deixarão alguns feridos e porque não algum morto.

Levamos em conta que nossos inimigos estão prontos e preparados para nos repelir, ansiosos para nos capturar. Respondemos: NUNCA MAIS DESARMADOS!!! Usando coletes à prova de balas e armados, somos donos de nosso destino.

Retrocedamos o tempo.

Quando consideramos a necessidade urgente de revidar golpe por golpe, para intensificar nossas ações contra os algozes. Eles não poderiam ser deixados de fora deste seleto grupo de capangas a serviço do Estado. A prisão como instituição sempre foi o bastião onde o Estado-capital procura reduzir a sua mínima expressão aos explorados e os seus inimigos declarados. Aqueles que decidem se rebelar contra a miséria implantada ao nascer conhecem apenas dois destinos: a prisão e a morte, nós sussurramos uma terceira opção, O ATAQUE.

Esta instituição que mancha sua história com sangue, humilhação, tortura, máfias e lucro. Eles serão sempre um alvo claro para qualquer tipo de ataque. Como gritam as paredes, “81 razões para matar um gendarme”.

Nosso ataque procura quebrar seu manto de tranquilidade e impunidade e não vamos descansar…

Lembramos com esta ação os 81 presos mortos no incêndio na prisão de San Miguel, onde a Gendarmeria, apoiada pelo governo de turno, permitiu que 81 presos fossem queimados até a morte. Como uma máquina de carne humana, as paredes daquele lugar continuam a ser erguidas, aprisionando e torturando.

Trazemos à mente neste momento a vida indomável de Kevin Garrido, que morreu dentro de uma prisão em outubro de 2018.

Sr. Álvaro Andrés Millanao Valenzuela, diretor da prisão concessionada, La Gonzalina. Rancagua. Tomamos conhecimento do assédio constante de nossos irmãos e irmãs que estão sendo mantidos como reféns nas masmorras que o senhor, Sr. Millanao, está a cargo.

Seremos claros:

Se os companheiros anarquistas: Joaquin Garcia, Juan Flores, Ignacio e Luis Avaca forem espancados, molestados ou humilhados novamente.

Se algo acontecer com a saúde e a vida de nosso companheiro anarquista Francisco Solar, a quem está sendo constantemente negado o tratamento médico que ele requer. Nossa resposta será imediata e talvez desproporcional.

Assim como com a companheira anarquista Monica Caballero, os prisioneiros subversivos Juan Aliste, Marcelo Villaroel e Pablo Bahamondez. Vamos revidar golpe por golpe, para que o slogan “nenhum companheiro na prisão está sozinho” ganhe vida.

Hoje, mais do que nunca, qualquer gendarme, policial ou oficial militar é um alvo. Estamos de olho em alguns de vocês.

Qualquer morte na prisão é de responsabilidade direta do Estado.

Que as prisões explodam, solidariedade ativa com os prisioneiros. Liberdade para os presos políticos, mapuches, subversivos e anarquistas.

Quando aqueles que torturam nossos irmãos e irmãs na prisão sintam medo de voltar para suas casas. Estaremos no caminho certo.

ABRIMO-NOS, PELA EXPANSÃO DA AÇÃO VIOLENTA E À CONSOLIDAÇÃO DA GUERRILHA URBANA.

“Não estamos em condições de dizer se uma pessoa é ou não membro da brigada. Tudo o que dizemos é que a brigada está em toda parte… Que dez homens e dez mulheres se reúnam, determinados pelo relâmpago da violência e não pela lenta agonia da sobrevivência; a partir desse momento, a desesperança acaba e as táticas começam. A brigada está furiosa!” – Angry Brigade.

Como declaramos há um ano em nosso primeiro comunicado, vemos a necessidade urgente de gerar laços fraternos de colaboração e diálogo que contribuam para o fortalecimento da ação violenta. Entre os vários grupos que decidiram ir para a ofensiva.

Durante todo esse tempo que estivemos questionando, projetando e planejando, enfrentamos alguns obstáculos. Por exemplo, como gerar uma infraestrutura autônoma? E nossa solução/resposta a esta questão é a ilegalidade e a informalidade. Todos os nossos meios são obtidos através de ações ilegais. Portanto, a proposta é mais clara hoje do que era ontem: “expandir a ofensiva” geograficamente, atravessar fronteiras e intensificar os ataques. Claramente não será tão fácil como se lê, pois os custos podem ser (são) muito mais altos.

Vamos superar as barreiras do ego e do que rotulam o “militante excepcional”, queremos ver esta realidade arder. Que seus apoiadores vivam a agonia (por uma vez em suas vidas). Que sintam medo, como os explorados sentem quando perdem o pouco ou nada que conseguiram.

Estendemos o convite a todos aqueles que acreditam na ação, na violência, no ataque. Sem líderes, sem cúpulas ou partidos. Somos anarquistas e vamos atrás dos poderosos.

A partir de hoje dizemos: Qualquer grupo, qualquer indivíduo. Em qualquer território que queira usar a “NEGRA VINGANÇA”, está em seu pleno direito. A ação vingadora não tem propriedade, pelo contrário, queremos que se espalhe como a pior peste negra.

O detalhe da ação e o tipo de artefato que usamos têm um objetivo claro, trazer conhecimento para aqueles que decidem atacar. É necessário agrupar/unir forças e conhecimentos, socializar a infraestrutura e os métodos. Dando um sentido de corpo e assim entrar em novos caminhos e possibilidades da guerrilha urbana. Só assim poderemos responder aos ataques do poder, só assim conseguiremos superar os obstáculos neste caminho da ofensiva contra o poder.

Qualificação e intensidade das ações.

Estamos diante de um momento em que a nula visibilização da ação por parte do Estado e da mídia é evidente. É por isso que devemos ser capazes de fazer ressoar nossos ataques e ações. Deixemos o medo e a insegurança tomar conta daqueles que acreditam ter o controle de nossas vidas.

Nestes tempos em que o protesto “social” é o som uníssono de um presente, aparentemente sem memória. Somos críticos da perda de valores antagônicos e da ética anárquica/revolucionária. NÃO CONSIDERAMOS COMPANHEIROS aqueles que acreditam e validam a via eleitoral como uma alternativa resignada à miséria e ao controle. Abominamos aqueles que constantemente e como método de subsistência levantam a bandeira esmagadora e dolorosa da montagem. Vemos com receios aqueles que optam pelo mal menor, chegando ao ponto de fazer campanha por um candidato que assinou pactos e acordos pela “paz”. Não temos candidatos, nossos caminhos são autônomos contra qualquer forma de poder.

Hoje é necessário que a imaginação transborde para a ação, que a cada passo nos aproximemos cada vez mais de um ponto de não retorno. Os objetivos são múltiplos. É este passo firme que marca a distância entre a ação massiva “social” e a ação ilegal-informal-anarquista.

Irmanamo-nos com aqueles que decidem e abraçam o ataque intransigente, dando continuidade aos séculos de ação negra. Herdamos o ódio daqueles que morreram empunhando suas armas, daqueles que caíram atirando bombas.

Um cúmplice e uma saudação fraterna para nossos irmãos e irmãs na: Bolívia, Argentina, Itália, e em qualquer lugar do mundo. Que a ação informal contra o poder e seus aparelhos seja desencadeada.

Abraçamos as ações no território chamado chile, por: Fraccion Autonomica Cristian Valdebenito, Celulas Revolucionarias Nicolas Neira, Celula Anticapitalista Simon Radowitzky. Que os poderosos tremam!!!

Nada está terminado…

Pela expansão da ação anarquista / Revolucionária.

A consolidação da guerrilha urbana é iminente. A Negra Vingança se abre e se expande.

Em memória de Sebastian Oversluij. Com o punky Mauri, Claudia Lopez, Jhony Cariqueo e Santiago Maldonado, ainda estamos em pé de guerra.

Negra Vingança – Dezembro 2021

agência de notícias anarquistas-ana

O canto do rouxinol
E seu biquinho —
Aberto.

Buson

[EUA] Após 200,000 anos, ainda estamos tentando entender o que é a humanidade

Por Annalee Newitz | 26/11/2021

O antropólogo David Graeber, famoso por resumir vários milênios de história econômica em seu livro “Debt: The First 5,000 Years,” [Dívida: os primeiros 5,000 anos] passou a última década colaborando com o arqueólogo David Wengrow em outro projeto ambicioso. Os dois estudiosos peneiraram evidências de 200,000 anos de história humana no intuito de compreender como a desigualdade começou. Suas pesquisas exaustivas renderam frutos em “The Dawn of Everything – A New History of Humanity,” [O Despertar de Tudo – Uma Nova História da Humanidade] uma argumentação fascinante sobre o porquê de humanos hoje estarem “presos” a Estados rígidos e hierárquicos que teriam chocado nossos ancestrais. “Algo muito errado aconteceu com o mundo,” escrevem. “Uma porcentagem muito pequena de sua população controla os destinos de quase todo o resto e o fazem de forma cada vez mais desastrosa.”

Infelizmente, esse livro é também a última obra de Graeber. O famoso filósofo anarquista, uma grande figura do movimento Occupy, bem como um acadêmico influente, faleceu no final de 2020. Seu trabalho final alcança o ponto máximo de sua carreira, um tomo que rivaliza com fantasias épicas em peso e escopo imaginativo. De fato, Graeber e Wengrow parecem cientes dessa comparação, observando com uma piscadela que o início da história humana, com seus Neandertais e Homo sapiens, foi como um mundo repleto de “hobbits, gigantes e elfos.” E, embora o livro seja equipado com materiais explicativos de civilizações antigas — Wengrow é especialista em arqueologia do Egito antigo e do Oriente próximo —, é também um exercício inibido da produção mitológica. “A teoria social é fortemente um jogo de faz de conta,” afirmam os autores. “Essencialmente, reduzimos tudo a um cartum para sermos capazes de detectar padrões que seriam invisíveis de outras formas.” Em outras palavras, este não é um livro que tenta ser cientificamente preciso, seja lá o que isso signifique: é uma polêmica.

O livro começa ao virar a cabeça da história do Iluminismo, argumentando que a busca europeia do século XVIII pelo pensamento racional na verdade tem início nas Américas com um intelectual Wendat chamado Kandiaronk. Em 1703, como afirmam em sua história, um explorador colonial francês chamado Lahontan publica um livro de diálogos com uma versão levemente disfarçada de Kandiaronk no qual os dois debatem a natureza da liberdade e da sociedade civil. (Lahontan fala Wendat e línguas Algonquin, então é plausível que esses diálogos sejam basicamente versões editadas de conversas reais.) Lahontan argumenta que a sociedade europeia era rica, livre e espiritualmente superior. Kandiaronk contra-argumenta que os franceses são escravizados por seu rei, brutalmente governados pelo dinheiro e moralmente empobrecidos porque permitem que algumas pessoas passem fome enquanto outras desperdiçam comida.

Kandiaronk e outros pensadores indígenas foram os verdadeiros arquitetos do Iluminismo, afirmam Graeber e Wengrow, porque questionaram tudo que os europeus subestimam sobre suas vidas. Jean-Jacques Rousseau e outros filósofos franceses leram avidamente o livro de Lahontan, bem como outros diálogos populares com povos indígenas publicados na época, influenciando seus próprios pensamentos sobre a desigualdade. O que europeus chamavam de riqueza era, na realidade, pobreza espiritual, e sua preciosa liberdade era reservada apenas aos aristocratas. Inspirado pela crítica de Kandiaronk, “The Dawn of Everything” convida leitores e leitoras a olharem à nossa sabedoria forjada sobre a civilização por diversas perspectivas e não assumem que o Estado Ocidental seja o único sistema político racional.

Muitos de nós aprendemos na escola que a civilização evolui em saltos revolucionários que são basicamente os mesmos, não importa onde você esteja. Essas “revoluções” nos levam de culturas simples a complexas: caçadores-coletores se tornam fazendeiros; fazendeiros dão um pulo para os Estados-nações civilizados. Em “The Dawn of Everything,” aprendemos que isso pode ter sido verdadeiro em algumas regiões europeias, mas não é como a maior parte das civilizações emergem. No leste próximo, por exemplo, existiram caçadores-coletores que desenvolveram Estados urbanizados sem passar por uma fase de agricultura; enquanto isso, nas Américas, alguns grupos indígenas eram agriculturalistas por meio ano e nômades na outra metade. Embora algumas civilizações tenham desenvolvido burocracias, serviços militares e regimes de propriedade, outras dividiam a propriedade comunalmente e estabeleciam forças policiais temporárias que eram dissolvidas dentro de alguns meses.

Uma nova figura de civilização humana emerge vagarosamente, uma que não se dá em conformidade com os mitos ordenados de desenvolvimento ocidentais. E isso é quando Graeber e Wengrow puxam nosso tapete, revelando que a busca pela origem da desigualdade — ostensivamente seu projeto — não é um caminho útil para curar o que nos aflige. É impossível que todos sejamos “iguais,” escrevem, e, de fato, um foco na igualdade leva a narrativas históricas de “um-tamanho-serve-a-todos”, ou seja, uniformizadas. Ao invés disso, podemos nos desprender de nossa crise presente de capitalismo de desastre apenas ao explorar as origens da “liberdade,” especialmente a liberdade de se mudar para qualquer lugar, desobedecer a autoridade e redefinir as mitologias que nos ajudam a encontrar sentido em nossas vidas.

Graeber e Wengrow contam uma fascinante gama de histórias sobre civilizações de muitos continentes e milhares de anos, todas as quais lutam com o que significa ser livre. Somos imersos em contos da cidade turca de 9,000 anos Catalhoyuk, em que não houve uma “revolução agricultural,” mas milhares de anos de transformação gradual de caça e coleta para a plantação de uma colheita anual; da civilização Yurok do século XIX do litoral da Califórnia, em que as pessoas tentaram e rejeitaram a agricultura; das urbanizações Minoan da Creta da Era do Bronze, governada por governantes mulheres que dividiam o poder com comerciantes homens.

Uma das asserções mais intrigantes deste livro é que humanos têm engajado em experimentos sociais e debates políticos por toda nossa história de 200,000 anos, testando todo tipo de estrutura política pelo caminho. O problema é que tendemos a lembrar as civilizações baseadas na guerra e na hierarquia, com frequência porque essas sociedades são obcecadas com o registro de todos os seus (exagerados) feitos por escrito. Pensadores modernos geralmente marginalizam sociedades construídas em tradições orais e estruturas políticas oscilantes, relegando-as à “pré-história” ou “à era das trevas.”

Explorando essas eras supostamente inferiores, encontramos modelos de civilização baseados em vastas redes de hospitalidade e troca ao invés de conquista. Graeber e Wengrow especulam que os povos Hopewell da América do Norte, cujas terraplanagens incríveis perduraram por milênios, não definiram sua civilização como uma escada social com algum senhor em seu topo; ao invés disso, suas várias cidades e vilas eram uma confederação livre, em que qualquer indivíduo tinha a liberdade de desobedecer seu chefe, deixar o bando e visitar outros grupos em que poderia ser bem-vindo. Embora os Hopewell fossem parte de uma sociedade de massa de alta complexidade, conseguiram reter liberdades individuais indispensáveis — liberdades que todos neste mundo já perderam.

Ocasionalmente, Graeber e Wengrow caem no mesmo tipo de pensamento tendencioso que os homens obcecados com o Iluminismo que criticam. Analisando a história, encontram exemplos de anarquismo em todos os lugares, oferecendo narrativas suspeitosamente utópicas de culturas, às quais atribuem valores de feminismo e anarquia. Ainda, os autores admitem abertamente que seus exemplos foram escolhidos a dedo e, em alguns casos, interpretados extremamente de forma especulativa porque não escreveram um texto didático científico, mas um manifesto, sugerindo uma outra maneira para que a humanidade viva, inspirada pelas ideias que nossos ancestrais nos deixaram.

Quanto mais aprendemos sobre os muitos caminhos que nossos ancestrais percorreram, mais futuros possíveis aparecem. “The Dawn of Everything” começa uma réplica afiada de análises culturais negligentes e termina com um hino às liberdades que a maioria de nós nunca percebeu que estavam disponíveis. Saber que há outras formas de viver, Graeber e Wengrow concluem, permite-nos repensar o que ainda podemos nos tornar.

The Dawn of Everything

A New History of Humanity

David Graeber e David Wengrow

Macmillan.

704 pp. $35

Fonte: https://www.washingtonpost.com/outlook/after-200000-years-were-still-trying-to-figure-out-what-humanity-is-all-about/2021/11/23/2b29ff86-4bc8-11ec-b0b0-766bbbe79347_story.html

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

entre flores velhas
o som da abelha
treme flores novas…

Luiz Gustavo Pires

[EUA] O Caminho para a Mudança: Comunidade

Por Steve Welzer

O movimento por mudança social deve ser compreensivo e multidimensional. Não há uma Solução simples ou um único Melhor Caminho para chegar daqui até ali.

Mas recentemente houve uma mudança de sentimento relativa a onde e como nossos esforços por mudança social são mais prováveis a serem recompensados. Indivíduos e famílias, cada vez mais atomizados dentro da sociedade de massa, não têm os recursos e a influência necessária para ter um impacto significativo. No outro extremo do espectro, as instituições dominantes (corporações, agências do governo, grandes universidades, ONGs etc.) possuem uma inércia institucional em um nível que impede a mudança.

O ambiente mais construtivo à atividade transformativa pode ser então aquele nível intermediário de associação humana que chamamos de comunidade.

Duas Diferentes Formas de Vida Humana

Até um período relativamente recente da perspectiva da história natural, a vasta maioria de humanos morava em contextos sociais comunitários — tribos ou vilas ou cidades pequenas caracterizados pela familiaridade com/interdependência entre vizinhos e identidade, com um lugar-no-mundo particular. Domínios de vida social e territorial eram locais, vinculados, de dimensão humana e gerenciáveis; sob essas circunstâncias, a responsabilidade costumava ser mais imediata e direta. O poeta Gary Snyder se refere a isso como os Antigos Costumes.

Por volta de dez mil anos atrás, por razões debatidas por historiadores e antropólogos (ainda que haja consenso de que o aumento da dependência de uma forma mais intensiva de agricultura foi um fator), uma alteração radical de estilo de vida ocorreu em áreas selecionadas da diáspora humana. Culturas agressivas orientadas pelo desenvolvimento e expansionismo de repente confrontaram vilas e tribos autônomas como uma força externa desestabilizadora. Os indígenas tentaram resistir aos agressores e à pressão de transformar seu estilo de vida, mas as comunidades aborígenes foram quase sempre, eventualmente, derrotadas pelos criadores de impérios.

Com a propagação desse fenômeno, a cultura Neolítica em geral pendeu para Novos Costumes — para uma organização intensiva do trabalho e da vida, preocupada com aquisição e produtividade. A ascensão do Estado, patriarcado e conceito de propriedade privada seguiram essa organização. As sementes do Leviatã moderno podem ser traçadas para essa transição momentânea de um estilo de vida a outro.

O Definhamento da Comunidade Dentro do Leviatã

Durante os milênios que se passaram desde a Revolução Neolítica, recursos sociais foram alocados gradualmente para fora das comunidades locais, em direção às instituições centradas em regiões urbanas e desenvolvimento/comércio/militarismo patrocinados pelo Estado.

O filósofo da tecnologia Lewis Mumford escreveu sobre como, desde a antiguidade, interesses comerciais e o Estado constituíram uma força bruta interligada, sempre promovendo uma ideologia de progresso e desenvolvimento tecnológico. Agora, chegamos ao ponto em que a vida se tornou quase totalmente dominada por instituições hipertrofiadas e tecnologias da sociedade industrial de massa.

As grandes empresas e multinacionais se tornaram centros de poder remotos que se auto-engrandecem. No que é chamado de democracias de livre mercado, as pessoas são reduzidas a participar ao votar em representantes ou comprar ações no mercado, mas o controle efetivo se dá pelas elites beneficiárias de uma concentração sem precedentes de riqueza e poder.

Sob essas circunstâncias, a comunidade definhou. A vida pessoal se tornou atomizada e hiperindividualista. Famílias residem em cidades-dormitório orientadas pelo consumo, caracterizadas por altos índices de mobilidade. Padrões materiais de vida cresceram com as pressões competitivas. O capital social diminui enquanto o estresse nas pessoas e no planeta aumenta.

É imperativo que se reconheça as alternativas absolutas que estamos confrontando agora: um caminho continua o status quo insustentável e insatisfatório, um outro nos leva à direção de recuperar o equilíbrio e a sanidade social. Este último significa diminuir a escala e o ritmo, aprender a viver de forma mais leve. Indivíduos e famílias podem fazer sua parte, mas uma transformação tão grande de formas de vida requer o poder agregado de movimentos socais e esforços coletivos.

Nós Precisamos Construir a Mudança Juntos

Um aspecto chave do movimento por uma nova sociedade está em encorajar a emergência de comunidades intencionais comprometidas com ter uma abordagem integrada ao tratar de problemas de degradação ecológica e disfunção social.

As pessoas precisam construir a mudança em conjunto; idealmente, em uma escala na qual se sintam empoderadas e consequentes. Todos poderíamos nos beneficiar de ter inspiração e apreço de Outros valiosos que são simultaneamente colegas, camaradas e vizinhos.

Precisamos ter o prazer da companhia e da coparticipação, a motivação da aprovação entre seus pares (e enaltecimento!), a sensação de que estamos engajados em empreendimentos significativos comuns e alcance de objetivos compartilhados. É na comunidade, por ação conjunta, que temos a maior chance de melhorar nossa qualidade vida enquanto avançamos significativamente em direção da sustentabilidade.

Saúde psicológica e de caráter é dependente de ter um lugar e um status dentro de um mundo social compreensível. A desorientação resulta da tentativa de negociar dentro de domínios que efetivamente não têm limites, e de tentar ter sucesso enquanto confronta padrões associados com íngremes hierarquias de status piramidais.

Dão-nos a impressão de que temos sorte de sermos apresentados a fontes quase intermináveis de estímulos, escolhas e oportunidades, mas psicólogos estão descobrindo que tal ambiente operacional nos deixa confusos, distraídos e ansiosos. Em nossa realidade globalizada de produção/consumo/comunicação em massa, a dimensão humana há muito tempo deixou de ter valor.

Tudo se tornou hiper. Demais; rápido demais, longe demais, grande demais. Sintético demais e complexo demais. A nossa é agora uma civilização de desorientação e descontentamento.

A lição a ser aprendida é que a patologia social invariavelmente resulta de quando uma sociedade se torna desatracada de um aterramento básico em sensibilidades de limites e equilíbrios. Evitar um curso de colisão com a loucura requer mais do que panaceias tecnológicas, entraves corporativos ou mudanças de regime governamental. Precisamos restaurar a dimensão humana em todos os aspectos da vida, precisamos reconstituir a comunidade real.

A solução eco-comunitária a pontos críticos modernos é estilos de vida localmente orientados, escalados humanitariamente e caracterizados pela familiaridade, estabilidade, interdependência e relação com o local. Essa é a base do respeito, amor e cuidado, tanto de uns com os outros quanto para com a Terra.

Cohousing e comunidades de ecovilas podem servir como modelos e campos de base para um movimento global amplo que trabalha para que nossa civilização seja verde e se encaminhe para a sustentabilidade.

Precisamos encontrar nosso caminho de volta ao Lar.

>> Steve Welzer é ativista do movimento verde há mais de 30 anos. É editor da Green Horizon Magazine e organizador do projeto Altair Ecovillage em Kimberton, Penn. Steve escreveu a introdução do livro de David Watson, Beyond Bookchin: Preface for a Future Social Ecology. Mora em East Windsor, N.J.

Fonte: Fifth Estate # 409, Summer, 2021

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Regato tranqüilo:
uma libélula chega
e mergulha os pés.

Anibal Beça

[Espanha] A estranha conexão entre anarquismo, futebol e a guerrilha

Por Imanol | 27/11/2021

Jogadores da seleção liberando Paris, armas dentro de bolas de futebol, ou acabar de treinar e participar de um assalto. Um pouco de futebol à moda antiga.

Saudações para aquela pequena parte do mundo que segue este blog. A entrada do mês passado, sobre a vida na serra, tem sido a mais lida desde que comecei a postar em redes, seja como parte da Diagonal ou El Salto. Deve ter algo a ver com o fato de que a equipe responsável pelo site me colocou no lugar de honra por um dia. A verdade é que se notou, e eu lhe digo que se notou. Portanto, todos os meus agradecimentos à equipe responsável por ela.

E como isso dos “likes”, “tweets”, e toda esta merda é mais viciante que os caramelos, estou procurando uma nova ração. Onde posso encontrá-la? Onde posso conseguir novos “retweets”, ou coisas similares para satisfazer meu ego?… No futebol, é claro!!!!! Portanto, hoje, sem vaselina ou atraso, vamos para nossa dose mensal de memória, e mergulhamos diretamente em alguns tópicos que supostamente nada têm a ver um com o outro: futebol, anarquismo e guerra. Embora se você se atrever a ler as seguintes linhas, talvez sim, talvez elas tenham aventuras comuns. Hoje calçamos nossas botas, mas não nossas botas de montanha, mas nossas botas de futebol, colocamos nossos canos em nossas bolsas esportivas, e sem mais hesitações, começamos a trabalhar.

Para começar nossas histórias de futebol, vamos voltar um pouco no tempo. Um par de notas curiosas antes de embarcar na aventura de hoje. O primeiro nos leva para o outro lado do charco. Acontece que o Argentinos Juniors, a equipe onde ninguém menos que Diego Maradona foi formado, quando viu a luz do dia pela primeira vez em 1904, foi chamada de Mártires de Chicago, em homenagem aos anarquistas americanos executados. Se voltarmos à Croácia, o Hajduk Split, quando foi lançado em 1911, era originalmente chamado Anarkho. Na verdade, no livro Futebol e Anarquismo, eles listam cerca de 40 clubes que estavam ligados ao anarquismo. Avançamos rapidamente alguns anos e estamos no meio da Primeira Guerra Mundial. Durante o período de Natal, os soldados de ambos os lados decidiram fazer uma trégua. Além de cantar canções de Natal, compartilhar garrafas de bebidas e decidir parar de matar uns aos outros, eles jogaram um bom jogo de futebol. E o que importa é conhecer uns aos outros e ter um jogo, e que depois disso você não tem vontade de matar uns aos outros. A maioria daqueles que não queriam pegar em armas novamente foram executados por seus oficiais.

Bem, agora que já começamos a trabalhar, estamos voltando à nossa pátria. Vamos antecipar um pouco a guerra civil, e vamos para o bairro operário de Poble Nou, na cidade de Barcelona. Este bairro foi um ponto focal do anarquismo radical na capital catalã. Em suas ruas pudemos encontrar como vizinhos várias figuras proeminentes do mundo libertário e, é claro, até a equipe de futebol do bairro foi infectada pelas correntes ideológicas que corriam por suas ruas. Já nos anos 20, o Júpiter, como a equipe em questão foi chamada, tinha uma base de fãs fiéis de cerca de 2.000 membros, muitos deles libertários, e sob seus estandes costumavam armazenar armas para os grupos de ação do bairro. Além disso, eles costumavam aproveitar as viagens da equipe para levar armas a camaradas em outros lugares que não as tinham. As pistolas foram desmontadas e inseridas nas bolas, que anteriormente eram costuradas com linha grossa. Elas eram descosturadas, preenchidas e costuradas novamente, e se tomava cuidada para não chutá-las. Em Julho de 36 de julho, parte do arsenal libertário estava sob as arquibancadas do estádio.

Tentaremos seguir um fio cronológico nas diferentes histórias que aparecerem, portanto, vamos saltar alguns anos à frente. Pulando, saltaremos até mesmo uma guerra civil, que, infelizmente, as forças dos trabalhadores perderam. Saltaremos uma fronteira e entraremos diretamente na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Caso alguém não saiba, os republicanos espanhóis, agrupados em Grupos de Trabalhadores Estrangeiros, aderiram em massa à Resistência no país vizinho. Alguns em unidades francesas, e outros naquelas formadas diretamente pelos espanhóis. Quanto mais perto se chegava dos Pirineus, mais forte se tornava este último. Na área de Carcassone, havia três GTE’s com centenas de espanhóis trabalhando, seja na mineração ou na construção de reservatórios. Vamos nos concentrar no 105, que estava situado na cidade pirenaica de Axat, e cujos membros trabalharam principalmente na construção da barragem Usson-les-Bains. E enquanto não estavam trabalhando, decidiram passar parte de seu tempo livre jogando futebol. Assim, eles formaram uma equipe em Axat para participar do campeonato que ainda estava sendo disputado na região. Os espanhóis conseguiram ser aceitos no Torneio da Haute Vallée e no Campeonato de L’Aube no qual compartilharam seu plantel com equipes de Axat, Limoux, Espéraza, Couiza, Quillan, Espezel, Belfort, Belcaire, Camurac e Rodome. As cores da equipe deixaram as coisas bem claras, camisa vermelha e calças pretas, isso lhe diz alguma coisa? Alguns dos jogadores eram membros da resistência e, para se mudarem de seu local de residência, tinham que obter uma autorização especial, que nunca durava mais de 24 horas, só era concedida nos fins de semana e era carimbada na chegada ao seu destino e no retorno para casa pelas autoridades. Graças a esta mobilidade, eles puderam fazer contatos e transmitir informações com vários grupos resistentes em outras áreas com os quais seria impossível para eles fazer contato. Além dessa liberdade de movimento, já mencionamos que parte do grupo estava envolvida em ações diretas na Axat e arredores. Isto durou até 20 de janeiro de 1944, quando uma incursão da Gestapo em Carcassone pegou parte da liderança da resistência e foi chamada a atenção para os GTEs espanhóis.

Continuando nosso fio cronológico, seguimos agora os passos da famosa 9ª Companhia do General Leclerq. Caso alguém não saiba, esta companhia foi a primeira unidade militar aliada a entrar em Paris, dando uma contribuição decisiva para sua libertação, durante agosto de 1944. Era composto quase inteiramente por republicanos espanhóis, sendo a maioria de seus membros de ideologia libertária. O anarquista canário José Padrón, não era apenas um membro da “la Nueve”, mas também um jogador de futebol. Padrón foi o primeiro jogador das Ilhas Canárias a jogar pela seleção espanhola, com o qual fez sua estreia em 17 de março de 1929 e marcou dois gols contra Portugal no mesmo dia. Graças às mídias sociais, tenho que corrigir este ponto. José Padrón aparentemente não era um membro da Nueve, mas entrou com eles em Paris como membro da Resistência, não como parte da companhia. Agradeço a Carmen Góngora por sua ajuda.

Deixamos a França e seguimos para a costa cantábrica. A partir de 1947, quando Franco começou a perceber que os Aliados não tinham a intenção de intervir militarmente na Espanha, a repressão contra a guerrilha se intensificou. Por sua vez, muitos dos guerrilheiros viram suas esperanças de que a esperada intervenção estrangeira se dissipasse. A CNT estabeleceu uma rota de fuga para a França que levaria guerrilheiros das Astúrias, León e Cantábria. Uma das maneiras mais fáceis de chegar à fronteira entre a França e o País Basco era através de ônibus de torcedores em direção a uma partida de futebol contra o Real em San Sebastián ou o Atlético em Bilbao. Aparentemente, eles eram menos suspeitos para a polícia. Depois foi outra coisa atravessar a fronteira, mas pelo menos eles tinham se livrado de uma boa parte dos problemas.

Voltamos nosso olhar para o leste, e damos nossos passos em direção a Barcelona. Lá encontramos Miguel Fornés Marín. Um anarquista e membro dos grupos de ação, embora se lhe dermos a palavra, ele comenta: “Minha vida estava se desenvolvendo em dois níveis, por um lado, o anarquismo e, por outro, o futebol, que eu amava e onde eu já me destacava”. Fornés morava no bairro das casas baratas, e lá, além da equipe onde jogava, foram formadas outras três equipes. Os lojistas da área colocaram dinheiro e construíram um campo. No dia da inauguração, com pessoas das equipes do bairro e alguns jogadores conhecidos, como Manchón, que jogou como lateral ao lado de Kubala em Barcelona, Fornés jogou e marcou em um passe de Manchón. Não sabemos se Fornés guardou sua pistola no armário, imagino que não o tenha feito, mas mais de uma vez ele deixou o treinamento para dedicar-se a seu outro hobby. Miguel Fornés participou de algumas ações dos maquis anarquistas durante o ano de 49, até cair nas mãos da polícia, em outubro do mesmo ano. Ele foi condenado a 30 anos. Primeiro passou 40 dias na terrível delegacia de polícia da Via Layetana e depois perambulou por várias prisões até sua libertação em 1960.

Para terminar com o artigo de hoje, atravessamos novamente a fronteira dos Pirineus e vamos para a capital francesa. Mais especificamente, nós vamos ao futebol. Em 19 de julho de 1949, no Parque dos Príncipes, a equipe nacional espanhola enfrentou os anfitriões franceses. Embora não seja realmente relevante, caso alguém seja fã do esporte, o resultado foi França 1, Espanha 5. Voltemos ao ponto. Quem você acha que acompanhava a seleção nacional como um personagem ilustre? Bem, como sempre, o Secretário de Estado do Esporte, que não era outro senão o General Moscardó, o cafetão do Alcázar de Toledo. Como já mencionamos, a partida foi vencida e o indivíduo em questão voltou à Espanha como se nada tivesse acontecido, pois a verdade é que ele tinha estado ao alcance de uma metralhadora.

José Pascual Palacios, chefe da seção conspiratória do Movimento Libertário Espanhol no exílio, tinha montado uma operação. Uma van foi adquirida, uma metralhadora pesada com um tripé foi instalada na parte traseira e o veículo foi conduzido até a periferia do estádio. Um membro da FAI estava encarregado de puxar o gatilho.

Quando a partida terminou, e Moscardó deixou o campo, seu veículo foi localizado e seguido. O carro estava na mira da arma várias vezes, mas o camarada não atirou. Mais tarde, ele comentou que pessoas inocentes nas proximidades poderiam ser feridas ou mortas e não atiraram. Pascual Palacios não era da mesma opinião, mas não houve outra oportunidade.

Fontes: La CNT en la encrucijada (Luis Andrés Edo), Fútbol y anarquismo (Miguel Fernández), El poder y el balón. Episodios futbolísticos que hicieron historia. (Miguel Ángel Lara) https://www.portaloaca.com/historia/historia-libertaria/2216-la-curiosa-relacion-entre-futbol-y-anarquismo.html, https://www.vice.com/es/article/pgjmyg/jupiter-anarquia-lucha-dictadura-armas-franquismo-futbol e arquivo pessoal.

Fonte: https://www.elsaltodiario.com/ni-cautivos-ni-desarmados/la-extrana-conexion-entre-anarquismo-futbol-y-guerrilla

Tradução > Liberto

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agência de notícias anarquistas-ana

o vôo dos pombos
interrompe
o jogo das crianças

Ion Codrescu

[EUA] Campos de Batalha, Matadouros & a Oposição a Ambos

Por Noah Johnson

Uma resenha de Constructing Ecoterrorism: Capitalism, Speciesism & Animal Rights [Construindo o Ecoterrorismo: Capitalismo, Especismo & Direitos Animais] por John Sorensen. Fernwood Publishing, 2016.

O anarquista vegetariano Leo Tolstoi declara em seus textos, [em tradução livre,] “O que acredito” é que, “enquanto houverem matadouros, sempre haverão campos de batalha.”

A citação, embora com frequência tomada simplesmente como uma condenação da violência contra animais humanos e não-humanos, também coloca o Estado, o capitalismo e os direitos dos animais juntos, da forma que muitos ativistas dos direitos animais fazem hoje.

Em seus escritos, Tolstoi reconhece os dois sistemas interconectados do Estado e do capitalismo como as forças condutoras por trás de campos de batalha e matadouros, com campos de batalha produzidos pelo Estado para proteger interesses e matadouros causados por motivos envoltos em lucros capitalistas.

Em Constructing Ecoterrorism: Capitalism, Speciesism & Animal Rights, John Sorensen analisa as conexões entre esses sistemas considerando sua perspectiva e destruição subsequente do meio ambiente e dos animais pelos possíveis lucros. O capitalismo, buscando lucros a partir de produtos de origem animal, é protegido pelas leis e policiamento do Estado e justifica sua exploração de animais através da ideologia do especismo — a premissa da superioridade humana com direito moral sobre outras espécies.

O resultado é um triângulo tenaz de instituições interconectadas, cada uma fornecendo suporte às outras para manter o paradigma dominante do capitalismo. Referindo-se a isso como o complexo industrial animal, Sorensen argumenta que é esse complexo de instituições e sistemas que estigmatiza ativistas ambientalistas e dos direitos animais, os quais, na pior das hipóteses, cometem apenas atos infrequentes de destruição de propriedade, como terroristas violentos para se combater com a mesma ferocidade que grupos terroristas islâmicos após o 11 de setembro.

Contudo, direitos animais não são um tópico periférico e Sorensen afirma que a maior parte dos estadunidenses apoiam muitos dos objetivos dos ativistas, apesar de que, com frequência, vão contra os objetivos do capitalismo. Como resultado, aqueles que lutam contra a exploração animal e ambiental são decretados como antiprogresso, irracionais, emocionais em demasia e perigosos à segurança do público.

Embora o ativismo ambientalista não seja claramente o que a maioria das pessoas consideraria terrorismo, a pena foi propositalmente flexibilizada para se ajustar às necessidades do Estado e do capitalismo. Com o crescimento do vegetarianismo, do veganismo, da preocupação com o meio ambiente e da empatia com animais não-humanos, o construto do ecoterrorismo surge como um meio de defender o complexo industrial animal e demonizar a compaixão.

O argumento de Sorensen provém uma análise detalhada da etiqueta do terrorismo usada como uma desculpa para intimidar e reprimir ação antiautoritária e anticapitalista, bem como foi usada contra a esquerda e contra os anarquistas durante o Red Scare e, recentemente, contra os antifascistas durante os protestos do verão passado. Embora não seja explicitamente anarquista, o livro de Sorensen provém uma análise particularmente relevante aos círculos anarquistas.

Como inimigos do sistema dominante, anarquistas sempre foram considerados alvos como terroristas. Não são eles, contudo, mas o Estado, o capitalismo e outras hierarquias que cometem genocídio, ecocídio e outras atrocidades. Estruturas de poder buscam tornar terroristas pessoas que agem com compaixão por outros humanos, animais e pelo meio ambiente, enquanto são responsáveis pelo assassinato de 58 bilhões de animais para a alimentação anualmente como uma prática necessária e até moralmente aceita.

Talvez o aspecto mais forte do argumento de Sorensen seja esse reconhecimento da interconectividade dessas estruturas hierárquicas e seu apoio umas às outras. Sorensen afirma que é a confluência dessas estruturas que permite que ambientalistas predominantemente pacíficos sejam considerados terroristas e que ecocídio seja considerado progresso. O capitalismo demanda a exploração de animais e de ecossistemas pelo lucro, o Estado defende o capitalismo com militares, polícia e prisões, e ambos o capitalismo e o Estado empunham o especismo para justificar seu mantimento dos matadouros.

Sob o capitalismo, tudo o que possa ser usado por lucros é um recurso, e aqueles que ameaçam recursos são terroristas. Desde que os anarquistas se tornaram uma ameaça às hierarquias existentes pela primeira vez, foram julgados como terroristas. Para a maior parte das pessoas, anarquistas são vistos como jogadores de bombas sem cérebro, arsonistas esperando para tacar fogo no próximo alvo, ameaças à democracia, ou criminosos violentos individualistas. Anarquistas não são vistos como jardineiros, construtores de comunidades, organizadores de feiras de livro, pessoas que distribuem comida ou pacifistas — rótulos muito mais difíceis de categorizar como terroristas, mas que são descrições mais precisas do anarquismo.

Estruturas de poder fizeram um trabalho impressionante para a demonização do anarquismo. Contudo, anarquistas e outros que lutam contra a exploração ambiental e animal não são terroristas, mas pessoas que veem o que o capitalismo designa como recurso um amigo, um igual, um presente ou sublime.

>> Noah é estudante de Estudos Ambientais e Língua Alemã na Universidade do Nebraska. Em seu tempo livre, gosta de fotografia, fazer trilhas, jardinagem e estar entre as árvores.

Fonte: Fifth Estate # 410, Fall, 2021

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Salpicados de sons
Silêncio em suspenso:
Grilos e estrelas.

Marcos Masao Hoshino

[França] O calendário da SIA de 2022 já está disponível!

O tema escolhido este ano é a solidariedade com os prisioneiros de consciência e a liberdade de expressão.

Juan Chica Ventura, pintor autodidata e muralista nascido na Espanha e atualmente residente na França, cujo trabalho demonstra um forte compromisso social, aceitou generosamente ilustrar a capa de nosso calendário para 2022.

A SIA (Solidarité Internationale Antifasciste) foi criada em 1937 pela CNT-AIT durante a revolução espanhola para dar apoio às crianças e refugiados da zona revolucionária que fugiam da guerra civil.

Depois de 1939, a SIA ajudou os refugiados espanhóis exilados onde quer que estivessem. Hoje, a SIA continua a existir e tenta fornecer apoio e assistência contínua aos refugiados de todos os continentes.

A SIA só pode contar com a solidariedade para levantar os meios necessários para sua atividade, e o calendário é hoje, como no passado, um recurso importante.

A SIA precisa de seu apoio!

O calendário é oferecido em troca de uma doação de 10 euros ou mais, acrescente 3 euros para o envio.

Endereço para pedidos: sia-toulouse@riseup.net

solidariteinternationaleantifasciste.wordpress.com

agência de notícias anarquistas-ana

O bico na flor —
minúsculo beija-flor
suspenso no ar.

Celia Terezinha Neves Vieira

[Canadá] Hamilton: RBC Atacado por Patrocinar o Gasoduto da CGL

Há muitas questões a serem levantadas sobre o Natal e, como anarquistas, não somos grandes apoiadores do Papai Noel, mas ainda podemos apreciar sua qualidade sorrateira… Então alguns de nós celebramos este ano sendo nós mesmos bem sorrateiros.

Tarde da noite de Natal de 2021, houve a resposta a um chamado para o ataque dos bancos e das fontes patrocinadoras do gasoduto da CGL que está sendo forçado no povo Wet’suwet’en. Bancos – como o RBC – são alvos muito fáceis porque têm muitas filiais pelas cidades em que vivemos que têm relativamente pouca segurança à noite. Uma filial de Hamilton, em Upper James, foi revisitada e redecorada.

Entramos pelas primeiras portas do banco e enchemos seus caixas eletrônicos de cola, então adicionalmente colamos a maçaneta da porta de entrada ao banco. Na saída, deixamos a mensagem “SEM GASODUTOS EM TERRAS ROUBADAS” nas portas para que todos vessem. Essa foi uma ação muito fácil e replicável e encorajamos que outros o façam. É possível que o ataque contínuo contra bancos como o RBC comecem a comer os lucros com o gasoduto (se conseguirmos custar-lhes dinheiro o suficiente) e os convença a retirar o apoio financeiro ao projeto. E, se não, é um “vão se foder” real e catártico contra as instituições que estão destruindo tudo o que há de bom no mundo.

Enquanto entramos neste espaço limiar entre Natal e Ano Novo, alguns dos dias mais escuros do ano, somos lembrados de reparar no que ainda importa para nós e no que esperamos trazer para as nossas vidas na volta ao redor do sol que está por vir. Enquanto vemos começar o que pode ser outro inverno de COVID, encorajamos todos e todas nossas camaradas a olhar para as partes mais quentinhas de seus corações, onde todos ainda queremos queimar as prisões e os bancos e que nossos amigos e amigas segurem nossas mãos e dancem em volta das chamas. Enquanto mantermos esse brilho vivo em nossos olhos, tudo ainda será possível.

Fonte: https://north-shore.info/2021/12/26/hamilton-rbc-attacked-for-funding-cgl-pipeline/

Tradução > Sky

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agência de notícias anarquistas-ana

No pensamento
Um esqueleto abandonado –
Arrepios ao vento.

Bashô

[Espanha] Lançamento: “Memorias de un anarquista rumano”, de Mechel Stanger

Originalmente escrito em iídiche, Memorias de un anarquista rumeno abre uma janela para observar o variado, diversificado e colorido anarquismo balcânico e europeu antes da Segunda Guerra Mundial.

Acompanhando o autor neste livro, conheceremos o anarquismo graças a um panfleto de Malatesta e da exortação de um companheiro: “É hora de você ser um ser humano!” Da poesia revolucionária passaremos à ação: abandonamos o exército romeno e vamos ao exílio na Berlim revolucionária nos anos 30.

Lá descobriremos o movimento anarquista alemão e Rudolf Rocker, com quem estabeleceremos uma amizade que durará até o final de seus dias. Sem parar, visitaremos o movimento libertário holandês, desfrutaremos da hospitalidade dos judeus anarquistas exilados na França e nos refugiaremos na Suécia. Um país que não hesitaremos em deixar para defender a Revolução Social em Barcelona. Estas são as memórias de um anarquista, de um padeiro, de um esperantista que nunca duvidou de que a humanidade era sua família e o planeta sua casa.

Memorias de un anarquista rumano
Mechel Stanger
Calumnia Edicions, Colección Colossus, 17. Mallorca 2021
75 págs. Rústica 18×13 cm
ISBN 9788412432527
8,00 €
calumnia-edicions.net

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Cresci com gorjeios
sobre a jabuticabeira
entre os sabiás.

Urhacy Faustino

Kropotkin e uma palavra entre política e natureza

Por Leonardo Nascimento

Indagada sobre o que andava fazendo para se entreter durante a pandemia, a célebre cantora e multiartista Patti Smith contou, numa entrevista publicada em 19 de junho do ano passado no jornal espanhol El País, que, entre outras coisas, estava às voltas com a leitura de Piotr Kropotkin (1842–1921), pois havia se interessado pelo anarquismo. Pouco antes, no dia 9 daquele mesmo mês, Patti publicara em seu perfil no Instagram (@thisispattismith) uma foto do livro The prince of evolution (2011), de Lee Alan Dugatkin. Na legenda, explicou que se tratava de uma obra de introdução ao pensamento do cientista e revolucionário russo, e apresentou detalhes de sua biografia: “Nascido na nobreza, Kropotkin tirou todos os mantos e passou a vida trabalhando e expondo os princípios científicos e as verdades do Apoio Mútuo. Quando palavras não foram suficientes, ele voltou-se para a ação; como um cientista ambiental e anarquista benevolente […]”, escreveu a cantora.

Figurando como um dos mais influentes nomes na história das lutas libertárias, Kropotkin vem pouco a pouco chamando a atenção de outros públicos, a despeito do constante apagamento das contribuições anarquistas ao pensamento político e científico. Ainda que seja difícil assegurar todas as razões por trás desse renovado interesse, seus livros voltam a circular, sobretudo como consequência do fortalecimento das experiências autonomistas e anarquistas no século XXI, da reavaliação de suas teses por historiadores/as e filósofos/as da ciência, dos recentes eventos e publicações motivados pelo centenário de sua morte (em fevereiro deste ano) e, principalmente, da enorme difusão de práticas de “apoio mútuo” no decorrer da pandemia de covid-19, como bem observou a escritora e historiadora Rebecca Solnit em sua coluna no The Guardian, em 14 de maio de 2020. [nota 1]

Em seu texto, a colunista lembrou que a ideia de “apoio mútuo” é uma referência direta a Kropotkin e sua obra Apoio mútuo: Um fator de evolução, publicada em 1902. Nela, o naturalista russo propôs uma releitura da teoria da evolução de Charles Darwin (1809–1882), defendendo que a “cooperação” é um fator tão ou mais determinante para a sobrevivência das espécies, e, portanto, deveria ser considerada como um princípio fundamental da evolução, ao invés de só olharmos para as práticas de “competição”.

Rebecca Solnit argumentou que em momentos de crises profundas é comum reaparecem clichês sobre a brutalidade da natureza humana. Dessa perspectiva, o melhor que se poderia esperar das pessoas em meio a uma pandemia seria a indiferença egoísta; na pior das hipóteses, elas se voltariam para a violência de todos contra todos. Mas, como ela destacou, diversos estudos demonstram que não é assim que a maioria das pessoas se comporta diante de grandes desastres coletivos, ainda que obviamente existam pessoas egoístas e destrutivas (e estas muitas vezes ocupam posições de poder, já que vivemos em sistemas políticos que recompensam esse tipo de personalidade e esses princípios).

Para tratar do crescimento das ações de apoio mútuo diante da pandemia global, Solnit elencou diversos atos e projetos descentralizados de solidariedade e reciprocidade, que, àquela altura, espalhavam-se por todos os lados como resposta à catástrofe viral e política. Se o que se via nos noticiários eram imagens sombrias de grupos anti-vacina em frenesi, oportunistas estocando álcool em gel para revender a preços exorbitantes ou mesmo pessoas armadas exigindo o fim do isolamento social, a escritora defendeu que as ações de apoio mútuo então em voga deveriam ser examinadas com atenção e tomadas como base para a construção de um futuro pós-capitalista. Afinal, por que deveríamos sonhar com o retorno a um mundo que já havia se transformado em um verdadeiro desastre bem antes da pandemia?

>> Para ler o texto na íntegra, clique aqui:

http://suplementopernambuco.com.br/resenhas/2809-kropotkin-e-uma-palavra-entre-pol%C3%ADtica-e-natureza.html?fbclid=IwAR2Yhv5XqRlwUZpMZ0oQz1Lyu0a-Sa8-aawvptF3NeQK68e-gHnijqSVTX8

agência de notícias anarquistas-ana

Brisa ligeira
A sombra da glicínia
estremece

Matsuo Bashô

[Canadá] Toronto: Apologia ao ódio e genocídio não tem vez no campus – um relato do protesto antifascista de 18 de dezembro na Universidade X

Em 18 de dezembro, deu-se uma coalizão de antifascistas/antirracistas, consistindo em organizações de esquerda, sindicatos trabalhistas e membros da comunidade reunidos na Universidade X (a escola originalmente nomeada em homenagem ao genocida Egerton Ryerson, que teve um papel crucial no sistema canadense residencial-escolar). Essa manifestação originalmente pretendia ser um contraprotesto aos assim-chamados “Ryerson Conservatives,” [Conservadores de Ryerson,] que contavam com a participação do notório político babaca Maxime Bernier, bem como outros políticos de extrema direita/apologistas de genocídio e porta-vozes antivacina. Contudo, pouco depois que vários grupos e organizações declararam sua intenção de promover um contraprotesto, o evento foi cancelado. (-Sua razão ‘oficial’ para o cancelamento mudou algumas vezes…-) Apesar do cancelamento, ainda havia a preocupação de que alguns extremistas de direita tentariam ocupar o espaço da Universidade X de qualquer forma; como resposta, a coalizão continuou a ideia do contraprotesto.

Nós nos reunimos cedo em frente ao espaço da Universidade X que os extremistas de direita planejavam utilizar e procedemos com a ocupação por várias horas. No início, praticamente não houve indícios de extremistas de direita por lá; contudo, depois de mais ou menos uma hora, começamos a ver e ouvir sua turba descendo a rua em nossa direção. Haviam muitas bandeiras canadenses visíveis, assim como bandeiras nacionais da Antiga União que os fascistas e supremacistas brancos adotaram. A multidão também tocava música muito alta, o que nos alertou de sua presença. Com todo o barulho e suas bandeiras bloqueando uma boa visão, foi difícil de determinar quantos deles haviam, porém estava claro que eram muitos. À medida que continuaram a avançar com o que parecia ser uma escolta policial, pareceu que a violência que muitos na coalizão tinham antecipado estava prestes a começar. Em resposta, nós nos alinhamos e bloqueamos a rua e sua música foi rapidamente afogada por gritos de algo como “Fascistas não são bem-vindos aqui!”, “A rua é de quem? Ela é nossa!”, ou algo de mesmo efeito.

Ao ver e ouvir a multidão, (posso apenas presumir que essa foi a razão,) os de extrema direita viraram à direita, por outra rua, e foram embora. Alguns de nós assumiram que estavam dando a volta para surgir por trás de nós, mas isso não aconteceu. Não os vi ou ouvi depois disso. Seguindo seu desvio, continuamos a ocupar o espaço para assegurar que não poderiam fazê-lo.

Sua apologia ao ódio e genocídio não têm espaço no campus, nem em qualquer outro lugar!

Fonte: https://north-shore.info/2021/12/21/toronto-hate-and-genocide-apologism-have-no-place-on-campus-an-account-of-the-dec-18th-anti-fascist-rally-at-university-x/

Tradução > Sky

agência de notícias anarquistas-ana

Vento refrescante
que se contorcendo todo
chega até aqui.

Issa

[Canadá] “Secolo Nuovo”: Filme e resenha

Nós temos o prazer de anunciar tardiamente a publicação de Secolo Nuovo; or, The Times of Promise (Século Novo; ou, Os Tempos de Promessa), publicado pela Detritus Books de Olympia, Washington. Esta obra de ficção e história anarquista levou mais de uma década para ser concluída e foi moldada por muitas mãos, incluindo a nossa. Gostaríamos de parabenizar os pesquisadores, arquivistas, historiadores, editores e escribas ingratos que tornaram este livro uma realidade.

Para honrar o conteúdo do livro, incluindo aquele que escapou às páginas, estamos alegres em lançar nosso último filme L’epoca D’oro (A Era de Ouro), uma crônica de rebelião da década de 1880 até a década de 1910. Incluídos no filme estão guerreiros Cree lutando contra o estado canadense, guerreiros Apache lutando contra o estado mexicano e estadunidense, anarquistas lutando contra todos os estados da terra e um inventor excêntrico chamado Nikola Tesla, que está determinado a criar um sistema planetário de energia limpa e gratuita. Todos esses eventos são abordados em Secolo Nuovo, e nosso filme pode ser visto como um companheiro do livro, ampliando seu alcance geográfico e mental.

Também incluído está a resenha de Secolo Nuovo por Marieke Bivar, recentemente publicada no The Fifth Estate, o jornal anarquista de mais longa data dos Estados Unidos.

Como sempre, esperamos que esses trabalhos possam ajudar nas suas atuais lutas, sejam elas quais forem.

Vida Longa a Anarquia!

Valorizando o Conhecimento Secreto de Fulvia Ferrari

“Há pessoas nesse mundo comprometidas em espalhar a rebelião o mais longe possível. Elas aparecem em meio ao desastre e guiam as pessoas para longe dos destroços. Elas carregam uma chama secreta que pode infectar cidades inteiras com seu brilho. Fúlvia carregou essa chama junto com muitas outras, vivas e mortas, e elas passaram a chama sagrada para nós. É possível que Fúlvia nunca tenha tido filhos. Talvez essas crianças sejamos nós.”

The Flames of Fulvia Ferrari (As Chamas de Fulvia Ferrari) por The Cinema Committee

Por Marieke Bivar

O romance Secolo Nuovo é parte ficção especulativa mágica, parte história abrangente do impulso da revolução anarquista.

Conta a história de humanos resistindo ao imperialismo, colonialismo, assimilação, capitalismo e outras forças opressivas, desde tribos indígenas européias lutando contra o Império Romano, até anarquistas franceses resistindo para defender a Comuna de Paris, ou indígenas mexicanos tentando mandar de volta os invasores ianques no que agora é a Califórnia.

Secolo é também um abrangente registro ficcionalizado das brutais lutas trabalhistas de trabalhadores das docas e trabalhadores marítimos que foram forçados a entrar em guerra contra os patrões exploradores de São Francisco e do mundo na virada do século 19 e do racismo anti-chinês no trabalho movimento e além.

A protagonista do romance, Fulvia Ferrari, vem de uma longa linhagem de bruxas alpinas. Então ela aprende com a sua mãe, uma renomada revolucionária e figura respeitada, na então auto-suficiente comuna da Califórnia onde as duas vivem. Fulvia sempre foi selvagem e diferente.

Os outros membros da comuna encaram ela. Ela canta na rua, bebe vinho nua no final da tarde, vive sozinha sem filhos. Mais do que diferente, ela é queer.

Ela tem aliados na comuna, mas é extremamente consciente dos olhos sobre ela, das conversas sobre ela, da influência de seu ex caso na maneira como os outros moradores  a enxergam. Ela se levanta em reuniões e fala um pouco passional demais, grita e insiste, é tempestuosa e difícil.

Seus amigos na comuna a acalmam e a apoiam, celebram a sua sexualidade, bebem com ela, beijam ela, admiram ela.

Depois de aprender sobre seus ancestrais mágicos de Les Diablerets, uma série de picos nos Alpes suíços, Fulvia começa a escrever uma história furiosamente compassada e lotada de uma resistência da “luz” contra a “escuridão”. Ela fica sentada entre os livros roubados da biblioteca dia e noite, rabiscando furiosamente.

A narrativa de seus dias na comuna é interrompida e entremeada por essa história, que se desdobra e se duplica à medida que Secolo avança, uma narrativa autoconsciente que reconhece as múltiplas experiências que podem estar contidas em uma única história.

Esta terra alternativa também apresenta uma camada de realidade conhecida como “o Sonho”, uma força poderosa e fascinante que é mais forte em um território habitado por uma comunidade indígena perto da comuna. Isso parece estar relacionado ao campo eletromagnético que alimenta o mundo, mas o Sonho é canalizado como uma espécie de força profética e confunde aqueles que não conseguem acordar dele. Fulvia e outros são mais habilidosos em navegar no Sonho, e isso faz parte de seu poder herdado, que ela está apenas começando a entender.

Os aspectos realistas mágicos do romance são apenas inferidos no início. Nesta realidade alternativa ou linha do tempo, o inventor Nicola Tesla e os descendentes das bruxas alpinas encontraram uma maneira de canalizar as correntes eletromagnéticas da Terra para alimentar o mundo. O uso desse poder terrestre profundo é pragmático e limitado. Apenas algumas pessoas podem ser “condutoras” e a corrente é irregular, imprevisível e às vezes indisponível por longos períodos de tempo.

Um coletivo de inspiração situacionista e anarquista conhecido como The Cinema Committee fez uma série de vídeos, acompanhados de reportagens, sobre a verdadeira Fulvia Ferrari. “The Strange Pathways of Fulvia Ferrari,” “The Flight if Fulvia Ferrari,” “The Great Anarchist Conspiracy,” “The Illumination of Fulvia Ferrari,” e “The Fires of Fulvia Ferrari,” foram publicados na The Transmetropolitan Review em 2019.

De acordo com a pesquisa do Comitê, a verdadeira Fulvia Ferrari pertencia a uma linhagem de mulheres anarquistas esquivas e míticas que viveram em São Francisco de 1800 a 1980. A primeira dessas mulheres, a avó de Fulvia, Josephine Lemel, mudou-se da França para São Francisco em 1873 e vive em Telegraph Hill, um bastião rebelde.

Isabelle, a mãe de Ferrari, foi uma anarquista feroz e ativa que deixou a filha pequena com companheiros em uma comuna do norte da Califórnia para lutar contra o Império Russo na Ucrânia na década de 1910. Em 1941, enquanto procurava sua mãe, que havia desaparecido em algum lugar da URSS, Fulvia Ferrari foi presa sem passaporte e foi internada por quatro anos em um campo de concentração alemão, aparentemente por falta de identificação.

Após a guerra, Ferrari voltou a São Francisco e procurou seu pai, um anarquista chamado Enrico Travaglio, que foi extremamente ativo nas greves dos estivadores da época e se envolveu na atividade revolucionária anarquista na Bay Area. O Comitê de Cinema detalhou mais de sua vida em seus artigos. O livro ficcionaliza e aborda alguns desses eventos, embora a linha do tempo do romance termine na década de 1950.

A capa de Secolo Nuovo (também o nome de um jornal anarquista que os pais de Ferrari ajudaram a produzir em San Francisco de 1894 a 1906) apresenta a única fotografia conhecida de Isabelle Lemel Ferrari, tirada por seu amigo Jack London. Esta imagem aumenta a ambigüidade deliberada do romance: trata-se de um livro de memórias fictícias de autoria da própria Fulvia Ferrari? Possivelmente.

É mais provável que seja uma homenagem ricamente ilustrada com fotografias e outras representações dos eventos e figuras históricas aos quais faz referência, escritas pelo camarada ou grupo de admiradores por trás dos artigos publicados na revista The Transmetropolitan Review. Embora densa em suas referências, a narrativa histórica do romance é fascinante e informativa e poderia facilmente servir como uma obra de referência mais acessível para anarquistas que têm dificuldades em ler histórias de não ficção.

Seja quem for o autor, o romance investiga profundamente o que você pode chamar de história mágica da resistência anarquista de um povo. Ele personaliza a história anarquista através de um fio de memória familiar e dá ao anarquismo uma história de origem mítica que remonta a 285 dC, entre uma tribo de bruxas aninhada na cordilheira de Diablerets (ou “do diabo”) nos Alpes suíços.

As histórias dos descendentes dessas bruxas alpinas e de seus co-conspiradores núbios egípcios (uma legião romana que desertou para se juntar ao movimento sob a direção de um líder chamado Maurício) são emocionantes e excitantes. Os filhos e netos desse casamento anti-imperialista descem de sua fortaleza nas montanhas e se espalham pelo mundo.

Eles carregam sua mensagem por meio de movimentos e momentos revolucionários, trazendo aqueles que lutam para definir sua revolta nas fileiras dos antigos anarquistas com as palavras ninguém é livre até ser livre, mudando o mundo através das artes, literatura, organização do trabalho, heresia e bombas.

Esta história extensa é “alternativa” na medida em que liga muitas figuras históricas reais aos antepassados bruxos das mulheres Alpinas de Lemel e sua magia da terra. No entanto, é abundantemente claro que outras histórias de autoridade têm o hábito de cooptar e reescrever narrativas rebeldes em favor dos poderes dominantes por tempos imemoriais.

A Igreja Católica realmente fez de Maurício um santo, por exemplo, e mais tarde apagou seus traços africanos das representações de São Maurício, mas a fictícia Fulvia afirma que isso foi feito para parecer que ele morreu um mártir pelo Império Romano e encobriu sua conspiração com os habitantes de Les Diablerets. Embora sua afirmação não seja verificável, a história nos lembra constantemente que não é tão inimaginável. Seria um paralelo não surpreendente de muitas outras histórias rebeldes reescritas e cooptadas, incluindo, como o romance nos lembra, a de Yeshua al Nosri, um contemporâneo rebelde de Maurício mais tarde conhecido como Jesus Cristo.

Ao afirmar ser uma história verdadeira, a linha do tempo do anarquismo em Secolo Nuovo torna todas as outras histórias verdadeiras suspeitas e é um lembrete de que estamos sempre perdendo partes da história que não servem aos poderes. E os únicos que podem contar histórias verdadeiras são os próprios rebeldes. Então, por que não preencher os espaços em branco?

Como diz o Comitê do Cinema, “é difícil saber em que acreditar, mas preferimos as histórias de pessoas irritantes nos cafés locais e mulheres idosas sentadas em pontos de ônibus nas noites quentes” às dos homens brancos mortos por trás das histórias oficiais.

O autor de Secolo Nuovo, “novo século” em italiano, criou ancestrais fictícios para darmos aos anarquistas uma história de origem, uma tribo de bruxas condutor eletromagnética comovente para se relacionar, o conhecimento que os descendentes das bruxas alpinas e festejos núbios são escondidos ao longo de nossas histórias e que seus segredos estão em algum lugar em nossas linhagens, sussurrados em nossos ouvidos, enquanto repetimos nosso encantamento herdado: ninguém é livre até que todos sejam livres.

Marieke Bivar está em Mtl, Tio’tia: ke, QC, Canadá (seja lá o que for isso). A vida é longa, ela está cultivando a paciência enquanto escreve, traduz e tenta acompanhar o ritmo do luto sob o capitalismo, o colonialismo e a Covid-19.

Fonte: https://thetransmetropolitanreview.wordpress.com/2021/10/30/secolo-nuovo-a-film-and-review/

Tradução > A Estrela

agência de notícias anarquistas-ana

Na poça d’água
o gato lambe
a gota de lua.

Yeda Prates Bernis